sábado, 17 de maio de 2014

PRECONCEITO AO SAPO BARBUDO (74) e MEUS TEXTOS NO BOM DIA BAURU (278)


AOS CAOLHOS MENTAIS ESPALHADOS POR AÍ...

VIAJANDO NA MAIONESE278º texto desse HPA, publicado edição de hoje do BOM DIA BAURU.

Pipoca hoje legião de pessimistas de plantão. Ando com um pé mais do que atrás com quase todos eles. Absurdos em cima de absurdos, frases de desconexos cidadãos com dizeres mais ou menos na mesma linha: “Devagar estamos caminhando para um sistema que custará milhares de vidas a esse país, caso não seja detido a tempo! Amanhã vocês, esquerdopatas, serão os primeiros de quem o partido que vocês tanto endeusaram quando assumir o poder total irão se livrar e aí não adiantará mais pedir ajuda, pois não virá, entenderam?”. É claro que não entendi. Primeiro porque na maioria das vezes é tamanha a bestialidade, que nem sentido faz. Essa segunda frase não tem pé nem cabeça. Primeiro, existindo de fato os tais esquerdopatas, todo linguajar com uma conotação como a lida acima deve vir dos tais “direitopatas”. Depois, com esse regime atual me parece meio impossível estar tendo algum caminhar para “um sistema que custará milhões de vidas a esse país”. De onde as pessoas tirão isso? Endoidaram de vez ou estão mal intencionadas? Talvez até as duas coisas juntas e misturadas.
 Acredito que o “deter a tempo”, deva ser uma vontade interna de parte do eleitorado de execrar petistas e endeusar tucanos. Discutir aqui o pior ou melhor será guerra interminável. Ao trocar seis por meia dúzia, prefiro continuar com quem pelo menos atende apelos de projetos de cunho social. Vejo também nesse “deter a tempo” e no restante desses textos não só uma expressa manifestação de apoio ao “quanto pior melhor”, além da pratica de uma ação deliberada de desinformação e de um tosco “vale tudo”. Clara tentativa de impor a opinião conservadora de alguns grupos de poder, passando por cima da verdade dos fatos e de tudo o mais que estiver pela frente. Embutido em tudo o atroz medo da chegada do perigoso e sempre “comedor de criancinhas” comunismo. O medo na verdade é bem outro. Quando alguns percebem suas chances eleitorais se desmilinguindo começam com os golpes abaixo da linha da cintura. São os que querem “endireitar” ainda mais esse país. Fujo desses.

RECADO FACEBOOKIANO DO HPA - Meus amigos (as) : Até para colocar um simples CURTIR numa página de facebook precisamos estar atentos. Esse link denominado de "TV REVOLTA", até as pedras do reino mineral sabem é criação de gente ligada ao PSDB, pagos por eles, financiados e mantidos por tucanos. Fazem algo com tom irônico, uma pitadinha aqui e outra acolá, mas sempre espezinhando só um dos lados da questão, nunca o deles. Os outros os piores, eles uns santos (do pau oco, diga-se de passagem). Percebam isso. Tô fora desses caras, os piores do país. Com gente igual a eles estaremos num mato e sem cachorro. Não curto nem piada desses caras, pois é uma no cravo e outra na ferradura. Acompanhe o que esses fazem e depois me digam se tenho ou não razão. Só espezinhando o Governo Federal, nunca os crimes de lesa pátria do Governo Estadual paulista. Sou absolutamente contrário a criação de páginas vesgas, desse ou daquele segmento político, enxergando belezuras do seu lado e tudo de ruim do outro lado. Sou adepto declarado e juramentado de que os erros, seja de quem for, ocorra onde ocorrer, precisam ser denunciados, apurados e execrados. Ficar de brincadeirinha de esconde-esconde pelas redes sociais é algo deplorável e precisa ser denunciado. Iniciativas como dessa tal de TV Revolta passam longe do que gosto de “curtir” e “compartilhar”.

JUNTANDO UMA COISA COM OUTRA – Existem uns babosas por aí, espalhadores de merda pela internet, provocando e espezinhando o PT como os únicos e absolutos culpados de tudo. Repudio isso, pois o outro lado é tão ou, como é do conhecimento público, muito pior. Daí, pau em quem é caolho na avaliação. Enxergar, nesse caso, com um olho só é o mesmo que julgar com posição pré-concebida. Basta disso. Reforço o que já escrevi. Esses bestalhões querendo amedrontar incautos são piores do que tudo aquilo que supostamente dizem condenar. Ou colocamos tudo no mesmo balaio e vamos ao cerne da questão ou ficando nessa eterna briguinha de egos feridos e quem perde com tudo isso será sempre o Brasil. Querem um típico exemplo? Experimentem ouvir o que o repórter esportivo da rádio Jovem Auri-Verde Jota Augusto faz com o PT e a presidenta Dilma toda vez que pega no microfone para comentar algo a envolver suas preferências políticas. Suas críticas são somente para petistas, pelo qual nutre ódio, mas morre de amores pelos tucanos e tudo que diz respeito a esse tema. Uma absurda orquestração, algo com declarado tom de tendência tucana, explícita. Um horror isso, pois a imparcialidade vai pras cucuias. Não abomino jornalistas possuírem um lado, todo o possuem, o que abomino é fazer uso do microfone para repassar algo injusto, elogiando uns e enfiando a faca noutros, insistentemente. Esses os piores, o lado mais nefasto do que existe hoje dentro da imprensa. Fazem parte de um grupo de espalhadores de merda pelos meios de comunicação e o que fazem denigre até a credibilidade do órgão onde atuam. Não escrevo isso para defender o PT. Não faço mais isso, faço sim, algo dentro da lógica, do bom senso, da honestidade para consigo mesmo. Os que nutrem ódio de classe e expõem isso abertamente são um perigo, pois fogem até da verdade dos fatos quando opinam. Verdadeiros caolhos mentais.
 

sexta-feira, 16 de maio de 2014

AMIGOS DO PEITO (90)


O BEBÊ E O CÃO PROTEGIDOS PELO PEITO HUMANO
Semana passada estive na cidade do Rio assim num vapt-vupt. Pouco tempo para alçar voos, mas algo foi feito. No MAM – Museu de Arte Moderna uma exposição inusitada e vibrante, a do escultor hiper-realista australiano RON MUECKL. Por ali filas imensas para ver suas obras, nove delas, um quarto de toda sua produção. As obras de Mueck fogem do trivial e estão atraindo frequentadores outros além do habituê. Via-se gente acotovelando-se para ver e fotografar as peças de resina sintética, esculturas representando pessoas, em tamanho natural, agigantadas e anãs, com detalhes muito próximos do real, como o de uma barba por fazer, unhas sujas, feridas, olheiras fundas, vincos na pele, etc. As expressões dos bonecos são de pessoas indiferentes, um tanto distantes, longe de tudo e de todos. Mais que isso, diria que são tristes, desanimadas, talvez pela escolha feita, as situações colocadas. A que escolhi para mostrar aqui irá me remeter a algo que quero escrever a seguir. Trata-se na “Mulher com as Compras”, onde a personagem carrega seu bebê no peito, ao modo canguru, além das sacolas de compras. O que vi denota tristeza, nada desejável para esse nosso mundo real, mas acontecendo muito, ou melhor, cada vez mais. Veja ela aqui: www.mamrio.org.br/exposicoes/ron-mueck/ e aqui www.lab.kalimo.com.br/2013/05/ron-mueck-fondation-cartier/.

A comparação que quero fazer nessa sexta é mais alegre do que a do Mueck. No evento do 1º de Maio, Dia do Trabalhador, lá no Vitória Régia, dentre todas as fotos que tirei, uma acredito tenho sido uma das mais sensíveis. Não me lembro de quem me alertou para fotografar a cena. Acabei fazendo e acho que encontro agora quem me deu a dica. Enquanto rolava o som lá no palco principal, gramado quase todo ocupado, um casal muito simples, que depois fico sabendo são moradores de rua estavam ali assistindo ao show com seus dois cães. Um deles maior e ao invés de uma coleira, amarrado junto eles com pedaços emendados de pano e dentro da camisa do homem um cãozinho bem pequeno, filhote ainda, protegido do frio e do vento que começava a aumentar gradativamente com a chegada da noite. Pedi a eles para tirar a foto e elas não ficaram boas, mas a cena me marcou. A sensibilidade dele em proteger o filhote de cão dentro de sua camisa.

Assim como a moça lá da exposição (vista depois), quando me deparei com ela, fiz a associação na hora. A diferença é que a da exposição tem uma expressão de muita tristeza e o casal lá no show estavam alegres e cantantes. Dias depois os vi na rua, mas de carro não consegui parar a tempo de saber seus nomes, um papo talvez. Fica para a próxima. Deixo aqui o registro de duas cenas, que nem sei se poderia ser juntadas, mas na cabeça desse mafuento escrevinhador está sendo. Esse é o olhar que gosto de ter para com as pessoas, suas expressões, gestos, movimentos e depois tentar entender um bocadinho só de seus significados. Era o que tinha para hoje minha gente, uma sexta onde queria divagar um pouco e acho que o faço a contento.

quinta-feira, 15 de maio de 2014

DROPS - HISTÓRIAS REALMENTE ACONTECIDAS (102)

DUAS HISTÓRIAS ESTRADEIRAS

HISTÓRIA 1 – NUMA VIAGEM DE ONIBUS BAURU RIO DE JANEIRO

Sexta passada, 09/05 entro num ônibus da Reunidas com destino ao Rio de Janeiro num dia onde estava cansado pra dedéu. Comprei uma janelinha e esperava dormir daqui até a manhã seguinte no desembarque. Ao meu lado um senhor de uns 75 anos, cabelos brancos e nem sei por que, mas iniciamos uma conversa, ele morador numa cidade vizinha, havia chegado na rodoviária horas antes e me disse algo que de cara me doeu muito: “Eu não consigo dormir em ônibus”. O homem queria conversar e logo no início do papo percebi estar diante de alguém bem culto, instruído, aposentado quase trinta anos de suas atividades. Pois foi dela, a sua atividade, que surgiu o papo que nos conduziu a noite toda, me fez perder o sono, descer em todas as paradas e um papo sem fim, com troca de telefones e um interesse desmedido de minha parte pela sua história. Seu desabafo foi ouvido e instigado por mim durante a noite toda. Ele foi militar no período mais duro do regime e vivenciou algumas histórias. Resvalo em algumas delas aqui e agora.

“Fui transferido para o Quartel de Quitaúna seis meses depois da saída do Lamarca e senti o quanto ele era respeitado por lá, mesmo tendo saído da forma como saiu. As histórias dele querendo constituir um grupo de ação já eram conhecidas dos superiores antes dele fugir. Não tomaram providência nenhuma talvez porque queriam dar mais corda a ele, pegá-lo no momento da ação, mas não deu tempo. Vivenciei a ação das pessoas que lá permaneceram e eram próximas de Lamarca, tudo o que foi feito com eles, a investigação familiar, uma devassa até terem absoluta certeza de que não tiveram envolvimento com ele. Na dúvida, a investigação era com uma pressão massacrante. Conheci outro militar que havia sido segurança pessoal do presidente João Goulart e quando esse caiu passou por um processo de profunda investigação, em todo o seu círculo familiar, permaneceu dias e dias num intenso interrogatório, sem poder dormir, com os interrogadores sendo substituídos de forma ininterrupta. Quando tiveram a certeza de que nada tinha de comprometimento o transferiram para Lins. O militar passava por uma perícia familiar intensa, contínua e me lembro de um que possuía um filho homossexual e não imaginam a perseguição que ele sofria por ter permitido que isso ocorresse em sua família. Qualquer comentário, mesmo que em forma de brincadeira, de algo sobre a atuação do regime, chegava logo na boca dos superiores e isso já era caso para inquérito interno. Um simples boato podia gerar sérias consequências para a promoção. Quem não queria ter problemas dentro dos quartéis passou aquele período de boca fechada”, alguns dos seus comentários e mais não conto.

HISTÓRIA 2 – VOLTEI AGORINHA MESMO RECARREGADO DE JAÚ
Toda vez que vou até Jaú fico em dúvida se passo ou não na casa de um dos maiores músicos do Brasil, o baterista Nino. A dúvida faz sentido. Se não passo, meu dia rende, aproveito para visitas mil de meu negócio particular. Passando, meu ganho é outro. Nino, um professor de redação como poucos está lá quieto no seu canto e quanto provocado, vendo gente interessada em sua trajetória, abre não só sua casa, mas seu coração e daí dá o melhor de si. O motivo de hoje foi apresentar Chu Arroyo para entrevista ao jornal República Jahuense e tudo se estendeu (como sempre), papo dos mais agradáveis, além daquilo que ele mais gosta de fazer, sentar no banquinho atrás de sua bateria e tocar o que mais gosta, clássicos e mais clássicos da Bossa Nova. Um catedrático em Bossa Nova, um músico grandioso, com uma rica história de vida e musical, com monstros sagrados da música brasileira nos anos 60, 70 e 80. Falamos muito de um deles, falecido recentemente, Jair Rodrigues. A história dele sairá novamente publicada, dessa vez no nº 2 do novo jornal jauense.

“Tive o prazer de aprender uma batida de samba carioca que poucos tiveram, tudo por causa de uma doença infantil. Era levado constantemente ao Rio, fiquei na casa de parentes no Flamengo e o que ali presenciei foi decisivo em minha vida toda. Fui contaminado pela Bossa Nova e seus maiores interpretes. De lá, em Jaú e depois em São Paulo, segui numa vitoriosa carreira ao lado de Dick Farney, Johnny Alf, Zimbo Trio e outros. Tenho a honra de ter sido a pessoa que impulsionou a carreira do Jair Rodrigues, que o levou aos lugares certos e as pessoas certas, direcionando-o para ser o grande astro da música. Sempre fui um bom capoeirista e certa vez o livrei de um encrenca comprando a briga para mim. Cheguei ao sujeito e disse que se quisesse pegar o Jair teria que me pegar primeiro e o bicho pegou. Numa outra, no começo da carreira dele, um namorico não queria largar do pé dele e ele não podia ficar preso a ninguém. Ele pediu a mim e fomos juntos comunicar a ela que naquele momento ele não podia ter nada com ela, que tivesse paciência e que se ele tivesse que ser dala o seria, mas não naquele momento. Meu relacionamento com ele era dessa forma, arrumava músicos para sua banda, tal a confiança que possuía em minha pessoa”, conta Nino, num dos trechos ouvidos da tal entrevista. O restante só quando o jornal sair. Nino merece ter um vídeo seu gravado, num eterno registro de sua obra, verve, sapiência e conhecimento. Com as baquetas na mão não conheço outro, sem falsa modéstia e quem o conhece sabe do que falo.

quarta-feira, 14 de maio de 2014

MEUS TEXTOS NO BOM DIA BAURU (275, 276 e 277) e CARTAS (122)


MEUS VIZINHOS NORDESTINOStexto nº 275 publicado em 26.04.2014
Em duas residências no quarteirão de minha casa moram nordestinos. São os mais alegres do pedaço. A casa deles transpira algo de muito bom, que nem sei explicar direito. Sinto que o que transborda na deles, falta nas demais. Solidários não só entre si, mas com todos. Aos sábados são os primeiros a chamar quem gosta de bola para irem jogar futebol. Quando o apito é acionado todos já sabem ser hora da sagrada pelada. Vão e voltam rindo. Cuidam não só de suas casas, mas da dos ausentes como se fossem deles. Isso aqui é um paraíso e não sabia. Escrevo deles. Uma cursa Letras e não tem vergonha nenhuma em trabalhar de mensalista em casas da cidade. Com isso paga o curso e viaja duas vezes ao ano de avião para rever parentes. Outro é gerente numa fábrica de chicletes e nas horas vagas conserta o computador de todo mundo. O jardineiro de uma grande indústria é aqui o gerente do quarteirão, o mais cordial, sensato e conciliador. Sua filha estuda e trabalha e me vendo sempre escrevendo no computador, me pergunta: “Vi na TV e não entendo, me explique se puder. Por que pode uma CPI para apurar o que de errado houve na Petrobras e não pode outra para apurar o que acontece no metrô da capital paulista?”. Engasguei e o máximo que pude lhe dizer foi um: “Bestialidade humana, vesguice, sacanagem explícita”. O fato é que eles todos se plugam aos mesmos canais que nós paulistas, mas me surpreendem. O carregador de cimento veio com essa: “Depois de tudo o que fizeram para nós lá no Nordeste, onde poucos tinham até então nos ajudado, por que tenho que odiar quem mais fez por nós?”. Engasgo novamente e dou a mesma resposta anterior. Por fim, vejo que São Paulo, antes o estado carro chefe da nação me parece ser hoje o mais conservador do país. Sabe o que um dos nordestinos me disse dia desses? Digo-lhes: “Acho que os paulistas estão numa encruzilhada. Pensam mais em perseguir quem melhorou muita coisa nesse país e o que querem mesmo é viver em privilégios”. Tive que concordar. Eles não são ótimos? Gente de mente muito arejada.

POODLES E VIRA-LATAS texto nº 276 publicado em 03.05.2014
No 1º de Maio fui assistir ao show do trabalhador, promoção da CUT e da Prefeitura de Bauru. Lá no parque Vitória Régia, três dinossauros do rock nacional, Kiko Zambianchi, Marcelo Nova e Nasi cantaram e encantaram. Um entrando no palco na sequência do outro, velhos hits pipocando em nossas cabeças e daí boas recordações. Todos bons de verve, escolados pelo tempo, contumazes estradeiros. A poeira sob seus pés os tornaram verdadeiros outsiders de um tempo que se esvai na curva da esquina. Para quem lá esteve um desmedido prazer. Quem cantava primeiro fazia a apresentação do seguinte. Marcelo Nova, irreverente baiano, eterno parceiro de Raul Seixas, fala afinada com seu canto e ao apresentar Nasi, o faz mais ou menos assim: “O rock brasileiro está cheio de poodles. Todos hoje se vestem muito parecidos, shortinhos, temas pouco envolventes, sem sal nem açúcar. Está faltando picardia ao rock, está faltando a presença dos vira-latas, desses que hoje estão quase extintos. E então com vocês um autêntico vira-lata, Nasi”. A frase dita assim ao léu não me saiu mais da cabeça. Ela sugere muitas outras coisas. Esses tais poodles são hoje os que se soltos por aí não sabem mais dar solução pra nada, pensam de forma bitolada, sempre igual, acham que tudo está muito bem no quesito mercado, aliás, essa a única alternativa possível para se chegar aos píncaros da glória. Rezam na cartilha de que outro mundo não é mais possível e fazem de tudo para estarem inseridos de corpo e alma na desenfreada competição, onde o ter é sempre mais importante que o ser. São os teleguiados. “Meus heróis morreram de overdose”, disse Cazuza certa vez. Overdose de mundo, pois o reviraram do avesso, como um bom vira-lata sabe fazer e um poodle de madame não. Esse perde até o olfato na acomodada condição. O vira-latismo não aceita o mundo embaladinho, pronto para ser consumido e preparado por uns privilegiados. Virar a lata é a própria razão de ser para um mundo no meio do caminho para um formato insosso, inodoro e insípido. Viva os vira-latas!

DIGITAL E MODERNO, MAS PÚBLICOtexto nº 277 publicado em 10.05.2014 (Esse mesmo texto sai publicado edição de hoje do Jornal da Cidade Bauru SP, coluna Opinião).
Leio que os Correios estão adentrando a era digital de cara nova, com nova marca, procurando se readequar em tudo, principalmente nos serviços prestados à população. O fato marcante, percebido pelo próprio pessoal interno da empresa é que existia num passado não tão remoto um atendimento que era um primor, destaque nacional pela excelência, depois foi ocorrendo gradativamente uma espécie de velada deterioração em tudo e a credibilidade caiu bastante. Na tentativa de reverter isso, elogios, mas não será tarefa fácil. Dentre todas as empresas que fazem entregas de mercadorias país afora, ainda credito a eles o melhor serviço e com um custo razoável. Possuía uma espécie de privilégio meio que só dele. Hoje não mais, mas ainda domina, porém com sobressaltos. Antigamente nem existia Sedex 10 ou 12 e enviando algo daqui para o Rio de Janeiro, por exemplo, com certeza lá estaria no dia seguinte. Hoje nem com o serviço diferenciado se tem mais essa certeza. A marca é mero detalhe diante disso. O buraco é mais embaixo quando lembro com saudade ter sido os Correios exemplo no quesito Serviço Público (em maiúscula) de qualidade e perdeu isso nos últimos anos, justamente dentro de um governo onde isso não deveria e nem poderia acontecer de jeito nenhum. Veladamente ocorre uma privatização às escondidas. Serviços são terceirizados, principalmente na coleta e entrega de postagens e mercadorias. Isso é a precarização de um dos últimos bastiões públicos brasileiros. O funcionalismo já não sente a segurança do passado e atua com o freio de mão puxado. Uma tristeza isso, pois antes todos falavam de boca cheia dos exemplos, irretocável tratamento ao funcionalismo e hoje, em nome de uma tal de “modernização”, o momento é de incertezas. Uma transição para pior. O modelo interno mudou, o trato com a coisa pública é outro e reside aí a decaída de credibilidade. Eu quero muito poder falar bem dos Correios, mas quem dá as cartas hoje por lá precisa ajudar nesse sentido. Digital sim, sem perder o caráter público, sua melhor marca.

terça-feira, 13 de maio de 2014

CARTAS (121)


AS INVERDADES PROPAGADAS E UMA REAÇÃO QUE PRECISA OCORRER DE IMEDIATO
“Ninguém mais tem dúvidas de que Barbosa usa o STF como coreto político, investindo na intolerância, assim como a família Bolsonaro. Terão sempre os cativos do ódio para sustentar o político que malandramente cria o ambiente de justiçamento para colher um farto carreirismo. Se não fosse FHC dar ordens para a mídia desautorizar Barbosa, ele sairia agora como candidato à presidência. Seu panfleto é o sequestro de Dirceu. E tem quem da esquerda sectária que ainda aplaude isso como qualquer analfabeto político”, Maria Helena Ferrari, mãe de uma grande pessoa, Rodrigo Ferrari, o idealizador de uma das mais saborosas livrarias do planeta, a Folha Seca, lá na rua do Ouvidor, no coração do Rio. Como é maravilhoso ir conhecendo pessoas de mente aberta e sem essa merda de ficar atrelado ao que de pior temos, o exacerbado conservadorismo.

Por outro lado viajei e permaneci alguns dias fora de Bauru e ao voltar leio uma carta publicada no jornal:

CONTRA OS ATAQUES FASCISTAS EM BAURU – Tribuna do Leitor do JC, 11/05/2014.
“Primeiramente vamos esclarecer os fatos, no dia 1 de maio a cidade amanheceu repleta de cartazes e adesivos pelos muros e locais estratégicos da cidade, protesto interessante, se não tivesse como foco um único alvo: a população e o que ressoa dela.

Dizeres como “Fora Comunismo”, símbolos como “Fora Anarquismo” e adesivos, com bastante qualidade por sinal, com “Anti-Antif”, se resignando contrários a grupos antifascistas (Antifa), quem é contra quem discorda do fascismo nada mais é do que fascista, e ser fascista é idolatrar táticas militares de guerra, radicalizar com o nacionalismo e ser totalmente sectário, não dando voz ao povo, exigindo um único método e uma única forma! Além de todo o preconceito enraizado pelo “purismo” das pessoas que “merecem” o estado totalitário.

Nos dias de hoje vemos o que sobrou do “antigo fascismo” na segregação social da periferia, das raças, no extermínio da população preta, pobre e periférica pela Polícia Militar, força do Estado e parte da tática militar fascista, e não esperando menos esse protesto além de direcionar diretamente a sede da Esquerda Marxista de Bauru, atacou uma das obras de arte do artista local L7M, graffiteiro reconhecido internacionalmente pelos traços únicos e culturais das ruas de Bauru, a arte que ilustrava as escadarias da rua em frente ao Vitória Régia estão com adesivos dos “Anti-Antifa”. Ser contra o fascismo é automaticamente ser a favor da população, da diversidade e pluralidade social, não passaram e não passarão com normalidade nenhum ataque dessa forma!

As representatividades que assinam essa carta: Juntos Bauru, PSOL Bauru, Mandato Vereador Roque Ferreira, Movimento Negro Socialista, Instituto Acesso Popular Bauru, Casa da Capoeira Bauru, Esquerda Marxista Bauru, PSTU Bauru”


Na sequência  abro o mesmo jornal e na mesma Tribuna uma outra carta, EDIÇÃO DE HOJE, 13/05:

MUITO BOM, DR IVAN!
“Parabéns, dr. Ivan Garcia Goffi, pois em sua carta deste domingo (11/05) o senhor disse o que muita gente comentou comigo a respeito do sr. Arthur Monteiro Jr. e sua carta do último dia 08/05. Mas, infelizmente, dr. Ivan, essa gente da esquerda, principalmente os mais jovens, não se interessam pelo outro lado da história, somente o que lhes dizem os tais “perseguidos e torturados” que, aliás, recebem ótimas pensões e indenizações por supostas torturas e perseguições no período militar. Acompanhei várias entrevistas pelo canal 45 (TV Brasil) e até pelo canal 60 (TV Câmara) e tudo que o vi e ouvi me causo asco, pois em nenhum momento deram oportunidade para quem participou do Contra Golpe de 1964 para se defenderem, somente vi ataques grosseiros e mentiras contra os militares. Pergunto agora a todos os leitores desse jornal: o dr. Ivan tem ou não razão? Para mim tem, mas o povo brasileiro infelizmente não sabe distinguir sequer a mão direita da esquerda o que dirá então da parte política.

Devagar estamos caminhando para um sistema que custará milhares de vidas a esse país, caso não seja detido a tempo! Amanhã vocês, esquerdopatas, serão os primeiros de quem o partido que vocês tanto endeusam quando assumir o poder total irão se livrar e aí não adiantará mais pedir ajuda, pois não virá, entenderam? E, dr. Ivan. continue a enviar mais cartas para esse nosso querido JC. pois gosto do que o sr. Escreve...”, Luiz Antonio Galbiatti.

Daí encerro com meu comentário. Não acho nem pertinente reproduzir a carta do Arthur, muito menos a do Ivan Goffi (toc toc toc). Arthur fex um protesto contra a bestialidade dos que hoje defendem o golpe de 64 e veem o país caminhando para o que esse Galbiatti afirma como “sistema que custará milhares de vidas”. De onde esse sujeito tira tamanha bestialidade? De que sistema ele fala? Onde e como ele consegue enxergar isso? Que bestial desvirtuamento da realidade propicia isso na cabeça das pessoas? Qualquer pessoa sensata precisa repudiar isso e rebater o que está ocorrendo na cidade, primeiro com inscrições em lugares da cidade e depois com uma legião respondendo da forma como acabo de ler, desqualificando a própria história. Rebater isso é algo mais do que necessário. A reação tem que ser imediata e demonstrando o quando de inverdades estão propagando. Acredito que o próprio JC, quando percebe que a pessoa sai da linha, se excede, sai do prumo da realidade deveria dar um breque, pois isso extrapola o próprio sentido de liberdade. Deixar publicar algo sem nenhuma veracidade, sem ao menos uma observação, uma nota de repúdio, denota aceitação e isso também não é bom. Pensemos juntos nisso tudo, pois sempre quando se aproximam eleições isso aumenta de forma gradativa e hoje com uma conotação até mais perigosa. Discutir à exaustão, mas dentro de limites onde a inverdade não possa ser reproduzida gratuitamente, acobertada por uma tal de liberdade de expressão. E se isso é permitido, quantas réplicas, tréplicas forem necessárias terão também que ser permitidas. O fascismo está evidenciado na ação de grupos organizados, que pouco a pouco ocupam espaços permitidos. 

segunda-feira, 12 de maio de 2014

MEMÓRIA ORAL (160)


UM “FIM” QUE É O COMEÇO PARA PENSAR DIFERENTE ISSO TUDO

Toda vez que aporto aqui no Rio de Janeiro algum gaiato me questiona: “E não foi na praia?”. Na maioria das vezes respondo de forma lacônica com um simples e direto “Não”. E o faço não para confronto, mas numa clara demonstração que o mais gostoso e saboroso dessa ainda “maravilhosa cidade” não está em suas praias. É o que tento demonstrar nessas idas e vindas.

Ontem foi um domingão por aqui, nem muito calor, nem frio. Meio termo e assim sendo, ótimo para bater asas, oportunidades variadas e múltiplas, Dia das Mães, eu sem a minha e longe de casa. Dia de Fla Flu no Maracanã, o que faz qualquer um dar uma balançada, mas minha escolha recaiu sobre um outro evento. Desde que no sábado olhei a página de Cultura d’O Globo e lá estava em manchete “Invenção do Cais – Fim de Semana do Livro no Porto reúne manifestações cariocas na região em que a cidade nasceu”. O negócio me interessou de imediato por se tratar da Zona Portuária, uma região com um casario de séculos passados, vielas e reduto onde o samba nasceu. E mais, logo na foto uma das pessoas mais antenadas no quesito samba, o historiador Luiz Antonio Simas. “Os convidados são escritores que falam de carnaval, esquinas, capoeira e cachaça. Isso é tão importante quanto os que falam de realidades fantásticas”, disse Raphael Vidal, o idealizador do evento. Fui conferir os nomes dos convidados e para mim ali estava o que de melhor acontecia no Rio no final de semana e tudo gratuito. Sábado foi impossível lá estar, mas no domingo logo após o almoço me debandei e permanecei até o final de tudo, com o show de Fabiana Cozza, por volta das 22h. Foi bom demais e volto hoje para Bauru recarregado.

“Se o Rio é uma diversidade de cores, sons e palavras, é resultado das trocas que só existiram por conta do vai e vem interminável dos navios. Esse Rio de Janeiro nasceu pelo porto. O que há sob o chão da região portuária é a memória de todos nós. E esse memória é a certdião de nascimento da cidade”, defende Raphael Vidal para o Globo. “O clima é de botequim. E é nos botequins que a cidade fala. Nós enaltecemos os escritores alemães e não achamos importante falar sobre os compositores da Velha Guarda do Estácio. Todos os convidados do FIM são escritores. E escritores que falam de carnaval, esquinas, capoeira e cachaça. Isso é tão importante para a literatura e a cidade quanto os que falam de realidades fantásticas”, conclui.

“Para vivenciar a experiência do FIM de Semana do Livro no Porto é preciso andar pelas ruas da Região Portuária. É o estar no chão que une toda a programação. As mesas foram montadas a partir da percepção da cidade como um terreiro. Nela, ressoam os tambores das nossas formas de nascer, morrer, festejar, comer, beber, dançar, brigar, amar, matar, louvar os ancestrais e inventar a vida. Tudo isso, diga-se freqüentemente ocorre à margem das formalidades. Buscamos convidados que tivessem reflexões pertinentes e trabalhos vinculados a esse recorte cultural da cidade e da sua gente, longe da apologia gratuita do carioquismo e da demonização dos nossos mortos”, explica o historiador Simas, também entrevistado pelo Globo, repudiando o título de curador do evento. Acha mais adequado ser chamado de “combono”, um termo do candomblé que traduz o que venha a ser a pessoa que auxilia o trabalho das entidades no terreiro. Informe que estarei incorporando o termo para minhas atividades de auxílio coletivo a eventos realizadas na minha (sic) Bauru.

Parti em busca desse Rio, bem fora do imaginário das elites, que pouco enxerga de proveitoso os ares advindos da Zona Norte, bairros do borbulhante subúrbio. Felizmente para os organizadores do evento, nesse reduto ocorre justamente o contrário, aí é que se dá o Grande Encontro, o desabrochar da cara e identidade de um novo Rio, moderno, autêntico, nada artificial. Afinal foi dali que nasceu as maiores criações artísticas brasileiras do século XX: o samba urbano e o desfile das escolas de samba. Juntando isso e mais o que está proposto por eventos dessa natureza, eis um cadinho com um algo mais, uma miscelânea só possível com naturalidade nas regiões como ali no cais da Praça Mauá, na Pedra do Sal, Gamboa, Saúde, Santo Cristo e Prainha. No folder do evento uma explicação definitiva: “O bate papo do Fim não são debates acadêmicos, nem palestras, muito menos disputas de opiniões. São bate papos mesmo, conversas de botequim, sem mediador para interferir, com leveza e acaso. E sim, você está nessa: pode interferir a qualquer momento, como se o cotovelo estivesse no balcão, pedindo com gentileza o limão da casa. A idéia é simples: os escritores estão aqui e são como nós, não tenha medo. Gostou? Apareça na Casa Porto, no Largo de São Francisco da Prainha”. Fiz isso.

Na praça uma Feira de Livros tomava conta do lugar e quando fui conferir, descobri que ali não iria encontrar grandes editoras, muito menos as grandes livrarias, mas tudo alternativo, bem ao estilo do proposto. Ninguém pagava nada para expor e ali estar, todos convidados e por terem algo para mostrar. Tudo podia ser folheado, manuseado, enfim tocado. Além disso, uma praça de alimentação com produtos diferenciados, também alternativos e privilegiando muita gente da própria região. Gostei disso e mais, quando me deparei com um brechó, um maitre argentino, o Pablo produzindo um transado “hambúrguer vegetariano” (provei e aprovei), além da venda de camisetas com estampas bem transadas e gente do lado de lá do balcão querendo conversar e não somente te vender algo. O negócio de cara não era só ganhar dinheiro, mas mostrar outras possibilidades do Rio para gente do Rio e de fora dele. Das livrarias só a Folha Seca, do Rodrigo Ferrari, um que atua há décadas dentro desse espírito carioca de encarar o mundo, com uma temática baseada na trilogia que o tornou famoso, livros versando sobre carnaval, futebol e carnaval. E para quem queria conhecer um algo mais da região nada melhor do que parar na barraca dos “Viajantes do Território”, explicando a cartografia da região e levando gente para fazer um passeio afetivo pelos becos, sobrados, escadinhas e cantinhos que só quem mora li sabe de sua existência.

A ousadia na forma de mostrar a que vieram está no folder de apresentação com um título em letras garrafais, num formato de estandarte: “O FIM está próximo”. Na leitura do texto dos organizadores (não seria melhor desorganizadores?) a explicação: “Aquele papo no botequim na esquina, acompanhado de uma cerveja trincando e de um belisco sem igual sem igual, em que alguns amigos de longa data se unem a desconhecidos na troca de opiniões sobre assuntos de suma importância, como carnaval, futebol, malandragem, comida, botequim, macumba, violência, capoeira, jogo do bicho, festa e o que der na corriola. Se você mora na cidade maravilhosa com certeza já esbarrou – o já se enturmou – com essa cambada em algum momento. Mas se descobrisse que há uma penca de livros sobre isso tudo, escritos por quem respira e vive o espírito carioca nas universidades, terreiros, nas ruas, nos botequins, e que essas pessoas misturam Zé Pilintra, Lima Barreto e Pixinguinha na busca por entender umacidade com o mesmo ziriguidum que um bebum faz de um traçado para desanuviar a vida? Não seria bacana bater um papo, beber uma cerveja gelada e beliscar um petisco com esses escritores, pois escreveram livros, mas também antropólogos, livreiros, jornalistas, historiadores, carnavalescos, editores, fotógrafos, compositores, artistas e quejandos? E se o furdunço fosse num final de semana, com direito a conhecer o lugar histórico – ainda preservado – que nos remete ao surgimento do Rio de Janeiro, e de quebra conhecer seus saberes e sabores? É essa a experiência que levamos ao FIM de Semana do Livro no Porto, ou somente FIM, como carinhosamente é conhecida nossa celebração do Rio de Janeiro”. Irrecusável convite.

A região é isso mesmo, um reduto indescritível, pois ali no Morro da Conceição uma reunião incomum entre seus moradores, artistas, habituês e outros que escolheram gravitar por aquele mágico quadrilátero para promover criações, encontros e desencontros. O local está recheado de ateliês e residência de artistas. Quer dizer, a arte respira e transpira por aquelas ruas estreitas, pulsa como nunca e lateja para explodir, ganhar mundo. Não dá para circular por tudo, ou seja, impossível querer fazer tudo somente numa tarde de domingo, mas o inevitável ocorre a cada virada de rosto, com possibilidades saborosas de ver gente conhecida e com elas estabelecer um estreito contato de conversação. Diante de tantas possibilidades, escolhi algumas delas. Na primeira, após o passeio pela praça fui presenciar o bate papo com os professores Marcos Altivo e Luiz Antonio Simas, com o título “Um cantar à vontade”, ou “as histórias de um povo que busca, nas frestas da cidade oficial, inventar a vida nas festas entre batuques, danças, folguedos, sambas e gritos de gol”. Encantador, não?

Saboreei tudo com certa gula. “O mistério do Rio de Janeiro está na encruzilhada, o drible na navalha, na borda do tempo. O bom estilo do futebol livre, leve e solto é diferente de quem é criado para viver em gaiola. Somos criados hoje em dia para viver enjaulados, sem nenhuma liberdade corporal. A várzea morrendo e com uma criança indo para uma escolinha de futebol aos 8 anos onde já aprende tática, impossível lançar petardos dessa forma. Lindo conhecer a experiência de quem possui o estilo de jogar bola como se estivesse numa gafieira, tudo puladinho para lá e para cá, buscando a próxima FRESTA. A mercantilização transforma a tradição em falta de diálogo. O Rio é uma cidade de encontros. Facada pode ser um fatal encontro, mas eu busco outros, como no samba, por exemplo”, esse alguns dos diálogos de ambos, misturados, pois como pensam de forma parecida, nada melhor do que o que um disse estar ligado umbilicalmente ao que o outro referendou. Ainda perguntaram sobre o funk e Altivo assim respondeu: “Viciei meu ouvido, gosto de ouvir outras coisas. Não se precisa gostar de funk, mas respeitar uma expressão da juventude, uma linguagem comum de representação. Já o funk putaria é uma perversão”.

Depois dei de cara com o fotógrafo meio gaúcho, carioca e bauruense Rui Zilnet num botequim na esquina da praça, quando terminamos juntos de assistir o primeiro tempo do Fla Flu (Flu ganhou de 2x0) e depois fomos circular pela praça, quando me apresentou um especialista em capoeira, o Carlão, com uma proposta arrojada junto da comunidade e de utilização da Casa Porto, o local onde os debates ocorriam. Tomamos muitas stelas (a cerveja long neck, por favor) e presenciamos a chegada do pessoal para a palestra das 18h, a instigante “Saideira: Minha cachaça é a Imprensa”, um papo com um dos maiores ilustradores e caricaturistas do mundo, o simpático Cássio Loredano (ele confirma que outros três andam por aí) e o livreiro Rodrigo Ferrari, ambos com fardamento feito a mão, versão nada oficial da camisa oficial da Seleção Brasileira. Nada de tão sério, mas com muita risadas, saindo disso tudo o que de mais sério pude escutar em todo o evento e dito por alguém que não me lembro o nome: “Não temos mais espaço para publicar nossos textos e desenhos. E por que não fundamos um jornal?”. Rodrigo, meio sem querer e não medindo o tamanho do imbróglio onde se meteu emendou e foi aplaudido por todos quando sacou o nome, dito em alto e bom som: “Folha Seca”. O compromisso, pelo que entendi, está selado e sacramentado. Na reunião das forças ali presentes, quem sabe, mas que seria bom demais, isso seria.

De lá, Rui bateu asas (estelado dos pés à cabeça) e fiquei batendo um longo papo com nada menos que um dos tijucanos mais instigantes que conheço, Eduardo Goldenberg, o do blog Buteco do Edu. Assistindo a um espetáculo teatral no largo da Pedra do Sal e me vendo ali meio encantando com o lugar, olhando para todos os lados e cantos, me leva até a placa explicativa do lugar. O teatro de rua realizado ali na subida da ladeira era “Dona Mulata e Triunfo”, com um ator africano de Guiné Bissau e uma ótima brasileira (que não descobri o nome). Na seqüência todos os que estiveram envolvidos nos papos pararam tudo e foram assistir ao show de Fabiana Cozza, uma paulistana que canta e encanta com samba bem focado nas religiões de origem afro e que, junto com a poesia do pernambucano Marcelino Freire, declamada de um jeito único entre as músicas, seguiria noite adentro se não fosse o impedimento de tudo ter que chegar a um fim. Simbiose única, bela, única e divinal, encerramento com chave de ouro. Fabiana ia chamando ao palco gente da comunidade quando os viam ali ao lado, como uma dançarina, um que produzia um som de mar com uma castonhola de mão e nessa interatividade tudo deu muito certo e chegou teve que chegar ao FIM.

E eu, um bauruense perdido nessa noite carioca, explico assim dos motivos de ver pouco o mar, apesar de estar ao lado dele nas minhas andanças pelo Rio. Já penso em produzir algo parecido com esse Fim lá no sertão paulista, pelos lados da Feira do Rolo. Bauru abrigaria algo com esse formato? Penso que sim e tento bolar como isso pode ser possível.

domingo, 11 de maio de 2014

UM LUGAR POR AÍ (51)


FEIRA É FEIRA, EM BAURU OU EM OUTROS LUGARES...

Domingo para mim é um dia mais que SAGRADO, ou seja, dia de bater cartão na feira. Quando em Bauru, o faço na da Gustavo Maciel, entre a 1º de Agosto e a Julio Prestes, culminando com a rica babilônia da Feira do Rolo, o reduto mais democrático de Bauru, ajuntamento de possibilidades advindas de tudo quanto é espaço. Ali ainda a real interatividade de gente de todos os matizes, cores, sociais, gostos e preferências. Meu domingo passa por aí, mas quando bato asas como nesse domingo, longe quase 800 km de Bauru, acho outras feiras para cumprir o que me dita algo interno, “vá a feira”. Assim procedo e hoje encontrei uma das mais saborosas na Zona Norte do Rio de Janeiro, a da rua Alípio Junior, defronte o Hospital Federal do Andaraí, no Grajaú, onde me encontro. Vejam as fotos e sintam o cheiro desses lugares (só de olhar dá para sentir o cheiro desses lugares), algo indescritível.
 
Feira  é um lugar mágico, borbulhando de gente por todos os lados e uma das coisas que já noto de cara é a disposição dos produtos. Mesmo que todos tenham uma aparência mais ou menos idêntica, na verdade cada um possui a sua peculiaridade, um jeitão só seu. Nessa do subúrbio carioca, noto imensas diferenças comparando com as feiras bauruenses. Primeiro nos frutos do mar, uma imensidão de produtos ligados ao mar e que não existe aí, dedes gente vendendo sardinha limpa aos siris e caranguejos. Outra coisa que bato os olhos e fico curtindo muito é o jeitão de cada feirante. Vejo um por aqui que na impossibilidade de colocar na cabeça uma toca, improvisa a mesma com uma saquinho desses de mercado e dá uns nós nas extremidades, para que a mesma n]ão fique caindo da cabeça. Repararam também no esmero da montagem da banca de laranjas, com tudo parecendo uma pirâmide. Esse preparo, que certamente toma um certo tempo, não vejo ocorrer em Bauru e é muito corriqueiro por aqui. As plaquinhas são algo dos mais interessantes, isso em qualquer feira e nessa idem. Ouço dizer por aqui que essa onde estive é uma das mais fracas da região, tendo outras bem mais movimentadas, com mais possibilidades e coisa e tal. Porém gostei muito. Essa banca cheia de mato, meio que não identificáveis para muitos são as de ervas, com cada coisa, isso não existente nas de Bauru. São os mateiros. E aí por diante.