domingo, 24 de agosto de 2025

CHARGE ESCOLHIDA A DEDO (222)


deixa eu lhes contar essa história
ELA É UM TANTO TRISTE E ENVOLVE UM AMIGO QUE SE FOI TRÊS DIAS ATRÁS
Sidnei Fimenes é um ano mais velho que eu, 66 anos e trabalhou a vida inteira detrás de um volante. Sua especialidade não era dirigir caminhões e sim, veículos de passeio. Por décadas atuao em Bauru como motorista de táxi, sendo seu último ponto, antes da derrocada destes na cidade - e no mundo -, no defronte o Aeroclube, lá no que antes, chamávamos de Altos da Cidade. Sidnei atuou por bom tempo sem ser dono de seu próprio carro, naquele cruel sistema, onde um proprietário sublocava mais de 10 veículos e estes atuavam, com renda dividida. Certa vez me procurou para ver como podia modificar isso tudo, sei que chegou a falar na época com o então vereador Coronel Meira, mas nada prosperou e logo a seguir, quem se deu mal foram os tais proprietários de pontos, pois com a chegada do UBER, todos tiveram que se virar nos trinta.

Sidnei já o havia feito, quando foi deixando pouco a pouco de ser taxista na acepção da palavra e trabalhando como Motorista de Aluguel. Conseguiu com o passar dos anos uma carteira de fiéis clientes e estes o chamavam para tudo, fazer compras, viagens, ir e buscar pessoas. Desta forma, ele não mais teve parada e circulou como doido por tudo quanto é canto. Conheceu São Paulo como poucos, sendo sua especialidade, levar e buscar clientes nos aeroportos. Assim também viajou para todos os estados da região Sudeste e Sul do país.

O conhecia antes dessa fase, quando fomos casados com duas irmãs. ou seja, ele foi meu cunhado. Já era estradeiro, sempre envolvido em trabalho onde estava atrás de um volante. Isso tocou sua vida. Eu me separei, fiquei viúvo e Sidnei continuou sua saga pelas estradas brasileiras. Vez ou outra nos encontrávamos e suas histórias, sempre muito saborosas, encontravam em mim, bom ouvinte. Sua vida daria um filme ou livro. Tem para todos os gostos. 

Uma pena não ter levado adiante este projeto, pois ele se foi três dias atrás. Em algumas viagens ele levou/buscou a mim e Ana Bia e a mim nos aeroportos de Congonhas e Guarulhos. Sempre na pinta, sabia tudo destes locais, os terminais e quando lhe passávamos os horários de partida e chegada, sempre atento, lá estava, já com carro seu. Foram vários.

Sua derradeira história tinha que ter um destes locais como desenlace. Coisa de um dois anos atrás, adoeceu na estrada e teve que paralisar as atividades. Se tratou e ficou em casa, porém, se remoendo com isso, pois sonhava com estrada. Melhorou e é claro, voltou a trabalhar. Arrumou outro carro e recomeçou o que sempre fez uma vida inteira. Desta feita, turistas daqui da cidade estavam voltando do Maranhão e ele em Congonhas, chegando para trazê-los de volta. Não deu tempo.

Teve um mal súbito dentro do terminal aeroviário, bateu com o carro levemente em outros, inclusive dois de policiais, a cabeça tombou sobre o volante e ali faleceu, pondo fim a uma vida inteira no exercício de ser motorista.
Sidnei já deveria ter padado, mas não conseguiu. A renda advinda deste trabalho sempre foi importante para o giro da família e, além de tudo, quem disse que ele conseguia permanecer calmo e resoluto dentro de quatro paredes.

Foi até o fim, mesmo ciente de que, as coisas não andavam muito bem pro seu lado. Trabalhar já com certa idade, muitos não querem parar e afirmam que se o fizer, morreriam. Outros, continuam por necessidade, este o lado mais cruel da vida humana. O fato é que, a família quando comunicada do fato se deslocou rapidamente para Sampa, enfrentaram toda a brurocracia nos IMLs da vida para trazer o corpo e no aeroporto para trazer o carro. O enterro foi ontem, revi toda a família de minha primeira esposa, Wilma Cunha, gente que não via há muito tempo. Triste isso de conversações só ocorrem desta forma, após tragédias. 

Queria contar algo dele, uma pessoa que sempre que me encontrava, tinha histórias para me contar. Soube de muitas, nunca me contando o nome dos seus protagonistas, todas merecedoras de estar inscritas para sempre em minhas memórias, na qualidade de recolhedor de histórias de vida. Eu ali no velório, conversando com tanta gente conhecida, por quem já vivenciei bons momentos em minha vida, passa um longo filme em minha cabeça. A história do Sidnei, com este desfecho, me faz viajar pelas lembranças. Hoje, passo pela manhã ali defronte o ponto de táxi diante do Areoclube, só a cobertura onde os motoristas permaneciam ainda no lugar e é como se o visse ali, correndo para atender o telefone, deixar as conversas de lado e botar o carro na estrada. Outros ocupam os lugares antes ocupado por ele e, desta forma, a vida segue.

MUITO TRISTE, PERDEMOS O "JAGUAR" - Não escrevo nada, mas Gilberto Maringoni conseguiu resumir tudo em alguns poucos parágrafos. Tá tudo dito aqui nessas linhas. O SIG do Pasquim se foi hoje, aos 93 anos. Resistiu bem, o danado. HPA

O MAIOR DESENHISTA QUE NÃO SABIA DESENHAR DO MUNDO
Perdemos Jaguar. Perdemos Sérgio Magalhães Gomes Jaguaribe, um daqueles gênios que aparecem muito de vez em quando na vida cultural. Jaguar foi o cartunista - juntamente com Ziraldo - que mais profundamente captou a alma brasileira nas artes gráficas. Elevou a bobagem à categoria de grande arte, levou ao ridículo generais e altos burgueses no golpe de 1964, destroçou mentiras da grande mídia e retratou os prejudicados pela nossa desigualdade como nenhum outro.

Nada escapava do artista que desenhava certo por linhas para lá de tortas. Um dia alguém escreverá uma tese sobre "o universo jaguariano", que incluirá o mundo de pobreza e violência dos subúrbios, os comezinhos detalhes do cotidianto, como impagáveis aposentados de chinelos de dedos e meias, peladas com bola de capotão, padres de rala piedade, bobes em profusão nos cabelos de madames e minudências afins. Nada escapava a um traço desconjuntado e detalhista de um artista de olho apuradíssimo que nunca estudou desenho.

Suas ilustrações para todos os livros de Stanislaw Ponte Preta mostraram ao mundo as verdadeiras caras de Rosamundo, Primo Altamirando e Tia Zulmira. Foi tão agudo que cada vez mais acho que Stanislaw só escrevia depois de Jaguar criar graficamente a ambientação de cada crônica. Raras vezes a simbiose entre escrita e traço foi tão sublime.
E havia o Jaguar da porradaria pura. A melhor definição de Arnaldo Jabor, dono de fúria incurável contra a esquerda é sua: "Ele é um rebelde a favor". Alugou um fardão da Academia Brasileira de Letras e muniu-se de uma caixa de ovos para recepcionar o entreguista-mor Roberto Campos (Bob Fields) em 1999, em sua posse como imortal. Desencontraram-se na porta da entidade, para infelicidade de nosso herói.

Jaguar foi um dos criadores do Pasquim (1969), integrando uma trupe composta por gigantes como Ziraldo, Millôr, Tarso de Castro, Claudius, Ivan Lessa e Henfil. Deu à luz a Sig (Sigmund Freud), ratinho verde com patas de elefante, elevado a mascote infernal do semanário que capitaneou por 22 anos, até o naufrágio, em 1991.

Realizei uma longa entrevista com Jaguar para a revista Atenção!, em 1997. Na verdade, tentei. Fui à sua casa, em Copacabana, no meio da manhã e acompanhei (mal) um footing etílico pelo bairro até o cair da noite. Saí trançando pernas e com dificuldades para reunir cacos de gravações feitos ao longo do dia. Parei na quinta ou sexta dose de não me lembro mais o quê, enquanto o mais ilustre dos Jaguaribe reinava impávido, com seu motor a alcool.
Jaguar nunca se filiou a partido algum, era um carioca (nascido em Santos) de rara cordialidade, que virava um vulcão diante de bobagens e injustiças. Foi brizolista a vida toda. Seguia a linha de que vida intelectual se funde com inconformismo sempre. Uma vez, Millôr o definiu como a rara combinação de "gênio e idiota". Quase saiu briga: "Chamar de idiota, tudo bem, mas de gênio, jamais! Detesto ironia".

Foi-se aos 93. Ou aos 23, como gostava de proclamar. Nascido em 29 de fevereiro do bissexto 1932, garantia só comemorar aniversário a cada 4 anos. Estava mais do que certo.
Adeus meu camarada. Sua falta abre um déficit incomensurável na vida brasileira.

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