UMA FRASE – GILETE PRESS (29)
DE MARTIN LUTHER KING A BARACK OBAMA, PASSANDO PELO BRASIL

Obama assume a presidência dos EUA nesse dia 20. Do muito que leio não quero ficar repetindo aqui nada encontrado por tudo quanto é lugar. Proponho uma outra discussão. Lá nos EUA, bem diferente daqui, os negros sabem onde estão seus inimigos e vão à luta. Assisti essa semana o filme patrocinado pelo mandato do vereador Roque lá no Teatro Municipal, o “Panteras Negras” e ele é mais atual do que

nunca. Vamos, já que o novo presidente é negro, repercutir algo sobre o racismo do lado de cá e o do lado de lá.
Relembro aqui, para quem não conhece, o discurso de Abraham Lincoln, de 1863:”Não fui nem nunca fui favorável a algo que pudesse provocar, de qualquer forma, a igualdade social e política entre as raças branca e negra; não fui nem nunca fui favorável à transformação de negros em eleitores ou jurados; ou à sua aceitação para cargos públicos. A isso acrescentarei que existe uma diferença física entre a raça negra e a branca que, segundo, creio, para sempre impedirá que as duas raças vivam em condições de igualdade social e política. E, na medida em que isso não possa ocorrer, enquanto permanecerem juntas, deve haver uma posição de superior e inferior, e, tanto quanto qualquer outro homem branco, prefiro que a

posição superior seja atribuída à raça branca”. Atual, não? Vindo do ícone Lincoln é de doer os ossos, mas lá o branco racista nunca escondeu o que pensa, como pensa e como age.
“Resumo de mais de 300 anos de escravidão, a formação nacional e o caráter brasileiro impregnaram-se de racismo e preconceito contra o negro, disseminados nas estruturas do tecido social, com ramificações de várias intensidades nos arranjos institucionais, culturais e comportamentais, que, por sua vez, os recriam e reproduzem cotidianamente. (...) O Brasil das sombras do passado continua virando as costas para a metade de sua gente, aprofundando a fissura do tecido e aumentando o fosso social. (...) Sem guerras, sem marchas, sem direitos civis, o negro brasileiro inaugura o terceiro milênio no porão, separado e desigual. Não somos racistas. Não existem raças. Aliás, não é possível

dizer quem é negro no Brasil. (...) Separados e desiguais, os negros norte-americanos sempre souberam quem eram, onde estavam, o que pensavam os seus inimigos, e até onde poderiam chegar na sua fúria de irracionalidade e na crueldade. Sempre tiveram contra si um revólver no meio dos olhos e seu gradiente de cor nunca garantiu o benefício da dúvida. (...) Por isso, o caminho teve de ser e foi sempre o da luta. Foram às ruas, vergaram suas bandeiras e nunca abdicaram do sonho de construir um mundo melhor para eles e todos à sua volta. (...) Negros e brancos americanos foram à guerra para resgatar a liberdade na Guerra da Secessão, pelo direito à terra, pelo direito à educação, marcharam com Martin Luther King, juntaram as mãos para avançar na história, romper paradigmas e eleger o primeiro presidente negro do país. O pântano da segregação americana produziu uma pérola luminosa para exaltação da liberdade e da igualdade de oportunidades entre os indivíduos. A democracia racial brasileira tão somente conseguiu produzir mais uma requentada teoria: não somos racistas” JOSÉ VICENTE, advogado, reitor da Faculdade Zumbi dos Palmares, em São Paulo, para revista CC, 12/11/2008.
Sentiram a diferença? Pois é, a luta deve e precisa continuar. Essa é minha contribuição para o debate pós eleição.