sábado, 19 de dezembro de 2015

O QUE FAZER EM BAURU E NAS REDONDEZAS (71)


FESTA PRA LÁ DO BALACOBACO
Foi a nossa no dia de ontem, oficializando que o farsesco, burlesco e em alguns momentos também carnavalesco bloco BAURU SEM TOMATÉ É MIXTO resiste, renasce das cinzas, se renova, troca de pele, mas não sai do ritmo, nem muda de lado, muito menos adere a modismos, convenções e se junta a grupos pedindo mudanças que nada mudam. Somos o que somos, a verdadeira cara desse país, um que batalha e muito a cada instante da caminhada. A revoada de ontem a noite foi uma amostra de nossas possibilidades de aglutinação, reunindo gente de uma laia que adora botar não só o bloco na rua, como gritar em alto e bom som suas preferências. Esse será nosso tom (ou nunca deixou de ser), alegre, jovial, unido e coeso e festando quando tem que festar, mas sendo também sisudo e cara fechada quando o tema requer algo nesse sentido.

A festança de ontem foi lá no Restaurante Barracão, lá no Geisel, mais conhecido como Bar do Baiano, um lugar afrodisíaco, fechado com a aposentadoria de seus proprietários, mas não desativado e cedido para diletos amigos vez ou outra. Ontem foi a nossa vez e nos esbaldamos pela receptividade do casal, o Baiano e a Cidinha. No mais uma festa linda, com o Kananga Do Alemão sempre surpreendendo, pois quando constatamos a Cleusa Madruga pedimos a ele algo simples, talvez a presença do Alemão e mais uns dois músicos, pois não podíamos pagar muito (sempre pagamos). Eles chegam com um time mais que completo e mais alguns para dar palhinhas durante a apresentação. Foi um som de entornar o caldo, tanto que nossa oficial puxadora do samba, convocada que estava para cantarolar somente alguns sambas, quando se viu diante do grupo, cantou até não mais poder, gastou a voz, a garganta e a sola da sandália. Relembramos nossos três hinos, as marchinhas que cantamos nos anos passado.

Como fizemos nos dois últimos anos apresentamos a MUSA do Bloco para 2016. Ano retrasado foi Esso Maciel, presente e festando como criança, filmando tudo e sempre dizendo que o próximo desfile será o último, mas sabemos que o último de todos nós será quando batermos com a dez, do contrário, continuaremos na ativa (ops). No segundo ano escolhemos a Maria Ines Faneco, rainha não só da pipoca, mas da solidariedade humana e da beleza do congraçamento entre os seres ditos pensantes. Ela não foi na festa ontem, pois estava trampando pela aí, ralando antes do Natal e juntando caraminguás. Dessa forma está mais do que desculpada. Pois bem, a escolhida esse ano foi nada menos que a rainha do Mary Dota e do Carnaval de rua bauruense, a cabeleireira Sarah Fernandes, um baluarte de toda movimentação LGBT na cidade e região. Por tudo o que representa, pela experiência de vida e pela abnegação a sempre continuar autêntica, única, exclusiva, uma digna representante do Lado B de nossa cidade, ela vai ser esse ano paparicada por todos nós e o grande feito foi convencê-la a descer a Batista em pleno meio dia de Carnaval. Só pediu algo: "Não farei de salto alto, pois chegarei lá embaixo desmontada e alquebrada, mas vou mesmo com o sol derretendo minha maquiagem e vocês me fazendo desfilar de dia. São mesmo uns capetinhas".

Uma festa assim só é possível com a união de tudo, todas e todos. Cada uma dá o seu quinhão. Dessa forma conseguimos ontem saldar uns caraminguás ainda do Carnaval desse ano e ufa, ficar com algum saldinho em conta para começa ra pensar nas camisetas do Carnaval para 2016. Atrasados como sempre soubemos ser e acredito, nunca com alguma possibilidade de conserto, estamos cheios de ideias para compor a letra da marchinha do bloco pra ano que vem. Silvio Selva já maquinando algo, Tatiana Calmon mais alguma coisa e todos juntos pensando e instigando com os grandes temas da cidade nesse ano: as propinas para liberação de àreas públicas, a dinheirama enterrada na praça e ela sendo devolvida para utilização quase como antes, uma Nações alagando até com mijo de cachorro, as já fraticidas disputas pelo Executivo no próximo pleito, o monopólio hospitalar todo nas mãos de um só grupo, assim como o do transporte público, as denúncias gravadas que nunca aparecem ("gravou, gravou, mas ninguém viu, ninguém ouviu") e muito mais. Assunto não nos falta.

Por enquanto um bocadinho da festa. No inicio fotos de minha lavra e responsabilidade e depois, outras de vários tomateiros, em algo que fui juntando de publicações pelas redes sociais na manhã de hoje. Na fisionomia de todos os presentes, estampado algo bem peculiar, a alegria. O bate papo fluindo gostoso, em forma de desabafo, de lavagem da alma foi algo bem peculiar do encontro e na hora da cantoria, com muito os fazendo a pleno pulmões, botando não só os bofes para fora, mas com aquilo tudo entalado na garganta e pronto para explodir. A festa serviu para isso tudo e a Comissão desorganizadora do Bloco já pensa na possibilidade de atender aos clamores e realizar algo ainda em janeiro 2016, com duas opções na pauta: a 2ª Festa Bolivariana ou a 2ª Festa preparatória do Carnaval, ou ainda, tudo isso junto e misturado. O fato é que o reencontro foi contagiante e serviu mais uma vez para reforçar algo sempre muito repetido entre nós: precisamos cada vez mais disso, de reencontros onde faremos sempre festa, mas colocaremos as conversas em dia e vamos trocando ideias para nos embalar nos embates todos que as ruas estão sugerindo e clamando. Vamos juntos nos próximos?

Falei muito. Fiquem com as fotos e adentremos 2016 com essa união demonstrada entre todos os presentes. Junte-se a nós.

RUFEM OS TAMBORES - SAIU A FUMACINHA DA CHAMINÉ DO BLOCO CARNAVALESCO BAURU SEM TOMATE É MISTO E FOI FINALMENTE ESCOLHIDA A SUA MUSA DO CARNAVAL 2016:
Depois de Esso Maciel em 2014 e Maria Inês Faneco em 2015, a escolhida para 2016 é

Sarah Fernandes - Detalhes e um extenso dossiê sobre a escolhida você terá nos próximos capítulos. Uma carnavalesca de mão cheia, das mais despojadas, irreverentes e montadas de toda Bauru. Vai abrilhantar nosso desfile no sábado de Carnaval com o cetro e coroa dos tomateiros na cabeça.
Sarah e um dos seus melhores amigos, Gê Maciel.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

DOCUMENTOS DO FUNDO DO BAÚ (86)


OS ABANDONADOS DO CENTRO DA CIDADE
Não falo dos menores, muito menos dos maiores abandonados ao deus dará, muito menos dos tantos animais, mas de uns espigões, uns prédios que, após anos de utilização encontram-se hoje abandonados e sem serventia urbana a não ser a de fazer sombra para transeuntes. Numa rápida passada pelo centro da cidade muitos deles são facilmente identificáveis. Enumero aqui só alguns deles, mas num rápido exercício coletivo iremos relacionar outro tanto e em cada um alguma peculiaridade. Vamos aos fotografados por mim:

1 - Edifício Residencial na Rodrigues Alves – Localizado entre as ruas Treze de Maio e Agenor Meira, esse edifício é o ‘fantasmão” do centro da cidade. Seus proprietários (quem seriam eles, hem?), pelo visto se desinteressaram em fazer uma reforma e quando o último morador deixou o mesmo, tudo foi lacrado e assim permanece até hoje. Lembro do dia da saída desses últimos remanescentes, um pessoal muito conhecido do centro, trabalhando com tatuagens. Acredito que as instalações já estavam com interdição judicial, mas de lá para cá (lá se vão pelo menos uns oito/dez anos), tudo continua como dantes e o mesmo permanece ali se deteriorando a olhos vistos, sem que nada ocorra para alterar o macabro quadro. Quando alguém necessitar de passar alguns momentos de inebriante tensão, basta empurrar suas portas e adentrar seus corredores e escadarias. O abandono provoca sempre algo tétrico nas pessoas. Seus proprietários poderiam até cobrar ingresso para os interessados em algo mais caliente?

2 – Prédio Estacionamento na esquina da Treze de Maio com Bandeirantes – Essa aqui é hilário se não fosse trágico. Construído para desafogar a caótica situação dos regulares estacionamentos do centro da cidade, o até então primeiro estacionamento edifício garagem da cidade nunca foi inaugurado e já padece do mal do viaduto inacabado. Se tudo continuar como sendo vislumbrado, deve bater o record do viaduto. A disputa é ferrenha e ambos possuem boas peculiaridades quando observados o imedatismo de se levantar a coisa e depois, com o passar do tempo, a constatação de ser aquilo realmente últil ou não. Daí, Inês já é morta. Construído por um dos mais famosos donos de propriedades do centro, acabou por se transformar no maior elefante branco da cidade e até hoje ninguém consegue explicar dos reais motivos desse edifício garagem não ter sido nem sequer inaugurado. Nunca um veículo subiu até seu andar mais alto. Virou moradia de cuidadores do lugar, com muitas toalhas estendidas no saguão superior e paraíso dos que querem observar a cidade das alturas sem perturbações outras.

3 – Andares superiores do prédio do INSS, esquina da Ezequiel Ramos com Azarias Leite, beirada do viaduto Juscelino Kubitscheck – O prédio do INSS acredito nunca foi utilizado em sua totalidade. O instituto possui muitas outras edificações na cidade, essa hoje tem só seu térreo com utilização e tudo o mais em abandono, juntando poeira. Muitos anos atrás lá no seu andar superior funcionou uma entidade de amparo à Terceira Idade e depois que se foram, nada mais. Muita coisa já se ventilou para ali ser instalado (até a sede do escritório do Minha Casa Minha Vida), mas nada vingou e por ser prédio pertencente ao Governo Federal, qualquer coisa que se pense em fazer ali precisará contar com a anuência da Diretoria Regional que, pelo que sei, até adoraria ouvir propostas convincentes para uma efetiva e concreta utilização daquelas centrais instalações. Por enquanto (e isso já faz tempo), nada é pensado para o lugar e se, o andar térreo é um primor, os de cima primam pela cor desbotada e opaca do abandono.

4 – Dois andares em cima de prédio de banco, esquina da Treze de Maio com Primeiro de Agosto – Na parte térrea, a da esquina ali sempre funcionou agências bancárias, como o antigo Banespa e depois o seu sucessor, o Santander e agora nesse momento, sendo aberta uma agência do Mercantil do Brasil (fechou a da Rodrigues com Araujo e passou para ali). Na parte superior, entrada pela Treze, décadas atrás funcionava um hotel e até hoje um toldo dele ainda por lá permanece com seu nome na inscrição. De lá para cá, não sei se por medidas de segurança (por causa do bancos), nada mais funcionou e os dois valorizados andares permaneceram com portas encadeadas e lacradas. Região de grande movimentação, ponto de circulação de milhares de pessoas todos os dias, esse é só mais um dos tantos prédios fechados e relegados ao esquecimento no centro da cidade de Bauru, verdadeiros elefantes brancos, inservíveis e esquecidos. Lembrados vez ou outra quando bate uma saudade disso ou daquilo ou quando, como o faço nesse momento, passo diante de um deles e constato: Mas por que mesmo está fechado até agora?

Falemos deles todos e de outros tantos. Quantos mais estão na mesma situação? E vamos espiar o que a legislação municipal diz sobre prédios nessa situação.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

FRASES (138)


COMO UM JORNALISTA E UM ÓRGÃO DE IMPRENSA DEIXAM CLARO O SEU LADO
Ocorreu agora mesmo e faço questão de deixar aqui registrado para tudo, todas e todos tirarem suas próprias conclusões. Eram 18h55 e a rádio Auri-Verde de Bauru estava fechando o seu noticiário da noite na voz do seu locutor chefe, o atual diretor da rádio Alexandre Pittoli e o assunto em pauta era a manifestação contrária ao Golpe em curso e ao impedimento da presidenta da República Dilma Rousseff na avenida Paulista, capital do estado. Um locutor ao fundo deu a notícia e Pittoli fechou com essa pérola: "A diferença é que quem trabalha faz manifestação aos domingos e quem não trabalha faz no meio da semana". Ao fundo, sobe aquela peça usada em dias de jogos de futebol: "Braziiiiiiiiiiiiiiiillll". Foi de arrepiar. Eu que, ouço a Auri-verde desde antes mesmo do Pittoli nascer tenho saudades de antanho e do que ela acabou se transformando nos dias de hoje. A isenção foi pras cucuias, pois o que se vê nas vozes dele e do Jota Augusto são barbaridades a favor de um dos lados da contenda e totalmente contrários ao outro. Pelo visto, Pittoli segue fielmente orientação para seguir em frente com um jornalismo tendo como pauta o que hoje denominamos de Golpe e a favor da bestialidade do impeachment, porém de sua boca não sai uma só virgula sobre as passagens do doleiro Yousseff aqui por Bauru, mais de dez vezes, só para vir buscar grana viva na Empreiteira Bauruense, com laços umbilicais com os donos da emissora e também com algo mais em Furnas e com o então governador mineiro, Aécio Neves (algo já comprovado nos depoimentos incluídos nos Lava Jatos da vida, mas como se não existissem para o jornalismo dessa emissora). Triste ver no que a Auri-Verde se transformou e mais triste ainda em ver que a isenção não mais existe naquelas plagas. Quem a ouve sabe do que escrevo, pois o ouvido agora é fichinha perto de tudo o mais durante sua programação. Será que ela tem intenção de se transformar numa versão interiorana da Jovem Pan? Nas ruas, para quem pensa que o ouvinte não percebe, ouço algo sobre o momento atual da rádio: "Destruiram a rádio, hem!". Confirmo isso a cada dia, percebendo uma honrosa exceção em Rafael Antonio (e equipe esportiva), que ao menos quando emite alguma opinião mais contundente, ouve os dois lados. No mais, o conservadorismo chegou lá e estacionou, fincou raízes. Torcendo por dias melhores, ares oxigenadores e sem tirar os pés do chão.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

BEIRA DE4 ESTRADA (56)


MÁRCIA E AS INCERTEZAS DESSE MUNDO*
* Texto de minha lavra e responsabilidade publicado na edição nº 32, dezembro 2015, da revista bauruense AZ! (10 mil exemplares), na seção que fecha a mesma, a Tirando o Chapéu:

Márcia Nuriah é bailarina. Encantou e irradiou luz por variados cantos e recantos bauruenses. Até o exato dia em que o marido holandês necessitou voltar ao seu país, cuidar dos negócios da família. Perdemos uma pensante pessoa, pulsante e muito dançante. Agora, para ter Márcia entre nós só de tempos em tempos, tipo drops, pequenas doses. Estava junto dela na aula de despedida lá na sua escola de dança, junto da praça Portugal. Algo a magoava por dentro e por fora. O mesmo sentimento entalado na garganta sentido por muitos, uma vontade tresloucada de ajustar as coisas nesse país, ver o fim das injustiças todas, as desigualdades, brecar essa intolerância, ódio começando a pipocar no ar, uma incompetência meio que estabelecida e nunca resolvida.

Gravei sua fala naquele já longínquo dia de maio de 2011. Despedida com alguma mágoa, pois naquele ano seu Festival Internacional de Dança, por força dos muitos desencontros no nosso municipal teatro havia sido transferido para Barra Bonita. “Espero um dia voltar, com segurança e com gente que tenha tesão em fazer, porque sem tesão não tem solução”. Foi dado um jeito no teatro e noto hoje gente cheia de tesão nos bastidores daquele casa. Márcia acaba de fazer nova incursão na aldeia bauruense, sempre rápida, lépida e fagueira. Quem presenciou, com certeza, saboreou de montão, quem não viu, só ano que vem. Cidadã do mundo, aqui e acolá quase ao mesmo tempo.

Sei, deve estar aturdida, atordoada e atormentada com esses atentados todos ocorrendo nos países pela vizinhança de onde reside. Essa já era sua preocupação tempos atrás. Como conviver com uma cada vez maior intolerância? Tenta sempre ao seu jeito, prolongados diálogos, acaloradas discussões, desgastantes, cansativas e debates feitos somente entre quem ainda os façam dentro da sensatez. Extraio algo deles, como néctar a me embalar e me fortificar. Pessoas tocando a vida como Márcia sempre tem muito a dizer.

“Minha dança é alicerçada num monte de conhecimento técnico. Estudei muito, aprendi a dançar valorizando a história do mundo árabe, onde está inserida a minha dança. Malhei as alunas no ferro aqui na escola, mas sempre com humildade. Não tem nada pior do que as pessoas que se acham. Vivemos num mundo em que a ética morreu. No lugar do humanismo entrou o hedonismo, o consumismo. Com a contracultura pregávamos valores solidários e hoje predomina a conveniência, o eu, o egoísmo exacerbado. Levo em conta que o colonizador nunca valorizou a cultura do colonizado e quando me veem somente como dançarina de dança do ventre. Repudio a erotização que procuram fazer. Eu sou uma artista que não produz metal, produzo pensamento, passo ideias. Aqui na escola, digo que aprendemos ‘hesbollah’ e não a rebolar”.

Como é bom ser amigo de gente como essa digna representante dos Nuriah, original embaixatriz brasileira em terras geladas e distantes. Faz falta por aqui, mas deve preencher belas lacunas dos do lado de lá do oceano. Gente assim, não são encontradas em cada esquina, mas é com esse tipo de cabeça que esse mundão terá possibilidades de salvação.

Henrique Perazzi de Aquino, jornalista e professor de História (www.mafuadohpa.blogspot.com).

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

MEMÓRIA ORAL (191)


SEIS HISTÓRIAS DE VIDA VIVIDA EM BAURU

01) NELSON MOTTA DANÇOU ATÉ NÃO MAIS PODER E HOJE SE FOI

Notícias ruins chegam das formas mais inesperadas possíveis. Hoje recebo uma delas através de uma lacônica nota via redes sociais: “O mundo da dança perdeu hoje o Nelson que tanto encantou os salões com sua ginga... Dance em paz no céu!”. Um dançarino quando nos deixa, faz sempre muita falta, pois muitos tentam dançar de verdade, mas fazer a coisa com a devida sapiência isso já é maestria e algo para poucos, uns escolhidos. Conheço alguns aqui em Bauru com essa ginga no corpo e dentre eles esse aqui hoje retratado, infelizmente não já com vida, mas após tomar conhecimento do seu falecimento. A lembrança que tenho dele é de vê-lo em puro estado de êxtase, voando pelos salões e essa não me sairá da cabeça jamais.

NELSON DIAS MOTTA trabalhou uma vida inteira cuidando dos pés de todo tipo de gente, um renomado e considerado homem de branco, podólogo de mão cheia. Nascido em 1943, portanto com 72 anos, algo mais o fez conhecido cidade afora. Nas horas vagas, ou melhor, nas horas em que não estava trabalhando com os pés e mãos dos clientes estava fazendo o que melhor sempre soube fazer na vida: dançar. Foi um dos mais conhecidos pés de valsa de Bauru, desses que sabia como nunca deslizar num salão. Quando diante de uma dama dava o melhor de si e flanava nas pistas, ou seja, sabia muito bem conduzir, quase voar. Desconheço uma dama que, frequentando os salões bauruenses já não tenha sido tirado para uma contradança por ele. Da plateia recebia incentivos, quando não aplausos, apupos pela maestria. Figura das mais simpáticas, boa praça, frequentava muitos lugares onde o assunto era a dança, mas quando no Espaço Brasil (ex- Made in Brazil) e Victória Choperia, o arraso era total. Pouca coisa sei dele, além dos salões de baile e da boêmia, que adorava. Não estava bom fazia uns meses, internado no Hospital da Unimed e lutando muito pela vida. Hoje foi levado daqui, mas deixa imensa saudade nessa imensa legião de gente que o via bailar como se tivesse asas. Vai ver que tinha mesmo.

2.) BORRACHA EM FRANCA RECUPERAÇÃO AO SABOR MUSICAL
Quem aí não teve problemas de saúde, alguns claudicantes, preocupantes e desestabilizadores que levante a mão? Difícil, hem! Esse negócio de saúde sempre pega a gente de calças curtas e daí, ao descobrir o tamanho do buraco, nada como a parada e cuidar da coisa o mais rápido possível. Foi o que ocorreu com o aqui retratado, um baita de um profissional, meninão na flor da idade, fortaleza em matéria de resistência e em franca recuperação, usando também o que mais gosta de fazer, a música como terapia para voltar logo mais ao estado normalizado. Escrevo dele.

LEANDRO MIGUEL é um sambista de mão cheia, uma daquelas pessoas consideradas na cidade como “mão mais que santa”, pois com os preciosos dedos produz um dos sons mais alucinantes da terrinha, sempre dedilhando seu violão. Começou cedo e logo ganhou o apelido, daí por diante ninguém mais o conhece de outra forma, BORRACHA. Já tocou com a maioria dos músicos da terra e a todos encanta. Minha mais remota lembrança dele num grupo musical se deu com o Quintal do Brás, um agrupamento em torno do samba de mão, ao estilo do Cacique de Ramos. Uma rapaziada, que assim como ele, começaram juntos e ganharam corpo, cada um conhecendo novos ares e promovendo o que de melhor temos hoje pelos quatro cantos dessa nada pacata cidade (pelo menos musicalmente é quente demais da conta). Borracha é o querido das cantoras e paparicados pelos cantores. Versátil, toca de tudo, mas gosta mesmo da boa MPB e do melhor do samba. Estudou Música na USC, aperfeiçoando ainda mais o que já sabia de cor e salteado, daí um passo para produzir lindas composições de sua autoria e agora, dia 22 de dezembro completa mais um ano de vida. Pois não é que começou a perder peso e descobriu algo no estomago. No tratamento emagreceu muito e por fim foi submetido a uma cirurgia, cuja recuperação é lenta, mas segue firme e forte no caminho de voltar a ser o que nunca deixou de ser. Vê-lo cantante e com uma disposição de ferro é a certeza de que está dando a volta por cima. Na torcida, uma legião de fãs, amigos e sambistas daqui e de alhures. Borrachinha, com um brilho nos olhos só seu, dá um belo exemplo de ser mesmo essa fortaleza. De seu violão saem acordes encantadores, como ele próprio.

3.) MANOEL É TOPÓGRAFO APOSENTADO E MÚSICO DESATIVADO
Aqui perto de casa tem um senhor que só de bater os olhos bate aquela desembestada vontade de parar tudo e ir lá puxar assunto, tentar conversar o máximo possível. Ele desce lá do Bela Vista, atravessa o rio Bauru, segue pela Inconfidência e caminhando lentamente vai até a Araújo, adentra a igreja ou numa outra rota, essa dominical, vai com sua sacola até a Gustavo e volta para sua com o que pode carregar de legumes e verduras. Com um chapéu desses de sambistas, vendidos por aí bem baratinho, usado no seu caso tanto para proteger a cabeça do sol, como para se lembrar de um passado de muita boa música. Tem muita coisa pra falar desse, mas o pouco espaço exige que o faço tudo comprimidamente. Tento.

MANOEL BENEDITO DE SOUZA é um desses personagens cheios de ricas histórias para contar. Para saber de tudo basta uma abordagem nas ruas, ele conta tudo em minúcias. Coisa de endoidecer a riqueza de detalhes. Sua vida foi a de topógrafo, pelos meios ferroviários e fora dele. Entende muito disso de medir terras, pegou muito sol no lombo ao longo de sua vida. Passou os ensinamentos para o filho, que seguiu tudo por um certo período de sua vida. Outra especialidade é a música. Toca um violão e cavaquinho como poucos e em torno disso existe muito folclore na cidade de Bauru e região. Certa feita estava na feira dominical da rua Gustavo Maciel e ele me deixou fotografar suas mãos com os dedos todos tortos e a causa foi o instrumento e o seu uso contínuo, de forma desmedida. Tocou muito e é respeitado por onde circule, principalmente nos de uma geração mais envelhecida. Infelizmente, alguns dos novos não o conhecem, uma pena. Mora com a esposa na rua Beiruth, comecinho do Bela Vista e todo domingo desce a pé, ou para ir na igreja Aparecida ou para ir à feira, predileções que diz abandonar só quando lhe faltarem forças. Nessas segue em frente, mas no traquejo com o cavaco, algo hoje, infelizmente deixado de lado para tristeza de uma legião de fãs.

4.) ALBERTINO VENDE PÃO NAS RUAS E ASSIM DRIBLA A CRISE
Vendedores ambulantes pelas ruas existem muitos cidade afora e em todos percebo uma só preocupação. Cada um procura um micho de mercado para aumentar seus rendimentos ou até mesmo ter algum. Quando me aproximo querendo fotografar e dizendo querer contar sua história, talvez até promover seu pequeno formato de negócio, a preocupação é só uma: “Mais isso não vai me prejudicar”. Se prevalecer a insensibilidade talvez até algum insano possa fazê-lo, mas do contrário, neles a demonstração explícita de que só pela necessidade de um aposentado ter de continuar fazendo algo para complementar sua renda, sinal evidente de que o capitalismo não seja o melhor dos mundos. Como isso de trabalhar uma vida toda, chegar a aposentadoria e ela não ser suficiente para despesas mínimas? Daí histórias como a desse hoje retratado calarem fundo.

ALBERTINO FORTUNATO é lá de Espírito Santo do Turvo e ao se aposentar como motorista veio com a família residir em Bauru. Encontrou seu canto lá na vila Nipônica, mas desde que chegou estava ciente de que o valor de seus rendimentos seria insuficiente para lhe proporcionar vida digna. Como sua esposa, a Maria Helena, mais conhecida como Fia, sempre foi uma exímia fazedora de pães a ideia pintou e acabou vingando. Hoje, aos 60 anos de idade, ele está a cinco lotando diariamente seu surrado veículo Gol e vindo para a cidade de segunda a sábado vender a remessa produzida pela esposa. Ela no forno, ele enfrentando o sol ou a chuva. Seus dois locais preferidos são a esquina das ruas Antonio Alves com Cussy Junior, junto ao muro do antigo BTC e defronte o Bradesco da vila Falcão. Conseguiu formar uma seleta clientela e toca seu barco, dia após dia, sempre na mesma rotina. Um batalhador, simpático, de pouca conversa, pele queimada apelo inclemente exposição ao sol, segue em frente sem reclamar da vida,com uma produção variando desde os pães caseiros salgados (os mais vendidos), como os doces, também em forma de broa. Com preços que podem receber descontos quando comprados em maior quantidade, dessa forma complementa sua renda e enche uma pouco mais sua dispensa.

5. ) ROBERTO, O CONSTRUTOR DA PERIFERIA QUE RODOU O MUNDO TODO
Essas histórias que vou tomando conhecimento nas andanças feitas pela aí me encantam de tal maneira, que não consigo guarda-las só para mim. Ao tomar conhecimento de como uns e outros se aventuraram mundo afora, eis uma oportunidade de passar essas experiências para a frente. Sexta passada estava tomando meu passe lá no terreiro no Tangarás e sentado na mesma mesa, comendo um belo de um carneiro, eis que conheço um distinto senhor, com uma história pra lá de interessante. Daí, anotei tudo num papel e hoje transcrevo aqui o que lá consegui resumir, após falação de quase duas horas.

ROBERTO GONÇALVES, 74 anos é o dono da firma RCR Construção Civil, especializada em eletricidade e construção civil, localizado junto à sua residência no bairro José Regino, divisa com a Nova Bauru. Muito jovem, com vinte e poucos anos começou a trabalhar para a Telefônica e Telesp. Ali se especializou em eletricidade e convidado aceitou ir executar serviços no exterior. Rodou o mundo, desde vários países africanos, Portugal, Espanha, Indonésia, Argentina e Paraguai. Da África, conta algo engraçado, quando não consegue nem mais se lembrar do nome do país, mas muito do povo, onde por mais que tenha tentado, o único onde não consegui arrumar uma namorada. “Elas não me deram chance nenhuma”, conta. O trabalhos e as aventuras duraram bem uns trinta anos de sua vida. Após a aposentadoria montou seu próprio negócio e com sua experiência deu tudo muito certo. “Sofri e passei muita coisa boa na vida. Essa linha rural em volta de Bauru é tudo obra minha. Tenho obras que me orgulham, o pavilhão da UNIP, o shopping Boulevard, Magazine Luiza, a estrutura do Alameda e tantas outras. Só no Vale do Igapó fui eu que finquei os 1238 postes. Tenho muita história para contar”, relembra tomando um cerveja. Cresceu, já enricou, perdeu tudo e hoje faz e acontece novamente, sem perder o jeito matuto, de pessoa simples e sem luxo. Solteiro, após alguns relacionamentos, se diz assediado. Calmo, risonho, já chegou a ter 59 funcionários ao seu lado e hoje com 19, a maioria de fora de Bauru, toca seu barco. E relembra histórias das viagens todas que é uma beleza, ótima companhia para papos sem fim.

6.) JOSÉ SILVÉRIO E SEU ANTOLÓGICO BAR NA CONSTITUIÇÃO
Conhecer as pessoas nessa cidade é fácil, basta bater os olhos para se certificar de algo: “Esse eu conheço”. Mas na maioria das vezes conhecemos de vista, de cansar de ver pelas ruas da cidade, das inúmeras trombadas no dia a dia. Na maioria das vezes, passamos uns pelos outros e, como não temos amizade ou proximidade, nem um mero cumprimento. O contrário ocorre em viagens, lugares distantes. Nesses casos quando nos deparamos com alguém do lugar, surge logo a expressão: “Você também é de Bauru, né?”. Hoje escrevo de uma pessoa, dessas tantas que cruzamos muito pelas ruas e ao escrever dele, presto uma homenagem a tantos em idênticas condições, gente que a gente conhece sem conhecer.

JOSÉ SILVÉRIO SPINELLI completa 57 anos no dia de amanhã, 19/11, sendo uma pessoa cheia de boas histórias para dar e vender. Trabalhou por um bom tempo no Sindicato do Comércio Varejista, ainda nos tempos de Osvaldo Rasi e depois foi ser vendedor. Há 30 anos está à frente de um pequeno bar na quadra 3 da rua Constituição, centro da cidade, antes denominado de Cantinho Verde e hoje sem nome, junto de sua residência, onde mora junto com a irmã, a professora Vera Cristina e suas filhas. Muito querido por uma legião de gente de antanho, participa de eventos mil com amigos da Receita Federal, Cisne Calçados, Tânger e muitos outros do Calçadão da Batista. Muitos também se lembram dele dos seus tempos de goleiro, algo o qual se recorda com muita saudade, pois devido a problemas de coluna, pressão alta, glaucoma, sua saúde e mobilidade estão comprometidas. Vivencia o mal do século, o tal do comer demais e fazer nenhum exercício. Eternamente solteiro, vive em paz, toca seu bar como pode, com o pouco movimento desses tempos bicudos, tenta outra atividade, mas sabe das dificuldades de concretizar algo na situação atual. Humilde, generoso e muito bom de conversa, José Silvério é figura das mais conhecidas na região onde reside, aliás, desde que nasceu. Na sua quietude, um ser mais do que especial.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

CHARGES ESCOLHIDAS A DEDO (103)


ESSA AMÉRICA LATINA SE REINVENTANDO...

Hoje pelo JC um (quase) tacanho texto de um dito marxista sobre a situação da Venezuela. Carlos D'Incao se diz comunista com ligação umbilical ao PCB, mas possui uma das escolas particulares mais caras da cidade. Uma contradição quase impossível de ser explicada. Leiam o texto "A derrota do chavismo e da estupidez", clicando a seguir:http://www.jcnet.com.br/editorias_noticias.php?codigo=241505. Muito do que escreve, mesmo dolorosamente temos que reconhecer, tem razão. Mas nem tudo. "Na próxima eleição presidencial teremos a vitória de Caprilles do MUD e a direita tradicional voltará ao poder", escreveu e até aí tudo bem, Maduro pagará pelos seus erros. Na sequência da longa análise, eis a pá de cal do inadmissível para uma pessoa dita como marxista, ainda mais num pronunciamento num órgão de imprensa: "Caso tenha sabedoria, permanecerá lá por muito tempo. Nessas duas últimas décadas, o “socialismo” bolivariano teve a virtude de afugentar o capital da Venezuela, gerar um caos na política cambial, criar um estado inflacionário e possibilitar um universo de escassez dos mais diversos gêneros, além de não superar problemas básicos como a violência urbana e o trânsito caótico das grandes cidades. Não mudou as relações sociais de produção, não expropriou o grande capital, não socializou os meios de produção, enfim… De nada foi socialista… Foi só uma piada de mau gosto…". Sim, Maduro não é Chavez, assim como Dilma não é Lula, Cristina não é Nestor (mesmo sendo Kirchner), Raúl não é Fidel (mesmo sendo Castro), Ortega de antanho não é o Ortega de agora na Nicaragua e assim por diante. Sim, as relações sociais de produção não foram alteradas, mas quase fazer juras de amor para o que representa Caprilles é algo pra muito além do surreal. É duro ler muita coisa e ter que concordar, mas espero que ele compreenda que, nem sempre a razão estará também com ele, em sua análise feita sentado sob um monte de grana, se dizendo marxista e com um olhar enviesado sobre quem ao menos tentou construir um algo diferente.

Se a Venezuela está mesmo esse caos, irreversível segundo essa análise, a Argentina elegeu Macri, o que de pior existe no quesito neoliberalismo predatório (vide o encontro dele com Skaf na FIESP da avenida Paulista, reeditando algo a favor de golpes de Estado, aos moldes da antiga OBAN), o Chile claudica com um pé lá e cá, porém alguns outros navegam num mar onde não exista tanta necessidade de explícita verborragia negativista. Cito três casos: Uruguai, Equador e Bolívia. E relembro sempre e sempre de Cuba, um lugar muito visitado pelo professor em questão e ainda, mesmo com o em curso por lá hoje, uma bela experiência a ser ressaltada, valorizada e incentivada. Eu, por exemplo, não vejo como construir um estado marxista cobrando altos valores de mensalidades em uma escola particular. Isso não bate com nenhum dos pensamentos do velho barbudo. Sou adepto de algumas reavaliações e reeleituras, mas não tão drástricas e até estapafúrdias. Viver aqui no coração do capitalismo predatório e continuar querendo ser socialista é mesmo difícil, um mar de contradições, mas sem exageros além do permitido. Outro dia mesmo fui cobrado aqui e no meu blog por fazer uso de mero cartão de crédito e por possuir carro próprio. Nem discuto mais isso, passo ao largo. Mas uma coisa é uma coisa e um coisão, passa a ser motivo para discussões diferentes. Ou tudo é a mesma coisa e quase mais ninguém pode ainda querer se dizer seguidor da prática marxista, meros comentaristas com mais ou pequena aproximação e afinidade?

Finalizo com a defesa do que aconteceu no Uruguai de Mujica e com um prosseguimento mais moderado, mas em frente no novo Governo do Tabaré. Mesmo sem a pecha socialista na fachada, uma bela experiência. Comparar a Argentina de antes dos Kirchner com os avanços lá obtidos, como a maravilhosa Lei de Médios lá conseguida é saber fazer uma honesta diferenciação. E já ir vendo a cara dada por Macri é ver que tudo será posto por terra. Daí, os ruins são os Kirchner's? Claro que não. Aqui no Brasil mesmo, quando Lula e Dilma implantaram, com todos seus erros alguns avanços sociais nunca vistos e assim mesmo motivo do escárnio das ruas. Se esses criticam e se posicionam contrários a isso, os verde-amarelos nas ruas, eu só posso me mostrar a contra, pois não sou a favor do estilo Casa Grande & Senzala. E o que está em curso será muito pior do que o governo dos dois últimos. Na Bolívia pouca crítica pode ser feita, pois o índio presidente soube direcionar seu país para o bom e acertado caminho. O mesmo vejo no Correa, que mesmo dividindo a esquerda equatoriana, faz algo nunca visto em seu país. Recuar nunca, criticar sim, mas auxiliando e dando apoio na continuidade das reformas necessárias. De Cuba, nada de novo, um pequeno tentando sobreviver diante de tantos torcendo para que dê errado, mas lá se vão mais de 50 anos e a alternativa se mostra ainda viável. Gosto demais dessa forma brejeira, bem latina de ir dando um jeito nas nossas questões, bem diferente do resto do mundo. Era isso. Quem quiser fazer a boa e necessária discussão que entre na contenda. Estamos aqui e quem, segundo Vicente Matheus, entra na chuva é para se queimar. Pois que venham os respingos, de água ou de fogo.

OBS.: Naa ilustrações, a tira publicada hoje por Miguel Rep no diário argentino Página 12 (o melhor dessa América), o clamor que deveria ser a tônica de nosso clamor: resistam Bolívia e Equador! Nas demais, charges do mesmo Rep, retiradas de seu blog.

domingo, 13 de dezembro de 2015

AMIGOS DO PEITO (112)


AMIGOS A GENTE ENCONTRA O MUNDO NÃO É SÓ AQUI...

AMIGO 1 - ENCONTRAR TEMPO PARA LAUREAR UM AMIGO - LAZINHO NAS PARADAS
O bicho sempre pega, mas para os amigos sempre é possível encontrar um tempinho, nem que seja curto, suado e comprimido entre uma coisinha e outra. Ainda mais quando esse amigo é o macanudo do poeta caipira Lázaro Carneiro, um que acaba de lançar mais um livro na praça, o terceiro de muitos no prelo. O dessa vez é o ATESTADO DE ÓBVIO e foi totalmente bancado por outro amigo, o Dangió, um quase seu vizinho, companheiro de bebericagens e também de escrevinhações poetistas, artes a quatro maõs, além de tentativas de sujar um o fogão do outro. O Lazinho, como os diletos amigos o chamam está afinando a viola e escrevendo cada dia melhor que antes. Seu livrinho é para chorar, ainda mais quando lido após tomar umas cervejas e relembrando do desastre ambiental ocorrido em Mariana MG. Conto como comprei seu último livro. Cheguei de surpresa em sua casa, ou melhor no barracão do lado, que mais parece uma igreja, pelo formato bicudo da frente, mas abriga coisas que os igrejeiros detestariam. Pois bem, cheguei lá ontem no momento em que ocorria por lá mais um daqueles saraus mensais onde ele, a Maria José Ursolini, a menestrel de tudo, o Reginaldo Furtado e o próprio autor do livro estavam nos acordes da festa. Fui só para comprar o dito livro, que até tem um texto de minha lavra e responsabilidade homenageando, ou seja, puxando o saco do verdadeiro escritor da turma. Lázaro é cabra envergonhado e me disse: "Você me desculpa, mas tenho que lhe vender o livro, pois ele foi bancado". Não desculpei, pois nem tinha que me explicar nada e eu fui lá era para comprar mesmo.

Comprei e sai todo pimpão da vida, com direito a autógrafo e tudo. Não fiquei para a festa, nem beberiquei e comi nada. Mas levei um mimo besta para ele e o entreguei na maior cara de pau desse mundo. Era um caderno, com um envelopinho desses pequenos e lá escrito isso: "Escreva. Escreva muito. Escreva sempre. Bom 2016 - Henrique". Muita cara de pau de minha parte dar um caderno, ainda dos pequenos, para um dos caras que mais escreve na cidade e ainda pedir para ele escrever. O danado entendeu a metáfora e disse que adora escrever a mão. Pronto era isso. Num tempo onde quase mais ninguém escreve a mão, quero distribuir cadernos para que tudo, todas e todos possam voltar a se tocar e escrevam mais e mais a mão, com os cinco dedos e deixar de teclar tudo interneticamente. Na capa do tal caderninho, comprado lá na Kalunga pela bagatela de R$ 5 reais cada, uma bela foto da montagem da capa das revistas Rollings Stones (Pedras Rolando), talvez a única da Abril que ainda espio (só de solaio) nas bancas. Me deu na telha que um caderno é um bom presente para incentivo de manuseio e boa utilização das mãos. Mas o presente é uma coisa e o livro do Lázaro é outra. Li ontem mesmo, assim vapt-vupt e o lerei mais umas cinco,seis vezes até captar tudo o que o gajo quiz dizer com aquele ajuntamento todo de letrinhas. Não dá para assimilar tudo de uma só vez. Meu chips mental já está um tanto gasto e tudo tem que ser feito em drops, aos poucos.

O fato é o seguinte. Lazinho está de livro novo na praça e melhor presente de final de ano não existe. Viva Lázaro esse "lazarino" (ops, quase errei) escritor...

AMIGO 2 - A HILDA JÁ ESTÁ DE VOLTA... - VIVA ELA!!!
HILDA é a proprietária da banca de jornais e revistas lá ao lado do original, verdadeiro e muito bem localizado aeroporto de Bauru. Sua banca está incrustada logo na entrada, debaixo de uma imensa caixa d'água do DAE (escorada pela banca) e bem defronte de onde foi um dos lugares mais movimentados e cheios de boas histórias dessa cidade, o Drive In Birutas, que daria um livro de reminicências e devaneios. O drive-in fechou e ali floresceu do outro lado da rua a Banda da Hilda, uma queridíssima por tudo, todas e todos do pedaço, pelo imenso coração e pela forma como as pessoas ali foram percebendo ela no trato, não só com os semelhantes à sua volta, como com os animais. Por favor, peçam para os animais abandonados não passarem por ali, pois ela abandona o serviço e além de tratar de todos, ainda dá guarida e não tiver jeito leva para sua casa e junta-os com os milhares já sob sua guarda. Uma abençoada pessoa. Sua banca transformou-se num ponto de convergência, parada obrigatória de quem tem tempo livre e também quem não tem tempo nenhum. Muitos param ali só para o cumprimento e o abraço diário. Dizem que após o abraço dela, o dia alegre e cheio de bonança está mais do que garantido.

Pois bem, Hilda não andava bem das costas, sua coluna estava judiando demais e semana passada passou por uma cirurgia. O estabelecimento permaneceu fechado por dois dias e entristeceu tudo á sua volta. Num papel impresso por algum vizinho e colado na banca a notícia dos dias fechados. Cheguei a ver velas acesas ali do lado. A torcida foi grande e a gaja voltou do melhor jeito possível, ou seja, com aquele baita sorriso na cara (mesmo com dores) e reabriu a banca na sexta. Com a ajuda das vizinhas, amigos, taxistas, aeroportuários e muitos fãs (dentre os quais me incluo), lá estava ela ao lado de Viviane Mendes e outra amiga, colocando pra jambrar, de braço na tipóia e vendendo seus papéis. Quando vejo as últimas entregas de Título de Cidadão e de Menção Honrosa lá na nossa Câmara Municipal de Bauru, penso logo em gente como essa Hilda e chego na conclusão: Se ninguém for pedir um Título para ela, eu vou lá instigar para a laurea seja outorgada o mais breve possível. Essa merece, pois nesses tempos onde os sorrisos andam escassos, ela prova o contrário e mesmo na adversidade está sempre com um baita e lindo sorriso na cara, fazendo a alegria do sisudo Altos da Cidade. Ela é a alegria do lugar.

AMIGO 3 - UM PRESENTE ITALIANO - SOU O EMPREGADOR DE MIM MESMO
Acabo de ganhar chegado lá da Itália, região de Bagna Cavallo, perto de Bologna, do amigo meu e da Ana Bia Andrade, o homem do campo Franco Mazzotti, marido da brasileira carioca Rosângela Mazzotti um lindo poster calendário, o LUNÉRI DI SMÊMBAR. É o calendário oficial dos acontecimentos naquela pequena pequena localidade italiana encrustrada no interior da Grande Bota e vai para minha parede, marcando o ano que se inicia logo a seguir. Franco é pequeno proprietário de um pedaço de terra e capo da cidade. Seu paraíso terrestre recebe a denominação de SONO IL DATORE I DI LAVORO DI ME STESSO ("Sou o empregador de mim mesmo"). Gostei do título e como sempre tive que inventar meus próprios empregos, pois bocudo como sou, não teria coragem para ir pedir emprego para quase ninguém por aí, daí enxergo no grandalhão italiano algo muito parecido com minha prática de vida baurense. Eu e Ana estamos desde já a juntar caraminguás para em breve ir conhecer o reduto libertário do amigo distante, lá no velho continente. Vai para a parede assim que conseguir uma moldura adequada para tão importante calendário. E assim adentrarei 2016.

UMA QUE ADORARIA TIVESSE SIDO AMIGA - POR QUE TANTO INTERESSE POR CLARICE?
Que ela é boa demais da conta não tenho a menor dúvida, mas inegável que a leitura dos belos escritos da escritora Clarice Lispector não sejam algo lá muito fácil. Dentro dos padrões brasileiros um pouco rebuscado, dessas para o leitor dar aquela boa parada, refletida e ir fazendo tudo aos poucos, sentindo cada novo avanço como algo grandioso, acrescentativo em sua vida. Ela é dessas desmembradoras de mentes estagnadas e paradas no tempo. Ontem falava com meu filho sobre isso, o fato dele circular muito pelo belo Sebo Espaço Literário Bauru e lá ter percebido algo: "Pai, precisa ver, tudo o que entra de Clarice Lispector por lá sai. E a leitura dela não é fácil, mas bastou entrar algo, sai logo". Debatemos longamente a respeito e hoje na banca de livros na Feira do Rolo, do visionário Carioca, um só livrinho de Clarice, o "A Hora da Estrela". Vi e fui bebericar uma cevada, prosear um pouco, espiar o mundo à minha volta, assuntar das possibilidades domingueiras e quando me dei conta, perguntei do livrinho ao livreiro da Feira. "Já foi Henrique, Clarice sempre vendeu bem". Nem deu tempo de tirar uma foto dele ali na banca. Pois bem, me digam, qual o encanto proveniente dessa mágica das letrinhas? Tentem me explicar. Sei que a imensa maioria dos brasileiros desconhece quem seja essa Clarice, mas assim mesmo ela continua fazendo e acontecendo. Que lindo, mas qual a mágica? Hoje no diário mais antenado dessa América Latina, o Página 12 argentino, algo sobre esse interesse também latino por Clarice. Cliquem a seguir para ler o belo texto SOMOS LISPECTOR: http://www.pagina12.com.ar/…/suplementos/las12/13-10240-201… Que sua leitura sirva e muito para abrir mentes, ampliar horizontes e favorecer as boas discussões de tudo, todas e todas, o que mais necessitamos nesse momento brasileiro.

E PARA FECHAR A TAMPA DO CAIXÃO - O INTERESSE DO GOLPISTA FICA EVIDENTE NOS DETALHES
Hoje estava marcado um ato contra a presidenta Dilma, algo sobre o impedimento correndo contra sua pessoa. O tal do golpe em curso, patrocínio mais do que evidente de uma cruel e insana elite, ainda atuando aos moldes da Casa Grande & Senzala. O fato é que o movimento está fraco, quase minguando, praças e ruas pensando em outras coisas nesse domingo (felizmente). Um órgão da imprensa insiste em tentar mobilizar as pessoas, tudo para ver seus interesses fortalecidos, a TV GLOBO. De minuto em minuto em sua programação estão dando flashes com a repercussão do movimento país afora e por onde as cameras circulem dá para notar claramente o fracasso do movimento. A Globo insiste mesmo assim e dessa forma deixa claro, evidente seu caráter golpista, o de insuflar algo que não está na agenda do brasileiro no dia de hoje. Chamo a isso de VERGONHA NACIONAL.. Cai nessa só quem quer e com a bazófia a prova que faltava para incluir a TV GLOBO entre os maiores golpistas de plantão. Agem descaradamente só pensando nos próprios botões. Quem quer ver praça vazia de Norte a Sul do país ligue agora na Globo e terá uma amostra do que digo.