quarta-feira, 24 de maio de 2023

DIÁRIO DE CUBA (232)


ESCREVI ONTEM, HOJE ALGO NOVO
Deu no Entrelinhas do Jornal da!Cidade, edição ainda quentinha, lida agorinha mesmo 7h30 da manhã desta quarta-feira.

Como é possível? Diria que o dedo da nova secretária de Saúde está com problemas, avariado e não conseguindo dar uma dentro. Pelo que se percebe, os indicados por ela para assumir cargos na Saúde, todos escolhidos a dedo, nenhum de Bauru e necessariamente possuindo vinculação partidária com Gilberto Kassab, apresentam problemas estruturais. Por que? Como assim? 

Tem algo de muito estranho acontecendo no setor, perceptível, claramente observado e de nada adianta se fingir de morto.

O QUE ESTÁ DE FATO ACONTECENDO COM CUBA - SERÁ MESMO QUE O ATUAL PRESIDENTE CANEL PODE SER COMPARADO AO RUSSO GORBACHOV?
Recebo um texto com a opinião de considerado amigo, o Marcos Paulo Resende, Comunista em Ação sobre os destinos atuais da ilha que tanto amamos. Mas antes de compartilhar parte de seu texto, quando escreve sobre Cuba, comento algo meu. Hoje tive retorno ao médico, consulta agendada e ele, me sabendo ser de esquerda, na porta me recebe com a provocação: "E daí, como vai? Desta feita gostaria de ir pra onde, Cuba, Coréia do Norte ou Rússia?". Foi uma longa conversa antes de começar a consulta. Disse de minha incontrolada vontade de voltar pra Cuba, mas salientei que, a Rússia, diferente do que me disse, não está impedida de receber visitas e suas cidades, sem nenhum problema para com o turismo. Problema mesmo existe na Ucrânia. E reafirmei que, diferente do que pensa, a Rússia deixou de ser comunista faz tempo, Putin é mesmo um perverso carrasco, mas o outro lado de santo não tem nada. Zelenski é até pior e pelo que se comprova hoje, não quer o final da guerra, pois lucra muito com ela. E pelo visto nada sabe de Cuba. Esse médico continua muito bolsonarista, mesmo diante de tudo o que já se sabe sobre o tal do "mito". Ficamos por aí e abaixo publico o que Marcos me passa para o debate, sobre a situação atual em Cuba:

"A ilha tão romantizada hoje pela esquerda, não existe mais, somente nos sonhos de quem ainda não despertou para a realidade. O presidente Miguel Diaz Canel é o Gorbachov cubano a colocar a pá de cal na revolução que um dia alimentou os sonhos de uma América Latina livre. Cuba com a economia dolarizada, reformas que restauraram por completo o capitalismo na ilha e que aprofunda uma desigualdade em seu povo. Enquanto o governo diminui o subsídio alimentar da "boleta" cubana, redes de supermercado podem hoje ser vistas nos grandes centros da ilha com preços em dólar, extremamente caros cuja uma pequena classe média surgida no país com os dólares recebidos por familiares que vivem no exterior, conseguem comprar livremente alimentos nesses supermercados. E que recentemente provocou uma onda de revoltas no país que rapidamente foram reprimidas pela polícia e exército, ver as cenas de populares apanhando da polícia num país que deveria ser operário, não dá mais para alimentar ilusões, narrativas e passar o pano, até greves estão proibidas no país, vejam só que ironia.

Chega, não dá mais para continuar nesse ciclo de derrotas promovidas pela própria esquerda que passa a ser EXquerda, essa galera está totalmente adaptada ao neoliberalismo, uma violenta intoxicação ideológica que irá decretar de vez a nossa derrota histórica. Mas eu, há algum tempo posso dizer que alcancei minha consciência de classe, minha revolução do ser, sem amarras e livre para pensar e ser o que realmente sempre fui na essência... hoje posso finalmente dizer que sou MARXISTA, sou COMUNISTA... e muito a agradecer aos meus eternos camaradas que carregarei sempre nas revoluções do meu coração: Roque Ferreira e Almir Ribeiro, presentes!!".

O texto foi recortado e só reverbero o tema Cuba. Daí, lhe pergunto: "Sim, o Canel me parece o Gorbachov. Cuba, ainda dá tempo de salvá-la?". Sua resposta: "Cuba assim como qualquer outro país precisa de uma revolução, uma ruptura com o já esgotado capitalismo... no caso de Cuba, uma nova revolução, porque a anterior já naufragou com a restauração capitalista". Sei que, parte dessa angústia hoje dentro do meu peito, esse desalento, este continuado desânimo é por ver naufragar o ideal de vida proposto em alguns lugares do mundo, hoje sendo reduzidos a pó. O que não me impede de querer voltar pra Cuba, talvez no próximo ano, me juntando a grupo sendo constituído aqui nas redes sociais. Quero ir ver in loco, pessoalmente, conversar com o povo cubano. Será um dos próximos objetivos e gostaria de fazê-lo o mais rápido possível, pelo menos enquanto Cuba ainda resiste. E continuo eternamente apaixonado por Cuba, a que Fidel mostrou ser possível, pois para mim o sonho só se findará quando me for. Enquanto existir como ser vivo sonharei e Cuba faz parte de meus diários sonhos, a de que outro mundo é mais do que possível.

JONAS PEDE SOCORRO...
Saia do Bauru Shopping ontem no comecinho da noite quando me chamam, já perto de entrar no carro. Paro e lá está um velho conhecido, JONAS PINTO CRUZ, que conheci quando de carnavais passados, ele saindo pela Cartola. Depois, sempre atuando pela aí como guardador de veículos. Sempre teve uma vida difícil, conturbada e cheia de percalços, mas conseguia ir administrando tudo a contento e levando o barco adiante. Veio a pandemia, ele não teve mais como trabalhar, seu filho, hoje com 23 anos se desestruturou e hoje, segundo me diz, está com sérios problemas piscológicos.

Na abordagem pede ajuda, na verdade clama para alguém lhe dar uma luz. Morador do Ferradura Mirim, muito conhecido por lá, desde o falecimento da esposa, mora ele e dois filhos, num local onde tudo provem dele e de sua labuta. Não está mais aguentando e pede socorro. Conta toda sua história e a de seu filho, com tentativas desesperradas de interná-lo, sem conseguir nada até a presente data. Diz ter recorrido para todos os lugares e pessoas que lhe indicam das conversas pela rua. Seu desespero ao me ver, foi que anos atrás, ao vê-lo atuando como guardador de carros nas imediações da Catedral, centro da cidade, escrevi dele e, também segundo ele, muitos vieram lhe procurar. Agora, diz estar mais necessitado que naquela época e não tem mais a quem recorrer.

Conta sua história e chora diante de mim, ambos em pé diante de meu carro. Como é possível alguém estar diante de uma pessoa em total desespero e nada fazer, virar de costas e ir-se sem ao menos ouvir, tentar algo. Não consigo. Digo a ele que, não conheço os caminhos certos e rápidos para conseguir algo, mas tentaria algo. Pede para tirar uma foto dele, contar de sua aflição e assim, ver se, como se tivesse jogado uma garrafa no oceano, alguém do lado de lá a encontrando pudesse lhe estender a mão.

A história de Jonas não é única, pois igual a ele são muitos, milhares, diria mesmo, milhões. Vou visitá-lo nesta semana, mas antes vejo por aqui, como seria possível, contatar alguma instituição para ir visitá-lo e constatando a veracidade de sua história, algo ser feito. Não é resolvendo a questão para uma pessoa que iremos resolver os problemas do mundo, mas diante de alguém nas condições do batalhador Jonas, todo dia depois das 17h e até uma 22h30 lá defronte o shopping, cavando o seu sustento e dos seus, pelo menos algo para alguém com muita necessidade.

MELHOR POSICIONAMENTO EM RELAÇÃO A GUERRA RUSSIA/UCRÂNIA

terça-feira, 23 de maio de 2023

OS QUE FAZEM FALTA e OS QUE SOBRARAM (175)


O JEITO SUÉLLEN DE GOVERNAR E SEMPRE NO LIMITE DO ROMPIMENTO COM A CÂMARA DOS VEREADORES - NINGUÉM AINDA SABE O QUE ESTÁ EM CURSO NA SAÚDE MUNICIPAL
Tem muitos vereadores mais do que bravos com a nossa não tão digníssima alcaide Suéllen Rosim. Sexta tivemos uma Audiência Pública na Câmara para discutir, entre outros assuntos, algo da claudicante atuação pública de sua administração no quesito Saúde, mas precisamente nas UPAs e afins. Além de muitos vereadores presentes, a convocação, sempre em forma de convite para a novíssima Secretária de Saúde, a rioclarense Giulia Cunha Puttomatti. Ela declinou de comparecer e avisou bem em cima da hora, mais ou menos com a justificativa de estarem ocorrendo repetidas audiências e ela tinha mais o que fazer. Isso emputeceu os vereadores, já considerando o fato como uma atitude desrespeitosa para com a Câmara. Alguns subiram nas tamancas e estão já, além das falas acima do tom, remarcando algo mais contudente e novamente a convidando.

Na verdade, as relações entre a Câmara de Vereadores e a Prefeitura Municipal nunca foram amistosas, muito longe de serem consideradas boas ou normais, mesmo muitos dos seus pares mantendo uma relação umbilical de subserviência para com a alcaide. Alguns já, muitos bem próximos, foram exonerados de algo de confiança da prefeita, mas assim mesmo não a abandonaram. Certo que muitos contam com favores da prefeita para atender reivindicações de seu eleitorado, daí perderam cargos, mas não a abandonam, pois desta forma não mais teriam como atender no varejo os pedidos dos eleitores. Assim sendo, as relações nunca foram normais, mas nunca deixaram de existir. Este não comparecimento da novíssima secretária faz parte do jeito da prefeita governar, sempre virando as costas para tudo o mais e impondo as suas condições.

Creio que, Suéllen testa os limites do rompimento a todo instante e , agora com Giulia, que ainda não disse a que veio, bola planos mirabolantes para a Saúde, mas nada ainda vislumbrado pela necessitada Bauru. Por enquanto, o que se observa é um loteamento de cargos só com gente de fora e todos, indistintamente, gente ligada ao novo gerente dos pensamentos da prefeita, Gilberto Kassab. Veremos onde isso tudo vai dar, mas na boca pequena, já se diz estar sendo colocado em prática lá pelos lados do Palácio das Cerejeiras uma veradadeira República de Imigrantes, todos ladeando Suéllen por todos os lados. E, como os vereadores já perceberam, ela não é muito dada a ficar dando explicações de seus atos. Clima tenso.

A ESTAÇÃO PRIMEIRO DE AGOSTO VAI PRA AVENIDA EM 2024 COM ALGO DOS PRIMÓRDIOS DE BAURU - RELÓGIOS ADIANTADOS
Parabéns ao Tobias Terceiro e sua equipe, muito contente com a escolha do enredo para o ano que vem. Vem coisa boa por aí...

"Ao embarcar nesta Estação, tomamos um trem de emoções, rumo ao início do ano de 1896, em que Bauru era apenas um distrito que integrava o município de Espírito Santo da Fortaleza. No entanto, após a eleição dos membros da Câmara daquela localidade, a maioria dos vereadores resolveu apresentar um projeto que alterava a sede do município para Bauru.

O detalhe curioso é que, para evitar a revolta da população de Fortaleza, nossos conterrâneos parlamentares adiantaram seus relógios em uma hora e chegaram para a sessão de posse antes de todos os demais. Assim, eles aprovaram a medida polêmica e levaram todos os móveis do Legislativo para a Vila de Bauru.

Alguns meses depois, no dia 1˚ de agosto, o governador do estado de São Paulo promulgou uma lei referendando a alteração do município. Com isso, Bauru ganhou destaque na região centro-oeste paulista e Espírito Santo da Fortaleza desapareceu do mapa.

E assim, entre marchas para o oeste, guerras com os povos nativos, ambição e muita malandragem, surgiu a nossa a nossa imponente “Cidade sem limites”.

É com muita satisfação que a Estação Primeiro de Agosto lhes apresenta seu próximo enredo - "Relógios adiantados: nos tempos do sertão do Bahurú"", Estação Primeiro de Agosto.

A BIBLIOTECA DE RAYMUNDO FAORO*
* "Um texto onde HPA se encontra com Raymundo Faoro", recebo do amigo Jeferson Barbosa da Silva, o Garoeiro, Natal RN. Agradeço a ele: "Lindo e obrigado pela comparação. Faoro mora no meu coração, tenho os dois volumes dos Donos do Poder, além de ter comprado mais dois e presenteado meu filho. A minha biblioteca, que amo tanto, é muito mais modesta e hoje, com o Mafuá em petição de miséria, será em breve transferida para outro local. Relato em breve nos escritos. Baita abracito do HPA". Ele finaliza com um algo mais: "Pois é ... Agora ficamos sabendo que ele também lia de tudo, sempre destacando detalhes com marcador de texto , tal como esse Mafuento mor ... Bom domingo, Garoeiro".
Por Paulo Augusto Franco de Alcântara - Matinal, PoA RS, 20 de maio de 2023.

Primeiro o link e abaixo o texto original: https://www.matinaljornalismo.com.br/.../a-biblioteca-de.../
Podemos conhecer a trajetória de uma pessoa por meio dos livros que ela leu? Por meio da formação de uma biblioteca particular? O escritor argentino Alberto Manguel disse certa vez que “o livro é muitas coisas”. Ele é, claro, aquilo que se apresenta mais diretamente aos olhos: o título, a autoria, a arte da capa, as formas tipográficas, o número de páginas, a lombada, a data de publicação, o preço de venda, a tradução, o gênero e a editora. Mas um livro é, conforme Manguel, uma representação sobre muitas outras representações. Ele sempre é mais do aquilo que vemos. Um livro pode representar um aprendizado, um objeto da autoridade intelectual, uma viagem, um sonho, uma fonte de inspirações, um recurso para a emancipação, uma ameaça ao poder autoritário, uma peça da memória, um espelho, uma janela, uma companhia contra a solidão, e por aí vai.

E quando esses livros pertenceram a um escritor de livros? Quando o leitor é um famoso intelectual e intérprete da sociedade brasileira? Estamos falando da biblioteca de Raymundo Faoro (1925-2003), jurista, historiador, sociólogo, crítico literário, ativista da opinião pública nacional. Faoro é o autor do influente “Os Donos do Poder” (1958), obra na qual ele aborda, desde o Estado português e o período colonial brasileiro, a persistência do Estado patrimonial que serve aos estamentos e deles se serve.

As ideias de Faoro contribuíram para o avanço do pensamento democrático e da ordem constitucionalista brasileira, em especial a partir do final da década 1970, quando assumiu a presidência nacional da Ordem dos Advogados do Brasil, em pleno processo de redemocratização. Neste ano, em 15 de maio, completaram-se 20 anos de seu falecimento.
No caso de Raymundo Faoro, os livros ganham outros significados possíveis. Dou exemplo. O que diferencia um exemplar de Guerra e paz, de Leon Tolstói, de um exemplar do mesmo livro só que adquirido e lido por Faoro na década de 1940, quando ainda jovem estudante de Direito em Porto Alegre? Na minha opinião, muda muito. Trata-se, agora, de um livro repleto de “práticas de leitura”, na expressão desenvolvida pelo historiador francês Roger Chartier. O exemplar torna-se singular nas marcas que abriga: sentimentos, desejos, inseguranças e experiências podem habitar a leitura.

Esse livro está na biblioteca de Raymundo Faoro, hoje, sob a guarda da Procuradoria Geral do Estado do Rio de Janeiro, onde ele atuou como procurador a partir de 1963. São títulos de diversos tempos, gêneros e idiomas, reunidos desde a sua juventude em Porto Alegre até o início dos anos 2000, no Rio de Janeiro. Dentre 9.280 livros, encontramos romances, ensaios, estudos e relatórios adquiridos em livrarias e em sebos, no Brasil e no exterior. Lá podemos ler, entre outros: Eça de Queiroz, Graciliano Ramos, Jorge Amado, Maquiavel, Karl Marx, Max Weber, Ruth Benedict, Joaquim Nabuco, Franz Boas, Max Scheller, Ruy Barbosa, André Gide e Ruy Barbosa.

No dia 15 maio, completados 20 anos do falecimento de Faoro, abre a exposição, no Centro Cultural da PGE/RJ (Convento do Carmo, Rio de Janeiro), Raymundo Faoro. Os anos e os livros de formação”. Nela, convido a um olhar mais de perto sobre a biblioteca do intérprete. Assim, a veremos como um arquivo construído em detalhes. Nele encontramos muitas práticas que selecionam, organizam, excluem e ordenam narrativamente os livros e seus autores. Podemos pensar nas bibliotecas como processos de “auto-arquivamento”, conforme Philippe Artières.

Diante das séries e fileiras de lombadas, muito provavelmente esteja um pensador construindo as ideias e até mesmo esculpindo a sua (auto)imagem por meio dos livros que lê. Foi Lilia Schwarcz quem certa vez me disse que não existe arquivo íntimo de uma pessoa que pretende se tornar pública. No caso de Faoro estamos diante de um “advogado-intelectual”, como ele mesmo se referiu ao discursar sobre a sua geração em 1986. A biblioteca de Faoro resulta de um extenso trabalho não somente de coleta e guarda, mas de construção de si mesmo.

Prova maior está ao abrir os livros. Lá acessamos as marcas de um leitor assíduo e organizado. Pelo menos nas séries mais antigas, em 1940, Faoro registrou a sua assinatura nas primeiras páginas. Ao longo das páginas, ele destaca trechos e até escreve observações nas laterais do texto. É como se ele travasse uma discussão direta com os autores dos livros, imergindo nos contextos sociais narrados, borrando os limites entre o que lê nos livros e o que vive em Porto Alegre. É como se Aluísio Azevedo estivesse anotando os acontecimentos sociológicos da cidade. O Rubião, de Machado de Assis, parece lá habitar, chegando, assim como Faoro, do interior provinciano para a capital. Lá o que prevalece, segundo o jovem estudante, é o interesse burguês pelo dinheiro em detrimento da “vida do espírito”.

Enquanto a cidade se verticaliza no centro com os “arranha-céus” modernos notados antes pelos escritores locais Mário Quintana, Érico Veríssimo, Reynaldo Moura e Dyonelio Machado, bolsões de miséria são formados nas periferias da capital, concentrando e enfatizando as desigualdades de classe e raça. Faoro passa a maior parte dos dias lendo em um dos quartos do Hotel Palácio, na esquina da rua Vigário José Inácio com a Riachuelo, no centro da cidade. Enquanto lê, ele provavelmente ouve os sons da rua. Por lá passam transeuntes em direção ao Teatro Carlos Gomes para lá assistir peças de humor popular. Na mesma rua fica o sindicato dos trabalhadores do setor naval. A cidade vai se industrializando.

Nos jornais e revistas locais, o noticiário sobre a Segunda Guerra Mundial divide espaço com astros e estrelas do cinema de Hollywood. Nos últimos anos da ditadura do Estado Novo, em algumas colunas laterais aos textos principais, lê-se sobre o aumento dos custos de vida, o pauperismo, o banditismo urbano e o analfabetismo. Naquele Brasil, a metade da população com idade acima dos 15 anos foi classificada como analfabeta.

Um livro é, ao mesmo tempo, o que está dentro e o que está fora; o visível e o não visível. Didi-Huberman talvez diria se tratar de um “não-saber”, o que, portanto, pede uma “exegese” profunda em seus labirintos. Com as práticas de leitura, Faoro constrói o mundo que deverá ler. Conhecemos um Machado meio gaúcho e um Tobias Barreto lendo Karl Mannheim. Porto Alegre, Recife, Paris, Berlim, Moscou. A leitura desmancha fronteiras e constrói parentescos eventuais e até improváveis. É assim que o Tolstói de Faoro poderá descrever, na companhia de Gilberto Freyre, o declínio das aristocracias rurais e a ascensão da burguesia urbana (em Porto Alegre). Machado de Assis foi professor de Max Weber.

Nessa leitura sempre inventiva que nos convida a fabular, temos, na biblioteca de Faoro, um arquivo individual e coletivo. Como todo arquivo, ela está repleta de presenças e ausências. Nela se inscrevem as relações de poder presentes na formação e circulação − sempre desigual − de conhecimentos no sul-global. Os livros são documentos da história, ao mesmo tempo individuais e coletivos: ajudam a recompor a trajetória do intelectual, mas também são peças vitais que nos dão a conhecer algumas características culturais da sociedade.
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Este texto é fruto de minha pesquisa em estágio pós-doutoral realizado no Departamento de Antropologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH/USP), sob a supervisão da prof. Lilia Moritz Schwarcz e com financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Nessa pesquisa, trabalho os diários escritos por Raymundo Faoro entre 1943 e 1952, um corpo documental de conteúdo totalmente inédito gentilmente cedido pela família de Faoro na pessoa de seu filho André Faoro, a quem sempre agradeço.

segunda-feira, 22 de maio de 2023

FRASES (233)


A GRANDE NOTÍCIA, NÃO DA MANHÃ DE SEGUNDA, MAS DA SEMANA - A JOVEM PAN BAURU POR UM FIO:
"Risco de Prisões - Cúpula da Jovem Pan-SP ordenou que Jornal da Manhã de Bauru parasse com os ataques contar as Instituições porque corriam risco de prisões.
Nota da Redação: A reunião da cúpula da Jovem Pan São Paulo que advertiu para o risco de prisões foi confirmada pelo próprio jornalista Alexandre Pitólli (que participou da reunião) na semana passada no Jornal da Manhã. Aliás, nesta semana o jornalista não estará apresentando o Jornal da Manhã da Jovem Pan Bauru"
, Pedro Valentim em suas redes sociais na manhã desta segunda, 22/05/2023.

Ufa!, diriam todos a acompanhar o desenrolar deste intrincado momento da rádio bauruense. "Antes tarde do que nunca", propaga alguém a me ligar logo pela manhã, sem querer se identificar. De tudo o que foi comentado neste final de semana em Bauru, até sobre possibilidades da rádio bauruense - lembrem-se, ela ainda é Jovem Auri Verde, propriedade da família Daré - sair do ar. Como nada ainda está definido, a apreensão toma conta das atitudes e nos próximos dias muitas novidades pipocando pela aí. Muitos cruzam os dedos, outros acendem velas, em sua maioria contrários à ação desta rádio, pois essa contraria todos os preceitos e requisitos da prática do bom e saudável jornalismo.

Ainda compartilhando escritos de Pedro Valentim no final de semana, algo mais de informações quentes sobre o tema, ““Jovem Pan” proíbe profissionais de chamar Lula de “ladrão” Emissora decidiu se antecipar a uma eventual determinação da Justiça Eleitoral; comunicado fala em troca de comentaristas que não concordem com decisão...”, leia mais no texto original:: https://www.poder360.com.br/.../jovem-pan-proibe.../....

Isso, por si só já é bombástico, porém, Pedro publicou mais: “EXCLUSIVO - Jornal da Manhã da Jovem Pan Bauru na mira da Procuradoria Geral da República e do ministro Alexandre Moraes”. Num outro texto: “Nas mãos do Procurador Geral da República , o Augusto Aras, já se encontra com parecer da Sub-Procuradoria da República a Representação do Jornalista Elias Brandão contra os apresentadores do Jornal da Manhã de Bauru Alexandre Pitólli , Claudio Coffano , Olavo Pelegrina e Eduardo Borgo que também é vereador na cidade de Bauru. A Representação foi encaminhada pelo Procurador da República de Bauru , Fabio Bianconcini de Freitas, que no Despacho para o Procurador Geral Augusto Aras citou; " encaminho-lhe em anexo cópia de Manifestação 20220103220/2023 para providências que V.Exª entender cabíveis na esfera criminal , considerando o que consta no Despacho 55/2023-PRM-BAU-SP-00000261/2023 , cópia anexa". E em manifestação , o ministro Alexandre de Moraes citou que a entrevista da senadora Mara Gabrilli no Jornal da Manhã da Jovem Pan Bauru foi eivada de desinformações e fake news e que o entrevistador(Alexandre Pitólli) atacou o Poder Judiciário. Portanto nas próximas semanas saberemos o desenrolar desta Representação para posterior decisão do Augusto Aras que poderá encaminhar para o Inquérito das Fake News no STF relatado pelo Ministro Alexandre de Moraes”.

Em complemento a essa informação, Montinegro Monte, que acompanha diariamente o que a JP Bauru faz - não sei como consegue continuar ouvindo as asneiras dali propagadas - , até para denunciá-la, responde para Pedro: “Pedro, veja o vídeo está entrevista foi no dia 17/05 Pitoli entrevista o deputado Izac que é presidente do PL de Ribeirão Preto no vídeo a prova de crimes onde os dois afirmam que financiar os atos de 08 de janeiro não pode ser considerado crime. Se isto chegar até o ministro da justiça ou no Alexandre de Moraes, PITOLLI e seus comentaristas Cofani, Olavo Pelegrino e Eduardo Borgo vão ter problema com a justiça, por INCITAÇÃO e financiamento de atos terroristas”.

Eu recebi áudios de Rosana Polli, no seu programa na JP no período da tarde, mais outras de Alexandre Pitolli e Olavo Pellegrina Jr, no mesmo dia na parte da manhã, mas me recuso a divulgar o que falam - posto um deles para sentirem o graú do que divulgam hoje -, pois fere qualquer tipo de jornalismo sério. Não postarei mais fala dessas pessoas, hoje mais do que investigadas, pois a JP Bauru fez muito antes do golpe e hoje, continuam a reproduzir fake News, um atrás do outro. No último dia 17/05, o presidente do PL de Ribeirão Preto, um tal de Isac, diz com todas as cores, que financiar ônibus pra dia do ato não foi crime. Na Jovem Pan Bauru, entrevista com esse personagem entristecedor do momento político brasileiro, quando nossa cidade, infelizmente, tem participação ativa no quesito desinformação. A JP Bauru é hoje baluarte do que de pior existe dentro do jornalismo brasileiro, pois está atrelada, segundo palavras do próprio ministro Alexandre de Mores, do STF, como “veículo especializado em divulgar informações de ódio, sendo um braço de partido político”.

Neste começo de semana, alvissareiro tomar conhecimento que Pitolli estará longe dos microfones da rádio por um período ainda não definido, transparecendo que algo já ocorre no prolongamento das investigações sobre os rumos da filial Bauru da JP, depois os desdobramentos no STF de algo podendo até se transformar em algo mais do que simples afastamento. A JP passou de todos os limites do bom senso jornalístico e sua punição, segundo se percebe, mera questão de tempo. Muito pouco tempo. Toc toc toc.

EXISTE A CONVENÇÃO DA JOVEM PAN OU TUDO É INVENÇÃO DO PITOLLI?
O fato é o seguinte: Alexandre Pitolli está fora do ar na rádio Jovem Pan Bauru por uma semana. Isto foi dito hoje pela manhã no ar, pelo seu substituto imediato, o anspeçada Leonardo de Souza no programa Jornal da Manhã. Depois de ser encostado na parede pelo STF, mais precisamente pela investigação do juiz Alexandre de Moraes, que segue nos calcanhares das irregularidades da rádio Jovem Pan, a nacional e também a local, Bauru SP, estávamos aguardando alguma providência vinda de Brasília para impedir o continuismo das barbaridades ditas no ar. Ela veio em drops, aos poucos, primeiro a direção nacional da própria rádio decretou novos procedimentos, ou seja, tenta controlar os abomináveis, os que insistem em remar contra a legislação existente. E agora, chegamos na segunda-feira, quando o tal do Pitolli comanda a programação da rádio pela manhã e não entra no ar. O que teria acontecido? Seu substituto comunica, com muita brilhantina no cabelo: "Lembramos que nessa semana Alexandre Pitolli não estará presente por conta de uma convenção da rádio Jovem Pan, da qual ele participa e deve voltar na próxima semana para comandar aqui o Jornal da Manhã e também o Ligado na Cidade. Enquanto isso, peço a sua paciência. Estarei aqui junto de...".


Procuro desde o pronunciamento feito pela manhã por essa tal de CONVENÇÃO DA RÁDIO JOVEM PAN e nada encontro no Google ou em informações pelas redes sociais. Nada, nem um linha sequer sobre este evento. Será secreto? Ou pior, estará mesmo ocorrendo uma Convenção ou Pitolli está fora do ar por outros motivos? Ainda não deu para saber, nem para apurar. Fato é que, após tudo o que essa rádio já fez de deslizes e algo muito fora do tom da normalidade, creio deva estar, em primeiro lugar com as barbas de molho e depois, talvez até num GANCHO, este imposto pelos donos do negócio com a marca JP.

Peço ajuda neste momento para tudo, todas e todos, para desembaraçarmos este novelo. Quem souber de algo, ou sobre essa Convenção, não constando em nenhum site de busca, por favor, informe, pois precisamos saber do paradeiro de tão indigesto radialista, até para passarmos adiante a informação. Por outro lado, muito aguardado, para as próximas horas ou, no máximo dias, algo vindo das hostes do STF, barrando tudo o que já foi feito de irregularidades com a chancela JP. Me ajudem, a desvendar o paradeiro do Pitolli???

OBS.: Isso tudo me faz lembrar de algo ocorrido décadas atrás onde trabalhava. Um dos colegas queria escapulir por uns dias de sua vida conjugal e inventou em casa que iria participar de uma convenção de negócios da empresa. Foi e para seu azar, algo ocorreu em sua casa, com a esposa tendo que comparecer ao local para localizá-lo em caráter de urgência. Não existia naquele tempo celulares, muito menos rastreadores tecnológicos. Foi constrangedor ela no local e todos ali trabalhando, só ele na tal convenção. Deu merda. Neste caso, a mentira teve perna curta.

domingo, 21 de maio de 2023

AMIGOS DO PEITO (211)


ESCLARECIMENTO DOMINICAL
Adoro dar continuidade no que me move nesta vida. Hoje, além de outros, dois amores me conduzem para as ruas, o LADO B - A IMPORTÂNCIA DOS DESIMPORTANTES e, mais recente, o CONVERSA NA FEIRA. Tenho comigo que, tudo o que faço, muito compromissado com tudo, levando muito a sério, mas nem tanto. Quando surgem diante de mim oportunidades outras, me bandeio, saio de soslaio e vou ver o que está acontecendo ali e acolá, adiando bocadinho o que me prende, como compromisso nos finais de semana. Neste, fui arrastado - quase obrigado - a fazer outras coisas, cheirar outros aromas e o tempo ficou reduzido, diminuto e não daria tempo pra mais nada. Não desisti de nada, mas neste fina lde semana, bati asas e não deu pra assobiar e chupar cana ao mesmo tempo. Volto assim que me desvencilhar de onde me enrosquei - se assim puder, quiser e conseguir. Na beirada dos 63 anos, não devo perder as oportunidades para ser, fazer e acontecer, enfim, não sei quantas outras virão pela frente.

PRA ONDE ME REFUGIEI

TIBIRIÇÁ TEM DESSAS COISAS (01)
Comi demais da conta, uma leitoa dessas de arrasar quarteirão - arrasou foi comigo -, depois procurei uma sombra pra descansar, deitado na grama, mas pouco durou meu sossego e a Ivone Baté apareceu com um colchão, para facilitar meu sono e na sequência, veio o bezerrinho desmamado, criado na mamadeira. O danado chegou, cheirou e queria me dar umas cabeçadas. Acho que é assim que faz carinho e acabou me acordando. Levaram ele pra longe e na sequência o cãozinho do lugar, viralata como o meu Charles, chegou e dividiu comigo o espaço no colchão. Ficamos ambos um acariciando o outro. Assim passei boa parte da tarde de hoje, tentando cochilar naquele bucólico e aconchegante lugar que é a casa dos Baté, lá em Tibiriçá. Levantei quando o samba começou a rolar, quase ao leu lado, comi mais um bocadinho e já em casa, me sentindo hoje meio que imprestável, não deu outra, deitei mais cedo. Acordei para postar essas fotos que a "tia" Tatiana Calmon tirou de mim e volto para dormir. Amanhã é segunda, dia de acordar cedo e estar bem disposto pros enfrentamentos todos da vida. Hoje foi só folia...



TIBIRIÇÁ TEM DESSAS COISAS (02)
Dia passado lá no distrito rural, na casa dos Baté, os Cosmo. Nem precisa dizer ter sido tudo uma delícia. Volto recarregado de tudo. Antes da comida, fala de Ivone Baté, propondo uma oração, mas fazendo uma ode ao amor e a paz. Ela pega o microfone e fala bonito, iluminada na cor verde de seu vestido, deixa todos num silêncio de dar gosto, diante da sinceridade de palavras saídas do fundo do seu coração. Depois veio a farta comida, o samba, a conversa com dona Irene, a matriarca, o bezerrinho orfão, criado ali na casa, na base da mamadeira e muita conversação da boa. Juntei histórias pra mais de cem dos meus escritos e só não conto mais, pois estou com um bruta sono e preciso encostar a carcaça pela aí. Boa noite pra tudo, todas e todos. Quem ainda não conhece os Baté, sua hospitalidade e Tibiriçá não sabem o que estão perdendo. Eu sou é apaixonado por tudo o que é proporcionado em cada retorno e a Ana Bia sabe de tudo. Aliás, ela esta junto e fez coisas do arco da véia por lá.

sábado, 20 de maio de 2023

DICAS (232)


PORQUE SOU CONTRA A REFORMA DO ENSINO MÉDIO*
* Meu 110º artigo para o DEBATE, de Santa Cruz do Rio Pardo, edição de hoje:

Em curso um tal de Novo Ensino Médio, algo proposto pelo desgoverno anterior e abrangendo áreas educacionais das mais importantes, diria mesmo, vitais para a boa Educação pública daqui por diante. Tem quem queira atravancar a Educação, pois deixando-a “meia boca”, cada vez mais teremos um povo servil, sem consciência de classe e submisso, aceitando tudo o que lhe é imposto. Como sabemos, tudo começa com uma boa Educação. O único meio de conseguirmos sair da enrascada onde estamos metidos é, em primeiro lugar, entender de fato onde estamos situados e como estamos sendo conduzidos. Sem entender, seremos sempre massa de manobra nas mãos dos poderosos de plantão.

A resistência existente diante da proposta deste tal de Novo Ensino Médio, advinda de pesquisadores, professores e alunos é exatamente por causa disto, ela é excludente, acentuando ainda mais as desigualdades no País. Com ela implantada estará cada vez mais acentuada as distâncias entre as escolas públicas e particulares, ou seja, a grosso modo, fácil de entender, quem tem grana coloca seu fino numa escola particular, com ensino diferenciado e quem não tem, deixa na pública e ela lhe dará um ensino meia boca. Inconcebível aceitar isso. Pois é o que está embutido na proposta.

O atual modelo só interessa ao setor privado, nunca ao público, pois além de tudo, deixa muito evidente a dificuldade do acesso, daqui por diante, dos pobres à universidade pública. É simples de entender, hoje fazem tudo baseado nos interesses desse tal de Mercado, foco exclusivo na profissionalização, porém ela é apresentada de forma precarizada e cada vez mais apartando a sociedade entre os que podem de um lado e os rejeitados de outro. Quando cada escola monta sua grade curricular e o aluno escolhe sua grade curricular, ocorre uma formação desigual entre as escolas. Imagine a diferença ocorrida entre um estado como São Paulo e o Acre. A base comum entre elas não mais existiria e a partir daí, aquilo da Educação ser essencial para todos estaria definitivamente perdida.

E tudo isso sem contratar novos professores. Vai ser uma segregação cada vez maior dentro de uma mesma rede de ensino. No meu caso, professor de História, observo como muito nociva a criticidade e o senso crítico do aluno, com disciplinas como História, Sociologia e Filosofia deixando de ser obrigatórias. Privilegiar o Mercado é falácia, pois deixam de olhar pra Humanas e só pensam na escravização do ser humano. O ser humano desumanizado é um ser inerte, insensível e muito próximo de aceitar a violência como modus operandi de sua vida. É uma reforma que precisa ser revogada com urgência, pois a previsão é de Ensino Médio de baixíssima qualidade.

Com a grade curricular refeita, diversas matérias de fora, exatamente as que fazem as pessoas pensar. Incluir uma matéria, por exemplo, como Robótica e deixar as citadas de fora, tornarão as pessoas meros manuseadores de máquinas, porém sem a sensibilidade de como enfrentar as agruras deste mundo novo daqui por diante. Eu aprendi uma vida inteira que a escola pública possui uma função social, a de formar cidadãos, no mínimo conscientes e só a partir daí, prepara-los para a vida profissional. Querer mudar isso de forma autoritária, justo no momento quando nossos parlamentos estão com predominância conservadora, quiçá, de ultradireita é mais do que perigoso. Daí, ser contra é algo natural, pois o conhecimento integral estará prejudicado e ele é a base de tudo.
Henrique Perazzi de Aquino, jornalista e professor de História (www.mafuadohpa.blogspot.com).

MENSAGEM CIFRADA - QUEM SERÁ ELE?
Abro o jornal de hoje e lá está o cara, todo sorridente, como se nada tivesse a ver com tudo o que aconteceu com o país naquele fatídico oito de janeiro. Na maior cara de pau, ele segue sua vida, feliz, pimpão e com seus negócios, sem até o momento ter sido importunado por tudo o que fez. Se hoje está no jornal, cercado dos seus, antes do dia oito, estava regularmente lá na rua Bandeirantes, participando ativamente de tudo o que lá ocorria de conspiração. No seu caso, pelo que se ouve, não foi mera participação, pois entrou com grana, ajudou na alimentação, ou seja, era do staff principal, dos que botaram a mão no fogo. Sim, ele botou a mão no fogo, mas até agora não se queimou e daí, como nada lhe aconteceu, segue o jogo e a vida, fingindo-se de morto para com o passado tenebroso. Eu, cá do meu canto, não suporto sua falsidade e me incomoda isso de gente como ele, ter feito o que fez, ter conspirado abertamente, não só pela queda do regime democrático, como ter traçado pauzinhos para que, o maléfico e criminoso desGoverno do Seu jair tive solução de continuidade. Trata-se de um descarado golpista, fazendo parte dos que não só incentivaram, mas participaram e sem medo, na época, colocaram a carinha nas ruas, como se nacionalistas e estivessem a lutar por algo digno.
Pelo visto, depois de tudo, seus negócios continuam fluindo muito bem, em franca expansão e pelo que sei, pelo menos por enquanto, não se fala mais no que foi feito. O passado recente, onde foi um alicerce da trama golpista, fez parte de algo bestial, precisa ser esquecido, não levado em conta, enfim, trata-se de uma pessoa de bem, destes que sempre estiveram participando ativamente de todas as atividades sociais de sua thurma, também ativo nas colunas sociais e rodas da society. Seu sorriso é enganador, mais falso que nota de três reais, mas isso pouco importa, pois ele não está só e não está sózinho. Outros tantos, como ele, fizeram algo parecido, ou com teor de envolvimento igual, todos ainda sem punição à vista. Já estiveram preocupados, hoje riem de tudo, impunes. Nem citação de seus nomes como prováveis a serem investigados, daí, pelo visto escaparam de vez e incólumes, continuam tocando suas vidas até a próxima oportunidade.
Obs.: Infelizmente, nada posso escrever além disso e, pelo visto, continuará sem identificação e, também, sem nenhuma aparente punição. Se querem saber seu nome, simples, procurem dentro da última ilustração e se deleitem quando descobrirem: Sim, é ele mesmo!!!

JOÃO ANTONIO, UM DOS PREFERIDOS PARA LEITURA, SEMPRE RESSALTANDO O "LADO B" DESTE MUNDO
"Todo o inverno lembro de João Antônio. Na verdade João Antônio é pra vida toda. No inverno é intensa a lembrança do escritor de Presidente Altino, Osasco.
Sim, o conto "Frio" de João Antônio, um dos meus preferidos da vida, vem me lembrar nas noites frias. Ele é um conto curto, mas traça uma trajetória física, a mim muito familiar, e muito ampla nos pensamentos do menino protagonista.
Vem me lembrar de quantas pessoas estão por ai nas cidades enfrentando como podem o frio que está fora do conto, que é real e cortante. O frio do menino do conto do João Antônio, nos mostra que quem está ao relento também tem subjetividade.
Aos que sentem frio...
Mestre João Antônio
Um pequeno trecho de "Frio"
"Frio. Quando terminou a Duque de Caxias na Avenida São João. O pedaço de
jornal com que Paraná fizera a palmilha não impedia a friagem do asfalto.
Compreendeu que os prédios, agora, não iriam tapar o vento batendo-lhe na cara
e nas pernas. Andou um pouco mais depressa. Olhava para as luzes do centro da
Avenida, bem em cima dos trilhos dos bondes, e pareceu-lhe que elas não iriam
acabar-se mais. Gostoso olhá-las.
Que bom se tomasse um copo de leite quente! Leite quente, como era bom! Lá
na Rua João Teodoro podia tomar leite todas as tardes. E quente. Mas precisava
agora era andar, não perder a atenção.", RICARDO QUEIROZ.

DESCOBERTAS - ISSO ATÉ OS DIAS ATUAIS...

sexta-feira, 19 de maio de 2023

BEIRA DE ESTRADA (166)


TENTAM CRIMINALIZAR O MST, DAÍ PERGUNTO: O AGRONEGÓCIO NÃO FAZ PIOR? – A NOVELA “TERRA E PAIXÃO” VAI TENTAR ENDEUSAR O AGRO, MAS SERÁ ISSO POSSÍVEL?
Nesta semana, a conservadora e ultra direitista Câmara dos Deputados instaura CPI para investigar as atividades do MST – Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, numa clara e evidente atitude de perseguir e tentar criminalizar o maior movimento social deste país. A atividade não representa nenhuma novidade, sendo somente, neste momento, feita através de algo instituído, de forma institucional e com ampla, massiva repercussão pela mídia nacional. O processo foi acelerado após o presidente Lula ter convidado para fazer parte de sua comitiva à China, o líder maior do MST, João Pedro Stédile. A bestialidade a envolver as ações da ultradireita não aceitam ser possível algo desta natureza.

Repercuto o que escreve o jornalista bauruense Ricardo de Callis Pesce – que leio muito, sempre e sempre - nas redes sociais: “Na política, a CPI do MST, criada para esconder os crimes da UDR e transferi-los para a conta dos agricultores sem-terra, o relator será Ricardo Salles, ex-ministro de Bolsonaro que queria "passar a boiada" dos crimes ambientais e que é suspeito de estar envolvido na extração ilegal de madeira da Amazônia. A CPI não se justifica”. É um bom mote para escrevinhações contrárias à CPI, mais uma aberração proveniente da ultradireita ocupando os espaços vazios, deixados por uma esquerda, ou mesmo políticos conscientes de seu papel, não perdendo tempo com perseguições fora do tom e sem sentido.

Estava até bem pouco preocupado com o destino desta CPI e ontem, conversando com Cláudio Lago, presidente do PT Bauru, ele me mostra algo mais do que possível na sequência do que pode ocorrer. “Henrique, calma, não se afobe. O MST hoje possui muito menos problemas do que os do agronegócio. O meio ruralista está forrado de caras invasores de terras, muita devastação em territórios até então considerados impenetráveis para a especulação e hoje dominados por estes, também por criminosos. Se chamarem o preparado Stédile para depor, vão acabar se dando mal. Será algo como o Flávio Dino já faz hoje quando se apresenta convidado a dar explicações. Dá um banho. Não tenho dúvida que, Stédile aproveitará cada momento para expor o outro lado, o do escândalo onde estão metidos os ruralistas. Enfim, como foram ocupadas as terras do agro Brasil afora? Quem decretou muitas das terras com o agro como produtivas ou improdutivas? Como foram conseguidas essas terras? O próprio Salles, o inimigo do meio ambiente, que vai presidir a CPI, já anunciou que não irá chamar o Stédile de cara, pois teme isto tudo que lhe digo. Portanto, muita calma nessa hora, vamos dar tempo ao tempo, pois muita água ainda irá passar por debaixo dessa ponte”.

Confesso, a linha de pensamento do amigo Lago me acalmou e daí ligo a TV e na nova novela da Globo, a Terra e Paixão, logo de cara, com as imagens vistas por mim, uma babação de ovo sem precedentes para o agronegócio, como fossem eles o que de melhor temos hoje no país. Até as pedras do reino mineral sabem que, aquilo é propaganda enganosa, diria mesmo, fake news explícito de algo colocado em dúvida por qualquer gente séria. Pra começo de conversa, a imensa maioria destes do agro são golpistas e deram seu quinhão para tentar fazer valer o golpe de 8 de janeiro. Até tentam, neste início da novela, enxerga-la como criminalizando o agro, mas pelo que já li a respeito, o que ocorrerá é justamente o contrário, enfim, para a Globo, o agro sempre foi pop, nunca algo do capitalismo insano, demonstrando ali sua face de crueldade. Será divertido ver o endeusamento deste setor, cada vez mais envolvido com algo ilícito, inclusive sendo condenado internacionalmente por produtos sem o selo de isenção de agrotóxicos e desvios de conduta no trato com funcionários. E depois ainda querem dizer ser o MST culpado de tudo. Não vai colar...

A PREFEITURA ABOMINA PARTICIPAÇÃO DE TRABALHADORES EM SUAS REUNIÕES - EIS UMA SOBRE A FERROVIA E A EXCLUSÃO DESTES

Tomo conhecimento de uma reunião ocorrida dias atrás para discutir o intrincado tema da retomada da ferrovia, passando pela região de Bauru, através de publicação nas redes sociais pelo vereador Guilherme Berriel. Este faz um bom trabalho e desta feita é convidado junto com outras autoridades, dentre os quais outros vereadores, assessores da Prefeitura e convidados ilustres, todos juntos da prefeita Suéllen Rosim, porém, sendo inexplicavelmente excluídos os trabalhadores do setor, muito mais interessados e com conhecimento das reais questões a serem discutidas do que muita gente ali presente.

Na postagem do vereador Berriel, ele se manifesta sobre a importância da reunião, sem se dar conta que a ausência dos trabalhadores deixa a reunião caolha, manca ou melhor, sem uma das pernas. "Participei de uma reunião para discutir a concessão da Malha Oeste da ferrovia, que passa por Bauru.São investimentos de interesse de todos os setores da sociedade. Além do envolvimento da prefeitura e da câmara, representantes parlamentares estaduais e federais, da Estação Aduaneira do Interior (Eadi) e empresários do setor ferroviário participaram da discussão. A prefeitura informou que já existe uma ação judicial do Ministério Público Federal (MPF) para que seja construído um anel ferroviário em Bauru, cuja construção será de responsabilidade da União o Tribunal Regional Federal (TRF) julgue o pedido procedente. O município também vai pedir um prazo maior, além de 25 de maio, para a apresentação de propostas na Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), já que a proposta exige vários detalhes técnicos. Ainda assim, o município vai apresentar propostas dentro do prazo. Ainda existe a expectativa de que uma audiência pública seja realizada em Bauru, além das que já foram realizadas em Campo Grande/MS e em Brasília", essa sua postagem.

Diferente do que propõe a prefeita, fingindo não existir trabalhadores ferroviários na questão, fui ouvi-los sobre o assunto e o que resgatei de Roberval Duarte Placce, representante do Sindicato dos Ferroviários de Bauru posto a seguir: "Os trabalhadores foram alijados dessa discussão aqui na cidade. Não fomos convidados. Enquanto sindicato estamos excluídos. É o que sempre foi feito até agora, o trabalhador é coisa supérflua. Os trabalhadores contribuiram com tijolinhos pro Hospital de Base, pro estádio do Noroeste, na Cooperativa que tanto contribuiu pra manutenção de vários órgãos e, neste momento, estamos alijados da discussão. Estão discutindo por cima e nada dos trabalhadores, inclusive não tem nenhuma discussão sobre o trem de passageiros. Lamentável".
0BS.: OAs duas fotos aqui publicadas são da publicação do vereador Berriel, tiradas por sua assessoria.

BONS TEMPOS DO "CAMINHÃO PALCO" - E HOJE, HEM!!!
"Olha eu ai de costas com minha carequinha que depois que passei PANTENE parou de cair !!", com essa postagem em seu facebook, Ailton Mauad mata saudade de algo no qual trabalhou por um longo e saudoso período de dua vida profissional, o famoso CAMINHÃO PALCO, da Secretaria de Cultura, ligada à Prefeitura Municipal de Bauru.

São tantas as histórias - algumas estórias também - envolvendo algo criado tempos atrás, primeiro improvisado na carroceria de um simples caminhão, algo com uma simples cobertura e sendo levada para os mais diferentes lugares da cidade, com apresentações diversas e variadas. Fez a alegria da periferia da cidade, quando por lá aparecia a caminhão, a certeza de junto dele a presença de alegria e contentamento. Talvez o mais importante evento já levado aos bairros tenha sido mesmo o show patrocinado pelo locutor Walter Netto e seu verdadeiro espetáculo. Locutor famoso da rádio Jovem Auri-Verde, atuou nas hostes da Cultura Municipal e soube tirar proveito dos benefícios do caminhão junto da população. Outros também usufruiram destes benefícios, pois o tal do Caminhão circulava, fazia e acontecia.

Tempos de grande saudade. Hoje o caminhão está mais sofisticado, rebuscado, mas perdeu parte do encanto e do brilho do passado. Sua utilização hoje é mais para preencher agenda de solicitação junto a locais, mas não possui mais um staff de gente da própria Cultura, comandando os espetáculos. Perdeu o brilho. Todos que com o caminhão já atuaram possuem histórias mil, na maioria das vezes, alegres e a envolver algo hoje não mais realizado. Com a foto do Mauad, o despertar de tantas lembranças e com a foto, dele e sua já reluzente carequinha, diante do palco montado e nele Wlater Netto no meio de um dos seus shows, servem para não só relembrar, mas pensar em algo bem diferente do que é feito hoje. Triste constatar a existência de algo tão grandioso e tão mal utilizado, talvez por que os atuais mandatários lá da Cultura não saquem e não saibam o que fazer com tamanha preciosidade.

quinta-feira, 18 de maio de 2023

UM LUGAR POR AÍ (167)


TRAGÉDIA ITALIANA NA EMIGLIA ROMAGNA (NORDESTE DA ITÁLIA) E ALGO DE FRANCO E ROSANGELA MAZZOTTI
As imagens recebidas deste casal amigo, moradores da região da Emilia Romana (abrasileirando o termo), muito devastada pelas chuvas contínuas e também por uma barragem rompida, provocando alagamento na região onde vivem, com transtornos não somente como aqui, quando as chuvas vem, a enchente chega, mas algumas poucas horas depois se vai e tudo volta ao normal, sobrando somente a limpeza e rescaldo de tudo. Neste ano, tudo veio de forma muito violenta, chegando de uma só vez e ali permanecendo. Já são algumas semanas com água ocupando tudo e sem previsão de volta da normalidade. Tudo o que havia sido plantado nas terras da região está debaixo das águas.

Rosangela Mazzotti é pessoa muito querida aqui em casa. Amiga de minha esposa, Ana Bia, ambas cariocas, vivenciaram bons momentos juntos, desde muito jovens. Casada com Franco Mazzotti, um proprietário herdeiro de um área onde planta de tudo um pouco e dali subtrai o seu sustento. Se conheceram, casaram no Brasil e na Itália e lá vivem, junto de seus cachorros e gatos, plantando e cultivando um pequeno pedaço de terra. Estivemos lá na casa deles por duas vezes, convivendo com seus animais e num ano, além de desfrutar da hospitalidade, havia neve por todos os lados. A neve é algo esperado, previsível ano após ano e para isso existe toda uma preparação, quando já cientes de sua chegada, fazem provisionamentos e estoque de muito do que plantam - lembro de caixas de maçãs debaixo das escadas. Já com o ocorrido neste ano, nada disso foi possível e vivem agora uma situação sui generis, imprevisível e sem perspectivas de solução.

Tudo à volta de onde moram está devastado e a água toma conta de tudo. O lugar onde Franco herdou seu pedaço de terra é ao lado de uma pequena cidade, BAGNACAVALLO, próxima de Bolonha (80 km), cheia de encantos mil. Com castelos e edificações remetendo ao passado, por lá algo bem instigante unindo o passado e o presente. Moram, por sorte, num casarão na frente do pedaço de terra, com dois andares e ali hoje resistem bravamente no andar superior, fazem o que podem e aguardam a água baixar para resgatar e recuperar o que puderem. Quando reclamo de tudo o que passo com as inundações entre dezembro e março de cada ano, com as enchentes no rio Bauru, hoje tento me colocar no lugar deles dois, vivenciando junto de toda a população, uma enchente que veio e se instalou, ocupou todos os espaços e está demorando demais da conta para ir embora. Como conviver com algo assim? Só de pensar, algo a revirar as entranhas.

Estamos mais do que sensibilizados com eles e todos os italianos, pois isso é mais do que uma simples tragédia. Tudo, evidente, tem a ver com as mudanças climáticas ocorrendo mundo afora. Por lá, passaram recentemente por intensa seca, quando a terra também se solidificou mais, dificultando neste momento a infiltração da água. Este só um dos problemas. Não me recordo deles relatando a nós algo parecido na história daquela localidade. Eu e Ana permanecemos do lado de cá em estado de choque, recebendo as informações de forma bem condoídos com tudo o que vemos. À distância, sem saber o que e como fazer, junto tudo o que vejo, com o que acontece também por aqui e em outras partes do planeta, com a certeza de que, daqui por diante, viveremos cada vez mais, tragédias e tragédias. Transformaram e judiaram tanto da natureza, da condição ecológica, resultando em algo desta natureza. Entristecido por demais, sinto a pequenez a que estamos submetidos diante de algo tão grandioso e do quanto somos, não só indefesos, como pouco podemos fazer. Mas podemos protestar e exigir reparações. É o que fazemos, sempre e sempre.

OBS.: Em 2019, o casal passou por Bauru, hospedados por nós e os levamos para vários lugares, como o Bar do Genaro, onde contou histórias da região onde vivem. Depois passeamos pela Barra Bonita, cachoeira em Mineiros do Tietê, Dois Córregos e Jaú.


CRISTINA NÃO VAI MAIS SER CANDIDATA NA ARGENTINA E QUANDO LEIO DOS MOTIVOS, OS ENXERGO IGUAIS NO BRASIL - E EM BAURU???
A senadora e vice-presidente da Argentina Cristina Kirchner, em discurso para a nação, reafirma o que o país temia, ela não será candidata a nada nas eleições presidenciais do segundo semestre naquele país. Deixa praticamente desemparados legião de fiéis eleitores peronistas. Triste demais, pois era a única em condições de enfrentar de fato o "poder real", aquele que de fato domina um
país. Hoje, sabe-se, tanto lá como cá, que não é porque um presidente foi eleito que ele de fato comanda todas as ações num país. Na Argentina hoje comandada por Alberto Fernández algo assim, quando a mídia, capitaneada pelo diário Clárin, depois por uma elite agrária e empresarial, junto do Judiciário, todos cruéis e insanos, fazem de tudo e mais um pouco para desestabilizar todo e qualquer governo que tente realizar algo perto de ações sociais em prol da maioria empobrecida. Cristina, assim como Lula, foram perseguidos por parte da Justiça, toda comprometida com um dos lados. Aqui a Lava Jato, já desbaratada, lá um poder paralelo, unido e coeso a impedir que ela concorra, pois se isto ocorrer, grande chance de vencer e por mais quatro anos, com ela no poder, um confronto real, direto e reto.

Ouço no programa de rádio de Vitor Hugo Morales, pela manhã na 750AM, o La Manãna algo das justificativas e vindas pela boca dos locutores do programa. Algo assim: "Tentaram dar um tiro e assassiná-la e a reação popular não foi contundente a ponto de paralisar o país, depois a Justiça, desmarca eleições em alguns estados, pelo simples fato do peronismo estar bem à frente e constituirem importantes redutos e, novamente a reação não levou o povo para as ruas em algo paralisando o país. Ela, Cristina foi impedida e é já considerada culpada pela mesma Justiça e em algo sem provas, com o povo se revoltando, mas de forma contida e sem causar maiores embaraços para os detratores da lei. Ocorre uma sucessão de fatos de idêntico tamanho e a reação não se mostra suficiente, daí ela desiste de concorrer".

Trago o tema para o Brasil e vejo o mesmo ocorrendo aqui. Tudo o que Bolsonaro proporcionou de malefícios para o país e por mais reação que tivemos, nenhuma de fato o encurralou. Sem o povo nas ruas, sem a pressão necessária, tudo continua a ser ameaçador, o golpe continua espreitando o Brasil, assim como a Argentina, a Colômbia, o Peru, o Equador e tantos outros. Sem uma reação popular, com demonstração de muita força, pelo que se vê, o poder constituído de forma ilegítima, porém dito e visto como legal irão prosseguir dando as cartas e impondo derrotas nos anseios populares. É isso, a coisa ao meu ver, passa exatamente por isso.

E EM BAURU não ocorreria o mesmo? Sim. Antes lotávamos a Câmara e as ruas, a mobilização popular acontecia, hoje não mais. Por tudo o que a prefeita já fez, nem com a processante foi conseguida mobilização de forma contundente. A pressão sobre os vereadores é mínima. Neste caso do hiperfaturamento no Palavra Cantada nenhuma mobilização. Nadica de nada. Como querer fazer frente aos descalabros com mobilização zero? Impossível. Tudo é deixado pra depois ou para trás. Como enfrentar quem tem a máquina na mão só com textos contrários, num escreve escreve, verdadeira patinacão? O jogo segue bruto e quem deveria estar mais do que organizado e comandando a resistência, se mostra inerte. Tá difícil. Assim como faz Cristina, assim sendo, melhor nem participar. O que acontece e está a facilitar a continuidade do avanço da ultra-direita ao poder?

O FATO E A VERSÃO DISTORCIDA, SEGUNDO INTERPRETAÇÃO DO ABOMINÁVEL PODER REAL
Preciso muito desembuchar, por pra fora uma história ouvida hoje pela manhã num programa de rádio, na 750AM argentina, pela boca de alguém admirável, o jornalista Fernando Borroni. Por lá, como cá, existem os donos do poder real, os que realmente mandam no país. A gente pensa que um presidente manda, mas na verdade, tem gente acima dele, com mais poder e este exercido com o bordão e o facão nas mãos. Lá quem exerce esse poder de fato é o dono do jornal Clárin, inclusive com ramificações dentro do Judiciário, cumpridor de ordens do todo poderoso. Daí, diante da renúncia de Cristina Kirchner em concorrer à presidência e de tantos horrores perpetrados pelos donos do jornal, Borroni conta a seguinte historieta:

No bairro de Palermo, homem salva um menino de um cão feroz, pronto para lhe estraçalhar a jugular numa calçada e é obrigado a sacrificá-lo.
O repórter do dito jornal Clárin se aproxima e diz ao homem:
- Que bela ação, amanhã no Clárin daremos em destaque, "Homem de Palermo, numa boa ação, salva um indefeso menino da fúria de cão, num ato envolvendo muita coragem".
O homem se volta ao repórter e diz:
- Eu não sou de Palermo.
O repórter:
- Pois bem, mudaremos, diremos ser de Buenos Aires e daremos tudo com bastante ênfase.
O homem novamente o corrige, dizendo enfim:
- Desculpe, também não sou de Buenos Aires, sou da região de La Matanza, a mesma dos Kirchners e sou peronista convicto.
No Clárin do dia seguinte, eis a manchete sobre o ocorrido:
"Homem violento e descontrolado, peronista fora de si, mata violentamente numa calçada de Palermo, um indefeso cão de raça, sob os olhares de singela criança a presenciar tão dantesca cena".

Assim são construidas as manchetes diárias dos Clárins da vida, como também as interpretações diárias em milhares de fake news circulando pela aí, como editoriais de jornais da grande imprensa brasileira. Pelo visto, o problema que ocorre lá, ocorre cá, só mudando os nomes de seus executores. Por lá, peronistas e por aqui, petistas e a esquerda, os abomináveis deste mundo. Não sei se muitos já se deram conta, mas estamos diante de uma guerra de interpretações e nela, quem tem o poder da palavra, o exerce ao seu bel prazer, não visando a verdade dos fatos, mas seus interesses.

O TREM E BAURU
Dias atrás, Kyn Junior publicou essa foto, que não sei a autoria e junto dela uma poesia sobre a importância dos trilhos urbanos passando pela nossa cidade, algo hoje não mais entendido. Infelizmente muitos opinam sobre sua retirada, não lhes dando a importância devida. Tudo isso merece uma infindável discussão:

E OS TRENS QUE VÊM DE BAURU
E os trens que vêm de Bauru
Trazem cheia a segunda classe,
Com catingas de porão de navio,
Com choros de crianças embrulhadas em grossas lãs
européias,
Com caras rubras queimadas de sóis estrangeiros,
Famílias salubres e miseráveis
Que o Brasil chamava, miragem de ultramar.
Nesse amontôo de povo mal dormido
— Cabeças com lenços de cores, boinas de veludo negro —,
Nesses corpos fétidos que os beliches balançaram
Na travessia do vapor inglês,
Há uma poesia profunda,
Há uma poesia violenta,
Poesia das plebes agrícolas da Europa,
Poesia de raças antigas e obstinadas
Que qualquer coisa para este lado do Atlântico atrai;
Poesia da sorte desconhecida sobre o mar,
Poesia do porto de Santos,
Poesia da São Paulo Railway Company,
Poesia da Capital entrevista na bruma,
Poesia da imigração.
Publicado no livro Noroeste e Outros Poemas do Brasil (1933). Poema integrante da série Noroeste.
In: COUTO, Ribeiro. Poesias reunidas. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1960. p.24