segunda-feira, 30 de julho de 2018

RELATOS PORTENHOS (53)


A ARGENTINA QUE EU ENCONTREI, RESISTINDO AO NEOLIBERALISMO
A Argentina resiste ao neoliberalismo imposto a fórceps por Maurício Macri, o insano e cruel neoliberal contra o povo de seu país. Sem dó e piedade ele impõe o que de pior existe contra os interesses populares. Nas ruas e nas lutas é mais do que perceptível as muitas formas, não só de resistência, mas de enfrentamento ao baú de maldades despejados contra os costados do povo.

Hoje cedo circulo por uma manifestação de professores da rede pública estatal aqui em Buenos Aires, onde me encontro desde sábado. Todos clamando em alto e bom som contra o fim de feira imposto pelo prefeito Larreta e o presidente Macri, em algo parecido do que fez com os brasileiros os governos de Dória na capital paulista e Alckmin no estado de São Paulo. O tormento vivido pelos professores argentinos é similar ao nosso. Tanto aqui como aí, mais do que perceptível, a intenção de dar cabo em direitos e garantias. Tudo fazem para tornar o ensino público uma espécie de caos estabelecido. A intenção é mais do que evidente. Precarizando tudo reduzem tudo para um verdadeiro inferno. Esse boçais querem se livrar com o neoliberalismo de todas as obrigações impostas para o Estado. Partidários do Estado Mínimo, querem se ver livres de suas obrigações. Tiro uma foto de um professor com uma placa pendurada no pescoço na manifestação de rua e demonstrando toda sua insatisfação contra Macri. Se estivesse no Brasil o alvo, com certeza, seria temer. Ambos não valem nada.

Nas ruas de Palermo, feira de San Telmo, domingo pela manhã algo a mais nas paredes. As inscrições nas paredes dizem muito mais que mil palavras. Com os turistas circulando pelas ruas muito do que realmente pulsa país afora. Quando observo um artesão com um pequeno cartaz contrário às malversações macristas exposto em sua banca, me aproximo e peço permissão para a foto. Eles permitem e se assustam de ver um brasileiro conhecedor da famosa sigla hoje tomando conta do país, a MMLPQLP. Seus relatos são os mais dolorosos possíveis. A situação piorou muito para todos eles, me dizem, mas Macri, com a insensibilidade que lhe é peculiar insiste em continuar culpando e jogando toda a culpa pelo desastre do seu governo nos costado de Cristina Kirchner, a mandatária anterior. Fará isso ad eternum. Cai nessa quem quer. Esses tantos, trabalhadores das ‘calles’ portenhas sabem onde o calo lhes aperta. É com esses que gosto de estar, conversar e me informar. As mais precisas e honestas informações sobre a real situação da Argentina recebo desses.

Defronte onde estamos hospedados, num apartamento via AIRBNB, na avenida Rivadavia, um grafite com quem tirou a Argentina do FMI, Nestor Kirchner. Impossível não tomar partido. Hoje, a imensa maioria dos argentinos já reconhece o erro em ter votado num neoliberal a desrespeitar os direitos dos trabalhadores. O país era bem outro com Nestor e depois com Cristina. Hoje o caos com Maurício Macri. Os tempos atuais, miséria estabelecida são de bruta saudade para o povo, resistindo ao seu modo e jeito. Converso também hoje com um taxista e lhe lhe pergunto sobre essa comparação. Ele me diz já ter apoiado Macri, mas sua ficha caiu. Hoje, com seu salário reduzido, condições de trabalho precarizadas, sente e sabe que foi enganado. Propagandearam que com Cristina a corrupção se dava em altos índices, mas hoje esse índice é muito mais elevado e o povo está numa miserabilidade de intensidade muito maior que antes. O mesmo se deu no Brasil. Culpam Lula de tudo, mas na verdade quem de fato são os piores corruptos são os que vieram depois dele. O taxista se lamenta e sente a crise no bolso. No desalento vê que até as formas de reação são diferentes. Com Cristina as manifestações eram todas permitidas, a polícia Não batia no povo e hoje estão colocando até os militares contra as manifestações. “Estamos encurralados”, me diz.

Esses três exemplos são mais do que latentes de um país que, até para mim, turista, fácil de ser identificado. A Argentina que conheci anos atrás, primeiro com Nestor e depois com Cristina não mais existe. Hoje vejo o medo estampado na face da população e a miséria aumentando a olhos vistos. Como melhor exemplo, hoje são necessário 30 pesos para se comprar um só dólar. No Brasil, a proporção é menor, mas também preocupante, 4 por 1. Se o neoliberalismo continuar a tendência é piorar.

domingo, 29 de julho de 2018

CARTAS (190)


POR QUE ALGUNS CAEM NA LADAINHA DE BOLSONARO? *

* carta de minha lavra e responsabilidade publicada na edição de hoje da Teribuna do Leitor, Jornal da Cidade, Bauru SP: 

Circulo por aí e vejo alguns amigos caindo na ladainha do Jair Bolsonaro. Espanta ver esses, com certa bagagem de vida, já tendo cruzado alguns Rubicões e mesmo assim, a cantilena do discurso miúdo, raso, sem nenhum conteúdo alteraram a simbiose de seus cérebros e hoje defendem o cara que o próprio Exército renega. O que leva uma pessoa com tempo vivido, andanças mil, experimentações outras se deixar levar por algo não representando nada de novo, mas tudo de atraso e retrocesso? Seria só o desencanto ou tem algo mais envolvido no imbróglio?

Acompanho os escritos neste jornal, a Tribuna do Leitor, outros espaços e publicações. Junto alguns nomes e a compreensão me foge da percepção do ponderável. Como pode alguém como o ilustre professor e fotógrafo Luiz Augusto Teixeira Ribeiro se deixar levar por algo assim, diante de tudo o que já passou na vida? Não lhe falta compreensão de nada, nem do passado, muito menos do presente, mas mesmo assim aplaude entusiasmado a propositura da não propositura. Outro é o fotógrafo de todos os eventos sociais de Bauru, o Flavio Guedes e hoje seguindo o canto da sereia de um que, até no canto desafina. Com ele vejo o astronauta bauruense, Marcos Pontes já com ligação umbilical com o partido do cara, brigando até para ser seu vive. Vejo entristecido meu mano, arquiteto dos bons, Edson Aquino, católico devoto da Canção Nova, crendo ser o cara um defensor da família e dos bons costumes. Haroldo Amaral foi um cara envolvido com os bastidores desta aldeia e hoje, prefere estar ao lado das ideias mais conservadoras do rincão e da nação. Coaracy Domingues incentiva os posts favoráveis ao cara, seguindo com sua metralhadora giratória contra várias hostes, mas nesse quesito, cordeiro da algo sem explicações, nexo e pusilanimidade. O pastor Luiz Carlos Valle, ex-vereador encampa suas propostas como viáveis. Algo mais que preocupante.


Os nomes, felizmente, não são numerosos. A campanha do gajo permanece com os índices rebaixados, aceitação reduzida, porém cheia de esperneios, devorteios e exaltações devolutas. O espanto é como aflora alguns com essa linha de pensamento, até então adormecidos, ofuscados ou tolhidos de entrar nas contendas. Hoje batem no peito, estufam a plumagem, rasgam a própria Constituição, tudo para fazer a defesa do que defende acabar com tudo, criar o imponderável e navegar de arma em punho, matar animais, apunhalar direitos, encurralar os diferentes, empastelar quem pense de outra forma.

Desconcertante situação e momento. Vejo que, no momento, de nada adianta propor diálogo com quem entra numa barca dessas, sendo que depois, reclamações do tipo, "entrei de gaiato num navio", não serão aceitas. O Brasil precisa de avanços, gente que o defenda, que o queira altaneiro, soberano, liberto e não atrelado a um conservadorismo que só o fará andar de marcha ré. Lutemos contra quem, queira conduzir o país para abismo neoliberal, reducionismo de manada aceitando as leis do mercado acima de tudo e todos. Já nos basta os golpistas de hoje, mas insistem am algo ainda pior. Onde vai dar isso tudo? Resistir é preciso.

sábado, 28 de julho de 2018

INTERVENÇÕES DO SUPER-HERÓI BAURUENSE (115)


POR QUE TANTOS CANDIDATOS EM BAURU?

Essa uma velha e inquietante questão: Por que em véspera de eleições para Deputados Federais e Estaduais pipocam por tudo quanto é lado aquela infinidade de candidatos se dizendo bauruenses e a clamar serem eles os com reais chances de serem eleitos? Guardião, o super-herói bauruense, se predispõe a analisar a questão em algumas de suas vertentes e expor um pouco mais do problema. "Se dizer candidato todos podem ter essa vontade, desejo acalantado internamente, mas ter realmente um projeto a envolver as grandes questões bauruenses e nacionais, principalmente os na defesa dos interesses da população necessitada, quantos de fato o possuem?", começa nosso homem de capa e espada.

"Numa dita democracia como a vivida pelo país, todos gostam de apregoar estar a serviço de um chamado do partido e até da população, do eleitor, mas escancarado que não é isso o que leva a maioria a postular ser eleito. Perceptível que a maioria lança seus nomes, por um desejo pessoal, do partido, grupo político que representam e por último, a cidade de Bauru, o desejo realmente de servir à sua comunidade. Não adianta virem me explicar do contrário, pois sempre foi assim e com a avalanche de nomes exposta hoje como candidatos, só a confirmação. Quantos de fato pensam em agir na defesa do povão, ou até melhor, quais interesses a maioria dos postulantes possui em relação a isso? Tentemos responder essa simples questão e que a partir daí, dessa análise mais sensata, possa ser de fato dado o voto", continua.

Olha o toque dado para um algo a mais na questão: "No discurso todos se dizem os salvadores da pátria, mas como o ditado, mais do que perceptível, o por fora bela viola, por dentro pão bolorento. Em toda eleição fazem questão de levantar a bandeira do 'bauruense vota em bauruense'. Balela, pois nem sempre a pessoa daqui é a mais apta a nos representar. E não será tendo alguém de Bauru eleito, o sinal da evidência que nos defenderá. O buraco, como se sabe, é muito mais embaixo. O melhor mesmo é aquela filtrada, colocar os nomes numa bandeja e ir observando o que dizem, como se sai sobre cada questão, o posicionamento diante dos fatos. Na situação atual, entrar de 'gaiato no navio' ou 'comer gato por lebre' é algo que só vai dar continuidade nessa política inescrupulosa hoje em prática em todo território nacional. E não entrem nessa de que votando em bauruense, tudo melhorarás. Depende e muito de quem for o escolhido".

Por fim, conclui: "Na extensa relação de nomes, oriunda de quase todos os segmentos políticos, existem alguns poucos merecedores do voto. Observemos muito bem quem seriam esses. Muitos estão aí para defender interesses alheios aos que a população necessita e clama, representam seus próprios interesses e também o de grupos econômicos poderosos, os que cravam a estaca nos costados do povo. Se fazem de bonzinhos agora e se eleitos se juntariam ao que de pior existe na política nacional. Não caia na cantilena de que, com algum deputado de Bauru eleito, nossas reivindicações estariam melhor atendidas. Nem sempre. A encruzilhada onde o país se meteu nos últimos tempos exige algo muito acima disso, principalmente em quem vais nos representar daqui por diante. E se você vota num cara que sabe de antemão não vai fazer nada para mudar esse estado de coisas, com certeza, deve ser isso o que quer para a política".

E diante da balbúrdia estabelecida com o discurso de todos, deixa cravado o seu recado e dá por encerrada a questão.

OBS.: Guardião é criação da verve criativa do artista Gonçalez Leandro, com pitacos escrevinhativos do mafuento HPA.

sexta-feira, 27 de julho de 2018

FRASES DE UM LIVRO LIDO (129)


OS QUE TRAEM ATÉ A SOMBRA, TUDO PARA CONTINUAR NO PODER - “JOSEPH FOUCHE”, livro de Stefan Zweig, Editora Guanabara RJ, 1936, 250 páginas.


Dedicado neste exato momento para Aldo Rabelo, ex-PCdo B, PSB e agora num partideco qualquer e tentando ser vice do SANTO “do pau oco”, Geraldo Alckmin.

Primeiro a história do livro: Publicado no Brasil em 1936, foi presenteado para avô de Ana Bia em 1938 com dedicatória na primeira página. Anotações e grifos feitos na leitura de alguém da família, terminada em 13/04/1952. O encontro dias atrás numa caixa com livros antigos trazidos do Rio, casa de Ana, pertences antigos dela e de dona Darcy, sua mãe. O tema muito me interessou, o autor mais ainda (tudo de Zweig muito me interessa) e comovente o reencontro com um livro lido pela última vez quando ainda não era nem um projeto de vida. Fouché sobreviveu à revolução francesa, escapou da guilhotina, traiu Robespierre e tantos outros, inclusive Napoleão e por fim, com sua queda, aos 56 anos, assume finalmente o poder e ajuda a reestabelecer o reinado na França, mas é traído, esquecido e morre no ostracismo. Um pérfido, desses encontrados por todos os lados. A sua relação com o e no podere é facilmente transferível e aplicada ainda hoje mundo afora. Em Bauru, vários e ignóbeis exemplos.

Prefácio: “Traidor nato, intrigante miserável, natureza de réptil, homem absolutamente sem moral e moralista desprezível, nenhum injúria foi-lhe poupada, ausência admiravelmente constante de caráter. (...) Este homem que foi o mais desprezado e malvisto dos homens da Revolução e do Império. (...) este homem, de rosto pálido, tinha lenta e silenciosamente estudado os homens, as causas, os interesses da cena política; penetrou os segredos de Bonaparte, deu-lhe uteis conselhos e preciosas informações. (...) Soube, enquanto vivo, ficar na história como figura oculta: ele não gostava de mostrar nem o seu rosto, nem o seu jogo. Sua ação é invisível como a de um mecanismo de um relógio. (...) Desta ração intelectual, que ainda não foi completamente examinada, e que é, mesmo, a mais perigosa das que existem no universo. (...) fez parte de uma categoria de homens de muito menos valor, porém mais espertos, quero dizer, aqueles que trabalham nos bastidores. (...) No jogo ambíguo e muitas vezes criminoso da política, não são os homens de ideias largas e morais, de convicções inabaláveis que vencem, mais sim esses jogadores profissionais, que chamamos diplomatas, esses artistas de mãos larápias, palavras ocas e nervos gelados”.

Uma história atravessando séculos. Fouché tem seguidores desde então. Muitos o fazem sem ao menos conhecer o original. Quantos durante a história da humanidade não agem da mesma forma e jeito. Se adequam às circunstâncias, não se afastam por nada deste mundo do poder e para estar sempre nos píncaros da glória fazem de tudo e mais um pouco. Trair é só o começo. Quantos vejo hoje com os pés em várias canoas, mas só opinando quando um desses se torna vitorioso. Daí por diante faz de tudo para continuar até o lado deste, até o exato momento em que esse cai. Seguirá grudado ao poder, mudando de lado com uma facilidade “fouchequiana”. Vejamos as frases separadas do livro, um dos que mais gostei nos últimos tempos. Em tempo: Depois deste, volto para as caixas dos antigos de minha sogra, pois outras preciosidades ali, com certeza, encontrarei e serão devorados com a mesma voracidade deste. Eis as frases:

- “Sua repugnância a se ligar inteira e irrevogavelmente a alguém e a alguma coisa. (...) Como sempre, em cada posição que ocupou, guardou para si a liberdade de recuar, a possibilidade de mudar e de ir para longe. (...) Não se entregará de corpo e alma nem a Revolução, nem ao Diretório, nem ao Consulado, nem ao Império, nem a Realeza: nunca, nem mesmo a Deus, e muito menos a um homem. Joseph Fouché jurou ser fiel toda a sua vida a si mesmo”, pg. 10.
- “O sangue, os sentidos, a alma, estes elementos turvos de sensibilidade, que existem em todo o homem normal, não tem nenhum papel neste misterioso jogador, no qual toda paixão está contida no cérebro. A aventura é o vício desse seco burocrata, sua paixão – a intriga”, pg. 16.
- “Ele não conhece senão um partido, do qual é e ficará fiel até o fim: o partido mais forte, a maioria”, pg. 19.
- “Uma revolução, ele o sabe por experiência precoce, não pertence nunca ao primeiro que a desencadeou, mas sempre no ultimo, que a termina, e que a puxa para si, como um despojo”, pgs. 20 e 21.
- “Vinte e quatro horas, as vezes uma hora, um minuto e até um segundo, bastam-lhe para deitar fora sua fé e desfraldar barulhamente uma outra”, pg. 26.
- “Exatamente como os generais da Revolução perante o inimigo, todos eles sabem que uma só coisa os salvará do cutelo da guilhotina e os justificará: a vitória”, pg. 30
- “É sempre, precisamente, o crente mais puro, o ser religioso e extático, o reformador ansioso por melhorar o mundo, que, com os desígnios mais nobres, dá impulso à matança e aos males, que ele próprio detesta”, pg. 38
- “...a História universal não é, somente, como se diz, a história da coragem dos homens; é também a história da covardia dos homens”, pg. 46
- “Um ano de guilhotina tirou toda a coragem moral a estes homens. Aqueles, que outrora se entregavam livremente às suas convicções com paixão, que se atiravam barulhenta, ousada e abertamente na batalha das palavras e ideias, não mais ousam pronunciar coisa alguma”, pg. 60
- “...nada torna mais vil um homem, sobretudo um conjunto de homens, do que o medo do invisível”, pg. 61
- “...julga que toda opinião contrária a sua é, não somente de qualidade inferior, mas ainda uma traição e, ei porque com o gesto glacial de um inquisidor, ele empurra, como heréticos, todos aqueles que não pensam como ele, para essa fogueira de um novo gênero, que é a guilhotina”, pg. 63
- “A história é quase sempre escrita segundo as aparências”, pg. 72
- “Fouché, imitando o exemplo de mais de um animal, finge estar morto, precisamente para evitar a morte”, pg. 88
- “O exílio é sempre para o homem verdadeiramente forte, não uma diminuição, mas um aumento de força”, pg. 90
- “Pode-se ganhar em tudo, contanto que se tenha mãos ágeis e despudoradas e boas relações com o governo. Mas há sobretudo uma fonte de riqueza de uma magnificência incomparável: a guerra”, pg. 93
- “Mas Fouché nada tinha de sentimental; ele pode, quando o quer, esquecer o seu passado de uma maneiras incrivelmente rápida”, pg. 98
- “Fouché tinha razão: contra homens, é preciso lutar; mas parlapatões abatem-se com um gesto”, pg. 99
- “...joga sempre um jogo duplo, triplo, quadruplo; enganar e iludir toda a gente, em todas as mesas de jogo, torna-se pouco a pouco sua paixão”, pg. 102
- “Ele conhece o fraco da humanidade pelo dinheiro, pelo luxo, pelos pequenos vícios, pelos prazeres pessoais. Seja! Gozem, mas fiquem quietos”, pg. 104
- “Ele guarda, estrita e fielmente, o seu princípio fundamental nunca aprovar nada decisivamente, enquanto não souber de quem é a vitória”, pg. 109
- “...tem um único gozo na terra: o prazer da ambiguidade, o atrativo que queima e o perigo da excitante duplicidade”, pg. 111 e 112
- “Podem rir dele, contanto que lhe obedeçam, contanto que o temam”, pg. 115
- “Os reis não amam aqueles que os viram no momento de suas fraquezas e os caracteres despóticos, não amam também os conselheiros, quando esses se mostrem, sequer uma só vez, mais inteligentes que eles”, pg. 125
- “Porque o poder é como a cabeça da Medusa; aquele que lhe viu o rosto não pode mais desviar daí os olhos: fica fascinado e encantado. Aquele que, uma só vez, provou a embriaguez do poder e do mando não pode mais dispensá-la”, pg. 131
- “Napoleão não gosta de Fouché; Fouché não gosta de Napoleão; cheios de antiapatia secreta eles se auxiliam, um ao outro, unidos somente pela atração dos polos contrários”, pg. 134
- “Quanto mais Napoleão se torna poderoso, mais ele odeia Napoleão”, pg. 140
- “Os governos, a forma do Estado, os homens mudam: tudo cai e desaparece no torvelinho furioso do fim do século; só um homem fica sempre no mesmo lugar, com todos os amos e com todos os regimes: Joseph Fouché”, pg. 151
- “Quando alguém lhe pisa os pés, ele não lhe bate nunca com o punho fechado, mas sempre, e sobretudo quando está mais irritado, empunha o chicote do ridículo, e de tal maneira fustiga o adversário, que o torna quase louco”, pg. 169
- “Sim, é esse o homem que é preciso; é o único que se pode empregar sempre, e para tudo”, pg. 191
- “Este soberbo e apaixonado jogador do espírito tem um defeito trágico: não pode ficar afastado, não pode sequer por um segundo, ser o espectador do jogo do universo. É preciso que tenha sempre as cartas na mão, que jogue, corte, engane, afaste os parceiros, dobre a parada e apresente o triunfo. É preciso que tenha sempre o seu lugar numa mesa de jogo, pouco importa qual seja: a do rei, do imperador ou da república”, pg. 199 e 200.
- “Dez anos de esforçada inimizade ligam muitas vezes mais misteriosamente os homens do que uma amizade medíocre”, pg. 201
- “...de repente aquele homem, que tinha enganado todo o mundo, passa a ser agora considerado o único jogador digno da confiança do jogo da política”, pg. 204
- “Seu gênero não é enganar unicamente a um só homem – fosse embora esse homem Napoleão – seu único prazer é sempre o de enganar toda gente, não se ligar a ninguém, tentar a todos, brincar simultaneamente com todos os partidos e contra todos os partidos, não agir nunca, segundo planos previamente estabelecidos, mas segundo os que lhe exigem seus nervos”, pgs. 206 e 207
- “Toda a gloriosa geração dessa curva da História, que não tem precedente, caiu; só Fouché subiu, graças a sua paciência tenaz, trabalhando na obscuridade e subterraneamente”, pg. 223
- “Tal como Napoleão, Fouché não sabe abdicar um minuto antes que lhe deem o golpe fatal”, pg. 224
- “As astucias, os protestos, as conspirações tudo isso de nada serve: um poderoso deste mundo que não tem mais poder, um político que acabou, um intrigante que esgotou as suas intrigas, são sempre a mais lamentável coisa que há na terra”, pg. 240
- “Aquele que só tinha o favor de todos, porque todos o temiam, é desprezado por todos, desde que lhe perderam o medo: o maior dos jogadores políticos perdeu a partida”, pgs. 242 e 243
- “Seja como for, no seu leito de morte, por um ato de benevolência, nele inteiramente novo, que se diria quase piedade, destruiu tudo o que poderia comprometer a outrem e vinga-lo de seus inimigos; pela primeira vez, cansado dos homens e da existência, procurou assim, não a glória e o poder, mas outra felicidade: o esquecimento”, pg. 248
- “...ele levou consigo, ciumentamente, para a terra fria, seus segredos, para ficar ele próprio em segredo, alguma coisa de crepuscular, que oscila entre a luz e a sombra – um rosto que não se descobre inteiramente”, pg. 249

quinta-feira, 26 de julho de 2018

DIÁRIO DE CUBA (99)


TRÊS TEMAS APARENTEMENTE SEM CONEXÃO, PORÉM...*

* Adoro brincar misturando Cuba e Brasil, enfim, em Cuba tem disso não, só aqui.

1.) HILDA HILST HOMENAGEADA NA FLIP PARATY NESTE FINAL DE SEMANA - ALGO DE QUANDO RENEGOU JAÚ, SUA TERRA NATAL

Falar desta poetisa é chover no molhado. Quem nada conhece deve parar tudo e espiar já, nem que for via google. Descubram vocês mesmos quem venha a ser a "Obscena Senhora H". De sua vasta obra, nada a acrescentar, mas muito mais, sempre, a ser devorado, ainda mais nesses tempos onde a leitura não só está em baixa, mas quando contestatória, sendo considerada subversiva, perigosa e prejudicial aos bons costumes da manada que se transformou o povo brasileiro. Dela só uma coisinha. É jauense e de família com nome e sobrenome garboso, cintiloso e daqueles que certa feita cercaram Jaú com arame farpado para não ser invadida por forasteiros indesejados. Isso pode ser lenda, mas ela não aguentou a cidade e se foi para uma fazenda nos arredores de Campinas e ali viveu isolada e fazendo o que sempre quis. "Desde os atos inaugurais de ocultar o sobrenome provinciano-aristocrático Almeida Prado no nome público e se firmar como poeta ainda muito jovem, Hilda Hilst, nascida em Jaú, em 1930, numa família de fazendeiros, fez dos desvios das normas sua própria norma de conduta", Pedro Alexandre Sanches, in Carta Capital desta semana. Sei que alguns podem dizer, "mas com grana tudo é possível". Sim, pode ser, muito mais fácil, mas sem grana vejo muitos fazendo algo parecido e eles todos reverencio com o devido louvor. Queria neste momento não deixar passar batido que, ela sempre morou no meu coração e sendo gauche na vida, exemplo eterno para esse hoje um tanto cansado lobo das estepes. Eu bem que tento "hildar", algumas vezes consigo, noutras me estrepo, mas adoro continuar inistindo. A FLIP continua valendo a pena só por homenagens como essa. Queria estar por lá.

2.) O JORNAL FALA EM RECUPERAÇÃO, MAS A REALIDADE DAS RUAS DEMONSTRA O CONTRÁRIO

A tira publicada hoje pelo jornal diário argentino Página 12, obra do Miguel Rep é cara da rua Batista de Carvalho, principalmente suas primeiras quadras. Antigamente contava-se nos dedos (de uma mão) as lojas fechadas, hoje a conta é feita exatamente ao contrário, a conta se faz em quantas permanecem abertas. Nunca vi em toda minha vida uma porcentagem tão alta de lojas fechadas no quadrilátero do mais agitado, famoso e movimentado centro comercial de Bauru, o envolvendo a rua Batista de Carvalho, o dito Calçadão da Batista e seu entorno. Seria isso tudo SINAL DE RECUPERAÇÃO, visualizado a olho nu, sem nenhuma necessidade de estatística e artigos comprobatórios ao contrário, mas mesmo assim, alguns (poucos, diria) insistem em tentar provar o inaceitável, o inconcebível, o insólito, o que nossos próprios olhos desmentem. A situação não está nada boa e para constatar isso basta uma simples andadinha pelo centro bauruense e um amigável papo com o pessoal envolvido com o comércio. Não se reserve a fazê-lo somente com os comerciantes, faça também junto aos comerciários e verás se o momento é bom, alvissareiro e em plena recuperação, como li no jornal. As plaquinhas de "FECHADO" (CERRADO em espanhol) espalhadas por todos os cantos desmentem qualquer coisa dita como possível recuperação. Falta para alguns exatamente isso, botar os pés nas calçadas, sentir o cheiro da coisa in loco. O país administrado pelo ilegítimo Temer, golpista de primeira instância e seus apoiadores (quem mesmo aqui em Bauru?) são os únicos culpados desse quadro. Não me venham querer culpar quem nos governava no passado, pois já se passou tempo demais da saída desses do governo e a situação se agravou ainda mais com as ações embrutecidas, cruéis e insanas dos que tomaram o Governo de assalto (o golpe não foi exatamente isso?). A reação tem que vir do povo, desmentido isso, se posicionamento contra o discurso reducionista e demonstrando quem de fato tem razão. A miséria está se instalando nas ruas bauruenses e só não vê quem não sai às ruas. Na mesma tira algo que para muitos nem é percebido, o aumento do número de moradores de rua, vivendo sob essas marquises fechadas. Esse é outro incomensurável problema social e deveria ser enfrentado de frente pelos detentores da atual administração municipal. No desenho de Rep a foto da rua Batista de Carvalho e tudo que a cerca, sem tirar nem por.

3.) COLORINDO VIDAS, CALÇADAS E SONHOS

Que o mundo anda mais do que opaco, disso não existe a menor dúvida. O neoliberalismo na sua fase mais predatória, implantado a forcéps no Brasil após defenestrarem Dilma do poder foi a gota d'água da tristeza nacional, também derrocada do que nos restava de país altaneiro e soberano. Hoje somos o paraíso da desolação. Quando saio pelas ruas e me deparo com algo a fugir do trivial, paro e me regozijo. O benfazejo vem nas pequenas coisas, simples demonstrações de que colorindo a vida é quase a mesma coisa que sair por aí dizendo ser contra o opaco, o modo de vida imposto como única alternativa para este mundo. Lá defronte a bonita loja do Eurico, a Paiol, na rua Julio Maringoni um belo exemplo disto, com um imenso pano de chita revestindo parte do caule da arvore defronte o estabelecimento. A intenção dele pode não ter sido a de transgredir, mas ao ver a instalação fugindo do trivial, me inspira para fazeres outros, montagens diversas para se contrapor à mesmice imposta por quem segue religiosasamente essas tais de leis do mercado. Eu mesmo já vou fazer algo na minha calçada, propondo uma transgressão como modo de enfrentamento a essa brutalidade sendo cravada nos costados do povo brasileiro.
OBS.: Na foto, caminhando de costas na calçada, Ana Bia e Helena Aquino, duas também inquietas pessoas diante da barbaridade imposta pela mesmice e parvoice nacional.
A irreverência desta insólita Hilda nunca foi compreendida pela vizinha e conservadora Jaú...

quarta-feira, 25 de julho de 2018

ALGO DA INTERNET (142)


A MELHOR PIADA DO DIA (OU SERIA DO MÊS, OU MELHOR, DO ANO)

Não sei como ainda tem gente a acreditar em ladainhas desse tipo e jeito. Enfim, isso serve a quem? Só mesmo abestados caem nessa.

Quarta, 0h26, 25 de julho de 2018, minutos antes de estar pronto a esticar o corpo e tentar dormir. Com essa deslavada invencionice do descalabro dos que defendem o golpe mesmo diante da tamanha desfaçatez do país afundado até as tampas, perco o sono. Dar voz para essa ladainha é muito para minha cabeça. SEMPRE O MESMO.

Vejam o link da matéria do JC, 24/07/2018 – Economia - Em seis anos, Bauru tem melhor saldo de emprego no 1.º semestre. Foram 3.084 novas vagas de trabalho criadas na cidade de janeiro a junho deste ano; nível de emprego também cresceu no Estado e no Brasil: https://www.jcnet.com.br/Economia/2018/07/em-seis-anos-bauru-tem-melhor-saldo-de-emprego-no-1o-semestre.html


Tratando-se de piada, eis os comentários dos diletos leitores via facebook:

Valdo Araujo: Meu filho e a namorada dele estão procurando emprego, e a coisa tá feia.
Juliana Guido Tá bom que são só treze milhões de desempregados... E eu sou a Scarlett Johansson.
Tuta Caetano Golpistas fora !!!!
Karen Romano RS emprego até pode ser que tenha mas a tal " meritocracia" e os Quem Indica da vida não atende a demanda né bando de hipócritas
Foto da matéria do JC, com nada menos que...
Bel Marques Começou a campanha política descarada ... Mentira!#NÃO tem emprego é subemprego é economia informal ... o que tem de gente vendendo comida em farol é brincadeira ... tudo gente com diploma ... PSDB inventando estatistica , vender comida pelas ruas não é emprego ... Desafio qualquer um dizer que não tem pelo 2 desempregados na família ...
Karen Romano ah e qto tem um emprego de faxina precisa de ver os comentários que as pessoas colocam..
Gilson Gimenes Vamos festejar como idiotas!
Helena Aquino Pensam que somos idiotas.
É o mesmo caso da tal inflação zero, que Temeroso e Alckmin vomitam.
Sonia Mauricio Querendo tapar o sol com a peneira!!!
Lazaro Carneiro Carneiro querem nos passar a ideia de que todo dia tem um mercado inaugurando ali na esquina .
Fatima Brasilia Faria O país do faz de conta.....
X Dialético Júnior é o emprego intermitente, que o cara não trabalha, não ganha, mas está empregado !
Gilberto Truijo NOTICIA MENTIROSA.. QUEREM NOS ENGANAR NOVAMENTE. TEMOS QUE JOGAR DURO. PIADA DO SÉCULO.
Oscar Fernandes da Cunha Olha, que irei cantar aquela música.....do Bauru Sem Tomate é Mixto. Ele está doidinho para fazer parte da próxima marchinha.

Valquiria Correa Só jesus ó a senha do emprego, TAUSTE 1351. .Gerenciar
Valdo Araujo Kkkk você tá bem em, a senha do meu filho é 3.554
Aparecido Ribeiro É com esse blá blá blá que os golpistas vão tentando controlar e manter o otimismo dos desinformados.
Kananga Do Alemão QUE MENTIRA
Lydiane Moura Piada do mês!
Yone Santos Ridículo, só a fila que esta no Tauste essa semana já comprova essa mentira.
Rosana Zani Como esse povo mente!!!
Hermann Schroeder Junior Desempenha bem o seu papel.
Bkl Bruno recuperou 40% do perdido nos últimos anos...em junho o último dado levantado é preocupante...e 2.4 mil candidatos pra 500 vagas quase 5X mais o número de vagas, isso indica que o alto desemprego e todos querendo uma oportunidade de trabalho. A realidade não é boa, mas os dados apresentados pelo registro em carteira é um alento.
Mariangela Bincoleto Somente pra ele e família......deve ser. Aff.... Quanta m.......
Valdir Ferreira de Souza Ele esta fazendo estand up agora, kkkkkkkkkk.
Olga Marques É fake...
Henrique Perazzi de Aquino O duro é que o cara repete a ladainha por onde vá e o pessoal do JC entra na dele.
Olga Marques Henrique Perazzi de Aquino kkkkGerenciar
Cristina Bianconcini Parece piada de mau gosto. 

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terça-feira, 24 de julho de 2018

PERGUNTAR NÃO OFENDE ou QUE SAUDADE DE ERNESTO VARELA (137)


FILAS DE DESEMPREGADOS ESCANCARAM O RESULTADO DO GOLPE SOBRE NOSSAS VIDAS
Antes de algo sobre a situação nacional, ontem amigos mostravam a fila para os novos empregos no Tauste da Duque de Caxias. A notícia dada na edição de ontem do Jornal da Cidade: https://m.jcnet.com.br/Geral/2018/07/tauste-abre-500-vagas-de-emprego-em-bauru.html

“O povo está fila para emprego no Tauste desde ontem a noite, mais de 1.500 pessoas na fila disputando 500 vagas... e na TV eles tem a coragem de dizer que a taxa de desemprego caiu 🤔 onde ?”, Larissa Aguiar.
“Olha a fila do povo que ta procurando um emprego vaga para o Tauste bauru, E tá melhorando, tem 2000 mil pessoas na fila fora temer e #lulalivre. Olha o número da senha porque cheguei as 6 da manhã”, Valquiria Correa


Com essas duas frases e as fotos tiradas ontem pela amiga Valquiria, uma das tantas tentando conseguir uma vaga no Tauste, a primeira coisa que me vem à cabeça são aqueles que, certamente virão comentar e propagando algo assim: "Graças a deus ainda temos emprego e empregadores investindo no país. Isso prova o quanto o capitalismo é bom". Esses existirão sempre, mas são vesgos, pois não enxergam que as condições oferecidas hoje aos trabalhadores é imensamente diferente da de pouco tempo atrás. A nova legislação trabalhista já esté em plena vigência e hoje o trabalhador é obrigado a aceitar a condição imposta, já excluídos os direitos de antanho. Irão ganhar salário mínimo e olha lá. Eis o altaneiro país dos tempos atuais, grande propagador de miséria e migalhas como salário.

Bom seria ver empresários oferecendo essa quantidade de vagas no mercado de trabalho, mas conscientes e sensatos vindo a público dizendo que o fazem seguindo a antiga legislação, pois a atual é por demais cruel com quem trabalha. Se isso ocorresse bateria palmas, mas como sei que não ocorre, vejo esses aumentando seus lucros desmedidamente, pagando bem menos que antes e lucrando tanto quanto. As filas são o resultado do arroxo, da carestia, do momento desesperador e se espalha por todos os lugares. Bastou qualquer anúncio de emprego e as filas diante do endereço dobram esquinas. Dentre todos os candidato para o próximo pleito, a imensa maioria prega a continuidade das leis de mercado, o neoliberalismo como regra de conduta e daí, quando Lula prega algo para atender os clamores das necessidade do povo, o chamam de assistencialista e populista.

Triste retrato do desemprego que assola o país, o que foi visto no vale do Anhangabaú em São Paulo ou no Sambódromo carioca quando da chamada para concurso de lixeiros da Comlurb. A multidão, como em Bauru começa a se aglomerar no dia anterior e tanto nos dois exemoplos citados, como aqui no caso do Tauste, os organizadores tiveram que limitar o atendimento e distribuir senhas entre os candidatos. Liguem uma coisa com a outra e na constatação de que, quando boa parte das conquistas sociais estão ameaçadas, os riscos para a população necessitando de trabalho, esses padecem muito mais. O cenário brasileiro é dramático com o desmonte da rede de proteção social. Com os golpistas continuando a nos governar, isso não será revertido, pois são insensíveis até a medula. Fila será daqui por diante só a ponta do icerberg.


A MESMA ROTINA NEOLIBERAL - A PERDA DE UM EMPREGO FORMAL E A SOBREVIVÊNCIA NUM INFORMAL
Tenho circulado muito de Uber ultimamente pela Bauru e nas conversas com quem está no volante a mais triste constatação, a da perda de um emprego formal e na incessante busca e nada sendo encontrado, se safando junto ao serviço de transporte urbano de passageiros e ali a obtenção da renda para continuar tocando suas vidas. Outros os fazem em pequenos bicos, como o de entregadores variados, colocam também seus veículos à disposição para entregas, etc. O aumento das barbearias pelos quatro cantos da cidade é outro sintoma do mesmo problema. Na impossibilidade de ser contratado por alguma empresa, a pessoa tem que se virar e abre algo, cria algo, pois diante de uma situação famélica, ou faz ou passa fome. Algo na matéria que acabo de ler no melhor jornal diário de toda essa imensa América Latina, o argentino Página 12, eis uma boa reflexão sobre tema tão candente: https://www.pagina12.com.ar/129996-de-la-fabrica-y-el-0-km-a-uber-y-el-monotributo
  

segunda-feira, 23 de julho de 2018

ALFINETADA (167)


LIVROS, MEU FILHO CONTA UMAS E PEDROSO OUTRA – HOJE VENDIDOS POR METRO
Acabo de levar meu filho até diante do Habib’s (não entramos, viu!), onde ele foi de carona para Araraquara. Eles vão e voltam, sempre de carona quase amiga, preço módicos, muito papo na viagem. A condutora era uma jovem, como ele e me despedi dos dois, alegres e ainda crendo em algo possível como futuro. Volto para meus afazeres com belas história contadas por ele quando o levava. Seus relatos araraquarenses. Faz bicos para se sustentar na cidade e num deles, num famoso sebo/livraria, cataloga tudo o que chega para ser exposto na Estante Virtual e Mercado Livre. Diz-me que hoje, as livrarias vendem mais por essa forma que na venda no balcão. Acredito.

Conta uma história e a reconto aqui. Chega um cliente de terno e gravata e se dizendo advogado de um conceituado escritório, com endereço refinado na cidade. Quer livros. Ao explicitar o que deseja, muita desilusão. Na verdade, reformou seu escritório e nele muitas estantes vazias. Quer preenche-las, daí veio buscar livros para que ocupem o espaço vazio. Meu filho sugere títulos, mas não procura por esses, quer simplesmente preencher o espaço. Não teve outra saída, foi aos fundos do estabelecimento e tudo aquilo que estava para ser vendido por quilo, sem nenhum procura foi repassado garbosamente para o refinado cliente. Levou uma imensa prateleira por menos de R$ 300,00, lotou o carro e se foi feliz da vida. Fico pensando na saia justa se um amigo, diante de tantos livros lhe pede uma mera sugestão: “Qual me indica para leitura?”.

Pedroso me conta uma de igual teor. Ele possui também um sebo, esse junto de sua casa lá em Sorocaba. Vende mais algo direcionado, temas políticos, tem clientela certa, mas chega também muita coisa a ocupar espaço e com dificuldade de venda. Tem algumas coleções completas da enciclopédia Barsa e poucos querem isso ainda hoje. Um nordestino liga e diz que o sonho de sua vida é ter uma em sua estante. Vende tudo pela bagatela de R$ 200 reais. O cliente fica feliz, mas se assusta mesmo é com o preço do frete. Pela quantidade e peso o valor do frete é muito maior do que o pago pelos livros. Mesmo assim o tal cliente fica com a coleção. E desta forma terá uma Barsa em sua sala.

Meu filho antes da despedida me conta mais uma e essa sei existir por todos os lugares, inclusive aqui na insólita Bauru. Hoje, me diz, existem muitos clientes arquitetos, decoradores e afins que frequentam sebos somente em busca de coleções, capas duras, de preferência antigos, comprovadamente com cara de usados para montarem a decoração na residência de vetustos senhores , a fina flor de nossas cidades. Compram para ter aquilo como decoração, fundo de fotografias. Eles, os livros, dão um ar de intelectualidade ao ambiente e assim livros continuam sendo vendidos aos borbotões.

TODA BIBLIOTECA DEVERIA TER UM CARTAZ DESSE LOGO NA ENTRADA E EM LETRAS GARRAFAIS

EM TEMPOS MUITO ESCUROS, OS AMIGOS LUMINOSOS SÃO MAIS LUMINOSOS - Miguel Repiso na sua tira diária no jornal argentino Página 12. Isso vale um tratado. Amigos que nos movem, nos fazem sair da letargia e iluminam caminhos. Sigo com alguns luminosos.
BOA SEMANA PARA TUDO, TODAS E TODOS

domingo, 22 de julho de 2018

CENA BAURUENSE (174)


O JOÃO SOUBE DAR A VOLTA POR CIMA
Sempre gostei muito desse João. Primeiro por ter tido o prazer de conhecê-lo bem antes das atividades roceiras que hoje o dominam. Ele foi um elegante atendente na loja da Wilson Roupas, vivia na estica, calça com vinco e coisa e tal. Jogou tudo para cuma e foi viver enfronhado naquilo que gostava de fazer, plantas e vendas nas ruas. Viveu o céu e o inferno. Sei que não se arrepende, pois o reencontro e com uma cara das mais felizes. O João deu a volta por cima.

Fomos casados com duas irmãs Cunha. A minha faleceu, fiquei viúvo, ele continuou até pouco tempo atrás e hoje vive só, morando depois de vender sua casa no São Geraldo. Está lá pelos lados da Pousada da Esperança, onde se diz feliz, ermitão, mas com uma sorriso de orelha a orelha. Contei aqui tempos atrás sua história de quando vendia plantas, com sua Brasilia estacionada na rua Antonio Alves, ali defronte do Empório Barres, do outro lado da rua. Era uma balbúrdia. Começou com verduras, frescas e acabou, por fim, só com mudas de plantas. E é claro, nunca parou de vender na feira, num ponto tradicional, o quase na esquina da Gustavo com a Ezequiel Ramos. O João das Plantas é por demais conhecido. Cliquem a seguir e leiam o que havia escrevinhado quase dez anos atrás: https://mafuadohpa.blogspot.com/search?q=Jo%C3%A3o+verduras.

Sempre batalhou demais da conta pelas suas coisas. Um abnegado feirante, desses que sempre dá vontade de parar e prosear em cada reencontro. Sempre parei e lhe dei a devida atenção. Somos amigos, além de tudo. A coisa definhou e ele desanimou da vida. Perdeu seus pais, se separou e estava vivendo um inferno astral. Se segurava na religião. Os negócios foram se esmilinguindo. Certa feita o vi estudando e querendo prestar concurso para mudar de ramo. Nunca o enxerguei atrás de burocrática mesa, mas estava no desespero.

Tentava buscar uma saída. Ela veio. Muito conhecido por todos do ramo de plantas recebeu um irrecusável convite para cuidar do Viveiros e Mudas Braga lá no Ceasa Bauru, onde já há cinco anos atua de segunda a sábado no horário comercial e aos domingos, marca presença na feira no mesmo lugar de sempre. Enfim, são 30 anos de feira e sempre fazendo algo envolvido com essas questões de plantas e coisas oriundas da terra. Ficou o responsável por tudo no referido box, bem amplo, lugar arejado, cheio de opções, onde atende Bauru e toda região revendendo mudas e plantas, além da orientação de quem entende do assunto, expert no metiê.

João completou 64 anos, está com aquela carinha rachada de sol, queimado até não mais poder, barriga proeminente, roupas puídas, em fim, seu estilo mais que próprio. Simpatia em pessoa, calmo, comedido no que diz, mas um especialista no que faz. No reencontro nos domingos na feira, no último junto com o professor José Laranjeira e dias desses no Ceasa, só de bater os olhos vi nele a cara estampada da felicidade. Soube reverter o momento ruim, conseguiu continuar enfronhado nas duas coisas que gosta, a de ter um emprego para chamar de seu, num lugar onde é o bam-bam-bam no assunto e aos domingos vai flanar na feira, rever pessoas e completar sua renda. O João Sidnei Felipe é mais do que um baita de um cara. Escrevo dele com uma incontida felicidade, pois sei dos trancos e barrancos e agora, sei também ter ele conseguido um lugar estável, onde toca sua vida da melhor maneira possível. Está só, porém feliz. Uma pessoa merecedora não só de uma besta escrevinhação como a minha, mas de um forte abraço. Agora mesmo, domingo, 10h40, acabo de escrever isso tudo, publico e saio para a feira, onde com certeza vou rever o amigo e lhe dar mais um abraço e papear mais um bocadinho.
Feirante João e professor Laranjeira se abraçam na feira dominical.

sábado, 21 de julho de 2018

UM LUGAR POR AÍ (110)



ALMOÇO ASSEMBLÉIA GERAL ASSENTAMENTO AYMORÉS
Com a presença do deputado estadual, o médico Carlos Neder e do ex-deputado e prefeito de Sumaré, padre Tito, ocorreu hoje mais uma Assembléia no Barracão de Bambu do Assentamento Aymorés, tendo como tema central o estudo das possibilidades de quitação com desconto das "Dívidas vencidas ou a vencer junto ao Pronaf" dos moradores do local. Uma bela discussão dessas possibilidades, com amplo debate e depois como almoço uma farta galinhada com mandioca servida a todos os presentes. O Núcleo de Base DNA Petista esteve presente acompanhando os trabalhos e até fez uso da palavra. Nas fotos algo do barracão central do assentamento, onde está localizado as oficinas do projeto de Bambu, algo singular e com a cara deste assentamento.

Conhecer essas experiências em curso nos arredores de Bauru é primordial na necessária saída do casulo em que nos encontramos, ilhados de tudo o que ocorre nas rebarbas, na periferia, nos subúrbios de qualquer cidade. O incentivado individualismo dos dias atuais, proposta imposta pelo excludente neoliberalismo torna a todos pessoas isoladas e não mais praticantes do coletivismo. Triste ver em comentários via facebook algo sobre essas comunidades e sua luta. Muitos enxergam esses como desocupados, bagunceiros e criadores de problema, quando o que de fato ocorre é exatamente o inverso. A visão passada pela mídia massiva é a de que em assentamentos e acampamentos ocorre algo na contramão do dito progresso que o país precisa. Ledo engano. Essa mídia falseia com a verdade em quase tudo o que faz. Os movimentos sociais hoje em atividade são sinais evidentes de uma resistência necessária e lúcida, diante da balbúrdia deste país hoje dominado por mentes sendo conduzidas como manada para uma espécie de matadouro humano. Estamos cada vez mais desumanizados, essa a realidade e poucos ainda conseguem enxergar na luta do semelhante, algo a engrandecer todos nós.


Aceito sempre com louvor convite recebidos como o de estar presente em atos como esse e o faço com o devido respeito que tenho por essas entidades de luta. O trabalho desenvolvido no Assentamento de Aymorés é mais do que grandioso. São décadas até conseguirem suas terras definitivas e ali, experiências individualizadas de comprovação da real necessidade da ampliação da reforma agrária neste país. Isso se nota em todos os detalhes e o primeiro deles, talvez o mais evidente é como sai para consumo o alimento ali produzido. Seguindo a imposição do uso do agrotóxico e mesmo ciente dos seus malefícios, o que se vê sendo ofertado aos consumidores é uma alimentação com grande risco de ser foco de contaminação. A proposta dessas comunidades é exatamente o contrário, algo artesanal e sendo oferecido sem o uso desse grande vilão dos tempos modernos.

Quando envolvido nas questões dessas comunidades, uma real possibilidade de conhecer um pouco mais desse país que pulsa nos que lutam pelas conquistas sociais. Esse projeto de Aymorés é grandioso, primeiro pelo seu caráter pioneiro. Muitos dos ali atuando hoje comprovam que o pedaço de chão nas mãos de quem de fato vai dele fazer uso é mesmo uma excelente saída para o homem do campo. Ele deixa de ser escravo do campo e do grande proprietário, passa a cuidar de algo seu e a partir daí, com apoio de entidades sérias, vai criando consciência e colocando em prática uma saída para esse mundo cada vez incentivando os grandões e menosprezando as experiências coletivas e de cunho social. Estar com pessoas como o José Maria Rodrigues e sua menina dos olhos, o Projeto Bambu, parceria com a Unesp, barracão todo levantado dentro da concepção do projeto e maquinário ali já a serviço da coletividade é constatar de que algo pode ser feito. Esse o papel da universidade pública, o de fortalecer esses projetos, dar-lhes vida e ir renovando o incentivo. Todos crescem e a pesquisa universitária mais ainda, pois é colocada em prática.

Ontem conheci um pouco mais das dificuldades de quem ali reside e dos endividamentos para continuidade de seus projetos de vida. Na busca coletiva por soluções, sempre a melhor saída. Quando se busca uma saída pelo modo individual, sempre mais difícil, dolorosa, mas quando se pensa pela cabeça de todos, as saídas se mostram sempre com melhores resultados. Circulando pelo local ontem com Milton Dota, ex-vereador bauruense e antigo militante das causas sociais, ele observava a terra árida da região e me mostrava um outro lado da questão. "Imagina se ao invés dessas terras todas divididas em pequenos lotes, fosse feito algo como uma grande cooperativa, com os mesmos proprietários dos pequenos lotes administrando o coletivo. Poderiam plantar, por exemplo, duas ou três culturas, dessas que o resultado final se dá em diferentes meses do ano. Venderiam o ano todo, poderiam adquirir maquinário de foma coletiva e a terra estaria toda ocupada, gerando mais possibilidades do que tudo individualizado. Cada um com seu lote, geram cada um problema dentro da dificuldade de cada um. Falta isso nos movimentos atuais, esse pensamento coletivo, a união dos lotes todos gerando algo coletivo e não individualizando as ações", me disse.

O fato é que estar mais e mais em contato com essa realidade nos faz pensar junto deles. Eu me oxigeno, me revitalizo e me recarrego quando junto deles todos, ouço as conversas, sinto suas necessidades, comungo dos problemas. Ontem passei meu dia junto deles e volto de lá com a cabeça sempre fervilhando, em polvorosa. No contato com o Zé Maria, o Celso Fonseca e todos os demais, sinto que fazemos muito pouco. Eles não gostam de bisbilhoteiros, mas de quem saiba entendê-los e até os ajude a compreender melhor isso tudo à nossa volta. Falta isso nas ações coletivas brasileiras. Criticar de longe é sempre muito mais fácil, estar lá, entender o que se passa e a partir daí emitir sua opinião é outra coisa. Gosto de agir dessa forma e jeito.

sexta-feira, 20 de julho de 2018

COMENDO PELAS BEIRADAS (58)


ALGO DO AMIGO VINAGRE NO DIA DO AMIGO - ELE INICIANDO TRATAMENTO DE SAÚDE E TANTOS OUTROS NA MESMA BARCA, INCLUSIVE ESSE HPA
Leio ser hoje o Dia do Amigo. Tenho alguns. Não os 3500 que leio possuir aqui no facebook. Esses são obra de pura ficção. Sei ter alguns bons e fiéis. Na verdade, no mundo atual, a gente nem sabe quem de fato seja amigo de fato ou não. Num lugar onde todos são incentivados a ter atitudes indidualistas e não coletivas, muito das amizades se esvaem entre os dedos. Hoje com uma simples divergência de cunho político alguns te agridem e se afastam sem querer ao menos tentar uma conversa mais amena, algo possível até bem pouco tempo atrás. Está mais comum afastamentos do que aproximações. Daí, manter os ainda a nos ouvir, os ainda a querer conversar, algo salutar, necessário até para se tentar continuar vivendo no meio dessa balbúrdia. Eu tento, alguns me entendem, outros nem tanto. Sigo meu caminho, cheio de dores, enfim, aos 58, recém completados, sinto algo se esvaindo dentro de mim. Minha saúde e minha vitalidade já não é a mesma, decaiu bastante. O corpo padece, quer continuar no mesmo batidão de antes, mas algo o impede, pois surgem dores e impedimentos diversos. Até bem pouco tempo me achava aquele ser infalível, indestrutível e que tudo continuaria dessa forma por muito mais tempo. Ledo engano. Internamente a gente percebe as enormes diferenças de ontem para hoje, transformações obrigatórias. Eu quero prolongar minha estada por aqui, até porque não acredito em outro tipo de vida após essa passagem. O faço ora com denodado esforço, ora com o devido desleixo.

Eu tento ir prolongando minha estada por aqui e vejo tantos outros na mesma sina. Anteontem um amigo passou aqui pelo mafuá. José Vinagre, foi meu secretário Municipal de Cultural, pois era meu chefe durante minha única passagem pelo serviço público, quando de 2005 a 2008 atuei sob seu comando nas hostes do Departamento de Proteção Histórica e Cultural. Guardo histórias inenarráveis de um tempo que não volta mais. Em sua maioria boas recordações. Da convivência com Vinagre, com Sivaldo Camargo, Duilio Duka, Edneia Pires, Adalto Granja, Orlando Alves, Neli Maria Fonseca Viotto, Alex Sanches, Jose De Jesus Dias Jose Dias, Paulo Canalli, Mauricio Porto, Roberto Chinalha, Cassia Puentes Zampieri, Valter Tomaz Ferreira Junior e é claro, tantos outros (as), além do prefeito Tuga Angerami, só tenho boas recordações. Escrevo de Vinagre em especial, pois o danado passa por provações, probleminhas de saúde e vai aos poucos, sendo recauchutado, se tratando e dando seu jeito de prolongar a estadia nesse mundo. Depois de um certo tempo, ele e nós todos sabemos, não existir mais jeito de reparar a contendo essa máquina chamada de corpo humano. A gente vai dando um jeito, tentando como pode ir fazendo uns reparos. Eu tento desmedidamente fazer isso a cada amanhecer. Vinagre está hoje em Jaú, onde permanecerá pelos próximos 30 dias. Foi e está se tratando, se cuidando, dando seu jeito. Estará sendo bem cuidado, longe do convívio de Bauru e dos seus, mas na certeza de ao retornar, uma nova possibilidade, a ampliação da chance de prolongamento da vida. Não sei quantas das sete vidas ele já fez uso até hoje, mas creio ter algumas ainda pela frente para tentar desfrutar desse algo a mais que é a vida humana quando vivida intensamente.

Eu tento viver intensamente tudo onde estou envolvido e metido até as tampas. Sei por conhecê-lo que, Vinagre também age assim. A gente não é nada perfeito, mas tentamos ao nosso modo e jeito buscar a felicidade. Todos só queremos isso, a felicidade. Eu torço muito pelo Vinagre, como sei ele torcer por mim, mesmo discordando de alguns dos meus métodos. Escrevo dele no dia de hoje, como poderia escrever de tantos outros. O escolhi não aleatoriamente, pois quando o vejo delibitado, me posto diante do espelho e ao me ver, nas imperfeições todas ali expostas, sei necessitar urgentemente de cuidados especiais. Todos nós precisamos desses cuidados, até porque acreditamos ainda ter alguma lenha para queimar. O Vinagre se cuida, esse HPA ainda não com a intensidade que gostaria, mas todos tentamos. Mesmo diante de tudo o que vemos em curso pela aí, viver ainda vale muito a pena. Um abraço cordial e apertado no amigo Vinagre e em todos os demais, pois ao escrever dele, o faço de tudo, todas e todas à minha volta. Ele foi só um subterfúgio para me declarar para todos os que gosto.

FOTOS COMO ESSA ME SENSIBILIZAM DEMAIS DA CONTA
https://www.pagina12.com.ar/129501-son-6300-los-que-sufren-la-tormenta-pero-sin-techo
Ela sai estampada na edição de hoje no corpo de uma matéria do diário argentino Página 12, versando sobre o considerável aumento dos moradores de ruas. Cresce esse número por lá, como aqui. A crise moral abatendo nossos países pensa pouco nesses, os sendo despejados para as ruas e ali tendo que viver. A crueldade das cidades, exposta em como quem monta os ambientes onde esses circulam é peculiar e a demonstrar como a insensibilidade viceja. A foto expõe muito dessa insana crueldade, talvez ali debaixo das cobertas, além de adultos, alguma criança, pois uma boneca está sob o banco. O banco possui uma peça exposta como chaga, duas barras fixadas em sua superfície e com o intuito de ali não ser possível que ninguém estenda seu corpo, ninguém ali se deite e tente descansar o corpo combalido das andanças e percalços. A peça existe para isso, para impedir os despossuídos de deitarem. A matéria, por si só, é recheada de dor, muita dor, mas só para os ainda conseguindo se sensibilizar com essa bestialidade ocorrendo no nosso mundo neoliberal capitalista, doente até a medula. O ser humano vale pouco, quase nada e para muitos ainda atrapalha o bom andamento do desenrolar dos acontecimentos, quando se achegam molambentos e sem para onde ir, se deitam e esperam por algo. No olhar desses, quando se consegue olhar nos olhos destes, a certeza de que algo de muito errado segue seu rumo. Eu luto e lutarei até o fim dos meus dias por algo bem diferente do que vejo nessa foto. Para começar, sei que não resolve nada, mas me dá uma vontade insana de ir lá e tirar a forcéps esses impedimentos para que quem necessite, ao menos se deite, estenda seu corpo. Não resolveria quase nada, mas ao menos não ficaria ali exposto como algo feito e pensado contra essa imensidão de desvalidos, cria desse sistema que os faz aumentar e depois cria meios de os impedir de circular. Meu dia começa estragado ao me deparar com fotos como essas.

quinta-feira, 19 de julho de 2018

MEMÓRIA ORAL (227)


SOBERANA É A DIFERENCIADA PADARIA DO TONINHO*

*Histórias das pequenas empresas nas pontas de vilas desta insólita cidade e a movimentar um periférico comércio, cheio de muita garra e disposição. Algo de um desses.

Antonio Luiz Ferreira é o Toninho, esse senhor de 62 anos reside no Gasparini desde a abertura daquele núcleo residencial e desde os 12 atua no ofício de padeiro. São 50 anos na mesma profissão e após tudo ter começado na famosa Padaria no Papai, na rua Sergipe, vila Cardia, teve prosseguimento por 7 anos na São Judas Tadeu, uma que atende nos mesmos moldes da sua, a Soberana, essa já com mais de 15 de mercado. Tudo começou numa sociedade com um sobrinho, primeiro na rua Olegário Machado, vila Falcão, depois mudaram-se para a vila Independência e hoje, já completados seis anos, está na rua Boa Esperança 8-15, jardim Bela Vista, quase ao lado da avenida Nações Norte.

Saber do negócio de fazer pães isso é com ele mesmo e depois de ter padarias com balcão, igualzinho a maioria das existentes por aí, preferiu algo diferente. “A minha, como você vê não tem balcão de atendimento e nem vendo nada além dos pães. Optei por isso depois de penar numa época quando o pão estava muito barato. Resolvi arriscar nesse modelo, virei uma espécie de atacadista do pão, mas atendo também no varejo, só que sem aquele formal apresentação”, começa contando sua história.

Sua clientela basicamente é constituída de pequenos comerciantes, a maioria lanchonetes espalhadas pela cidade de Bauru. “O motorista leva de ponto em ponto os tipos de pães solicitados. Ele começa a entrega lá pelas 14h e vai até umas 18h na rua. São aproximadamente uns 30 clientes fixos e outros avulsos que surgem. A maioria são clientes conquistados ao longo do tempo. A gente leva também calote, mas nos dias de hoje se não der um tiro no escuro e confiar nas pessoas não abro mais clientes novos, pois todos estão cheios de dificuldades. Um ajudando o outro, a coisa anda e todos ganham”, prossegue.

O ambiente é muito simples, porém com bastante organização e asseio, tudo no devido lugar. Sabe o que faz e faz bem feito, esse o seu lema. Seu pequeno negócio tem apenas 3 funcionários, além do motorista e seu horário de funcionamento não é o mesmo das padarias convencionais. “Eu não preciso abrir tão cedo como as demais. Chegamos aqui por volta das 7h da manhã quando muitos outros já estão com suas portas abertas e sigo até umas 20h. Trabalho para os moradores da região, mas o forte mesmo são os embalados, desde pães para hambúrguer, hot-dog, francês, baguete, pães variados para festas e o pão família, um grandão que serve quando recheado para até 8 pessoas”, descreve sua rotina.

Relembra sua história com muita nostalgia e carinho. “Eu comecei com uma carrocinha na rua, dessas com um baú e puxada por um cavalo. Minha buzina era conhecida por onde passava e muitos ao ouvir o som já saiam para fora de suas casas. Certa feita, lá pelos lados do Aeroporto, algo machucou o cavalo e ao soltá-lo para ver o que se passava, ele fugiu e foi um atraso danado, mais de duas horas até conseguir acalmar o animal. Já entreguei de bicicleta e pequenos carrinhos. Só hoje consegui ter um bom veículo próprio para agilizar as entregas. São décadas de muito trabalho e nenhum arrependimento”.

Fala também da concorrência existente hoje, quando muitos não tem mais como arrumar novos empregos e fazem pães em casa, com maquinário de padaria, todos em busca da mesma clientela. “Não faço nada diferente dos outros ramos de negócio. Hoje a gente é obrigado a segurar os preços por causa da enorme quantidade de gente nova tentando a vida nesse ramo. Assim como abrem muitas novas barbearias, gente fazendo pão tem de montão em tudo quanto é bairro. Eu faço questão de contar a história do único vendedor externo que tenho. Criou algo próprio, ele chega sempre por volta das 16h, lota o carro e sai vendendo de porta em porta, clientela certa. Vende tudo. Ele entrega em muitos bares lá na região onde mora, um pouco de pães em cada pequena venda e não volta com nada. Descobriu um filão para sobreviver e se virar. O incentivo a continuar e que outros apareçam com a mesma iniciativa”, conta.

Seu ambiente é o mais simples possível. No salão principal um grande mesa e nela as bandejas que saem dos fornos passam por ali e são ensacadas em plásticos, na quantidade definida para cada cliente. No fundo, direita de quem entra a mesa do seu Toninho, cujo escritório fica no mesmo ambiente do atendimento. Ali também o maior forno do local e na entrada uma porta de vidro separando o ambiente da rua. Nos outros cômodos, mais fornos e noutro o depósito, basicamente de farinha. Esse o espaço da Soberana, essa insólita padaria, bem aos moldes de muitas pequenas empresas localizadas na periferia bauruense, sem pompa, sem estardalhaço, mas cumprindo um papel primordial e atendendo uma também especifica clientela, localizados em sua maioria na mesma periferia.

De periferia para periferia, assim sobrevivem muitas delas, da melhor forma possível. Muitos outros Toninhos estão na lida nesta cidade, mangas das camisas arregaçadas e sobrevivendo bravamente diante de tantos grandões no mesmo ramo de negócio. “O sol nasceu para todos. Sei que com meu trabalho estou aqui cumprindo a minha missão, feliz da vida e fazendo a felicidade de tantos outros”, me diz ao encerrar a conversa.

OBS.: Toninho atende pelos fones 14.32362868 ou 997440747 e novos clientes são sempre bem vindos. Quando lhe abordei para fazer o texto, ele se surpreendeu, desconfiado, me mediu de cima embaixo e por fim me perguntou: "Quanto vai me custar isso?". Ao saber que nada, ainda sem acreditar, demorou para baixar a guarda. Ficamos amigos.