sábado, 16 de junho de 2018
FRASES DE UM LIVRO LIDO (128)
ESCREVER DAS PEQUENAS COISAS, MINÚSCULOS MUNDOS, COMO FAZIA JOÃO ANTONIO, ISSO É O QUE ME INTERESSA
A desilusão com esse país é incomensurável. Suas instituições estão todas, ou falidas ou comprometidas com o retrocesso, essa bestialidade neoliberal que tudo faz em prol de uma ínfima minoria e apronta de todos os jeitos e maneiras com a maioria do povo. Mais do que cansado, não vejo mais nenhum outra saída para o país. Ou vamos pro pau ou vamos camelar e muito daqui para frente. Minha fuga se dá pela leitura. O faço com quem escreve com os olhos voltados para os desvalidos. Tenho minhas preferências. Um deles, JOÃO ANTONIO, cronista de “Malagueta, Perus e Bacanaço”, um clássico das quebradas, das ruas deste país. Ele me inspira e com sua releitura, tento sobreviver a esses brutais e insanos tempos. Reli quase de uam sentada um livro sobre esse grande escritor, o “João Antonio – Coleção Remate de Males nº 19” (Revista do Departamento de Teoria Literária, Unicamp, Campinas SP, 1999, 174 páginas). São textos acadêmicos e jornalísticos sobre o que representa escrever sobre esses tipos enfronhados nas quebradas das cidades. Nas frases recolhidas muito do que quero fazer e produzir daqui por diante, meu campo de ação, algo assim:
- “Adorava o mundo da gente simples, classe baixa e desendinheirada. (...) Tudo o que rompia com os padrões estabelecidos, com a falsa moral burguesa, lhe agradava. (...) Uma bosta muito grande é o desfile das vaidades pequeno-burguesas, a limitação mítico-religiosa em que vivem nossos pais, avós, etc”, Caio Porfírio Carneiro.
- “...flagrador da realidade paulista urbana e suburbana. (...) Ele escrevia frequentemente à mão, para ter o gosto físico de sentir as palavras saindo diretamente de seus dedos para o pouco do papel, prolongamento da ebulição artística que implodia de seu corpo. (...) Convivendo com os malandros que encontrava em suas aventuras andarilhas pelas ruas, becos e bocas de São Paulo. (...) Acredito nos meus vagabundos, amei de verdade os meus vagabundos. (...) Prefiro criaturas e viventes que se mexam com humildade, que tenham tolerâncias”, Ilka Brunhilde Laurito. - “Suas criaturas são esfoladas pela lâmina da desproteção social. (...) Se a rua é uma escola, o bar é uma universidade. (...)O escritor dos párias e dos enjeitados sociais”, Lourenço Diaféria.
- “O gosto de olhar livremente as pessoas anônimas e deixar acontecer por elas um sentimento atávico, uma intuição que faz vasculhar personagens e imagens. (...) Não é pequena a tua coragem ao escrever sobre as pessoas comuns. (...) As pequenas coisas, desde que sejam tratadas com arte, possibilitam uma revelação de destinos. Justamente porque são pequenas e aparentemente insignificantes. (...) Perdido em largas caminhadas pela cidade. (...) Se atém a coletar sinais do imediato no mundo. (...) A cor e o volume das pequenas coisas só chegam ao texto pelo esforço da atenção sensível – atitude cada vez mais rara em quem escreve, convenhamos”, Fernando Paixão.
- “A arte de verdade é estar livre e assim conseguir se livrar da vontade de poder, de usar o poder de mandar. Competir para mim é imoral. (...) Detestava estar ao lado de quem venceu”, Ellen Spielmann.
- “Se eu fosse escrever como falo ninguém me lia. (...) Capacidade de desmistificação e a coragem de remar contra a maré. (...) Sua narrativa nos joga no universo noturno de São Paulo, ao redor de alguns marginais moídos pela vida, procurando um jeito de sobreviver por meio da trapaça, da esperteza, da brutalidade. (...) A sobrevivência depende de uma lei espúria do mais apto. (...) Usa sua cultura para diminuir as distâncias, irmanando a sua voz à dos marginais que povoam a noite cheia de angústia e transgressão. (...) A possibilidade de dar voz, de mostrar em pé de igualdade os indivíduos de todas as classes e grupos, permitindo aos excluídos exprimirem o teor da sua humanidade, que de outro modo não poderia ser verificada. (...) Desvendar o drama dos deserdados que fervilham no submundo; dos que vivem das lambujens da vida e ele traz com a força de sua arte, a consciência dos que estão do lado favorável, o lado dos que excluem. (...) A coragem de mostrar as entranhas da cidade, o jogo triste da vida. (...)”, Antonio Candido. - “A combinação perfeita do popular com o refinamento. (...) Sua gente é típica, mas nada caricatural. (...) se especializou em explorar o coeficiente de marginalidade das categorias humanas menos legitimadas. (...) Cotidianidade individual elevada a drama histórico. (...) Uma arqueologia dos significados da grande cidade. (...) Uma gramática de vagabundos, pilantras, malandros, piranhas e marginais; enfim, um levantamento da poesia do agreste humano. (...) Contista do ordinário, tudo para conduzir o leitor ao choque de ambientes, aos contrastes de visões do mundo. (...) Há um ataque à compostura, ao bom-tom e ao decoro burgueses. (...) Lugares em que normalmente as pessoas estão dispostas a se divertir: bares, cabarés, prostíbulos, casas de jogos. (...) Os centros e bairros mais sofisticados apresentam-se como zonas privilegiadas, reservadas para poucos, os outros que produzem a diferença e as hierarquias. (...) ter fixado em nossa literatura personagens inesquecíveis da marginalidade social, os despossuídos, os que vivem de expedientes e espertezas, os prestadores de serviços que não ingressaram no mercado construído sobre a cobiça do lucro. (...) João Antonio seria o Lima Barreto de São Paulo. (...) Trata-se do relato de um exílio. (...) procura na famosa cidade as personagens confinadas no submundo. (...) Adicionou à nossa literatura uma camada da população que ainda não tivera seu legítimo interprete. São tipos massificados e excluídos das expectativas de ascensão social, banidos do processo produtivo. (...) Aqui estão as pessoas que, sob o toque mágico do escritor, viram personagens, pois são fotografadas em seus momentos de esplendor. (...) É visto como um captador da essência do Rio e de seu povo, em golpes intuitivos de síntese, espontaneidade e irreverência. (...) Vai fundo na dramatização dos costumes brasileiros”, Fábio Lucas.
- “Redescoberta do povo brasileiro, povão das periferias e dos grotões, os esquecidos. (...) Os personagens de João Antonio não habitam o céu, nem o inferno, pois este estaria reservado aos carrascos e os hipócritas. (...) O inferno estaria reservado para os membros das classes dominantes e seus testas-de-ferro que fossem os verdadeiros responsáveis pelo rosário de misérias que seus contos destilam. (...) Peregrinação daqueles que não têm nas mãos o próprio destino. João Antonio não bate fotos. Pinta quadros apaixonadamente deformados. (...) Não escrevia para o público que descrevia, os remediados, mas, sim, para leitores basicamente de classe média, e de elite (a que lia tais coisas). (...) Um escritor da República das Bruzundangas e outras formas atuais de vida brasileira que estão aí, inéditas, esperando intérpretes e interessados. (...) Decidiu (descobriu) que vive no inferno, e é disso que nos conta, sem pudor, nem temor. (...) O outro lado que pagamos para não ver, ou para ver do palanque pelos distanciamentos estéticos. (...) Habitantes de sua noite deixam de ser excrecência e se tornem carne da mesma massa de que é feita a nossa. (...) Um escritor que tinha consciência da miséria em que vivíamos. (...) drama de sobrevivência neste mundo literalmente e simbolicamente sem eira nem beira. (...) recriar o mundo da marginalidade brasileira urbana. (...) Ele se torna um visitador de infernos, como Dante, e, como este, vem dar notícia ao leitor do que viu e sabe. (...) Expunha o nervo da desigualdade, seus personagens enfrentam situações-limite”, Flávio Aguiar.
- “A escrita profissional avessa ao diletantismo. (...) Um corpo-a-corpo com a vida brasileira. (...) Escolheu seu foco: circunstâncias da vida dos pobres, criaturas sem eira nem beira, suas misérias, seu abandono, mas principalmente sua linguagem, cultura e tradições. (...) Estátuas e placas por todos os lados, mas de ilustres desconhecidos de todos. (...) Denuncia as tensas relações de classe na sociedade brasileira. Não se trata aqui, portanto, de descrição como referência pacífica, representativa e neutra do mundo. (...) Pode tanto caber num conserto de teatro como num botequim. (...)Um artista dos tipos vivos e dos grandes miúdos flagrantes do dia-a-dia carioca. (...) O país oficial, esse é caricato e burlesco. (...) O Brasil não tem interesse concreto por suas próprias coisas, de onde se origina sua tendências ao engrandecimento e mitificação de personalidades. (...) Pagou alguns preços altos por essa escolha”, Vilma Arêas. - “Apesar dos grandes reveses que este povo brasileiro tem enfrentado, uma herança de seus ancestrais indígenas permanece inabalável: a força da alegria. (...) tem jogo de cintura para enfrentar as dificuldades do dia-a-dia. (...) Personagens não são heróis nem vilões, mas apenas impulsionadas pelas necessidades de sobrevivência. (...) Pequenas vidas, minúsculos mundos e grandes lutas, soberbas, heroicas e trágicas. (...) Para quem a fome é apenas matéria de ficção fica difícil aprender a tragicidade de um estômago quase sempre vazio. (...) É como se ele também estivesse entre os quebrados quebradinhos. (...) neste mundo de carências, de grandes derrotas e pequenas vitórias, o homem está debatendo, procurando sobreviver”, Wania Majadas.
- “As vozes dos eira-sem-beira e dos vidas-tortas com quem dividiu a literatura e em parte a própria existência. (...) Mania ambulatória e a convivência com os deserdados. (...) Tipos comuns que acabam afinal se misturando ao desgosto do ressentimento sempre pronto a estocar poderosos. (...) Parando nos bares até altas horas em conversa animada com viciados e gente sem rumo. (...) É impossível não reconhecer as marcas do repórter no cotidiano miserável dos subúrbios, entremeadas ao sarcasmo e à revolta inspirados na solidariedade dos despossuídos. (...) histórias dos heróis anônimos, tipos que ele recolhe das transformações da cidade devastada pela especulação do capital para situá-los no pólo extremo de um passado ideal que os alimenta enquanto artífices de sua própria inutilidade. (...) Por em evidência a sobrevivência difícil dos destituídos, esquadrinhados a fundo nas galerias da miséria. (...) Cotidiano sem brilho daquela vida de necessidades e de abandono. (...) Incursão estética pela melancolia da pobreza. (...) Articula a fala dos pobres e dos sem lugar e se articula ela mesma, no plano da forma, com os movimentos da condição precária. (...) Esse cotidiano incorpora na crônica a fala dos pobres e dos botequins, que está nos muquinfos e nos trens de segunda. (...) Escrever o mais próximo possível das aspirações e das mágoas do povo. (...) desconsidera os bens postos e o mundo em que circulam, o mundo – nos diz ele – dos que vivem longe de nós, nas altas esferas políticas, mundanas e nos enxergam para simular desprezo pela nossa pobreza e pela nossa fé na honestidade. (...) O solidarismo dos pobres de Lima Barreto reaparece em João Antonio com força redobrada. (...) Reiventa a própria linguagem dos excluídos. (...) desqualifica a ordem dos bem postos no melhor estilo de Lima Barreto”, Antonio Arnoni Prado.
sexta-feira, 15 de junho de 2018
CHARGES ESCOLHIDAS A DEDO (135)
COPA, CAMISA VERDE-AMARELO, SELEÇÃO E O TORCER
Eu sempre gostei demais de futebol, nunca escondi isso de ninguém. Sempre o fiz sem deslumbres de fanatismo. Não frequento os estádios de futebol do amador de Bauru (já o fiz em antanho, sendo torcedor do extinto ARCA), mas não perco jogo do EC Noroeste, o time de minha aldeia. Já viajei e viajarei outro tanto atrás do glorioso e centenário time do coração, pelo qual “sofro mais quando perde o Noroeste, do que o time grande pelo qual torço” (no meu caso, o Corinthians), para citar frase do radialista avaiense Jota Martins. Vou aos estádios não só atrás do Noroeste ou mesmo do Corinthians, mas onde ocorra algo que me atraia. Conheço desde o Maracanã, La Bombonera, Arena de Natal e do Atlético Paranaense, como os acanhados Rua Javari (que adoro de paixão) ou os charmosos estádios do Santacruzense ou do finado Oeste em Itápolis, ambos encrustados parede meia com bairros residenciais. O romantismo no futebol me atrai mais do que a paixão. Torço desbragadamente pelo Noroeste, mas não me abstenho e sem nenhum tipo de problema saio de Bauru numa manhã de domingo para presenciar um jogo do XV de Jaú no Zezinho Magalhães. Adoro estar no habitat do Alfredo de Castilho, a casa do Noroeste, lugar frequentado por mim desde moleque. Conheço cada canto daquele reduto. Ou seja, tudo para DECLARAR, o futebol é algo a me mover.
Imagina eu deixar de torcer pelo Noroeste pelo fato de discordar do procedimento de seus dirigentes. Se assim o fizesse não torceria por mais nada. Tento levar o amor pelo futebol de outra forma. Tive afinidade com poucas diretorias de times de futebol. Talvez a mais querida tenha sido a Democracia Corinthiana, época de Sócrates, Casagrande e Adilson Monteiro Alves. Todos sabemos que nos bastidores do futebol acontece de tudo e mais um pouco, desde lavagem de dinheiro, aproveitadores contumazes, rufiões, salafras e afins. Tudo isso junto de alguns realmente gostando e defendendo o time do coração. Dessa e com essa mistura o futebol sobrevive e continua sendo isso tudo que vemos pela aí. Já fui crítico até a medula de dirigentes do meu Norusca e nem por causa disso deixei de ir aos estádios. Não conseguia me manter distante. Botava a boca no trombone aqui e ali, mas lá estava. Sempre deixei claro o que penso e essa transparência me avalia para continuar torcendo, mesmo quando fizeram horrores com sua vida administrativa. Ele sobreviveu a tudo isso e hoje, vive a continuação de sua vida, da mesma forma como sempre o fez, sem tirar nem por. E daí me faço a pergunta: E se esses não existissem, o que seria do time? Responder a isso seria para laudas e laudas. Torço, crítico e vida que segue.
Passemos para o que se passa com a camisa canarinho nesses últimos tempos, quando foi utilizada nas ruas para sacramentar o cruel e insano golpe em curso no país. Abominável sua utilização, algo marcante e a estigmatizar o momento e o pessoal que dela fizeram uso indigno. Foi e é algo repugnante. Misturaram as duas bolas, a do futebol com a política. A camisa verde-amarelo foi indignamente utilizada e acabou marcada como a representar os golpistas. Ela sempre representou o país e se foi utilizada por eles, todos o sabemos, não os pertencem e precisa ser resgatada. Insensíveis que são, continuarão misturando alhos com bugalhos. Cabe aos sensatos mudar o rumo disso. Como? Difícil. A princípio aboli as cores de minha vestimenta, até por não querer ser confundido com nada do ocorrido. Escolhi a cor azul, a da segunda camisa da Seleção para torcer pelo Brasil na Copa, mas não aboli a verde-amarelo. Ninguém deve fazê-lo, mas também não farei papel de bocó de mola desfilando com ela. Outra coisa é o momento do futebol atual, o papel da maioria dos craques do momento e como vivenciam o momento vivido pelo país. O maior deles, Neymar é um exemplo que não quero seguir. Torcer pelo Brasil é uma coisa e ser contra os engomados da bola é outra. Mas, como já enfatizei no quesito Noroeste, o mesmo se passa em outras proporções com a Seleção e a Copa do Mundo. Claro que torcerei pelo Brasil, mesmo contrário a muita coisa que vejo acontecendo não conseguirei me manter distante do que sou impulsionado pelo meu interior. Junto do amor, a decepção toda pelas desventuras do país e meu amor pelo futebol, daí torcerei e verei os belos jogos, os belos times, o espetáculo em si, mas sem a empolgação de antes. Não conseguirei me manter distante. Jogos com a Argentina, Peru, Uruguai, Portugal, Islândia, Alemanha e outros eu assistirei.
Segue o jogo e ainda vendo como faremos para resgatar a camisa canarinho para uso no futebol e não para as desventuras e aventuras de ignóbeis pelas ruas brasileiras. Se o momento é voltado para o futebol, não existe maneira de se manter indiferente e afastado. Estaria mentindo se dissesse estar me lixando para a Copa. Não estou. Ontem gostei da Rússia ter ganho e bem na estreia e hoje, torci para o Uruguai contra o Egito, pois venero esse espírito guerreiro. E não deixei de me emocionar com o choro do craque egípcio Salah quando seu time tomou o gol no final da partida. Esse sentimento pelo seu país, uma ditadura cruel e insana, não o faz deixar de ali estar e fazer o que sabe com maestria. Já quanto ao espírito da Copa ou ânimo para torcer, esse vai de cada um. O meu está em baixa, a situação endureceu as relações e prefiro me ater a outros assuntos e preocupações, muito mais urgentes e necessárias. De futebol, por enquanto, é só.
OBS.: A charges do amigo Fernandão, publicadas no JC refletem o espírito do torcedor brasileiro.
quinta-feira, 14 de junho de 2018
DOCUMENTOS DO FUNDO DO BAÚ (117)
1.) A GREVE DA UNESP E O MENINO DE RUA QUE QUASE FOI IMPEDIDO DE COMER NUM SHOPPING
Com uma carta publicada hoje na Tribuna do Leitor, no Jornal da Cidade, os "Servidores Técnico-Administrativos em greve do câmpus Bauru da Unesp", com o título "Moção de Repúdio ao Cerceamento à Liberdade de Organização (Reve) Unesp", expõem algo de doer nos ossos, calar fundo e constatar por A + B, o golpe é mesmo de uma insanidade sem fim e seus desdobramentos já se estendem por todos os lugares, os possíveis, os imagináveise os inimagináveis. Estamos vivendo e vagando numa terra de ninguém, território onde uns loucos, os tais neoliberais que só pensam em si e nas leis de mercado, esses podem tudo contra todos os demais mortais. Leiam a íntegra da carta: https://www.jcnet.com.br/editorias_noticias.php….
O que está ocorrendo na greve na Unesp é o sinal de como se darão as relações trabalhistas daqui por diante. O patrão sabendo da greve, já anuncia antecipadamente tudo o que irá acontecer a quem se atrever a parar. Rua é pra começar a dialogar. A decisão é tomada lá no gabinete do governador, do reitor e passada de cima para baixo como ordem a ser cumprida. Não existiu nenhum diretor em nenhum nível da Unesp constestando ou que, deixou de cumprir o estabelecido pel ordem ditada pelo reitor. Todos abaixaram a cabeça e cumpriram, ou seja, repassaram para os seus o chicote e com a mesma intensidade recebida lá de cima. Ninguém nos desvãos abaixo, os diretores e com cargos comissionados colocam mais o seu na reta. Todos sabem de antemão que os dias da universidade estão contados e assim sendo, ninguém mais arrisca nada. Todos cumprem e os que conseguem, ainda sufurem de algumas benesses antes da luz ser totalmente apagada.
Saio da greve e vou para o caso lá do shopping baiano, onde um garoto de rua com a camisa do time de futebol, o Vitória consegue sorrateiramente entrar e diante de um balcão de comida sensibiliza alguém. Esse quer lhe pagar o prato de comida e é impedido pelo segurança. Esse segurança, para mim está no mesmo grau do diretor da instituição educacional, no caso a Unesp, só para não entrar em outros exemplos. Ele recebe ordem e a cumpre, pois tem um emprego e isso não é pouco hoje em dia. Se não cumprir como lhe mandaram, com certeza, vai ser penalizado e pode perder o ganha pão. Ele vai lá e faz o serviço sujo, barra o menino, assim como o diretor recebeu a ordem lá do reitor e a acata de cabeça baixa, repassando para frente com as mesmas palavras recebidas. Esse o jogo cruel do capitalismo, do neoliberalismo predatório, o que obriga as pessoas a se vergarem e fazer o serviço sujo sem ter como negar de fazê-lo. Negar, sabemos, tem como, basta o diretor dizer que não vai cumprir o que recebeu como ordem, pois é desrespeitoso com o trabalhador e com as leis ainda vigentes, mas não o faz. O mesmo se dá com o segurança lá do shopping, que recebe ordem de impedir meninos de rua de entrarem no shopping e "molestar" (sic) clientes. Ele pode deixar os meninos pedir, mas se o fizer vai se danar.
Perceberam a crueldade em jogo? Todos estamos encralacrados e num beco sem saída. O golpe é um sucesso, pois para garantir o ainda possível emprego, a repetição de situações como essa. Isoladamente poucos são os ainda em condições de reagir, mas coletivamente, uma única possibilidade. Sem organização nada ocorrerá e estaremos cada vez mais subservientes ao cruel e insano sistema. Encerro com mais uma da universidade ainda pública, a Unesp, acabando de receber uma norma interna onde o aluno que se considerar apto e tiver conhecimento suficiente, poderá abrir mão de cursar as disciplinas. Ele entra para cumprir um currículo, mas se achar conveniente não precisará mais cursar as matérias. Isso é a precarização na sua essência, no que tem de pior. No próximo capítulo vão pedir para o último na sala apagar a luz. O país caminha a passos largos para um dos momentos onde a tristeza vai tomar conta de todos nós, além do desespero, pois todos estaremos num mato sem cachorro. Ainda dá tempo de virar essa mesa, mas precisamos saber quem ainda de fato está disposto a arriscar a pele e ir pra luta. Quem mesmo?
2.) ALGO DA BURGUESIA BAURUENSE
Numa cidade interiorana de 65 mil habitantes, fronteira do progresso em direção ao Mato Grosso e mentalidade acanhada, a convocatória deve ter causado frisson. Ela, alta, bem criada e sem muito o que fazer, como acontecia com as senhoritas de classe média do tempo, levou toda a sua timidez para a passarela.
Dona Thereza, duas décadas depois, literalmente detonava aquela vida de pequena burguesia provinciana. "Os filhos homens de quem tinha posses iam estudar em São Paulo, os pobres se esfolavam de trabalhar aqui, e as filhas ficavam esperando marido. Besta de tudo".
O casamento com um paraense fascinante, falante e faroleiro, que envergava terno branco no clima saariano do interior paulista, a busca por uma profissão - tornou-se advogada aos 45 anos - e a necessidade de botar comida em casa quando o pequeno escritório de eletrodomésticos de meu pai foi a pique, no final dos anos 1960, mudaram paulatinamente sua vida. Sua vida e suas ideias.
O que a fez manter o prumo foi literalmente um certo otimismo da vontade, uma voracidade implacável de leitura e um inconformismo salutar. Ela me apresentou “Cem anos de solidão” e uma fieira de autores latino-americanos e franceses ainda no início de adolescência. Comprava materiais de desenho, mesmo sem um tostão em casa, para que eu desenvolvesse uma habilidade que também era sua. Ao mesmo tempo, botava pilha em meus irmãos.
O curioso é que o espírito juvenil lhe veio com a maturidade e a velhice. Vibrou quando descobriu ter nascido um dia antes de Che Guevara. Literalmente detonava alguns antepassados de mentalidade escravocrata. “Me dá ódio pensar naquela gente que falava barbaridades como ‘negro de servir’ e ‘negro de produção”. Ouvidas na infância, essas coisas nunca lhe saíram da cabeça. Herdara pose zero de uma linhagem pseudo aristocrata em decadência. “Parecemos os Buendia”, me dizia em tempos que cortavam a luz de casa, referindo-se aos personagens de Garcia-Márquez. “Eles usavam louças coloniais, pratarias de família e no prato nunca havia nada”. Exagero. Nunca passamos fome, mas a caricatura a divertia.
Meu pai morreu há quase trinta anos. Aposentada, decidiu viver sozinha em Bauru, o que dizia adorar. Tinha um irmão-parceiro – que se foi há pouco -, interlocutor constante. Com hábitos modestos, economizava para viajar. Um dia me avisa: “O que você quer de Nova York? Vou semana que vem”. Para uma interiorana de quase 70 anos, era um feito. Ia sem companhia, longe de excursões e não se apertava em inglês, italiano e espanhol.
Morreu como um plóc de bolha de sabão. Aconteceu no dia em que resolveu mudar de lugar os móveis de seu pequeno apartamento. Empurrar guarda-roupas e estantes, vindos do casarão onde passou a maior parte da vida, foram demais para um coração que nunca rateara. Foi-se aos 72, em 2000.
Sempre pensei comigo que ela adoraria ter circulado por seu velório. Veio gente de toda parte, sumida havia décadas, amigos, parentes, conhecidos, colegas de trabalho, num entra e sai sem pausas. Uma incrível sessão de reencontros.
Minha mãe faria 90 nesse 13 de junho. Não acredito em nada, em espíritos, em vida pós morte, em reino dos céus, destino, nosso senhor, espírito santo, nada disso. Morremos, acabou. Ficamos naqueles que nos querem bem.
Mas hoje me deu uma saudade...
Gilberto Maringoni ao produzir uma crônica nos 90 anos do nascimento de sua mãe, mostra junto algo da burguesia bauruense. Ir sacando as entrelinhas de seu escrito não tem preço. Histórias como essas são mais reveladoras que muitos livros sobre nossa terra e gente. Muita coisa existe para ser revelada, descrita, contada sobre o que de fato é essa Bauru em suas entranhas. Aproveitem para conhecer a mãe do Maringoni.
SERIAM NOVENTA, HOJE - Isso aí deve ser 1952-53. Ela está com 24 anos. Uma empresa de confecções do Rio planejou um desfile no Automóvel Clube de Bauru e chamou moças da cidade para exibirem os lançamentos da temporada.
SERIAM NOVENTA, HOJE - Isso aí deve ser 1952-53. Ela está com 24 anos. Uma empresa de confecções do Rio planejou um desfile no Automóvel Clube de Bauru e chamou moças da cidade para exibirem os lançamentos da temporada.
Numa cidade interiorana de 65 mil habitantes, fronteira do progresso em direção ao Mato Grosso e mentalidade acanhada, a convocatória deve ter causado frisson. Ela, alta, bem criada e sem muito o que fazer, como acontecia com as senhoritas de classe média do tempo, levou toda a sua timidez para a passarela.
Dona Thereza, duas décadas depois, literalmente detonava aquela vida de pequena burguesia provinciana. "Os filhos homens de quem tinha posses iam estudar em São Paulo, os pobres se esfolavam de trabalhar aqui, e as filhas ficavam esperando marido. Besta de tudo".
O casamento com um paraense fascinante, falante e faroleiro, que envergava terno branco no clima saariano do interior paulista, a busca por uma profissão - tornou-se advogada aos 45 anos - e a necessidade de botar comida em casa quando o pequeno escritório de eletrodomésticos de meu pai foi a pique, no final dos anos 1960, mudaram paulatinamente sua vida. Sua vida e suas ideias.
O que a fez manter o prumo foi literalmente um certo otimismo da vontade, uma voracidade implacável de leitura e um inconformismo salutar. Ela me apresentou “Cem anos de solidão” e uma fieira de autores latino-americanos e franceses ainda no início de adolescência. Comprava materiais de desenho, mesmo sem um tostão em casa, para que eu desenvolvesse uma habilidade que também era sua. Ao mesmo tempo, botava pilha em meus irmãos.
O curioso é que o espírito juvenil lhe veio com a maturidade e a velhice. Vibrou quando descobriu ter nascido um dia antes de Che Guevara. Literalmente detonava alguns antepassados de mentalidade escravocrata. “Me dá ódio pensar naquela gente que falava barbaridades como ‘negro de servir’ e ‘negro de produção”. Ouvidas na infância, essas coisas nunca lhe saíram da cabeça. Herdara pose zero de uma linhagem pseudo aristocrata em decadência. “Parecemos os Buendia”, me dizia em tempos que cortavam a luz de casa, referindo-se aos personagens de Garcia-Márquez. “Eles usavam louças coloniais, pratarias de família e no prato nunca havia nada”. Exagero. Nunca passamos fome, mas a caricatura a divertia.
Meu pai morreu há quase trinta anos. Aposentada, decidiu viver sozinha em Bauru, o que dizia adorar. Tinha um irmão-parceiro – que se foi há pouco -, interlocutor constante. Com hábitos modestos, economizava para viajar. Um dia me avisa: “O que você quer de Nova York? Vou semana que vem”. Para uma interiorana de quase 70 anos, era um feito. Ia sem companhia, longe de excursões e não se apertava em inglês, italiano e espanhol.
Morreu como um plóc de bolha de sabão. Aconteceu no dia em que resolveu mudar de lugar os móveis de seu pequeno apartamento. Empurrar guarda-roupas e estantes, vindos do casarão onde passou a maior parte da vida, foram demais para um coração que nunca rateara. Foi-se aos 72, em 2000.
Sempre pensei comigo que ela adoraria ter circulado por seu velório. Veio gente de toda parte, sumida havia décadas, amigos, parentes, conhecidos, colegas de trabalho, num entra e sai sem pausas. Uma incrível sessão de reencontros.
Minha mãe faria 90 nesse 13 de junho. Não acredito em nada, em espíritos, em vida pós morte, em reino dos céus, destino, nosso senhor, espírito santo, nada disso. Morremos, acabou. Ficamos naqueles que nos querem bem.
Mas hoje me deu uma saudade...
quarta-feira, 13 de junho de 2018
RELATOS PORTENHOS / LATINOS (52)
TRAIÇÃO E TRAIDORES
DANIEL ORTEGA: UMA HISTÓRIA DE TRAIÇÃO - POR ERIC NEPOMUCEMO, IN PÁGINA 12, EDIÇÃO DE HOJE
https://www.pagina12.com.ar/121147-una-historia-de-traicion
Confesso minha empolgação com a Revolução Sandinista. Todos o fomos. Foi realmente algo maravilhoso. Colocou por terra anos de uma ditadura cruel, sanguinária e corrupta. Os anos seguintes foram de intensa articulação. Ortega, como o artigo mostra, veio lá de baixo, comeu poeira e se consolidou como mandatário principal. Teve alguns mandatos presidenciais e no frigir dos ovos, tornou-se tão ou até pior do que aquilo pelo qual lutou décadas atrás. Michel Temer é também um traidor, mas sempre o foi, sempre agiu como o faz nesse momento. O PT ou qualquer outro que estivesse no Governo e aceitasse as regras do jogo da dita democracia brasileira, a tal da governabilidade, aceitam, aceitaram ou aceitarão o PMDB como parceiro. E assim o traidor foi elevado à condição de vice. Deu o golpe e traiu a todos em algo mais do que esperado vindo de quem sempre representou e foi. Já o Ortega, esteve do outro lado. Muitos também que lá estiveram, lutaram lutas justas e depois de consolidados, traíram os interesses populares. Aloysio NUnes um desses, só para ficar num mero exemplo de um que se bandeou para o lado dos malversadores e já tendo estado na luta. O caso de Ortega não é um desapontamento surgido agora, é antigo, ele vem traindo tudo e a todos, inclusive seu país faz tempo. Segue tentando se dizer de esquerda, levantando bandeiras que não são maias as suas, mas consegue convencer a uma ínfima minoria. Um traidor, na acepção da palavra, como Eric explica e detalha num primoroso texto e de uma forma muito mais convincente e clara que a minha. A revolução na Nicarágua precisa acontecer novamente e muito cuidado nessa hora para que a direitona, espreitando e pronta para assumir de vez não o faça e retroceda ainda mais. Triste constatar como algumas pessoas se transformam ao longo do tempo. Por outro lado, cito sempre Fidel Castroi, um que esteve por 50 anos à frente do Governo cubano e não mudou um centímetro em sua forma de pensar e agir. Esses os inquebrantáveis e necessários revolucionários tão em falta hoje.
DOIS DIAS DA COPA DO MUNDO - UM TEXTO POR DIA SOBRE FUTEBOL (06)
ALGUMAS NOTÍCIAS MERECEDORAS DE DESTAQUE:
1 – Moradores pintam rua com as cores da Argentina como forma de protesto: https://www.opovo.com.br/esportes/futebol/copadomundo/2018/06/moradores-pintam-rua-com-as-cores-da-argentina-como-forma-de-protesto.html
2 – Canarinho pistola é vetado nos jogos e treinos do Brasil: https://www.noticiasaominuto.com.br/esporte/600601/canarinho-pistola-e-vetado-dos-jogos-e-treinos-do-brasil-na-copa
3 – Desânimo com a Copa desespera a Globo: https://www.conversaafiada.com.br/brasil/desanimo-com-a-copa-desespera-a-globo
4 – A Copa em tempos de crise: https://www.terra.com.br/noticias/copa-em-tempos-de-crise,3a3698c94469b8a1eea913b07ddafa67i8h1xdpx.html
5 – Animado com a Copa ou Desanimado com o Brasil?: http://www.simonegalib.com.br/2018/06/animado-com-copa-ou-desanimado-com-o.html
6 – Com desânimo do torcedor, bares e restaurantes paranaenses buscam alternativas na Copa: https://cbncuritiba.com/com-desanimo-do-torcedor-bares-e-restaurantes-paranaenses-buscam-alternativas-na-copa/
UM ALGO MAIS PARA SENSIBILIZAR OS AINDA NÃO TOCADOS:
EU NÃO ME CANSO DE VER ISSO - CONSEGUIREMOS UM DIA SENSIBILIZAR OS QUE SÃO PAGOS PARA FAZER O SERVIÇO SUJO EM NOME DOS PIORES A NOS GOVERNAR?
EU SÓ VOTO NA PRÓXIMA ELEIÇÃO EM CANDIDATO QUE SE COMPROMETER A REVERTER A QUESTÃO DO PRÉ-SAL E FUTURAS PRIVATIZAÇÕES PETROBRÁS E AFINS. Eis o link de um sindicalista na frente do local onde estava sendo realizado o leilão Petrobras, quando a PM cercava o prédio e lá dentro, a atual diretoria vendia na bacia das almas alguns poços produtivos sem dar a mínima para o clamor da insensibilidade em entregar tudo a preço de banana para os cartéis: https://www.facebook.com/sindipetrorj/videos/2314007281974703/
terça-feira, 12 de junho de 2018
AMIGOS DO PEITO (147)
A EXPANSÃO DAS BARBEARIAS, O CORTE DO IMPERADOR E O GIL NA RUA JULIO PRESTES
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Imperador no seu reduto. |
“Enquanto a nova moda da cidade é a barbearia gourmet que vende cervejas artesanais, passa jogos de basquete, tem barbeiros fantasiados com boinas e suspensórios, preços exorbitantes e o escambau, Didico avisa no instagram que está se barbeando na Vila Cruzeiro com um barbeiro com navalha das antigas e camisa regata "vem cá, meu puto" em homenagem ao Dia dos Pais. O Imperador está sentado em cadeira de plástico, com a cabeça encostada no muro pra facitar a vida do barbeiro. A criança ao lado e o cachorro ao fundo ilustram a cena”, historiador carioca Luiz Antonio Simas. https://www.instagram.com/p/BjxJsyohm87/…
Gil e seu traje de trabalho no seu RITZ. |
Cultivo minha barba desde os 30 e poucos anos, quando sai do Bradesco. Lá tinha por obrigação aparar a barba todo dia. Ao sair do banco, nunca mais a fiz e já a envergo há quase 30 anos. Muitos dos meus amigos não me conheceram sem a penugem na cara. E venho fazendo barba, cabelo e bigode em salões variados nesse período. Hoje só faço com o Gilberto Caniatti, esse há mais de trinta anos com uma salão ali na rua Julio Prestes, entre as ruas Araújo Leite e Antonio Alves. Ele mora ao lado e juntou o útil ao agradável, com o salão num pequeno espaço ao lado da garagem da casa. Simples, mas com tudo no devido lugar. Ele, como a maioria dos do ramo é proseador, desses que para de fazer sua barba no meio, segurando a navalha no alto de sua cabeça, tudo para explicar melhor os detalhes do que conversamos. Nunca me representou perigo. Fidelidade canina, pois é desses que chego, sento e não preciso dizer mais nada, ele sabe tudo o que tem que ser feito. E faz, de um jeito que não posso reclamar. Algumas vezes esboço algo como: “Se não der um jeito do visual não lhe pago”. Ele faz a coisa a contento e por fim, quando me vê conferindo o resultado sai com um: “Dei o melhor de mim, mas milagre não faço”. Acabo pagando.
Ele, o Gil está anos luz na frente do cara lá que corta o cabelo do Imperador, pois tem um lugar com telhado para execução de seu trabalho. Mas fiz questão de postar a foto, pois dia desses estava lá nos altos do Jaraguá e numa esquina um cartaz indicando um quintal onde atuava outro no mesmo ofício. Espiei e lá vi uma cadeira simples, uma tolha para colocar no pescoço do cliente e os apetrechos todos espalhados num banquinho do lado. Tudo sobre a sombra de uma frondosa árvore. O serviço do profissional não pude auferir, pois estava de passagem, mas se está lá estabelecido e tentando com isso juntar o necessário para sua sobrevivência, deve ter algum preparo e faço votos que tenha sucesso e siga em frente. E são tantos hoje, sendo uma das profissões que mais se vê novos pontos abertos espalhados cidade afora. A crise obriga as pessoas a abrirem negócios próprios, pois emprego não existindo mais como antes, ou a pessoa se vira ou passa necessidade. Barbearia hoje é como mato na cidade.
HPa e sua barba, cabelo e bigode aos 57, golpeados. |
Tenho gosto e preferência pela simplicidade e o fazer bem feito. Tem salões espalhados pelos mais diferentes pontos da cidade e uns que ainda não tive e creio não terei coragem de visitar são os tais gourmets, onde o sujeito entra com um cheiro e sai com outro. Nada contra o refinamento na hora de aparar os pelos da cabeça, mas é que, com os recursos contados, prefiro continuar fazendo com quem tenho confiança e sei, cobra um justo preço, sem arroubos de grande monta. Vejo salões que são verdadeiras boates, com mesas de sinuca, bares ao lado, especiarias variadas para consumo e infinidade de salamaleques, tudo para atrair essa nova onde de barbudos espalhados pela aí. Isso mesmo, estamos diante de uma nova leva de barbudos, desses compridões, pelagem espessa e sentindo o feeling do mercado, alguns transformaram ou criaram o salão no estilo boutique da barba. Até passo um creminho na minha, mas como a mantenho baixa, sem grandes arroubos.
Tudo isso para confirmar: continuarei batendo cartão com o Gil, o baixinho que tem que subir num banquinho para cortar os fios mais desalinhados nos mais grandalhões, mas isso é o de menos. Não sou nada conservador, mas nesse quesito, tô feliz e como os pelos da cabeça rarearam, volto todo mês para aparar os da barba, bigode e uma ajeitadinha no que me resta de cabelos. Em dia de muito calor vou até sugerir pro Gil transferir os trabalhos para o quintal debaixo da goiabeira. A novidade por lá é um pequeno frigobar e se o gajo quiser, tem cervejinha numa temperatura aceitável. Ele também revende produtos variados, tudo para ampliar a renda. Não posso reclamar, expectativas mais que atendidas
TRÊS DIAS DA COPA DO MUNDO - UM TEXTO POR DIA SOBRE FUTEBOL (05)
Por esses dias tem gente escrevendo sobre a Copa do Mundo nos mais diferentes lugares. Hoje seleciono um texto que acabei de ler na edição do mês passado da revista Piauí, maio 2018, um passatempo interessante sobre "a utopia nacionalista-cosmopolita do Mundial em tempos extremos". É o artigo "A COPA É DELES", autoria do Alejandro Chacoff. Chegando o dia e o desestímulo continua... Eis o link: http://piaui.folha.uol.com.br/materia/copa-e-deles/
segunda-feira, 11 de junho de 2018
BEIRA DE ESTRADA (95)
“SABE COM QUEM ESTÁ FALANDO?”, PRIVILÉGIOS E BARRACOS DOS ACIMA DO BEM E DO MAL
Adoro escrever (e viver) mais ao lado de malandros, capadócios, conviver com esses, questão de identidade e camaradagem, do que com os da elite brasileira. Vez ou outra escrevo desses, mas só para expor as velhacarias. A perspectiva de escrever sob o ponto de vista da vida dos excluídos é fascinante, a dos ditos endinheirados é entristecedora, pois quase sempre vazios, ocos por dentro e por fora. Muitos comungam do mesmo ponto de vista. Um que sempre age da mesma forma é meu amigo, Silvio Selva, servidor municipal e homem dos bastidores do Teatro Municipal de Bauru. Um observador do seu tempo e com seus textos, curtos e cheios de ironia, picardia, mordaz como se deve ser, produz sacadas de grande valia. A última foi ontem, quando esteve por Bauru o ator Antonio Fagundes para uma peça teatral. Seu relato: “Ver atrasados do ENEM é para os fracos. O forte vê rico que pagou 120 paus o ingresso, ser barrado na porta do teatro, por atraso. (...) E perde a empresa. Perde eleição pra deputado. Perde pra prefeito e perde a compostura quando é barrado na entrada do teatro. A única coisa que ganhou, foi a herança”.
Pipocam comentários: “A equipe estava no horário, a produção estava no horário, o elenco estava no horário e 99,5℅ do público estava no horário, então todos esses envolvidos merecem nosso respeito e gratidão. Foi amplamente divulgado que horário é rigorosamente cumprido, então vamos respeitar principalmente ao público que chegou no horário e não merecia ser atrapalhado por alguém quem "sempre" quer chegar atrasado! Silvio obrigado pela força e ótimo atendimento, como sempre, você e o Flávio são ótimos!”, Wagner Ferreira, da produção da peça. “Isto que escrevi é um resumo. Me deu vontade de tirar umas fotos com flash. Mas, só filmei umas coisinhas engraçadas. Adoro ver burguesia com ódio... (...) O eterno candidato tucano, quis entrar depois do horário na peça do Antonio Fagundes, a esposa entrou, ele ficou batendo papo e o Fagundes começa exatamente no horário, ele pendura um relógio digital na porta tranca a porta e no mais, ele alugou o teatro e pode colocar regras que estão no contrato. O candidato quis dar carteirada, a esposa os gritos na porta. Ele perguntando para o pessoal se eram funcionários do teatro pois seriam punidos. Eram todos funcionários do Fagundes ou da produção. Ou seja, a esposa com ódio viu a peça, ele com ódio na porta, fingindo que telefonava pra direção da Globo. Cê acha que a Globo vai mandar Fagundes parar peça pro beleza entrar. E pra completar, uns lambe-botas querendo fazer buzinaço na frente do teatro, ao que ele mesmo prontamente recusou. Enfim, um monumento ao Matuto Paulista. E menos 500 votos potenciais pra ele. Multiplicado por 3 que é a média de propaganda boca-a-boca, perdeu uma pancada de votos e aliás, Fagundes explicou em cena que é desrespeito a platéia, ou seja, queimou filme grandão...”, Silvio Selva.
Não me interessa identificar o autor da bazófia, interessa a história, algo peculiar e a se repetir como farsa, demonstrando algo da elite brasileira. Brinco com Silvão e lhe digo num diálogo pelo facebook: “O cara vai pra Europa e não reclama de nada, quando chega atrasado se aquieta, aceita e até diz, aqui no Primeiro Mundo tudo funciona, mas quando acontece com ele e em sua aldeia, seu reduto (sic), diante dos seus súditos (sic) a primeira coisa que faz é querer dar uma carteirada. A elite brasileira sempre foi assim. Quando fomos tombar o prédio da Luzitana no centro de Bauru, a dona nos disse que ia regularmente pra Europa, lá era lindo ver os prédios tombados, preservados, mas aqui não, não fazia sentido e ainda mais o dela, inadmissível”. Agora escrevo mais um bocadinho. Aqui em Bauru e nos resto do país vigora uma espécie de lei, rico não anda de ônibus, metrô, trem, esses meios de locomoção exclusivos dos pobretões. Seria um avilte, pensam assim, fazê-lo e serem vistos. Enfim, o que iriam pensar deles, que estão em decadência? Já quando na Europa andam de trem que é uma maravilha, circulam por estações, tiram até fotos. Muitos até seguem de um lugar a outro de ônibus, sem problemas, enfim estão na Europa, lá isso é possível. São esses (ou a imensa maioria desses) os que estiveram na avenida Getúlio Vargas, travestidos de verde-amarelos e gritando contra Dilma, pedindo o impedimento de seu Governo, mas hoje quando tudo está imensamente pior que naquele período se calam. Pulhas, todos.
Impossível não fazer uma comparação simplista, como todos meus textos, com a expressão muito utilizada nesses momentos: “Sabem com quem está falando?”. Por aqui não é novidade, por exemplo, um juiz ser parado por alguma irregularidade no trânsito e mostrar a carteira, invertendo a situação, com ele, o infrator punindo quem lhe detectou o erro. Já tivemos histórias de “importantes” fazendo voo aéreo voltar para a pista após ter esquecido algo no solo. Pobres mortais cumprem horários, já os acima do bem e do mal, conseguem pela força contida em suas contas bancárias segurar o encerramento de alguns voos até que cheguem. Daí, meus escritos, que já privilegiaram alguns desses no passado, hoje não mais. Desconsidero os bem-postos e o mundo em que circulam, o mundo dos que “vivem longe de nós, nas altas esferas políticas, mundanas... e nos enxergam com similar desprezo pela nossa pobreza e pela nossa fé na honestidade” (Lima Barreto, in Coisas do Reino de Jambon).
QUATRO DIAS DA COPA DO MUNDO - UM TEXTO POR DIA SOBRE FUTEBOL
(04)
Hoje não venho aqui com um texto, mas com um Podcast, o LADO B,
uma gravação carioca com o historiador Luiz Antonio Simas sobre isso desse
desinteresse pela Copa do Mundo. Ele, que não abre mão de torcer e muito, diz
irá torcer sem neuras, daí o bate papo de pouco mais de uma hora é dessas
coisas gostosas de ouvir pelas ondas do rádio (quando iremos fazer algo igual
aqui em Bauru?). O link do Lado B com o Simas: http://www.central3.com.br/lado-b-do-rj-63-copa-com-luiz-antonio-simas/.
domingo, 10 de junho de 2018
BAURU POR AÍ (153)
ACONTECENDO O “ARRAIÁ AÉREO”, MAS A CARA DE BAURU SERIA MAIS PARA UM “ARRAIÁ FÉRREO”
Aqui perto de onde moro tem mais um arraiá, dentre tantos acontecendo por esses dias de junho aqui na aldeia bauruense. Quermesse tem para todos os gostos e santos. Não fui (ainda) em nenhuma delas, mas a daqui de perto, pela grandiosidade do que foi produzido merece mafuentas considerações. Trata-se do “Arraiá Aéreo”, no espaço do Aeroclube Bauru, ocorrendo no prolongamento da avenida Octávio Pinheiro Brisola. Estive na primeira e foi um sufoco para andar e querer usufruir a contento do lá proporcionado. Não dava nem para andar. Ontem, frio na cidade, todos com grana curta, vejo que, mesmo com todo o investimento feito, o retorno deve ter deixado a desejar. Das 19h até o final, o espaço estava com pouca gente. Hoje, domingo e com toda a divulgação feita pelo Jornal da Cidade e afins, o local deve ferver.
Gosto de aviões e sei ter Bauru boa relação com eles, principalmente com os planadores, onde alguns aqui da terrinha já galgaram troféus e láureas variadas. Quem não se lembra do Batata? O Aeroclube para mim possui algo de encantador na sua estrutura térrea, pois foi todo feito pela mão de obra ferroviária e nele ainda bem expostos os trilhos usados como estrutura para os galpões. Tudo na história dessa cidade lembra a ferrovia e ela, depois da privatização ocorrida no Governo do neoliberal FHC, além do esquecimento, a derrocada e decadência. Espertos empresários sacaram o filão de juntar a questão aérea e essa aura no imaginário do povão, com a preciosidade de ser daqui o dito astronauta brasileiro, Marcos Pontes, com o espaço desse aeroclube, grandiosa área, as edificações tombadas pelo patrimônio histórico e disso tudo nasceu o tal do Arraiá.
Na divulgação que é feita, massiva, o evento bomba. No local além dos quiosques de praxe, comerciantes variados, tanto do lado interno, como do externo, com trailers e os food-trucks, além dos camelôs com banquinhas improvisadas, todos tentando tirar leite de pedra nesses bicudos tempos. A Prefeitura Municipal de Bauru, por intermédio de sua Secretaria Municipal de Cultura entra com algo de grande vulto, bancando os shows e a instalação da estrutura desses, com palcos grandiosos. O valor investido é alto, bonito de ser visto, mas questionável. Nunca foi informado como se procede a discussão para esse investimento, pois até as pedras do reino mineral sabem que além do caráter beneficente, que fazem questão de difundir, existe uma empresa local administrando tudo e ganhando os tubos com o evento. Nada contra o evento, mas muito a ser questionado sobre o investimento público em algo onde existe o lucro de empresários. A Cultura Municipal tem contrato licitatório com empresa de palcos e dezena deles ocorre em datas previamente estabelecidas. Algumas datas fazem parte do Calendário de Eventos da cidade e algumas, como essa, possuem empresários por detrás. Os critérios precisam ser melhor esclarecidos.
Explico o motivo da cobrança. Dinheiro público não pode estar envolvido com empresários por detrás do pano ganhando grana. Isso é ponto pacífico. Se ocorre, um lamentável erro, passível de crítica e punição. E agora chego no ponto crucial envolvendo Bauru. Muitos fazem questão de negar, mas essa terrinha tem mais a cara do trem do que do avião e pouco, quase nada ocorre na louvação do modal trem por essas plagas. Na recém encerrada greve dos caminhoneiros algo sobre trens e Bauru no fato de aqui não ter faltado combustível, pois o mesmo ainda chega via férrea. Temos uma malha ainda sendo utilizada para carga e esse entroncamento grandioso, edificações férreas de grande porte, o fato de quase todas famílias possuírem extensos laços de pais e netos ferroviários, com a constatação de algo inquestionável, o progresso aqui ter ocorrido por causa dos trilhos. Devemos isso à ferrovia e nem uma mera festa anual em seu nome ocorre a contento. Da mesma forma que hoje vejo o envolvimento da mídia para o “Arraiá Aéreo”, já o vi, pelo menos em sua primeira edição para algo hoje ainda ocorrendo sem a pompa devida, o “Encontro Histórico Ferroviário e de Ferromodelismo de Bauru”. Muito já escrevi sobre o assunto no Mafuá e aqui o link para localizar alguns desses textos: http://mafuadohpa.blogspot.com/search…. Peço especial atenção para um, o da segunda página, feito após a ocorrência do 1º Encontro, publicado em 04/10/2008, “Um férreo encontro”. Naquela oportunidade até um jornal especial saiu bancado pelo Jornal da Cidade e a estação da NOB bombou. O evento foi perdendo o folêgo, o interesse e quando empresários vislumbraram algo mais além do evento, o aéreo ocupou todo o espaço.
Cabem os dois e mais outro tanto de eventos espalhados pelo ano, mas com grana pública, talvez pegasse melhor o envolvimento num férreo. Esse toque dado é para tentar possibilitar algo mais do que os questionamentos de praxe. A dívida de Bauru com a ferrovia não será quitada nunca, mas ao renegar engrandecer algo com a sua marca, numa promoção dessas de endoidecer gente sã, diante do que aqui exponho, no mínimo algo preocupante. Vejo poucos, muito poucos discutindo seriamente esse viés e dessa forma, ajudam consideravelmente a sepultar o sonho do retorno da ferrovia. E tudo poderia receber um incentivo grandioso vindo de uma cidade com tradição e história férrea. Enfim, um sonho cada vez mais distante.
CINCO DIAS DA COPA DO MUNDO - UM TEXTO POR DIA SOBRE FUTEBOL (03)
Eu sempre gostei muito de ler Marcelo Rubens Paiva e nesse momento vale muito a pena dar uma espiada e considerada no que ele diz sobre torcer para um time que se transformaou em massa de manobra de cruéis e insanos golpistas. Discutível, porém, mais do que compreensível.
https://www.diariodocentrodomundo.com.br/essencial/nao-da-para-vestir-a-camisa-da-selecao-que-virou-simbolo-de-uma-massa-de-manobra-comandada-por-golpistas-marcelo-paiva-para-epoca/
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