quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

RETRATOS DE BAURU (2)


CIDMAR, O PANTANEGRO

Esse senhor é um grande batalhador. Conheço sua luta diária desde que resolveu fixar residência aqui em Bauru, depois de circular e fazer fama em todos os Mato Grossos. Foi de uto um pouco na vida, mas o que mais gosta de fazer e tocar sua viola e compor suas músicas. É daquelas raras pessoas que, se você der um tema para ele, em questão de uma hora ou pouco mais está diante de uma letra e música. Se emociona com coisas simples e de tudo tira o tema para compor suas canções. Quando Tim Lopes morreu, fez algo para ele; quando o radialista Valter Neto se foi, o homenageou com algo muito belo; fez o mesmo com Airton Sena. Cantou o Pantanal de todas as formas e dia desses foi cantar para as crianças no Museu Ferroviário. Não me sai da memória o CD que fez em homenagem e para que o projeto Formiguinha, lá da Pousada da Esperança levantasse fundos para o serviço assistencial que prestam. Faz isso sempre e não recebe quase nada em troca. Canta e encanta por onde passa. Da última vez, estava no palco do Teatro Municipal no Umbanda Fest, cantando músicas sobre o sincretismo religioso. Uma pessoa boníssima, que espera, como todos nós, uma espécie de reconhecimento, pois ningupe, vive de brisa. Cidmar é reconhecido por onde passa e merece muito mais do que lhe é dado. Embarque nesse trem junto com Cidmar, um cancioneiro de verdade.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

UMA DICA (10)

DIA DO SAMBA NO BUTECO DO EDU


Ontem, dia 02/12 foi um dia, daqueles que acordei radiante. Achava que podia ser o dia VERMELHO, pois tinha eleição no PT e meu grande amigo Jorginho estava concorrendo ao Diretório Municipal de Bauru, PERDEU. Na parte da tarde, ainda tinha alguma chance de que meu Corínthias não caísse para a Segunda Divisão, CAIU e nem o vermelho Internacional fez a sua parte. Por fim, Chávez, que tinha como vitória mais do certa no referendo, me faz perder definitivamente o sono, pois também foi DERROTADO.

Depois de tudo isso, pelo menos algo para livrar a cara desse domingo de mau agouro: Foi o Dia do Samba, algo genuinamente nacional, tombado como patrimônio imaterial. Sou vidrado em samba e nada como colocar algum na vitrolinha para tentar esfriar a cabeça depois de três traulitadas seguidas. É o que faço e para marcar a data com uma boa diaca para todos, dou uma bela dica para todos os que gostam e frequentam samba carioca e buteco (com u mesmo). Conheci meses atrás um blog de um carioca muito gente fina, o Eduardo Goldenberg, o Buteco do Edu (http://www.butecodoedu.blogspot.com/), onde o que rola por lá é samba de primeira, fotos de muita roda de samba e uma conversa das mais agradéveis. Além de tudo, o cara é amigo de um grande amigo meu lá no Rio, o Rodrigo, dono da Livraria Folha Seca, lá na rua do Ouvidro nº 37, no centro velho, num lugar onde o que rola adoidado é samba de primeira, aliado a livros com temática da cidade maravilhosa e futebol, a especialidade da casa. Quem gosta de samba adentre esse buteco e depois me diga o que achou.
Olhem só a qualidade das três fotos aqui publicadas, retiradas de lá, num samba que rolou na ilha de Paquetá, contando até com a ilustríssima Cristina Buarque de Hollanda. Para esquecer certas agruras da vida, nada como navegar nesses espaços inteligentes e ouvir um bom samba.

sábado, 1 de dezembro de 2007

UMA MÚSICA (10)

Chico sempre frequentou esse mafuá, desde os tempos em que, ainda preservava certa organização. Um amigo, lá pelos meus 18 anos, disso não me esqueço, me vendo com uma fita cassete do Chico, fez questão de ressaltar que gostava dele, mas não de sua voz, que ele não cantava nada. Pois, sempre gostei dele, tanto como letrista, como cantando. Prefiro ainda mais como pessoa humana e sensível, do lado certo das coisas nesse nosso cruel mundo. Que música colocar dele aqui se todas eu ouço e gosto. Escolhi uma do último CD, o "Carioca", que por aqui, até as paredes já decoraram as letras, de tanto que as repito. Vejam se fiz uma boa escolha:

"ODE AOS RATOS", de Edu Lobo/Chico Buarque - 2001
Para o musical Cambaio, de Adriana e João Falcão

Rato de rua /Irrequieta criatura /Tribo em frenética proliferação /Lúbrico, libidinoso transeunte /Boca de estômago /Atrás do seu quinhão /Vão aos magotes /A dar com um pau /Levando o terror /Do parking ao living /Do shopping center ao léu /Do cano de esgoto /Pro topo do arranha-céu /Rato de rua /Aborígene do lodo /Fuça gelada /Couraça de sabão /Quase risonho /Profanador de tumba /Sobrevivente /À chacina e à lei do cão /Saqueador da metrópole /Tenaz roedor /De toda esperança /Estuporador da ilusão /Ó meu semelhante /Filho de Deus, meu irmão
FRASES DE UM LIVRO QUE LI (5)

"DIÁRIO SELVAGEM" - CARLINHOS OLIVEIRA - edit. Civilização Brasileira RJ, 2005


Carlinhos Oliveira é um jornalista que aprendi a gostar pelas páginas do Jornal do Brasil, ainda nos anos 70/80, quando comprava o jornal na banca da antiga estação rodoviária/ferroviária de Bauru. Só lá encontrava o JB e esse colunista frequentava mais famosa página cultural dentre os jornalões. Seu estilo ácido e contundente, sempre muito bem antenado e cheio de problemas mil, me fazia colecionar seus textos. Em 2005 foram relançados uns três livros dele, todos organizados pelo Jason Tércio. Comprei um só, o Diário Selvagem, onde ele destilou e abriu seu baú de preciosidades. Viajei maravilhosamente pelas páginas do livrão (um catatau de 520 páginas) e dentre as preciosidades algo que muito nos interessa. Logo no começo do diário, ele adoentado vem passar uns dias numa fazenda em Lençóis Paulista, isso em 1971. Aproveitou e veio passar uns dias aqui em Bauru e o que achou dessa cidade e do seu povo é algo que merece ser lido. Carlinhos não perdoa o que vê:
"No Bauru Atlético Clube vi a sociedade local - velhos, adolescentes, e crianças dos dois sexos, todos tremendamente feios e desgraciosos. Só se salvam as japonesinhas. Aqui a única referência é dinheiro e nome de família; para alcançar a beleza esse povo deveria apresentar melhores condições físicas e espirituais. As crianças miseráveis estão em toda parte. Prostituição e mendicância. Os ricos me parecem roídos de remorsos, mas são todos por demais egoístas e mesquinhos. Uma sociedade porcina."

Abaixo mais frases, todas bem so seu estilo:


“Deus é caçador, pratica a caça-ao-pombo. Os pombos somos nós, artistas, quando atingimos a maturidade e, antes de iniciar nossa revoada, somos abatidos em pleno vôo” (18 de março de 1976)


“Inclino-me a escrever logo a história do seqüestro do embaixador. Merda! Neste diário só digo o que vou fazer, enquanto isso não faço nada. Fernando Sabino dá entrevista despedindo-se da literatura. Ainda bem. Sem angústia, isso é mau. A hipocrisia mineira me fascina” (29 de novembro de 1976)


“Difícil nesta altura recuperar minha personalidade silenciosa: já me cristalizaram brincalhão, palhaço, e por causa disso ando a perder mulheres. Merda. Sou dois ou três? Ou ninguém? Ah!” (30 de novembro de 1976)


“Um punhal pode passar gerações inteiras servindo para cortar páginas dos livros, numa atividade inofensiva e solitária. Só quando a mão de um assassino o empunha é que o punhal se torna sanguinário” (06 de janeiro de 1978)


“Saúde péssima. A doença bloqueia a imaginação” (26 de fevereiro de 1986)


Prometo publicar aqui, qualquer dia desses, um compêndio, com umas 50 frases retiradas deste e de outros livros dele. Agoras, o que vaticinou de Bauru é algo que, só quem é de fora mesmo tem a coragem e a ousadia de fazê-lo. Mauro Rasi fez isso com muita competência e por isso era odiado por muitos.

quinta-feira, 29 de novembro de 2007

UM COMENTÁRIO QUALQUER (4)

A QUEDA DO IMPÉRIO NORTE-AMERICANO: É POSSÍVEL?

Meu amigo Antonio Carlos Pavanato, que trabalhou comigo nos áureos tempos da Bradescor, cuja amizade me é fraterna até hoje, dia desses me fez umas indagações pelo e-mail. Acabei não respondendo, pois queria fazer nesse espaço. Aliás, acho que nem seria necessário responder, pois ele mesmo nos dá todas as respostas. Leiam o que ele me postou:

Henrique, tenho visto quase que diariamente seu "MAFUÁ", e confesso, sem falsa modéstia, é muito interessante a diversidade de assuntos aportados no seu blog.
Gostaria de lhe perguntar algo que venho ouvindo há tempos, e acho que de tanto escutar, acabo acreditando que isso esta se tornando uma grande verdade:
- ESTÁ NO FIM O IMPERIALISMO AMERICANO ?
De fato, também acho que eles estão assustados com o mundo em sua volta.
E é para ficar mesmo!
Vejam os países, digamos emergentes, os chamados Tigres Asiáticos, Índia, alguns aqui da AL, e muitos outros, que de uma forma ou de outra, cresceram e já não comem no mesmo prato. Entendeu?
Eu acho que, os americanos, nunca imaginaram, em tempo algum, que sua moeda - o dólar, pudesse estar tão em baixa, como esta nos dias atuais.
A indústria americana, se perdeu e hoje "morre de medo" de produtos vindos de fora e que empurram ainda mais o país na crise industrial.
Lembre-se que a única indústria que ainda "respira" por lá, é a bélica.
A automotiva, foi pro espaço já faz é tempo. Veja o que os veículos asiáticos, fizeram por lá.
Me fale alguma coisa à respeito, pois sei que você tem uma idéia muito bem "lapidada" sobre este assunto.
Um abraço e aguardo seu "recado".
Já estava me esquecendo, o Chavez, pediu que a moeda fixada como padrão na comercialização do petróleo seja alterada.
Viu como os americanos, estão cada vez mais com medo do mundo à sua volta!
Valeu
Tchau
AC Pavanato

A resposta que tenho a dar é na mesma linha do que ele me indagou. Fui buscar a resposta mais exata na edição de capa da minha revista preferida, a Carta Capital, nº 466, de 17/10/2007, que saiu com a ilustração aí de cima e a chamada "Império com pés de barro - Estudos recentes reafirmam o processo de decadência econômica e política dos EUA. O sociólogo Immanuel Wallerstein projeta para a próxima década o fim da hegemonia americana".

Folheando a revista, o que sublinhei foi o seguinte:

"Os EUA estão à beira de umasituação insustentável. Como principais desafios estão o forte desequilíbrio fiscal, a deterioração da saúde pública, o nível educacional em declínio, a sofrível condição do meio ambiente, a guerra desastrada com o Iraque e a política errática de imigração. (...) ...a perda do dinamismo da economia americana como um dos sinais de que o império vive, se não os últimos dias, um inequívoco ocaso. (...) O fiasco dos EUA no Iraque foi apenas uma amostra de que até mesmo o poder de polícia do mundo foi desmoralizado. (...) Três forças empurraram o país para a tual crise. Primeiro, houve uma acirrada concorrência econômica entre o Japão e a Europa, que afetou a produção americana. Em segundo, completou-se o ciclo da descolonização do Terceiro Mundo com a consequente rejeição ao status quo imposto pela ordem americano-soviético. Por fim, proliferaram organizações civis de reação ao liberalismo e ao American Way of Life."

Wallerstein continua: "...o império americano está em declínio há 35 anos e será substituído por blocos hegemônicos, como o europeu, o asiático e, a depender dos entendimentos regionais, o sul americano. (...) ...todo processo de mudança implica turbulência e será difícil para os americanos aceitarem a idéia de que não terão mais a liderança global. (...) A coisa mais desastrosa que Bush fez foi invadir o Iraque. Porque demonstrou ao mundo inteiro as limitações do poder militar americano. O fato é que os EUA não conseguem vencer uma guerra contra um país pequeno, fraco, com pouco equipamento militar. (...) Os EUA não conseguem mais meter medo na Coréia do Norte, nem no Irã, nem em ninguém. (...) ...nenhum país isoladamente vai dominar o mundo. (...) ...em dez anos a Europa terá uma relevância maior. (...) Considero que estamos ingressando em um período turbulento, nos próximos 20 a 30 anos. E haverá conflitos sociais sérios nos EUA, por causa do declínio do poderio americano, do padrão de vida da população, o que acirrará o conflito entre as classes sociais. Não haverá gentilezas no futuro."

A matéria é extensa e faz outras análises. A revista pode cer acessada nas suas edições anteriores. Viaje por lá e constate mais (www.cartacapital.com.br)

UM COMENTÁRIO QUALQUER (3)
Saiu publicado na edição de hoje do Jornal da Cidade, aqui de Bauru um carta minha encaminhada há duas semanas atrás, quando o time do G (êta nome comprido, meu!) conquistou o 3º lugar do Torneio de Futebol Feminino da LBFA. Expressei ali, tudo o que elas passaram (continuam passando) e a grande vitória de terem chegado aonde chegaram. Foi o máximo. A carta publicada lá, também está aqui:


Campeãs é isso aqui

O grande vitorioso do 1º Torneio de Futebol Feminino, promovido pela LBFA – Liga Bauruense de Futebol Amador - não foi o time de Marília, nem o da FIB/Mandalitti, aqui de Bauru. Esses dois, pelo visual apresentado e visto das arquibancadas, possuiam uma boa estrutura, com equipe de retaguarda, massagistas, preparadores físicos, material esportivo em abundância, facilidade de transporte e patrocínios variados. Tinham tudo para vencer.

No jogo preliminar estava o grande vitorioso do Torneio, o time do Gallathazaray (as gatas que azaram a bola, segundo elas mesmos se definem), que reunidas devido à abnegação de Rose Maria Martins, do Jardim Mendonça, superando um monte de adversidades e obstáculos (meio que intransponíveis), montou um time de fibra e mesmo com tudo conspirando contra, para dar errado, deram muito certo e foram as grandes vitoriosas do evento. A Lei de Murphy não vinga sempre.

Quem conhece só um pouquinho dos bastidores desse valoroso elenco, como foi formado e mantido, sabe o quanto foi importante chegar aonde chegaram. Vencer o jogo daquele domingo por 5x2 foi mais do que um 3º Lugar, foi a glória. Se tivessem sido um pouco mais valorizadas e incentivadas, surpreenderiam ainda mais. É de gestos e atitudes como a de Rose e das gatas em questão que se constrói a verdadeira cidadania. Ser campeã é o que todas elas foram, demonstrando o que é possível quando se busca um objetivo em comum, mesmo quando tudo conspira contra. Por essas e outras, temos que ter sempre em mente que, um novo mundo é mais do que possível e a prova cabal disso foi a maratona de resistência a que todas foram submetidas. Que outro time tiveram meninas indo embora após o jogo a pé ou de circular?

Que o grupo não se disperse e elas consigam atingir seus objetivos mais facilmente com o currículo agora conquistado. Elas merecem e provaram ser muito mais do que o “patinho feio” das quatro finalistas. Parabéns é pouco para homenagear e reverenciar o que elas conquistaram nesse último domingo.

Henrique Perazzi de Aquino - torcedor do Gallathazaray

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

MEMÓRIA ORAL (13)

ELES JÁ LERAM MAIS DE CEM LIVROS NESSE ANO

"Incentivar a leitura num mundo cada vez mais distante dela", esse é o propósito principal do 3º Prêmio Leitor do Ano, desenvolvido pela Secretaria Municipal de Cultura de Bauru, através da sua Divisão de Bibliotecas e pela Livraria Jalovi, que patrocina tudo. O objetivo é dos mais nobres e pelo terceiro ano consecutivo, além de incentivar o hábito da leitura, premia os usuários de todas as bibliotecas municipais que mais se utilizaram de seus serviços. "Premiamos os que mais emprestaram livros durante o ano, os nossos mais assíduos frequentadores e os que fizeram as devoluções em dia. Para incentivar a leitura em todas as faixas etárias, distribuimos a premiação dentro de três faixas etárias, premiando crianças, jovens e adultos", conta Elizete Maria Barro, diretora da Divisão de Bibliotecas.
Quando foi lançada em 2005, comemorava-se o Ano Ibero-Americano da Leitura, surgindo a idéia da premiação, em algo para aglutinar e destacar pessoas que, tivessem o hábito da leitura bem evidenciado em suas vidas. Estava criado o Prêmio Leitor do Ano e para sua viabilização, logo que contatada, a Jalovi, a mais tradicional livraria da cidade, topou ser a doadora aos premiados anuais e mais que isso, ofereceu a livraria para ser o palco do evento. O inesperado foi o crescimento de cada evento e uma participação revigorada a cada edição. Nesse, o salão central da Jalovi, no centro da cidade, parecia pequeno para abrigar as quase 200 pessoas que, na manhã de sábado, 24/11 lotaram todo o espaço.

Os grupos foram se formando com pelo menos uma hora de antecedência. Como o espaço é amplo; leitores, curiosos e convidados foram se aglomerando junto às prateleiras e balcões. Num evento como esse, raramente o homenageado comparece sózinho, fazendo questão de trazer junto algum familiar e pessoas próximas. Quem se destaca entre os presentes é o presidente da ABL – Academia Bauruense de Letras, Munir Zalaf (que acabara de ser reeleito pela 4ª vez ao cargo) e Joaquim Simões Filho, escritor e Secretário Geral da ABL. Ambos se espantam com a grande movimentação, pois acabavam de tomar conhecimento de uma pesquisa, apontando que o brasileiro lê em média 1,2 livros por ano. "Precisamos e devemos frequentar mais nossas escolas, incentivando a leitura desde a infância. Isso faz parte de nosso projeto, que também irá visitar os escolares das outras faixas etárias", diz o presidente Zalaf.

O evento começa pouco depois das 11h, com apresentação da Elizete e tendo o pontapé inicial com um coral infantil da escola Liceu Noroeste que, canta e encanta a todos. No refrão da primeira canção, a palavra "amigos" era repetida várias vezes, sendo escolhida a dedo, pois o grande lema da leitura é a de que o livro acabe se tornando uma eterna amizade, um relacionamento duradouro. Estava comprovada a tese de que a junção de crianças e livros é sempre muito saborosa. Nada mais propício para o momento. Munir Zalaf é o único convidado a se pronunciar e o faz de forma emocionada, lembrando algo que o poeta e escritor Mario Quintana havia profetizado lá atrás: "O alfabetizado que sabe ler e não lê é um analfabeto". Ainda mais profético diz que "a leitura é um benefício de ontem, de hoje e para toda a eternidade".

São chamados para receber os livros, os trinta premiados, distribuídos entre a Biblioteca Central e seis ramais, das vilas Tecnológica, Progresso, Mary Dota, Geisel, Falcão e distrito de Tibiriçá. Os títulos são dez com temática adulta, seis juvenis e quatorze infantis. Todos são chamados nominalmente e convidados para uma alegre sessão de fotos no meio do salão. Dentre todos os premiados, dois se destacam. "Essa aqui é nossa freguesa habitual. Toda semana está aqui", diz o gerente da loja Nilo Sérgio Alves Júnior, direcionado para Cibele Ana Aparecida Rossetti, 46 anos, solteira, oficial de justiça e que faz da leitura e da coleção de peças com temática de gatos, o seu passatempo. Veio acompanhada do pai, aposentado da ferrovia, grande incentivador nos dois hobbies. "Ela gosta de ler e eu estou nessa. Ajudo ela a comprar tudo, pois sei que isso a faz bem", salienta o pai, seu Vero.


Cibele não consegue mais ficar longe de um livro um dia sequer, tendo vários sendo lidos ao mesmo tempo. Diz que, em sua casa, é livro de um lado e rádio de outro, alternadamente, ou tudo ao mesmo tempo. A paixão pelos livros é tão intensa que, a cada quinze dias pega três livros na Biblioteca Central e a cada semana, mais três na da vila Falcão. Fazendo as contas, com um mês de quatro semanas, são 18 livros ao mês. Uma recordista, considerando o pouco tempo, pois além do trabalho, cuida do pai adoentado: "Encontro um tempo pela manhã, outro no final da tarde e à noite. Nos finais de semana leio muito. TV eu quase não assisto, muito pouco. Certa feita gostei tanto de Fernão Capelo Gaivota que, o copiei inteiro num caderno. Só depois fui comprar o livro. Há uns 15 anos atrás contei e já tinha lido uns 500 livros, hoje parei de contar, mas acho que já passei dos mil".


Ela é dessas que lê tudo o que lhe cai nas mãos: "Pego um autor e se gosto dele, leio tudo o que escreveu. O hábito da leitura peguei do meu pai. Minha mãe lia bem menos. Não tenho preferência por autor e gênero e acho isso muito bom, pois diversifico bastante". Se a deixam discorrer livremente sobre o assunto, não para mais, pois a leitura é uma espécie de fio condutor de sua vida. Em casa diz possuir duas estantes cheia deles no quarto e o pai mais duas no dele. Quando lhe pergunto se costuma emprestar os seus, responde rapidamente: "Não gosto muito. É que o pessoal não gosta muito de ler e os que emprestei, tive problemas com a devolução. Tive que cobrar várias vezes". Aproveita a estada na Jalovi e como gosta muito de biografias, reserva para o próximo pagamento a feita por Nélson Motta sobre a vida de Tim Maia, que custa R$ 49 reais. Quando já me havia afastado, fez questão de voltar a me procurar só para dizer, também adorar os ilustradores, fazendo até pesquisa sobre eles.

Outro devorador de livros, Jorge Frederico Simões da Silva, 39 anos, casado, pouco antes de receber o seu presente falava algo que, deixou muitos presentes com os olhos arregalados: "Eu já li mais de cem esse ano". Ele se diz numa situação privilegiada no momento e com ela alavancou aquilo que tanto gosta e não tinha tempo para fazer: "Tive uns problemas cardíacos e fui obrigado a me afastar de minhas atividades profissionais. Em casa o dia todo, passei a me ocupar com a leitura, tirando o atraso. Estou mais feliz do que nunca". Ele mora no Geisel, um bairro popular da cidade e se diz entristecido com os jovens de lá e pelo desinteresse atual deles pelos livros: "Peguei esse hábito de forma diferente e já não muito novo. Tinha uma banca de revistas e vendo aquilo tudo ali do meu lado, fui pegando gosto pela coisa. Das revistas passei aos livros e hoje não consigo mais ficar sem. Fico triste em ver a meninada daqui nas ruas e poucos frequentando as bibliotecas". Diz possuir um outro hábito, o de ir grifando as frases e copiando num caderno, para ir revendo quando tiver dificuldade de lembrar algo já lido. O poeta Joaquim Simões, quando convidado ao evento, encantado com a quantidade de livros que alguns já haviam lido no ano, trouxe três exemplares do seu último livro publicado, o Liberdade Absoluta", fazendo questão de entregar pessoalmente aos agraciados, com umas palavrinhas de incentivo feitas ao pé da orelha. As conversas se sucedem de forma bastante animada e um dos mais ocupados com o movimento todo era o gerente Nilo que, faz qualquer negócio para ir vendendo o fruto do negócio a lhe ditar e conduzir sua vida. A livraria não permite o parcelamento do cartão com valores inferiores a R$ 30 reais mês, mas diante da inquerência desse que vos escreve, já com o escolhido nas mãos, tendo um preço de R$ 52,90, responde de bate pronto: "Não seja por isso. Negócio feito, o livro é seu". Eu, que havia ido assistir o evento, sigo os agraciados da manhã e saio de lá com o que havia me motivado a ir até lá, ou seja, um livro. No meu caso, o "Diário Selvagem – O Brasil na mira de um escritor atrevido e inconformado", do jornalista Carlinhos Oliveira, da editora Civilização Brasileira, um catatau de quase 500 páginas. Ainda deu tempo de comentar na última rodinha a ser desfeita no local que, havia colocado em prática um pensamento de Erasmo de Roterdã: "Quando tenho algum dinheiro, compro livros. Se ainda sobrar algum, compro roupas e comida".
Legenda das fotos:
Elizete no cerimonial do evento.
O salão da Jalovi lotado no momento da premiação.
Os premiados recebendo seus livros.
Cibele recebendo seu livro das mãos de uma bibliotecaria
O poeta Joaquim Simões, leitor Jorge Silva e escritor Munir Zalaf
Elizete e Nilo nos finalmentes do evento


Henrique Perazzi de Aquino, escrito em 25/11/2007.