domingo, 20 de março de 2016

FRASES DE UM LIVRO LIDO (101)


A VERDADE E A MENTIRA NA APRESENTAÇÃO DE UM LIVRINHO INFANTIL – SERVEM PARA LULA E DILMA


Certa feita me caiu às mãos um livrinho dos mais despretensiosos, o “Nuno descobre o Brasil”, obra de caráter infantil da dupla José Roberto Torero (dele o livro do Chalaça) e Marcus Aurelius (deles dois o Terra Papagalli, que tanto gostei). Era para um sobrinho adentrando o gosto por leituras e no livro as aventuras de um menino, que tendo viajado na esquadra de Cabral, aqui vivenciou aventuras no país-paraíso (sic, saudades disso) chamado Brasil. Fui me lembrar do livrinho por uma coisa muito simples: como mentimos e reforçamos isso a cada novo passo dado, principalmente nos dias de hoje.

Na apresentação do livro, sobre a veracidade de terem encontrado papéis num garrafão à beira mar e lá a história do Nuno, esse trecho: “Assim sendo, não podemos dizer com certeza que as páginas que encontramos são verdadeiras. Mas também não podemos falar que sejam falsas. Mesmo porque, se elas forem verdadeiras, as coisas que contam podem ser mentiras; e, mesmo que sejam falsas, pode ser que tragam muitas verdades. Aliás, nós mesmo podemos estar mentindo quando dizemos que encontramos esse livro num garrafão. Vai ver nós o escrevemos em casa, apenas consultando dicionários e enciclopédias. E às vezes é difícil perceber a diferença entre a verdade e a mentira. Não é verdade?”.

Esse negócio de mentir e depois seguir mentindo, insistindo na mentira, como se verdade fosse, tudo para justificar a continuidade de uma ação como a certa é condenável, mas prática corriqueira dos tempos atuais. Estou aqui diante de mim com os jornais de hoje e vejo a capa das revistas semanais, todas incriminando Lula (sempre ele, só ele) de tudo. Daí fui ver de que é acusado. Cheguei a simples conclusão: são meras acusações, nenhuma com provas, tudo suposição e carga pesada da mídia para convencer incautos de serem verdades. Confira se não escrevo a verdade e tente encontrar os tais crimes de Lula. Fui ouvir as tais gravações e lá só uma forçação de barra para tentar de tudo quanto é jeito incriminar o dito cujo, mas tudo conversinha sem algo de concreto. Fofocas levados ao horário nobre e com a pior intenção possível.

Mas como acreditar nisso tudo? Simples. “Se os caras tão dizendo e há tanto tempo, deve mesmo ser verdade. Onde tem fumaça tem fogo. E por que essas revistas todas iriam mentir para nós, seus leitores? Tudo bem que até pode não tenha culpa, mas tem cara e jeito de culpado. E como, só leio mesmo as manchetes, pois não tenho saco para aprofundamentos e nem comparações, com essa besteira de ter que ler a mesma coisa em diferentes lugares, estou mais do que convencido. Leio no mais famoso, assisto o jornal de maior audiência e pronto, eles estão do meu lado. E, se for mesmo mentira isso do Lula, eu já estava cansado do PT e não via a hora deles caírem fora. Aliás, chegaram longe demais. Se por acaso lá na frente descobrirem que nada disso é verdade, me safo fácil, pois digo que fui na onda do tal juiz e se alguém tem que ser cobrado é lá com ele. Posso alegar ter sido induzido a acreditar, mas que gostei, isso gostei, não nego. E por fim, ninguém precisa saber tratar-se de uma mentira, pois de tanto ver a coisa exposta, nem eu mesmo sei como tudo isso começou, mas agora que começou, não tem mais como voltar atrás. Vamos que vamos e até o fim, depois deles fora do páreo a gente vê como é que fica”, afirmam os tais protagonistas de verde-amarelo, o das praças públicas.

“Mentir! Bah, só mais essa vez, tá? E não estou sozinho nessa, vejam quantos fazendo o mesmo que eu? E lá me vem você, um cara que nem conheço, querendo me fazer mudar de ideia e me propondo pensar, estudar, ler, compreender o que está por detrás disso tudo e ainda usando de um livrinho infantil para conseguir seu intento. E eu lá preciso disso. O Lula e a Dilma são as desgraças desse país e tenho dito”, encerra o papo um dos tais protagonistas da mudança em curso.
E daí, eu cá do meu canto, continuo em vão tentando ainda fazer as pessoas sacar das mentiras que alguns nos impingem como verdades absolutas. Perceber a diferença entre a verdade e a mentira é mesmo tarefa para poucos, mas isso pouca importância faz. A mentira já não tem nem mais pernas curtas.

UM TEXTO DE UMA AMIGA - A democracia do afeto - Tatiana Calmon
"Não tenho – nem nunca tive – a pretensão da unanimidade. Li Rodrigues muito novo! 

Deixei, há pouco, de ser escravo de cortejo. Li Freud muito tarde! Gosto de pessoas incomuns e desgosto de algumas, por muitos, cingidas de confetes. 

Tenho, contudo, ojeriza aos hipócritas, mas nutro respeito por meus desafetos e adversários, leais ou não, pois isto é o que pode – eu disse pode - me tornar melhor que eles, e, afinal, o mesmo direito de quem te estima assiste àquele que te abomina: 

Esta é, para mim, a democracia do afeto! 

E este sou eu: alguém que acredita - eu disse acredita - ter conquistado a liberdade de ser, pensar e, às vezes, falar o que quiser.”

sábado, 19 de março de 2016

MEMÓRIA ORAL (195)


ESSES VIERAM PARA A RUA CONTRA O GOLPE NA MANHÃ DE HOJE
Tudo começou com Alguns indignados e me questionando via reservado do facebook: “Não vai ter ato nenhum em Bauru no dia 18 contra o golpe, só em São Paulo”. Bem que tentei, mas percebi que as forças todas seriam centradas para o grande e indivisível ato na capital paulistana, como de fato de deu. Mas não ocorreria nada em Bauru? Essa pergunta me corroia por dentro e por fora. Ontem, falei com amigos (as) daqui e dali, num certo momento deu o estalo: vamos nos juntar aos que já resistem bravamente na Esquina da Resistência, a Esquerda Marxista, capitaneada pelo vereador Roque Ferreira PSOL e pela Biblioteca Móvel Quinto Elemento. Foi o que fiz. Bolei um texto, submeti somente a um amigo, Claudio Lago e de tudo o que escrevi só troquei o nome. Havia sugerido “Ato” e, ele mais ponderado, me pede para deixar tudo com um caráter mais de bate papo, daí nasceu o “Encontro”.

Eis o texto final do Convite espalhado ontem somente via facebook, visto por milhares e compartilhado até o momento por quinze pessoas e curtido por quase cem pessoas: “EU QUERO IR PRA RUA - Sábado, das 9h30 às 12h, Esquina da Resistência, Batista x Treze de Maio, local do encontro semanal da Esquerda Marxista e Biblioteca Quinto Elemento. Tanta coisa para gente discutir na rua, gente por rever, assuntos pra discutir, temas em questão, efervescência necessária e eu em casa. Não pode ser. Você que cobrava um ENCONTRO PELA DEMOCRACIA em Bauru no mesmo dia do Grande Ato do dia 13 em São Paulo, eis a possibilidade de botar o bloco na rua. Condição mínima: SER CONTRA – 1) o Golpe em curso – 2) clima de intolerância – 3) ódio nas ventas – 4) fim das liberdades individuais – 5) impedimento da presidenta. SER A FAVOR – 1) Continuidade do atual Governo – 2) Não ver problema em Lula ser ministro – 3) Enquadramento do juiz Sergio Moro – 4) impedimento do presidente da Câmara Deputados. Venha de onde vier, como vier, mas venha, junte-se a nós e levante sua voz. Sua presença é a certeza de que o “povo unido jamais será vencido”. Traga bandeiras, cartazes e a boa disposição de sempre. Espalhe essa ideia, compartilhe, multiplique, faça florescer, vicejar. Só assim o golpe não vai vingar. Conversar é preciso, entender o que se passa, como se passa e buscar apoio junto a gente que pensa igual a gente.”.

Não havia nenhum outro pré-requisito além do pedido de se trazer cartolinas, pincéis, canetas pilot, prendedores de roupa e barbante para se construir coletivamente um varal no Calçadão e ali expor a contrariedade ao estilo manada que rege as ações no momento atual. Teve quem reclamou do horário, de ter tomado conhecimento em cima da hora, de compromissos outros, mas o negócio teria que ocorrer hoje e assim foi feito. Chego pouco antes das 10h e lá, como todo sábado, quem vejo em primeira mão é o vereador Roque Ferreira junto de dois bravos resistentes e militantes a Dara com pau, Fabricio Genaro e Silvio Durante, mais alguns representantes da biblioteca móvel. Me junto a eles e vamos conversando sobre o assunto do dia, a grande movimentação vermelha de resistência ontem ocorrida país afora.

As pessoas foram chegando assim devagar e como ninguém estava esperando mesmo quantidade, o que prevaleceu desde o começo foi a qualidade, o grande feito de ter conseguido tirar de casa gente que há muito não comparecia em atos dessa natureza nas ruas. Vieram todos conversar, procurar gente com a mesma linha de pensamento e trocar ideias, se posicionarem sem medo de exporem suas devidas caras. Dessa forma vou juntando o nome de alguns e uns poucos diálogos, os ainda lembrados diante da emoção a cada nova pessoa que surgia na virada da esquina e se juntava ao grupo. Uma das primeiras rodas foi constituída pelo jornalista Ricardo de Callis Pesci e pelo funcionário público aposentado Aparecido Ribeiro. Esse último é meu “amigo” de facebook há muito tempo, ideias mais que parecidas, mas nunca havíamos tudo oportunidade de se conhecer pessoalmente. A manhã de hoje foi mais que propícia para esse e tantos outros belos encontros.

Da conversa fluindo entre eles, eu matreiramente ia sacando pontos interessantes e passando para um papel sulfite e pregando no varal já instalado entre as hastes do calçadão. O varal só foi possível após a chegada do grandalhão Leandro Siqueira, pois ale mde comprar numa papelaria ali do lado alguns pincéis atômicos e um pequeno grampeador, foi quem, com sua altura, alçou voo e ia fixando cada um lá no alto. E o varal foi se enchendo. Eis alguns dos primeiros escritos: “Golpe não! Ditadura Nunca Mais” e “Desliga da Globo que o país melhora”. Não me lembro quem foi, mas uma grande sacada surgiu ainda numa dessas primeiras conversas: “Herzog foi assassinado duas vezes. Em 1964 pelos militares. Em 2016 por seus colegas jornalistas”. Nem foi preciso explicar, estava tudo tão explícito. O grupo foi aumentando, chegaram a professora Renata Santin, Regina Levoto,Tatiana Calmon com o braço na tipoia e muitos curiosos, como Denis Marques, que por ali passavam e fizeram questão de ser fotografados pelas lentes registradoras do evento.

O professor da UNESP Juarez Xavier, vem junto da esposa Patrícia Alves e da filha Bolaji Alves e vai se enturmando nas tantas conversas nas muitas rodinhas já formadas. O bonito da manhã foi presenciar essa mudança de roda. Um que estava enfronhado numa, daqui em instantes estava em outra e quem não se conhecia passou rapidamente a ir conhecendo mais e mais pessoas. A jornalista Cleide Portes, da rádio Unesp veio cheia de boas ideias e ao ver essa junção espontânea contrária ao mundo massificador, abriu um baita de um sorriso e disse só uma coisa, captada por todos: “Essa pluralidade é a cara da rádio”. Disse mais, conversou muito, conheceu gente que fazia tempo que não saia de casa e reviu velhos e vigorosos companheiros (as) de luta e de empreitada. Tatiana Calmon ria numa outra roda, junto do capoeirista Alberto Pereira e esposa, da advogada Maria Cristina Zanin Sant’anna e da taróloga Helena Aquino. Riam, mas sei, todas preocupadas com a cara fechada de outros tantos nos dias de hoje.

Quem chega junto do filho é a professora universitária Maria Cecília Martha Campos e do outro lado a Bel Marques, junto do marido, ela funcionária judiciária. O emaranhado de conversas sobre a necessidade da resistência ganham corpo, consistência. Os decibéis aumentam quando desponta lá de longe o professor Rubens Colacino, hoje sem panfletos na mão, querendo ouvir mais do que falar, o construtor e militante (boas lembranças do seu tempo de hip hop) João Neto, diretamente da Nova Esperança, a rainha do turbante Nina Barbosa e até o ex-vereador José Eduardo Ávila que, militante num partido de oposição ao atual Governo faz questão de se posicionar: “Aberrações jurídicas não existe como concordar”. Foi nesse exato momento que todos se voltam para observar quem chegava com um pão caseiro debaixo do braço, o professor universitário aposentado, ex-secretário de Cultura Municipal Geraldo Bérgamo. Requisitado por muitos, circulou com uma desenvoltura de causar comoção entre todas as muitas rodas, pois todos queriam tê-lo nos converses já constituídos ou sendo formatados.

Quando tudo começava a se acalmar, desponta no meio dos que vinham nossa direção um casal, ele, Gilberto de Almeida Bessa, junto da esposa, experiente com toda sua vivência internacional e musical veio enriquecer um bocadinho mais as discussões. O ex-sindicalista bancário Claudio Lago arrebanhava outros em conversas pra lá de boas, calientes e propositivas, como todas. Vindo caminhando lentamente pelo Calçadão se achega Oscar Fernandes Sobrinho, professor em vias de aposentadoria, mas cheio de muito gás para falar e discutir esse imenso país continente. Chegou e ficou, logo todos mais do que enturmados. Bessa aproveitou para fazer algo que mito queria fazia tempo, conhecer pessoalmente Roque Ferreira. Ademar Aleixo, um entendido em Saúde pública estava parlando numa roda, noutra Ana Maria Novaes Muniz, todos cheio de gás.

Os assuntos se multiplicavam e os cartazes no varal idem. Nesse momento haviam alguns com a tarefa de fixar os mesmos no balançar do vento e lá se liam: “Já estamos em Ditadura: Judiciária e Midiática”, “O problema é o regime: O que fazer com ele?”, “Persistir e resistir ao golpe”, “Lula assume e dólar cai: mas ele não era o cão?”, “Notem algo: A classe operária ainda não entrou em cena”, “Vocês já ouviram falar da Cartilha da Embaixada Norte-Americana?” e até um jocoso e sugestivo (sic): “Abaixo a PicaDura”. Um dos mais olhados foi o “Golpistas tem (f)Moro privilegiado”, esse sem necessidade de legendas explicativas. Quem também aparece e deixa por instantes a loja é Guilherme Reis, depois o Valdir Gibi e Ana Maria Guedes, professora de Letras que veio depois de dar aulas boa parte da manhã. Chegou e já foi dizendo em alto e bom som, dos tantos próximos que acabou se afastando: “os caras sonegam que é uma beleza e vem me dizer que a corrupção é só petista. Quando explicitei isso para alguns, deixaram de conversar comigo”.

Outra que causou ao chegar foi a professora de espanhol, a equatoriana Gioconda Aguirre, toda de vermelho, vestido, bolsa, batom, sapatos e quando interpelada fez questão de ressaltar: “Só uso rojo, durante o dia todo”. Rojo em espanhol é vermelho, as cores da atual resistência, não utilizadas por todos ali presentes, mas nenhum deles a rejeita como parte do usual e necessária de seu vestuário. A chegada de Gioconda foi tão provocante que, quase ao mesmo instante Cláudio Lago saiu em disparada carreira, adentrou uma loja e volta já vestindo uma dessa cor e com a outra numa sacolinha de mão. Tento brincar com Ricardo Pesce na sua despedida e diante de tanta coisa séria pela frente, digo a ele numa roda, do fato de já estar aposentado, e ter saído de sua tranquilidade para comparecer, se interessar e estar propondo, conversando, sugerindo coletivamente e ele rindo me diz: “É exatamente para ter a tranquilidade de poder viver num país normal e continuar desfrutando disso tudo que estou aqui”.

Daí, tiro minhas conclusões da belezura do congraçamento humano ocorrido na manhã de hoje. O motivo de todos estarem ali é muito simples. O país está prestes a sofrer uma séria ruptura institucional, com quebra de protocolos convencionais dentro do dito regime democrático. Alguns já foram quebrados, com o Judiciário impondo as regras do jogo e ao seu bel prazer, com a nação toda nas mãos de uns poucos, tudo feito para conveniência de uma composição sendo urdida das sombras da lei. Esse aqui se opõem frontalmente a um golpe branco, velado, feito como se tudo estivesse ocorrendo normalmente, porém, do outro lado uma violência começa a despontar nas ruas, ódio mais do que latente, esses querendo ganhar o país no grito, a revelia da própria lei. Daí esses vieram para as ruas conversar, ver o que pode ainda ser feito, como e onde. Atenderem a um convite e deram um belo recado para a cidade onde moram: a resistência está mais viva do que nunca. Estamos pela aí e nem foi preciso ressaltar o tal vermelho, motivo de tanta controversia nos últimos tempos. O que ninguém aqui quer é andar para trás.

HPA.

sexta-feira, 18 de março de 2016

MEMÓRIA ORAL (194)


BAURU RESISTE E O ALGO MAIS DO SHOW DE CHICO CESAR
Ontem, após a direitona ter canibalizado o país durante o dia, uma parte consciente de bauruenses foi para o SESC presenciar o novo show de CHICO CESAR, o "Estado de Poesia". Tudo transcorria normalmente, belo show, mas o artista um tanto macambúzio, quieto, arredio. Eis que do meio da multidão, assim como quem não quer nada, uma intrépida faixa com dizeres em vermelho é alevantada: "NÃO VAI TER GOLPE". Segurando numa das pontas esse HPA e noutra Claudio Lago, com alguns revezamentos feitos ali na hora. A reação foi imediata, recheada de muito calor humano. Fomos rodeados por gente até então desconhecida, todos querendo nos proteger e nos apoiar. Foi constituída uma espécie de cordão de proteção, coisa com imenso calor humano e todos ávidos por reagir à insanidade vista nas ruas.

Um moço gaúcho, cinco meses de Bauru, surge do nada e nos abraça com palavras carinhosas: "Quando sai de casa estava pensando em fazer algo aqui. Pensei em no meio do show gritar bem alto o Fora Golpe. Estava pronto para fazê-lo, mas quando me dei conta ali pertinho de mim, dois de gerações bem antes de mim já o faziam com uma faixa. Vim abraçá-los e me resignar diante da atitude de vocês. Nós, os gaúchos, lá no Sul, quando presenciamos algo assim, uma aula dada por alguns com mais experiência que a gente, em forma de agradecimento, chegamos perto e lhe dirigimos uma palavra de agradecimento: vocês são verdadeiros galos véios".

Ele não foi o único. Chico continuou seu show normalmente. Cláusulas contratuais impedem que os artistas tomem partido durante os espetáculos. Ele, na qualidade de artista já havia se manifestado contrário do golpe, algo contundente e muito mais do que uma mera marcação de posição. Chico é um militante, mas estava ontem a fazer um show e manteve a fleuma. Sua resposta veio na forma mais alegre como seu show se desenvolveu dali por diante. Evidente vê-lo mais alegre, vibrante. A nossa faixa foi levantada quando ele cita o poeta Torquato Neto e seu trabalho de resistência, morrendo tão cedo, mas com um legado tão grande. Foi o momento da faixa ganhar os ares. A partir daí só desceu para descanso dos que a empunhavam e para bailar ao som inebriante de o “bis”, com uma bela música contra a bestialidade do agronegócio e depois um poutpourri (dentre elas Vandré e o Pra não dizer que não falei das flores) que, percebíamos ele estendeu o quanto deu.

O único incidente se deu com um dirigente cultural da cidade, isolado e de forma intempestiva, desce e esbraveja junto à faixa. Pegou mal, gritou, mas não notando reação nenhuma favorável, vendo-se sozinho, puxado pela companheira, foi soltar os bofes em outra instância. Foi o ponto nevrálgico da noite, para a partir daí, crescer e se solidificar o agrupamento em torno da faixa. Uma servidora do Fórum se aproxima de diz: “Estava arrasada hoje, pois onde trabalho é um reduto muito conservador. Ouvi piadinhas o dia todo, me aquietei e quando vi a faixa e a reação da massa me aproximei e digo a vocês: estou de alma mais do que lavada. Vocês salvaram meu dia. O Chico é ótimo, tem um lindo posicionamento de vida e seu show ganhou um encantamento a mais com o ocorrido”.

Num certo momento do show, ao final de uma música, alguém puxa o coro: “Não vai ter golpe”. A cantoria seguiu em frente, cantada por muitos e encheu o ginásio de algo como se fosse um grito de resistência. Os músicos deram uma parada no som e com palmas o refrão foi ouvido por intensos e vibrantes minutos. O show continuou mais alegre. Uma simpática militante social da cidade se aproxima e diz: “Que bela ideia. Vocês estão de parabéns”. Por outro lado, um casal se aproxima de nos diz: “Ficamos muito contentes por vocês terem tido essa ideia e mais ainda pela reação do público. Perceba daí, como ninguém está indiferente e todos querendo participar desse momento”. De uma outra, uma palavra triste, de como está se processando a reação individual de cada um: “Tomara, meus caros, não ser esse aqui o último show ainda dentro do estado de direito, com democracia, pois o insuflado nas ruas é por coisa muito ruim”.

No final do show, mais um grito de “Não vai ter golpe”, ecoando por vários minutos pela quadra esportiva. Uma fila se forma na entrada do camarim para as fotos e autógrafos com o artista. O grupo da faixa fica para o fim e é recebido pelo músico. Muitas fotos, autógrafos e a faixa é estendida detrás de todos. Todos vão conversar com o dirigente do SESC, explicar dos motivos do ato, da necessidade do posicionamento e sempre deixando claro, tudo ter sido feito sem nenhum tipo de anuência com ninguém da instituição SESC e sim, movida pelo momento político e da necessidade de, numa rara oportunidade como a com um show com um artista engajado nas necessárias transformações sociais que esse país continua precisando, tudo surgiu de forma espontânea. Foi o coletivo não conseguir se segurar nas calças.

Todos vão para a calçada e lá mais uma rodada com muito bate papo, com pessoas ávidas por conversar e marcar posição contrários ao golpe em curso no país. Ninguém parecia querer ir embora e o papo foi se prolongando, os portões de fecharam por completo, luzes apagadas e muito ainda por ali. Para onde ir? Onde continuar querendo entender o que de fato está a ocorrer com esse país? Decisão coletiva de ir para o Empório São Lourenço e lá continuar um bocadinho mais da conversa. E, por incrível que possa parecer, o grupo chegou, bebeu, comeu, conversou muito e arrebanhou muitos interessados em nossas conversações. Saímos todos convencidos de que a unanimidade proposta pelas ruas, com um só lado querendo impor sua pauta nunca foi a solução para o país. Estamos diante do caos advindo de um monstrengo sendo parido nas entranhas mais esquisitas desse país ou a continuidade desse país com seu ordemamento constituído e soberano. Façam suas escolhas?

Viva Chico Cesar!!!

quinta-feira, 17 de março de 2016

O PRIMEIRO A RIR DAS ÚLTIMAS (19)


MINHA RETROSPECTIVA DOS ÚLTIMOS ACONTECIMENTOS


1.) ESSE HOMEM PASSOU DE TODOS OS LIMITES...
O juiz Sergio Moro tenta uma última cartada (sempre eles guardam alguma coisa na manga da camisa). Divulga para a Rede Globo (exclusividade total e absoluta) vídeo com gravação da presidenta Dilma Rousseff, o ex-presidente Lula e até de monitoramento com ministros do Supremo Tribunal Federal. Foi longe demais e se a reação não ocorrer agora, de forma dura, incisiva, madura, consciente, dentro da lei e com uma intervenção imediata no que está ocorrendo no coração da Operação Lava Jato, o país estará a partir de agora totalmente submisso a essa instância advinda de Curitiba. Todos os limites foram ultrapassados e serão mais ainda hoje a noite quando do Jornal Nacional. A armação mais sórdida que se poderia ter para prostrar um regime democrático (do qual sempre desconfiei, pois sempre serviu a alguns privilegiados). A intervenção deverá ocorrer via STF e Presidência da República, numa ação em conjunto reestabelecendo à normalidade do país. Não existe outra alternativa. É o que penso. Assim como hoje sensatamente o STF impediu que a Câmara dos Deputados prossiga num bestial impedimento conduzido por uma pessoa, o presidente daquela casa, réu da Justiça, algo precisa ser feito já, pois até os ministros do STF tiveram suas intimidades vasculhadas. Se alguém acha isso normal, me desculpem, mas impossível de o ser.
HPA - Bauru SP, quarta, 20h03, 16 de março de 2016.

2.) QUER QUEIRAMOS OU NÃO, ESTAMOS EM PLENO GOLPE
E aqui sentadinhos vendo a banda passar
A armação é mais do que sórdida
Amanhã será tarde
A coisa é agora
Rolando já, nesse exato momento, enquanto o Noroeste ganha e o Corinthians se prepara para entrar em campo. Enquanto a gente está pronto para jantar, tomar banho e ir dormir.
Moro, Globo e o resto da nação assistindo de camarote.
Até quando?
HPA, Bauru SP, 21h16, 16 de março de 2016.

3.) HOJE EM BAURU A RESISTÊNCIA AO ESTABELECHIMENT TEM ENDEREÇO, HORÁRIO E LOCAL: SHOW DO CHICO CESAR NO SESC
Ele já se posicionou totalmente contrário a golpe e golpistas. CHICO CESAR não foge da raia, com letras mais do que contundentes contra os reais desmandos nesse país e com toda certeza vai deixar bem claro para todos o que pensa e expor para a galera que vai lotar o SESC a insatisfação popular. Vou lá presenciar a belezura da música do Chico Cesar e ver sua fala contundente contra o fascismo em curso.
Vou cantar bem alto contra o Golpe!!!
HPA - Bauru SP, quinta, 0h10, 17 de março de 2016.

4.) ESQUEÇA OS JORNAIS NACIONAIS, LEIA O QUE SAI NOS INTERNACIONAIS.
Aqui uma amostra do que hoje sai como manchete de capa e três matérias internas sobre a clara tentativa de golpe institucional dada pelo juiz Moro no diário argentino Pagina 12, o melhor daquele país. Entenda tudo lendo nos três links indicados abaixo:

Lula pone el cuerpo para defender a Dilma (Su llegada al Palacio del Planalto fortalece al gobierno, que soporta un fuerte embate destituyente. Lula, uno de los mandatarios más populares que tuvo Brasil, enfrenta una campaña mediática y judicial que ayer tuvo un nuevo capítulo.) -http://www.pagina12.com.ar/…/elmun…/4-294801-2016-03-17.html

SE “PEPE” MUJICA RESPALDA EL NOMBRAMIENTO DE LULA
“Es un líder muy importante” - http://www.pagina12.com.ar/…/s…/294801-77073-2016-03-17.html

Un juez sin límites, Por Eric Nepomuceno - http://www.pagina12.com.ar/…/s…/294801-77074-2016-03-17.html

DO CONTRÁRIO, se informe pelos muitos colunistas via redes sociais. O que sai na dita grande imprensa e no que margeia essas informações é algo muito sujo e centrado na besteira de que a saída é uma só, a deles. O povo vai encontrar a sua.
HPA - Bauru SP, quinta, 9h14, 17 de março de 2016.

5.) A GRAVAÇÃO QUE NADA DIZ...
Já tentou gravar algo entre você e seus melhores amigos? Sai uma asneira atrás de outra, de palavrões a verdadeiros acintes contra a verborragia escorreita (sic) e dita correta. Eu mesmo, tenho um baita amigo, o Duilio Duka, que adora ficar me corrigindo nas minhas pisadas da bola. Tem momentos que, pela insistência, até me aborreço. Pois bem, faço essa introdução para dizer que hoje dei uma paradinha nos afazeres do meio da tarde e fui ouvir as tais das gravações que escandalizaram (sic) o país, as entre Lula e Dilma (ttoalmente ireegulares) e com outros atores sociais. Sabe a conclusão alcançada? As ditas cujas não tem nada. Foram sim, ampliadas em sua importãncia, poiis na ândia que o juiz Sergio Moro demonstra possuir em tentar encontrar algo a desacreditar e enjaular Lula, comete escorregão em cima de escorregão.

Quem ouviu a coisa toda pode me responder: Que acharam? Muita linguiça para pouca carne. Ficou um negócio um tanto forçado, meio sem sal nem açucar. Lula mesmo deve rir disso tudo, dessa atroz perseguição em busca de uma pisada de bola de sua parte. Imagine se o gajo tivesse um caso extra conjugal? Nesse momento a nação já estaria tomando conhecimento de cada detalhe. Mas ele, pelo visto não o tem e nem fica muito de conversê sem motivo. Imagino a quantidade de gente envolvida nessa perseguição, ouvindo o que o homem fala ao telefone desde o amanhecer e depois tendo que transcrever tudo e entregar para o juiz lá de Curitiba. E depois, tentar criar um fato e engambelar a nação. , é claro, tem os incautos de sempre, caindo no conto da carochinha. Bobos deles. Estão aí para isso mesmo, é a claque do teatro do golpe.

Ouvi outra grande bobagem. Um lá desse meio investigativo disse que a coisa não foi adiante porque ficou comprovado que Lula sabia que estava sendo gravado e atrapalhou as investigações. Mas isso é novidade para alguém? O fato de tentarem gravar o sapo barbudo não é novidade nem para as pedras do reino mineral. Até acho que Lula deveria, ciente da possibilidade, ter pregado peças nos algozes arapongas. Imagine ele inventar uma fantasiosa história a movimentar a investigação da mais séria (sic) rede de televisão do nosso mundo, ela sair atrás de algo que não existe e por fim, dar com os burros n'água. Seria o uó do borogodó. Triste mesmo é ver como a farsa montada pelos aloprados da escuta irregular, feita de maneira chinfrim, consegue colocar até gente nas ruas e quase que a república cai. Ou estamos todos beirando o néscionismo, ou o QI médio dos telespectadores da telinha mágica decaiu bastante ou, na pior das hipóteses, a coisa mais fácil é passar a perna e fazer de bobo uma parecla significativa da nação. Deve ter gente rindo disso tudo e os marmelões entrando novamente de gaiato no navio. Mais um tiro n'água. Qual será o próximo?

HPA, Bauru SP, quinta, 18h18, 17 de março de 2016.

quarta-feira, 16 de março de 2016

CHARGES ESCOLHIDAS A DEDO (106)


VALE A PENA AINDA QUERER DEBATER PELAS REDES SOCIAIS DIANTE DE AGRESSÕES?

“Preciso fazer esta pergunta. Por que você perde tanto tempo respondendo a agressões?”, recebo essa pergunta via reservado do facebook e feita por um dileto e próximo amigo.
A resposta, nem eu sei bem dos motivos. Talvez, por acreditar no ser humano e que sendo educado, receberei educação como resposta. Existem uns que insistem também em ser do contra todas as evidências e até da própria História, tudo para fazer valer à sua interpretação e pior, o lado pelo qual defende. Para esses, não existirá justificativa que o faça mudar a sua, pois está de cabeça feita. Pura perda de tempo discutir ou mesmo quere debater com esses. Se o faço é numa vã tentativa de demonstrando a evidência tão escancarada, talvez uma remota possibilidade de vê-lo tomando outra atitude. Até o momento, tudo infrutífero e mesmo assim, não desisto. Em alguns momentos, confesso, perco a boa. Ai a coisa descamba, vira o tal do Fla Flu que tantos abominam, mas quando se entra nele, difícil sair.

Após escrever algo elogioso à Cuba recebo isso de um amigo de longa data, professor como eu, décadas de cátedra, muitas escolas pela periferia da cidade, convivência com periferia: “Caro Henrique: parabéns pelo seu amor a Cuba. Se gosta tanto assim de um país socialista ( onde divide-se tudo, caro amigo, mude para lá).”. Essa doeu muito, vindo de onde veio. Essa é a resposta mais simplista que todos aqueles sem conteúdo costumam dar, mas não de alguém cheio dele. Algo está mais do que perdido no meio disso tudo e, com certeza, esse amigo, além de já ter batido panela por aí, deve também ter gritado muito dia 13 passado e pronto para apoiar o golpe como a salvação da lavoura. Como vou discutir com uma pessoa até ontem muito querido? Tento argumentar, insisto, me desmilinguo todo. Talvez um dia numa trombada na rua, a gente se encontre e até se abrace, mas o que mais acontece são coisas desse tipo e dos lugares mais inesperados possíveis. Não é só questão de se ir conhecendo melhor o que vai na cabeça das pessoas, algo até então oculto, mas dessa influência tão maléfica de uma mídia que convence até aqueles ditos como inconvencíveis.

Um outro, que já tivemos certa convivência, fizemos uma matérias juntas, denúncias sobre desmandos numa cidade vizinha, alguma semelhança na linha de pensamento, em outras nem tanto, mas algo sendo seguido, papos ainda acontecendo. Na primeira resposta que me dá, antes mesmo de tentar argumentar me sai com essa: “só se for para imbecil como você...”. Cai das pernas, balancei, tentei me levantar das cordas e tentei encerrar o assunto, com uma afirmação lépida e fagueira: “nunca te chamei de imbecil, mas se assim me chama, vejo que findamos aqui qualquer possibilidade de diálogo. (...) Se você tem pensamentos direitosos, fique com eles e não venha me desrespeitar, pois nunca agi assim contigo. Passar bem.”. Daí, deu de me compartilhar textos em cima de textos centrados em sua linha de pensamento, todos facilmente rebatidos, um mais descabido que o outro. Pedi educadamente para que parasse com aquilo e mesmo assim não bloqueei sua "amizade".
Continuamos por aí, espécie de trégua até não sei quando. Tem aquele que você não conhece, entra na sua conversa já sem ser convidado e desfere uma assim do ex-presidente, sem discutir nada, sem querer dialogar: “aquele molusco, analfabeto, crustáceo”. Quando não algo pior. Como vou dialogar com alguém que usa termos dessa natureza? Impossível.

Posto agora duas reações distintas de amigos, de como resolvem muito bem essas questões todas. Primeiro a de Sivaldo Camargo: “Gente vou ser sincero, todas as postagens dos amigos do Face, que tiver uma imagem ou texto da sobre a passeata, ou tiver outro nome mais festivo !!! só vou curtir o que está dentro dos meus princípios, não vou responder a nenhum coxinha amigo. "DOIS PASSOS A FRENTE, UM PASSO ATRAS, DOIS PASSOS A FRENTE, UM PASSO ATRAS" boa noite a todos os manifestantes e os que não se manifestaram, e aos que foram na feira livre, fizeram churrasco, levaram o cachorro para passear, boa noite a todos que poderão chegar em casa e colocar a cabeça no travesseiro e dormir sem culpa, ou melhor dormir tranquilo !!! boa noite a todos !!!”. Para bom entendedor meia palavra basta. Adoto o mesmo procedimento daqui por diante para o que vier pela frente.

OBS.: As ilustrações desse texto foram sacadas daqui -http://cargocollective.com/oddworx/inkteraction.

terça-feira, 15 de março de 2016

MÚSICA (135)


INQUISIÇÃO E MACARTHISMO DE TOGA, VERSÃO CURITIBANA – POR TOMZÉ E NIRLANDO BEIRÃO (APROXIMAÇÕES DESTE HPA)

Eu adoro trabalhar ouvindo música. Ela me inspira, transpira e também, em certos momentos me faz parar tudo. Daí me vejo contemplando o maravilhamento proporcionado pelo que escuto. Isso se deu hoje ao redescobrir aqui no mafuá um velho CD do TOMZÉ, o “Com defeito de fabricação” e lá essa maravilha, a BURRICE. Cliquem a seguir e o ouçam cantando (https://www.youtube.com/watch?v=F_60QsDy_qw), mas o façam lendo a letra abaixo: “Veja que beleza/ Em diversas cores/ Veja que beleza/ Em vários sabores/A burrice está na mesa/ Veja que beleza!/ Refinada, poliglota/ Anda na esquerda/ Anda na direita / Mas a consagração/ Chegou com o advento/ Da televisão/ Da televisão/ Da televisão/ (Refrão)/ Ensinada nas Escolas/ Universidades e principalmente/ Nas academias de louros e letras/ Ela está presente / Ela está presente/ (DISCURSO POLÍTICO) Senhoras e senhores, / Senhoras e senhores,/ Se neste momento solene não lhes proponho um feriado comemorativo para a sacrossanta glória da burrice nacional, é porque todos os dias, graças a Deus, do Oiapoque ao Chuí dos pampas aos seringais, ela já é gloriosamente festejada, gloriosamente festejada.”.

Mais atual impossível e olha que foi escrita lá pelos idos de 1998. Para quem se interessar mais, eis um texto acadêmico escrito inteiro e tão comente sobre esse disco: http://www.rbec.ect.ufrn.br/data/_uploaded/artigo/N3/RBEC_N3_A2.pdf.

Eu cito a tal música com devida galhardia, bem propícia para escrevinhamentos diversos sobres os dias atuais, seus encontros e desencontros. Junto ele e um texto de um cara que religiosamente (cruz credo) leio toda santa (vade retro) semana. Sim, tenho meus sagrados (virgem nossa) colunistas e escritores, os quais não abandono: Aldir Blanc, Mino Carta, Eric Nepomucemo, Fernando Morais, Luis Fernando Veríssimo e alguns esporádicos. Dentre os fixos esse que cito a seguir, maestro na pena do bem escrevinhar: NIRLANDO BEIRÃO. Ele possui um Caderno só seu na melhor revista semanal brasileira, a Carta Capital, o QI – Guia da Vida Contemporânea. Outro dia reproduzi aqui um texto dele sobre a Eny, a do bordel bauruense. Hoje volto á carga com algo mais contundente e bem no espírito do que ouço na vitrolinha: “CAÇA ÀS BRUXAS – Quando a intolerância triunfa sobre a razão – com o aplauso do público”. O texto na íntegra não está disponível no site na revista e me reservo a reproduzir trechos curtos, primeiro para estimular uma corrida às bancas e depois para tendo Tomzé ao fundo, irem comparando o escrito com as bestialidades jurídicas advindas lá dos tribunais curitibanos, um verdadeiro show carnavalesco a envergonhar o país aos olhos do mundo. Sintam a belezura das comparações:

“As sociedades rudimentares – e aí incluo a nossa, renitentemente escravagista, enfatiotada em privilégios – têm a sanha da punição antes mesmo de saber o que deve ser punido. Somos linchadores em potencial. A mídia gosta. (...) A Inquisição, ou as inquisições, é um desses momentos de deleite popular. (...) A feiticeira e o judeu representam uma forma de inconformismo social. Os pretextos, por exemplo as leis da Igreja, só mascaram a verdade. Para o status quo, bruxas, judeus e vermelhos são todos traidores a serem exemplados. (...) Os togados da Bastilha de Curitiba têm, na história, precedentes em seus prejulgamentos partidarizados e enviesados. (...) A crença do magistrado já estava absolutamente formada. Testemunhas abundavam – assim como as intrigas, as mentiras e as pequenas vinganças pessoais. (...) Criada a legitimização ética da deduragem, o vizinho passa a ser suspeito de manter um pacto com o Tinhoso. (...) se tiver barba, então, e morar em São Bernardo, é o capeta em pessoa. (...) O discurso moralista divide o mundo entre os maus e os bons. As grades, as torturas, o justiçamento e a fogueira purgam, no altar do eterno bode expiatório, a paranoia dos cretinos e dos medrosos. (...) ...a trama inquisitorial não busca a apuração da verdade; a verdade já está presumida. Aquela verdade que interessa aos acusadores. (...) Em nome da Justiça arma-se a cilada traiçoeira da injustiça. (...) O macarthismo foi a prova viva de como pode florescer o espírito andidemocrático no país que sempre quis se fazer passar por campeão da democracia. (...) Joe McCarthy iria virar o símbolo e o sinônimo de uma vergonhosa tragédia polírtico-ideológica, na qual foram cúmplices os norte-americanos assustados com a Guerra Fria e com o discurso do nós aqui versus os traidores lá. (...) O que passou à história como o nome de macarthismo virou a Catarse doentia que faz do medo, intolerância. (...) Sessenta anos após o surto macarthista, a América, carola e sem fibra, busca projetar seu medo em figuras salvacionistas como Donald Trump e os pterodátilos do Tea Party. O Brasil, triste cópia do Império, caça suas bruxas imaginárias em pretenso exercício de purificação ética, abrigados os inquisidores em togas negras à guisa de batinas brancas – mesmo que todos saibam, lá no fundo, que as tais bruxas no las hay”.

Estamos a viver sob o signo da perseguição política em forma de patriotismo. No Império dominado pela burrice isso tudo vinga que é uma belezura. Minha saída: navego no meio disso tudo ouvindo Tomzé e lendo Nirlando.

ESSA CARA FEIA
Essa boca espumando das ruas hoje não é somente pelos motivos expostos pelo Miguel Rep em sua tira de hoje no Página 12 argentino. Vai muito além e expressa muito bem da intolerância no trato com o semelhante, demonstrado quando as opiniões divergem e indo no clima da não paciência, onde é mais simples explodir que contemporizar. Tentando me conter, estarei dentro de minhas parcas possibilidades fazendo de tudo e mais um pouco para não espumar dessa forma diante de ninguém, nem dos meus mais cruéis detratores. Será que consigo?
HPA - Bauru SP, terça, 9h47, 15de março de 2016.

segunda-feira, 14 de março de 2016

FRASES (141)


SAI NA RUA HOJE E FUI SENDO ABORDADO AQUI E ACOLÁ
Entro na farmácia e o conhecido me aborda com uma pergunta, respondida por ele mesmo:

- O que achou de ontem? Bem, já sei que não deve ter gostado, pois...

Ele mesmo nem termina sua frase, mas sei onde queria chegar. O atendimento nos separa e voltamos a nos encontrar na fila do caixa, quando lhe respondo:

- Não é que não tenha gostado. O fato é que nada ontem clamava contra a corrupção. Perseguição pura e simples ao PT. A malversação vai continuar sendo feita como sempre foi, aos borbotões, pelos de sempre e sem o PT na parada. É isso que querem, pois ontem foi o festival da manutenção dos privilégios de alguns e pelo fim dos

Numa banca no centro da cidade, o amigo do lado de lá do balcão me vendo passar, gruda em mim e diz ter ouvido na rádio hoje pela manhã eles falarem em estado de pura alegria e contentamento da inevitável queda do PT. Revela algo que não sabia:

- Esses caras são todos sacanas, falam do PT, mas eu sei que conseguiram financiamento para compra da rádio via BNDES e nunca pagaram. São santos do pau oco, seu Henrique. Enxergam os males dos outros, mas nunca os seus. Esses escondem e ainda criticam o negócio contra o Lula que nem provado foi.

Na entrada de um banco dou de cara com um irmão de um dono de grande imobiliária na cidade e ele vem me falar dos males todos do PT, das culpas todas, do Zé preso, da liberação de um, da vergonha de outro, que Lula já devia estar preso faz tempo e Dilma deportada. Ele, irmão de tucano e se dizendo isento, mas só enxergando males no PT. Ouço a ladainha quase inteira e quando estava já no limite, digo que quero falar. E falo:
- Sabe de uma coisa. Quem devia estar sendo preso por esses dias não era o Lula, como diz, mas uma pessoa que você conhece muito bem, pela quantidade de barbaridades já cometidas nessa cidade. Esse tu vai ficar espantado quando lhe dizer o nome, pois faz cada barbaridade que até deus duvida. 

Ele se espanta, arregala os olhos e desfiro a cutucada final:
-Teu irmão. Como vem me falar de tanta roubalheira e tem a desfaçatez de deixar teu irmão querido de fora disso tudo. Nem sei como consegue ainda permanecer solto.

Viro as costas e o deixo se avermelhando no meio da rua.

Vou adentrar um desses hipermercados e numa lojinha na entrada um velho conhecido, morador de um distante bairro me chama pelo nome. Atendo e o motivo era para me dizer exatamente isso:

- Henricão, o bicho tá feito, ontem perdi dinheiro com esses caras da passeata. Me amolaram o tempo inteiro, tive que ouvir contrariado aquela ladainha o tempo todo, sem nada responder, mas não compraram nada. Fiquei de portas abertas pra nada. Falam muito e fazem pouco. Eu que moro lá nas quebras sei de como a coisa se dá. Lula e Dilma tentaram, fizeram pouco, mas diminuíram o fosso da desigualdade, essa imensa distância social entre os desse lado da cidade onde trabalho e do lugar onde moro. Pela forma como conversam comigo eu saco de longe, eles não aceitam isso e isso tudo aí na rua é para jogar na lata do lixo tudo o que conquistamos.

Voltei para casa e não mais sai, mas não me esqueço do que ouvi logo pela manhã, pela voz do amigo jornalista e escritor Fernando BH, da Alto Astral e agora integrando o time dos colunistas diários do Informa Som da 94FM. Ele disse textualmente pela manhã algo assim: “A mentalidade do povo nas manifestações está mudando, pois ontem já admoestaram Aécio, Alckmin e Marta. Esse é um sinal mais do que positivo e vai em desencontro aos que dizem que tudo é só contra o PT”. Eu discordo. Como não vou ter como responder ao vivo lá na rádio, o faço por aqui e entre aspas: “Meu caro BH. Isso citado por ti foram acontecimentos esporádicos, isoladíssimos no meio da turba enlouquecida de ódio. Hoje usados como forma de amenizar o grau de ódio reinante nos muitos coros entoados por todos os lugares. Tente fazer o mesmo no meio da turba e alevante um cartaz sobre a Merenda Escolar. Pode ser convidado a se retirar, ter o mesmo rasgado ou você ser simplesmente trucidado. O ato, como até as pedras do reino mineral sabem é para destruir PT, Lula e o Governo de Dilma, nada mais. É assim que esses nas ruas ontem entendem ser o fim da corrupção. Prevaleceu mesmo foi aquilo que você insiste em não enxergar mais, a defesa do militarismo, escravismo, privilégios, mordomias, racismo, elitismo, bolsonarismo, conservadorismo e outros. Pioramos e muito e falar em conquista social é comprar briga com esses trogloditas. Queria ver vocês aí da rádio falando com a mesma ênfase entrevistando o Secretário sacana da Educação, o mandante do caso do roubo da merenda, o do mensalão da AHB aqui de Bauru, o do que diz que não quer pagar o pato, mas sonega mais que arrecada, o que diziam pedia propina para instalar firmas na cidade, etc. Não dá mais para tapar o sol com a peneira. Só isso que te peço, isenção. Baita abracito e digam para todos que morro de saudades de Maria Dalva”.