domingo, 20 de abril de 2014

CENA BAURUENSE (119)


O PASADENA LÁ DELES E O NOSSO MAU NEGÓCIO, O AEROPORTO NO MEIO DO NADA
É domingo de Páscoa e não quero permanecer muito tempo diante dessa máquina de fazer doido. Sento para escrevinhar um texto curto e grosso, reunindo nele dois temas bem candentes hoje. No primeiro, poucas linhas. A compra da Usina de Pasadena, notícia fartamente sendo esmerdalhada via mídia nativa, não existe como negar, nem tapar o sol com a peneira, foi um mau e nebuloso negócio. Pior que ele é o que entendo a mídia está fazendo nesse momento, jogando milho aos pombos, ou seja, dando o seu quinhão para a destruição da Petrobras. Essa campanha toda, com manchetes diárias, pelo menos para mim, visa só e tão somente a destruição da maior estatal brasileira, como proclamando que a mesma já está privatizada caso se encerre o reinado petista. Os jornalões todos em delírio (não seria delirium tremens?) estão por detrás dessas denúncias, que lá no fundo, não me enganam, fazem aberta e antecipada campanha para entregar de vez a estatal para as mãos da iniciativa privada. Eu sou muito crítico ao que ocorreu em Pasadena, mas não entro nessa de gaiato no navio de jeito nenhum.

Dito isso venho para meu segundo tópico de algo também óbvio (diria até obvio ululante, como diria Nelson Rodrigues), sacramentado na manchete de hoje do diário bauruense BOM DIA: “Aeroporto de Marília recebe 50 milhões – Recursos do Governo Federal são para a modernização do terminal, o que vai beneficiar toda a região. Áreas de embarque e desembarque serão ampliadas”. Li tudo isso e quase não consegui engolir a ceia da Páscoa, entalada que ficou na minha garganta. Foi imediata a comparação entre o que ocorre com a questão do aeroporto de Bauru e o de Marília. No de lá, todos envolvidos na luta por mais verbas para ampliar o já existente tornando-o cada vez mais pujante, belo e altaneiro. Do lado de cá, a quase destruição de um, com igual teor ao de Marília, tudo para se criar um novo, no meio do nada, fazendo a cidade comprar a ideia de que lá seria implantado um moderno terminal de cargas, o mais mais de todo interior paulista.

Bauru, como sempre, comprou gato por lebre. O gasto foi feito para alegria de uns poucos e o elefante branco levantando no meio do nada, inviabilizando o outro, o junto do Aeroclube, tão belo quanto o de Marília. Não engulo isso e a cada notícia como essa, a constatação de que algo de muito estranho ocorreu pelos lados de tudo o que possibilitou esse novo aeroporto, o de Arealva ser levantado. Volto a ele com frequência e a cada retorno, vejo com que esforço muitos por lá tentam fazer com que funcione a contento. Uma simples viagem de táxi à noite sai por R$ 120,00, o último ônibus circular sai de lá 22h30, a noite toda fica iluminado às moscas, poucos vôos diários e agora, mais um gasto só por causa dele, a duplicação da pista Bauru/Ibitinga, mas só no trecho de Bauru até o aeroporto, nada mais no resto. As cargas não vieram, o tal movimento para justificar seus gastos também não vieram, o que vieram são os problemas. Enquanto isso, marilienses devem rir muito de nós todos, pois o deles está lá instalado em área nobre e sendo modernizado com R$ 50 milhões conseguidos em recursos públicos.

Precisamos deixar de fazer papel de bobos e apontar o dedo para quem nos enfiou nessa enrascada. O Bom Dia de hoje mostra que estamos com um MICO nas mãos. Só isso, nada mais. E assim como a Usina de Pasadena, eis o nosso péssimo negócio, só que no caso daquele estão querendo fazer o grande embuste agora, com mais uma tentativa de privatizar a Petrobras e no nosso, ele já feito, pois o Aeroporto de Arealva já está aí a demonstrar como aceitamos de tudo. Somos mesmo uns bobocas.



100 ANOS DA PRAÇA CENTRAL
Sou lembrado quando da entrevista da TV Unesp sobre a data redonda da Rui Barbosa e ressalto não ser somente ela o símbolo da violência urbana, ela só mais um. Continua sendo o maior ponto de encontro central das pessoas e isso precisa ser ressaltado. Uma boa entrevista dada por esse HPA, eu meu chapéu, barba branca e na camiseta uma homenagem a Gabriela Leite, a criadora da Daspu e daVida, recentemente falecida. A praça resiste bravamente e clama por mais verde, usurpado dela décadas atrás. Disse mais e isso acabou não saindo na matéria. Existe hoje uma tentativa de criminalizar a praça, jogando sob suas costas todos os males do centro da cidade. Sendo ela central, nada mais natural do que os problemas todos estarem focados ali em sua área. A seguir o link da matéria da TV Unesp: https://www.youtube.com/watch?v=k7eKa7aiKwU  

sábado, 19 de abril de 2014

MEUS TEXTOS DO BOM DIA BAURU (271, 272, 273 e 274)


GABO E OS QUE RESTARAM 274º publicado em 19/04/2014

Impactante notícia dias atrás, Gabo faleceu. Gabriel Garcia Marquez, o escritor colombiano, desses a encher de orgulho esse continente. O mesmo que um dia deu um belo de um pontapé inicial para que deixássemos de ser penalizados por essa praga incutida por séculos na mente latina, a de que somos dotados de uma espécie de “complexo de vira-latas” (Nelson Rodrigues explica). Seus textos libertários, cheios de um realismo fantástico, viagens sobrenaturais e só nossas, bem possíveis para quem vive extremos bem plausíveis abaixo da fronteira do Grande Irmão do Norte. Viajamos com sua obra, sonhos possíveis e não possíveis. Ele nos ensinou que precisamos ir além do negócio de só ousar, precisamos é fazer acontecer, botar o bloco na rua e enfrentar nosso pesadelo com uma força pra lá de imaginativa. O caminho vislumbrado em sua obra ampliou caminhos, tornou possível a libertação de muitos dos grilhões nos mantendo como elefantes de circo, presos com uma cordinha a um mero toco, desconhecendo nossa força. Instigava a desatar todos os nós que nos mantiveram atados a uma cruel elite, século após século nos dirigindo da área de sua casa grande, como se fossemos meros gados. Tudo que se lê dele é contagiante. “Só quero na minha vida gente que transpire adrenalina de alguma forma”, disse e quem entendeu o recado foi à luta e dela nunca mais saiu. Doutra feita vaticinou: “Los seres humanos no nacen para siempre el día en que sus madres los alumbran, sino que la vida los obliga a parirse a sí mismos una y otra vez", transcrito aqui em espanhol, a língua desse continente, do livro ‘Amor em Tempos de Cólera’, outro clássico. Hoje me ponho a pensar: Mas quem nessa América ainda continua na lida e cheio desse gás abridor de mentes? Hugo Chávez já se foi, Cortázar e Mercedes Sosa idem. Restam alguns. Lá do Norte penso em dois, no pensador Noam Chomsky e depois no cineasta Michael Moore. Do Caribe, Fidel Castro, hour concours. Lá do Sul, mais precisamente do Uruguai outros dois, o presidente Mujica e o escritor Eduardo Galeano. Quem mais mesmo?

O LIXO DOS FALSEADORES DA VERDADE273º publicado em 11/04/2014
Não acredite em tudo o que você lê, vê ou ouve na imprensa. Desconfiar faz parte do negócio e quem confirma isso é um dos próprios barões da mídia atual, o diretor de redação do jornal Folha de SP, Otavio Frias Filho, em recente texto para a revista Piauí. Num longo ensaio, o “Tribuno da Imprensa”, sobre a trajetória de Carlos Lacerda, ex-governador do Rio de Janeiro, uma espécie de paladino da direita brasileira, pinçadas aqui e ali em nove páginas, duas afirmações para lá de instigantes. Na primeira, quando comenta sobre a norma padrão de Lacerda, insinua que o mesmo procedimento é usado ad eternum, tanto em tempos idos, como em tempos atuais. “...definiu o que seria um padrão: o martelar diário de denúncias de corrupção expressas na mais injuriosa virulência”, escreve. Esse padrão, infelizmente, persiste. É um tal de propalar denúncias de corrupção só de um dos lados da questão, o dos declarados adversários desses que se intitulam os “donos do poder”. Com o poder da caneta na mão, culpabilizar por todos os males da nação somente uma sigla partidária e isentar as demais, favorecendo assim os seus interesses é só a ponta do iceberg da escandalosa manipulação. A palavra é essa mesma: manipulação descarada e contínua. Num outro trecho solta essa: “Há quem considere o jornalismo dos nossos dias engajado, parcial, faccioso, mas a imprensa do século passado não somente incidia nesses atributos, como costumava ostentá-los com desenvoltura. As apurações eram mais levianas, as reportagens eram opinativas, os jornais tomavam partido acintosamente e admitiam pouca ou nenhuma divergência em suas páginas”. Barata, insossa, inodora e insípida ironia. Primeiro porque o passado se repete hoje, de forma acintosa, em piores circunstâncias, como farsa. Parte da dita grande imprensa escolheu um dos lados e sonega, escamoteia e mente sobre a verdade factual dos fatos. Algo não só lamentável, como criminoso. Come-se gato por lebre e na maioria das vezes tudo é repetido como verdade absoluta. Abusos merecedores de punição.

ABSURDA DISPARIDADE272º publicado em 05/04/2014
Na abertura da sessão passada da Câmara dos Vereadores de Bauru, espaço da Tribuna Livre cedido por dez minutos à Comissão da Verdade, seu coordenador Carlos Roberto Pittoli disse algo intrigante. Cita algo percebido décadas atrás na vizinha Iacanga, pequena cidade de 10 mil habitantes, área de 547 kms quadrados, quando por lá trabalhava sua esposa e visitava frequentemente suas praças e bares. “O município possuía entre grandes e pequenas, aproximadamente 700 propriedades. Num salto de 30 anos, recente levantamento, o número atual é de 300”, afirmou. A disparidade da comparação merece uma tese, estudo aprofundado e reflete não só o que lá ocorre, como no país num todo. A concentração de renda foi acelerada. Preocupante, pois o pequeno proprietário, seja ele rural ou mesmo o de um pequeno imóvel na área urbana está sendo ano após ano engolido. Sufocado, sem espaço, sem condições de continuar mantendo algo seu, esse abre mão, vende o que até então possuía e na maioria das vezes na denominada “bacia das almas”. O grande cada vez engorda mais seu patrimônio e o pequeno emagrece. Novidade nisso? Nenhuma. Tanto que o Brasil é hoje campeão no quesito desigualdade social, índices alarmantes de concentração de renda. Uns poucos possuem demais e a imensa maioria de menos. Absurdo merecedor de rígido combate, escárnio público. Não temos mais como avançar, obter índices de crescimento positivos sustentando no colo uma situação de disparidade e injustiça social tão alarmante. Daí quando se observa os Sem Terra, Sem Tetos e os Sem Condições ocupando ruas e praças alguns ficam de orelha em pé. Eles estão somente atrás do seu perdido quinhão, de direito e de fato, nesse bolo todo. Na força da união algumas reconquistas ocorrem, sob muita pressão, uma linguagem entendida por todos. Se o restabelecimento do ordenamento distributivo não ocorre por bem, que se faça com mobilização, organização de objetivos, estratégia, luta e ação. Do contrário, a disparidade hoje observada em Iacanga continuará sendo o padrão no hoje e no amanhã.

MENTIRA GOLPISTA AINDA INSEPULTA271º publicado em 29/03/2013
Aldir Blanc e Cristovão Bastos lapidaram linda letra, samba cantado magistralmente por Paulinho da Viola, “50 Anos”. Reparem nisso: “Eu vim aqui prestar contas/ De poucos acertos/ De erros sem fim/ Eu tropecei tanto as tontas/ Que acabei chegando no fundo de mim/ O filme da vida não quer despedida/ E me indica: ache a saída/ E pede socorro onde a lua/ Que encanta o alto do morro/ Que gane que nem cachorro/ Correndo atrás do momento que foi vivido...”. Isso, cantado por eles para comemorar um aniversário, cai como uma luva para uma data sendo lembrada no dia 1º de Abril, exatamente no Dia da Mentira, a dos 50 Anos do Golpe Militar. Todos nós devemos em certos momentos de nossas vidas, mais que tudo, prestar contas, enxergar os tropeções, as pisadas na bola, chegar ao fundo de si mesmo e de lá achar a saída, a mais honrosa possível. Não há demérito nisso. Fazer um “mea culpa” de erros e acertos é algo mais do que necessário, honroso, coisa de gente briosa, que não quer mais errar, nem continuar pisando na bola a vida toda. Pois os militares brasileiros erraram feio no que fizeram e propiciaram ao país em 64 e até hoje não tiveram a hombridade de ao menos reconhecer alguns dos seus erros. A história cobra isso deles e continuam fazendo ouvidos de mercador. Certo que nada fizeram sozinhos, pois foram instigados, instrumentalizados por uma cruel elite, a mesma que tentou reviver uma triste marcha, a da Família com Deus e pela Propriedade. Dessa inconsequente união, tivemos quase 20 anos de desmandos, exercício pleno do autoritarismo, prepotência e descalabro em todos os níveis possíveis e imagináveis. Atroz retrocesso. Enquanto não se desvencilharem desse peso sobre os seus ombros não estarão quites com o país. A tropa atual das Forças Armadas possui pensamento mais arejado, jovial e menos carcomido pelo tempo, pensam diferente de uma elite militar envelhecida em todos os aspectos, principalmente nesse de se fechar em copas. O país precisa avançar e seus militares reconhecerem erros cometidos no passado. Essa uma ferida ainda não cicatrizada, chaga aberta, defunto insepulto e só eles podem resolver de vez a questão.

sexta-feira, 18 de abril de 2014

DICAS (119)


DISCUSSÃO SOBRE COMUNICAÇÃO NA CUT E ALGO SOBRE O ‘BRASIL ATUAL BAURU’, JORNAL NOVO NA PRAÇA
Manhã de quinta, 17/04, algo me faz deixar o trabalho de lado, a oficina “Comunicação: O desafio do século”, no auditório da Central Sindical da CUT, ali na rua XV de Novembro. A abertura foi feita pelo secretário local da CUT, João Andrade e abaixo as opiniões de alguns dos que estiveram ocupando os microfones.

Roque Ferreira, ferroviário, sindicalista e vereador do PT: “Nossa sociedade é dividida em classe, explorados e exploradores. Necessário sempre identificar bem o que somos, onde estamos e para onde vamos. As palavras de ordem do ex-presidente Jango em 13/03/1964 na Central do Brasil são as mesmas de hoje, esse debate, portanto, permanece atual com novos conteúdos e cenários. Não devemos alimentar nenhuma esperança de que o conjunto da mídia vai ceder espaço para a classe trabalhadora, pois patrão é patrão e trabalhador é trabalhador. Essa disputa pautada na sociedade tem como foco a disputa de classe. O grande combate é destruir o sistema opressor que nos infelicita. Um convite a todos para dia 25/4, 19h, na Câmara, debate para enfrentarmos a campanha pela Maioridade Penal”.

Nei, sindicalista e da CUT Marília: “Em 514 anos de Brasil, completados dia 21 próximo, não podemos esquecer algo: quem antes fez tudo o que está sendo feito nesse país nos últimos anos? Transformação extraordinária nunca vista e daí ficam inconformados com o desenvolvimento ocorrido. Desenvolvimento é resolver problemas e criar outros. Com muita gente tendo seus carros, as estradas necessitam de ampliação, com mais gente viajando de aviões, claro os aeroportos necessitam de ampliação. Essa imprensa que aí está é uma vergonha e a minha verdade não é a verdade desses caras”.

Chicão Monteiro, sindicalista, eletricitário e dirigente da CUT regional Bauru: “Muitos de nós nos vemos repetindo os conceitos de pura lavagem cerebral repetidos pela mídia sobre maioridade penal: bandido bom é bandido morte, os direitos humanos defendem bandido, pena de morte para eles. A maior mentira dos últimos tempos, de tanto ser repetida já foi assimilada pela maioria da população. A ideia foi vendida e foi comprada. Nosso papel é debater essa lavagem feita na sociedade e em nós mesmos. Necessário elaborar uma política contrária. Primeiro de Maio não é uma data festiva e sim, comemorativa”.

Edvaldo Almeida, o Ed, jornalista, sindicalista Sindicatos dos Jornalistas SP: “Lutar contra o bom senso comum é remar contra a correnteza. Continuamos no dia a dia isolando as questões e a que toca os trabalhadores a focamos em separado. O marco Civil da Internet estabelece um mínimo de direitos focados em três pontos: Liberdade de Expressão, Neutralidade da rede e Direito a Privacidade. O direito de construir a si mesmo é básico, somos o que os outros vem na gente. Quero ter o direito de falar e não pagar mais por isso, sem ter minha opinião judicializada. Hoje deixamos tudo rolar na rede por que não existem outras opções. Eles ainda fazem quase tudo o que querem e aceitamos. (...) Hoje o problema não é você usar a roupa de grife, o problema é você ser pobre. O discurso que nos manteve do mesmo jeito por 500 anos precisa ser combatido. O Estado precisa sim e serve para regular a mídia, porque a disputa é muito desigual, sendo assim o garantidor de que nada saia do controle e as injustiças não ocorram. O Brasil mostrado por eles é o que eles querem que saibamos, não o que de fato existe, o mais justo. Tudo o que fazemos é criminoso aos olhos da mídia atual”.

Adriana Magalhães, psicóloga, bancária, sindicalista e responsável pela Secretaria Estadual de Comunicação da CUT: “Se não fosse as redes sociais os blogueiros não existiriam. Já que não temos espaço nos grandes meios de comunicação temos que criar os nossos espaços. Veja o caso dos Sem Terra. Nunca aparece o motivo da ocupação, qual o malefício do agrotóxico, nunca falam dos motivos das marchas e o tratam sempre como invasores, nunca como ocupantes. A mídia não mostra os dois lados da questão. A Rede Brasil Atual, ligada aos sindicatos da CUT foca tudo do lado do oprimido. Aqui existe de fato o jornalismo colaborativo, onde você filma o ocorrido, envia e é colocado no ar. Cenas do cotidiano, nossa luta diária, afinal quem produz esses programas são as pessoas. O Brasil Atual Interior é um jornal com concepção e pauta construída com os sindicatos, mas escrito por cada cidade onde circula, com os formadores de opinião de cada uma delas. Nos temas nacionais e estaduais a Rede contribui. São 5 mil os sindicatos filiados à CUT e essa nossa real experiência de esquerda para combater a hegemonia da mídia. Além disso, buscando criar uma Lei de Iniciativa Popular para a mídia. Estamos ajudando a construir a massa crítica para se fazer ouvido e se o país inteiro estiver mobilizado a mudança ocorre, do contrário não. Estamos promovendo a diversidade regional, mostrando que serviços essenciais de comunicação devem ser usados por todos e assim construímos um país mais democrático. (...) A história que está ocorrendo hoje nas ruas precisa ser de fato contada. Não dá mais para acontecer e ninguém ficar sabendo. Precisamos ter os nossos formadores de opinião, que não são os dos grandes meios de comunicação”.

O fechamento foi feito pelo Chicão, com um desfecho indicando os rumos para Bauru: “Trazer o debate para o chão da fábrica, para a gente, aqui e agora. Onde eu entro nessa?, essa pergunta. Assisto a TV Globo, Record, leio a Veja, JC, Folha. Continuo vendo a imprensa divulgar uma coisa que não existiu e criminalizando o movimento social. O termo invasão nas ocupações, a tal greve dos baderneiros vermelhos. Muito pouca gente fala bem da ação dos trabalhadores. Comunista é raça de bandido, ser socialista um crime. Invertem tudo e os papagaios de pirata repetem tudo. Se a veja publica algo, pode ter certeza, 90% não é verdade. O inverso é que é a verdade. Tente descobrir você mesmo a verdade dos fatos, daí temos que disputar a informação. No Brasil são mais de 22 mil sindicatos, 4 mil são da CUT e a gente se condena quando não se coloca. A chegada do jornal Brasil Atual é para disputar a informação na forma como é feita hoje em Bauru. É um rompimento de barreiras, criando um meio de comunicação próprio. Dessa forma começamos a disputar a informação no Brasil e como transformar uma oficina dessa em algo prático? Criando um meio nosso, daí o Brasil Atual Bauru.

Ed desfere uma frase bem demonstrativa desse momento atual onde o explorado se informa pelos meios do explorador: “É mesmo muito difícil tomar e ocupar o espaço do explorador”. Adriana lembra frase atribuída a José Genoíno e também bem a calhar para o momento: “Fortalecer e abrir rádios comunitárias é o mesmo que fazer a reforma agrária nos meios de comunicação”. O projeto foi lançado e uma meta, a de lançar a 1ª edição do Brasil Atual Bauru antes do 1º de Maio (toc toc toc). Começando desde já uma corrida contra o tempo. Oba! JORNAL NOVO NA PRAÇA E COM A VISÃO DOS DO LADO DE CÁ...

quinta-feira, 17 de abril de 2014

ALGO DA INTERNET (83)


ALGUMA COISA DE UMA PERIGOSA PROFISSÃO, DIA DO TRABALHO E TRISTEZA POR GABO


1.) Nessa rica matéria da BBC uma informação mais do que doída para um país como o nosso: o Brasil é um país dos mais perigosos para o exercício pleno do jornalismo investigativo e de crítica pontual a atos, principalmente de agentes públicos. A perseguição é latente e atroz. Por causa disso, devemos todos estar mais do que atentos, apoiando sempre iniciativas de pessoas ainda com coragem e disposição para o exercício de um trabalho profissional, sério, voltado unicamente para a verdade factual dos fatos, o objetivo básico da profissão de jornalista. Do contrário estaremos recebendo uma informação falseada, de acordo com interesses escusos, o dos donos do poder. Da união de todos continuaremos tendo jornalistas atuando de forma livre, independente e sem interesse nisso ou naquilo, a não ser a verdadeira informação.

O Brasil é o 11º país mais perigoso do mundo para se exercer o jornalismo, segundo o relatório de uma ONG internacional. A maioria dos profissionais mortos cobria casos de corrupção. E em 93% dos casos, eles foram assassinados: http://bbc.in/P5JY5X

2.) Quase tudo pronto para o evento Primeiro de Maio da CUT Bauru 2014. Cartaz oficial está sendo lançado e logo após o feriado estará fixado em todo o Sistema Público de Transporte Coletivo de Bauru (parceria com EMDURB) e nos principais corredores comerciais da cidade. A reunião de Marcelo Nova e o Nasi já consolidada num belo LP, poderá ser vista em Bauru, encontro de velhos dinossauros do rock nacional. Bela escolha para a festa do Dia do Trabalho.

3.) VALE A PENA ESPIAR ESSA CONVERSA - Estive aí no público dessa primeira etapa assistindo ao Franklin Martins. Rever isso, entender tudo e ajudar na transformação que necessitamos é primordial dentro do país que queremos, mais justo e igualitário. HPA

Opera Mundi e TV Unesp lançam segunda temporada do programa #AulaPública

No primeiro episódio, o jornalista e ex-ministro da Secom #FranklinMartins responde: "Por que os meios de comunicação precisam de regulamentação?" Assista: http://goo.gl/rB3Mzj

4.) ESSE CONTINUARÁ SENDO UM DOS TAIS CARAS PARA MIM, MINHA POSTURA DE VIDA DE DESACREDITAR EM TANTA INIQUIDADE INVENTADA PELO HOMEM VEIO DELE E DE SEUS PERSONAGENS. NÃO EXISTE PEÇA DE REPOSIÇÃO PARA GENTE COMO O GABO...

"Los seres humanos no nacen para siempre el día en que sus madres los alumbran, sino que la vida los obliga a parirse a sí mismos una y otra vez".
El amor en los tiempos del cólera, Gabriel García Márquez

quarta-feira, 16 de abril de 2014

MEMÓRIA ORAL (159) -


ELE NOS ENXERGA MUITO BEM – O ARGENTINO VICTOR TOMATO DISSE COMO NOS VÊ
Argentina e Brasil deveriam ser dois países verdadeiramente irmãos. Na prática, mesmo que os dois atuais governos, ambos governados por mulheres se entendam bem, o buraco é um pouco mais embaixo. Fronteiriços, mesmo com muitos dissabores no passado, hoje ambos ocupam posição de destaque no novo momento vivido pelo Mercosul. Diplomaticamente se entendendo, mas nem por isso conseguem ocultar certa rixa, rivalidade pairando no ar, construída muito mais em função das questões futebolísticas do que as limítrofes. No caso brasileiro boa parte é insuflada por profissionais (sic) da crônica esportiva, que acirram a disputa quando os dois grandes da América do Sul se encontram nas ditas quatro linhas do campo de jogo. Muitas propagandas na TV, tendo a mesma contenda como pano de fundo contribuem para não deixar o tema cair no esquecimento. Fomentada por muitos, alguns destoam desse velho discurso. Conto a história de um desses e argentino.

Victor Avalos circula pelo Brasil há mais de quinze anos e nesse período foi construindo um gostar um tanto diferenciado das coisas daqui. O encontro em Bauru SP, interior paulista, participando do IV Festival Internacional de Bonecos, 05 a 13/abril, uma divertida reunião de bonequeiros nacionais e de vários países da América Latina. Seu espetáculo, o “Tomate, Puro Tomate”, reúne no palco, em apresentação solo, rara oportunidade para se presenciar um profissional no quesito balões. Seu personagem faz de tudo travestido como o palhaço Tomato, diverte o público, encanta adultos e no final da apresentação, quando já sem a pintura no rosto outra possibilidade, a de conhecer a fundo uma pessoa conhecedora como poucos do Brasil. Artista internacionalmente conhecido, viaja mundo afora, tendo já passado por 25 países. “Nesses quinze anos de estrada pelo interior brasileiro conheço esse país mais que muitos brasileiros e dessa forma opino sobre o que vejo”, me diz.

“O argentino é um povo muito exigente. Sai nas ruas muito mais que os brasileiros, para quase tudo, bate panelas, mas pode perceber que a coisa não muda. De que serve isso tudo se a coisa não melhora. Aqui no Brasil a coisa melhorou. Eu vejo isso no dia a dia, o Brasil de hoje não é o país de quinze anos atrás. Hoje eu chego no Brasil e é como se estivesse na Europa. Tudo mudou por aqui e o brasileiro parece não ter percebido muito isso, não ter dado a devida atenção para isso. Eu de fora noto isso nitidamente”, me diz quando o instigo a falar sobre algo que está no imaginário do brasileiro, a de que o argentino vai mais para s ruas se manifestar. Diz mais, fazendo uma comparação com as questões culturais em ambos os países: “O trabalho cultural no Brasil não tem igual. O fenômeno cultural SESC é algo inigualável. São mostras, exposições, festivais, shows para todas as idades e no país todo. Isso não existe em nenhum lugar do mundo, talvez somente na França. Uma entidade sozinha fazer isso tudo que o SESC faz é algo único, espetacular”.

Suas comparações não param por aí. Depois de uma semana de intensa atividade em Bauru e mais duas cidades vizinhas, fez questão de assistir todos os espetáculos de seus colegas, pois pratica o que diz da boca para fora, uma interação e integração com culturas diferentes. “Não tem como não sermos diferentes, a personalidade de nossos povos são bem distintas. O olhar do argentino discrimina mais, é mais duro, ansioso. O argentino é do tipo que guarda o pinto antes de terminar o xixi, dá a descarga antes de terminar, o brasileiro não, ele é mais tranquilo e não se escandaliza tanto com as coisas. Vejo o paulista como um povo tranquilo, mas instigado para a rivalidade e o argentino também tem fomentado isso, mas ele gosta do brasileiro. Pode perceber”, continua sua fala, no único instante onde consegui fazê-lo parar para uma séria conversa, na festa de despedida do evento, domingo, 13/04, por volta das 22h.

E daí, enquanto o grupo musical bauruense Kananga do Alemão tocava no palco, não parou mais de falar. Na mesa, o artista plástico Silvio Selva e convidadas por ele, um grupo de dentistas latinas, formado por duas bolivianas e uma equatoriana perdidas como ele em Bauru, reunidas num curso de especialização da profissão o ajudaram no desfiar da conversa no momento em que descamba para o nevrálgico tema, futebol. “Não te respondo quem foi melhor, se Pelé ou Maradona. Sabe por que? São épocas diferentes e cada um teve um importância diferente. No caso do Maradona para a Argentina sua figura extrapolou o futebol. O caso com a cocaína, a sua rica passagem pelo Nápoles, ele representou muito, muitos fincaram posições por causa de suas atitudes e isso ocorre até hoje”, diz. Mas dois temas e seu posicionamento. Religião: “O brasileiro é mais religioso, difícil quem não siga uma por aqui, já o argentino é mais laico, não dá tanta importância para elas”. Livrarias: “As pessoas no Brasil são mais alegres, influência do clima e lá, mais frio, permanecem em lugares mais fechados, todo cheios de roupas. O argentino é muito mais triste e a geografia como sabemos modifica muito os povos. Isso nos torna muito diferentes, algo natural”.

Na sequência das comparações entre os dois povos ele desfere: “O público argentino é mais exigente que o brasileiro. Aqui é generoso. Lá menos. Isso não acontece da mesma forma em todos os lados. Uma vez mais exigentes, para ser aprovado lá e o argentino gostar de fato, tudo precisa ser muito bom, mas bom mesmo. Não pense que eu sou uma pessoa normal. Vivo muito tempo fora de casa, falo isso da cultura brasileira da mesma forma que falo da italiana. Eu observo muito e falo do que vejo. A MPB de vocês é muito interativa, cito vários que gosto muito, desde Marisa Monte, Gal, Vanessa da Matta, Maria Creuza, Tim Maia. E Tom Zé, como esse é bom e depois o inabalável Raul Seixas. Ganhei um vinil dos Mamonas décadas atrás, tenho coisas do funk carioca, Nação Zumbi e Chico Science. Lá na Argentina conhecem pouco disso, mas não eu. Vindo aqui há tanto tempo, consumo muita coisa daqui e levo comigo. Lá chegou algo dos Titãs, os Paralamas gravaram o Fito Paez, Cavalera é sucesso mundial, tem algo do Barão Vermelho e do Cazuza”, diz cantarolando um refrão desse, o “a tua cabeça é cheia de ratos”.

Nas questões mais polêmicas, como a da política que o seu país tem em ralação às ilhas Malvinas, seu posicionamento reflete um pouco do período em que atuou com soldado da Marinha. “Sou totalmente contra qualquer tipo de guerra e seria mais sensato resolvermos primeiro os nossos grandes problemas, depois iríamos ver essa questão de ampliação territorial. Na Patagônia mora hoje uma pessoa por km quadrado. Você imagina o que é isso? Ter aquele novo território hoje para que? Com que intuito? Fico me perguntando, quem vai querer morar nas Malvinas? poucos. Aquilo vai ser só mais uma conquista política. Eu não penso como todo mundo. Sou curioso, tenho um pensamento singular. Todos rimos e sofremos pelas mesmas coisas, sofremos com as guerras, a desigualdade, a intolerância. Tudo aquilo que toca é também tocado. Eu estou aqui, posso morrer aqui, levo coisas daqui, assim como deixo coisas aqui, veja a profundidade disso”, vai destilando sua verve sobre vários temas ao mesmo tempo.

Num certo momento para tudo e diz que por ser diferente é um artista sem recursos financeiros e me pergunta se sei algo sobre os “peseteros”. Na negativa me responde: “São os artistas que passam de cidade em cidade em busca somente do dinheiro e nem olham nada ao seu redor, não se interessam por nada além do dinheiro. Eu não sou assim, sou um trabalhador do espetáculo, o verdadeiro artista é um trabalhador do espetáculo, aqui, na Argentina ou em qualquer outro lugar”. Esse diferencial foi o que chamou a minha atenção. Estiveram reunidos variados artistas envolvidos com o Festival, concepções díspares, mas todos bem focados no seu trabalho e dessa mescla toda, Victor chama a atenção desde o primeiro contato no espetáculo de abertura do evento, domingo 06/04. Bateu aquele click instantâneo, o da certeza de se estar diante de um diferenciado artista, declarado autodidata e com posições fortes, firmes e contundentes. O persegui do início até o último dia do festival, quando na derradeira hora consegui que soltasse o verbo. Sem papas na língua, ao lado das dentistas e também sem medo de ser ou não politicamente correto, repetiu mais uma vez a frase usada por várias vezes e da forma mais irreverente possível: “Sou tomato, mas não sou fruta”.

O mais significativo de tudo isso talvez tenha sido o registro conseguido na saída do Teatro Municipal de Bauru, dois dias antes do final do Festival, quando ainda tentava marcar o bate papo para a entrevista e Victor solta uma frase cheia de neologismos sobre o Brasil. Aquilo, pela forma como foi dito, impossível o registro assim de bate pronto. Insisti até que tudo voltou à sua mente e gravamos com um único pedido, para que a câmera não fosse dirigida diretamente para o seu rosto. Assim o fiz e do resultado a tal frase aqui eternizada: “Um brasileiro com um pandeiro na mão passa a ser outra história. É como um MP3. Passa a ter cinco mil canções. (...) O Brasil é muito endógeno. Em respeito à comida, são muitos jeitos diferentes de vida. É completamente endógeno. É Brasil, por Brasil, para Brasil, com brasileiros, de brasileiros, entre brasileiros, desde brasileiros, desde Brasil, a ver de brasileiros, com brasileiros e brasileiras”. Ufa! Figura marcante não só pela reluzente careca, nem pelo inusitado rabicó amarrado no cotoco traseiro de cabelo, mas sim mais pelo que apresentou no palco e um pouco mais quando alguns privilegiados tiveram o prazer de bate papos, onde salpicou um bocadinho de suas ideias, tudo construído ao longo de décadas de estrada. Victor já se foi, está novamente na Argentina e por pouquíssimos dias. Antes do final do mês embarca novamente, nova viagem, dessa vez para o México. Essa sua vida, mambembeando e cumprindo o papel que vai além do de artista, o de atento observador de gente ao seu lado. Deixa sempre saudades por onde passa, assim ocorreu em Bauru.

terça-feira, 15 de abril de 2014

PRECONCEITO AO SAPO BARBUDO (72)


DESCULPA FORMAL – AUDIÊNCIA HOJE PROCESSO AGUDOS OCTAVIANI’S:
Chegou o dia. Hoje a primeira audiência de um processo movido pelos agudenses Octaviani’s (Carlos, Auro e Everton) contra minha pessoa por ter-lhes chamado em textos no blog e nas redes sociais como promotores de atos “cruéis” contra a população e formando “oligarquia” de poder familiar na vizinha Agudos. Tivemos uma primeira audiência, tentativa de conciliação, quando me foi proposto para resolver a pendenga uma RETRATAÇÃO, onde diria que são exatamente o contrário do que havia dito. Ou seja, estaria humilhado como jornalista, como crítico de algo que possa ter visto e não concordado na ação deles à frente de atividades públicas. Não havia como concordar. Vivemos um momento no país onde nossos tribunais estão abarrotados de processos tão mais necessários da ação da Justiça e ela se vê obrigada a julgar a criticidade de alguém que, naturalmente se opõe a ações específicas de um Governo Municipal. Péssimo isso, demonstrando uma espécie de “cala boca” em qualquer tipo de críticas. A continuidade disso será muito útil para confirmar a necessidade da existência de fiscalizadores, de críticos atentos e a da não existência da tal unanimidade em Agudos. Recebi vários apoios, inclusive do Sindicato dos Jornalistas do Estado de SP, que me oferece espaço em âmbito nacional para expor o imbróglio, assim como para matéria em âmbito também nacional em órgão de grande e renomada circulação e influência, relatando as tais crueldades e oligarquia (analisarei essas possibilidades após resultado dessa primeira audiência). Tudo poderia ter sido evitado, faltou sensibilidade, mas uma vez instigado, provocado, insuflado, vejo que esse processo poderá ganhar proporções inimagináveis, não para mim, mas extrapolando os meus interesses, tornando-se um caso cujo conteúdo poderá ganhar contornos de interesse nacional. Não vejo como isso não possa acontecer se o mesmo tiver prosseguimento, pois o material coletado como minha defesa é mais do que consistente. Deixarei todos a par de tudo após os acontecimentos de hoje.

Obs.: Esse meu único texto hoje, dia corrido demais da conta, amanhã relato os motivos da dita correria...
HPA

segunda-feira, 14 de abril de 2014

BEIRA DE ESTRADA (34)


BIOGRAFIAS NÃO AUTORIZADAS DO LADO B DE BAURU (05)

JOAQUIM PEREIRA, UM EX DO RÁDIO NÃO ESQUECE O IMORTAL WALTER NETO*
* Texto publicado no jornal mensal Metrópole News, abril 2014, edição nº 10, dirigido por Vinicius Burda

Como gosto demais da conta de rádio, principalmente do AM, sempre me pego rememorando nomes e mais nomes de gente que já passaram pelos microfones bauruenses. São tantos, muitos hoje nas mais diversas atividades. O que é mais triste e estou sempre trombando é com histórias daqueles que, um dia por lá estiveram e hoje, do outro lado continuam nutrindo uma baita de uma saudade do dito cujo microfone. Hoje rememoro a história de um desses.

JOAQUIM PEREIRA é cria da vila Independência, tendo ali vivido desde os anos de 1964 até nove anos atrás, quando foi morar no Geisel. Tem a cara do seu reduto inicial e toda vez que bato os olhos nele, lembro-me de algo da Independência. São 56 anos, muitos deles como radialista em várias emissoras da cidade. Seu pontapé inicial foi na Bauru Rádio Clube, com um timaço onde ao seu lado estavam Darci da Luz, Gualberto Carrijo, Sílvio Rodrigues e Tio Pedroso. Passou também pelo 710, no plantão esportivo do Sistema Globo de Rádio, sempre no noticiarismo, nunca na animação. Nutre um carinho mais do que especial por Walter Neto, seu padrinho no rádio, que o tratava como filho. Passou cinco anos vendendo propaganda para seus programas, depois rodou em outras paragens: 12 anos no Bradesco, 12 na Disbauto, 8 na Padaria Elétrica e um outro tanto comandando uma banca de jornais e revistas. Hoje, a saudade ainda bate forte no peito, mas está mais do que com os pés no chão, com oito anos atuando nas hostes da Edipro, a editora da Jalovi. Continua com o mesmo jeitão, simples, alegre e trazendo sempre consigo a carteira de Radialista, com MTB é tudo, fazendo questão de repetir sua inscrição para quem não acredita no que diz: 11510. Vai continuar se considerando um eterno radialista.

Vejo muitos como ele pela cidade e escrevo ex-radialistas, porque muitos estão na mesma situação de Joaquim, a de um dia terem atuado em alguma rádio local e cheios de vontade de voltarem, mas sem nenhuma possibilidade de espaço. O mercado radiofônico em Bauru está mais do que estrangulado e para constatar isso basta dar uma espiada na quantidade de rádios que tínhamos no passado e na quantidade que temos hoje. Quando escrevo dessas rés desgarradas, penso também em algo quase em fim de carreira hoje, o dial AM. Infelizmente, o tempo do radinho de pilha com ondas curtas está com os dias contados e todas elas passarão a ser FMs. A transformação ainda não foi bem entendida, mas de uma coisa tenham certeza, pessoas como Joaquim Pereira continuarão tocando suas vidas fora do ambiente radiofônico.

Impossível pensar nisso tudo, nas transformações todas, sem lembrar personagens que marcaram época no rádio bauruense. Na impossibilidade de citar todos, pois seria fácil esquecer muitos, faço menção a um, justamente o citado por Joaquim, o nome até hoje mais famoso dentro do universo da música sertaneja, WALTER NETO. Esse homem acordava a cidade de uma maneira peculiar e conseguia expressar uma caipirice até hoje copiada por muitos, mas não alcançada por nenhum outro. Era único no que fazia. Espontâneo, assumido caipira, botava o galo pra cantar, contava piadas, fazia sorteios, repetia a hora a todo instante, dava as primeiras informações para uma cidade ainda dormente e tinha algo bem peculiar, adorava vestir uma camisa vermelha, sua cor preferida. Antológicos os programas ao vivo dominicais, sempre pela Auri-Verde onde sorteava frangos e em algumas ocasiões o fez até com cabeças de gado. E tocava a música sertaneja autêntica, a raiz. Por sorte não veio a conhecer esse tal de sertanejo universitário, que certamente repudiaria.

Joaquim atuou com Walter e as recordações daquele período são as que mais marcaram sua vida. “Ele é meu segundo pai. Fez coisas por mim que só um pai faz pelo seu filho. Fui seu assessor, ele falando e eu atendendo e fazendo de tudo nos bastidores. Aprendi muita coisa boa com ele”, conta Joaquim. Walter é do tempo do radinho de pilha, assim como Joaquim, esse vivendo dessas lembranças, do caboclo que lá do seu sítio ou de sua casinha enfiada na periferia acordava e uma das primeiras coisas que fazia, até antes de urinar era ligar o rádio e dele não mais se separava o dia todo. O rádio mudou, mas ainda não perdeu de todo esse traço de empatia com as pessoas. Joaquim continua ouvindo rádio, mas para aqueles que costumam sintonizar sua rádio preferida pelo celular, diz que não pegou bem o espírito da coisa, pois ali não tem como fazê-lo com rádio AM, mas é justamente delas que gosta. Essas modernidades vão demorar a serem assimiladas por gente cheia de saudade de um tempo que não volta mais. Essa dupla faz parte desse tempo.

E para encerrar com chave de ouro, algo da história pessoal do Joaquim, contado por ele mesmo, ótimo para ser reproduzido nesse momento quando falam de uma minissérie na televisão sobre o prostíbulo da Eni: “A dona Eni Cesarino morava na quadra 23 da rua Antonio Alves, esquina com a Capitão Gomes Duarte e passava todos os dias pela Padaria Elétrica, na quadra 22, onde eu trabalhava. Por volta das 7h30 chegava com seu motorista particular, táxi exclusivo, sendo deixada na porta. Ela descia do carro com uma cestinha de vime e perguntava: ‘Cadê o moreninho?’. Aí pedia pro moreninho, que no caso era eu, uma cibalena, um sonrisal e um doril, junto de um copo com água. Enquanto tomava aquilo tudo, por causa de suas enxaquecas, ela pedia presunto, mussarela, mortadela, salame, doces e uma quantidade de pães de forma. Eu colocava tudo na cestinha e ela me perguntava: “Moreninho, você leva para mim?’. Ela seguia na frente, rebolando como uma perfeita dama e eu atrás com a cestinha de vime cheia de guloseimas. Não tinha malícia nenhuma, devia ter lá pelos 14 anos e ao chegar na sua casa, ganhava um gorjeta. Isso se repetiu durante uns oito anos, essa minha única história dela comigo, eu o seu Moreninho”.