quinta-feira, 26 de março de 2026


ALGUMA COISINHA DO SHOW DE ZÉLIA DUNCAN EM BAURU
Em primeiro lugar, algo repetido ontem na saída do show, caminhando para a rua junto da artista performática Larissa Zulian: "O que seria de nós, de nossa formação musical aqui em Bauru não fosse o SESC?". A constatação é de todos os que, como nós dois, tivemos uma excelente formação musical através dos tantos shos ali assistidos na rua Aureliano Cardia. Lembro até hoje do primeiro deles, o que inaugurou o SESC Bauru, João Bosco, quando me foi entregue um encarte com ilustração dele na capa e nas páginas seguintes, as letras do que cantaria. Desde então, confesso, sem necessidade de me torturarem, o SESC me salvou. Devo muito a ele. Nenhum outro lugar em Bauru propiciou tanto de Cultura nas últimas décadas como o ali acontecido. E, para felicidade geral desta cidade e região, tudo continua - com menor ímpeto, mas na mesma pegada - acontecendo.

Na noite desta quinta, 26/03, 20h, com o que se denomina de pontualidade britânica, algo pouco ocorrido quando se fala de shows na cidade, quem subiu mais uma vez ao palco principal do SESC, montado em sua quadra principal, foi a performática cantora e compositora carioca ZÉLIA DUNCAN. Dela, tenho mais de dez álbuns, entre LPs e CDs, todos ouvidos com a devida frequência. Zélia, diria, embala meus sonhos e o faz com muita maestria. Caiu nas minhas graças, não só pela busca de um quase irretocável repertório, mas pela sensibilidade com que toca sua vida. Ele tem um jeito peculiar, só seu, onde fica explícito agir como age, não por imposição do mercado, por querer forçar a barra e conquistar um nicho de pessoas mais descoladas, nada disso, mas simplesmente por ser a mais natural possível. Ou seja, Zélia é essa pessoa, transparente e emoviante, que se vê ali no palco e na vida real. 

Logo na entrada no palco, quandoi falou pela primeira vez com o público de Bauru, fez questão de ressaltar algo assim: "Eu sei, todos vocês tiveram um dia muito ruim hoje e então, vamos juntos tentar fazer algo para melhorar a coisa". Ela fazia referência à forte chuva que na noite anterior, em penas 20 minutos, destruiu boa parte da cidade, ou ao menos lugares por onde escorrem as águas das chuvas caídas por aqui. Seu jeito natural está longe de quem faz algo neste sentido para aparecer. Zélia se sente emocionada com a reação do público, cantando e vibrando com seu show, cujas canções, ela sabe, não são aquelas que todos cantam pelas esquinas. Mesmo assim, o ginásio praticamente lotado, cantou muitos dos seus refrões e de outros cantantes, como Rita Lee, Itamar Assmpção, Paulinho Moska e Cássia Eller. Nos intervalos de cada canção, ela expunha algo mais de seu jeitão descolado, sensível e muito humano. Impossível não se apaixonar.

Eu, burro velho e também velho lobo das estepes, não caio mais em ladainha de gente desqualificada, que sobe ao palco para impressionar e possuem duas caras, os tais lobos em pele de cordeiro. Com 65 anos nos costados, criei uma espécie de couraça e sei muito bem diferenciar o joio do trigo. Zélia é trigo puro, aquele que dizem é apartado dos demais, por ser não para exportação, mas para uso em ocasiões mais que especiais. E o mundo, saliento, precisa mesmo de artistas como Zélia, não só para direcionar as massas um tanto perdidas, mas para dizer que, ainda existe um caminho possível, trilhado com sangue, suor e lágrimas, mas com baita luz no final do túnel. Ouvia ela falar e pensei naquele momento, lá no meio da multidão, numa fala do Renato Teixeira, amigo pessoal do Sérgio Reis, mas muito descontente com ele. "Meu amigo é grande artista, belo repertório, canta muito, mas não tem cultura suficiente para prosseguir com o discurso que tem propagado. Tem sido bestial demais e o chamo a atenção. Nós, artistas, não podemos fazer o que o Sergião anda fazendo", disse. 

Zélia sabe onde pisa, o que fala, com quem anda e quando abre a boca, o faz sensatamente, incentivando as massas a prosseguir resistindo, enfrentando o touro a unha. "Gente, este show éw fruto de muito trabalho. O pessoal do SESC trabalha muito. Para um show deste acontecer, tem muito trabalho por detrás. E os lá de cima, ou os que dizem, fazemos poucos, precisam saber o quanto trabalhamos, nós todos, para levar este barco adiante", fez questão de ressaltar. Foi uma noite e tanto, dessas onde, depois de tantas agruras dos últimos tempos, nos traz alento, vontade de perseverar e resistir, continuar sendo essa aroeira que todos somos, aquela que enverga, mas não quebra. O mundo precisa muito de artistas como Zélia, que quando no palco, são naturais, não forçam a barra, mas arrebatam muita gente e exatamente pelo jeito como demonstram tocar suas vidas. Se existe gente a me influenciar, dentro deste cabedal de ditos influencers, quero mais e mais ser influenciado por gente como Zélia Duncan.

POSTAGEM DE ZÉLIA DUNCAN SOBRE O SHOW DE BAURU, NO SESC:
Ah, os quqrtos de hotel…amigos de longa data, ou , no mínimo, cúmplices frequentes das noites de depois. Os agitos ainda, devagar, abaixando seus volumes. Os rostos tantos começam a dar licença pro descanso e pro silêncio. O show em Bauru foi alegre e intenso. Eu saí do hotel com um pouco de sono, porque precisei sair ontem de noite e acordei cedo hj. Areia nos olhos, peso nas pernas. Preguicinha. Quando cheguei no ginásio do Sesc já fiquei feliz de ver a banda, abraços conversas, nossos códigos. Ensaio pré-show, que chamamos de passagem de som. Quando voltei pra valer, a plateia estava toda lá, o espaço fica lindo assim, vivo. E tudo faz sentido. As 4h de carro, o calor, o suor vira vitamina, os agudos chamam a letra, os graves botam tudo no colo. Obrigada a cada um. Consegui receber umas 70 pessoas. Há tempos não conseguia, por motivos diversos.
Cheguei no hotel, comi e resolvi gravar pro meu pai, que hj faria 95 anos. Ele se foi aos 90.
Seu Moreira, não há problema, a gente faz o que pode no fim das contas, não é? E colhe, na medida do que plantou. Essa conta raramente falha. Porque quase nunca fecha e assim é a vida. Sinto falta da sua voz que, cantava bonito…Obrigada, Bauru, por cantar pra mim e comigo. Por provocarem tamanha energia em mim. Que as águas baixem onde subiram demais. Deixo meu amor e gratidão pra vcs. Até breve, até sempre.

MINHAS GRAVAÇÕES DE VÍDEO NO SHOW:

E DEPOIS DO SHOW, VI UMA FILIAL DA "LAGOINHA" DEFRONTE O SESC
Bauru, como sabemos, copia tudo de bom e também, tudo de muito ruim que acontece Brasil afora. Na frente do SESC, rua Aureliano Cardia, algo ainda com as portas abertas, a tal da igreja da Lagoinha, a mesma que centralizava dinheirama escusa do Banco Master e de Daniel Vorcaro, o banqueiro fora dos padrões de qualquer normalidade. A igreja lá deles, do pastor fisiculturista Fabiano Zettel, movimentando e lavando imensidade de dinheiro, foi praticamente obrigada a fechar suas portas - sem devolver o lá investido. E em Bauru, algo como uma franquia - igrejas neopentecostais são isso hoje -, não sei a quanto tempo agindo e quando a vi, meia porta aberta, talvez também recolhendo e dando cabo de móveis e utensílios, pois quando a matriz fecha, as demais ficam sem o poder gerencial central, daí vão pelo mesmo caminho. Depois de tudo, será ainda conseguiam amealhar fiéis, adeptos e doadores incondicionais de grana viva? Se conheço bem Bauru, acho bem possível.

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