quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

PALANQUE - USE SEU MEGAFONE (211)


COMO TROMBO COM BRASILEIROS TRABALHANDO AQUI PELA CIDADE DO PORTO
É uma loucura o que tenho encontrado de jovens brasileiros, com pouca formação técnica ou mesmo universitária, se aventurando aqui na Europa. Neste momento escrevo somente pelo Porto, uma das principais cidades portuguesas. Trombo com brasileiros por todos os lados. Muitos são turistas, mas a grande maioria está por aqui trabalhando. Alguns me disseram, Porto é uma ótima porta de entrada para outros países. O que mais me espanta é que, todos os que tenho visto, nenhum até agora possui formação para ocupar cargos ditos como mais qualificados, ou seja, com melhores remunerações. Aqui no hotel onde estou hospedado, con tei são doze funcionários, desde a portaria, buffet, lavanderia e de arrumação dos quartos. Doze num pequeno hotel. E a imensa maioria jovens, de 20 até uns 30 anos.

Primeiro, constato com isso, algo que passou muito pela cabeça quando tinha essa idade. Quem já não pensou quando jovem em bater asase ir se aventurar mundo afora? Eu já e até o Bananinha, o filho do presidiário Jair Bolsonaro já o fez, como hamburgueiro lá pelas bandas norte-americanas. E olha que, no caso dele, a renda familiar, pelo que ssabe nunca deixou a desejar. Por outro lado, a imensa maioria dos que aqui estão o fazem em busca da realização de um sonho, o de amealhar grana e até voltar um dia, mas numa condição bem diferente da que está indo.

Converso com alguns neste meu momento por aqui. Um de Goiânia trablhando na portaria e morando numa cidadezinha próxima do Porto. O custo por aqui é bem diferente de morar perto. O sistema de trens funciona que é uma beleza e a estação centrão de São Bento vive cheia de brasileiros indo e vindo. Este me conta, a maioria faz como ele, mora nas cercanias, onde o custo de vida é bem mais baixo e assim se conseguer guardar alguma grana. A camareira que hoje nos atendeu é de São José do Rio Preto, está aqui perto de quatro anos, arrumou namorado brasileiro e fazem esse transporte diário de trens até onde mora. A estação central fica há 200 metros do hotel. No buffet do café da manhã, outra muito simpática, essa de Campinas, sorridente e sem muito tempo para conversar, diz não ter do que reclamar. "Está difícil, pois Portugal também passa poor uma crise. A cidade e o hotel estão mais vazios que alguns anos atrás, mas continuo acreditando que tudo pode melhorar", me diz.

Uma dessas, família toda do interior do Paraná, disse ter vindo com a cara e a coragem. De sua história, algo me chamou muito a atenção, quando conta, sem complexo de inferioridade, ter comigo pela primeira vez o tal do escargot e também o tradicional, pelo menos por aqui, bacalhau. Disse não ter tido oportunidade de fazê-lo no Brasil e hoje, algo contado com muito orgulho, mesmo trabalhando num serviço considerado subalterno, consegue há três anos, trazer a mãe uma vez por ano para vir visitá-la. Ela conta isso com o peito estufado e diz mais, está se esforçando para trazê-la em definitivo, ainda se encontrando no trabalho de convencimento junto a ela.

O fato é que tenho pouco tempo por aqui, mas não resisto, em cada reencontro com um brasileiro, me aproximo e tento trocar algum diálogo. Em primeiro lugar, de onde é e aí começamos a entabular uma conversa, que em muitos casos se estende bocadinho mais. Ana Bia trouxe na mala uma pacote de "Sonho de Valsa" e por onde passamos, vendo brasileiros, deixa alguns. Era para ser distribuído na viagem toda, mas pela quantidade de brasileiros encontrados, talve não cheguem na terceira cidade. Aqui mesmo no hotel quando entregou alguns para um brasileiro, ouviu algo deste a recompensando: "Puxa, faz mais de três anos que não como um destes. Aqui até tem lugares onde você encontra, mas são caros. Outro dia numa loja de produtos brasileiros, um cafezinho ao nosso estilo estava por seis euros. Não dá, né!".

E assim sigo, hoje meu terceiro dia e as histórias se repetem e se complementam. As junto com gosto, ouço com prazer e assim, além de visitar lugares, rever outros, vou trombando com brasileiros e buscando uma aproximação calorosa, enfim, todos partem para longe em busca de algo, a realização de um sonho ou até mesmo se aventurar, algo bem próprio da idade. O jovem é impetuoso e ciente de que, se fizer algo neste seu momento, a chance de dar certo será muito mais alta do que na meia idade. E assim, eles estão pela aí, sendo, fazendo e acontecendo.

SONDANDO ALGO DAS ELEIÇÕES EM PORTUGAL NA TABACARIA NICOLETO, NO PORTO
Percorro as cidades por onde ando na busca de um jornal local. Aqui no Porto, ainda existem alguns e junto deles, os da capital e cidades vizinhas. O que é difícil de encontrar são as bancas. Estou hospedado aqui no Porto numa região central, a Praça da Batalha e nas andanças destes três dias, não havia visto nenhuma. Hoje, final da tarde, saio para bater perna depois de um dia de intensa chuva. Parou de chover, convido o Leo Lima, deixamos as mulheres no hotel e vamos comprar vinho e sardinha num supermercado aqui perto. Prolongamos o percurso e nisso, num momento em que a chuva recomeça, encontro uma banca, como a antiga do seu Orlando de Bauru, instalada numa pequena loja. Nos refugiamos da chuva e fico a observar a quantidade ainda de jornais expostos sobre o balcão.

Meu interesse por jornais é descobrei dentre estes qual o jornal da Esquerda portuguesa. Faço a pergunta para o senhor que me atende: "Sou brasileiro e gostaria de comprar um jornal local. Poderia me indicar qual o do segmento da Esquerda?". Ele se espanta com a minha pergunta, mas não regateia e passa a falar de todos eles. Diz um ser da diteita, outros tantos de cunho conservadores e me indica a leitura do diário JN - Jornal de Notícias, vendido ao preço de 1,60 euros. Na verdade queria saber as novidades do segundo turno das eleições presidenciais portuguesas e ao saber o meu interesse, o casal, Seu Alberto e sua esposa, Maria da Conceição, junto do filho Carlos, este com 50 anos, começam a descer a lenha em alguns políticos, dentre os que conheço e os cito, como o ex-primeiro ministro Sócrates. 

Daí, foi um pulo para perguntar a ele, sobre o interesse que as pessoas estão perdendo pela leitura do diário de papel. "Hoje deve estar bem complicado explicar para as futuras gerações o que foi a ditadura salazarista, o atraso existente em Portugal, revertido com a Revolução dos Cravos, pois o jovem que não vivenciou isso, pode achar que está mentindo a ele". Ele olha para mim mais sério e me diz: "Salazar não foi tão ruim como dizem. Saiba que, ele fez muito pela Educação e os últimos aeroportos construídos no país foram em sua época". Percebi estar diante de salazaristas, ou seja, conservadores. Prossegui com a conversa naturalmente e na sequência, tento agir como se nada estivessse acontecendo e pergunto sobre uma político português que gosto muito, Mário Soares. Seu Alberto diz ser "avacalhado", no que o filho Alberto interfere e diz, que este fez algo de bom para Portugal.

Não teve como esconder, daí seu Alberto abre o jogo e diz que todos em sua casa são de "direita", ou seja, votarão no candidato os representando, o líder do Chega, André Ventura. "Nósestamos cansados de promessas. Não gostamos da Esquerda e pronto. É hora de mudar". Percebo que não teria como ficar argumentando contra, enfim, na qualidade de brasileiro, queria só comprar um jornal e me inteirar da real probabilidade dessa "direita" raivosa e reacionária vencer as eleições. Foi uma conversa amigável, onde na sequência seu Alberto traz para me mostrar fotos suas na defesa da então colônia de Moçambique. Ou seja, ele lutou nas tropas de Salazar na África, daí nunca mais deixou de querer bem o então ditador. Mudando o rumo da prosa me diz que, uma década atrás vendia 60 exemplares do maior jornal português, aos domingos, o Expresso e hoje, não consegue vender 10.

A chuva passa e assim nos despedimos. Não havia muito mais o que conversar por ali. Com o jornal debaixo do braço, depois fico sabendo que o JN não é de esquerda e sim, um liberal que simplesmente não mente e trabalha dentro da verdade factual dos fatos. Com a conversa percebo que, muitos dos idosos do país estão a preferir apoiar aqueles que, chegando ao poder, os apunhalam, pois exterminam com as leis de garantias trabalhistas, privatizando tudo o que encontram pela frente. Adeptos do Estado Mínimo, chegam e os primeiros a perderem com eles no poder são sempre os menos favorecidos, ou seja, gente como essa família que, com sangue, suor e lágrimas toca seu pequeno negócio, aberto no mesmo local, prédio próprio, há mais de 40 anos e fazendo o Chega conquistar o Governo, quando terão mais uma decepção em suas vidas. Talvez a maior de todas.

NÃO DESLIGUE A TV, VAMOS TODOS PRAS RUAS...
Faça o melhor usso possível da TV, mantendo-a ligada para sua informação - e divertimento, é claro -, mas não permita que ela o domine. Neste momento, o melhor que temos a fazer, até para nosso futuro é sair pras ruas e juntarmos aos que lutam contra essa imbecilidade toda sendo armada e proposta. Se bobearmos e deixarmos a coisa ir sendo levada adiante, como se não fosse conosco, com certeza, estaremos num mato e sem cachorro num curto espaço de tempo.

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