ROAD MOVIE DO RETORNO PRA BAURU - DARIA UM BELO FILME ESTRADEIRO, INUSITADA AVENTURA VIVIDA POR MIM E ANA BIA
"Filme de estrada é um gênero cinematográfico no qual o(s) personagem(ns) principal(is) sai(em) de casa para uma viagem, normalmente alterando a perspectiva de sua(s) vida(s) cotidiana(s). Esses filmes geralmente retratam viagens no interior do país e nessas produções contêm personagens inquietos, "frustrados, muitas vezes desesperados". O cenário não inclui apenas os limites do carro enquanto ele se movimenta em rodovias e estradas, mas também se estende a lanchonetes e quartos em motéis de beira de estrada, o que ajuda a criar intimidade e tensão entre os personagens. (...) Segundo o livro Driving Visions: Exploring the Road Movie, de David Laderman, o tema central do gênero é a "transgressão contra as normas sociais conservadoras", leio a definição na não muito confiável Wikipedia, a absorvo e a sinto na prática, em algo ocorrido comigo e Ana Bia.
Vivenciamos algo, considerado por mim como belo tema para um filme com essa denominação. Como trata-se de um gênero cinematográfico onde a narrativa se desenvolve a partir de uma viagem e a de nosso retorno de Lavras-MG até Bauru-SP, na última sexta, possuiu todos os ingredientes, creio que contando-a ofereço um roteiro para algo a ser construído, hoje já observada com o olhar da superação, do outro lado da ponte, ou seja, conseguimos atravessá-la. Faço isso, rindo da situação ocorrida, pois como ela já ocorreu e o desfecho foi o melhor possível, nada como rir pelo destino ter corrido a nosso favor. Mais do que o destino em si, o foco está nas experiências ao longo do trajeto e na transformação interior dos personagens. Como sabido, eu e Ana passamos a última semana em Lavras, ela trabalhando e eu a acompanhando, conhecendo a cidade e arredores. O retorno foi combinado com a universidade onde atuou. Vieram buscá-la em Bauru, motorista do Setor de Transporte da universidade, tudo perfeito e para a volta, na impossibilidade do motorista servidor nos atender, contrataram um serviço terceirizado. A partir daí, o relato que dariam um filme.
O combinado era para nos pegar 16h, adiado para 18h e depois confirmado para 19h30. Foram 3h30 de espera. Soubemos, o motorista contratado era de uma empresa de locação de viagens de Belo Horizonte, a capital, estava trazendo um passageiro de lá, viagem de aproximadamente 4h. Essa viagem foi prolongada, pois a estrada estava em obras e muito congesdtionamento, enfim, sexta, dia de retorno. Começa nossa preocupação, pois o motorisdta já havia enfrentado mais de 7h de viagem até chegar a nós. Teríamos pela frente aproximadamente 8h de viagem. Antes de embarcar pergunto a ele se está descansado e se iriamos assim mesmo. Ele: "Claro, primo pela segurança. Havendo risco, paramos numa pousada e só seguiremos em segurança".
Na saída, a Vivo estava sem sinal na cidade naquele momento e ninguém sabia a saída que nos levaria para a BR. Foi uma loucura, parando aqui e ali, entrando em lugares com luzes acesas, perguntando até achar o caminho. Entramos numa firma, beira da estrada, onde numa guarita, um assustado segurança, inicialmente receoso, nos deu alguma indicação do caminho a ser seguido. Achamos a rodovia e o próximo sinal do que encontraríamos pela frente veio no primeiro pedágio. Ele não trazia consigo dinheiro e nem cartões para pagar. Quiz impor e pagar somente através de PIX, não aceito na maioria das praças de pedágio. Teve início um teatro em cada local, ele descendo do carro, deixando uma fila atrás dele e falando alto com as atendentes. Em todos, conseguiu não sei como que, alguém lhe desse o dinheiro e ele transferisse o valor em PIX. Num certo momento ouvimos dele: "Eu carrego um doente, vocês precisam entender". Sensibilizava por um falso discurso. Eu e Ana, observamos cada cena com apreensão, pois estávamos no meio da noite e tendo ele como nosso condutor. Optamos por permanecer quietos dentro do carro e só observando o desenrolar de cada ocorrência. Isso se repetiu de forma cinematográfica em quase todos os pedágios. Só nos poucos aceitando PIX, o acesso foi mais rápido.
Digo de termos vivido uma cena de road movie, pois na primeira parada, um típico posto de combustível bem simples, pouca gente e muitos caminhões, ele jantou fartamente,sem se preocupar com os dois passageiros. Não nos sentimos inseguros, mas predomina um clima de fim de festa, sujeira e bagunça generalizada. Descemos, assuntamos, compramos algo, conversamos com populares e até curtimos, porém, tudo ruim, com um banheiro em petição de miséria. os dipalogos travados por ali constituiriam belas cenas dentro de um filme de estrada. Na sequência ele se agarrava ao volante, agora de barriga bem cheia e sentava a pua. Nítido desconhecer a região. Seguia pela que lhe indicava o GPS. Passamos na sequência numa região que, por sorte eu conhecia, os trevos de Pouso Alegre, Caldas e Poços de Caldas, onde meu pai possuia uma casa e viajei muito com ele há dez anos atrás. Revivi aquilo tudo pela janelinha do carro.
Pedágios se sucediam e pasmem, na estrada entre Pouso Alegre até Poços, mais de 40 km, muitos peregrinos com faroletes na estrada. Depois soubemos, uma vez por ano, numa festa em algum lugar, circulavam pela rodovia em grupos. Passávamos por eles, até quando decide parar num posto, já não funcionando, mas cheio de gente. Desce e vai, sempre falando alto, sobre trocar dinheiro. Se indispõe com um chepeludo, que já devia estar bêbado e trocam insultos no meio de todos. O tal chapeludo, achando estar diante de um golpista, insufla os demais para que o agridam. Por sorte, nem todos queriam briga e depois de um chega pra lá, ouvimos um deles dizendo e o empurrando: "Vaza daqui o mais rápido possível". Ele ainda retrucou, mas dessesnão aceitando perder, entra xingando e sai em desabalada carreira. Estávamos salvos pelo gongo. Aquele cenário todo foi por demais cinematográfico, algo meio que difícil de compreender como realista e possível.
Seguimos, passando ao lado de Poços e em cada pedágio, novas cenas mirabolantes e inusitadas. Incrédulos e sem ação, assistíamos tudo de dentro do carro. Na viagem, entre Águas da Prata, São João da Boa Vista, Aguaí e Pirassununga, estradão sem nenhum posto de combustível, o sono do motorista se aprofundou. Entramos numa zona nebulosa, onde saia para o acostamente a todo instante. Me ofereci para dirigir e ele descansar, o que não foi aceito. Converso para distraí-lo. Conta do seu trabalho em BH, para essa empresa e nas horas vagas de uber ou mesmo como caminhoneiro, passando dias fora de casa, na estrada e sempre com poucas horas de sono. O carro era dele e pelo visto, ninguém mais o dirigia. não deu mais. Quando passamos pelo trevo de Analândia, 160 km de Bauru, já alta madrugada, insistimos para que parasse. Passou do trevo e ao retornar adentra pela contramão, entrando num posto de combustível na entrada da pequena cidade, 5 mil habitantes, local fechado, tudo apagado.
No posto outra aventura. Atendidos pelo vigilante que, logo entendeu a situação em curso, nos ofereceu banheiros e até um café, o dele. Quando conversávamos, nosso motorista entra no carro e apaga. Desmaia de sono e dorme, roncando em alto e bom som. Ufa! Tranquilizado, esperaríamos, pois queríamos chegar sãos e salvos. Ficamos eu, Ana e o segurança conversando até a chegada de um veículo de ronda da Polícia Militar, que suspeitando do veículo parado, estaciona bem atrás da gente. Dois policiais, o tempo passa e vou até eles. Um deles, três meses na cidade ao ouvir citar Bauru, me conta ser de lá, morador do Geisel, viajando diariamente para ali trabalhar. A conversa a seguir ajuda a espantar o sono de todos. Numa roda, trocamos figurinhas, cada qual contando histórias ocorridas nas madrugadas ao longo de nossas vidas. Enquanto isso, o motorista roncava. O PM nos alerta de chuva forte pela frente.
Quase duas horas de reparador sono e estrada novamente. Já antes de passar por cima da rodovia Washington Luiz, a chuva caia pesado. Foi difícil dirigir, mas descansado, atravessamos tudo sem percalços. Não havia neblina, mas sim, muita chuva. Difícil enxergar o lado de fora. Ele decideiu não parar e acabamos por passar Brotas e enfim, uma parada no antigo Concha de Ouro, hoje com outro nome, em Jaú. Uma moça sózinha atendendo, muito atenciosa e mais café. O motorista consegue com dois no posto, também esperando a chuva amainar, trocar duas notas de R$ 50 por PIX e me diz todo contente: "Agora não teremos mais problemas". Mal sabia ele que, a maioria dos problemas já havia sido superados e faltava pouco para chegar em casa. Tocamos o barcos e lá pelas 6h40 estávamos diante de nossa porta, vivíssimos da silva, cansados até não poder e com um revival de hilariantes histórias, vividas na estrada em tão pouco tempo.
Fomos o máximo de gentis com ele, pedindo para que descansasse antes de retornar. Ele havia nos contado que, teria que estar 13h em Lavras, para pegar um passageiro na universidade e de lá seguir até Confins, o aeroporto de BH. Ou seja, se saísse naquele instante, alguma chance de chegar, aproximadamente 8h de viagem e depois de Lavras até BH mais umas 4h. Vimos como tudo se deu na nossa viagem e nas despedidas, o abracei e lhe disse: "Meu caro, você é turrão, mas é um forte. Do jeito que segue tua vida, não vai dar conta. Uma hora a conta chega". Ele riu, disse que no domingo descansaria e que, ainda faltavam pagar mais dez parcelas para quitar seu carro. Ele teve uma vida construída nas estradas, ao seu modo e jeito, um tanto irresponsável, mas também carinhoso. Na parada em Jaú, vendo um cão de rua, molhado e tremendo, todo molanbento, permaneceu ao seu lado por um bom tempo lhe dando carinho e me disse: "Se pudesse levava todos estes para cuidar". Sua grosseria na estrada é uma espécie de modus operandi aprendido ao longo da convivência estradeira. Ana não se conformava, mas eu o entendi. Em muitos momentos foi insensível e nos colocou em risco, porém, com ele nessa madrugada vivenciamos uma inustitada e tresloucada história. Só quem já passou por algo assim, em toda a riqueza de detalhes nela inseridos e produzidos, sabe o que estou aqui escrevendo. Por fim, como tudo já passou, olhando para trás, observo tudo como se fosse um roteiro cinematográfico, que até penso em escrever com mais detalhes. Quem sabe...


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