terça-feira, 21 de maio de 2013

CARTAS (103)

BANGLADESH É TAMBÉM AQUI, SEM TIRAR NEM POR - Meu texto publicado hoje na Tribuna do leitor, Jornal da Cidade Bauru SP:

Quem disse que o ocorrido lá na distante Bangladesh, quando um prédio ruiu e matou quase todos lá dentro, é exclusividade deles? Longe disso, pois a situação lá ocorrida tem suas ramificações mundo afora, inclusive aqui. Não escrevo só da situação da edificação em si, mas de outra, oculta pelas paredes e pouco divulgada pela mídia. A tragédia por si só já é uma excrecência, tal a forma como ocorreu. Um projeto a envolver um grande senhorio, que ali mantinha uma construção sendo ampliada, como se fosse uma simples colcha de retalhos, ao seu bel prazer, contando com a aquiescência do poder público local, para conseguir as liberações. O prédio apresentava sinais evidentes de deterioração estrutural, problemas na sua execução, mas nem foi cogitado de ser lacrado. Deu no que deu. Não suportou o peso de um andar sendo construído em cima de outros cinco e mais outro já estava no prelo. Tudo devidamente autorizado pelas autoridades locais. Já não vimos esse filme? A Boate Kiss aqui para nós é só a ponta de um imenso iceberg.

O prédio não contava somente com investimento local, pois por detrás de tudo algumas marcas mundialmente famosas, todas de certa forma lucrando em cima do que lá ocorria. Cito o Wal Mart, Benetton, C&A, Primark, Joe Fresch, El Corte Ingles e tantas outras. Lá não era um simples shopping center ao estilo conhecido por nós. Essas marcas mundialmente famosas mantinham uma espécie de sociedade com um figurão local, esse contratava mão de obra a preço de banana, costuravam tudo o que seria revendido na Europa e até nos EUA, pagando salários irrisórios e com uns poucos obtendo lucros astronômicos. Algo que hoje não é mais considerado ilegal, nem muito menos antiético, pois a imensa maioria dos comerciantes de todas as partes do mundo faz uso desse procedimento para aumentar sua lucratividade. Foi um excelente negócio para todos os que revendiam os produtos lá fabricados, até o momento em que o prédio ruiu e as mortes foram divulgadas nas TVs de todo o mundo. Daí em diante foi um tal de donos dessas marcas alegarem nada terem a ver com o ocorrido, mas já era tarde, pois o respingo da indecência estava escancarado. Como tapar o sol com a peneira? Tem quem o queira fazer.

Tem mais. Aqui mesmo na nossa Bauru vejo industriais e alguns economistas apregoando como a coisa mais normal desse mundo o procedimento que incidiu na tragédia lá dos cafundós do mundo (forma de designação simplista). Quando a reivindicação salarial e os encargos tributários sobem um pouco, caindo a possibilidade de lucratividade, muitos daqui já se insinuaram com desejo de fechar tudo e ir à busca de lugares onde o lucro ainda é ilimitado. Dizem ser isso normal e hoje, tudo está aí exposto para quem quiser enxergar a imoralidade da prática. Nesses casos, ocorre o desemprego aqui e o descarado incentivo do trabalho praticamente escravo do lado de lá do planeta, praticado em condições sub-humanas, tudo em nome de um tal de deus dinheiro, que suplanta a tudo e a todos.

O ser humano não precisaria viver dessa forma tão degradante, explorando o semelhante até as raias do seu sacrifício, mas o faz sem dó e piedade. As relações comerciais são hoje praticadas com algo assim embutido no seu âmago, sem constrangimentos, pois o que vale mesmo é uns poucos poder continuar tomando o seu bom vinho nas noites, embalado por uma comida que alguns restaurantes já cobram o preço de um resgate de uma pessoa não muito importante. 


Prefiro continuar agindo como me foi ensinado pelos meus pais, não vendo nada de sadio e normal nisso tudo. Se a globalização é isso aí, quero mais é me enfurnar de vez na defesa das poucas experiências existentes hoje no planeta de que outro mundo ainda é possível. É nisso que acredito.

OBS DE FINAL DE TEXTO, QUE NÃO ENVIEI PARA O JORNAL: Entenderam por que não gosto de frequentar lugares ao estilo Wal Mart?!?!  

segunda-feira, 20 de maio de 2013

DICA (106)

QUESTÕES FERROVIÁRIAS E PATRIMONIAIS DENTRO DA CONFERÊNCIA CIDADES

Aconteceu em Bauru na sexta e sábado passados, 18 e 19/05, mais uma CONFERÊNCIA DAS CIDADES, a 5º realizada na cidade. Anterior a ela ocorreu uma Oficina Preparatória de Capacitação sobre o Estatuto da Cidade (13 e 14/05) e ali a possibilidade de um melhor entendimento e como fazer os encaminhamentos para discussão e aproveitamento de temas. Dentro das decisões tomadas, a criação de um Conselho da Cidade, diretriz do Estatuto do Cidade e do Ministério das Cidades, talvez tenha sido o seu melhor momento. Não pude comparecer ao evento, nem na oficina preparatória, envolvido em viagens profissionais e questões pessoais, deixando de apresentar ao seu coordenador geral, José Xaides de Sampaio Alves, algumas reivindicações e propostas, sugestões essas da Associação dos Amigos dos Museus de Bauru, coordenada por mim e pelo professor Fábio Paride Pallotta (também não pode comparecer por motivos profissionais). Ciente de que Xaidez é ligado nas questões patrimoniais e outras pessoas que lá estiveram também o são, aproveito para divulgar o que queríamos ver lá encaminhados e verifico no documento final a contemplação das propostas.

1-Preservação do Entorno Ferroviário para transporte coletivo através de VLT, ciclovia e rodoviário mas sem prioridade para esse último. Manutenção das linhas ferroviárias no centro para não inviabilizar o Projeto Ferrovia Para Todos e o Turismo Ferroviário na cidade;

2- Maior atenção do poder público com a questão da cultura não atrasando a convocação do Codepac e qualificando os funcionários da pasta para realizarem projetos para captação de recursos, etc (o Museu de Lins conseguiu milhões preservar o acervo arqueológico de Kiju Sakai e nós temos que nos qualificar para conseguir milhões par o nosso acervo ferroviário);

3- Mais atenção do poder público na questão da atuação do Codepac, que cobrou medidas para a Secretaria de Obras, impedindo a descaracterização do BTC o que não foi feito, além do desleixo atual para decisões anteriormente tomadas pelo Conselho;

4- Retomada do grupo de Estudos do Entrono Ferroviário para a preservação do mesmo e sua utilização como apontado no item 1. Criação de um grupo de estudos para apurar por que Bauru está fora dos investimentos bilionários na ferrovia, sendo que temos os trilhos, construções ferroviárias de grande porte que poderiam estar na rota desses investimentos. Apurações de quais forças estariam impedindo que esses investimentos fossem feitos na cidade, aumentando empregos, preservando o circuito turístico ferroviário etc. Araraquara e outras cidades estão recebendo investimentos, por que Bauru não?

5- Questionamento junto a concessionárias ALL e outras do holding que será formado para o transporte de minério de ferro do Mato Grosso sobre quais investimentos podem ser feitos em Bauru para a retomada a atividade ferroviária, comparando com investimentos que estão sendo feitos em outras cidades?.

6- Alerta aos políticos de Bauru sobre as oportunidades que a cidade está perdendo com os investimentos ferroviários, que não estão chegando por aqui e o perigo da desativação da malha ferroviária e da atenção voltada só para a rodovia.


A maioria delas foi formulada pelo Pallotta e endossadas por mim. Estamos diante de um impasse em Bauru. Com um grupo praticamente formado, o do Conselho da Cidade, talvez algo com uma abrangência a envolver toda a cidade e tendo como um dos temas a ferrovia e as questões patrimoniais. Como já foi tentado algo nessa mesma Administração, com a criação ano passado de um grupo de estudo específico sobre ferrovia, depois desativado e esquecido, acredito ser ele mais do que necessário. Assim como perderem o medo na reativação do Conselho Deliberativo do Museu Ferroviário e também uma agilização na reativação do Codepac, pois desde janeiro está acéfalo, sem comando e sem poder tomar decisões, pois após o término do mandato em dezembro de 2012, ainda não foi publicada sua nova composição.

domingo, 19 de maio de 2013

O QUE FAZER EM BAURU E NAS REDONDEZAS (30)

ELUCUBRAÇÕES DOMINICAIS – TUDO PODE VIRAR TEMA DE UM BELO TEXTO
Na parede de um bar lá no alto do jardim Bela Vista, quase ao lado do Parque União, perto de uma unidade do UPA – Unidade de Pronto Atendimento, algo escrito com spray chama a atenção: “Volta Paula”. Assim sem mais nem menos. Uma inscrição perdida e dando uma conotação de que a Paula mora por perto e o abandonado a queria lendo a inscrição todo santo dia. Está lá há meses e toda vez que passo por ali, me dá sempre uma vontade de fotografar a cena e como curiosidade mata, dá também vontade de saber mais da história que não me diz respeito. Fui publicar a foto no facebook e uma moradora da Independência me soltou essa: “Aqui colocaram assim no muro de um vizinho meu: ‘Você é chifrudo’. Imagina a cara do cara ao ler a mensagem, né!”. Esse tipo de inscrição faz com que divaguemos sobre como fazemos de tudo e mais um pouco para resolvermos as pequenas e as grandes questões de nossas vidas.

Na ida para a feira hoje, dou de cara com um sapato de mulher, um par isolado, sozinho, perdido na calçada, diante de uma igreja evangélica, onde anos atrás foi uma famosa distribuidora de bebidas, rua Antonio Alves, quadra debaixo da linha do trem. Cada peça dessas possui uma história bem própria: ou terá sido perdido num final de noite, lixo retirado de algum saco pelas redondezas, peça que iria ser vendida numa barraca na feira do Rolo ou até mesmo indumentária de alguma senhora de fino trato que iria adentrar o santo espaço (sic) e achou melhor fazê-lo sem ele. O fato é que ali está, perdido do outro para sempre, pois não vejo como poderão ser juntados novamente. Está ali, demonstrando ter sido já bem utilizado e hoje, virou peça “descartada do meu folhetim”. Quem já não perdeu um pé de sapato na vida que levante a mão? 

Na entrada da Feira do Rolo, bem ali no cruzamento das ruas Julio Prestes com a Gustavo Maciel, uma bandeira é hasteada garbosamente todo domingo oficializando algo sui generis no local. A bandeira por si só diz tudo, é a do Paraguai. Não me perguntem quem a hasteou ali, quem a plantou ali todo domingo ou dos motivos dela ser fixada no mesmo lugar. O fato em si demonstra como o pessoal da irreverente feira tratam a si próprios. Uma peça de humor, picardia e brincalhona. Adoro esse tipo de procedimento, essa maledicência, essa picardia, proveniente de gente mais simples, sempre pronta a brincar de sua própria situação. O Paraguai, como todos sabemos muito bem é aqui mesmo e ali, com toda certeza, deve ser a Embaixada da vizinha república.


Nas dependências do lugar reservado ao estacionamento da Feira Estação Arte, hoje em festa com encerramento da Semana dos Museus e passeio de Maria Fumaça uma moto com o tanque vermelho chama a atenção não só pela cor e seu estado de conservação, mas por ter adesivada ali naquele local um símbolo de muita resistência e luta: a foice e o martelo. Num mundo onde ser comunista é sinal para lhe virarem a cara e de espantos mil quando alguém confessa ser ateu, a moto desfilando pela cidade com a contínua exposição do comunismo é algo valoroso, de alguém que não tem medo de ser feliz e de expor o que vai pela cabeça de seu proprietário. É como um cartão de visitas, pois fico a imaginar os que se aproximam para lhe dar um aperto de mão de consentimento e os que fogem disso, com medo dos eternos comedores de criancinhas.

Na quadra de paralelepípedos da Feira do Rolo, fico a observar um senhor recolhendo latinhas variadas. Não o faz como a maioria, puxando ou carregando um saco cheio delas. Inovou e chama a atenção. Com um carrinho desses de mão, próprio para feiras, anda de um lado a outro e vai juntando ali suas latinhas. Não tem que carregar peso algum, só puxar. Vi alguns que o vendo se aproximar vão até ele e depositam as latinhas vazias (muitos bebem por ali, numa manhã quente de domingo) no local apropriado. Uma cena e tanto, tantas vezes repetida pelas ruas da cidade, feita de diferentes formas e essa só mais uma delas. A tristeza da cena, como não poderia deixar de ser é pela idade do seu protagonista, um senhor que já deve ter passado dos 60 anos e não deveria estar nessa situação. Mas está.

sábado, 18 de maio de 2013

ALFINETADA (110)

MAIS TRÊS ANTIGOS TEXTOS PARA O ALFINETE - FINAL DE 2000, COMEÇO 2001
No início dessa série eu reescrevi alguns desses textos que foram publicados n’O Alfinete, o semanário de Pirajuí SP, um que usava como lema o “pica mas não fere” (criação do Marcelo Pavanato, seu então diretor e mandatário mor). Cansei de ter que bater todos os textos novamente e desde março passei a reproduzir uma foto com eles em tamanho ampliado (podem aumentá-lo em seus computadores). Hoje, como tento fazer mês a mês, mais três: Nº 95, de 23/12/2000, “O Alfinete faz anos”, Nº 96, de 30/12/2000, “Começar o ano relendo (revendo) frases e frases” e Nº 97, de 06/01/2001. Interessante observarem como fazia para enviar meus textos naquela época. Batia na minha máquina de escrever, marca Olivetti, "Linha profissional" e enviava para o Marcelo via fax. Ele reescrevia tudo e até corrigia alguns errinhos, desses que cometo até hoje, suicidando a Língua Portuguesa. Confiram esses três:

sexta-feira, 17 de maio de 2013

MEMÓRIA ORAL (142)


O CRISTO E O RIO PELA LENTE DE UM JOVEM INTERIORANO

Uma viagem, a primeira de um jovem bauruense, 20 anos, Gustavo Mangili para a Cidade Maravilhosa, suas motivações, o que almeja conhecer e observações registradas dessa busca pelo até então só visto pela TV e em fotos. O imaginário carioca extrapola e invade o inconsciente de uma infinidade de pessoas mundo afora, de uma forma ou de outra e esse ainda quase menino acalentando por mais de uma década a realização do sonho de por os pés no Rio de Janeiro, conseguindo concretizá-lo nessa semana, numa viagem de carro, feita por ele ao volante, 760 km percorridos quase de um só fôlego, tal a ansiedade em botar os olhos sobre imagens nunca antes vistas.

Gustavo é filho de Cláudio da Silva, dono de uma conhecida banca de revistas na Avenida Duque de Caxias, centro de Bauru, concluiu o 2º Grau na EE Christino Cabral e daí por diante caiu de boca no trabalho, hoje sendo entregador de pizzas, com ganho de R$ 40 reais dia, além de cultuar o gosto por manter um Opala ano 89 (“está inteirinho, não o chame de velho”, me diz), um Gol turbinado e de gostar por demais dos embalos do rap paulista. Típico jovem do interior paulista, sem grandes arroubos de leituras, mas muito de prática e vivência das ruas, mantém firmes posições, como a de detestar uma música que insiste em tocar no rádio do carro durante a viagem: “Como é ruim essa coisa horrorosa que é o sertanojo. Repetem demais a mesma coisa e é uma melação idiota, letras não existem. E isso toca em tudo quanto é lugar, não sei como suportam isso”.

Na estrada, Gustavo demonstra ansiedade e tenta apressar a chegada, só parando quando se depara com algum local conhecido, fazendo questão de parar, tirar fotos, como a exigência de uma obrigatória na via Dutra, defronte o Santuário de Aparecida do Norte. No acostamento da movimentada pista, me faz subir num pequeno morro, para que o coloque todo dentro do espaço de uma foto, tendo a igreja ao fundo. “Como foram construir um edifício bem na frente e impedir a visão dos que buscam ver a igreja aqui da pista”, me diz. Seguimos em frente e dali até o Rio, nenhuma outra parada. Na descida da Serra das Araras, curvas acentuadas e velocidade controlada a 40km/h e ele tentando tirar fotos com uma mão no volante e outra na inseparável máquina fotográfica. “Olha isso, que lindo, cadê o Cristo, já dá para vê-lo daqui?”, pergunta já querendo botar os olhos no cartão postal da cidade.

Em cada novo morro visualizado, a repetição da mesma pergunta. Na entrada pela Linha Vermelha, o Galeão diante dos olhos e a lembrança de um grupo de Rap, o DBS e a Quadrilha, música ao seu estilo musical e a lembrança de um clipe feito dentro do famoso aeroporto. Quando consegue vislumbrar a estátua pequenininha no alto de um morro, não se agüenta e me faz parar o carro perto do Pavilhão de São Cristovão. Fotos tiradas, um breve descanso, carro numa segura garagem e o embarque no 422, Cosme Velho, onde o penúltimo ponto nos levaria ao Cristo. “Não posso esquecer-me de comprar uma lembrança para o Wellington, o cara que consegui ficasse no meu lugar nas entregas na pizzaria. Do contrário vai ficar chateado”, me diz.

No ônibus o encontro com um senhor de aproximadamente 60 anos e o espanto desse lhe dizendo: “Acredite, mas nunca fui no Cristo. Fui uma única vez no Pão de Açúcar, mas nunca tive tempo de pensar em subir lá. Olho muito para ele, mas aqui de baixo”. Numa observação ao observar os carros pelas ruas da cidade, solta outra: “O povo daqui só anda com os vidros fechados. Não vejo um carro com os vidros abertos. Por que, hem?”. Do mesmo local fica observando os carros e faz questão de pela janela alertar um motorista parado ao lado do ônibus no sinal sobre ter esquecido seu sinal de pisca ligado. Esses pequenos detalhes, essas pequenas observações tomam conta do seu dia, como o fato de na chegada ao ponto de embarque ter achado um absurdo um salgado custar ali R$ 7 reais. Não se fez de rogado, saiu na calçada, perguntou para os taxistas onde eles comiam e atravessou a rua, consumindo um por R$ 2 reais, de um ambulante com ponto ao lado da banca de revistas.

Na fila de espera para entrar no trenzinho, outra observação: “O que tem menos aqui são brasileiros. Não entendo nada do que dizem aqui”. Depois de muitas fotos pelo celular e com sua máquina de bolso, mais uma: “Espera aí, Henrique, agora deu sinal no celular, vou ligar pro meu pai”. Não demorou nada e olhando para os tipos ao seu lado disse: “Todo mundo lá trabalhando e nós aqui, da hora isso”. Tirou fotos e mais fotos, de tudo quanto é jeito e modo, em pé, a tradicional com os braços abertos e ficou longos momentos parado na mureta, ora olhando para os lados da Lagoa Rodrigo de Freitas, ora para os do Maracanã, do mar e um algo mais: “Você me leva conhecer a Rocinha ou um baile funk?”.

Foram mais de duas horas e uma tristeza ao deixarmos o lugar, uma nova indicação na calçada e um menino nos leva 100 metros adiante, restaurante ao lado do terminal Cosme Velho, prato feito por meros R$ 9,90. “O preço é barato, a comida é boa, mas eles ganham demais na Coca. Um refrigerante de garrafa a R$ 3,50 e eu com essa sede. Espertos, demoram em trazer a comida e peço mais uma, já tiraram a diferença da comida”, ressalta. Ao terminar o almoço, vendo que o ônibus 422, que nos levaria de volta estava de saída, assobia para o motorista e esse para no meio da rua, espera pagarmos a conta e adentramos o coletivo iniciando ali um novo motivo para nova conversa. Na descida da rua das Laranjeiras, uma outra observação: “O Rio não é tão pichado como São Paulo. Olhe aquele prédio, se fosse em São Paulo estaria todo pintado”, diz.

Gustavo é tranqüilo, olha para todos os lados. Olhar para trás pela janela, continua tirando fotos e mais fotos do Cristo. Faria isso na noite, passeando nas praias (fez questão de uma foto diante do Copacabana Palace em Copacabana) e em todos os lugares seguintes: Sambódromo, edifício Balança Mais não Cai, Saara, Arcos da Lapa, Flamengo, Botafogo, Pão de Açúcar, Leme, Lagoa Rodrigo de Freitas, túnel Rebouças e é claro o Maracanã. Trouxe lembranças, como chaveiros, camisetas, jornais e fotos, muitas fotos e na despedida, saindo de carro via Linha Vermelha, madrugada do dia seguinte, cidade ainda às escuras, uma última olhada para o Cristo, lá do alto a observar tudo e uma afirmação: “Eu volto, viu!”.
OBS.: Gustavo esteve essa semana comigo no Rio de Janeiro. Fomos e voltamos de Saveiro, ida vazia e volta lotada, 850 livros, 500 kls, acervo do meu sogro José Pereira de Andrade, mudando de endereço e leitores.

quarta-feira, 15 de maio de 2013

DOCUMENTOS DO FUNDO DO BAÚ (50)


O DESABAFO DE UM CORAJOSO, DOS POUCOS QUE AINDA NÃO SE DEIXAM VERGAR POR QUALQUER BRISA...
Continuo na estrada e sem tempo para grandes elucubrações. Algo me impressionou muito nos últimos dias. Dois depoimentos do amigo Paulo Neves, no primeiro anunciando algo muito auspicioso, sua decisão de abandonar de vez o facebook e no segundo, a repercussão do primeiro texto e com mais de 400 respostas. Reproduzo os dois, pois foram escritos com algo muito em falta nos dias de hoje, com o coração. Paulo lança sua enferrujada lança enfrentando os dragões da maldade, de forma corajosa. Como é bom nos depararmos com gente desse naipe. Fico lisonjeado de ter um amigo com a trajetória desse Paulo e de postar aqui esses dois textos, com muita coisa que gostaria de ter escrito e da mesma forma escrita por ele.

1.) “Meus amigos, muito obrigado por tudo, não estou brincando, estou deixando o Facebook e já vou dizendo não quero fazer exercício de futurologia. Uma despedida, uma saída, uma retirada estratégica. nada disso: S A I N D O! Pronto! Com toda humildade: a vida vai continuar além disso... Se meus amigos quiserem estou sempre no D’incao, no Curso de Teatro Paulo Neves, pronto! Hoje um amigo meu falou como você se sente em uma época tão banal, medíocre, brutal..você conversa com quem? Respondi: Ninguém! Tento resistir a minha maneira e ser rebelde, o que eu sempre fui na vida, desde o primeiro emprego no JC... Não rebelde sem causa, mas a minha maneira...tento resistir ao máximo a mercantilização do teatro, das artes, dos professores...sou um rebelde contra a paralisação das mentes... sou o rebelde de 71 no Prevê que não aceita a mediocridade, a banalização,a burrice, a infantilização dos adultos, os hipócritas de plantão, não aceito! Teatro não tem valor de mercado, poesia não tem valor de mercado, professor ( existem os venais também!!) não tem valor de mercado, como não valor nenhum, sua "mais vida" - com permissão do Carlos D’incao, meu diretor, parodiando o conceito da "mais valia", não compensada assume o valor ético de responder ritualmente pela integridade, integridade meus amigos, do projeto artístico. Estou S A I N D O porque vou H I B E R N A R igual a um urso do Canadá e comer do próprio tutano. "Eu não me vendo", não tenho nada, não conheço nada, devo perder sempre a curto prazo, sempre aconteceu desde 1971, quando perdi tudo, mas...a longo prazo, se for pra valer, ganhei. Fui homenageado em Presidente Prudente, lá ganhei a minha carteira de diretor de teatro...lá mora meu amigo Fabio Nogueira e qualquer hora vou pedir um emprego pra ele, afinal lá eu sou amigo do rei! Ganhei o texto mais bonito da minha vida, escrito pelo grande escritor Márcio ABC, meu chefe, meu amigo e que esta no meu coração. Ganhei música do George Vidal, preciso mais alguma coisa? Ganhei conselho do meu amigo João Jabbour. Vou embora tranqüilo... Quero continuar dando aulas no D’INCAO e no CURSO DE TEATRO PAULO NEVES, os amigos-amigos, pode me procurar e será um prazer,uma emoção muito grande tê-los nestes dois locais...a solidão machuca, mas estamos ai, Tempo? Não sei se terei muito tempo, mas o tempo e de resistir e de rebeldia sempre! A idade chegou, sem duvida, amanhã completo 65 anos, e quero ver pessoas sorrindo e lindas, precisaria ter 10 anos a menos, talvez 20, não! 10 anos esta bom! 3 frases lidas ha muito tempo, em diversos livros, termino minha passagem pelo FACEBOOK- " Cheguei tarde demais a um mundo mais velho" (Musset), "Cheguei ao mundo muito jovem em um tempo muito velho" (Satie) “, eu digo apenas cheguei e saí do facebook, sejam felizes e obrigado pelas horas que passamos juntos ou ainda, "Cheguei tarde demais a um mundo muito novo" (Augusto de Campos). Deus ajude a todos! Obrigado!”, Paulo Neves em 11/05

2.) “Plantei arvores, tive filhos, escrevi quatro peças de teatro, 400 amigos enviaram mensagens pelo meu aniversario dia 13, nunca imaginei! O Thiago contou tudo direitinho... Meus amigos 400...estou sonhando! Amigos que há muito tempo não conversava... Segundo o taoísmo a vida é assim: somos pequenos barcos de velas brancas no mar desconhecido. Os remos são inúteis. Que fazer? A força dos elementos é maior que a nossa força. Sem duvida a sabedoria suprema não é remar, mas não fazer nada, deixar-se levar pelo mar da vida que é mais forte. A vida é assim mesmo, jamais, em tempo algum esperava 400 mensagens! Vocês são muito generosos! Não mereço, em tempo algum, essas mensagens! Vontade de chorar e de rir ao mesmo tempo, queria os filhos para compartilharem isso...Choramos e rimos porque a alma é feita com o que não existe, coisa que só os artistas sabem. "Somos feitos da mesma matéria dos nossos sonhos", afirmava Shakespeare ou Miguel de Unamuno: "Recorda, pois, sonha, alma minha - a fantasia é tua substância eterna - o que não foi com tuas figurações faze-te forte, que isso é viver, e o restante é a morte". 400 mensagens, muito obrigado meus amigos! Que lição aprendi...e agora?”, Paulo Neves em 12/05.

terça-feira, 14 de maio de 2013

ALGO DA INTERNET (73)

QUANDO NÃO TENHO O QUE FAZER, ESCREVO DE PESSOAS, ELAS PREENCHEM MEU TEMPO
Estou novamente na estrada, tempo curto, afazeres de volante e com pouca disponibilidade para internetar. Assim sendo repito aqui algo que produzi para o facebook e do qual tenho muito apreço, escrevinhar sobre pessoas. Depois de produzir os Personagens sem Carimbo – O Lado B de Bauru, tento fazer o mesmo com personagens nacionais e internacionais. Os dois primeiros aqui reproduzidos e no último, algo bem pessoal, uma distinta senhora, que toda vez que venho ao Rio de Janeiro faz questão de me ciceronear.

CHARLES RAMSEY, DE CLEVELAND, O VIZINHO
Esse senhor negro, dentes imperfeitos na boca é o vizinho da casa onde três jovens permaneceram retidas numa casa nos subúrbios de Cleveland, EUA por mais de dez anos, sem que ninguém notasse algo de estranho por lá. Quando uma fugiu, deu de cara com Ramsey. Sua fala, horas depois, para a imprensa, ao ver a menina vindo em sua direção foi: “Entendi que tinha alguma coisa errada quando uma menina branca bonitinha correu para os braços de um preto”. Hoje, o jornalão paulista quatrocentão Estadão, num texto, o “Negros Braços Salvadores”, reproduzido pelo jornal e escrito por Lee Siegel, numa frase me faz começar a descrever personagens como esse mundo afora (além dos bauruenses, que hoje chega ao nº 156, tento escrevinhar algo dos do mundo afora). Lá está: “Talvez ninguém admita, mas o que fascina em Ramsey é o fato de ele ser do tipo que faria muita gente mudar de calçada se o visse caminhando em sua direção. Ramsey está absolutamente certo quando fala do efeito assustador de sua raça, e de seu lugar na sociedade”, 11/05.

RESHMA, SOTERRADA VIVA POR 17 DIAS EM BANGLADESH“Uma mulher foi encontrada viva nesta sexta-feira (10) após ficar 17 dias sob os escombros do prédio Rana Plaza, em Savar, em Bangladesh. O edifício, que abrigava cinco confecções, desabou em 24 de abril, deixando até o momento mais de mil mortos”, é dessa forma que essa mulher é conhecida hoje mundo afora, um rosto a mais, um nome desconhecido e alguns breves momentos de solidariedade. A mulher é RESHMA, assim sem sobrenome, não tinha ferimentos graves e chegou a conversar com as equipes de resgate. Ela foi levada para um hospital local e está viva, assim como as fábricas de roupas locais, verdadeiros depósitos de gente, que costuram em grande quantidade para as grandes confecções mundiais (Bennetton, WalMart, El Córte Inglês...), quase sem nenhum direito trabalhista, a não ser o de trabalhar e trabalhar e ganhar um soldo insignificante no final do turno. Não pensem que a ocorrência é uma mera fatalidade da vida, pois isso é fruto da insanidade dos que querem ganhar e ganhar, sem olhar para o próximo. Fecham-se fábricas aqui, abrem-se acolá e o ser humano é desprezado aqui e ainda mais nesses miseráveis países. Uns poucos lucram muito e a imensa maioria morre dessa forma, da idêntica forma que essa já esquecida Reshma escapou por pouco. Ela terá que voltar a trabalhar em breve e adivinhem aonde o fará..., 12/05.

ENCERRO com minha amiga carioca, dona Leda Wilma Cantuária, mãe de dois e que não sai mais às ruas sem uma folhinha de Arruda, Cidreira, Alecrim (como na foto) atrás da orelha. Não o faz com uma Espada de São Jorge por causa do tamanho e peso. Diz ela que o olho gordo está cada vez mais atrevido e dessa forma precisa se proteger. Esse um dos seus escudos. Como não rezo, ela diz fazer isso por mim.