terça-feira, 27 de outubro de 2009

PERGUNTAR NÃO OFENDE ou QUE SAUDADE DO ERNESTO VARELA (06)

GABRIEL CHALITA, O AGORA SOCIALISTA, VEIO FALAR DE ÉTICA EM BAURU
Ontem durante o dia todo ouço no rádio que à noite ocorreria uma palestra com o ex-secretário da Educação paulista, Gabriel Chalita. Como gostaria de lá estar. A entrada ao evento só é permitida para convidados. Gostaria de ter ido, como comentei com uma amiga à tarde. Não iria para bater palmas (minhas mãos estariam ocupadas), mas para portar um cartaz, com dizeres mais ou menos assim: “O SOCIALISMO ESTÁ SALVO, VIVA CHALITA, UM REVOLUCIONÁRIO SOCIAL” ou “VIVA O PSB E SUA MAIS NOVA AQUISIÇÃO SOCIALISTA, ESSE UM AUTÊNTICO E ÉTICO REVOLUCIONÁRIO”.

Nessa passagem não existe como não vinculá-la a um personagem que adoraria estar diante de tão altaneira figura, Ernesto Varela, um repórter do tipo que podia perder o amigo, mas não a piada e o momento oportuno de encostar o autor de uma pisada na bola na parede. Acredito que lhe seriam feitas algumas perguntas do tipo:

- Caro Chalita, menestrel da igreja e da escrita ética, como o sr explica essa mudança radical, saindo de um partido social-democrata, o PSDB e adentrando um dito socialista, o PSB. O sr escondia o jogo de todos nós? Sempre foi socialista e só nos conta agora? Por que?

- É difícil para um servo tão fiel a Deus, continuar amigo de Alckmim e da Opus Dei, adepto de uma igreja conservadora e publicando livros de auto-ajuda, abrir mão de tudo isso, não por falta de espaço político para futuras candidaturas no antigo reduto, mas para tão somente lutar por uma causa das mais justas, o socialismo?
- Sr Chalita, existe uma gama de fiéis seguidores do socialismo, ávidos por vê-lo defendendo suas idéias, como a defesa intransigente do MST, da política externa brasileira, das causas sociais, como o tema das minorias e dos explorados, além da causa dos Direitos Humanos, de um melhor entendimento do papel das FARC e do fim do embargo à Cuba. Posso lhe passar uma vistosa bandeira vermelha e vê-la desfraldada em suas macias mãos?

- Por fim, explique para todos nós, como foi que conseguiu enganar durante tanto tempo aquele pessoal lá do PSDB, se agora está mais do que provado que o seu negócio é mesmo lutar pela revolução socialista? Eles nunca desconfiaram de suas reais intenções? Conte também, como foi que os revolucionários socialistas do PSB o descobriram tão escondidinho lá nas hostes adversárias. Que faro eles tiveram, não? E para encerrar mesmo, só mais uma: Como faz para não ficar nem um pouco corado ao responder essas perguntas?
Obs.: A foto lá do alto, com o Varela entrevistando um famoso político tupiniquim foi um lapso, porém desculpável. É que tanto Maluf, quanto Chalita se parecem tanto, no conteúdo como na carcaça, que acredito passará mais do que batida. No texto de jornal, uma prova de que Chalita cospe no prato que come, coisa feia e que mostra algo sobre sua forma de agir. Fez parte do staff destruidor da Educação pública paulista e hoje quer se mostrar isento. Lindo, não?

OUTRO QUESTIONAMENTO, ESSE PARA O MANDATÁRIO DA "CULTURA" DE BAURU:
Essa poderia muito bem ser feita pelo Varela, mas quem a a formula sou eu mesmo, não em forma de pergunta, mas de um breve relato, triste e elucidativo:
- No último final de semana, 23 e 24/10, aconteceu em Araraquara (100 km daqui) um Encontro Nacional de Museus Ferroviários, onde vieram representantes de alguns localizados a mais de 2000 km daquela cidade. O de Bauru, tão pertinho, não estava presente. Porém, Bauru marcou presença por lá com a palestra de Ricardo Bagnato, da Associação de Preservação Ferroviária, que foi expor o projeto do Museu do Trem (em galpões nas antigas Oficinas da NOB). Enquanto um caminha a passos largos rumo a concretização desse projeto, o do nosso Museu definha (não por culpa de nossos servidores, mas total ausência de iniciativas do alto clero da Cultura local). Caminhos opostos a evidenciar uma triste e cruel realidade.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

CHARGES ESCOLHIDAS À DEDO (20)

REVISTA “FIERRO”, SUPLEMENTO MENSAL DO ARGENTINO “PÁGINA 12”
Leio diariamente pela internet o jornal da esquerda argentina, o “Página 12” (http://www.pagina12.com.ar/). Conheci a versão impressa quando estive em Buenos Aires, em 2007, para ver Chávez no Ferrocarril. Não parei mais e sempre que posso peço para conhecidos trazerem exemplares vindos de lá. Dessa vez, ciente de que a sobrinha Paulinha, faria sua viagem de lua-de-mel para lá, peço como mimo um exemplar do jornal e algo grandioso. O jornal edita mensalmente uma revista de HQ, a “Fierro – La Historieta Argentina”, com muita gente do ramo e dos mais diferentes lugares, não só da Argentina, como da América Latina. A edição desse mês é mais do que especial, pois é comemorativa dos 3 anos de circulação e sai com número maior de páginas. Algo imperdível, para alguém como eu, que já colecionei muitas nacionais, como a Circo, Chiclete com Banana, Inter Quadrinhos, Piratas do Tietê e outras (muitas repassei para o filhão). Estava a matutar desde o começo do mês como faria para ter essa Fierro especial aqui no mafuá. Quando tomei conhecimento que Paula estaria por lá, pedi e fui buscar a revista e o jornal em sua casa na quarta passada, quando retornou de uma semana conhecendo Buenos Aires.

Antes de escrever mais da Fierro, quero tecer umas palavrinhas sobre o Página 12. Que belo jornal, editado num formato tablóide e com algo meio que inconcebível aqui no Brasil, dito continental. Por aqui já foram feitas tentativas de se editar um jornal diário de esquerda, mas nada vingou. Lá, viceja esse e outro mais recente, o “Crítica de la Argentina” (http://www.criticadigital.com.ar/). Prefiro o Página 12, pois adoro as tiras do Rep, o formato tablóide, as crônicas diárias da última página e os belos textos, nada curtos, com uma visão de mundo bem dentro da maneira como encaro este mundo. É o tipo de jornal que, com toda certeza assinaria sem nenhum esforço. Uma pena não existir algo assim por aqui. Público para ele existe, o que falta ainda é um pouco mais de ousadia, de algum desvairado, com coragem suficiente para seguir por essa trilha. Faz uma falta danada diante do que produz a dita grande mídia brasileira, tão tendenciosa e a defender interesses que não o de todas as camadas de leitores.

Voltando à Fierro, que bela revista. Praticamente não existe texto, tudo são as pequenas histórias e nessa edição, 76 páginas, com cada mestre do traço ocupando uma página. Temas variados e uma mistura de traços, formas e cores para embasbacar os admiradores. Quando peguei nas mãos, não resiste enquanto não a devorei todinha (sic). Foi vapt-vupt. Reproduzo algumas dessas páginas e aqui o nome dos desenhistas na ordem de publicação: Niño Rodriguez, El Tomi, Alfredo Flores, Cristian Mallea, o brasileiro Iturrusgarai e Juan Soto. Deu para sentir o clima e ver que não minto quando recarrego nos elogios? Cresci lendo quadrinhos e histórias desse tipo. Hoje, o mercado editorial brasileiro perdeu um pouco da ousadia e já não produz revista como antes. Algumas inovações estão pintando pela Internet, mas quase nada sendo impresso. Nossas bancas estão infestadas de quadrinhos, mas quase só mangás e séries estrangeiras. Dê uma espiada em qualquer sebo ou bancas especializadas em HQs e constate isso. Continuam existindo fanzines mil por aí, mas garimpar isso é trabalho árduo, para verdadeiros admiradores.

Obs.: Constatem hoje como a mídia brasileira compreende a relação com os demais países latinos. O Uruguai, nosso vizinho ao sul, realizou eleições ontem e um candidato de esquerda, José Mujica, praticamente ganhou o pleito. Por aqui, meros textos de página interna. No Página 12, deu capa e páginas e mais páginas com reflexões variadas. Nem parece sermos latinos.
Obs. final: Cliquem nas fotos pequenas e vejam a página num tamanho ideal para leitura.

domingo, 25 de outubro de 2009

UMA MÚSICA (52)

UMA MÚSICA "ESQUISITA" (DODECAFÔNICA), UM FACÍNORA, UMA HISTÓRIA E UM SHOW EM GARÇA, DE GRAÇA
A música, uma a me embalar desde os anos 80 é 'Clara Crocodilo', do Arrigo Barnabé, seu maior sucesso. Ele, pelo jeito inusitado e irreverente, atravessa décadas e continua a provocar alvorosos e suspiros (de ardor e de espanto), como os vistos no show que fui assistir ontem, junto dos amigos Sivaldo Camargo, Marcos Paulo e Maria Luiza. Foi um exaustivo dia e após o encerramento da Conferência Municipal de Cultura de Bauru, por volta das 19h30, viajamos quase que direto, sem pausa e descanso, tudo por 'Clara'. Atravessamos a noite, numa noite chuvosa (era Clara se manifestando, tudo ele) e fomos até Garça, 80 km, sendo recepcionados pela dirigente cultural de lá, a Susy Mey Truzzi, tudo para rever Arrigo e sua banda, a Sabor de Veneno. Contagiante e inebriante é o que poderia dizer sobre o presenciado. Êxtase total, quase em transe e no final, Susy nos leva ao camarim. Fotos, autógrafos e velhas lembranças, de shows já assistidos e um clima descontraido com os músicos. Voltamos sem chuva e em pouco menos de uma hora, novamente Arrigo e banda dominando o ambiente. O próprio Arrigo deu a melhor definição sobre o seu dodecafônico som: "É esquisito. Isso mesmo, esquisito". Como adoramos o esquisito, sentimos até falta do mesmo, adoramos Arrigo. Sintam o calor da letra.

Clara Crocodilo (Arrigo Barnabé) - Composição: Arrigo Barnabé
São paulo, 31 de dezembro de 1999. Falta pouco, pouco, muito pouco mesmo para o Ano 2000 e você, ouvinte incauto, que no Aconchego de seu lar, rodeado de seus Familiares, desafortunadamente colocou Este disco na vitrola, você que, agora, Aguarda ansiosamente o espocar da Champanha e o retinir das taças, você, Inimigo mortal da angústia e do Desespero, esteja preparado... o pesadelo Começou. Sim, eu sei, você vai dizer que é Sua imaginação, que você andou lendo Muito gibi ultimamente, mas então por Que suas mãos tremeram, tremeram, Tremeram tanto, quando você acendeu Aquele cigarro... e por que você ficou tão Pálido de repente? Será tudo isto fruto da Sua imaginação? não, meu amigo, vá ao Banheiro agora, antes que seja tarde Demais, porque neste mero disco que você Comprou num sebo, esteve aprisionado Por mais de 20 anos, o perigoso marginal, O delinqüente, o facínora, o inimigo Público número 1, clara crocodilo...
Quem cala consente, eu não me calo/ Não vou morrer nas mãos de um tira/ Quem cala, consente, eu desacato/ Não vou morrer nas mãos de um rato/ Não vou ficar mais neste inferno/ Nem vou parar num cemitério/ Metralhadora não me atinge/ Não vou ficar mais neste ringue
Ei, você que está me ouvindo, você acha/ Que vai conseguir me agarrar? pois então,Tome.../ Já vi que você é perseverante. vamos ver/ Se você segura esta.../ Meninas, vocês acham que eles queremMais?/ Querem sim!Você, que então é tão espertinho, vamos/ Ver se você consegue me seguir neste Labirinto.
Clara crocodilo fugiu/ Clara crocodilo escapuliu/ Vê se tem vergonha na cara/ E ajuda clara, seu canalha/ Olha o holofote no olho,/ Sorte, você não passa de um repolho/ Onde andará clara crocodilo? onde Andará?/ será que ela está roubando algumSupermercado?/ será que ela estáAssaltando algum banco?/ será que ela está/ Atrás da porta de seu quarto, aguardando o/ Momento oportuno para assassiná-lo com/ Os seus entes queridos? ou será que ela/ Está adormecida em sua mente esperando/ A ocasião propícia para despertar e descer/Até seu coração... ouvinte meu, meuIrmão?
Ouçam uma versão de 'Clara' retirada do Youtube: http://www.youtube.com/watch?v=osBJodQP7kw

Minha história com 'Clara' e meus discos é triste. Há uns oito anos atrás, num dos momentos de aperto financeiro, contatei um dono de um sebo paulistano e lhe ofereci alguns dos meus raros LPs. Vendi quarenta por R$ 400 e ele veio até Bauru (quase 400 km), para escolher. Dentre eles, três do Arrigo, o 'Clara Crocodilo", o "Tubarões Voadores" e o "Cidade Oculta". Dele sobrou só um, o "Suspeito", de 1987. Paguei algo lá atrás e perdi definitivamente os discos (outros também divinais). Um arrependimento me importuna, mas já foi, está feito. Ontem outra história, meu amigo Marcos Paulo, quando lhe contei essa e o convidei para irmos juntos à Garça, fez algo por mim. Rodou dois sebos da cidade em busca do LP do Clara (ele possui o seu). No primeiro quando perguntou se tinham o LP de um tal Arrigo Barnabé, o sujeito do outro lado do balcão respondeu: "É algum de piada? Não conheço" (o nome Barnabé lhe foi sugestivo). No outro, o dono do sebo desconhecia tal artista. Desiludido, deu de costas a ambos e fiquei sem o presente. O fato reforça a vontade de Marcos escapulir desse país, num projeto acalantado para daqui uns seis anos, tendo como destino final, Cuba. Devo embarcar nessa. Arrigo continua embalando o que ouvimos em nossas vitrolinhas.

Mais do Arrigo. Há uns seis meses atrás, o próprio Marcos enviou via e-mail, um texto sobre a importância deste disco em sua vida. Guardei e hoje reproduzo aqui (blog é também a reprodução de textos dos amigos) trechos, como algo marcante em sua vida: "Clara Crocodilo, o primeiro LP de Arrigo Barnabé lançado em 1980, chegou as minhas mãos e ouvidos em 87, foi mais uma obra bombástica apresentada pelo Sílvio, da saudosa loja de discos "A Discoteca de Bauru", mas quem me convenceu mesmo a levar foi o Fábio que participava de um grupo de poesias, gostavam de João Cabral de Melo Neto e também de muitos poetas franceses, conheci Baudelaire através deles. No primeiro momento eu não compreendia aquele disco, Clara Crocodilo era estranho e misterioso para mim e os amigos também não compreendiam nada, menos o "velho" Fábio. Fiquei perdido naquela voz grave, uma outra mais aguda, sons de piano, guitarras, bateria e letras que impressionavam e cantadas assim como os instrumentos de forma que se relacionavam mas não de modo hierárquico. Conhecia assim o Dodecafonismo Erudito, estilo criado pelo austríaco Arnold Schoenberg e idealizado no Brasil pelo mestre Arrigo Barnabé. As 12 notas da escala cromática relacionadas mas diferente do comum das escalas é que não se relacionavam dentro de uma hierarquia. Arrigo Barnabé com Clara Crocodilo recolocou a música brasileira em seu devido lugar, devolveu a dignidade musical perdida com as canções toscas da jovem guarda, de uma forma trouxe para os anos 80 o ano de 68, um som revolucionário, uma explosão da arte, ecos remanescentes de uma época de bravura. Clara Crocodilo foi e sempre será um dos meus grandes consumos culturais, e também sempre algo a se compreender, reviver, imaginar o que é, e quem foi Clara Crocodilo, por onde andará, talvez a encontremos nos sonoros sonhos de uma época rica e congelada no tempo, porque deveríamos ter ficado nela para sempre. Clara Crocodilo foi um amor juvenil que abriu as vias ilimitadas da mente. Arrigo experimentou a revolução dentro da música como Zappa experimentava suas misturas do Jazz, assim como o experimentalismo dos Beatles com "Sgt, Peppers" e o "White Album". Depois de Villa-Lobos, Arrigo talvez seja a maior referencia para mim entre compositores do Brasil. Sua estréia com Clara Crocodilo trouxe com sua banda Suave Veneno nomes feras para nossa música, o disco produzido de forma independente e trazendo no cast pessoas como Paulo Barnabé, o baixista Otávio Fialho, Itamar Assunção, Vânia Bastos, Tetê Espíndola, pra não mencionar o texto das músicas e a capa do disco, é que de fato um mundo belo se apresentava."

sábado, 24 de outubro de 2009

ARTIGOS NO JORNAL BOM DIA (43 e 44) E QUATRO DICAS CULTURAIS

PRECATÓRIO PAULISTA - publicado na edição de hoje, 24/10
Leio pela imprensa que a Prefeitura de Jaú quer quitar dívidas de precatórios trabalhistas. Esse assunto chama minha atenção, pois minha mãe move ação de muitos anos, contra o Governo do Estado de SP e esse, insensível com seus velhinhos, lhe dá as costas. Uma vergonha e ainda querem que ajustemos nossas contas com eles. Como, se não o fazem com seus devedores? São péssimos nos exemplos e ainda por cima, Serra quer ser presidente da República. Serra e a conivência intencional dos deputados estaduais paulistas, todos fingindo não verem o orçamento estadual ser descumprido de forma vergonhosa. A verba destinada aos pagamentos é usada em outras atividades e nada é feito. Onze anos de atraso, total de R$ 11 bilhões de reais e mais de 900.000 credores-servidores. O calote está institucionalizado em São Paulo, num total desrespeito à Constituição Federal. Vergonha maior é o Tribunal de Justiça do Estado e o STF, da União nada fazerem, ou seja, tudo aceito pacificamente pelas ditas autoridades constituídas. Recorrer a quem? Digam-me, pois nossas instâncias máximas não gostam de se pronunciarem sobre tão delicado assunto, contrariando os interesses do governador. Mais vergonhoso ainda é constatar que velhinhos estão vendendo uma cessão de crédito para empresas devedoras fiscais, que compram seus créditos para abaterem suas dívidas. Pagam de 25% a 30% do valor e na necessidade, concretizam um péssimo negócio. Tudo com a conivência do Governo do Estado de São Paulo.

KELLER E OS QUE FICARAM - publicado na edição de 17/10
Paulo Keller nos deixou essa semana. Com sua despedida, esse mundo do lado de cá ficou um pouco mais triste, sorumbático e chato. Aproveito esse triste momento para uma constatação, a de que a irreverência e o desprendimento nas ações estão dando lugar para um mundo mais comportadinho, embalado para consumo, onde a contestação está ficando inócua, algo para uns poucos, considerados lunáticos, verdadeiros doidos varridos. Os não enquadrados sofrem um bocado. Que chatice esse mundo “gado”, onde o pensamento é único e pregar o contrário uma heresia. Defender uma ideologia baseada na justiça social, algo impensável e preocupante, diante do batidão de que o capitalismo é perfeito, mesmo diante de todas atrocidades cometidas em seu nome. Vejam o caso panamenho, onde um golpe de estado derruba um presidente legalmente eleito. Mídia e gente graúda tupiniquim se contorcem na defesa dos golpistas e continuam afirmando serem democratas. Caras de pau. São os mesmos a criticarem a possibilidade de terceiro mandato por aqui e aplaudem o de Uribe, na Colômbia. Esses mesmos (sempre eles) não aceitam verem o Brasil respeitar os demais países latinos, principalmente os mais fracos. Adeptos do “prende e arrebenta”, são a verdadeira face do atual momento. Nós, os sobreviventes conscientes, os ainda com capacidade de indignação, quando nos deparamos com o sorriso maroto do Keller no caixão, imaginamos o que poderia pensar naquele momento: “Tô em outra, escapuli desse inferno!”.

VAMOS AS TAIS DICAS PARA OS PRÓXIMOS DIAS:
1. Ontem e hoje acontece aqui em Bauru a segunda Conferência Municipal de Cultura e nessa, a reafirmação de algo que já foi proposto na anterior e estará sendo consolidada com essa. Trabalho intenso na área cultural da cidade, justamente num momento dos mais críticos, onde o setor Cultural anda um tanto emperrado, com o freio de mão puxado. Os motivos são mais do que evidentes e já expostos. A desmotivação na classe cultural ficou evidente na abertura de ontem, com a baixa participação da classe artística e o Teatro Municipal recebendo pouco mais de 50 pessoas. Independente de tudo, o que deve ser levado em consideração, sempre, é que as pessoas são transitórias (mesmo quando se acham portadoras de um discutível Direito Divino) e a Política de Cultura do Município permanecerá.

2. Kátia Pensa Barelli foi estágiaria de jornalismo na Secretaria Municipal de Cultura e hoje, já formada, viceja por aí, trabalhando no SESC Sorocaba como animadora cultural. Competente e com a mente em ebulição, contribuiu decisivamente para a divulgação dos eventos realizados anos atrás, quando formou uma dupla, ao lado da Morena, lá na Cultura (saudade danada, hem!). Batiam um bolão juntas e continuam a fazê-lo isoladamente. Kátia é de Bariri e naquele período produziu um belo vídeo, o "De Alma Livre", retratando a história dos grupos de Catira e Folia de Reis de Bauru (ganhei uma cópia e a tenho aqui no mafuá). Foi a entrevistada da semana no programa Provocare, de Sorocaba e além de falar de seu trabalho, trajetória, mostrou um pouco do que acontece do lado de cá, na Bauru, não a dos "altos", mas a dos "baixos", o lado pouco observado da cultura popular. Quando provocada, essa moçada reage maravilhosamente e produz divinamente, fazem fluir algo a irradiar coisas boas. Mais informações no: http://provocaretv.blogspot.com/

3. Beto Maringoni, o embaixador do traço bauruense pelo mundo afora volta à terra natal para o lançamento do seu mais novo artefato de quadrinhos, o livro "Tocaia", editado pela Devir. É um álbum com 14 histórias, publicadas originalmente entre 1989 e 2002. O local é o bar Templo, terça, 27/10, 20h30 e só não estarei por lá se o motivo for de força maior. Leiam esse testículo (sic, texto) de apresentação, que pela beleza, sou obrigado a reproduzir na íntegra:
O AUTOR DA CILADA "A grande contribuição de Minas Gerais para a cultura universal é a tocaia. A tocaia é uma homenagem à vítima. Morre sem aviso prévio, delicadamente, se possível desconhecendo o autor da cilada". Assim falava Otto Lara Resende (1922-1992), um dos maiores frasistas brasileiros. À diferença de Otto, o autor deste livro não é mineiro – nasceu em São Paulo em 1958. Mas não deixa de prestar com esta Tocaia uma homenagem a todos que amamos histórias em quadrinhos. Apenas não morremos sem aviso prévio. Nós, os tocaiados, sabemos direitinho quem é o autor da cilada. Um matador de enorme talento chamado Gilberto Maringoni. Pois é, talento. Esta antiga moeda grega jamais faltou na algibeira do menino que, desde Bauru, no interior paulista, onde foi criado, zanzava pelo hangar do aeroclube local xeretando o cockpit de Paulistinhas e Aeroboeros. Claro, havia ainda as matinês no cine São Paulo, obrigatoriamente precedidas pela troca de gibis da época – Águia Negra, Nick Holmes, Combate e Capitão Marvel. Havia também a inesquecível coleção A Segunda Guerra Mundial, da editora Codex. Ela era ansiosamente esperada na banca para que o moleque confe-risse na terceira e na quarta capas do fascículo quais as armas da semana. Podia ser, por exemplo, um Messerschmitt BF-109 ou um Supermarine Spitfire, esses dois antípodas aéreos da Segunda Guerra que Maringoni copiou vezes sem fim, como todos os que se tornaram grandes ilustradores. Some-se a tudo isso uma voracidade pela leitura dos grandes clássicos de aventura – A Ilha do Tesouro, Vinte Mil Léguas Submarinas, Ben-Hur, Moby Dick, O Último dos Moicanos, Ivanhoé, Dom Quixote, Três Escoteiros em Férias no rio Paraná, O Bugre-do-Chapéu-de-Anta – e pronto: eis aí a matéria de que os grandes quadrinistas são feitos. Claro que nosso herói não poderia se contentar com tão pouco. Resolveu fazer arquitetura na FAU-USP e ainda praticar vôo de planador. Mesmo assim, se confessa – vejam como é insondável a alma humana – um arquiteto e um piloto frustrados. Está certo, convenhamos: Maringoni não é nenhum Niemeyer e muito menos um Chuck Yeager (dois de seus ídolos, aliás). Não projetou Brasília nem foi o primeiro a quebrar a barreira do som. Mas em matéria de tocaia gráfica e outras estórias, bota qualquer jagunço rosiano no chinelo. E quem duvidar que venha armado", texto de Fernando Paiva.

4. Hoje, sábado, 21h em Garça, no Teatro Municipal de lá, show gratuito com ARRIGO BARNABÉ e estarei me juntando a uma trupe bauruense, enfrentando garbosamente os 80km de distância, tudo em busca de um pouco de cultura e algo dos mais agradáveis, conferir o trabalho do criador de "Clara crocodilo", em 30 anos de estrada. Depois conto aqui se tudo deu certo. "Tem que ter um bom motivo para perder este Show !!!!", são as palavras da dirigente cultural de Garça, Susy Mey Truzzi. Reserva de ingressos no 14.81229027 e maiores informações no http://www.teatromiguelmonico.wordpress.com/

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

BAURU POR AÍ (27)

FESTA DA CIÊNCIA NO SESC E ALGO SOBRE O TERMO “ÚLCERA DE BAURU”
Acontece hoje do SESC, das 8h00 às 21h30 mais uma “Festa da Ciência” (encerrando a Semana Nacional da Ciência e Tecnologia) e vou estar por lá, pois o filho estará presente no estande da CTI - Colégio Técnico Industrial da UNESP, com sua vestimenta cosplay e tirando dúvidas sobre mangás, games e personagens variados dos HQs, principalmente os japoneses, sua especialidade. Essa grande festa é interessante e poderia servir também para elucidar algo que me intriga. Bauru ganhou fama nacionalmente, sendo denominada no meio científico como a geradora do dito “Úlcera de Bauru”. Já ouviram falar disso? Pergunte para qualquer cientista, professor da área ou mesmo médico e eles lhe explicarão nos mínimos detalhes.

Ano passado, em março, fui procurado pelo pesquisador carioca André Felipe Cândido da Silva, da Fio Cruz (Fundação Oswaldo Cruz, Manguinhos RJ), querendo ter acesso a documentos aqui em Bauru sobre os primórdios da ferrovia, pois estava concluindo um trabalho, que deveria ser transformado em livro, “História das doenças nas ferrovias” e seu interesse por Bauru, claro, era por causa do famoso entroncamento ferroviário e o tal do termo, “muito conhecido no meio médico”, como me disse. Do seu trabalho não tive mais notícia, pois sai da Secretaria Municipal de Cultura em janeiro (vou pesquisar e informo aqui posteriormente), mas do termo, que certamente, muitos em Bauru rejeitam, algo a ser esclarecido.

O mesmo é relacionado à leishmaniose e numa rápida pesquisa encontro: ”A leishmaniose tegumentar americana, conhecida popularmente pelos nomes: “úlcera de bauru”, “nariz de tapir” e “ferida brava”, se caracteriza por apresentar feridas indolores na pele ou mucosas do indivíduo afetado. É causada por protozoários do gênero Leishmania, como o L. braziliensis, L. guyanensis e L. amazonensis: parasitas de vertebrados mamíferos. Fêmeas de mosquitos do gênero Lutzomyia são os vetores. Esses, de tamanho pequeno (menores que pernilongos), podem também ser chamados de mosquito-palha, birigui, cangalhinha, bererê, asa branca ou asa dura. Vivem em locais úmidos e escuros, preferindo regiões onde há acúmulo de lixo orgânico, e movem-se por meio de voos curtos e saltitantes”.

Não quero me aprofundar nesse assunto, pois dele sei muito pouco, mas seria interessante atualizar os dados. Os reais motivos da difusão desse mal? Sua incidência em Bauru foi em decorrência da ferrovia e a denominação por causa do famoso hospital de tratamento aqui localizado? Como tudo é encarado pela Ciência hoje? Remanescentes daquele período e suas histórias. Um belo trabalho de pesquisa, que certamente, o pesquisador André fez e já deve ter a maioria das respostas prontas (no "santo" Google clicando seu nome, muita coisa pode ser encontrada). Que o tema tenha prosseguimento. Por fim, tiro uma foto na tal Festa, do filho junto a um ilustre personagem do mundo científico brasileiro, CARLOS CHAGAS. Quem seria o ilustre bauruense por trás daquele imponete bigodão? Seriam capazes de matar a charada? A resposta está lá embaixo e deixo aqui uma excelente dica de leitura: A revista Caros Amigos acaba de colocar nas bancas, em 12 fascículos quinzenais, a série "Grandes Cientistas Brasileiros" (R$ 8,90 cada) e no primeiro, Carlos Chagas. Imperdível.
Resposta da Charada: É o professor TOKA, querido amigo e um dos que me lêem aqui nesse espaço.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

UMA DICA (45)

UM TRIO NOS PREPARATIVOS DE UM CONCURSO DE MARCHINHAS CARNAVALESCAS
Pelo menos nas últimas três reuniões do Conselho Municipal de Cultura, José Perea Martins, representando a Academia Bauruense de Letras tocava num tema e não recebia a atenção devida. É um entusiasta da retomada do Carnaval, mas não nos moldes com Escolas de Samba e envolvimento de dinheirama pública em abundância. Queria uma retomada pelas beiradas, propondo a criação de um Concurso de Marchinhas Carnavalescas. Não encontrava eco. Na última reunião, realizada em 08/10, a situação estava se repetindo quando pedi a palavra e propus a criação de uma comissão para discutir o assunto, pois a proposta não onera os cofres municipais e poderá ser algo a alavancar os festejos. Outro conselheiro, o ator e diretor teatral Carlos Eduardo Martins comprou a idéia no ato e juntando-se a nós, com o aval dos demais presentes, estava constituída ali, naquele momento uma Comissão para tratar do assunto. Skindo! Skindo!

Saímos dali com a primeira reunião já definida e ela ocorreu em 13/10, uma segunda, 10h. Perea trouxe dois regulamentos de outros concursos, um de Além Paraíba, no interior do RJ e outro, realizado na Fundição Progresso, também no Rio, esse recebendo o nome de Prêmio João Roberto Kelly (um emérito criador de marchinhas). O assunto foi discutido e um regulamento próprio já foi apresentado e aprovado no encontro seguinte, realizado em 19/10. Provando que o trio não veio para brincar (brincar, só no Carnaval, e muito), voltamos a nos reunir em 22/10, sempre no Fran’s Café, da avenida Getúlio. Batemos o martelo no texto e estamos disparando o tema como algo irremediável e pronto para ser tocado para frente, com a seriedade que o assunto merece.

Na seqüência estaremos protocolando a minuta do que já foi aprovado, junto à Secretaria Municipal de Cultura, para os devidos tramites. Na próxima reunião do Conselho, algo de mais concreto também já estará sendo apresentado. A data do Concurso já foi sacramentada, será em 23/01/2010, servindo como uma espécie de pré-carnavalesco na cidade. Locais e tipos de evento já estão sendo pensados e o mais certo é que ocorra um baile após a realização do concurso e a conseqüente premiação. Esse Regulamento está sendo repassado para os órgãos da imprensa locais, dando um pontapé inicial no tema, pois pela discussão realizada, o que está vindo é algo para ser realmente realizado. Como tudo está partindo de dentro do Conselho Municipal de Cultura, a esperança é que o evento receba o tratamento adequado da Secretaria Municipal de Cultura. Os custos serão mínimos e a repercussão imensa, pois estaremos retomando o Carnaval no que ele tem de melhor, algo que não pode e não deve ser esquecido, as marchinhas de salão, reunidas num grande baile de abertura dos festejos de 2010. A idéia está lançada e daqui para frente, estaremos recebendo sugestões, novos adeptos e trabalhando intensamente para que tudo realmente aconteça. Quem gosta de Carnaval ao estilo antigo, deve engrossar o coro dos descontentes com o estado de letargia atual.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

DOCUMENTOS DO FUNDO DO BAÚ (05)

DEZEMBRO DE 1987, FÓRMULA 1 NO RIO DE JANEIRO, EU E PAVANATO
ANTONIO CARLOS PAVANATO é um dos muitos amigos conquistados no tempo em que trabalhei na Bradescor, uma extinta Corretora de Seguros do Bradesco, no período de 1980 a 1989. Essa amizade perdura até hoje e dela algo que muito prezo. Tempos depois, apresentado por ele, conheci seu irmão, o Marcelo Pavanato, que durante alguns anos morou em São Paulo e trabalhou no SESC, depois veio para Bauru, onde aprendeu um ofício do qual não mais abandonou, o amor pelos livros, quando atuou na Livraria Peruíbe, do Ozéias Granja. Mais um tempo depois, já na Secretaria de Cultura, vim a conhecer a estudante de jornalismo Mayara Pavanato, filha desse meu amigo. Gosto muito de todos. Conheci também os pais deles, ambos ainda vivos, numa casinha com um lindo jardim na frente, lá em Pirajuí.

Antonio Carlos havia enviado meses atrás fotos de uma viagem que fizemos juntos em dezembro de 1987, exatos 22 anos atrás, quando ainda não usava barba, tinha cabelos e a barriga não era proeminente. Tenho algumas dessas fotos aqui no mafuá, coladas num álbum amarelado pelo tempo, mas o que recebi foram todas. Eu tinha 27 anos, estava casado com a Wilma Cunha e fomos realizar um sonho dele, ir à uma corrida de Fórmula 1. Naquele ano ela ocorria em Jacarepaguá, na cidade do Rio de Janeiro. Lembro pouco da viagem, mas muito bem de uma parada em São Paulo, onde pernoitamos na casa do Marcelo e da Fátima (anos depois ficariam com o jornal O Alfinete, em Pirajuí), lá na rua Martins Fontes. No dia seguinte, ambos nos levaram ao aeroporto, onde embarcamos numa ponte área e caímos no aeroporto Santos Dumont e de lá, para um hotel que já conhecia, pois havia passado minha lua de mel por lá, o Bragança, na rua Mem de Sá, na Lapa (lugar que todas as vezes que retorno ao Rio, bato cartão, não no mesmo hotel, mas sempre na Lapa).

As fotos falam por si e essas são mesmo do fundo do baú. Trazem ótimas recordações, de um tempo inesquecível. Marcelo e Fátima estão numa foto conosco no aeroporto de Congonhas e as demais são minhas e do Antonio Carlos. Em mim, já se acentuava o início da calvície, que hoje toma conta do meu cocoruto. Nele, pouca coisa mudou, a não ser os cabelos brancos e um pouco mais de barriga. Fiz questão de tirar uma foto defronte o nome Bradesco, local onde trabalhávamos, umas no alto do Pão de Açúcar e na praia. Por fim, as no autódromo, com a pista ao fundo (não me perguntem quem ganhou a tal corrida, eu não sei e acho que nem meu parceiro de viagem ainda tem lembranças disso). De lá, uma única recordação, um barulho infernal e incessante, os tais motores roncando. Eu mesmo me peguei rindo sozinho ao recordar de minhas cavadas camisetas, uma verde e outra, branca e amarela. Em outras, um paletó verde escuro, do qual gostava muito e fiquei muito triste quando a Cleonice, minha segunda esposa, vendo-o curto e sempre num lugar de destaque em meu guarda-roupa, num dia qualquer acabou dando um sumiço nele. Adorava esses paletós despojados, esse com ombreira, mostrando meu jeitão irreverente no vestir. As fotos enviadas pelo Antonio Carlos estão aí para todos verem e nelas algo mais, pois muitos dos meus amigos atuais nunca me viram sem barba (a Cleonice e meu filho são alguns desses). A barba deixei crescer tão logo sai do banco, quando não tinha mais aquela obrigação de fazê-la todo dia. De 1989 para cá, barbudo fiquei.

Antonio Carlos, você nem imagina o bem danado, que foi reviver velhas lembranças com essas fotos.
OBS.: Cliquem nas fotos e ficarão grandonas. Na do carro quebrado, Antonio Carlos e seus pais.