terça-feira, 15 de abril de 2008

FRASES DE UM LIVRO LIDO (11)
ZERO - IGNÁCIO LOYOLA BRANDÃO
Está chegando o dia. Amanhã, quarta, 16/04, ele estará de volta, primeiro nos presenteando com uma palestra dentro da programação da 8ª Feira doLivro Infantil. Será na parte da manhã e é daquelas meio que imperdíveis. Mesmo tendo limitado o número de participantes, quem gosta da escrita desse araraquarense ilustre, sempre acaba dando um jeitinho de estar presente num evento como esse. Eu, que tenho muitos livros dele por aqui e o leio semanalmente na crônica no Estadão, toda sexta, estarei por lá e farei de tudo para conseguir levá-lo até a Estação da NOB (“a mais bela do interior paulista”, segundo ele). Um dos primeiros livros que li dele foi o famoso“ZERO”. Fui procurar em antigas anotações dentro desse desorganizado mafuá e encontrei algo anotado quando terminei a leitura. Estava lá, num amarelado caderno de anotações, 20/08/1979 (tinha 19 anos), um resumo, que transcrevo aqui da forma como foi escrito:
“Por que o nome Zero? O zero é um beco sem saída, mas pode ser também a solução. Zero é o início do fim, é o ciclo da vida, ao mesmo tempo que é a menção de tudo. O livro foi escrito logo após a Revolução (sic) de 64 e para quem o leu, fica fácil compreender porque foi liberado somente agora (1979) pela Censura. O autor cutuca a ferida do Governo brasileiro, mexe abertamente nos podres e isso após 64 ainda não é muito possível. A história nos dá a impressão de uma reportagem nua, corajosa até demais.Tudo se passa numa grande megalópolis (São Paulo), num país da América Latina (Brasil), subdesenvolvido, com mil e tantos problemas: repressão de um regime autoritário, impondo ao seu povo a roupa para vestir e o que comer no jantar, a previdência social, a burocracia, o esquadrão punitivo, as favelas e o desrespeito aos Direitos Humanos. Ele faz o retrato por inteiro de uma cidade, de um caldeirão fervente de raças, de um país, de um continente. Melhor que isso: de um tempo desvairado.

José e Rosa, os dois personagens principais do romance, passam o tempo todo correndo atrás de algo, sem conseguirem chegar a lugar algum. Queriam, na verdade, só continuar vivendo, ou lutando para sobreviver. Nos afogamos num maremoto de situações, indo das misérias da vida urbana até a agoniante burocracia que sufoca os “latíndios”. Vibrante, envolvente do começo ao fim, não deixando que o leitor fique tranquilo até saber o final da trama. José é caçador de ratos num cinema periférico, sem muita sorte na vida, manco e morando numa livraria abandonada, junto com Átila. Lê muito. Conhece Rosa por intermédio de uma agência matrimonial, iniciam um namoro. Ela sempre foi contra o serviço de José, no Boqueirão, um recanto onde tudo que é anormal é exibido como atrativo para a população. Ele é o selecionador de atrativos do local. O local é fechado por ordem governamental, pois acharam que o povo estava se divertindo demais. Desempregado e desorientado, de arma na mão, José resolve se divertir matando gente. Muitas sem motivo aparente, pelo simples prazer de ver a cara do sujeito antes de apertar o gatilho, outros matou para roubar. Tornou-se um sujeito esquizofrênicoe perigoso. Chega a matar alguns membros do Esquadrão Punitivo (a polícia repressiva), lhe causando vários tipos de perseguições. Paralelo a isso, uma luta desenfreada ocorre entre o Governo e os “comuns” (opositores), com o aumento da repressão. Campanhas incitavam o povo latíndio a denunciar os comuns que conhecessem.

Nisso, José deixa um homem dormir em sua casa. Trata-se de Gê, líder dos Comuns. Surge uma admiração, percebendo-se sózinho e dessa forma nada conseguiria. Juntos promovem assaltos. Comentários diziam que o filho de Gê (o menimo que possuia música na barriga) está passando por perigo na favela de Vila Branca. Não o encontram, mas são convidados para conhecer a “Família”. Sem saber que família vão convivendo com toda a miséria de uma favela e seus moradores: o crioulo inglês, as tias da zona, o cavalo (pensava ser um e agia como tal) e outros tipos. O Esquadrão Punitivo começa a eliminar todas as crianças de lá para chegar no filho de Gê. A “Família” foge sem que José e Rosa a conheçam ou fiquem sabendo de algo a respeito deles. Rosa é perseguida por um bando de crioulos, aprisionada e transformada em oferenda aos deuses de uma seita. Passa por vários testes e a colocam no fundo de um poço. José, dedurado, é preso e torturado e estranhamente o deixam escapar. Rosa é obrigada a tomar poções, deixando-a fora de si, numa preparação para o “Ebó do Capeta”, quando é morta e esfacelada. José reencontra Gê e retoma a luta. O povo latíndio sendo massacrado e o governo desmentindo a imprensa internacional (a nacional calada pela censura) das acusações de tortura. José é descoberto e nunca mais ninguém teve notícia de seu paradeiro. Os comuns restantes agem cada vez mais quietos. Esse é o panorama da América Latíndia. Deus Salve a América Latíndia!”

Foi o meu relato ao ler o livro e muito bom rever isso nesse momento, quando muita coisa mudou em nosso país, mesmo assim, passadas duas décadas do fim da Ditadura Militar, é sempre muito triste ver pessoas defendendo aquilo tudo, como um tempo de paz e tranquilidade. Só mesmo tendo memória muito curta para fazer isso, ou interesses inconfessáveis. Zero foi um alerta e eu captei a mensagem.

domingo, 13 de abril de 2008

UMA ALFINETADA (25)
O OSSO DE GALINHA SENDO VENDIDO POR DE DINOSSAURO

Quando me perguntam sobre o que mais gosto de escrever por aqui, sou claro: prefiro algo sobre minha cidade, Bauru ou mesmo fatos da região. Estamos muito mais próximos dos fatos do nosso dia-a-dia, porém, existem momentos em que não podemos (nem devemos)nos furtar a comentar fatos nacionais e até os internacionais. Tenho comigo, que para isso existem os grandes órgãos da imprensa e que algo local deveria ser utilizado para os fatos daqui. Porém, a inquietude me move e não consigo demonstrar indiferença quando noto uma clara demonstração de que algo não anda tão normal assim, principalmente no que a dita "grande imprensa tupiniquim" tenta nos passar como verdade absoluta e inquestionável. O grande mal do leitor dos tempos atuais é que, mesmo com toda uma ampla possibilidade de informação, continuamos acreditando e dizendo amém para os mesmos órgãos de imprensa, representantes de interesses ocultos (alguns até inconfessáveis). Qualquer pessoa pode imaginar como nossa sociedade será muito mais consciente se a Globo, Folha SP, Veja, Estadão se dedicassem a mostrar e discutir o que é importante para a educação de uma população, além do entretenimento e da via fácil do establisment. Eles continuam a nos enganar e a grande maioria continua acreditando neles. Uma pena!
Posso dar infinitos exemplos disso (já os dei muitos aqui). Ouço por aí que não entendem porque faço a defesa do Lula e do atual Governo. É simples. Tenho memória, relembro muito bem como o Brasil era instável no período FHC (alguém contesta isso? Vivíamos de pires na mão). Só mesmo alguém com pouca informação ou mal intencionado para continuar afirmando que o país de hoje não é infinitamente melhor do que o de antes. Isso são fatos facilmente comprovados. Mesmo assim, a imprensa nega isso, sonega informações e coloca num altar os que durante anos cravaram uma estaca no coração do progresso brasileiro. Hoje, pregam a volta desse passado. É isso que não concordo. Se defendo Lula é só porque seu governo, com todos os defeitos olha para as camadas menos favorecidas (a grande massa) e isso perturba, assusta. O pobre precisa ter vez e quando alguém quer fazer algo por ele, recebe paú nas ancas.

O fato do momento, a CPI dos Cartões Corporativos é via de mão única, para os opositores. A mídia consome papel, energia e tempo tentando descobrir quem produziu um tal de Dossiê FHC (leiam o que foi comprado naquele período com cartão corporativo no http://www.horadopovo.com.br/) e não agiu da mesma forma quando do gasto com a tapioca. Quando o assunto é pegar Lula, fazem de tudo, não medem esforços e são os mais perspicazes possíveis. O mesmo não acontece quando se relaciona ao governo anterior, FHC, que da mesma forma, ou até em quantidade maior, fez uma festa com a despesas dos cartões corporativos. É fácil desmontar o teatrinho montado agora. Um senador, Alvaro Dias, do PSDB divulgou o dossiê, vazou as informações e ele, na qualidade de atravessador é quem tem que esclarecer os motivos para proceder dessa forma. Para mim está claro: tudo foi montado para atingir a pré-candidatura da ministra da Casa Civil, Dilma Roussef. Um complô, só isso. Felizmente, vai dar com os burros n'água. Enquanto prevalecer e não interessar o "quem vazou, mas quem fez", patinaremos. O grande fato é que a CPI dos Cartões Coporativos, criada para investigar os gastos da turma do Lula, está deixando os tucanos em polvorosa, pois está cada vez mais voltada para os gastos do período FHC. é consenso que os tucanos não metiam a mão nos próprios bolsos para nada, nem para idas ao cinema, zoológicos, boutiques, etc. O casal FHC deve explicações, iguais ao do pessoal do Lula. E por que só exigem isso de Lula? Só não entende quem não quer...


Henrique Perazzi de Aquino, 47 anos, denunciando a mistura entre política rasteira e mau jornalismo, aquela que sempre resulta numa trama rocambolesca, que felizmente se esvai com as águas de março.
Em tempo: A ilustração é do Samuca e foi gilleteada do www.chargeonline.com.br
MEMÓRIA ORAL (29)
Publico aqui algo antigo, escrito no ano passado, mas publicado somente agora. Enquanto não retorno aos textos atuais (dei um tempo de uns 50 dias), revejo textos arquivados no mafuá. Esse merece uma leitura atenta e sem preconceitos:

A HISTÓRIA DE UM É A DE TODOS

Duas manchetes recentes na imprensa destacam fatos envolvendo "eles". Na primeira, "Justiça permite nome de mulher a travesti" (Juiz concedeu a Renata Finsk, sem cirurgia, direito de mudar nome nos documentos mesmo mantendo o gênero masculino) e no segundo, "SUS fará cirurgia para mudança de sexo" (Decisão da Justiça obriga o Ministério da Saúde a regulamentar em 30 dias o procedimento em hospitais de todo o país). O "eles" citado são, é claro, os travestis, talvez nosso maior produto de exportação nos tempos atuais, ocupando, cada vez mais o espaço que lhes é cabido, nesse emaranhado novelo denominado "sociedade brasileira".
As manchetes envolvendo o segmento homossexual, no qual os travestis estão inseridos, não param por aí. A nacional mais recente estampa que, "Parceiros de gays ganham pensão" (O Governo do Estado do RJ concedeu os primeiros quatro benefícios de pensão para parceiros de servidores homossexuais). Na local, um casamento entre um enfermeiro e um cabeleireiro ganhou as primeiras páginas dos dois jornais de Bauru. Isso tudo quer dizer uma coisa, "eles" continuam a derrubar bravamente barreiras, superar preconceitos, dando demonstrações a que vieram, sabendo muito bem lutar por seus direitos. Aliás, nada mais normal, assim como todos os outros segmentos.

Jogando tudo isso para o dia-a-dia, uma dessas pessoas, que está mais do que inserida nesse contexto do "mundo trans" é o bauruense RobertoCésar Costa, 23 anos (16/09/1983), que com esse nome não é chamado nem pelos pais, dentro da própria casa, com quem mora no jardim Nova Esperança, em Bauru SP. Ela bem representa os atos e atitudes dos travestis na cidade, que se fortalecem e mostram sua face, sem medo de uma exposição coletiva. Daniela Yasmin, ou simplesmente Dani, como é conhecida por todos, desde os tempos de escola, quando concluiu o 2ºGrau. Parou de estudar aí, para uma dedicação exclusiva no que havia decidido ser na vida: uma travesti.
Hoje, aos 23 anos, após duas experiências em São Paulo, voltou para acasa dos pais e acaba de tomar mais uma decisão em sua vida: "Vou ficar por aqui mesmo. Atendo um pedido dos meus pais, que me querem por perto, começo um curso de cabeleireira, mas não abandono os programas, tanto pelos sites, como o das ruas, pois é com eles que me mantenho". O pai, funcionário de um posto de combustível e a mãe, do lar, além de um casal de irmãos a preferem por aqui, sob a vista de todos. Nenhum deles a incentivam na continuidade da prostituição, fazendo apenas vistas grossas, jogando todas as fichas no curso recém iniciado, com a torcida para que acabe por se transformar na sua futura profissão.

Diz que acabou por se descobrir aos 9 anos, com um primo, quando não foi mais possível disfarçar: "Ali eu vi o meu destino selado. Descobri o que queria ser". Aos 15 confirmou algo que todos os colegas da escola já tinham certeza: "Me abri para todos, pois não tinha mais como esconder os trejeitos". No ano seguinte, foi a vez de sentar com os pais e numa conversa bem franca, pela boca dela própria, escancarar e buscar apoio. No início ele veio só da mãe, mas com o passar dos anos, mesmo não aceitando totalmente, o pai passou a encarar melhor a situação, pois viu que aquilo era irreversível. Com 17 anos fez seu primeiro programa nas ruas e daí em diante não parou mais.
"Desde criança me inspirei em Roberta Close e Rogéria. Fizeram minha cabeça, sendo muito admiradas por mim e por todas minhas amigas", diz Dani, voltando seus olhos para um passado não tão distante. Quando fala de seu bairro, não se esquece das muitas amigas, todas iguais a ela, que de lá saíram para o mundo: "São muitas, a Nova Esperança sempre foi um reduto de belas travestis. A Leandra ainda mora por aqui e a Letícia voltou a ser um menino por causa de um emprego. Minha melhor amiga sempre foi a Larissa, que casou com o Paulinho Cazé, dono de um blog de travestis em São Paulo. Vivem na maior felicidade. Tem muito mais gente aqui, umas quatro, fora as da vila Dutra. Travesti tem por tudo quanto é canto. A concorrência é grande". Quando fala da amiga Larissa, "a melhor de todas, uma irmã", ela se emociona, pois as maiores experiências de sua vida foram passadas ao lado dela. "Crescemos juntas e resolvemos ir juntas para São Paulo. Acabamos sendo iludidas e ficamos numa pensão onde fomos exploradas. Ganhava-se muito dinheiro, pois saímos de uma realidade, onde oprograma saia por R$ 30, para R$ 150 e R$ 200. Tudo durou um mês, viramos a mesa. A dona da pensão ficava com quase tudo, a troco de cama, comida e nosso nome num site. Abandonamos tudo e voltamos com uma mão na frente e outra atrás", conta Dani, ainda revoltada pela incompreensão do ato. Recebeu apoio de uns, que viram na atitude uma revolta contra a exploração a que eram submetidas e em outros, críticas, por saírem sem saldar todos os compromissos.
O retorno não durou muito. Foram uns poucos meses em Bauru, com poucos programas e uma vontade louca de provar para todos, serem honestas e terem condições de vencer naquela terra estranha. São Paulo é o paraíso e o destino de todas, que para lá aportam, em busca da realização financeira, serem vistas em blogs, participarem de filmes e tornarem-se famosas. Voltaram mais escoladas e não caíram novamente no conto da pensão generosa. Alugaram algo próprio e tudo deu certo.Larissa logo conheceu o Cazé e foram morar juntos. Dani experimentou a divisão de um apartamento com uma amiga, com tudo rachado meio-a-meio e só voltou pela insistência dos pais. A saudade bateu forte e depois de seis meses estava de volta: "Voltei para passar uns dias e parece que dessa vez vim para ficar".
Quando questionada sobre o futuro, diz pensar em parar, mas não sabe exatamente como e quando: "Todas querem fazer primeiro o pé de meia. Todas têm medo do futuro, mas não dá para jogar tudo para o alto. Onde vou ganhar o que ganho atualmente? Ninguém me engana fácil. Muitos se aproximam só para mamar em cima do que ganhamos. Fujo disso. Tento guardar, mas ainda não estou conseguindo". Sabe viver num mundo muito louco, cheio de perdições, contradições e desvios, todos muito perigosos: "Fiquei puta da vida quando um cliente que saia comigo, me disse que ao chegar em sua casa, a sua mulher ainda quis algo com ele. E ele foi para a cama com ela, como se fosse uma obrigação. Por que se sujeita a isso? Não gosto de gente que age assim.". Isso não é nada parecido com as ofertas para sexo sem camisinha: "Em São Paulo é normal, num programa de R$ 150, o cara te oferecer R$ 800 para fazer sem camisinha. Os do interior se cuidam mais e os da capital já vão logo querendo sem. Resisti e voltei intacta, sem doença nenhuma".
Num outro momento, fez questão de falar sobre a solidariedade que prevalece entre quase todas: "A Teca, aqui de Bauru morreu recentemente. Estava velha, sozinha e doente. Todas ajudaram no caixão, a Patrícia foi quem mais deu. Foi um enterro coletivo, onde todas morreram um pouquinho". Dani não parou para pensar seriamente no seu futuro. Seus planos não são nada mirabolantes, quer vencer na vida, ser feliz e encontrar a pessoa amada. É isso o que busca e é com esse pensamento que sai diariamente de sua casa, monta na garupa de um moto-táxi e desce numa esquina da Avenida Nações Unidas, o point mais quente de todas "elas" em Bauru. Com um vestidinho dos mais curtos, as longas pernas todas de fora, expõe seu corpo à apreciação dos futuros clientes e dificilmente volta para casa, sem antes sair com pelo menos uns três.
Diante da minha indagação sobre como se sente, ela parece não entender direito e desfere: "Eu não sou nem um pouco diferente de todas elas, nossas histórias são muito parecidas. Ouça minhas amigas e compare você mesmo. No fundo, nós só queremos ser felizes, da melhor maneira possível". Deixemo-las tentarem, sem falso moralismo e cobranças desnecessárias, pois prostituição por prostituição, tem gente que a pratica de um jeito muito mais aviltante, e nem por isso, a cobrança se faz de forma agressiva e preconceituosa. Os travestis compõem esse cenário surreal, que é o dia-a-dia de todos nós, só isso. Ao invés de causar espanto, incredulidade e indignação, ouvindo-as mais atentamente, estamos diante de pessoas, meras pessoas, disputando uma chance. Cada um a seu modo.

Henrique Perazzi de Aquino - Bauru SP, 04 de setembro de 2007.
(Oservação atualizada: As fotos 1 e 2 foram tiradas por mim ano passado e as demais fornecidas pela Dani, porém estão desatualizadas, representando uma fase, segundo, ela já superada, encerrada. A vida delas é de uma transmutação rápida demais. Fui me informar sobre como a Dani anda hoje, abril de 2008 e ela havia voltado para São Paulo, ficando mais alguns meses, tendo retornado novamente para Bauru, onde se encontra hoje. Diz não mais querer se prostituir, numa espécie de desilusão por tudo o que presenciou e faz força para fazer um curso de cabeleireira e montar um salão só seu. Para isso, conta com a juda dos pais. Está desempregada e de cabelos mais curtos, mais ao estilo de um rapaz. Ou seja, como o próprio título afirma lá em cima: a história continua sendo muito parecida com a de todas as outras e como as nossas, lutando para vencer na vida.)
UMA FRASE (15)
COMENTÁRIOS EM UM VELÓRIO

Do livro "Na rolança do tempo", do ator, cantor, compositor e boêmio Mário Lago.

Esse livro eu li já faz uma pá de tempo. Nem sei se ainda o tenho em meu mafuá, mas quando o li, fiz questão de guardar esse achado sobre os velórios. Hoje, quando estava no velório de um colega de trabalho, o seu Paulo, motorista lá da Secretaria de Cultura, lembrei-me disso aqui e repasso para todos:

"A imobilidade do morto e sua impotência para defender-se ou revidar a tudo que é feito e dito a seu propósito. Mas é impossível controlar os profissionais de se apresentarem mais tristes do que a própria tristeza. (...) Ah, aquele famigerado desconhecido que se aproxima do caixão, só ergue o lenço que cobre o rosto do já ido, olha-o durante largo tempo e por fim sacode a cabeça, acompanhando o gesto de um suspiro profundo, como se aquela morte lhe estivesse doendo no fundo das entranhas. Ou o prestimoso vizinho que vai a todo momento borrifar água no rosto do indefeso, com aquele galhinho de arruda portador de sorte, comentando com os em volta que o probrezinho parece que está dormindo, não é mesmo? Os oinda os infalíveis amigos da família, que abraçam os parentes do estirado lamentando o duro golpe da fatalidade, "ainda ontem, quando nos encontramos, estava tão contente, e hoje ei-lo aí...". Não sendo de esquecer, também, alguns parentes, que não conseguem agradecer aos abraços sem um lacrimoso, "morreu como um passarinho" ou "apagou-se como uma vela".

quinta-feira, 10 de abril de 2008

UMA ALFINETADA (24)
Essa saiu n'O Alfinete na semana passada e com um pouco de atraso por aqui.
O PAPEL DOS MILITARES NA AMÉRICA LATINA

No último dia 31 de março (ou seria 1º de abril?) fez aniversário (toc toc toc) algo nefasto para esse país, o Golpe Militar de 1964. Essa data não pode passar em branco e a cada ano uma reflexão diferente deve ser feita, para que nunca mais esse país, ou qualquer outro da América Latina volte a ser comandada por Juntas Militares. Nada contra os militares, pois defendo que o Brasil continue tendo o seu tão edificante serviço prestado, com dignidade e honradez, porém, sem que ocorra intromissão na política, pois como já verificamos no passado, ocorreram mais excessos do que benefícios. Num momento em que se discute o sucateamento de nossas Forças Armadas (algo que precisa ser revisto), nada melhor do que colocarmos lenha nessa fogueira com outro tema candente, o papel desempenhado por eles na América Latina. Esse papel já foi bastante discutido, vindo de um passado bem distante. Simón Bolívar, um dos nossos libertadores, lider político e também militar, quando estava morrendo, em sua última proclamação deixou uma mensagem para a América: “os militares devem empunhar suas espadas para defender as garantias sociais”. Isso tem mais de 200 anos. Eis um ótimo guia de como devem agir, uma espécie de mandamento.

O que um militar nunca deveria se prestar a fazer é estar à serviço do imperialismo e dos setores dominantes. Esse mesmo Bolívar disse em outra ocasião: “maldito seja o soldado que usa suas armas contra o seu povo”. Viajo no tempo e volto aos nossos dias, pois nesse momento de ofensiva imperialista, nada melhor do que eles se manterem firmes, levantando suas armas, se preciso for, para defender o povo e nunca subordinar-se aos interesses das oligarquias. Sendo assim, o papel dos militares hoje deve ser o papel dos libertadores, sempre subordinados ao máximo poder político de uma nação, aquele que emana do povo. Basta de militares golpistas, pois nossas experiências foram frustrantes e desagradáveis. Todos aqueles que se venderam ao demônio imperialista e se colocaram contra o povo, acabaram sendo derrotados e posteriormente até humilhados. Aqui no Brasil o golpe de estado foi apoiado pelos norte-americanos, se utilizando disso para tirar do poder um governo democrático, legalmente eleito pelo voto popular. Na Venezuela aconteceu o mesmo recentemente e voltaram atrás, repudiando o golpismo.

Eu creio que o grande papel que lhes cabem nesse momento é o de serem anti-imperialistas. As Forças Armadas devem se colocar ao lado do povo, andar junto com as comunidades, como acontece no combate à dengue no Rio de Janeiro. Seria lindo ver os militares andando junto aos pescadores, aos campesinos, aos trabalhadores de nossas fábricas, recuperando terras do latifúndio e engrossando o coro contra todas nossas verdadeiras injustiças. Quem conhece um pouco do sistema militar sabe que de logística eles entendem muito e poderiam nos ajudar bastante na distribuição de alimentos, remédios, usando sua capacidade organizativa. Por fim, nada melhor do que o fortalecimento nesse momento da união cívico-militar, revigorando o aparato e a fusão, com a incrementação da participação popular na defesa nacional. Para isso, se faz necessário uma formação adequada, capacitando-os e treinando-os não só para a educação e o trabalho, mas também para a defesa do país. Nada melhor do que relembrar novamente Bolívar, em mais um dos seus ensinamentos: “empunhar sua espada para defender a nação, a soberania e as garantias sociais”. Nada além disso. Uma nova geração de militares brasileiros parece estar bastante antenada e luta dentro da corporação para fazer vingar essas atitudes. Torço por eles.
CHARGES ESCOLHIDAS A DEDO (1)
Adoro as publicações que mantém os chargistas entre os seus colaboradores. Virei um devorador delas desde os tempos d'O Pasquim. Conheço a grande maioria desses artistas só de dar uma olhada no traço. Quero aqui fazer uma justa homenagem a todos eles, publicando as que considero mais significativas. Vão ser muitas, pois são tantos os que admiro. Começo com uma que acaba de ser publicada, saindo lá na Caros Amigos, edição de abril, na última página, com a assinatura do Claudius. Esse cara é uma fera no traço, estando na revista desde o número 1. Tem um traço inconfundível e algo bem marcante em sua carreira foi a ilustração de um livro sobre educação, assinado por nada menos que Paulo Freire. Tenho também belíssimos livros de História do Brasil ilustrados pela sua pena. Esse desenho, que me motivou a começar essas homenagens é sobre a eterna luta das esquerdas diante das eleições, com brigas entre si, dividindo-se e fortalecendo a direita. Claudius, como sempre, foi genial. Confiram abaixo:
E não é isso mesmo?

terça-feira, 8 de abril de 2008

RETRATOS DE BAURU (17)

MARIVALDO, UM ARTISTA DE NOSSAS RUAS
Marivaldo Pinheiro de Oliveira é um artista dos mais populares aqui em Bauru. Não nasceu aqui, mas já está mais do que enraizado por essas terras, que o acolheu de forma calorosa e receptiva. Tem 36 anos e pinta e borda pela cidade. Quem já não o viu parado numa de nossas esquinas, com o cavalete de pintura montado, retratando alguma edificação. Fez trabalhos maravilhosos em grafite e hoje está terminando um sobre a ferrovia, numa cor ocre, que vai dar muito o que falar. Sua arte não se resume a pintura, pois é também escultor, possuindo um currículo vasto, desde os tempos lá da sua Barra Bonita. O pessoal o conhece mais como desenhista, mas na verdade é um verdadeiro artista popular, pois gosta de trabalhar junto do povo, nas ruas e praças da cidade.