segunda-feira, 31 de março de 2025

BEIRA DE ESTRADA (192)


COMO FOI O ATO "ANISTIA NÃO", REALIZADO NO DIA DO GOLPE DE 64 EM BAURU
Éramos poucos, mas não deixamos de estar lá, num local previamente marcado e conhecidos por todos, defronte a Câmara Municipal de Vereadores de Bauru, na tarde de segunda, quando lá dentro ocorria mais uma sessão legislativa e exatamente no dia da passagem deste que foi o efetivo golpe cívico militar brasileiro, cujo início se deu em 31/03/1964 e sua consumação, no dia seguinte, 1º de Abril, o Dia da Mentira. Uma dolorosa e de triste memória para o Brasil.

O ato foi marcado pela CUT Bauru e teve a presença de várias entidades, partidos políticos e contou com a presença de parte significativa dos militantes sociais desta insólita Bauru. Lá no ato sou questionado por uma pessoa, me perguntando se não facilitava as coisas para os agentes da repressão (sic), com a publicação das fotos dos presentes no ato. Como não conheço muito a pessoa, respondi de forma séria, contundente: "Não tenho nenhum receio de causar nenhum tipo de constrangimento para nenhum dos fotografados. Primeiro, se existe ainda algum tipo de fichamento por quem ainda se presta a fazê-lo nos dias de hoje, todos os presentes já são mais do que fichados, pois muito conhecidos, marcando presença desde sempre em atos dessa natureza. Aqui estão alguns dos tais corajosos, que não abandonam o barco. Com minhas fotos, juntada a de outros, todas publicadas, só a confirmação de quem não abandona o barco e segue altaneiro na lida e luta, contra as ditaduras, contra os golpes e neste momento, também contra essa insana Anistia para quem tentou dar um golpe e pretendia matar e aniquilar exatamente os resistentes, como os presentes. Somos todos conhecidos e sem medo nenhum de se expor. Se alguém nos registra, chove no molhado, pois creio eu, já somos fichados e só confirmaria hoje, o quanto batalhamos por um país melhor, bem distante de regimes pérfidos e perversos".

Na fala de todos os que ocuparam o microfone, algo sobre os malefícios da ditadura, mais de 20 anos no poder e de como ela continua ativa nos dias de hoje. A frustrada tentativa de golpe do 8 de janeiro é mais uma dessas. Essa última, propunha explicitamente a morte de quem os tirou do poder e na sequência, com toda a certeza, o fechamento do país, atingindo todos os ali presentes. Escapamos dessa e ali estávamos para deixar registrado, como sempre o fizemos, que essa luta é contínua, ininterrupta e dela participam estes, os tendo como já consolidada a necessidade de que, só com uma mudança radical de rumos o país terá vida plena, soberana e altaneira. Muitos falaram disso tudo e da bestialidade dessa maioria hoje na Câmara dos Deputados, tentando a todo custo minimizar os efeitos do golpe, com essa propositura de anistiar seus idealizadores e quem esteve à frente, destruindo parte significativa do poder naquele fatídico dia.

Eu também fiz uso da palavra e o fiz em nome do Núcleo de Base do PT, DNA Petista Bauru, um dos que não abandona o barco da luta e neste exato momento preferiu deixar de participar como dirigentes locais do partido, abrindo mão de seus cargos, pois enxergaram nas últimas eleições um golpe dentro do partido, quando um grupo, aliado da direção estadual, alijou o Diretório Municipal, entregando a candidatura para interesses outros. Militar é isso, é também não concordar com os rumos e em Bauru, chega de estar aliado com quem faz acordos com a parte contrária.

Daí, destino minha fala para explicitar que, aqui em Bauru, o golpe esteve presente de forma significativa. Um grupo muito representativo de empresários, fazendeiros e gente graúda, da dita elite, financiaram a quartelada diante do destacamento do Exército na rua Bandeirantes. Estes estiveram presentes todos os dias por lá e abasteceram com tudo, desde grana até alimentos. Fomentaram, incentivaram e contribuiram decisivamente para a continuidade da tentativa golpista. E ninguém até agora foi sequer citado. Ou seja, estão escapando todos. São golpistas de primeira linha e continuam insuflando o golpe, agora com essa anistia para quem tentou e por pura incompetência não conseguiram realizar o que tinham embutido dentro de si.

Ou seja, nada mais justo e necessário, estar nas ruas e demonstrar algo contra os golpistas de ontem, os de hoje e os que insistem em apoiar o ideal bolsonarista, este declaradamente golpista e contra a legalidade. Representam o que de pior temos no país e assim sendo, estar nas ruas, buscando que estes sejam punidos, expostos e paguem pelos seus erros. A intenção de estar nas ruas não é fazer nenhum caça as bruxas, mas simplesmente punir quem agiu de forma brutal, inconsequente e criminosa. Não podem passar impunes e lutar por essa punição é, no mínimo, lutar por um país mais digno. Eis o ideal de todos os que lá estiveram, colocaram sua cara à tapa, como já o fazem há décadas, nas constantes lutas empreendidas pelas ruas desta cidade.

homenagem
FALECEU O CAMARADA JOSÉ DE OLIVEIRA, COM MUITA HISTÓRIA DE LUTA E RESISTÊNCIA EM BAURU
A notícia eu recebo na manhã de hoje. Faleceu em Nova Odessa, onde morava, o querido lutador das causas sociais José de Oliveira. Seu velório e enterro será lá mesmo. Por aqui, lembrando dele e de sua luta, encontro texto publicado aqui tempos atrás. Ele é alguém, dentre tantos que não podem ser esquecidos.

Em 19 de abril de 2016 publiquei este texto sobre ele: "1.) O COMUNISTA JOSÉ DE OLIVEIRA FEZ HISTÓRIA NA CIDADE COM MUITO TRABALHO SOCIAL
"JOSÉ DE OLIVEIRA está hoje com 81 anos, ativista sindical e político de renomada tarimba e depois de morar décadas em Bauru, bateu asas e, primeiro foi para Praia Grande, onde por oito anos atuou na colônia de férias do Sindicato de Derivados de Petróleo, a dos frentistas de postos, depois foi para Nova Odessa, onde mora atualmente e atua em várias frentes, dentre elas como voluntário com crianças menores de dez anos. Incansável, rever a história desse comunista nascido em Viçosa, interior de Alagoas e cedo aportando pelo Sudeste do país. Em Bauru, inesquecível suas muitas atuações e dentre elas, os quatro anos no Instituto Municipal de Saúde do Trabalhador, da Prefeitura Municipal e mais de nove como assessor da então vereadora do PC do B Majô Jandreice. Morou por aqui em vários bairros, como o Vista Alegre e por fim, antes de sair da cidade, no jardim Estoril, beirada dos seus trilhos urbanos. É dessas pessoas que não para por nada desse mundo, sempre em atividade, como agora, numa rápida visita à Bauru, revendo amigos, colocando as conversas em dia, mas aproveitando para falar e muito do seu passado. Um histórico militante comunista, desses sem vergonha de ter participado de tantas lutas defendendo a bandeira e um ideal do qual nunca abandonou. Passou como um raio pela cidade e mostrou para os que lhe viram que, bandeiras de luta são para uma vida inteira".

mais um livro na bagagem
MEU SEXTO LIVRO LIDO EM MARÇO É DE HEMINGWAY, “PARIS É UMA FESTA”
Tenho este livro há alguns anos e o li agora – terminei dia 28/3 -, após meu retorno de minha quarta visita à Paris. Sim, Paris é uma festa. Primeiro, festa para os olhos, depois sensitiva, para quem nela está inserida e desfruta de alguns lugares, únicos neste planeta cada vez mais individualizando ações. Gosto muito dos textos do norte-americano Ernest Hemingway. Neste, algo do período quando residiu em Paris, já casado, dando início ao seu período de produção literária. Escrevia para sobreviver. Enviava textos pelo Correio, para inúmeras publicações e recebia de volta, em envelopes pessoas, quantias em dinheiro, que gastava no custeio de sua permanência na Cidade Luz. Seus relatos fazem o viajante deslizar no tempo e querer circular pelos mesmos lugares. Ele lá viveu nos anos 20 do século passado, logo depois da 1ª Guerra Mundial e antes da 2ª. Não viveu de forma abastada. Muito controlada, mas dado a alguns luxos, como o gostar muito de corridas de cavalos. Na época, existiam até jornais específicos para loucos pelo turfe. O saboroso de seus escritos, são os relatos de suas andanças por Paris, muito a pé e depois o relacionamento que passou a ter com quem possibilitou a cidade receber essa denominação festiva. Ele cita em suas lembranças, algo de como seu deu o relacionamento com gente como Pablo Picasso, Gertrude Stein, Scott Fitzgerald, Ezra Pound, James Joyce outros, fazendo dos bares boêmios seu quartel-general. O texto pode parecer banal, porém não é. Trata-se de relatos, vivência ocorrida num período dos mais férteis da cultura parisiense. Li tentando decifrar e desbravar aquele momento único dentro do mundo literário mundial. Reuni poucas frases, compiladas para demonstrar o que senti lendo seu relato:

- Se você teve a sorte de viver em Paris, quando jovem, sua presença continuará a acompanha-lo para o resta da vida, onde quer que você esteja, porque Paris é uma festa móvel.

- Você me pertence, toda Paris me pertence e eu pertenço a este caderno e a este lápis. (...) ...concluí que todas as gerações eram perdidas por alguma coisa, sempre tinham sido e sempre haveriam de ser.

- A única coisa capaz de nos estragar um dia eram as pessoas, mas se se pudesse evitar encontros, os dias não tinham limites. As pessoas eram sempre limitadoras da felicidade, exceto aquelas poucas que eram tão boas quanto à própria primavera.

- Se você não se alimentar bem em Paris, terá sempre uma fome danada, pois todas as padarias exibem coisas maravilhosas em suas vitrines e muitas pessoas comem no ar livre, em mesas nas calçadas, de modo que por toda parte se vê comida ou se sente o seu cheiro. (...) As pessoas de quem eu gostava, mas que não conhecia, iam aos grandes cafés porque podiam-se perder neles; ninguém as notava e, assim, podiam estar sós e ao mesmo tempo acompanhadas. (...) Em Paris, por essa época, ainda era possível viver bem gastando muito pouco; suprimindo-se uma refeição aqui e ali, e jamais comprando roupas novas, até era possível guardar algum dinheirinho para coisas de puro luxo.

- Algumas pessoas tem a maldade na cara, assim como um cavalo de corrida mostra logo sua classe. Têm a dignidade de um cancro venéreo. (...) Quando uma antiga amizade não se refaz por completo, é na cabeça que a gente sente mais. (...) Necessitamos de um pouco mais de mistério em nossas vidas. Mas o problema da subsistência é de uma realidade desgraçada.

- Naquela minha temporada europeia, todo mundo considerava o álcool tão normal e sadio como qualquer bom alimento, além de grande fonte de alegria e bem-estar. (...) Que nunca se deve viajar com uma pessoa a quem não se ame.

- Paris não tem fim, e as recordações das pessoas que lá tenham vivido são próprias. Distintas umas das outras. (...) Paris vale sempre a pena e retribui tudo aquilo que você lhe dê. Mas, neste livro eu quis retratar a Paris dos meus primeiros tempos, quando éramos muito pobres e felizes.

Nenhum comentário: