ALGO DE "ANTONIO VARIAÇÕES" E "MÁRIO XAMPU", TUDO EMBOLANDO A CABEÇA DE QUEM GOSTA DE RETRATAR GENTE DA RUADuas histórias se embolando e se misturando na fria Lisboa, depois da saída do Museu Design, o MUDE. Primeiro o maravilhamento de conviver por quase 15 dias ao lado de um cineasta nordestino, Leonardo Cunha Lima, o Léo, filho da professora Edna Cunha Lima, 79 anos, ambos nos acompanhando numa viagem por alguns cantos europeus. Edna veio do Recife, seu filho, o Léo veio da Nova Zelândia, eu e Ana de Bauru, nos encontrando e convivendo juntos por aqui. Assim o conheço e o descubro um cineasta já pronto, com um filme/documentário na bagagem, desses retratando alguém que um dia conheci por intermédio do filme "Mauro Shampoo - Jogador, Cabeleireiro e Homem" (2006).
Assisti este filme mais de uma década atrás e hoje, convivo com o Léo - parceria comPaulo Henrique Fontenelle. O filme retrata a história do famoso ex-futebolista recifense, conhecido por marcar apenas um gol na carreira pelo Íbis Sport Club, o "pior time do mundo". O filme de 22 minutos foca na vida de Mauro Shampoo, que, apesar de sua trajetória limitada no campo, tornou-se um ícone da cultura pop no Recife, equilibrando sua fama de jogador com a sua profissão de cabeleireiro. Histórias como essas são as que me movem e me fazem produzir o tal do "Lado B - A Importância dos Desimportantes" e sair pela aí fotografando uns e outros, personagens deste mundo, sempre pela vertente popular.
Daí, nós todos aqui em Lisboa, mais o professor de Design Gabriel Gabriel Patrocinio, hoje morando aqui na capital portuguesa, amigo de cátedra da Edna, foi nosso guia na cidade. Numa das incursões a pé - ele adora perambular a pé -, nos leva para o MUDE, na rua Augusta 24, centro da cidade e dentre todas as exposições que tivemos o prazer de visitar, destaco a última, feita por mim e junto com o professor Gabriel, "Meu nome António - Fotografia de Teresa Couto Pinto, 1981-1983", retratando em fotos um personagem das ruas lisboetas, o Antonio Variações. As imagens das várias sessões de fotos tiradas por Teresa, acompanhando tudo o que fazia António nas andanças deste. Ele, inquieto desde sempre, se produzia para ir pras ruas e assim, percebido por onde circulasse, foi captado em todos os ângulos.
Bati o olho na exposição e me lembrei do filme do Léo. O Xampu tem muito, ou tudo a ver com o Variações. Ambos são fruto das entranhas de cidades. Léo se encantou com Xampu, Teresa por Variações e eu, por todos os meus personagens Lado B. Isso nos move e nos conduz para estes caminhos desbravadores da contação de histórias, ou melhor, a perpetuação delas. Junto isto tudo e percebo que, a vida tem sentido para gente como nós, exatamente pela percepção que temos para com estes personagens e para os que, estão muitas vezes ao nosso lado e não os percebemos. Como é bom contarmos exatamente essas histórias.
Algo de Mário Xampu: https://www.youtube.com/watch?v=i2OiAnIj79M
Algo de António Variações: https://www.rtp.pt/play/p8764/variacoes
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| Eu, Edna, Léo, Ana Bia e Gabriel circlulando pelas ruas de Lisboa. |
Quem chega hoje em Bauru SP, se depara com alguns outdoors e muitos adesivos fixados em veículos, com os dizeres: "Leia a Bíblia". Tudo bem, ler a bíblia deve até fazerparte do cabedal de quem está disposto a ler de tudo, porém, quando o fixado é somente na leitura deste livro, algo explícito como errado e fora dos padrões da normalidade. Ler somente um livro é algo tacanho e preocupante. Todos nós deveríamos saber o que está embutido neste dizer restritivo. Algo destes tempos reducionistas e pregando o fundamentalismo.
Daí chego em Lisboa e me deparo com o Instituto José Saramago, um pequeno prédio, com alguns andares, reverenciando um dos maiores escritores deste planeta. Entro pela segunda vez no mesmo e me delicio em cada canto. Enfim, a leitura, como ali provocada é para ser feita em todas as suas instâncias e não seguindo somente uma vertente. Pior quando essa vertente é somente religiosa. Saramago propõe exatamente o contrário, um ler e escrever ampliado, abrangendo e abrindo o leque para tudo o mais.
Poderia querer fazer um adesivo rebatendo o que vemos em Bauru, talvez com um "Leia Saramago", mas o próprio escritor não se sentiria bem com algo assim, pois o que vi explicitamente proposto quando adentrei seu instituto foi exatamente o contrário. Teria que fazer um adesivo com os nomes de muita gente, muitos escrevinhadores mundiais e este o motivo de não ter feito até agora algo para responder a aberração restritiva estampada em carros e postes bauruenses.
Enfim, Saramago propõe a abertura e ampliação dos horizontes. Circular por entre tudo o que lá vi sobre ele, demonstra pelas fotos e escritos, o quanto nada deve ser restritivo a somente uma linha de pensamento e uns poucos. Era isso, essa a mensagem principal que cada pessoa ali subindo e descendo as escadas dos quatro andares do Instituto recebem - o elevador não está funcionando -. Volto, ou melhor, saio de lá, recarregado e cada vez mais compreendendo que o mundo só se libertará das amarras reducionistas mentais se ampliar cada vez mais o leque de leitura, escritores diversos e variados. Algo tão simples, contundente e significativo. Saramago me passa isso tudo e muito mais. Eu cada vez mais sinto que, ler de tudo é uma ótima saída para se libertar das amarras de quem fica detido, preso, amordaçado na prisão da leitura de somente um livro, seja ele qual for.




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