Quem gosta de Carnaval de verdade vai atrás. Eu fui e conto aqui. A gente ouve dizer, não acredita e para ter certeza precisa ir conferir in loco, botando pés, cabeça, tronco e membros lá no lugar. E assim, depois de ouvir um boato de que, na pacata cidade de Taquaritinga, quase 200 km de Bauru, acontecia o mais agitado, animado e concorrido carnaval do interior paulista, precisava conferir. Essa cidade, ali entre Ribeirão Preto e Araraquara, já foi conhecida pela pujança na agricultura, com algumas indústrias, mas hoje, a maioria dos empregos não são mais provenientes da área industrial, pois a cidade perdeu as que tinha para outros centros da região. São 53 mil habitantes, algo bucólica e para quem chega, a primeira impressão é por ali prevalecer vida modorrenta, sem grandes atrativos. Confesso, essa foi a expectativa. Será, ali existiria condições para ser considerada diferenciada no quesito Carnaval?
Sem nenhum contato na cidade, a intenção era escarafunchar e descobrir. Nada previamente agendado. Numa das praças centrais, uma igreja com estilo gótico, bonita, um dos atrativos da cidade e noutra, um palco, com amplo espaço, onde acontecem eventos variados, como shows musicais e apresentações variadas. Num dos outros, algo me chama a atenção, a imponência de uma fachada. A aparência não enganava, ali funcionou um dos cinemas da cidade, permaneceu fechado por um bom tempo, depois restaurado pela Prefeitura Municipal e lá no alto, o letreiro, Cine São Pedro. Achei por bem começar a peregrinação por ali e me dei bem. Antes, quando chegava ao local algo me impressionou e tirei fotos. Algumas casas com pinturas bem coloridas e nelas a incrição, "repúblicas". Vi uma só faculdade funcionando no centro e me questionava: deve ser mesmo das boas, pois as repúblicas são muitas.
Na portaria do São Pedro, pergunto quem poderia me dar informações sobre o local e o Carnaval. Sou encaminhado ao 1º andar, para falar com um representante da Cultura, Gabozzo. Ele, Francisco de Assis Araújo Gabozzo, ou simplesmente Chico Gabozzo, 52 anos, como gosta de ser chamado, encontrava-se atrás de um computador, conversando com a Diretora de Cultura, Dayane Scardoeli, que educamente não perguntei a idade. Me apresento e digo ter ficado impressionado com o local. Eles me contam algo mais, não só deste mais de outros, como a igreja - minha primeira foto na cidade, quando pedi para um simpático transeunte, para tirar foto minha - e a festa de Corpus Christi. Evidentemente, tudo desandou para o Carnaval, o meu principal motivo para a conversa.
Os dois, ficaram animados e passaram a me mostrar fotos, contar histórias e eu ali, boquiaberto, não acreditando no que ouvia. Então era verdade, Taquaritinga possui um Carnaval diferenciado, com ampla participação popular já mais de 40 anos, agitação não mais vista, pelo menos com a empolgação lá deles, em outras paragens. Confesso, eu também me empolguei e eles dois não pararam mais de me contar novidades. A primeira foi elucidando o negócio das "repúblicas". Eram casas alugadas o ano inteiro por foliões, tudo para o advento do Carnaval, os 5 dias onde a cidade, como ouvi do Garbozzo, "a cidade espera pelo Carnaval". A frase é por demais significativa e só o quesito das repúblicas, muitas delas, existindo quase com exclusividade para a a festa, aquilo me tocou profundamente, ou seja, estava diante de algo surreal, único, merecendo uma atenção mais do que especial de minha parte.
Gabozzo e Dayana me detalharam o algo mais da festa, bancada em sua maior parte na cidade pela Prefeitura, enfim, dos cinco dias, no pico, 40 mil pessoas festejam nas ruas o evento. "Onde isso se repete no momento, além de Rio, São Paulo, Salvador e Recife", pergunto. Tudo começa na sexta de carnaval, com o bloco "Espanta Gente", circulando por 100 metros, muitos fantasiados e muita criticidade. Descubro que, a maioria da festa converge, desemboca defronte o Bar do Tadao, um senhor de origem nipônica, ou seja, pasmem, como alguém poderia dizer, em Taquaritinga, tem japonês no samba. De sexta a sábado, por cinco dias seguidos, um trio elétrico, o Batatão, percorre duas ruas pincipais do centro da cidade, descendo a rua Campos Salles e, tudo se findando defronte o Teruo. O mais interessante é quando pergunto a ele, como tudo começou. "O povão queria festar e se concentrava defronte o clube da cidade. Não podiam entrar e a festa começou a acontecer do lado de fora. Tempos depois, essa festa não parou, o clube acabou fechando as portas e tudo foi ganhando corpo, ano após ano, se transformando na festa atual", conta.
A festa está garantida nos cinco dias, sempre das 22 às 3 ou 4h da manhã. Um aparato é montado, até com helicóptero da Polícia Militar, monitorando e garantindo a segurança. Outra história interessante ouço da Dayane: "A Prefeitura tem um caminhão antigo, fora de circulação que é removido para o local da festa e nele instalado o som. Virou tradição. Dali, se propaga o som, tudo se iniciando com uma carretinha, depois numa perua Kombi e por fim, o caminhão". Nas ruas, são três trios, um com Axé, outro misturando axé e músicas carnavalescas e o último, o mais querido, com a Banda Matrix, com muitos metais e só marchinhas. Não são mais do que 700 metros, mas segundo contam, enquanto um está chegando, outros ainda nem saíram. E junto disso, um desfile no domingo e terça, na rua Prudente de Morais, oito agremiações, entre blocos e escolas de samba. Gabozzo ri pela minha cara de espanto e me diz: "entendeu porque nosso Carnaval é o maior do interior de São Paulo. Se não acredita, venha conhecer pessoalmente".Numa das esquinas, outro local colorido, num casarão antigo, a Rádio Massa, grande propagadora da festa, outro point de convergência dos acontecimentos da cidade.
Disse mais, muito mais e cita o Secretário de Cultura, Jonathas Fidélis, que poderia, segundo ele me dar muito mais informações. Naquela tarde não consegui falar com ele, mas sei que, pelas fotos mostradas a mim pelos computadores da Cultura, tudo o que me falaram é a expressão do de fato ali ocorre. Dayane faz mais e circula comigo até defronte onde estão localizadas algumas dessas repúblicas. "Todas elas são legalizadas, documentação toda em dia, bombeiro e tudo o mais. Fazem parte da festa. Eu mesma já comandei uma delas. Representam peças chaves de nossa festa, pois aglutinam gente, envolvida o ano inteiro para que tudo dê certo e a festa tenha prosseguimento", conta. Quando indago ao Gabozzo se, depois de tudo, Taquarintiga é parada, me diz: "Parada? Acho que se vier, além de não ficar parado, vais querer voltar todos os anos. Está convidado".
Perto da despedida cometo a indiscrição de dizer que, na volta para Bauru, passaria por Itápolis, a Cidade do Sorvete, saboreando um deles. Levo um puxão de orelha e sou levado até o Bar do Tadao, que além de reunir os boêmios da cidade, faz ele mesmo, outra especialidade da cidade, "o melhor sorvete da região". Provei, gostei e não consigo mensurar, pois gosto muito da iguaria, porém uma certeza, o japa é mesmo bom no que faz. Ele, como a maioria dos nipônicos, ri e quando comento a frase contida na camiseta de seu fincionário, "do encontro de um Visconde com um General, nasceu a esquina do Carnaval. Viva a democracia e a paz!", pergunta se a entendi. Sim, duas ruas centrais e tudo convergindo para seu bar, algo como um local histórico, espécie de patrimônio imaterial da cidade, assim como ele, proeminente personagem dos mais conhecidos na cidade.
Deu para perceber que, quem circula na cidade e não dá uma passada pelo seu bar, deixa de conhecer a essência do lugar. Enfim, o Carnaval faz de Taquaritinga um lugar único e hoje, mesmo com a situação não lá muito boa das finanças, cofres meio que vazios, a festa é mais que mantida, pois segundo ouço, é uma das maiores fontes de sua atração turística e financeira. E mais, a cidade acaba de ser incluída no MIT - Município com Interesse Turístico, do Governo do Estado e isso, como é mais do que sabido, tudo se deve em grande parte por tudo ao representado pelo Carnaval para a cidade.




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