sexta-feira, 13 de junho de 2008

UMA CARTA (9)

Essa aqui eu enviei para o JB, o Jornal do Brasil do RJ, em 05/06, como poderia ter feito para qualquer outro jornalão brasileiro, pois todos estão num processo de tentar incriminar e desqualificar a ministra Dilma, a qualquer custo, usando todas as armas, as possíveis e as imagináveis na obtenção do intento maior, que é o de inviabilizar que ela seja candidata a Presidência da República. Os métodos utilizados fogem aos padrões recomendáveis e criam novos escândalos com uma facilidade nunca vista. Quando esse despontou, o do tal favorecimento na compra da Varig, escrevi para o JB e disse da insatisfação no procedimento predatório/insano/farsesco, que são o lançamento de escândalos, paradepois se mostrarem irreais. Imagine, que o JB iria publicar! Porém, muita coisa saiu contra a ministra, inclusive as charges. Até agora, passados quase dez dias, a ministra continua ilesa e nem um simples pedido de desculpa foi emitido pelos danos causados à sua imagem. Como anteriormente, o trabalho jornalístico prima em favorecer quem acusa e dar pouco caso à versão dos acusados. No pano de fundo, desta vez, a derrubada do governo Lula, blindado pela excepcional popularidade que alcançou e pelo momento econômico do país. O que importa é sepultar a candidatura de Dilma e para isso vale tudo. Leiam minha cartinha:

carta para seção de CARTAS do JB
meus caros
Leio na principal manchete do JB que a ministra Dilma "volta a berlinda" e está novamente na "boca do furacão". Na realidade, nada disso acontece e novamente a imprensa brasileira entra de gaiato no navio. Uma pena essa insistência em tentar criar um fato negativo, uma maracutaia nova, um enrosco qualquer para envolver aquela que Lula já apontou como candidata a sua sucessão. A imprensa peca e erra feio quando entra nesse jogo escuso da oposição, pois compra gato por lebre. Vejam o caso dos cartões corporativos e do tal dossiê. Foram tantos factóides e não vi nenhum reconhecimento por ataques inveridicos. De algo todos precisamos estar atentos: O povão não é besta e não cai mais nessa fácil. Tomem tento, meninos! HPA - BAURU SP

quarta-feira, 11 de junho de 2008

RETRATOS DE BAURU (25)

MARISA DE OLIVEIRA, A ATRIZ



Marisa é uma pessoa de estatura mediana e de um talento grandioso, como o seu coração. Ela vive para e do teatro. Circula por toda a região, sempre em atividades teatrais, principalmente as infantis e as realizadas na rua, um dos palcos mais difíceis para a interpretação e uma de suas especialidades. Começou cedo e não fala em parar tão já, pois têm muita lenha para queimar. Na grande maioria das vezes, se apresenta ao lado de Ezequiel Rosa, um parceiro meio que unha e carne, pois ambos possuem um entrosamento, tipo se entenderem pelo olhar ou num simples gesto. É sempre contagiante vê-la em ação, com aquele gestual bem próprio e um colorido de brilhar os olhos. Só quem acompanha o seu trabalho rotineiro e o "pega prá capar" do seu dia-a-dia, de quem decide viver exclusivamente da arte, pra entender o que vem a ser essa transfiguração contínua. Uma lindeza de pessoa, em todos os sentidos.

terça-feira, 10 de junho de 2008

UMA ALFINETADA (29)
Essa saiu publicada no jornal lá de Pirajuí no sábado da semana passada e hoje aqui:

UMA POLÊMICA CULTURAL NO AR
Não vivemos sem uma boa e apetitosa polêmica, afinal, nada como uma saborosa e democrática discussão, sempre dentro do campo das idéias (sem aquelas agressões desnecessárias e desqualificantes). Na cultura, elas ocorrem rotineiramente e a mais recente envolve duas figuras de peso no cenário cultural paulista.

Em um lado do round, o Secretário Municipal de Cultura da cidade de São Paulo, Carlos Augusto Calil, um que veio para fomentar amplas discussões. Numa entrevista para a imprensa começou de forma amena: "A cultura não vai resolver o problema da distribuição de renda, mas dá um nível de satisfação e participação que as pessoas precisam e esperam". Até aí, tudo bem, todos concordam, mas logo a seguir, quando questionado sobre a participação da iniciativa privada, estampando seus nomes nos patrocínios, desfechou o veneno: "A coisa mais ridícula no Brasil é você ir ao cinema UOL, HSBC, Bombril. Imagine o Carnegie Hall virando Chase Manhattan Hall. Isso é de um total caipirismo. Dar nomes de empresa aos equipamentos é caricatura. Mecenas bom é mecenas discreto".

Cutucou fundo e já o fez aguardando resposta. Ela veio, também numa entrevista, com o dono do Cine Bombril, Adhemar de Oliveira, quando responde de forma contundente: "No Brasil, toda a cultura foi repassada para as tais leis de incentivo. É legítimo dizer que a cultura precisa de apoios privados para se estabelecer no mercado. Quer dizer, os benefícios públicos, urbanos, são bem-vindos, mas o benefício dos bancos ou empresas é caipira. Não é melhor ter o Espaço Unibanco do que os cinemas Marabá, Paris, Ipiranga (todos no centro da capital paulista) fechados? Para chegar ao mundo do sonho, você tem que passar pelo mundo da realidade. Problema maior, para mim, é a cultura transformada em evento. O capitalismo vai aonde a conta fecha. O empresário não é o Estado, se não pagar as contas, quebra".

Um mais apimentado que o outro, ambos na defesa dos seus pontos de vista. A questão geraria uma continuação, com desdobramentos para a cultura realizada e patrocinada Brasil afora, inclusive em nossas cidades, o nosso mundinho em particular. Particularmente acho que, se o empresário tiver o interesse de participar, não vejo porque recusar e se for o caso, colocar lá sim, a logo de sua empresa. Pelo menos, dentro de tão parcas participações, é mais uma rara oportunidade de possibilitar cultura. Tem quem não veja isso com bons olhos, outros sim. O fato é que a simples discussão disso é sempre salutar. Coloco aqui mais um pouco de lenha nessa fogueira.

Em tempo: Ambas entrevistas sairam em edições da revista Carta Capital.
Henrique Perazzi de Aquino, 47 anos, fomentando polêmicas, acendendo fogueiras, fomentando com gravetos e nem sempre jogando água para amainar a quentura do braseiro.

sábado, 7 de junho de 2008

MEMÓRIA ORAL (37)
UM ENCONTRO NADA CLANDESTINO
Um acontecimento como o da noite de 06/06, sexta, se ocorrido durante os nefastos anos da Ditadura Militar, seria, além de clandestino, algo que certamente geraria prisões generalisadas, pois encontro de “comunistas” gerava, quando não “cana dura”, até chacinas. Hoje, felizmente, os tempos são outros e dentro desse clima, aproximadamente umas 60 pessoas estiveream reunidas na Fazendinha, um amplo espaço dentro do Recinto Mello Morais, em Bauru, para uma confraternização pela despedida de Arcônsio Pereira da Silva, 92 anos, que estará de mudança da cidade nos próximos dias. Reunir aquele eclético grupo foi trabalho de semanas para o grupo organizador (PC do B e PSB), estando todos, em primeiro lugar, reverenciando o velho comunista e depois, aproveitando para manifestar algo bem próprio do grupo, a defesa do slogan “A luta continua”.

Por volta das 19h começam a chegar os primeiros convidados e o encarregado de buscar Arcônsio e a esposa Zuleide em casa, Darcy Rodrigues, nosso velho conhecido, é um dos tais revolucionários de carteirinha do encontro. Um churrasco regado a chopp estava à espera de todos, conseguido através de doações variadas e uma arrecadação feita ali mesmo, com o chapéu correndo entre os presentes. O cenário estava montado e o local enchendo aos poucos. Nem todos ali poderiam ser considerados de esquerda, tendo também entre os presentes, aqueles que não conversam entre si, mas se toleram. Porém, todos possuem algo em comum, nutrem um admiração indisfarçável pelo homenageado.


Arcônsio, além de circular de mesa em mesa, recepcionar os que iam chegando, mesmo quando sentou para comer e bebericar algo, não parou de cumprimentar as pessoas. Paralelo a isso, rolava uma animada conversa, motivada pela presença de duas estudantes do curso de Jornalismo da UNESP, Lydia Cintra e Gabriela Mendes, ambas com 21 anos, formatando um projeto de contar a história da resistência ao golpe militar em Bauru. Muitos dos que efetivamente estiveram à frente nessa resistência estavam ali presentes e foi um prato cheio para elas. As conversas propiciaram uma volta ao passado em todos os grupos formados e isso dominou a fria noite.

O mais animado de todos era Raphael Martinelli, diretor do Fórum Permanente de Ex-Presos e Perseguidos Políticos do Estado de SP e uma espécie de militante vitálicio dessa causa. Conhecido por todos, com seu jeito irriquieto, conversava e discutia todos os assuntos e por ser um inveterado contador de histórias, com sua memória invejável para os seus 84 anos, fez questão de ressaltar algo envolvendo o ex-prefeito Nilson Costa, também presente, que nos anos 60 foi um importante sindicalista ferroviário, trazendo fotos do período, que circularam de mão em mão. “Falam dele, de sua atuação atual, mas não podemos esquecer que naquele duro período, participou de greves históricas, esteve em Cuba, falou bem da ilha e não negava fogo”, enfatiza dissipando comentários sobre a presença do ex-prefeito.


Darcy sentou ao lado de três ilustres convidados, vindos de longe, Oswaldo Lourenço, portuário de Santos, Francisco Teixeira, ferroviário de Osasco e Francisco Prado, o Chicão, do jornal Fórum. Ficou ao lado deles quase o tempo todo e o papo deve ter sido dos mais animados. O senta-levanta na mesa marcou muita gente e esses quatro de lá não arredaram pé. Um dos que passou bom tempo por lá foi o advogado Joaquim Mendonça, que ao levantar saiu dizendo: “Esse time é da pesada. Somando deve ter uns 600 anos, 50 de cadeia e mais uns 500 km de corrida da polícia”.


Dentre os que circularam de mesa em mesa estava Rodrigo Agostinho, candidato a prefeito da única coligação de esquerda montada para o futuro pleito na cidade e Arthur Monteiro Jr, jornalista e advogado, um reconhecido defensor e militante das causas sociais. Nos últimos tempos, esteve envolvido com a montagem de um espaço para manter viva a memória de um ilustre militante da esquerda, Alberto de Souza, que se vivo, estaria completando em agosto, 100 anos de vida. “Será a melhor data para inaugurar a casa e para isso conto com a ajuda da Secretaria de Cultura, num trabalho em conjunto”, ressalva Arthur, que também relembra fatos vividos quando da vinda de Luiz Carlos Prestes a Bauru: “Imagine eu ao seu lado, jovem, transportando-o em meu carro e sem poder fazer nenhuma tietagem. Fiquei radiante quando Prestes teve que optar entre ir a casa de um figurão e rever o amigo Alberto. Me disse se não importaria em ligar e desmarcar o encontro com o figurão. Claro, fiz aquilo rapidinho e fomos juntos visitar a casa do velho militante, que havia combatido com ele na Coluna Prestes”.


Histórias como essa rolaram de mesa em mesa. Cada um tendo a sua para contar. Numa outra roda, o professor e militante da esquerda católica, Isaías Daiben, relembra fatos do seu período estudantil, ao lado de Milton Dota, advogado com reconhecido passado na defesa dos Direitos Humanos e de perseguidos políticos. “Essa minha geração, a que está aqui, não aguenta essa música do Zeca, a tal de deixar a vida te levar. Uma (*) para isso”, soltando um palavrão e gesticulando para as duas universitárias. “Veja essa geração de meninos, suas inscrições nos muros. Eles estão querendo nos dizer algo. Tem um que grifa o seu nome pela cidade toda. Encontrei um desses e perguntei dos motivos de fazer isso. Me disse que queria destruir a cidade. Quando lhe disse que também queria, ficou sem entender, mas ambos estamos sem espaço de expresssão e indignados”, reflete o professor. Passando a bola para Dota, esse relembra fatos vividos no famoso Congresso de Ibiúna, do qual esteve presente e de quando, chamado a delegacia, para liberar um militante, quase acabou ficando por lá: “Por pouco não me atraquei com o delegado e talvez fosse morto ali mesmo. Foi por pouco. Sai dali e fui ao jornal, conseguindo uma manchete na capa do dia seguinte denunciando o fato. Não foram tempos fáceis”.


Num certo momento, tudo parou para as homenagens à Arcônsio e quem fez as honras da casa foi a vereadora do PC do B, Majô, chegando a chorar ao ler o que havia escrito num cartão. Leu tudo em voz alta, pedindo para todos os presentes assinarem juntos o cartão, sendo entregue a ele com alguns mimos, como dois quadros com fotos tiradas dele, num passeio de trem semanas atrás e uma camisa, claro, da cor vermelha. Até a esposa Zuleide não ficou sem presente, ganhando um vaso de flores. Lá do fundo chega uma observação sobre os presentes: “Esse PC do B bate em todos nós pela organização, pensaram em tudo”. Foi o toque feminino do encontro. Nisso chega o fotógrafo do Jornal da Cidade e todos se juntam para novas fotos com o grupo todo reunido. Muitos fizeram uso da palavra e enfatizaram a luta do militante e a necessidade de não esmorecerem diante das adversidades. Dando um fecho, ecoa lá do fundo os acordes da Internacional Socialista, com a maioria cantando de forma entusiasmada.

Quem chega por último é o professor Geraldo Bérgamo, só após o encerramento de suas aulas na UNESP. Circula por todos os lados, com uma desenvoltura e tendo na mão, um inseparável copo de chopp. “Chegará o momento em que militará no partidão e acho que esse dia está chegando”, me diz quando me aproximo para um abraço. Outro, que circula com desenvoltura é o vereador Marcelo Borges, do PSDB, antigo militante estudantil: “Aqui todos são meus amigos, gosto de todos e conheço a história de quase todos. Não tenho porque não estar aqui nesse e em outros momentos. Militei junto da maioria”.




Quando o relógio se aproxima das 23h, Arcônsio denuncia os primeiros sinais de cansaço e pede para ir embora, quer descansar. Seu último pedido, atendido pelo músico Gilson Dias foi para guardar uma das faixas expostas no salão. “Retire para mim a faixa que me pede para voltar. Quero guardá-la, pois também quero voltar e declaro isso antes mesmo de partir”, diz emocionado. Os últimos se vão por volta das 24h, ficando até aquela hora em volta do barril de chopp, que insistia em não terminar.











Henrique Perazzi de Aquino, escrito em 07/06/2008
UMA MÚSICA (25)

MONALISA - CARLINHOS VERGUEIRO
Nessa semana, quando o Corinthians está quase sagrando-se campeão da Copa do Brasil (e conseguindo vaga para a Libertadores do ano que vem) e o Fluminense derrota o Boca Junior e quase está sagrando-se campeão da Libertadores (e conseguindo vaga para a Libertadores do ano que vem), queria muito postar uma música sobre futebol. Fui percorrer meus CDs, aqui no Mafuá e achei esse do Carlinhos Vergueiro, o "Contra-Ataque", só com músicas sobre o tema futebo. De todas, escolhi a Monalisa, dele e do Paulo César Feital. Sintam o clima:

"Sou do tempo dos pardais/ do Zorro nos quintais/ dos terrenos baldios/ de usar sapato Vulcabrás/ ban-lon, gola rolê, no frio/ do filé no Morais/ do sarro nas babás/ no carro do vizinho/eu sou do tempo das gerais/ eu vi jogar Pelé-Coutinho/ Do jacaré/ nas tábuas de madeira/ de ver chegar na praia/ o arrastão com as traineiras/ depois, correr prá guerra das bandeiras/ que bom era um Fla-Flu/ ou um Cortinthias e Palmeiras/ Das jogadas geniais/ nas pernas dos casais/ tijolo de balisa/ pedir dinheiro nos sinais/ prá ter um jogo de camisas/ Carlos Zéfiro, demais/ desenhos imorais/ meu mestre das delícias/ mamãe mandando eu ir à missa/ e eu comendo a Monalisa".
FRASES DE UM LIVRO QUE LI (14)
MÁXIMAS E MÍNIMAS DO BARÃO DE ITARARÉ - ED. RECORD RJ - 1985


Acaba de ler mais um livro sobre as máximas de Apparício Torelli (1895-1971), o famoso Barão. Suas frases são famosas e muito utilizadas até hoje, pois continuam atualizadíssimas. Aqui no mafuá esse frasista é um dos meus preferidos, quase insubstituível, irretocável. Vejam as que retirei desse livro:


- "Para esse mundo ficar bom, é preciso fazer outro".
- "Entre sem bater, mas não entre sem anunciar".
- "Quem empresta, adeus".
- "Os vivos são sempre e cada vez mais governados pelos mais vivos".
- "Dize-me com quem andas e te direi se vou contigo".
- "Tempo é dinheiro. Vamos, então, fazer a experiência de pagas as nossas contas com o tempo".
- "Um bom jornalista é um sujeito que esvazia totalmente a cabeça para o dono do jornal encher nababescamente a barriga".
- "O voto deve ser rigorosamente secreto. Só assim, afinal, o eleitor não terá vergonha de votar no seu candidato".
- "Negociata é todo bom negócio para o qual não fomos convidados".
- "O feio da eleição é se perder".
- "Esse mundo é redonda, mas está ficando chato".
- "A televisão é a maior maravilha da ciência a serviço da imbecilidade humana".
- "O problema dos menores é dos maiores".
- "A conversa prejudica o trabalho. Deixe, portanto, de trabalhar, sempre que quiser conversar".
- "Para esse mundo ficar bom, é preciso fazer outro".
- "O tempo cobre e descobre tudo".
- "Juro de mora demora, mas se recebe".

sexta-feira, 6 de junho de 2008

MEMÓRIA ORAL (36)
Quanto estou sem tempo livre, como nessa semana, publico aqui, algumas das histórias já escritas e que ainda não foram publicadas. Essa é uma delas e foi escrita em agosto do ano passado. Merece ser lida com atenção, pois retrata a vida de um bauruense de fino trato.

DARCY RODRIGUES, FONTE INESGOTÁVEL DE HISTÓRIA
Darcy Rodrigues é uma pessoa de estatura mediana, 65 anos, cabelos grisalhos, legítimo militante da esquerda brasileira e um personagem que viveu intensamente um dos períodos recentes da história desse país, quando pegou em armas contra a ditadura militar. Fez história e tem o que contar. Recentemente conseguiu obter na Justiça o reconhecimento de sua patente de capitão, por ter tido a carreira interrompida por motivos políticos. Além da patente no Exército Brasileiro, veio junto uma polpuda indenização e o pagamento mensal dos rendimentos advindos da patente atual. Os direitistas de plantão não aceitam isso e infestam a internet com agressões desrespeitosas a ele e outros na mesma situação. Alheio a tudo isso, Darcy conseguiu refazer a sua vida, vivendo hoje um dos momentos mais auspiciosos de sua trajetória.

A falta do soldo mensal não o impediu de ir à luta. Desde que voltou do exílio, não encontrou dificuldades elevadas para conseguir manter sua subsistência. Sempre foi um bravo, fruto da disciplina militar, da qual nunca se afastou. Sempre viveu uma vidas das mais espartanas, também fruto de outra disciplina, a da ideologia socialista, que nunca deixou de professar. Continua fiel militante, hoje ocupando um cargo na direção do PDT em Bauru (OBS.: saiu recentemente do partido, ingressando no PSB). Foi criticado tempos atrás, por trabalhar em administrações municipais de cunho conservador. Nunca se esquivou do fato, com a ressalva de que também, nunca deixou de ter liberdade de ação e de expressão, condição primordial para tudo o que fez na vida. Sempre soube que sua presença ajudava a referendar tais administrações e já que existia essa conotação, sempre fez questão de manter tudo o que fez, dentro da maior transparência possível. Tanto que, é desconhecido qualquer ato que desabone sua ação profissional no desempenho de qualquer função pública.

Na última delas, exerceu dois cargos de confiança na administração do atual prefeito, Tuga Angerami (sem partido). Sair com ele às ruas é um bom termômetro para avaliar sua popularidade e respeito profissional. Difícil andar mais de cem metros, sem uma abordagem de alguém conhecido, para um cumprimento ou para, simplesmente relembrar histórias em comum. Hoje, fora da administração municipal, devido a desentendimentos nos encaminhamentos das ações políticas, saiu atirando e pediu o boné. Preferiu assim e é exatamente assim, que gosta de conduzir sua vida. Nem por isso a atividade política foi interrompida, pois no PDT trabalha intensamente na preparação do partido para a disputa do próximo pleito municipal, no ano que vem (OBS.: Saiu do partido quando viu vencidas hipóteses de candidatura mais a esquerda).


A vida pessoal caminha dentro de uma tranqüilidade, nem sempre encontrada no passado. Sempre foi muito requisitado quando o assunto é algo sobre Os Anos de Chumbo, ou mais especificamente, o período da ditadura militar, que sucedeu o golpe militar de 1964. É que Darcy teve uma participação das mais intensas na chamada luta armada, que desencadeou-se pelo país no final dos anos 60. Foi um dos mais conhecidos militantes da VPR - Vanguarda Popular Revolucionária e uma, se não a pessoa mais próxima do lendário capitão Lamarca, um dos mais bravos na resistência armada ao regime de exceção. Esse contato transformou sua vida.

Passados esses anos todos, parte dessa história ainda não foi devidamente contada. Ou se foi, sempre faltam novos detalhes para o total esclarecimento de tudo o que ocorreu de fato no período. Como personagem vivo da história, Darcy é procurado por jornalistas das mais diferentes matizes e abordagens. Todos querem sua opinião, sua versão sobre os muitos episódios onde foi protagonista direto. Desde o retorno do exílio, perdeu a conta das vezes em que deu entrevistas e depoimentos para livros, teses, matérias jornalísticas e trabalhos sobre o ocorrido no período. Não sonega informações sobre sua experiência de vida, principalmente aquelas meio desencontradas, fazendo questão de dar sua versão, sempre firme, sobre cada episódio onde foi um dos ativos personagens.

A última entrevista concedida aconteceu dia 01/08/2007, em sua casa, para uma equipe ligada à TV Cultura, comandada pela jornalista e pesquisadora Flavia Baldi e dois técnicos de uma produtora, sendo bem específica. Flavia já havia estado com Darcy há 4 anos atrás, quando fez um trabalho de conclusão de curso na faculdade, sobre a Guerrilha do Vale do Ribeira. Recebeu tantos elogios e o incentivo final e definitivo veio agora, com a possibilidade de um documentário sobre o tema ser exibido na TV pública. Equipe montada, entrevista confirmada, tudo acontece numa manhã de quarta, no mesmo dia do aniversário da cidade de Bauru, 111anos, onde reside. A sala de sua residência se transforma em um pequeno estúdio, onde por mais de três horas o tema foi destrinchado. Darcy começa a conversa contando passagens pouco usuais, quebrando o gelo e um pouco da seriedade e sisudez da grande maioria dos relatos feitos até então, quando o tema discorre sobre nossa experiência com guerrilha urbana.

Conta o ocorrido com um companheiro, que logo após uma operação ocorrida com sucesso nas ruas, diz ter sido ele o único alvo, com todos os tiros vindo em sua direção. Sorrindo ele diz que lhe respondeu: "Pudera, você foi o culpado, como se apresenta para uma ação de rua com uma camisa vermelha. E ainda o ouvi retrucar com um: Mas por que não me avisou?". Conta outra, quando estava sendo torturado e percebe que os fios da maquininha de tortura, embebida em um algodão molhado se soltam da tomada. Ele continua gritando, até que um dos torturadores percebe: "Você é bem sacana mesmo, hem!". Hoje é fácil rir disso tudo, mas ele o faz com uma galhardia bem própria, de quem tem autoridade para tanto.

Flávia trouxe um pré-questionário preparado, mesmo tendo muitas das passagens já sob domínio, pois estudou com afinco o tema e entrevistou outros personagens. As respostas fluem fáceis, existindo um clima fraterno, de pura cordialidade e entendimento entre entrevistadora e entrevistado. Iniciam pelo período de preparação do golpe, ele em si e os primeiros anos sob o regime militar, desembocando na criação da VPR– Vanguarda Popular Revolucionária. Darcy enfatiza que a VPR surgiu fruto da união de militares, operários e de intelectuais da POLOP, que rachados, juntaram-se dando forma ao heterogêneo grupo. A passagem vivida dentro do exército, a militância dentro e fora da caserna, a aproximação com Lamarca, o fechamento do cerco, quando "tentaram domesticar os sargentos", tudo foi sendo resgatado. Desse período lembra com imensa saudade do sargento Jason, "um anjo da guarda" e do cargo que ocupava, cuidando do patrimônio do quartel. Daí, sempre fazia algo sobrar para a organização: "Tudo o que era para ser destruído, acabava ficando conosco".

Com o AI-5, por mais discretos que tentassem ser, a prisão era eminente, questão de dias.Uma data foi marcada para a deserção e teve que ser antecipada para 24/01/1969. Aqui Darcy esclarece algo controverso. Ele não estava no quartel quando Lamarca saiu com as armas: "Muitos ainda citam por aí, que estava nessa ação, mas já estava fora". Diz também que a fuga da família para fora do país foi bem planejada, pois não poderiam correr riscos. A clandestinidade advinda a partir daí recebe uma definição bem objetiva: "Festejávamos a cada instante o minuto seguinte. Éramos presos soltos". Lembranças desse período existem muitas, talvez a mais significativa e dolorosa seja a envolvendo Carlos Roberto Zanirato, um companheiro, que preso e torturado, foi encaminhado a um fictício ponto onde supostamente se encontraria com ele. Quando se viu só, num ponto de ônibus, atirou-se debaixo das rodas: "Ele inventou o ponto para se suicidar. Carregarei comigo essa morte até o fim, pois fui eu quem o trouxe para a luta e sua morte foi das mais dignas". Outro tópico, que não poderia ser esquecido, eram as necessidades, sempre presentes de numerário: "Tínhamos obrigação de prover tudo o que a organização precisasse. As nossas ações sempre foram realizadas sob muita tensão, mas não podíamos transparecer isso para o grupo". A mais famosa dessas ações, foi a realizada junto ao cofre na casa da amante do Ademar, então governador paulista e corrupto confesso. Ali foram levantados mais de 2 milhões de dólares. "Foi esse dinheiro o financiador da guerrilha rural no vale da Ribeira. A VPR tinha como norte a criação do Exército Popular revolucionário, sendo a guerrilha usada para a formação de quadros. A idéia sempre foi termos um campo de treinamento, como base de formação", destaca Darcy.

Flávia e Darcy adentram o ápice motivacional do encontro. A ida para o vale da Ribeira, a compra do sítio e as condições mínimas para a guerrilha rural de fato. Discorre também sobre o erro de haver levado para o campo pessoas, que não estavam totalmente convencidas dessa necessidade e de outras, que não tinham conhecimento completo da organização. Cita um caso: "Celso Lungaretti foi para a primeira área, não se deu bem, voltou para a cidade e nem conheceu a segunda". Darcy faz questão de ressaltar, que desde a saída do 4º Regimento de Infantaria do Exército, seu destino sempre foi o campo, somente consolidado nesse momento: "Participei da guerrilha urbana, pela falta de condições iniciais da ida para o campo". Na qualidade de militar por formação, para Darcy, essa ida ao campo não foi difícil. A adaptação a uma situação extrema e o contato com armas era uma prática cotidiana em sua vida de militar. O campo de treinamento recebeu o nome de Marighella e por medida de segurança foi dividido em dois, com a Base Carlos Zanirato, sob o comando de Darcy, tendo 9 pessoas e a Base Eremias Belizoikov, sob comando de Yoshitame Fujimori, com 8. "A comunicação era precária, rudimentar e o treinamento consistia, nos dias da semana em teoria e prática e nos finais de semana, só teoria", conta Darcy. Aqui, ele conta que Lamarca sempre teve ao seu lado um potente rádio e foi muito questionado sobre o único problema de relacionamento com o grupo, "onde existia um entrosamento muito grande", com a presença de Iara, sua companheira no local. Por fim, ela apresentou problemas de saúde e deixou o sítio antes do Vale cair.

A sucessão dos fatos a seguir, como a prisão de Mário Japa, o retorno de Lamarca à cidade, o seqüestro do diplomata japonês e logo a seguir a queda de toda a guerrilha, são narradas sob forte emoção. Após sua prisão, diz ter ficado uma semana estaqueado no chão, depois à OBAN – Operação Bandeirantes, ficando numa solitária de aço. Foram exatos 57 dias em prisões variadas e isolado de tudo e de todos. "Pelo barulho da portinhola se abrindo com a chegada da comida, contava as pancadas das portas, 8, 9 vezes o mesmo som, me orientava e sabia o número de celas e de pessoas presas", emocionado, conta Darcy, sobre a prisão na Base Aérea do Galeão, no Rio de Janeiro. Além da tortura física, a psicológica, também foi muito cruel: "É algo inimaginável, você não ter nada nas mãos para ler. É um castigo". Tudo desemboca no seqüestro do embaixador alemão, sendo incorporado ao grupo no último momento, quando todos os demais já estavam reunidos há mais de 72 horas. Daí, a saída para a Argélia, uma rápida passagem por países europeus e finalmente, Cuba, onde fixou residência.


A partir do desenlace, que foi a saída do país, Flávia recapitula os tópicos merecedores de melhor esclarecimento. As interrupções foram mínimas, somente para uma água, um pigarro indesejável ou a ida ao sanitário. Tudo foi filmado quase que de uma só vez, com a invasão do horário do almoço, que passou quase despercebido. Nesse momento, Darcy traz à sala alguns documentos pessoais, como cópias de fichas do DOPS e depoimentos variados, que manuseados, prolongaram a conversa. Nesse momento, são citados dois nomes, o de Lungaretti e de Maria do Carmo Brito, como prováveis delatores da localização do sítio no Vale aos repressores, porém, até hoje gerando controvérsias e isso também estende o papo. A reprodução de algumas fotos suas, retiradas dos arquivos da repressão, mostram Darcy no dia da prisão no vale da Ribeira e servem para as considerações finais. O intuito da vinda da jornalista Flávia estava alcançado e a partir daí, seguiria para mais uma entrevista, com o também guerrilheiro Ariston Lucena. Ela já havia entrevistado o coronel Erasmo Dias, carrasco do Vale, Celso Lungaretti e um grande companheiro de Darcy, José Araújo Nóbrega.

Momentos antes da despedida, ele entrega a todos um pequeno e valoroso mimo, ou melhor, uma relíquia, a reprodução de uma carta, datada de 1970, escrita por Lamarca, endereçada a ele e que lhe foi entregue no exílio cubano. Ali, além de outros assuntos, uma pequena reflexão sobre os resultados da experiência da VPR com guerrilha rural. A conversa foi conduzida até o portão e as despedidas foram ensaiadas várias vezes. A cada momento, algo novo surgia e o papo prosseguia. Quase 14 horas, Flávia e os dois técnicos se foram, deixando Darcy diante do seu portão, com lembranças dolorosas a lhe embrulhar o estomago. Percebe-se claramente, que reviver isso tudo, principalmenteas perdas e derrotas ocorridas pelo caminho, nunca serão totalmente digeridas e cicatrizadas. Com a voz ainda embargada, atende ao telefone e se prepara ir almoçar. De resultado prático e imediato, a constatação de que a história de Darcy, merece ser contada nos seus mínimos detalhes, pois foi presença constante em várias ações de âmbito nacional, sempre despertando muito interesse, principalmente histórico. Ele sabe melhor que ninguém, que terá que tocar em pontos polêmicos, que vez ou outra são levantados por aí. Um deles, o justiçamento do tenente da Polícia Militar, Mendes, no Vale, nem foi tocado nessa entrevista. Será a oportunidade de dar a sua versão, encerrando o assunto ou gerando mais discussão. Claro, que quando isso for feito, além da rica história, deve-se levar em consideração um desejo dele, o de não deixar de lado os fatos hilários, as amenidades, que serviam para quebrar a tensão dentro dos aparelhos. Afinal, por mais seriedade que deva existir na retratação da história de nossa luta armada, não podemos nunca deixar de lado, algo que nos foi ensinado por um mestre nessas coisas de guerrilha: "Endurecer, sem perder a ternura, jamais!".