quarta-feira, 26 de setembro de 2012

UM COMENTÁRIO QUALQUER (103)

HOJE É O DIA – TEMPLO, FACE, SESC E TALITA
De 25/10 a 06/10 nas paredes do Templo Bar, aqui em Bauru a exposição do parceiro FAUSTO BERGOCCE, com 50 das 250 aquarelas que produziu especialmente para ilustrar o livro que fizemos juntos, o “REGINÓPOLIS, SUA HISTÓRIA” (mesmo nome da exposição). Fausto, como não canso de divulgar desenhou sua cidade natal inteira, de cabo a rabo, desde locais, personagens, recriou fotos históricas, enfim, tudo. Um bocadinho disso estará à disposição dos clientes do Templo. Dentre os meus preferidos uma retratando o pintor Baccan (ao lado de Montanher, outro como ele, pintor do rio Batalha) no habitat em que trabalhavam, as barrancas do rio. Esse trabalho do Fausto, todo em aquarela foi a loucura de sua vida por alguns anos. Quando estivemos no ateliê do Ziraldo no Rio, ele olhando para o livro não acreditou e disse a nós: “Você é louco, Fausto, como fez isso. Eu nunca consegui fazer isso com Caratinga e você fez com sua Reginópolis. Existem poucas coisas iguais a essa no mundo. Você produziu uma obra inigualável de arte”. E foi mesmo. Para certificarem-se do que escrevo, só mesmo passando por lá. E para os que quiserem e ainda não possuem o livro, ele estará à venda pelos módicos R$ 30 dinheiros. Eu e Fausto negociamos mais duas semanas de exposição em outro espaço da cidade e se possível um novo reencontro com os amigos, para outubro, quando reuniremos não só amigos, mas reginopolenses e gente que gosta se sair de casa para bater papo e valorizar o que os amigos estão produzindo (para limpar o restante estoque). Já passei por lá ontem à noite (vi a Audren Victorio cantando e encantando) e confesso, bebi uns três quadros no período da estada. Não fiquei mais, pois a garganta começou a doer.

“Criar, questionar e se defrontar a múltiplas possibilidades de expressão artística, são esses os convites que o FACE Bauru faz. Inundar cada espaço, colocar o Homem face a arte, contaminar todo público! FACE - Bauru, o Festival de Artes Cênicas de Bauru, uma realização do Protótipo Tópico, tem sua primeira edição neste ano de 2012. São 5 dias de espetáculos, oficinas e bate-papos, contemplando as diversidades das artes cênicas, a dança, o teatro, o circo e a performance, criando um encontro de artistas, público, ideias e expressões”, com esse texto o site do FACE (http://www.facebauru.art.br/) oferece aos bauruenses a possibilidade de arte e cultura nos próximos cinco dias. Algo inusitado, vindo em boa hora, movimentando o meio cultural e propondo (toc toc toc) tornar-se algo duradouro. O espetáculo de abertura é hoje, logo mais à noite e com o grupo VIÉS (http://www.youtube.com/watch?v=yOyUqgM8ldU) com a Cia L2. Tudo será uma grande surpresa, tenha certeza, agradável. Pelos patrocinadores, pelos apoiadores por trás de tudo, pela gratuidade do evento, bato palmas em pé e fico instigado a não perdeu um espetáculo sequer.
Também hoje, quarta, 26/09, um algo mais do que imperdível pelas bandas do SESC, 21h, entrada gratuita. Quem me passa a dica é o Felipe Gonzalez, manager da Difusa Fronteira, que traz todos os latinos in terior afora: “estaremos novamente com o LATINIDAD no SESC Bauru, agora com o chileno GEPE. Ele é um dos nomes mais destacados da música chilena atual, combina o folk-rock regional com a música pop/eletrônica. Com mais de 10 anos de trajetória e três CDs lançados, traz ao Brasil o show “AUDIOVISION” do trabalho de mesmo nome lançado em 2009 e que integrou a maioria das listas de melhores discos do ano em diversos países da América Latina. Em um crescente trabalho de internacionalização, Gepe é ídolo no México e na Argentina e já levou seu trabalho para outras países como Espanha e China. O músico que já participou também do Festival El Mapa de Todos em Porto Alegre no conceituado Teatro Opinião”. Sons latinos é comigo mesmo.
Pedido de PAULO NEVES para mim é quase uma ordem, tal a seriedade com que trata tudo que faz  (seu projeto da Semana Latinoamericana do D'Incao é de babar no queixo). Dele recebo um e-mail com um enunciado dos mais singelos sobre TALITA, sua filha e assim como ele e o outro filho, THIAGO, pessoas teatrais. Veja o texto: “A Talita Neves está em terceiro lugar no Concurso SE LIGA NA CAIXA (www.seliganacaixa.com.br), que a CEF idealizou para quem possui um sonho teatral. O sonho de Talita e suas alunas é montar uma Casa de Cultura para crianças em Curitiba. Veja o vídeo, que está em nome da Dirceli e já em terceiro lugar”. O projeto da Caixa é valoroso e outros sonhos podem ser contemplados, esses coletivos, com maior abrangência os mais necessários.

terça-feira, 25 de setembro de 2012

PRECONCEITO AO SAPO BARBUDO (50)

O INSTITUTO MILLENIUM : A DIREITA BRASILEIRA E BAURUENSE - QUEM SERIAM ELES?
Ouço regularmente um famoso radialista de Bauru no seu microfone propagando em alto e bom som: “Não existe mais esse negócio de direita e esquerda. Isso acabou faz tempo. Besteira ficar tentando identificar quem está de um lado ou outro, pura perda de tempo. Hoje tudo é uma coisa só”. Balela é a conversa dele. A dicotomia continua existindo como dantes e com um dos lado, o da direita agindo de forma mais cruel e insana, e o outro, infelizmente, em alguns casos, com um renegar de luta e enfrentamento, muitos vivendo do passado (sem ação nenhuma no presente) e somente uns poucos podendo de fato ser identificados com o rótulo de ser de esquerda. Leio que no Chile, nosso vizinho latino a coisa é de fácil identificação. Numa mera conversa de bar, o sujeito se posta diante de ti e deixa claro sua posição: “Sou de direita”. E o diálogo se estabelece, com ambos os lados sabendo com quem se está conversando, sem nada oculto. Aqui no Brasil existe esse papo de que tudo acabou e aquele que ferra o povão, vota sempre ao lado dos que danam os trabalhadores ainda possui o disparate de se arvorar como democrático, paladino da Justiça e da Lei. Cansei disso tudo.

O motivo de minha escrita de hoje é indicar duas leituras elucidativas sobre o tema. Escrevo de duas revistas pelas quais gosto muito. Leio ambas mensalmente. Na primeira, a CAROS AMIGOS, edição nº 185, setembro de 2012 e na manchete de capa o título, “INSTITUTO MILLENIUM – O ARTICULADOR DA DIREITA BRASILEIRA”. Em suas páginas 16 à 19, com o subtítulo, “A verdadeira face que a direita oculta – Com espaço na grande mídia e forte apoio do empresariado, entidade desenvolve papel fundamental na formulação e defesa de um projeto de direita para o país”. Na bela matéria de Débora Prado, algo interessante para quem quer conhecer como funciona esse e outros órgãos na defesa dos bens acumulados por poucos em detrimento de muitos. “Como funciona o Millenium”, “Instituições ligadas ao Millenium”, “O que fez o Instituo Millenium nos últimos anos”, “Empresas apoiadoras” e “Quem compõe o IML”, são os títulos. Muito elucidativo. Acessem o site da revista, no www.carosamigos.com.br e sobre a edição especial http://www.youtube.com/watch?v=jm2bI97OzvM&feature=plcp . Corra para as bancas, pois esse exemplar ainda está em todas elas.

A segunda revista é a BRASILEIROS, edição nº 62, setembro de 2012, que acaba de chegar às bancas e na capa a manchete: “A DIREITA MOSTRA SUA CARA... INSTITUTO MILLENIUM IMPULSIONA O CRESCIMENTO DE GRUPOS CONSERVADORES NO PAÍS ENQUANTO A ESQUERDA SE DESENTENDE – O PSB BRIGA COM O PT, O DEM CRESCE E O PSDB MURCHA”. São matérias bem elucidativas escritas por Alex Solnik, Hélio Campos Mello, Luiza Villaméa e Ricardo Kotscho. Das páginas 66 até a 85 e com o título de “A esquerda baixa a guarda”, uma análise sob todos os aspectos do que foi, do que é e do que possa vir a ser os movimentos esquerdistas no país, avanços e retrocessos. Depois, das páginas 88 à 97, com o título “A direita sai do armário (com roupas da esquerda” – Lady Baginsky, Ricardo Salles, Ricardo Gama, Hélio Beltrão Filho, Movimento Endireita Brasil, Movimento Diretas Já. O que pretendem os jovens brasileiros da direita, liderados pelos Instituto Millenium”. Acessem o site www.revistabrasileiros.com.br .
Para ler as duas belas matérias o gasto será de exatos R$ 20,80. Vale muito a pena.

Encerro o texto e após ler as duas consegui relacionar vários nomes de BAURUENSES que pela sua prática diária poderiam muito bem ser taxados como DIREITISTAS. Inqueridos, talvez a maioria negue, bem em cima daquilo que escrevi no começo do meu texto, mas não tem como negar, aqui existe uma legião de pessoas com um pensamento muito bem enquadrado no pensamento e ação da direita, seguindo os preceitos  do indefectível Instituto Millenium. Assim de cara lembro-me de mais de cem nomes. No Millenium não se espantem, eis alguns dos 450 nomes citados em seu site como pertencentes ao pensamento de direita: Ives Gandra Martins, Nelson Motta, Marcelo Madureira, José Padilha, Carlos Vereza, Bolívar Lamounier, Demetrio Magnolli, Carlos Alberto Saldenberg, Claudia Costin, Roberto da Matta, Pedro Malan, Pedro Bial... Sabe quem banca tudo isso, como mantenedores e parceiros: Grupos Abril, Estadão, Localiza, Gerdau, Suzano, RBS, etc.

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

INTERVENÇÕES DO SUPER-HERÓI BAURUENSE (44)
A POESIA CAMINHA NO SENTIDO OPOSTO AO DA ATUAL POLÍTICA
Reta final de eleição é quando os ânimos mais se acirram. Exaltação à flor da pele e diante disso o GUARDIÃO, super-herói bauruense, desses que não age conforme as conveniências pré-estabelecidas pela forma como é feita a política nos tempos atuais, vem a público sugerir uma redescoberta nas carcomidas relações humanas. Seria de bom alvitre se todos os envolvidos com o tema dessem um breque na insanidade, voltando seus olhos para a poesia. “A insanidade é esse endeusamento irrestrito ao deus dinheiro, às conveniências do mercado, ao conchavo de coligações espúrias, boicotes das leis usando-a conforme sua conveniência, aos verdadeiros atentados à lei da razão e do bom senso, e principalmente, à falácia perniciosa de se acharem os únicos salvadores da pátria, quando se usa muito o ‘eu’ resolvo e cada vez menos o ‘nós’. Está todo mundo no desvio e se achando o máximo”, começa sua explanação, o sempre ponderado Guardião.
A proposta do super-herói é a de que falta POESIA nas relações atuais. Aliás, falta poesia e sobra insanidade. “Deixaram a simplicidade de lado, a ordem natural das coisas foi deixada de lado, o ordenamento contemplativo de nossas belezas, preservando-o para que gerações futuras não padeçam é impensável nos discursos e ações, enfim perdeu-se a capacidade de enxergar o lado poético das coisas. Tudo continua no mesmo lugar de sempre, mas cada vez a simplicidade das coisas é ignorada, rejeitada, sendo colocado em seu lugar uma besta praticidade, um discurso onde em nome de um tal de PROGRESSO são cometidas as maiores barbaridades e ninguém mais reage. As pessoas parecem estar acuadas pelo discurso desse irrefreável progresso como a única solução, a única via possível e daí tudo é permitido. Observe sempre, em todas as ocasiões onde alguém desfere a palavra PROGRESSO, que algo está sendo destruído, alguém está ganhando muito (poucos, aliás), a maioria sendo enganada e a cidade ficando mais feia. Na boca desses não existe mais possibilidade de conciliação, pois o bolso cheio, os negócios são os impulsionadores de suas vidas”, essa uma parte do desabafo do quase desiludido super-herói, que vê Bauru no meio desse tiroteio, algo que poderia ser de forma simplista resumido na eterna luta do bem contra o mal, muito comum das estórias de HQ, que ele conhece muito bem.

A solução, segundo Guardião está na poesia, não numa simples letra colocada no papel, mas na existente nas mais insignificantes coisas. Tudo pode ser materializado em poesia e, segundo ele, isso é o que se perdeu. Voando pela cidade, acabou baixando sua capa na exposição da unidade local do SESC, a “Olhos de Barros – A poesia de Manoel”. No livrinho explicando o maravilhamento ali exposto algo de singular: “Manoel de Barros é um poeta que vive, em sua poesia, o hiato entre o homem culto e o homem primitivo que é. Ao mesmo tempo em que bebeu da fonte do erudito, também se entregou a uma força a que muitos resistem: a abstração, capaz de levar uma pessoa a lugares muito além do censo comum. A obra de Manuel nasce (...) embolada com as coisas da terra, os musgos, muros de pedra, passarinhos e sapos”.

Quem não entendeu nada precisa ir lá e conferir o que seria isso e como o deslumbre pode contribuir nos enfrentamentos aos ‘dragões da maldade’ existentes no dia-a-dia. “As pessoas precisam aprender a viver mais desapegadas das coisas materiais. Dar outro sentido às suas vidas, mudar de rumo, acordar para a necessidade da preservação, da não destruição, da não acumulação excessiva, deixando dessa forma de serem doentes. É a busca pela cura. Esse amontoado de gente se achando uma melhor e mais preparada que a outra, vendo só os erros dos outros e não os seus próprios, essa ganância pelo poder a qualquer custo é uma doença. Manoel de Barros propõe a todos um tratamento intensivo e para sacarem isso seria bom nossos candidatos, não só os do Executivo, mas também do Legislativo irem lá e saírem do prumo. Eles estão aprumados pelo lado errado da vida e precisam de toques, algo transformador em suas vidas. Não peço para que sejam bobões, ficando com a cabeça no mundo da lua, não, não é nada disso. A luta por dias melhores é contínua, mas sem ganância, sem essa tola superioridade, esse ar de maldade explícita, inerente do neoliberalismo acumulativo e predatório. Quem for lá e não for tocado, pode esquecer, não serve como nosso representante. Queria vê-los debatendo sua visão de mundo diante de tudo aquilo, após uma viagem pelos ensinamentos desse Manoel, o poeta pantaneiro, bugre e cheio de sabedoria, bem diferente da encontrada nos discursos dos políticos e candidatos. Será que algum deles já passou por lá? É necessário desparafusar o queixo empinado e desatarraxar a arrogância existente dentro de cada um. A poesia tem esse poder”, encerra a questão e deixa a sugestão no ar.

Obs.: Esse guardião é criação do desenhista Leandro Gonçalez (www.desenhogoncalez.blogspot.com), com pitacos desse mafuento escrevinhador, o HPA, ambos inspirados na poesia de Manoel de Barros. Uma alvissareira notícia para o Guardião: Gonçalez foi contatado pelo CATALOGADOR BRASIL, cujo endereço no facebook é http://www.facebook.com/catalogador e lá a reunião de todos os super-heróis brasileiros. Guardião está sendo incluído no catálogo dos Heróis do HQ Nacional e em breve tudo será explicado de forma mais detalhada por aqui. É um luxo só!!!

domingo, 23 de setembro de 2012

ALFINETADA (102)*
*continuo reproduzindo aqui no blog meus antigos textos (ainda no ano de 2000) publicados no semanário O Alfinete, de Pirajuí SP. Com a leitura percebe-se como em apenas 12 anos, muita coisa mudou em nossas vidas, até a forma como encarávamos algumas questões. Hoje mais três textos:

PREPAREM-SE: VEM MORDAÇA POR AÍ  (16) – publicado na edição nº 80, de 09/09/2000
Triste e séria constatação:  o governo FHC quer encobrir de seu povo muita coisa errada que aconteceu nos bastidores palacianos. Para chegar nessa conclusão poderíamos seguimos vários caminhos, tais os descaminhos presenciados no mau trato com a coisa pública e os mais variados escândalos, envolvendo pessoas eminentemente ligadas à atual administração. Escolhemos um deles, talvez um dos mais importantes: A LEI DA MORDAÇA. É muito fácil entender o que se passa. Escândalos pipocam, a corrupção está quase institucionalizada e um dos órgãos que mais a combatem é o Ministério Público na figura de seus procuradores. Eles tem um papel fundamental na condução do processo democrático, pois encaminham, denunciam e acompanham os vários processos de corrupção dentro da coisa pública. São hoje um dos poucos órgãos que ainda conseguem cumprir o seu papel sem interferência, pois quando iniciam um processo, não podem ser substituídos. De um a certa forma são intocáveis, tornando-se uma pedra no sapato dos corruptos. Prefeitos, vereadores, políticos de uma forma geral, que tenham seus nomes envolvidos em casos de corrupção, odeiam os procuradores da República. Querem os ver pelas costas. Nada mais justo que, dentro do cumprimento da lei, a opinião pública fique sabendo e acompanhe o desenrolar desses processos. A importância do trabalho deles é tão grande que, sem a divulgação não ficaríamos sabendo da existência dos “Lalaus”, “Caciollas”, “Luis Estevãos”, “Eduardo Jorges” e tantos outros. Pois não é que a tal LEI DA MORDAÇA nada mais é do que um cala boca nesses procuradores. O que essa lei vai proibir é justamente a divulgação de fatos escabrosos, como os citados, enquanto não ocorrer a sentença final. Após sua promulgação não vamos mais acompanhar nada. Se ela já estivesse em vigor, nem saberíamos quem é o “Lalau”, pois como ele não foi julgado, não poderia ter sua vida exposta, mesmo com todas as provas e evidências de seus atos danosos. Pior que tudo isso é o projeto já foi aprovado na Câmara de Deputados, bastando somente o Senado para a sua promulgação. Infelizmente, o governo FHC tem como certa essa aprovação e pega pesado nesse sentido. Os corruptos todos devem estar de babando de contentamento. Agora, respondam-me somente a uma simples perguntinha: um governo, que faz tudo para que uma lei dessa natureza entre em vigor, está com boas ou más intenções?
O POVO GOSTA OU NÃO DE BOA MÚSICA (17) – publicado na edição nº 81, 16/09/2000
Tenho uma mágoa profunda com o indústria musical brasileira por causa da imposição que produz como gosto musical, dito “popular”. É aquilo que denominamos de sacanagem explícita. Sempre o que eles querem é imposto nas rádios e ver nas TVs. Fica evidente que essa indústria esconde uma arte popular sofisticada inquietante, viva, mantendo milhões de pessoas no curral do emburrecimento, abrindo uma larga avenida de lixo cultural, essa merdalhada toda de axé, pseudo-sertanejos e pagodes, bundas que movimentam milhões de dólares. É a coisa mais triste constatar que, para cada Cartola, Luiz melodia ou Lenine escondido, abra-se o espaço para dez “É o Tchan”. A justificativa que eles usam na defesa é difícil de engolir: “O povo gosta de É o Tchan. O que fazer?”. Além de tudo são cínicos, como se não fosse investido milhões para fazer o povo gostar do que tocam. Usam outro argumento: “O povo não gosta de música boa”. Aqui eles assumem que o que fazem é porcaria, mas continuam fazendo, pois isso geral altíssimos lucros. Sei que vai ser muito difícil nosso povo deixar de gostar disso, pois infelizmente, é somente isso que se ouve. É uma verdadeira lavagem cerebral, com essas letrinhas pobres e deseducativas. Quer coisa mais baba de ovo do que o discursinho repetitivo desse povinho do pagode, axé, country, breganejo, etc. Cantam sempre a mesma coisa. Esse negócio de ficar dizendo que faz e acontece, que deita e rola, que tem “marcas de batom no casaco de vison”, boquinha de garrafa, pular cordinha, ir varrendo; isso é puro lixo cultural. O Brasil tem plenas condições de fazer (e faz) coisas maravilhosas em matéria musical. Pena sermos vítimas desse complexo e pernicioso sistema, que começa na educação deficiente e termina na ganância das grandes gravadoras. É por isso que sou mais o samba da minha turma. O samba antigo é bem articulado, bem informado, falava de tudo. Hoje, somos martelados o tempo inteiro por músicas vagabundas, de poesia muito fraca, melodia péssima e mal copiada dos outros. O que reivindico é uma democracia estética. Que todos os estilos tenham oportunidade para o público fazer suas escolhas. Está mais do que na hora de colocar em xeque a ditadura do (des) gosto imposta pela aliança jabá-brega, uma vez que é sabido não vivermos num regime de liberdade de escolhas sonoras. Mas, esse é um assunto para ser discutido em pequenas pílulas. Seria bom os leitores se manifestarem, para prolongarmos o papo.
ALFINETAR É MUITO BOM. E SER ALFINETADO? (18) – publicado na edição nº 82, de 82, 23/09/2000


O ato de escrever semanalmente está sendo uma grande novidade para mim. Nada de angustiante, mas algo que tenho como uma espécie de obrigação a ser cumprida. Muitas vezes, deixo tudo para a última hora e o assunto não pinta facilmente, mas mesmo assim, o texto tem que sair, pois o Marcelo (manager n’O Alfinete) fica do lado de lá com seus prazos de fechamento a serem cumpridos. Eu ainda prefiro escrever tudo com minha velha máquina de escrever. Não aderi totalmente às facilidades do computador. Batuco letrinhas desde os treze anos, possuindo uma intimidade muito grande com minha Olivetti. Isso tudo torna um pouco mais lento o processo, mas no final tudo acaba dando certo. Pelo menos já se passaram 18 semanas (parece que foi ontem). Tentei fazer tudo de forma mais ou menos organizada, reescrevia quando necessário, corrigia os inevitáveis erros, mudava palavras aqui e ali. Mas desde que li um texto do cineasta Ruy Guerra, estou seguindo seu conselho: “No início levava uma semana para escrever uma crônica. Aí pensei: não pode ser assim. E fui pedir conselhos ao Gárcia Marquez. Ele me disse: ‘Crônica é o seguinte, no dia de manda-la não marque nada. Acorde, escreva e, na hora de mandar, mande. E só vai ver depois no jornal porque quando está publicado é sempre melhor do que quando está escrito’. Adoresse sistema. O problema é que o Marcelo vai continuar reclamando pelos meus atrasos. Vai continuar gastando uns tostões de interurbanos. Além disso tudo, dificulto um pouco mais para meu amigo de Pirajuí, pois ele sempre me pede para passar os escritos por e-mail, mas continuo fazendo por fax, obrigando-o a reescrever tudo. Escrever faz um bem danado para a gente, porém nem sempre o fazemos da forma mais adequada. Nossa língua não é das mais fáceis e estamos sempre aprendendo coisinhas novas. Ir colocando no papel coisas passadas, como encaramos a vida, nossa interpretação de alguns fatos e falar do alheio. Tudo é muito bom, mas seria ainda melhor se seguida de uma espécie de comunicação mais direta com quem está do outro lado. Ou seja, o leitor ir reclamando, opinando, interferindo, criticando, sugerindo e metendo o bedelho naquilo que está lendo. Nós, que escrevemos aqui, não somos os donos da verdade (longe disso). Queremos mais é que surjam mais pessoas querendo ajudar a construir esse jornal. De quando comecei, vi muitos outros nomes despontarem e isso oxigena, faz um bem danado. São opiniões novas, muitas vezes divergentes, deixando o jornal mais saboroso, mais leve e interessante de ser lido. Alfinetar é sempre muito bom, mas ser alfinetada de vez em quando também tem suas vantagens. Quem está na chuva é para se molhar, afinal, quem coloca seu nome num texto e o publica, está sujeito a chuvas e trovoadas. Alfinetem vocês também, sempre que puderem e quiserem.

OBS DOMINICAL: Hoje, 16 h no SESC, entrada gratuita, o show de encerramento do Projeto“Sertão de Gonzaga – Uma homenagem ao mestre Lua”, com o QUARTETO OLINDA, com clássicos do repertório ‘gonzagueano’. Lá no SESC é impossível ficar indiferente à exposição OLHOS DE BARROS – A POESIA DE MANUEL, uma magnifíca exploração do rico universo imaginário poético que o poeta MANUEL DE BARROS desvenda em cada poema. A noite o encerramento da REVIRADA CULTURAL no Parque Vitória Régia, também com entrada gratuita, com dois shows na sequência mais do que imperdíveis. Às 18h30 o show GAFIERA S/A (Ralinho, Denise Amaral e troupe) e às 20h30, TUNAI e ANGÉLICA SANSONE, a KEKA no “As canções que eu fiz para ela”, num tributo à Elis Regina. Tento estar ao menos nesses lugares hoje e para finalizar deixo aqui uma gravação feita ontem na sede da Sangue Rubro, a torcida noroestina, no encerramento de uma feijoada na sede e no grito da torcida minutos antes de ir ao campo assistir os 3x0 que enfiamos no Rio Claro.

sábado, 22 de setembro de 2012

MEUS TEXTOS NO BOM DIA BAURU (193, 194 e 195)

COBRADOS E COBRADORES – publicado na edição de 07/09/2012
Junto historinhas ouvidas nas ruas. Três são relacionadas com um mesmo tema, as empresas de cobrança, cuja Bauru é seu epicentro. Convido todos para coletivas reflexões ao junta-las no mesmo texto. Na primeira, moça inicia seu trabalho de cobrança via telemarketing e em cada ligação, do outro lado da linha uma história diferente, uma mais doída que a outra. Aquilo a sensibilizava e para amenizar o sofrimento do devedor propunha descontos não permitidos e inimaginados pela empresa, muito maiores do proposto por sua tabela. Percebia do outro lado a alegria por conseguirem saldar o débito com indescritíveis descontos. Começou a receber elogios da empresa pelos altos índices na resolução das negociações. Os elogios duraram pouco. Ao descobrirem que tudo ocorria somente por causa do alto desconto, com o lucro da empresa cada vez mais baixo, o resultado foi uma sumária demissão. “Que podia fazer? Eles precisavam, fiz a minha parte e percebia a felicidade do outro lado da linha. Também estou”, diz. Num outro, talvez na mesma empresa, um rapaz religioso foi aconselhado a durante as negociações via telemarketing, se necessário, florear um pouco, não revelar todo conteúdo das possibilidades contratuais e assim, fechar bons acordos. Isso contrariava os ensinamentos de sua igreja e coisa que não conseguia fazer era mentir, por menor que fosse. Nem motivado pela garantia do seu emprego. Com seus índices de fechamento de acordos sempre baixos, apertos aconteceram, mas não conseguia agir diferente. Resultado: os conselhos não surtiram efeito e acabou demitido. “Mentir é errado e não iria fazer isso com meu semelhante”, diz. Na última, a comprovação de que nem tudo são mazelas no ofício de cobrar e ser cobrado. Existe impedimento na aproximação de um e outro, mas essas coisas escapam do controle, mesmo com ininterrupto monitoramento. Um cobrou e outra foi cobrada, o infortúnio dela calou nele, a voz idem e daí nasce algo proibido, a troca de telefones. Estão a namorar. As negociações continuam.


O QUE FOI FEITO DEVERA – publicado na edição de 14/09/2012.
O último filme do Ugo Giorgetti, “Cara ou Coroa” revive o ano de 1971, plena ditadura militar e uma cena me chama a atenção. Diálogo sobre a participação dos jovens na luta de resistência contra o cruel regime. Cientes de que esses entrariam de cabeça, algo natural, instintivo, a questão era: valeria a pena? Seriam trucidados, tudo pela causa. E hoje, olhando para trás, persiste a dúvida. Nem todas nossas lutas geram orgulhos posteriores, mas não renego a necessidade de resistir. Daquele envolvimento, frutificou o momento vivido hoje, as conquistas e coisa e tal. Mais que isso, o filme me fez ir além. Vi ali o retrato de um tempo, o envolvimento de uma geração com os destinos de seu país. Mesmo sob o tacão de um cruel regime, existia uma efervescência, que não enxergo, nem na geração atual, muito menos nos de minha geração, que hoje leem menos e gostam mais de postar futilidades nos facebooks da vida do que provocar, instigar. Cadê aquela riqueza de ideias? Aquela rebeldia de antanho, expressa inclusive no comportamento, esvaiu-se com o tempo. Predomina o mutismo, onde poucos discutem, debatem, vão à luta, leem e estão realmente interessados em decifrar os meandros da atual dominação. Mas como redespertar esse país, reabrir seus olhos? Tem quem não enxergue isso como algo possível. A luta estaria irremediavelmente perdida. Retrocedemos absurdamente, as pessoas estão presas e reprimidas. Falta coragem. O filme mostra isso claramente, na comparação do ontem, a fraqueza é a característica atual. Ninguém mais quer invadir os espaços. O que mais vemos são manipuladores de públicos, do político, show business, hetero, gay, mas ninguém com poder e ímpeto transformador. Só pensam em ganhar dinheiro sem propor mudança nenhuma. Alguns dos pseudo esquerdistas de hoje não imaginam o mal que fizeram para esse país na sua distorcida ação adesista nessas últimas décadas. Comem o cadáver do Lamarca todas as noites e nem se dão conta. Emburrecemos todos, do banco acadêmico ao da praça.

BLINDAGEM NO PT BAURUENSE – publicado na edição de 22/09/2012
Embolo dois fatos num só. No primeiro o Procurador Geral da República, Roberto Gurgel, diz que após o término do julgamento do mensalão vai estudar uma forma de incluir o nome do ex-presidente Lula na continuidade do processo. Isso após uma matéria da Veja, que já comprovou possuir ligação umbilical com o crime organizado (e nem foi chamada para depor na CPI), onde numa suposta e secreta carta, guardada a sete chaves, um dos incriminados, o publicitário Marcos Valério afirmaria ser Lula o mandante de tudo. A finalidade do Gurgel é clara, impedir de forma antecipada que Lula possa querer disputar novamente uma eleição (2014 bate às nossas portas). Meu comentário é simples, direto e reto. Nessa semana o vereador Roque Ferreira divulga da tribuna da Câmara de Vereadores degravações escabrosas, ainda em sigilo de Justiça, diálogos reveladores da tramoia envolvendo o mensalão de Bauru, esse comprovado e ainda não julgado escândalo de ilícito reparte de recursos públicos. Se lá Lula deve ser incluído, deixo aqui minha pergunta: o deputado Pedro Tobias também não deveria o ser? Algo mais do que natural. Um faz campanha para Haddad em Sampa e o outro para Chiara em Bauru. Disso tudo, além do enraizado preconceito, extraio o seguinte: é muito fácil escrever e propagar aos ventos dos males de quem está distante de nós. Falar de Lula, Zé Dirceu, FHC, Serra, Dilma, Alckmin, Mensalão é simples demais, eles estão longe do nosso alcance. Já fazer o mesmo com algum figurão local e ligado ao establishment, um claro recuo. Simples assim. Ouço na manhã de quarta o Informasom, da 94FM. Na pesquisa do dia uma pergunta com múltiplas escolhas: “Em que você acredita mais?”. Cinco opções e numa delas: “Lula será ligado ao mensalão”. Votei numa das opções e deixei um comentário, que como já esperava não foi lido no ar, como outros o foram: “Pedro Tobias será ligado ao escândalo da AHB”. Não leram e é disso que trata esse texto. Estaria vendo coisas ou somos mesmo medrosos? Ou tendenciosos?
OBS sobre fotos ilustrativas: Todas foram tiradas por mim em Barcelona, na Catalunha, em abril 2012 e demonstram que as grafites e pichações de muros e paredes estão globalizadas e mais que isso, muito parecidas umas com as outras.

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

FRASES DE UM LIVRO LIDO (62)

O LIVRO DO MATTAR DE 1985 E A EFERVESCÊNCIA DA GRÁFICA DO FERNANDO
Na Feira do Rolo, domingo passado, 16/09 na passada habitual pela Banca do Carioca, meu livreiro de plantão ganho um presente: “Esse eu tenho certeza que você não tem”. E me entrega o “UM SEMBLANTE LATINO – AS VÍSCERAS DE TODOS – MANIFESTO PANFLETÁRIO DO ABSURDO”, de alguém que nem imagino onde possa estar nesse momento, o JOAQUIM MATTAR. Não tinha mesmo e já o vim lendo no caminho da feira em casa, tropeçando na xepa espalhada pela calçada. Ainda na capa um recadinho do que estaria encontrando nas páginas internas: “Pequeno ensaio social democrata de um cosmopolita de bar”. Disse para mim mesmo: Esse negócio parece muito comigo. Escrito no meio dos anos 80, precisamente em 1985, refletia as insatisfações de uma geração ansiosa por mudanças e clamando por uma América Latina livre de ditaduras e ditadores. Fiz uma reflexão olhando lá para trás, como muitos defendiam naquele momento nossa libertação e hoje, a imensa maioria mudou de lado e estão ao lado do establishment ou quando muito, acomodados, preferindo não lutar por mais nada, nem para tirar a bunda da poltrona e mudar o canal da TV no próprio aparelho, preferindo fazer tudo pelo controle de mão.
O livro do Mattar (alguém poderia me dizer por onde ele anda?) tem frases muito boas e qualquer dia desses as reproduzo aqui, mas o que me motivou a escrever esse texto não foi esse livro em si, mas muitos outros. Na página 4, na de apresentação, lá está algo que me traz gratas recordações de tempos idos e ainda não totalmente registrados, resgatados e preservados: “Editôra: Fernando S/C Ltda – Rua Virgilio Malta, 3-10 – tel. 22-3329 – Bauru SP”. É a gráfica do Fernandão, o marido da advogada Zanza, que fez e aconteceu nos anos 70 e 80 em Bauru, tendo imprimido uma grande parte de todos os livros dos lunáticos bauruenses da época. Fernando Souza, hoje com 56 anos, continua quase do mesmo jeito, bonachão, risonho, fraterno e boa praça. O livro me incomodou, tive que ligar para ele e pedir para tirar umas fotos. Fui até o escritório da Zanza e batemos um papo cheio de muita saudade.

Acredito tê-lo pego de surpresa, mas eu da mesma forma quando vi seu nome no livro, muita coisa me voltou à mente. Disse para mim mesmo: o Fernando ainda não teve o reconhecimento que merece por tudo o que fez pela cultura de uma geração de bauruenses que queria e acreditava na exposição de idéias como forma de mudar o mundo. Ele abriu espaço para todos e me confessa: “Não levei nenhum calote de ninguém daquela turma. Todos já vinham até mim com uma programação definida, cheia de restrições, pouca grana. Rodei de tudo e funcionei até 1993. A maioria era rodado numa antiga máquina da IBM, uma Composer, mecânica, estilo manual. Assim de bate pronto lembro de ter rodado livros do Pereia, do Mattar, muita coisa para o Fuad, Vitor Martinello e tantos outros. Tinha um padeirinho, o Julio, que rodava um jornalzinho muito legal. E os seus jornais de mesa junto da Carminha, o Cá Entre Nós e depois o O que Diz o Vento, com o Turco. Outro dia reencontrei na rua um ex-funcionário, negão como eu e morremos juntos de saudade, quando lhe disse: Vamos começar tudo de novo?”.
É isso mesmo, o livro do Mattar foi um entre tantos outros. Fernando é tão gentil que ao paparicá-lo faz questão de me dizer: “Eu não fui o único que rodava para os malucos da época. O Altamiro, da Joarte deve ter rodado muito mais coisas que eu”. Os doidões éramos todos os  que por lá circulavam, uns mais, outros menos, todos enfrentando muito touro a unha e dando repetidos murros em ponta de faca. A história do Fernando não merece ser contada somente nessas poucas linhas. Agucei a coisa e já tenho dele a promessa de revirar seus baús em busca de material para algo mais longo. Faço o mesmo por aqui e no facebook lançarei a ideia de coleta coletiva de itens para produção de algo consistente, com histórias e mais histórias. Essas histórias livrescas bauruenses, de tempos idos são um encantamento e servem até para mostrar por onde anda cada uma daquelas revolucionárias pessoas. Leiam só o que está no currículo do Mattar na contracapa do livro: “Joaquim Mattar, nasceu em Bauru SP numa época que os brasileiros viviam sob as garras da ditadura militar. Geração conturbada entre o rock e a ingestão das multinacionais erguendo seus monstruosos castelos do capitalismo. A fome e a mortalidade infantil já eram denúncias de que a América Latina seria alvo de inacreditáveis acontecimentos e aberrações. É um escritor social, engajado nos movimentos da sua época (...). Joaquim Mattar vê o mundo e a América Latina disposta a enfrentar o mais doloroso período já acontecido na história da literatura e da arte. Por esta razão, esse livro galga um lugar incomum no movimento literário e na história contada pelos homens”.

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

AMIGO DO PEITO (72)

NEIZINHO, HOTEL CARIANI E A CORAGEM DO PREFEITO EM PEITAR POSICIONAMENTO RETRÓGRADO DOS VEREADORES
Em tudo o que eu escrevo gosto muito de misturar o tema com pessoas conhecidas, na maioria dos casos diletos amigos. Nesse caso em especial, o da escrevinhação de hoje envolvo o querido NEIZINHO, um ponta direita que fez história no saudoso ARCA, time do amador bauruense e hoje residente no HOTEL CARIANI, na Praça Machado de Mello. Neizinho foi um jogador estiloso, baixinho enfezado, arisco, desses que encantaram toda uma geração de aficionados pelo bom futebol amador que Bauru já teve (hoje virou um festim dos insensatos). E como queria escrever algo hoje sobre uma problemática surgida com o CODEPAC, o órgão local que cuida dos tombamentos de imóveis históricos na cidade, lembrei-me dele. Mas o que teria uma coisa a ver com outra? Tem tudo e explico.

O CODEPAC encaminhou à Câmara Municipal de Bauru um processo de isenção de impostos para os proprietários de imóveis tombados na cidade. Não entro no mérito do processo, cheio de tramites, um vai-e-vem danado até quase chegar a ser aprovado. Quando estava prestes a ocorrer sua aprovação, eis que alguns vereadores sacam do fundo do baú algo a mais, um toma lá-dá-cá para aprovar o projeto. Eles aprovariam uma coisa, mas estabeleceriam que daquela data em diante todos os projetos aprovados pelo Conselho teriam que ser submetidos, além do prefeito, como já é feito, também a eles (o Conselho é meramente consultivo). Seria a decretação da inutilidade do Conselho. Dois vereadores sempre foram os baluartes desse rearranjo, são eles Marcelo Borges PSDB e Renato Purini PMDB. Alegavam com isso, que o as aprovações estavam sendo inconsequentes e prejudiciais ao progresso da cidade. Nenhum deles demonstra em suas intervenções, mas está explícita a defesa que ambos fazem da especulação imobiliária na cidade. Ou seja, o Conselho analisa baseado em critérios técnicos e a Câmara poderia vetar, bastando fazer uma justificativa qualquer, desde que achasse que algum imóvel tombado atrapalhasse o dito “progresso” da cidade. Progresso de quem e para quem?, eis a pergunta sem resposta.

O prefeito vetou a medida. Eles, os vereadores, por votação unânime passaram por cima e reafirmaram seu posicionamento. Tudo estaria irremediavelmente perdido e o CODEPAC poderia decretar sua total inutilidade, num procedimento único no país, talvez no mundo. Uma submissão resvalando o autoritarismo esdrúxulo e a demonstrar insensibilidade. Sabe quem está prestes a resolver tudo, o sr prefeito Rodrigo Agostinho que já anunciou que irá assumir a pendenga para si e não acatará medida de cunho tão fora do juízo dos srs vereadores. Não fazendo isso, Bauru seria anunciada como um caso único onde, das cidades possuidoras de Conselhos de Patrimônio Histórico, todas as aprovações de tombamento somente seriam aprovadas após critérios outros que não somente os técnicos. Algo de muito perigoso no ar. A revogação do prefeito ainda não foi publicada e é aguardada por todos com muita ansiedade, restabelecendo a credibilidade, primeiro do Conselho e depois, mantendo-a longe de aprovações por critérios políticos.

E aí entra o NEIZINHO e o HOTEL CARIANI. O hotel é tombado, já sacramentado, situado numa região onde vários outros imóveis o são. Ali, um exemplo vivo e concreto de como um imóvel tombado pode perfeitamente ser utilizado comercialmente, auferir dividendos para seu proprietário. Ao lado dele, alguns outros, abandonados por seus proprietários, fenecem por vários motivos. Para os proprietário que, buscam informações, promovem o restauro dentro dos padrões estabelecidos, existe uma possibilidade até de usufruto de benefícios que outros não possuem, exatamente pelo fato de ser tombado. o menos recomendável é permanecerem sentados, aguardando que tudo caia do céu. O Cariani é um hotel muito simples, porém imponete, represen'tativo de um passado histórico, mas sobrevive ao tempo e demonstra que o outro lado é viável. Neizinho, mora lá, talvez não saiba de nada disso, mas é personagem desse contexto e um e outro estão mais do que ligados. Disso tudo, um efusivo parabéns ao sr prefeito, pois do contrário, demonstrando fraqueza junto ao Legislativo, estaríamos agora sendo motivo de chacota nacional. Viva o Cariani e viva para o Nei, que fez história no passado com a bola nos pés e hoje, continua fazendo por morar num prédio verdadeiramente histórico.
Obs.: O Amigo do Peito é o Neizinho, Sidnei Cruz Tarantella, 64 anos e como me disse hoje cheio de contentamento: "sou um ex-alcóolatra". Foi meu cicerone nas dependências do Hotel Cariani, tombado pelo processo nº 18.021/96 e um que vive diariamente lotado. A Câmara Municipal será renovada com nova eleição a ocorrer em 07/10/2012.