sexta-feira, 5 de outubro de 2007

UMA MÚSICA (4)



Fidelidade Partidária

Nesses tempos de decisões no STF, sobre o fidelidade partidária, se quem detém o mandato é o partido ou o político, me veio à mente o samba de Nei Lopes e Wilson Moreira, chamado Fidelidade Partidária, do CD "De letra & música", de 2000. Nesse CD, Nei convidou a fina flor de nossa MPB para lhe fazer companhia, uma verdadeira seleção brasileira de bambas. Quem o acompanha na conatoria é nada menos que Joyce. Esse CD eu tenho lá no meu mafuá e hoje, ao sair de casa, fiz questão de rodar o belo samba na vitrolinha:


Minha tia avó Rosária
Partideira centenária
Perguntou pra mim:
Meu neto,
O que é fidelidade partidária?
Pergunta assim tão sumária
Tem que ter a necessária resposta,
Eu respondo certo
O que é fidelidade partidária

Pôr verde e amarelo na indumentária
É fidelidade partidária
Feijão com arroz na sua culinária
É fidelidade partidária
Ajudar quem tem situação precária
É fidelidade partidária
Não fazer acordo com a parte contrária
É fidelidade partidária
Nem demagogia com a classe operária
É fidelidade partidária
Olhar mulher feia e ficar com urticária
É fidelidade partidária
Gritar que tem gringo pintando na área
É fidelidade partidária
Gostar de partido igual Tia Rosária
Isso é fidelidade partidária

Rejeitar propina na conta bancária
É fidelidade partidária
Não ter filial nem subsidiária
É fidelidade partidária
Amar a patroa mais que a secretária
É fidelidade partidária
Só fazer amor na sua faixa etária
É fidelidade partidária
Mas dar uma força pras celibatárias
É fidelidade partidária
Que tenham bons dentes na arcada dentária
É fidelidade partidária
Gostar de partido igual Tia Rosária
Isso é fidelidade partidária

*Nei Lopes continua mais antenado do que nunca e escreve tudo o que queremos ler no www.neilopes.blogger.com.br

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

UMA ALFINETADA (4)
Dessa vez, um texto publicado lá n'O ALFINETE, no começo de julho 2007, sobre meu modesto comparecimento aos bares da cidade de Bauru. Confiram no que deu:

PALADAR DEMOCRÁTICO - PELAS MESAS DE BAURU


Esse escriba ganha pouco, mesmo assim investe boa parte dos seus parcos rendimentos mensais em algo inebriante: curtir a vida da melhor maneira possível. Saio sempre que posso e o saldo bancário ainda não atingiu o limite permitido pelo banco que me atura. Dentre as boas coisas da vida, uma mesa farta, e sem preconceitos. Tenho meu serviço, minha ação social, meus momentos de contemplação, minhas coisas bem pessoais, as horas de lazer e de contentamento. Fiz essa lista/roteiro de comes e bebes e se não inclui os medalhões da cidade, é porque lá não costumo botar os pés:

Pra começar bem o dia: Adoro os pães da Padaria NSa Aparecida, perto do Cemitério da Saudade, onde o padeiro é dos mais criativos. A Copacabana também possui ótimos pães. Padaria de pão ruim eu vou só uma vez e não volto nunca mais.

Pra reunir a família: Levo meu filho repetidas vezes ao Bacana's, no Bela Vista, pois adoramos comida japonesa e lá o preço é dos mais convidativos. Chegando depois das 20h enfrentam-se fila todos os dias.

Boa descoberta: A feijoada de sábado do Bar Bartolomeu, na Nsa de Fátima é a pedida, ainda mais porque rola o samba na palma da mão do Quintal do Brás. Mulher bonita (pra quem gosta) é o que não falta.

Pra falar de trabalho: O Templo, do arquiteto que virou suco, Fernando, com música ao vivo e uns filés de arrasar quarteirão é o máximo. Prefiro durante os primeiros dias da semana, quando o papo rola mais solto.

Cenário de romance: Vou para não desagradar a mana, que adora os dois, o Vitória e o Made in Brazil, um ao lado do outro, nas Nações. Dançar faz parte do cenário e marido sem esposa é mato, azaração total.

Pra comer com os olhos: O Beef Srett, do Alameda é nesse estilo. Vou às quintas quando trazem músicos de fora e não cobram couvert. Se paga só o consumido. A comida é boa e o som sempre é dos melhores.

Pra bater papo com os amigos: O Bar do Português se sobressai. Fica a 100 metros do JC e enche todos os dias. Adoro tomar um chopp em pé no balcão, olhando para todos os lados, até escolher onde irei sentar.

Prazer em gotas: Redescobri há pouco tempo o General Bar, do Wagnão. Quem cozinha é a esposa e o astral do botequim é inebriante. Quinta tem um grupo de chorinho, deixando todos de boca aberta.

Sabor brasileiro: Adoro a carne seca e os pasteizinhos do Bar do Amadeu's, lá nos Altos da Cidade. A estupidamente gelada eu tomo no Japa Lá Lá, com todos meus affairs. O lanche eu curto o do Papa Tutti. Pastel de verdade só na feira dominical da rua Gustavo, assim como o frango defumado do Moisés.

Apressado come bem: O Fratelli, do Jeff tem uma casa das mais certinhas na Getúlio, com massas e vinhos de primeira. O atendimento vip da Churrascaria Gaúcha (o lombo é indescritível), na esquina da Praça Rui Barbosa faz a diferença.

Prato inesquecível: Esse leva o nome da cidade. Como o sanduíche Bauru lá do Skinão, onde o Marquinhos sempre pergunta como queremos o rosbife. Levei lá o jornalista Mino Carta quando ele veio a Bauru e tantos outros que passaram por aqui.

Prato preferido: Deixei esse para o final, pois é o que mais freqüento, pagando pouco, sem direito a reclamação. Gostinho de coisa boa. Sacaram, né? É a casa dos meus pais, pois não fico sem o tempero da mama.



Henrique Perazzi de Aquino, 47 anos e avisando para todos os interessados em conferir pessoalmente o roteiro: não adianta pedir para marcar nada na minha conta, pois não possuo crédito em nenhum deles (muito menos na casa dos pais).
PS: a ilustração (legítimo Gilete Press) é do grande Miguel Paiva e saiu publicada no JB, na revista Programa de 01/12/1995.

quarta-feira, 3 de outubro de 2007

MEMÓRIA ORAL (4)

Essa acaba de sair do forno e sai aqui publicada quase que de forma simultânea. Soninha passou por Bauru no último domingo e fui conferir, além de sentir os primeiros efeitos da mudança partidária. Sintam o clima:


SONINHA DAQUI, AGORA ALI
Tudo começou com uma pequena nota publicada na Coluna "Camila", no caderno Viva do Bom Dia, aqui de Bauru. Há pelo menos um mês atrás lá estava a dica: Soninha, a profissional super-ativa, vereadora pelo PT paulistano, com programa de esportes na ESPN e coluna esportiva na Folha SP, estaria em Bauru no dia 30/09, para participar de um júri num festival de rock. A dica estava dada e a partir daí os contatos foram iniciados. Tudo ficou praticamente acertado, Soninha poderia participar de um evento com o FNDC - Fórum Nacional Democratização das Comunicações - Seção Bauru, das 11 às 12h30, pois às 15h teria que estar no tal júri.

Sonia Francine, ou só Soninha, como é chamada por todos, tem 40 anos e uma meteórica trajetória por onde passou. Não sei se seu grande momento, mas o de maior projeção foi o que culminou com a defesa da descriminalização da maconha, assumindo ser consumidora. Por causa disso foi capa de revista sensacionalista, sendo demitida da TV Cultura, mas não da ESPN, graças a João Trajano, que segurou a barra, mantendo-a nas funções de jornalista esportiva. A partir daí, Soninha não mais saiu de cena. E nela continua até hoje. O último lance da vinda ocorre dois dias antes, num ato inesperado, pelo menos para a grande legião de seus admiradores e eleitores. Ela sai do PT e adentra o PPS, exatamente o lado oposto, campo de ação do governador Serra, PSDB, opositor ao PT. A justificativa é que no PT não existiria espaço para se candidatar a prefeita de São Paulo.

Com o FNDC/Bauru tudo certo, porém o assessor Ronaldo Paixão quer se certificar de que nada havia se alterado. Liga e diz ter ocorrido uma intercorrência. Ouve como resposta que tudo bem, mas do lado de cá, o clima foi em primeiro lugar de espanto, depois, certa incredulidade. O local escolhido para o bate-papo é o Instituto Acesso Popular, capitaneado pelo militante petista Jorge Moura. Confirmo com ele, que diz saber do seu posicionamento pessoal, mas como a casa é apartidária, não vê empecilhos. Outros membros do FNDC foram consultados, Sandra Espósito, do CRT e Alcimir do Carmo, do Sindicato dos Jornalistas. Em ambos, a surpresa, mas o apoio na realização do evento. E assim foi feito, com release para imprensa e nova expectativa para o embate dominical.
Domingo, 10h, Jorge já preparou tudo, caprichou no visual do Instituto. Marcos Resende foi um dos primeiros a chegar, com sua inseparável camiseta vermelha com a foice e o martelo. Fala da decepção, pois foi cabo eleitoral da Soninha, que até esperava outro partido, mas nenhum no campo oposto. Traz o livro dela sobre Budismo para o devido autógrafo e vem preparado para os questionamentos, que fervilham sua mente. Tudo pronto, quase 11h, quem sobe as escadas é o memorialista Luciano Dias Pires com um baita envelopão debaixo dos braços. Café pronto, a discussão gira em torno das lutas atuais, frustrações, embates futuros e de objetivos comuns.

Muito pontual, Soninha é deixada às portas do Instituto pelo pessoal do evento da tarde, com quem irá almoçar. Vem só, ela e sua amarfanha mochila, velha de guerra. Serão uma hora e meia de um relacionamento, que é empático logo de cara. Ela é a simpatia em pessoa. Mal se achega e é envolvida pelas histórias do memorialista Luciano, que espalha pela mesa cópias de velhas reportagens futebolísticas de Bauru, gesticula e fala emocionado, contando histórias, entregando a ela um calhamaço de papéis, como recordação do encontro. Quando umas 20 pessoas estão acomodadas, Sandra Espósito faz a abertura, falando do FNDC, passando a bola para Soninha, pedindo inicialmente um breve histórico de sua vida e o engate com os temas propostos, a democratização dos meios de comunicação. E o rosário foi sendo habilmente desfiado. Ela fala, fala sem parar e as interrupções são mínimas, pois já aprendeu a conduzir esse negócio de platéias. Tem um jeitinho só seu de fazer isso tudo.

Rememora o pontapé inicial na MTV, há 15 anos, quando "queríamos fazer algo diferente, éramos umas 20 pessoas, todas querendo falar ao mesmo tempo". Foi quando começou a vivenciar uma ideologia dentro de um programa de TV, procurando as brechas e conseguindo avanços. Dá um salto para a Copa de 2002, quando a TV Globo obtém 90% de audiência, "só que com monopólio absoluto, um absurdo, que denunciei, fui advertida de que a Record queria bancar e passar a perna na Globo. Tive que sair com essa: Eu não acho certo nenhum tipo de monopólio". Ela entende que a briga se dá mais entre as empresas, existindo certa camaradagem entre os profissionais, só que os da TV Globo acabam se comportando igualzinho ao patrão: "As pessoas assimilam para si coisas que não são delas. Isso acontece também na política, quando até existem os mesmos pontos de vista, mas diante da disputa pelo espaço, um acaba querendo comer o outro".

Vendo que o tempo urge, faço a pergunta que não quer calar: "Com essa trajetória toda, você acha que vai dar para continuar com esse mesmo discurso dentro do PPS?". A resposta começa a ser dada com uma frase de efeito: "As pessoas não podem abrir mão do seu pensamento, estejam onde estiverem. Fiz exatamente o que acredito, a vida toda, cheguei lá e não vou mudar uma vírgula no PPS. Não me curvei até agora e sentindo que lá será diferente, cairei fora". Relembra a saída da TV Cultura quando "achava que não me convidariam para mais nada, pois foi exatamente o contrário, com a Record, Band e Globo me assediando. Preferi continuar ao lado do Trajano, que sempre me apoiou". Discorre sobre os problemas enfrentados dentro da Câmara de Vereadores: "O pior de lá é que não existem batalhas, nem disputas. É tudo acordo, cada um cede um pouco, para ter uma pequena vitória. Ou existe acordo ou não tem nada". Chegou lá acreditando que de cada 10 propostas, perderia 9, mas emplacaria uma e isso em si já seria uma grande vitória: "Nada lá é aprovado por unanimidade, tudo é acordo. O direito de votar contra é tão difícil".

A saída do PT continua no ar e embutida nas perguntas seguintes, feitas pela jornalista Daiana Dalfito, do Jornal da Cidade, por Duílio Duka, do Movimento Negro e por Ricardo Barreira, do Umbanda Fest, culminando com essa: "Como avançar dentro da ideologia pregada pelo PPS, base aliada do Serra?". Ela aproveita a deixa para discorrer sobre a batalha institucional diária e a guerrilha que todos fazem para conseguir seus objetivos. E que tudo acaba caindo no ódio, que a mídia nativa possui pelo PT, e consequentemente por Lula, o anti-petismo declarado e exacerbado diariamente. Termina o bloco com uma declaração de força: "Não vamos travar batalhas nas quais a gente mesmo não acredite".

Tudo bem, é assim mesmo que devem ser as coisas. E ela continua polêmica, como sempre: "Sou favorável à retirada dos crucifixos e das frases religiosas da Câmara, afinal, somos laicos ou não?". Quando tudo está nos finalmentes, ainda dá tempo para mais algumas reflexões rápidas e joga a pá de cal no que é efetivamente o jogo político brasileiro: "É quando a política vira futebol e o meu time tem que vencer o seu, custe o que custar". Fala encerrada, começa a sessão abraços e o primeiro é o assessor parlamentar do PPS, Arnaldo Ribeiro, que veio lhe dar às boas vindas e num canto me diz: "Queria responder eu tua pergunta, afirmando que ela fará mais hoje, pois o PPS é diferente do PT". O fato é que o tempo passou rápido demais e muita coisa ficou sem resposta. Os questionamentos foram todos feitos e na despedida, deu tempo para meu último toque a ela: "Acabou por sair sem traumas, sem nenhuma escoriação. Achei que teria mais probelmas.". Talvez nem ela própria ainda entenda direito a dimensão da saída, dessa tentativa de ser prefeita paulistana, só compreendendo melhor quando a poeira baixar, defrontando-se com os primeiros choques de interesse. Só aí as primeiras respostas serão efetivamente dadas. Só o tempo dirá se ela tem razão, se conseguirá seu intento com a mesma altivez de pensamento e ação até então utilizadas, sempre de cabeça erguida. Previsão é mero chute, mas já existiram filmes com o mesmo roteiro e com finais bem conhecidos. Que Soninha continue sendo essa Soninha, que já tinha ouvido falar muito e que conheci hoje. O discurso continua o mesmo...

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

UMA DICA (3)

OS MUITOS MOTIVOS DE UMA ESCOLHA: CARTA CAPITAL
Eu leio quase tudo o que me cai nas mãos. Não consigo ficar sem uma revista na pasta e em cima da mesa de trabalho, que devoro até nos sinais fechados. Já tive, durante minha vida, algumas escolhidas como favoritas e delas dificilmente me separei. Colecionei O Pasquim, Coojornal, Folhetim, Repórter e os tenho até hoje, ocupando um espaço numa estante no meu mafuá particular. Outras eu fui colecionando, juntando e se desfazendo. São tantos e tantos os títulos, que isso tornaria esse texto longo demais. Enfadonho.

Hoje, compro quase todo mês a Caros Amigos. A revista Imprensa, tenho desde o primeiro número, mas de uns dois anos para cá, perdi a regularidade. Por amar cinema, até a SET já ocupou espaço por aqui. Veja, Afinal e Isto É já formaram montanhas em minhas casas. Desfiz-me delas. Outras duas estão bem guardadinhas, coleção completa, Bundas e Pasquim 21. Li e tenho todos os números da Piauí, mas ela só me serve para constatar a que ponto chega o mais novo braço da direita brasileira. Piauí está do lado exatamente oposto ao meu, do que acredito. Descobri há pouco a Brasileiros, revista mensal de reportagens, onde o dileto considerado Ricardo Kotscho bate cartão e esse mês a Diplo, que está no segundo número.
Mas quem faz mesmo a minha cabeça é a semanal Carta Capital, da melhor cabeça pensante do jornalismo nativo, Mino Carta. Descobri a revista, passando a colecioná-la em agosto de 2001, exatamente quando passa a circular semanalmente. A revista fez a minha cabeça desde o primeiro instante. Parecia estar sendo escrita para mim, tal a afinidade entre o que penso e o que encontro escrito. Como se separar de algo assim? É praticamente impossível. Carta Capital é a minha cara e quem quiser me conhecer melhor, minha linha de pensamento e ação, basta ler suas páginas e entenderão do que falo. Como tenho afinidade, não resisto e vou enviando cartas, cutucando, fazendo sugestões e eles foram publicando.

Em 17/08/2002, Mino abre o seu editorial semanal com o título “O preço e o prazer da independência”, onde reproduz uma carta minha em página inteira. Ele havia me entendido e a revista idem. Num outro momento estava mal das pernas, duro como nunca, sentindo que a grana gasta semanalmente na compra da revista me faria falta. Enviei carta expondo meu padecer. Qual não foi minha surpresa ao começar receber a revista gratuitamente por seis meses. Já com a situação normalizada, assinei por certo período. Não renovei, pois não suportava receber a revista na segunda ou terça, quando ela sai nas bancas aos sábados. Isso me torturava. O passo seguinte foi mover céus e terras para trazer Mino até Bauru, o que foi feito na abertura do OLA - Observatório Latino-Americano, no Teatro Municipal, em 2005. Mino veio, lotou, desancou as estruturas (“falta sangue nas calçadas da nossa história”) e comeu o sanduíche Bauru.

Em março desse ano, quando fui até Buenos Aires com o Marcão ver o “Fuera Bush”, patrocinado por Chávez, justamente quando Bush estaria ao lado, em Montevidéu, escrevi para Mino e ele deu a dica: “Escreva sobre isso tudo”. Saiu uma “Bolivariana” em 21/03, que emoldurei, estando lá exposta no mafuá. Continuando com as cartas, surge a oportunidade de uma “Brasiliana”, publicada em agosto sobre a certificação do sanduíche Bauru. Minha intromissão continua, pois sou aquela espécie de leitor interativo, que lê e faz questão de opinar.

Isso tudo acontece porque não existe traição na relação revista/leitor. Mino não cansa de apregoar sua resistência, com frases do tipo: “Carta Capital sabe que a dimensão e as potencialidades do País transcendem as mazelas do poder contingente, a incompetência e a ferocidade de sua elite, a hipocrisia dos nossos falsos capitalistas e a resignação dos miseráveis”. A fiscalização do poder, onde quer se manifeste, a bem da prática correta do jornalismo e da verdade factual dos fatos é o que busco e encontro em suas páginas. Para uns bobocas, que insistem em continuar afirmando ser a revista lulista, deles tenho dó, pois ou não entendem o que estão lendo, ou estão afirmando algo sem ler a revista ou são mesmo mal intencionados. A revista faz a crítica quando necessário e com a contundência e dureza que a questão exige, mas não é golpista, alarmista e muito menos tendenciosa e falsa. Sou macaco de auditório de Carta Capital. Ela me é indispensável no dia-a-dia e para o Brasil, tanto que com seus 70.000 exemplares semanais ganha quase todas as premiações respeitáveis no quesito “melhor revista brasileira”. Eu me orgulho muito de ler a melhor revista semanal brasileira e faço questão de divulgar isso para todos. Experimentem e depois me contem.
UMA MÚSICA (3)
Essa daqui fez a minha cabeça logo que a ouvi pela primeira vez. Foi instantâneo o impacto avassalador. Canto até hoje pelos corredores da vida e me emociono com a bela interpretação do Vitor Ramil. Tenho esse velho disco, ainda no formato dos bolachões, lá na estante do meu mafuá, desde os idos de 1987 e dele não me separo. Confira toda a obra desse bardo do sul no www.vitorramil.com.br

LOUCOS DE CARA

Kleiton Ramil / Vitor Ramil



Vem anda comigo
pelo planeta vamos sumir!
Vem nada nos prende
ombro no ombro
vamos sumir!



Não importa que Deus jogue pesadas moedas do céu
vire sacolas de lixo pelo caminho
Se na praça em Moscou Lênin caminha e procura por ti
sob o luar do oriente fica na tua
Não importam vitórias grandes derrotas, bilhões de fuzis
aço e perfume dos mísseis nos teus sapatos
Os chineses e os negros lotam navios e decoram canções
fumam haxixe na esquina fica na tua

Vem anda comigo pelo planeta vamos sumir!
Vem nada nos prende ombro no ombro vamos sumir!
Não importa que Lennon arme no inferno a polícia civil
mostre as orelhas de burro aos peruanos
Garibaldi delira puxa no campo um provável navio
grita no mar farroupilhafica na tua
Não importa que os vikings queimem as fábricas do cone sul
virem barris de bebidas no Rio da Prata
M´boitatá nos esperana encruzilhada da noite
sem luz com sua fome encantadafica na tua



Poetas loucos de cara
Soldados loucos de cara
Malditos loucos de cara
Ah, vamos sumir!
Parceiros loucos de cara
Ciganos loucos de cara
Inquietos loucos de cara
Ah, vamos sumir!



Vem anda comigo pelo planeta vamos sumir!
Vem nada nos prende ombro no ombro vamos sumir!
Se um dia qualquer tudo pulsar num imenso vazio
coisas saindo do nada indo pro nadas e mais nada existir
mesmo o que sempre chamamos REAL e isso pra ti for tão claro
que nem percebasse um dia qualquer ter lucidez for o mesmo que andar
e não notares que andas o tempo inteiro
É sinal que valeu!
Pega carona no carro que vem se ele é azul, não importa fica na tua

Videntes loucos de cara
Descrentes loucos de cara
Pirados loucos de cara
Ah, vamos sumir!
Latinos, deuses, gênios, santos, podres, ateus, imundos e limpos
Moleques loucos de cara
Ah, vamos sumir!
Gigantes, tolos, monges, monstros, sábios, bardos, anjos rudes, cheios do saco
Fantasmas loucos de cara
Ah, vamos sumir!
Vem anda comigopelo planeta vamos sumir!
Vem nada nos prende ombro no ombro vamos sumir!

sexta-feira, 28 de setembro de 2007

UMA ALFINETADA (3)


Antecipo aqui o que sairá amanhã lá n'O ALFINETE, de Pirajuí.

WAL MART, A EMPRESA QUE ODEIA OS SINDICATOS

Dia desses retornei com amigos ao templo do consumismo, o Wal Mart, que possui loja aqui em Bauru. Fui contrariado e explico os motivos de não gostar do tão "conceituado mega-híper-ícone, representante do desenfreado neoliberalismo globalizado". Não pensem que não gosto de mercados novos, modernos. Aliás, adoro, conforto é comigo mesmo. Só não gosto de freqüentar aqueles que desrespeitam as mais elementares leis trabalhistas, tratando seus funcionários sob o regime do medo. Como ainda tenho livre arbítrio para gastar o que ganho onde melhor me aprouver, decido ir lá só em último caso.

A empresa de supermercados Wal Mart foi denunciada nos EUA pela organização de direitos humanos Human Rights, pela sua política corporativa de não permitir que seus funcionários sejam sindicalizados. Nos EUA, eles são o principal empregador privado do país, com 1.900.000 empregados. É uma potência mundial em todos os sentidos, sendo o principal deles a insensibilidade. Cada loja, dentre as tantas espalhadas pelo planeta, empregam muitas pessoas, em sua maioria jovens, com modalidade de contratação diversa: contratados diretamente, terceirizados e através de agências.

A investigação da Human Rights constatou que nenhum dos trabalhadores do Wal Mart é sindicalizado. No Brasil, são quase 300 lojas e nenhum sindicalizado. Essa é a regra geral e a desobediência tem como resultado a não contratação ou demissão imediata. Não se trata de algo fortuito. Os gerentes recebem instruções explícitas sobre como evitar a formação de sindicalizados. Tudo nas lojas é monitorado e qualquer movimentação suspeita é alvo de vigilância. Eles fazem qualquer coisa para se manterem livres de sindicatos e funcionários mais conscientes, daquele tipo que sabe reivindicar e cobrar os seus direitos.

A situação é similar, lá nos EUA, aqui no Brasil, na Argentina, no México e em qualquer outro canto. O Wal Mart, como tantas outras empresas desse globalizado mundo, vive os efeitos de um verdadeiro terrorismo de Estado e a debilidade dos trabalhadores. Os salários são baixos, condições precárias, trabalhadores jovens sem experiência e sem conhecimento de atividades sindicais ou políticas de qualquer tipo. Verdadeiros escravos do mundo moderno, sempre de bocas fechadas.

A forma adotada é um verdadeiro desterro das autoridades e das leis locais. O trabalhador modelo da rede é aquele totalmente despojado de uma percepção do mundo como campo de forças, capaz de entregar-se de corpo e alma, de forma reiterada à metáfora empresarial da "grande família". O passado do futuro contratado é investigado, suas formas de pensar e conceber as relações, sua opinião sobre a empresa. Em caso de qualquer dúvida, descarta-se a contratação, afinal, a mão de obra é abundante.

É utilizada uma tal de política de "portas abertas", onde os funcionários tendo algum tipo de problema não podem se dirigir diretamente a seu superior imediato, tendo de fazê-lo a gerência de Recursos Humanos. Experimente perguntar a qualquer funcionário se há delegados sindicais por lá. A resposta é que não precisam, pois a empresa adota a política de portas abertas. É claro que para que isso prospere é necessário ter a cumplicidade entre o sindicato e a empresa. A lei é a do medo.

Por todos os lugares onde existe uma loja do Wal Mart, essa é a informação que corre de boca em boca: por lá ninguém é sindicalizado. Isso é um grande retrocesso. O funcionário não possui nenhuma proteção, não tendo a quem recorrer. Acaba por se submeter, sempre calado, passivo. É a necessidade do emprego. Tente falar sobre isso com alguém por lá e verá a reação de receio. Discutir esse tema em qualquer cidade onde funcione uma loja Wal Mart é coisa para louco, pois afinal, eles dão empregos e em grandes quantidades. Ninguém mais quer discutir a que custo isso é feito. Por essas e outras é que continuo gastando o meu rico dinheirinho no mercadinho do seu Zé Mane ali na esquina.

Henrique Perazzi de Aquino, 47 anos e cada vez mais confuso com o mundo high-tech, pois acabo de teclar minha senha bancária no microondas. Tenho salvação?

Em tempo: a foto saiu publicada no jornal argentino Página 12, numa de suas edições de março 2007.

UMA FRASE (2)

ACHTUNG

“Quando você conhecer uma pessoa e sentir súbita e extrema admiração, não aja intempestivamente. Colha informações de amigos que bebam melhor do que você, espere mais cento e trinta e cinco dias, acrescente sua idade, faça um negócio importante com a dita pessoa e só então dê queixa no distrito policial mais próximo”.

Millôr Fernandes, em 1981 (hoje, aos 83 anos, permanece como um dos mais finos pensadores brasileiros, mesmo escrevendo semanalmente na mais indefectível revista semanal brasileira, a Veja).

Só mais uma dele para adocicar essa sexta-feira que promete:

"Sou um crente porque creio na descrença".