EU LOGO CEDO NA PADARIA, COM JULIO CORTÁZAR NO PEITOEu sei, poucos o conhecem por aqui. Saio estampado no peito alguns pelos quais minha apreciação é exarcebada. Este aqui, cuja camiseta comprei na última estada em Buenos Aires, mais precisamente num artesão na Feira de San Telmo, é nada menos que um dos maiores escritores latinoamericanos, Julio Cortázar, que andou muito pelo Brasil, circulando entre diletos escritos paulistanos. Sua maior referência para mim são os "cronópios" e a muito famoso por misturar o cotidiano e o fantástico em histórias sem ordem linear. "O Jogo da Amarelinha", creio eu, seu mais famoso romance, destes que, quando li pela primeira vez, ia parando e tentando entender antes de prosseguir. Sua leitura é rebuscada e para quem quer se iniciar, adianto não mergulhe de cabeça, pois pegando leve, aos poucos, vai aproveitando melhor.
Não sou gato escaldado e agora, já com 66 nos costados, reler ele é algo difícil, pois o chips de minha mente já está cansado, cheio e para que o entendimento se faça por inteiro, tudo requer mais tempo. Adoro ler Cortázar em estado de vadiagem, pois a concentração se faz mais elegante e assim absorvo mais. Quando vi sua camiseta sendo vendida, um lindo traço de algum artista de rua platino, a peguei e não mais larguei. A trouxe e hoje levanto e vou pra padaria com ela. De cara, assim de bate pronto, quem por lá cruzo é uma das pessoas mais simpáticas do pedaço, uma senhora, nossa miss na padaria aqui da esquina. Deve girar lá pelos 80 e com uma tatuagem na canela, encantadora pessoa. Ela vem até mim e me pergunta quem é o gajo na camiseta. Ao revelar seu nome, ela abre um sorriso e me diz algo profundo dele e do que representa para quem o conhece.
Logo a seguir, já no caixa, o dono da padaria me diz: "Tê tentando me esforçar, mas ainda não reconheci quem seja o cara aí da sua camiseta". Digo ser o escritor argentino Julio Cortázar e ele, também reconhecendo, me diz algo sobre os grandes escritores do país vizinho. Uma pena, Cortázar não ter sido tão difundido por aqui, ou melhor, até foi para para gerações passada e hoje, dentro da nova, creio eu, ninguém mais o conheça. Sempre tem disso dentro dessa rapidez com que o tempo voe em nossas vidas. E assim, alguém muito falado hoje, amanhã já será um esquecido. Eu, envolto pelos livros todos lá do meu mafuá não deixo isso acontecer e mantenho acesa a chama destes que um dia reverenciei e quero continuar fazê-lo até quanto tiver a compreensão dos fatos dentro de mim.
Ler Cortázar é ir vendo coisas normais virarem, assim de uma hora para outra pesadelos ou mistérios sem que as pessoas achem isso estranho. Isso é o tal dos seres imaginários, do realismo fantástico onde ele foi mais que mestre. Ele foi muito mais que um escritor, pois esteve antenado com seu tempo e bateu de frente contra a cruel ditadura implantada em seu país, muito mais violenta que a nossa. Foi um corajoso, um bravo que soube impor respeito aos seus detratores e aos gendarmes derfensores de ditaduras, como as que tivemos aqui e na Argentina, Uruguai, Paraguai, Chile e afins.
Melhor que tudo foi na saída, ao lado da nossa miss da padaria, uma jovem, que nunca deve ter ouvido falar dele, mas a vejo anotando seu nome num guardanapo de mesa, ou seja, ela vai levar o nome pra casa e tomara pesquise algo, se interesse e leia algo dele. Só por provocar que algo aconteça no entorno de seu nome, ganhei o dia. Enfim, encerro com uma curta frase dele, como todas bem reflexivas: "Só há um meio de matar os monstros. Aceitá-los" ou, agora mesmo uma última: "Ninguém é mais sério do que um menino quando está brincando".
A PROPOSTA DO FILHO: EM TODO SEU RETORNO PARA BAURU, PELO MENOS ASSISTIREMOS UM FILME JUNTOS
Ele, o filho, mora em Araraquara e vez ou outra aporta por aqui, quando dividimos o tempo, ora comigo, ora com a mãe, a Cleo. Ora todos juntos. Eu o iniciei nesse negócio de gostar de ler e de cinema. Eu acabei diminuindo o ritmo e sempre me vejo dizendo pela aí da pretensão de voltar a assistir, pelo menos uns dois por semana. Ainda não consegui. Lembro de quando ele ainda adolescente, o levava regularmente ao cinema e sentávamos juntos para assistir a alguns. De uns tempos para cá, ele me propos retomar isso e sua proposta, além de tentadora, foi dessas irrecusáveis: "Em cada retorno meu para Bauru, escolhemos um filme, sentamos em sua sala e o desfrutamos juntos". Estamos tentando cumprir o prometido.
Neste final de semana ele por aqui, para meu contentamento e jubilo. Fui assistir a um jogo do Noroeste - ganhou de 4 x 3 do Comercial e se se classificou em 1º lugar no grupo na copa Paulista. Ele não quis ir e me fez lembrar de uma vez, creio que lá pelos seus treze anos, pela aí, o levo ao campo e no intervalo me diz: "Ainda tem mais outro tempo igual a este". Ou seja, ele não pegou o amor pela bola, mas, para minha felicidade, pelos livros, música e entendimento de tudo à nossa volta, com maior desenvoltura que a alcançada por mim. Ele me comenta filmes e mais filmes e me faz a clássica pergunta: "Já assistiu?". A imensa maioria, respondo laconicamente: "Não". E reforço a intenção de tentar fazê-lo ao lado de Ana Bia, minha companheira de todas as horas, que assiste muitos mais filmes que eu.
E assim sendo, sentamos na sala de casa e o deixo escolher. Apresenta um leque de intenções e vejo que, tudo desemboca no "DIAS PERFEITOS", longa do alemão WIM WENDERS, onde a trama se passa em torno de Hirayama, um senhor japonês, levando uma vida feliz, conciliando seu trabalho como zelador dos banheiros públicos de Tóquio com sua paixão por música, literatura e fotografia. Sua rotina estruturada é lentamente interrompida por encontros inesperados que o forçam a se reconectar com seu passado.
“Dias perfeitos é o mais próximo que já cheguei de fazer uma declaração sobre a paz”, declarou Wenders em entrevista. “Para mim, uma das grandes condições da paz é estar satisfeito com o que se tem. Um dos grandes problemas da paz é que nossos países e economias são viciados em crescimento. O crescimento gera guerras. O crescimento gera desigualdade. O crescimento cria aqueles que não podem crescer, em oposição àqueles que sempre querem continuar a crescer. O crescimento é um enorme obstáculo à paz. Nossos economistas não gostam de ouvir isso. Eles não querem ouvir que não devemos ficar felizes com o que temos e tentar compartilhar isso em vez de crescer mais. Crescer mais só é possível às custas de outros que crescerão menos, e esse é o motivo da maioria das guerras. Hirayama é um verdadeiro pacificador. Ele é meu primeiro herói da paz de verdade... bem, exceto pelos anjos em Asas do desejo.”. Confesso, fui arrebatado pela singeleza do filme.
Pela sua interpretação como protagonista de Dias perfeitos, Koji Yakusho recebeu o prêmio de Melhor Ator no Festival de Cinema de Cannes de 2023. Meu danado filho, me induz a assistir um filme, desses que a gente não esquecerá nunca mais. Disse a ele, gostar muito mais de filmes assim, singelos, do que aqueles de ação. Daqui por diante, fico só com estes e me encanto, primeiro com os locais de cada filmagem, neste caso uma Tóquio em suas entranhas e depois o tema escolhido. Sabe aquilo da pessoa viver de forma quase monástica e encontrar grande dignidade no trabalho diário, um que o satisfaz, mesmo sendo degradante para a maioria manada da população? E depois, nos momentos livres, ele lê livros, cuida de plantas, fotografa as copas das árvores e ouve uma excelente trilha sonora em fitas cassete no carro, com artistas como Lou Reed, Patti Smith, Nina Simone, Jimi Hendrix e Van Morrison. Isso me fez lembrar de quando ouvia meus CDs no carro, levando toda semana sete ao carro, ouvindo um por dia, trocando na outra por novos. Um dia os carros vieram sem aparelhos para tocar CDs e fiquei desolado. No filme, um tocador de cassetes e Hirayama faz exatamente o que fazia. Não é pra querer voltar a ter uma vida mais simples e abandonar todos os luxos que vamos agregando junto de nós ao longo da vida? É o filme expõe isso de uma forma bem lúdica, límpida, transparente e aconchegante. Orgasmo total.
Poderia descrever outras maravilhas do filme, como o isolamento de Hirayama, tocando sua vida e dela usufruindo benesses inigualáveis, bem diferente do que seus familiares abastados o fazem, ou seja, o filme é uma delícia e o filho acerta na mosca. Ficarei com ele retido dentro de mim por um bom tempo. O filme termina, comemos pipoca e sua mãe o vem buscar. Amanhã iremos passear na Feira do Rolo e depois, bocadinho mais de prosa à tarde. E na manhã de segunda, segue de volta para sua vida em Araraquara. Eu absorvo o máximo que posso em cada vinda dele e muito dessas sessões de cinema.
Eis algo mais do "DIAS PERFEITOS".
Começem pelo trailler do filme, três minutos: https://www.youtube.com/watch?v=j9srd9g_SEk
Assistam isso: https://www.youtube.com/watch?v=Qcmce0aufXY&t=6s
E descubram depois algum link para asistir o filme inteiro. Sem decepções, uma relíquia conematográfica. Tenho que confessar, meu filhão acerta em cheio em suas escolhas.
Logo a seguir, já no caixa, o dono da padaria me diz: "Tê tentando me esforçar, mas ainda não reconheci quem seja o cara aí da sua camiseta". Digo ser o escritor argentino Julio Cortázar e ele, também reconhecendo, me diz algo sobre os grandes escritores do país vizinho. Uma pena, Cortázar não ter sido tão difundido por aqui, ou melhor, até foi para para gerações passada e hoje, dentro da nova, creio eu, ninguém mais o conheça. Sempre tem disso dentro dessa rapidez com que o tempo voe em nossas vidas. E assim, alguém muito falado hoje, amanhã já será um esquecido. Eu, envolto pelos livros todos lá do meu mafuá não deixo isso acontecer e mantenho acesa a chama destes que um dia reverenciei e quero continuar fazê-lo até quanto tiver a compreensão dos fatos dentro de mim.
Ler Cortázar é ir vendo coisas normais virarem, assim de uma hora para outra pesadelos ou mistérios sem que as pessoas achem isso estranho. Isso é o tal dos seres imaginários, do realismo fantástico onde ele foi mais que mestre. Ele foi muito mais que um escritor, pois esteve antenado com seu tempo e bateu de frente contra a cruel ditadura implantada em seu país, muito mais violenta que a nossa. Foi um corajoso, um bravo que soube impor respeito aos seus detratores e aos gendarmes derfensores de ditaduras, como as que tivemos aqui e na Argentina, Uruguai, Paraguai, Chile e afins.
Melhor que tudo foi na saída, ao lado da nossa miss da padaria, uma jovem, que nunca deve ter ouvido falar dele, mas a vejo anotando seu nome num guardanapo de mesa, ou seja, ela vai levar o nome pra casa e tomara pesquise algo, se interesse e leia algo dele. Só por provocar que algo aconteça no entorno de seu nome, ganhei o dia. Enfim, encerro com uma curta frase dele, como todas bem reflexivas: "Só há um meio de matar os monstros. Aceitá-los" ou, agora mesmo uma última: "Ninguém é mais sério do que um menino quando está brincando".
Ele, o filho, mora em Araraquara e vez ou outra aporta por aqui, quando dividimos o tempo, ora comigo, ora com a mãe, a Cleo. Ora todos juntos. Eu o iniciei nesse negócio de gostar de ler e de cinema. Eu acabei diminuindo o ritmo e sempre me vejo dizendo pela aí da pretensão de voltar a assistir, pelo menos uns dois por semana. Ainda não consegui. Lembro de quando ele ainda adolescente, o levava regularmente ao cinema e sentávamos juntos para assistir a alguns. De uns tempos para cá, ele me propos retomar isso e sua proposta, além de tentadora, foi dessas irrecusáveis: "Em cada retorno meu para Bauru, escolhemos um filme, sentamos em sua sala e o desfrutamos juntos". Estamos tentando cumprir o prometido.
Neste final de semana ele por aqui, para meu contentamento e jubilo. Fui assistir a um jogo do Noroeste - ganhou de 4 x 3 do Comercial e se se classificou em 1º lugar no grupo na copa Paulista. Ele não quis ir e me fez lembrar de uma vez, creio que lá pelos seus treze anos, pela aí, o levo ao campo e no intervalo me diz: "Ainda tem mais outro tempo igual a este". Ou seja, ele não pegou o amor pela bola, mas, para minha felicidade, pelos livros, música e entendimento de tudo à nossa volta, com maior desenvoltura que a alcançada por mim. Ele me comenta filmes e mais filmes e me faz a clássica pergunta: "Já assistiu?". A imensa maioria, respondo laconicamente: "Não". E reforço a intenção de tentar fazê-lo ao lado de Ana Bia, minha companheira de todas as horas, que assiste muitos mais filmes que eu.
E assim sendo, sentamos na sala de casa e o deixo escolher. Apresenta um leque de intenções e vejo que, tudo desemboca no "DIAS PERFEITOS", longa do alemão WIM WENDERS, onde a trama se passa em torno de Hirayama, um senhor japonês, levando uma vida feliz, conciliando seu trabalho como zelador dos banheiros públicos de Tóquio com sua paixão por música, literatura e fotografia. Sua rotina estruturada é lentamente interrompida por encontros inesperados que o forçam a se reconectar com seu passado.
“Dias perfeitos é o mais próximo que já cheguei de fazer uma declaração sobre a paz”, declarou Wenders em entrevista. “Para mim, uma das grandes condições da paz é estar satisfeito com o que se tem. Um dos grandes problemas da paz é que nossos países e economias são viciados em crescimento. O crescimento gera guerras. O crescimento gera desigualdade. O crescimento cria aqueles que não podem crescer, em oposição àqueles que sempre querem continuar a crescer. O crescimento é um enorme obstáculo à paz. Nossos economistas não gostam de ouvir isso. Eles não querem ouvir que não devemos ficar felizes com o que temos e tentar compartilhar isso em vez de crescer mais. Crescer mais só é possível às custas de outros que crescerão menos, e esse é o motivo da maioria das guerras. Hirayama é um verdadeiro pacificador. Ele é meu primeiro herói da paz de verdade... bem, exceto pelos anjos em Asas do desejo.”. Confesso, fui arrebatado pela singeleza do filme.
Pela sua interpretação como protagonista de Dias perfeitos, Koji Yakusho recebeu o prêmio de Melhor Ator no Festival de Cinema de Cannes de 2023. Meu danado filho, me induz a assistir um filme, desses que a gente não esquecerá nunca mais. Disse a ele, gostar muito mais de filmes assim, singelos, do que aqueles de ação. Daqui por diante, fico só com estes e me encanto, primeiro com os locais de cada filmagem, neste caso uma Tóquio em suas entranhas e depois o tema escolhido. Sabe aquilo da pessoa viver de forma quase monástica e encontrar grande dignidade no trabalho diário, um que o satisfaz, mesmo sendo degradante para a maioria manada da população? E depois, nos momentos livres, ele lê livros, cuida de plantas, fotografa as copas das árvores e ouve uma excelente trilha sonora em fitas cassete no carro, com artistas como Lou Reed, Patti Smith, Nina Simone, Jimi Hendrix e Van Morrison. Isso me fez lembrar de quando ouvia meus CDs no carro, levando toda semana sete ao carro, ouvindo um por dia, trocando na outra por novos. Um dia os carros vieram sem aparelhos para tocar CDs e fiquei desolado. No filme, um tocador de cassetes e Hirayama faz exatamente o que fazia. Não é pra querer voltar a ter uma vida mais simples e abandonar todos os luxos que vamos agregando junto de nós ao longo da vida? É o filme expõe isso de uma forma bem lúdica, límpida, transparente e aconchegante. Orgasmo total.
Poderia descrever outras maravilhas do filme, como o isolamento de Hirayama, tocando sua vida e dela usufruindo benesses inigualáveis, bem diferente do que seus familiares abastados o fazem, ou seja, o filme é uma delícia e o filho acerta na mosca. Ficarei com ele retido dentro de mim por um bom tempo. O filme termina, comemos pipoca e sua mãe o vem buscar. Amanhã iremos passear na Feira do Rolo e depois, bocadinho mais de prosa à tarde. E na manhã de segunda, segue de volta para sua vida em Araraquara. Eu absorvo o máximo que posso em cada vinda dele e muito dessas sessões de cinema.
Eis algo mais do "DIAS PERFEITOS".
Começem pelo trailler do filme, três minutos: https://www.youtube.com/watch?v=j9srd9g_SEk
Assistam isso: https://www.youtube.com/watch?v=Qcmce0aufXY&t=6s
E descubram depois algum link para asistir o filme inteiro. Sem decepções, uma relíquia conematográfica. Tenho que confessar, meu filhão acerta em cheio em suas escolhas.

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