segunda-feira, 10 de agosto de 2026

BEIRA DE ESTRADA (211)


AMOSTRAGEM DO CONSERVADORISMO DO POVO PAULISTA
Eis meu último texto, de onde extraio considerações destes nove dias passados na capital paulista. Andei por todos os lados e quero aqui relatar algo de como é mais do que perceptível o tal do conservadorismo do povo paulista.

O motorista do Uber é um senhor de aproximadamente uns 65 anos, muito simpático e conversador. Falávamos de tudo e no meio da conversa, dia a ele ter vindo recentemente, algumas outras vezes, sempre rapidamente para Sampa e numa delas só para assistir no Allianz Park a um show de Gilberto Gil. O homem se transformou de uma hora para outra e rispidamente me disse: "Eu não assisto show deste comunista nem de graça". Levei um susto, pois se Gilberto Gil era comunista, até então eu não sabia. Pensei na melhor forma de continuar a conversa até o final da viagem sem altercações e mesmo já ciente de que a resposta poderia ser a pior possível, lhe disse: "Puxa não sabia que ele era comunista. Aliás, nem eu sei bem o que venha a ser isso. O que o senhor entende por comunista? Poderia me explicar, até para entender melhor". Ele, antes tão cordial, mudou o tom e me disse: "O sr é comunista como ele?". Preferi me calar, pois vi que, poderia ter a viagem interrompida e ser deixado no meio da mesma, num lugar incerto e não sabido. Me digam, existe como argumentar ou querer que pessoas como ele entendam o engano onde estão encralacrados?

Levei a mala para consertar num endereço famoso no centro paulistano, sendo atendido pelo filho do proprietário, herdeiro do pequeno negócio. Estávamos travando uma alvissareira conversa, ele me dizendo dos quase 50 anos de portas abertas, tudo iniciado pelo seu pai e coisa e tal. Foi quando, nem sei como levamos a conversa para o tema da política e assim sem mais nem menos, ele fez questão de deixar bem claro o lado que defende, sem que, em nenhum momento até então havíamos tocado neste assunto. "O país precisa ficar livre desse ladrão de nove dedos. Tá tudo ruim por causa dele". Vi que, se ousasse responder teria problemas e como havia pedido urgência no conserto, precisando da mala pronta em no máximo três dias, quando retornaria para Bauru, me calei. No retorno, mala pronta, valor combinado pago, eu tomo a iniciativa, após ouví-lo sobre os problemas do momento: "Sim poderíamso estar melhor, mas se o Bolsonaro tivesse sido reeleito, creio eu, nem este negócio iniciado por seu pai estaria mais aberto, pois o país estaria no fundo do poço". Foi o gancho para ele se ruborizar, se avermelhar e querer me demonstrar o indemostrável. Discutimos um pouquinho e pedi a ele para ter bom senso, pois nem relações internacionais normais tínhamos mais. Quando percebi, não existia nenhuma possibilidade de fazer ele enxergar algo diferente do que pensa, me despedi e fugi dali o quanto antes.

Na Convenção do PT que havia presenciado, peguei alguns bottons e num deles, que sai grudado em minha lapela semana inteira, a inscrição "Fim da Escola 6 x 1 Já!". A coisa ia passando batida em quase todos os lugares, mas num deles, o senhor na fila da padaria, final de tarde, eu comprando pãezinhos quentes, olha pra mim e diz não concordar com essa escala, pois "o país precisa de mais trabalho". Prosopopéia conservadora. Iria me calar, mas acabei por lhe dizer: "Meu senhor, fui bancário, sempre trabalhei na escola 5 x 2, depois como funcionário público a mesma coisa, como professor também. Qual o problema, se antes podia, por que agora não pode? Isso de querer que o trabalhador faça uma escravocrata escala de 7 x 0 é bom só para um dos lados. Escravidão é coisa do passado e isso nem é decisão política, mas de bom senso". Ele resmungou, mas a moça do caixa me agraciou com uma piscadela. 

Na fila dos frios, dentro de um supermercado, peguei a minha senha e fui aguardar ser chamado. Em poucos instantes um burburinho de confusão junto das pessoas que estavam a pegar suas senhas. Um vetusto senhor, aproximadamente uns 70 anos, ao pegar a senha "124", se negou a pegá-la e estava esbaforido a gritar em alto e bom som: "Eu não quero essa senha de jeito nenhum. Este número não me representa. Sou muita macho". E ficou lá no patati patatá. Incrédulos, a maioria dos presentes à esdrúxula cena. Uma senhora ao meu lado, se dirigindo a mim: "Ainda existe isso? Isso me parece um caso de afetamento a demonstrar algo pronto para explodir, um desejo incontido". Ri e lhe disse: "Deve ser bolsonarista, no mínimo". Ela riu, ou seja, concordou.

Dos quatro exemplos vivenciado, algo bem representativo, nenhuma mulher. Todos os diálogos forma travados com homenes e duas mulheres se mostraram contrárias a algo em curso, daí a pergunta que não quer calar: Seria mesmo o homem muito mais conservador do que a mulher? E daí, estes já com a cabeça revirada e sem volta, pensam até em dar prosseguimento em ideia de jerico advinda de Donal Trump e dos perniciosos religiosos que o seguem, propondo que a mulher deixe de votar. Como a famiglia Bolsonaro diz amém para tudo o que Trump apregoa, creio, pensam do mesmo jeito, ou seja, da pior maneira possível. Vota neles só quem está mesmo já dominado pelo obscurantismo.

POSTERIORES COMENTÁRIOS:
1.) "Pois é seu Zé?!!! Modestamente, vejo esse estado de coisas, por ti relatado, meu preclaro HPA, como resultante duma lavagem cerebral sistemática, desde o final da década de 1950, quando os filhotes do tio sam, comandados pela poderosa mão de sião, tentam colonizar ou re-colonizar províncias sul-americanas, incluindo nosso maravilhoso país. Há cerca de 3/4 semanas passadas vivenciei situação parecida com sua (Uber), quando precisei de um carro para trasladar do Tauste até minha casa, e por causa dessa suprema ignorância sobre o comunismo, recebi um e-mail da operadora, pedindo explicações sobre meu comportamento dentro do veículo, e que eu havia infringido regras e normas da empresa, ou seja, o motorista sentiu-se ofendido por mim, gravou o diálogo e encaminhou para a administradora do aplicativo. Vida que segue...", MILTON EPSTEIN

2.) "A cidade de São Paulo votou Lula: 47,5% com votos da periferia, já o minto ficou com 38%, vc conversou com a classe média, homens mais velhos, típicos bolsominions", IZABEL CRISTINA RODONDO PINA

3.) "Não consigo compreender a falta de raciocínio... ACEFALIA ?????", ANA MARIA DE CARVALHO GUEDES

MEU SENTIMENTO

domingo, 9 de agosto de 2026

COMENDO PELAS BEIRADAS (188)


APÓS UMA SEMANA EM SAMPA, COMO REPENSO O QUE VIRÁ PELA FRENTE
Eu passei uma semana fora de Bauru, mais precisamente em Sampa, com algo publicado por aqui. Procurei nestes dias dar uma boa espairecida, ou seja, flanei um bocado. O fiz até por necessidade de recarregar baterias e me preparar adequadamente para tudo o que teremos pela frente.

Não me desliguei de nada. Na verdade, estive até mais atento, porém longe da aldeia bauruense. Tanto não me desliguei que, no segundo dia estando por São Paulo, tomando conhecimento da Convenção Nacional do PT, a que homologava Lula como candidato à sua própria sucessão, evento ocorrido no Expo Center Norte, para lá fui e ali teve início ao processo que pretendo dar, não só continuidade, como alavancá-lo daqui por diante.

Como é sabido até pelas pedras do reino mineral, o país está em polvorosa, com fake news sendo repassados diuturnamente e ininterruptamente, como forma de desqualificar Lula, o PT, a esquerda e tudo o que ouse fazer frente a essa avalanche da extrema-direita, capitaneada não só pela famiglia Bolsonaro - os piores possíveis -, como tambpem pelo mandatário do poder nos EUA, Donald Trump e Marco Rubio. 

Diante de tudo o que certamente ocorrerá com este país nos próximos dois meses - o período da campanha eleitoral -, a estada em São Paulo neste momento, quando tudo tem início serviu e muito para me reciclar e me preparar para tudo o mais. Na verdade, todos sabemos, acontecerá de tudo nestes dois meses e a partir dessa premissa, deve-se estar preparado para tudo - e mais um pouco. 

Portanto, não se assustem, pois se deixar de lado publicações sem a pegada forte da política, isso tem motivo e creio, assim devio proceder, pois engajado como estou e ciente do que ocorrerá ao Brasil se a extrema-direita ganhar o pleito, estarei nas ruas e lutas - todas as que puder -, dando meu irrestrito apoio, meu esforço pessoal para não permitir o pior. Por tudo o que já está sendo anunciado, o retrocesso será incomensurável e diante disso, cá estou, dando o meu quinhão, colocando minha cara à tapa, como sempre o fiz e, espero, poderei continuar a fazê-lo. 

Amanhã será tarde demais, pois a grande luta estará acontecendo hoje, neste exato momento e se omitindo, deixando a coisa rolar e não participando efetivamente da luta de resistência e de apoio para Lula Presidente e Haddad Governador, tenham certeza, não conseguirei viver. Sim, o caso é mais grave do que podemos imaginar. Portanto, descansado e revigorado, após uma semana mais amena, estou pronto para tudo o que vier pela frente. Não posso pensar somente em mim, mas em Bauru, São Paulo e no Brasil, num todo. Estou arregaçando as mangas e predisposto a cumprir adequadamente o meu papel como cidadão.

Contem comigo. HPA

ALFINETADA (268)


ALGO MUITO SENTIDO APÓS UMA SEMANA AUSENTE DO LUGAR ONDE MORO*
* Desabafo pessoal, por situação vivenciada no lugar onde resido e a demonstrar como toco minha vida, meu jeito de ser e de estar.

Eu e a esposa estivemos fora de Bauru e de nosso habitat por oito dias e quando mal pisavámos em Sampa, segunda passada, recebemos a notícia de que no retorno, não mais teríamos a presença diária de nosso jardineiro, na praça defronte onde moramos. Seu trabalho foi possibilitado pelo esforço de todos, reunidos e pagando bocadinho cada, para no frigir dos ovos, possibilitar que a praça pudesse ter um adequado tratamento, pois segundo se ouve, "a Prefeitura não dá conta".

O jardineiro sempre foi uma pessoa das mais agradáveis, além de sua reconhecida eficiência como profissional. Esteve atuando na praça por mais de ininterruptos dez anos. Construímos todos, mais que uma relação profissional, mas uma amizade. Ele, sempre solícito, atuava na praça num dos períodos do dia e nunca se omitiu de também estar presente na vida diária do condomínio. Dizem ser isso perigoso, pois pode gerar futuros problemas trabalhistas. Pensando assim, devemos estão eliminar todo e qualquer relacionamento mais próximo com funcionários, pois estes podem lá na frente agir contra nossos interesses. E quais os tais "nossos interesses"? Eu prezo e primo pelo relacionamento humano. Deste não abro mão. Se algo poderá advir disto, para mim, basta fazer tudo certo, daí problemas futuros não existirão. Eu procuro não agir com ações e atitudes claudicantes, daí sempre me dei muito bem nestes relacionamentos.

Não concordo nem um pouco como se dão hoje esse jeito, dito e visto como profissional, de informar ao trabalhador que a partir de hoje não estará mais trabalhando num determinado lugar. Neste caso, isso ficou constrangedor, pois poderíamos tê-lo preparado, com algo antecipado, demonstrando os prós e contras e por fim, que a mudança poderia até lhe ser favorável. O ruim destes novos tempos é ver o trabalhador chegar para mais um dia de trabalho e deparar com: "a partir de hoje o sr não trrabalha mais aqui e nem pode mais frequentar o lugar". Tudo frio, gélido, de uma insensibilidade bem própria destes tempos atuais. Ouço as justificativas, a de que continuaria empregado, num outro lugar, onde poderia até ganhar mais, exercer outras atividades e dar continuidade profissional ao que faz, porém abomino a forma escolhida por quem executa a ação, embasada por essa tal de praticidade, objetividade e resolutividade.

Muito perceptível isso nos tempos atuais, o da insensibilidade para com o ser humano, principalmente os menos favorecidos, no caso os trabalhadores. Para mim isso tem nome, falta de tato. A ação pode ser bastante profissional, estar resguardada por resoluções prescritas em guias, manuais e mesmo em normas existentes, devidamente prescritas em Estatutos e Regimentos. Na frieza dos atos perpetuamos estarmos nos inserindo, cada vez mais num mundo meio que sem volta, onde olhar para a situação do outro se torna algo abominável. Vamos então seguir regiamente o prescrito no papel e dane-se o resto. E mais acachapante, a constatação: o que virá após a remoção do funcionário? Algo mais barato. Só isso resolve a questão? Vivo por muito mais do que isso.

Pelo visto a remoção e substituição por algo mais "moderno" e adequado às nossas condições já foi implantado. Síndicos possuem este poder, consultando só um pequeno grupo, uma Comissão legalmente constituída, mas creio eu, essas são alterações alterando profundamente o benfasejo de todos, daí, até primando pelo bom senso, sempre se fará necessário uma prévia comunicação e conversas mais reveladoras. Para mim, faltou tato. Deixo isso claro. Penso até, se sentir anuência de outros moradores, dar início a um Abaixo Assinado. Assim me expresso, assim tomo minhas atitudes, sempre abertas, francas e diretas. Ainda não me adaptei com a frieza com que algumas ações são tomadas nestes tempos, tudo para favorecer as ditas Leis do Mercado, também essas, do bom gerenciamento de nossas vidas, porém seguindo padrões, as quais não estou acostumado quando as vejo em prática. Creio eu, com mais moderação aos tais avanços modernizantes, tocaremos melhor nossas vidas. Espero que, tudo isso não seja um preparativo para passarmos a ter, muito em breve, uma portaria remota e sem aquelas pessoas, tão prestativas, no acolhimento para com todos nós, moradores do lugar.

Este meu desbafo neste momento. Não sou dono da verdade e aceito, como deve ser sempre, críticas, sugestões e até admoestações. Um baita abracito para tudo, todas e todos do HPA 


outra coisa e por ocasião do dia dos pais
EU E MEU PAI, EU E MEU FILHO
Quantas histórias reunidas. Ficaria aqui um dia mais que inteiro só revivendo-as. Hoje é daqueles dias onde, passa um filme pela minha cabeça. O filme de minha vida, este onde os dois aí da foto junto comigo, não só marcam presença como são os atores pincipais.

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Bauru completa 130 anos entre shows, festas e comemorações oficiais. Nada contra celebrar a cidade. O problema começa quando, enquanto os holofotes estão voltados para o palco, decisões capazes de redesenhar a administração pública pelos próximos 30 anos avançam em outra direção. Em 15 de abril de 2026, a Prefeitura assinou com o Consórcio Saneamento Bauru o contrato de concessão dos serviços de esgotamento sanitário, com previsão de aproximadamente R$ 1 bilhão em investimentos. A justificativa é conhecida e, em princípio, inatacável: concluir a ETE Vargem Limpa, ampliar o tratamento de esgoto e finalmente resolver um problema que Bauru arrasta há mais de uma década. Ninguém, em sã consciência, é contra tratar esgoto. A questão é outra: quanto poder público está sendo transferido, para quem, sob quais condições e, sobretudo, quem fiscalizará tudo isso durante três décadas?
O objeto formal da concessão é o esgotamento sanitário. A água continua sob responsabilidade do DAE. Até aí, tudo muito claro. O detalhe começa quando se lê o que está efetivamente previsto nos documentos: a concessionária participará da gestão comercial integrada dos serviços de água e esgoto, com cobrança em uma única fatura. Não opera a água, mas participa da relação comercial envolvendo a água. E quem controla faturamento, atendimento, dados, medição e cobrança não está exatamente vendendo cafezinho na recepção. Está lidando com informação, arrecadação e relacionamento direto com o usuário. Por isso, as perguntas são inevitáveis: quem terá acesso aos dados? Quem fará a cobrança? Como serão separados os valores do DAE e da concessionária? Quem fiscalizará o sistema? Quem responderá ao cidadão quando houver divergência? A água continua com o DAE, formalmente. Mas a conta, essa criatura muito mais democrática do que os organogramas, chegará integrada. E contas têm uma virtude: costumam revelar quem está efetivamente envolvido na operação.
Trinta anos são quase uma geração. O contrato atravessará prefeitos, vereadores, eleições e discursos de campanha. Quem assina hoje poderá não estar no poder amanhã; quem fiscaliza hoje talvez sequer esteja no cargo quando a concessão completar metade de sua vida. Por isso, não estamos diante de uma simples decisão administrativa. Contrato de 30 anos não é despacho de governo. É uma escolha de Estado. E escolhas dessa natureza exigem metas, cronogramas, indicadores, penalidades, auditoria e fiscalização permanente. Anunciar R$ 1 bilhão em investimentos é relativamente fácil. Difícil é garantir, durante três décadas, que aquilo que foi prometido seja efetivamente entregue. A fotografia da assinatura dura alguns segundos. O contrato dura uma geração.
A ETE Vargem Limpa, por sua vez, não pode ser transformada em salvo-conduto para encerrar o debate. A obra começou em 2015, tinha previsão de entrega em 2016, foi paralisada em 2021 e tornou-se um monumento involuntário à capacidade brasileira de transformar prazo em patrimônio histórico. Justamente por ser necessária, sua conclusão não pode impedir perguntas sobre o modelo escolhido. A Prefeitura tem o direito de defender a concessão. A população tem o direito de questioná-la. E há razão objetiva para atenção: o Tribunal de Contas do Estado de São Paulo suspendeu o edital por duas vezes após representação da Sabesp. Isso não prova, por si só, que haja irregularidade. Prova algo mais simples: o processo não veio com certificado de infalibilidade anexado.
Mas a questão mais delicada talvez não esteja na ETE. Está no poder institucional.
Em abril, o Ministério Público de São Paulo protocolou uma Ação Direta de Inconstitucionalidade no Tribunal de Justiça sustentando que a Prefeitura de Bauru não precisaria da autorização da Câmara Municipal para realizar concessões de serviços públicos. A ação nasceu de representação apresentada pelo advogado Rafael Ribeiro, que apontou como inconstitucional a exigência prevista na Lei Orgânica Municipal. A tese do Ministério Público é que legislar sobre normas gerais de licitação e contratação seria competência da União e que, portanto, a exigência local de uma “lei autorizativa” para concessões não poderia prevalecer.
Aqui convém fazer uma pausa.
Não é preciso ser jurista para compreender a dimensão política da discussão. Uma coisa é conceder um serviço público. Outra, bastante diferente, é retirar do Legislativo municipal a possibilidade de autorizar essa concessão. A primeira transfere a execução de um serviço. A segunda altera a relação de forças entre os Poderes.
E isso acontece justamente quando Bauru começa a operar uma concessão de 30 anos que envolve saneamento, patrimônio, servidores, tarifas e gestão comercial.
A Câmara, evidentemente, não é dona dos serviços públicos. Mas também não é decoração institucional. Se a Lei Orgânica estabelece a participação do Legislativo nas concessões, a discussão sobre a constitucionalidade dessa exigência pode e deve existir. O que merece atenção é o efeito concreto de eventual retirada dessa barreira: o Executivo passaria a ter muito mais liberdade para conceder serviços públicos sem a necessidade de submeter a decisão ao voto dos representantes eleitos pela população.
É uma mudança de poder. E mudanças de poder merecem menos fogos de artifício e mais luz.
A questão ganha contornos ainda mais delicados diante de uma informação levada ao debate público pela vereadora Estela Almagro: segundo ela, Rafael Ribeiro, autor da representação que deu origem à ADI, teria posteriormente sido contratado pelo próprio Consórcio Saneamento Bauru e já apareceria atuando em processos relacionados à concessionária. Essa informação, por envolver uma relação profissional específica, precisa ser documentalmente confirmada antes de ser tratada como fato definitivo. Mas, se confirmada, seria uma circunstância que evidentemente mereceria explicação pública. Não porque alguém esteja proibido de mudar de cliente ou exercer sua profissão, mas porque a sociedade tem o direito de perguntar quando uma mesma pessoa aparece em movimentos jurídicos capazes de alterar o poder de decisão sobre concessões e, posteriormente, surge vinculada à empresa que acaba de receber uma concessão dessa magnitude.
Não há aqui necessidade de acusação antecipada. Há algo muito mais importante: transparência.
Quem apresentou a representação ao Ministério Público? Em que circunstâncias? Com qual fundamentação? Quem se beneficiará institucionalmente da eventual procedência da ADI? Qual é a relação profissional atual do advogado com a concessionária? Em que processos ele atua? São perguntas objetivas. Respondê-las deveria ser muito mais fácil do que tentar convencer a população de que perguntas são ataques.
Porque democracia tem dessas inconveniências.
Às vezes, o cidadão pergunta.
E o poder público precisa responder.
E chegamos ao ponto que talvez seja mais incômodo de todos: o que sobrará do DAE?
Estudo da FIPE projetou aproximadamente R$ 816,5 milhões em custos operacionais do sistema de esgotamento sanitário ao longo dos 30 anos e outros R$ 213,5 milhões para a operação e manutenção do sistema de gestão comercial integrado ao DAE. Ao mesmo tempo, servidores terão de ser reorganizados e a estrutura da autarquia será redesenhada. O presidente do DAE afirma que não haverá demissões e que um novo organograma está sendo elaborado. É uma informação relevante, mas não responde à questão principal: qual será o tamanho, o custo e a sustentabilidade do DAE depois que uma parcela relevante de suas atividades deixar de ser executada por ele?
Não demitir servidores é importante. Mas não é sinônimo de resolver o problema. É preciso saber quais funções permanecerão, quais serão reorganizadas, quais custos continuarão no DAE e quem pagará por essa estrutura remanescente. Afinal, existe um risco conhecido em operações dessa natureza: transferir para o privado a atividade mais visível e deixar no público a estrutura de custos menos visível. Se isso acontecer, a cidade poderá descobrir que não basta perguntar quanto custa a concessão. Será necessário perguntar quanto custa manter aquilo que ficou para trás.
Há ainda o patrimônio público. Equipamentos, instalações, sistemas e estruturas do DAE foram construídos durante décadas com dinheiro público. Não nasceram no patrimônio da concessionária. Qualquer transferência ou utilização desses bens exige absoluta transparência: o que será entregue, em que condições, por quanto tempo, quem fará a manutenção, quem responderá por danos e o que ocorrerá quando a concessão terminar? Patrimônio público não pode ser tratado como mobília que muda de endereço porque alguém assinou um contrato. A cidade pagou por esses bens. A cidade tem o direito de saber onde estão, quem os utiliza e em quais condições.
E a Câmara Municipal?
A Câmara não pode ser espectadora dessa história. Vereador não foi eleito para assistir ao Executivo de camarote. Foi eleito para fiscalizá-lo. Uma concessão de 30 anos exige documentos, números, perguntas, acompanhamento e cobrança. A Comissão de Obras pode ouvir o DAE e o consórcio. Deve ouvir. Mas ouvir é apenas o primeiro verbo. Depois vêm cobrar, confrontar, acompanhar e, quando necessário, responsabilizar.
É justamente por isso que a discussão sobre a ADI não pode ser tratada como uma questão jurídica abstrata, confinada aos gabinetes e às páginas dos processos. Ela toca diretamente a capacidade do Legislativo de participar das decisões sobre o patrimônio e os serviços públicos de Bauru.
Pode-se argumentar que a Câmara não deveria autorizar concessões. Pode-se argumentar o contrário. O que não se pode fazer é fingir que a questão é irrelevante. Porque, se a exigência cair, o Executivo ganhará espaço de decisão. E quando um Poder ganha espaço, outro necessariamente perde. A matemática institucional não costuma respeitar discursos de ocasião.
Também não é necessário transformar o debate numa guerra infantil entre “público bom” e “privado ruim”. Empresa privada pode prestar excelente serviço. Autarquia também. Ambas podem fazer exatamente o contrário. O problema verdadeiro é outro: quem controla quem?
Quando o município concede um serviço por 30 anos, não terceiriza sua responsabilidade. Terceiriza a execução. O dever de garantir qualidade, universalidade, modicidade tarifária e interesse público continua sendo do Estado. E se a concessionária se tornar institucionalmente mais forte do que o poder público encarregado de fiscalizá-la, teremos produzido uma situação bastante conveniente para quem recebe o contrato e bastante desconfortável para quem paga a conta.
É por isso que o Ministério Público, a Câmara, o Tribunal de Contas e a sociedade civil precisam acompanhar cada etapa dessa operação. Não se trata de ser contra a iniciativa privada. Trata-se de impedir que a expressão “interesse público” vire apenas uma cláusula decorativa.
A festa de 130 anos termina. Os palcos são desmontados, os artistas seguem viagem e a cidade volta à rotina.
O contrato, não.
Ele permanece por 30 anos.
E há uma ironia que Bauru deveria guardar: a comemoração dura alguns dias; a concessão atravessa uma geração. Talvez por isso seja prudente gastar menos tempo discutindo quem sobe ao palco e um pouco mais de tempo lendo quem ficou com o contrato.
Bauru precisava resolver a ETE Vargem Limpa. Precisava, e muito. Mas a necessidade de resolver um problema não transforma automaticamente a solução escolhida em verdade revelada. O contrato está assinado. Agora começa a parte menos glamorosa e mais importante: fiscalizar aquilo que foi contratado.
Porque o esgoto foi concedido.
A água continua com o DAE.
A gestão comercial será integrada.
A conta será única.
O patrimônio precisará ser disciplinado.
Os servidores serão reorganizados.
E o DAE terá de sobreviver institucional e financeiramente a uma nova realidade.
Enquanto isso, discute-se no Tribunal de Justiça se a Prefeitura sequer precisa da autorização da Câmara para realizar concessões futuras.
Convenhamos: é muita coincidência institucional para ser tratada como simples detalhe jurídico.
A pergunta, portanto, não é se a concessão é “boa” ou “ruim”. A pergunta de gente grande é outra:
Bauru tem instituições suficientemente fortes para fiscalizar, durante 30 anos, uma empresa privada que acaba de assumir uma parcela estratégica do saneamento municipal — e terá o Legislativo força suficiente para exercer esse controle?
Se a resposta for sim, que se demonstre.
Se houver dúvidas, que sejam esclarecidas.
Se houver conflitos, que sejam examinados.
E se houver irregularidades, que sejam corrigidas.
Porque saneamento não é espetáculo. Não termina quando as luzes se apagam. E contrato de 30 anos não pode ser tratado como detalhe de governo.
A festa, o pão e o circo acabam. O contrato fica. E a conta, essa, sempre encontra o cidadão.
FERNANDO REDONDO
Jornalismo Independente
Ver menos

quinta-feira, 6 de agosto de 2026


ALGO DA POESIA ENCONTRADA NAS RUAS PAULISTANAS - COMO FUI CONHECER A LIVRARIA PONTA DE LANÇA
São Paulo é a maior megalópolis deste pais. Aqui tem de tudo. Para se estressar um pulo, ainda mais em dias quando diante de uma greve nos trens da CPTM, parte da população padece um bocadinho mais para o seu ir e vir. Eu tento buscar descaminhos com menos agitos estressantes. No último domingo conheci o italiano Cristian, tradutor e marido da Kety, estagiária docente da Ana e ambos morando em Sampa desde muito tempo. Voltei lá do Center Norte, quando fui ver a convenção do PT, homologando Lula presidente e naquelas conversas de apresentação, ele descobriu que gosto muito de conhecer novas livrarias por onde ande. Passeamos todos junto lá pelos lados do Bexiga, na 100ª Festa da Echaropita.
Naquele dia não tivemos tempo de conhecer nenhuma livraria, mas ele me fez anotar algo sobre uma, que gostaria fosse conhecer. Trata-se da singela "PONTA DE LANÇA", encrustrada no meio de um bucólico e delicioso lugar, a vila Buarque e adjacências. Se dentro de Sampa existem lugares gostosos de ficar saracotiando, um destes é a Vila Buarque. Seus pontos comerciais são diferenciados e são a cara mais prazerosa que uma cidade grande pode expor e ter. Desço no metrô Higienópolis/Mackenzie e me enfurno por vielas que vão dar lá na rua Aureliano Coutinho. Quando chego nem acredito, o lugar não tem nada de grandão, mas logo de cara seu proprietário estava dispondo cadeiras na calçada, para quem quisesse pegar livros e ficar lendo debaixo de uma frondosa árvore, sem maiores delongas, tudo devidamente permitido.
Esse a cara da livraria e o clima do lugar. Por ali só livros descolados, todos novos, enfim ali uma livraria e não um sebo. Nos fundos uma mulher, provavelmente a esposa, sócia no pequeno negócio, dava aulas de desenho para uma menina, creio eu, filha deles. Viajei pelas estantes e senti no ar, tudo o que Cristian quis me mostrar quando me falava do lugar. Não tem nada assim de tão especial, mas tem tudo para quem busca um local repleto de paz. Na sequência, desço algumas ruas e dou de cara com um bar dos mais pequeninos, mas com aquilo tudo para se sentar na calçada e tomar uma boa gelada, sem preocupações e traumas existenciais. O Moela é destes lugares que só constam em catálogos de gente como eu, perdidos e loucos para achar um lugar desvairado onde possa desafogar os percalços todos.
E depois continuei andando, rodando em círculos e sem querer saber de horários e compromissos. Queria ir botando os olhos em lugares insólitos e inspiradores. Só quando me acalmei consegui me reposicionar e conseguir sair dali, indo dar com os costados em outros lugares com astral parecido.

EIS PORQUE LEIO SEMANALMENTE CARTA CAPITAL, ELA PERSEGUE A VERDADE DOS FATOS, COMO NA MATÉRIA DE CAPA DESTA SEMANA
Mino Carta, o prócer da revista, já falecido, tinha uma máxima e a usava para tudo: "minha revista segue a verdade factual dos fatos, doa a quem doer". E assim ela prossegue seu caminho, sem anunciantes destes grandões do mundo empresarial brasileiro, mas resistindo como aroeira, envergando, mas não se deixando quebrar. Neste momento, onde até as pedras do reino mineral observam o papel sendo cumprindo pelo ministro do STF André Mendonça, com decisões explicitamente favorecendo o clã Bolsonaro, algo perigoso e contrariando qualquer atitude isenta, no que diz respeito ao próximo pleito, principalmente o presidencial. O jui André Mendonça, todos sabem, possui um lado e dele não se afasta. Daí, pela repetição de seus atos, muito condenáveis, de proteção para Bolsonaro e os seus, o país diante de sério risco de ver essas eleições maculadas e tendo nos seus bastidores, algo a beneficiar um dos lados da questão. Neste caso, o pior de todos. Não existe como passar pano para tudo o que fizeram, fez e farão todos os membros desta nefasata famiglia Bolsonaro. Quem os defende, em primeiro lugar merece a suspeição. O que a revista faz é escancarar de uma vez por todas essas relações, mais do que perigosas e isso quando do início dessa insólita campanha política, talvez os dois meses mais preocupantes de nossas vidas, pois o que virá de fake news daqui por diante, preciusaria merecer uma ação rápida, soberana e totalmente isaenta de favorecimentos, o que se prenuncia, não ocorrerá. Tomemos todo o cuidado do mundo com André Mendonça e Nunes Marques, dois ministros que já demonstraram a que vieram. O país precisa contar, principalmente, com a ação de juízes isentos, pois estamos a um passo da barbárie.

quarta-feira, 5 de agosto de 2026


DEPOIS DE UNS TRINTA E TANTOS ANOS, VOLTO AO MUSEU DO IPIRANGA E ATÉ CONSIGO COMPARAR O QUE VEJO COM A SITUAÇÃO DOS DE BAURU

Dificilmente passo por uma cidade sem conhecer algum dos seus museus. Em Bauru isso hoje é impossível, pois os 3 existentes encontram-se fechados por ordem da alcaide fundamentalista. Em Sampa, visitei o do Ipiranga por algumas vezes e bota tempo nisso. Ele também permaneceu fechado por longo tempo. Uma interminável reforma. Reabriu já faz tempo e com acervo renovado, agita seus visitantes com algumas novidades. A recordação que tinha do passado eram as carruagens imperiais. Na nova repaginada versão elas desapareceram. E do que, eu e Ana botamos os olhos na visita de hoje, o saldo é muito positivo. O Ipiranga está muito pomposo, o parque está impecável e a visita em suas dependências algo mais do que recomendável.
O parque num todo está muito bem cuidado e o recado por lá bem claro: Neste palácio nunca morou ninguém, este lugar foi construído para ser local de exposições. E confesso algo aqui dos tantos museus visitados. Em quase todos adentro e olho seu acervo com um pé atrás. Todos sabemos que, a Históreia Oficial, a que aprendemos na escola ela ainda privilegia os poderosos, os donos do poder em detrimento da verdade dos fatos. Neste aqui, o do Ipiranga, algo bem evidente quando vejo logo na entrada aquelas estátuas com os bandeirantes. Esses caras foram cruéis, violentos e roubavam tudo o que viam pela frente. Vê-los ali todo pomposos e sem questionamentos é impossível. No Ipiranga vejo numa de suas salas algo sobre isso, o que me alegra, pois representa não só o novo momento da historiagrafia, como devolve muito da verdade a tanta mentira dita e repetida ao longo do tempo.
Passo pela famosa tela do Pedro Américo sobre a Independência, linda, ocupando quase toda uma parede de uma das salas e a amiga de Ana Bia que nos acompanhava, Kety, olhando para a imagem do homem puxando o carro de bois, me pergunta: "O que estaria pensando ele diante de tudo o que acontece ali ao lado?". Minha resposta é a única que poderia dar. Todos sabemos, ele nada sabia do que estava em curso e a gente, olhando para a tela, imagina se tudo aconteceu exatamente daquele modo e jeito. Isso tudo é o mínimo que se pode discutir sobre essa e outras questões. Telas encomendadas e hoje expostas em museus mundo afora, refletem uma visão longe da aproximação com a realidade. A encomenda ressalta sempre o lado bom de quem paga e isso está refletido em museus mundo afora, não sendo exclusividade tupiniquim.
Mas isso é um dos lados da questão. Eu não vou visitar museus para ficar criando caso e enxergando o outro lado. Vou, relaxo e me divirto. Neste museus paulista ocorreram muitas transformações do que foi um dia o velho Ipiranga e o que é hoje sua moderna versão. Deram uma misturada no passado e presente, numa viagem no tempo, mostrando peças de antanho e com algo mais recente, tipo como se deu a evolução de utensílios domésticos. Vejo poucas telas, poucas estátuas e também pouca coisa representando o que foi o Império brasileiro. Já na apresentação de como seu deu a sua construção, foram impecáveis. Belas maquetes e uma linda versão em braile, com peças podendo ser tocadas.
Eu já trabalhei por alguns anos cuidando do acervo existente em Bauru e hoje sinto uma dor interna por ver a situação onde desembocou nossos três museus, sendo que o Histórico Municipal possui todo seu acervo em liugar incerto e não sabido. Será uma labuta sem fim se um dia resolverem reabrí-lo, pois depois de tanto tempo, muitas peças devem ter se evaporado. De uma certa forma isso ocorreu no Ipiranga e com certeza, ocorrerá nos de Bauru. Outro nas mesmas condições é o de Jaú, também fechado e com acervo mantido em lugares insalubres e espalhados, se fracionando cada vez mais. Mas o Ipiranga conseguiu vencer isso de permanecer um bom tempo fechado e hoje reaviva a memória do público paulista. E depois do passeio interno, andar pelos jardins do palácio, vendo aquele monte de meninas que vão até lá diariamente para se deixarem fotografar, no nababesco lugar é pra encher os olhos. Ah, se tivesse tempo para ir visitar outros museus paulistanos, seria algo mais que ótimo, mas o tempo urge e os compromissos fazem dividir meu tempo e assim, um tiquinho em cada lugar. Amanhã tem algo mais, dentro de outra vertente.

terça-feira, 4 de agosto de 2026

AMIGOS DO PEITO (257)


HOJE ME DEIXEI LEVAR POR FAUSTO BERGOCCE NUM GLAMOUROSO PASSEIO POR SAMPA
Meu amigo Fausto Bergocce, reginopolense de quatro costados, nasceu aí nas imediações de Bauru, mas desde muito cedo aportou aqui por Sampa, morando desde sempre em Guarulhos, na Grande São Paulo e hoje, querendo reviver algo do seu passado ou mostrar para mim alguns dos descaminhos de sua vida, sabendo de minha estada por estas plagas, marca comigo de nos encontrarmos para um rolê, justamente num dos locais mais marcantes de sua vida, a Padaria Marajá, na rua Martins Fontes, há 50 metros de onde trabalhou boa parte de sua vida, na sede do Diário Popular, jornal publicando por décadas suas charges diárias. Almoçar no Marajá e ouvir suas histórias, dos tempos de antanho, quando se lembra, quem morava por ali, nas imediações, o cantante Geraldo Vandré, o jogador de bola Almir Pernambuquinho e, pasmem, depois ficou sabendo, o cachorrinho do delegado Fleury, cabo Anselmo.

A Martins Fontes era um agito e ele, saindo de madrugada, após o fechamento do jornal, a parada certa era na Marajá, ponto de encontro de jornalistas e boêmios. O jornal fechou há décadas e a Marajá resiste ao tempo. Bem defronte a padaria, um sacrosanto lugar, o Sebo Samba Discos, no nº 154. Eu e Fausto já conhecíamos o lugar e por ali, sempre boas novidades e preços baixos, mas se faz necessário sujar as mãos e vasculhar pilhas e pilhas, livros e discos, com muitas preciosidades. Para variar, escolho alguns e começo a carregar o peso na continuidade das andanças.

De lá, Fausto me faz adentrar o prédio da Biblioteca Mário de Andrade e defronte, além de uma foto juntos, explica do estilo arquitetônico, neo-nazista, onde a ideia é essa, a imensidão do prédio e a pessoa pequenininha nele. "Em São Paulo, dois outros projetos com essa característica, o estádio do Pacaembu e a Ponte das Bandeiras, todos da mesma época", me diz. De lá descemos até o Anhagabaú, pegamos o metrô, onde ambos, com mais de 65 anos, não pagamos passagem. Ele com sua carteirinha, que libera a passagem na catraca e eu de posse do meu RG. Descemos defronte o prédio da FIESP, em plena avenida Paulista.

O convite era para adentrramos o vetusto local, onde ali duas exposição, numa a Cartunistas, com fotografias de Paulo Vitale, todas tendo como pano de fundo cartunistas famosos. Um deles é o próprio Fausto e circulando pelos corredores, muita gente conhecida, desde os irmãos Caruso até o bauruense Gilberto Maringoni. Ao lado dessa, Fausto ri e me diz, ocorrer uma com alguém divindindo com ele o espaço, nada menos que a "Brecheret Modernista". Mais um edificante passeio, com ele me explicando das muitas fases do artista e do tempo, anos 40, como se deu seu trabalho na São Paulo da época.

Eu vou tentando assimilar tudo e quando saímos, poucas quadras, uma foto diante do parque Trianon, ambos sentadinhos no banco onde Maurício de Souza está junto de toda sua troupe, desde Mônica à Horácio. Atravessamos a rua e vamos descansar na cadeira de descanso junto ao vão do Masp. Não adentramos o museu e permanecemos um tempo por ali divagando e curtindo as pessoas que, como nós passeava por ali nesta tarde de terça. Fausto anota numa folha de papel o nome de dois livros, me dizendo ter que ler, pois me darão uma ampla visão da vida paulista de outros tempos, escrito por Roberto Pompeo de Toledo, o "São PAulo Capital da Solidão (Volume 1)" e "São Paulo Capital da Vertigem (Volume 2)". Guardo o papel e seguimos adiante.

Fausto me convida a seguir para descermos a Augusta e assim fecharmos uma volta pela cidade, desta feita caminhando até onde saímos. E assim começamos a descer a rua Augusta, com ele me comntando as muitas histórias dos tempos do jornal, quando a boêmia fervia por aquela rua e adjacências. Descemos numa prosa só, parando aqui e ali, adentrando galerias, espiando antigas boates, parando nas esquinas para explicações de como tudo funcionava décadas atrás. Eu conheci a Augusta tempos atrás, mas nãocomo Fuasto, alguns anos mais experiente e com maior vivência. Nunca morei em Sampa, só ia e via, convivendo en passant com tudo o que ia ouvindo.

Paramos no Cine Petrobras, parada obrigatória para se utilizar de um bom banheiro público e depois uma foto de Fausto ao lado de Oscarito e Grande Otelo. Na descidas, outra padaria, desta feita indicada por Juliano Guido, sabendo que queríamos tomar sorvete. "Essa meu pai me levava quando criança", nos diz. A Padaria Bologna tem um lindo piso, preto e branco, além de um ótimo sorvete. Foi uma parada pra descanso e na sequência, outra parada cheia de saudade, quando tiro foto dele diante onde antes funcionou o Spazio Pirandello, um bar cheio de charme de décadas atras. Fausto foi me contando de quando, num dia ali se encontrou com Henfil, numa tarde de longa conversa entre dois artistas do traço.

Passamos novamente defronte a Marajá e seguimos até a Barão de Itapeteninga, onde tenho que buscar uma mala, deixada para conserto. Nos despedimos na estação do metrô República, onde embarco no sentido Butantã e Fausto no contrário, indo até perto da estação Itaquera, onde seguirá até Guarulhos. Foi uma tarde e tanto. Primeiro reencontrei o amigo e com ele circulei por lugares que lhe dizem respeito. Uma tarde como essa é tudo o que precisamos para ser felizes, batendo perna por aí e fazendo com que, a vida tenha continuidade, aconteça de forma salutar e saudável. Fausto é como eu, alguém de bem com a vida e assim, vamos tocando elas adiante, desta forma e jeito, um visitando o outro de vez em quando.