segunda-feira, 27 de julho de 2026

DICAS (271)


O QUE ACHAM DE ALGUÉM TROMBANDO COMIGO, NUMA MANHÃ DE SEGUNDA, DENTRO DE UM SEBO?
O Sebo é o do Bau, ali na rua Treze de Maio, quase esquina com a Rodrigues Alves, centro nervoso da cidade e onde seu proprietário, o Roberto - o filho do Bau - está fazendo uma promoção dessas de arrepiar o pelo dos abnegados por livros e discos. Tudo pela bagatela de R$ 2 reais a unidade. Não tem quem não resolva, hora ou outra, passar por lá e conferir se ainda encontra algo, pois a devassa foi grande, mas pelo que fiquei sabendo, com um acervo de caixas e caixas ali acumuladas, décadas a fio, muita coisa nem os proprietários sabiam de sua existência. Ou seja, a garimpagem está em pleno curso na cidade de Bauru, mais precisamente neste sacrosanto lugar.

E assim sendo, impossível também nas idas e vindas não encontrar com alguém sujando as mãos, vasculhando velhas estantes, tudo em busca de algo dentro do seu gosto e preferência. Eu, desde quando começou essa última liquidação - Roberto afirma não irá fechar o sebo, é só para acertar o estoque -, já estive por lá umas quatro vezes e sempre me surpreendo. Hoje, quem dou de cara é o jornalista João Pedro Feza, um que residiu em Bauru por um bom tempo, trabalhando em vários de nossos já não mais existentes órgãos de imprensa e depois quando as portas se fecharam, foi em buscar de ar fresco lá pelas bandas de SAntos, onde reside há poucos metros dos botecos na beirada da Vila Belmiro, onde recolhe histórias e estórias para nos encher de inveja. Nada como viver num cais de um porto, ainda mais o de Santos, onde a história de estivadores briguentos, algo narrado tempos atrás por Plínio MArcos, no encantou. Feza dá prosseguimento ao inesgotável tema.

Vez ou outra o danado aporta por aqui, para algum trabalho dentro de sua área. Ontem circulou num dos pouquíssimas e raros eventos ainda promovidos pelo saudoso e hoje fechado Museu Ferroviário Regional de Bauru - MFRB - uma vergonha nenhum dos três bauruenses estar aberto. Hoje, como quer não quer nada, aportou lá pelas bandas do Bau e na virada de uma encruzilhada - lá dentro tem várias -, damos de cara e assim, iniciamos uma conversação para lá de boa. Nas estantes sempre algo de bom. Ele se agarra num velho LP do Roberto Carlos, desses de início de carreira e o livro cucaracha do Henfil, tudo pelo inimaginável preço de R$ 2 reais cada. Proseamos até lhe informar que, infelizmente, meu alvará estava vencido e teria que retornar ao meu bunker caseiro.

O que ve ser uma delícia mesmo é poder desfrutar de mais um tempinho, ouvindo suas histórias de beirada de porto, botequins com cheiro de sardinha, algo que, com certeza, ele deve ter acumulado ao longo dos últimos tempos. Feza é destes poucos que, por essas plagas, a gente pode denominar de jornalista de verdade. Eu, vez ou outra me intitulo como jornalista, mas não chego nem perto de alguns, cujo ofício realmente esteve no cerne de suas vidas. Eu brinco com a coisa, gente como Feza leva a sério. Tomara fique mais uns dias por aqui e possamos prosear mais um bocadinho, ele me contando as últimas do Neymar e eu, lhe atualizando sobre as últimas da thurma de Birigui que se apossou de Bauru e nem colocando a vassoura atrás da porta, não arreda mais o pé daqui. Enfim, eu e ele saímos com algumas preciosidades literárias e musicais do Bau e confesso, nenhum de nós gastou mais de R$ 20 pratas. Vale ou não a pena aparecer por lá? Só pelos reencontros já valeria e depois da garimpagem, sempre preciosidades.

EXPOSIÇÃO SEDENTÁRIA DE DOUTRINAS ALHEIAS
Mário de Andrade batizou certa feita, referindo-se a um verdadeiro vício ocupacional o de se deixar levar e ficar praticando a teoria do auto-engano, ou seja, mesmo ciente de estar errado, o sujeito continua defendendo o modus operandi de quem é o mentor do que pensa. Ele já não pensa mais por ele mesmo, mas pela ideoa do mandatário do seu mundinho. Preferiu ficar ali, aceitando tudo, do que ter que enfrentar e desdizer de quem supostamente o protege ou o ampara e assim, virou um repetidor idolatrado de algo mentiroso. Passa isso adiante, como verdade fosse, briga por causa disso, mesmo sabendo que aquilo não corresponde com a verdade e que, o outro lado, talvez faça melhor o que o seu deixa de fazer. Mas aceitar isso é outra coisa, inaveitável dentro do padrão de ações onde está encralacrado. Como desdizer do seu mentor, mesmo mentiroso, o que lhe proporcionou uma boquinha, tudo para valorizar a verdade?

Pensei nisso tudo quando vi uma pessoa conhecida, ontem enaltecendo com loas de melhor homem do mundo, o governador Tarcisio de Freitas, após este ter ido visitar a cidade de Taquaritinga, após a tregédia do vendaval da última sexta. O governador foi lá, tiraram fotos juntos e ele passou, so por causa disso a ser a melhor pessoa do mundo. Nada havia ainda de concreto em auxílio ou ajuda, somente palavras, promessas. Do outro lado, vindo do Governo Federal uma ação concreta, porém para viabilizá-la a cidade precisaria publicar um decreto se apresentando em estado de calamidade pública. Para este, por se tratar de advsersário de onde está situado, a pessoa elogia quem ainda não fez e nada diz de quem já fez algo.

Este é só um exemplo do mundo onde estamos situados. Lembrei da teoria de Mario de Andrade, a da "exposição sedentária de doutrinas alheias" e concluo que, com essa observÂncia, vou tentando alinhar mentalmente que a relação mais íntima, traiçoeira e definidora de um ser humano é a que ele trava consigo mesmo. Enfim, como é possível para uma mesma pessoa enganar-se a si própria? Num belo livrinho, o economista Eduardo Gianetti, o "Auto-engano", ele destrinchaalgo disso: "como nos desincumbimos de proezas como crer no que não cremos, mentir pra nós mesmos e acreditar na mentira ou remar de costas rumo a um objetivo?".

Cada vez mais difícil aquele que está envolvido na mentira pensar na possibilidade de estar enganado, desdizendo do que fez até hoje, as crenças, valores e paixões que os governa. Penso vendo essa gente se pronunciar: existirá uma possibilidade de rever algo e avançar ou continuará a vida inteira dominado, inerte e sendo conduzido como manada, enganado e ludibriado, tudo em troca de meras migalhas? Poucos conseguem sair deste moto contínuo. Sinceramente, pelo que conheço dele, acho um tanto difícil o governador se sensibilizar e doar dinheiro a fundo perdido para reverter o momento de cidades como Taquaritinga, pois a extrema-dierita age exatamente ao contrário, ela subtrai e não acrescenta, já o proposto pelo Governo Federal é palpável, está exposto e só não aceita quem está absorto pelo outro lado da moeda. Este é só o começo de uma divagação que vai longe...

"É SEMPRE BOM LEMBRAR QUE NÃO É BOM MEXER COM A MALUCA... ENTÃO NÃO ME CUTUCA...QUE EU NUNCA DEI VIDA MOLE PRA FILHA DA..."
Outro dia me perguntaram: "Você ouve ou já ouviu ANITTA?" Tive que confessar, gostava dela, de seu firme posicionamento da vida e político, mas musicalmente conhecia muito pouca coisa. Agora, dia 23 de julho ela lançou o álbum EQUILIBRIVUM II, continuidade da primeira parte, lançada em abril. Me convidam para ouvir e me enviam por e-mail o álbum - agora não existe quase mais disco físico, tudo no mundo virtual - e me foi dito: "Ouça do começo ao fim e me diga o que achou". Ouvi, ela influenciada nas raízes brasileiras, explorando gêneros como samba, forró e MPB com fortes referências à espiritualidade de matriz afro-brasileira, contando com participações especiais de grandes nomes como Maria Bethânia, Alceu Valença e Mart'nália, tive que confessar: além de já ter gostado - e muito - de sua postura como artista, agora me vergo e confesso ter gostado também de sua música. Creio eu, demorei muito. Sim, continuarei gostando muito mais do que ouço desde sempre, essa maravilhosa MPB, mas sempre estarei aberto para novas possibilidades. Assim sendo, escolhi para aqui compartilhar a NÃO ME CUTUCA, onde Alceu Valença tem uma pequena participação. Só posso dizer para todos os que, como eu, estavam reticentes, para que capitulem e a ouçam. Seus vídeos são de um visual extremamente competentes. Assim, ouvindo ANITTA, começo a semana.
Eis Anitta e Alceu numa das canções do novo álbum: https://www.youtube.com/watch?v=PSB7uxRtpaU

domingo, 26 de julho de 2026

COMENTÁRIO QUALQUER (275)


como é bom perambular pela aí e conhecer pessoas
UMA HISTÓRIA CAPTADA NUM DISTRITO DE CAMPINAS, MESMO DIA CONVENÇÃO HADDAD GOVERNADOR
Das viagens que faço pela aí, sempre extraio delas boas histórias. Algumas conto por aqui. Essa uma delas. Ontem, sábado, 15/07, estive em Campinas, mais precisamente nos belos distritos de Souza e Joaquim Egídio, ambos ladeando a rodovia D Pedro, a que saindo de Campinas leva quem por ela rode até Taubaté, São José dos Campos e parte do litoral paulista. Mais precisamente em Souza, ontem a convenção do PT homologando Fernando Haddad como o candidato a governador. Uma boa festa, num ótimo lugar e na saída, quando tudo se findou e todos felizes, com a real possibilidade de, neste curto espaço de tempo, a realização de uma bela campnha reelegendo Lula e trazendo Haddad para o governo paulista.

Eu, Claudio Lago, Pedro Valentim e Maurício Passos, estávamos voltando e passamos, guiados por este ultimo em Joaquim Egídio, um lugar parasidíaco e por lá, um velho amigo seu, ANTONIO CÂNDIDO SIMÕES, pederneirense como ele. Foi uma parada para nos levar a um belo restaurante, onde almoçamos e a partir daí, ouvi as histórias já perpetradas no passado entre ambos e outro da mesma localidade, o Zé, o José Roberto Alves Reginato, servidor aposentado da Unesp Bauru. Primeiro algo do Antonio, que um dia foi trabalhar naquela região, na Replan da Petrobrás, plataforma de Paulínia e gostando demais do lugar, nunca mais saiu de lá. Chegamos em seu portão e a surpresa, ele comprou um contâiner e nele construiu sua morada. Ficou lindo e peça única na cidade. Fiz questão de conhecer e para recepcionar os visitantes, um café com amendoim, receita pederneirense.

Antônio é dotado de um prosa sedutora e o depois do alongado almoço, ficamos mais um bom tempo dentro de sua casa. Maurício e ele revivendo artes feitas nos tempos quando vagavam pelo mundo. Eu só ouvindo e assimilando, invejando as andanças e causos. Por causa deles, creio eu, fomos os últimos a sair lá na convenção e deixar a cidade. Queria anoitecer quando arredamos pé. A vontade era permoitar e encontrar um canto para se encostar no contâiner residência, mas como todos tínhamos compromissos voltamos, não sem antes, Antonio sacar uma revista lá do fundo baú, uma antiga Chiclete com Banana, obra o Angeli e fazendo circular entre todos, a deixou de presente com Maurício. Este explica: "Os dois personagens da revista, o Meia Oito e o Nanico, revolucionários por osmose são eles dois, o Antonio e o Zé. Desde que foi lançado, imediatamente foram incorporados pela dupla". Isso gera uma outra longa conversa e destes reencontros, algo sem momento exato para terminar.

Tivemos que voltar, porém antes, Antonio me pergunta: "Você não conhece a Sonia Fardin?". Claro que sim, fizemos História juntos na antiga USC, ela veio para Campinas décadas atrás. Era uma das revolucionárias do curso. Antonio e Sonia se conheceram em Campinas, muito pela trajetória de lida e luta, inevitável encontro frequentando os mesmos lugares e gotos, onde ambos sempre estiveram envolvidos e ao relembrar o nome dela, nada como passar um filme pela cabeça. Eu, ela, Antonio, Zé e Maurício éramos sonhadores bem lá atrás e pelo visto, continuamos com a mesma pegada. Os outros dois, Lago e Valentim, podem ser incluídos na troupe. É muito bom ir revendo pessoas, suas histórias, a trajetória de uma vida inteira e nelas, sem desvios, sentando depois de tanto tempo sem se ver pessoalmente, constatando que, mesmo aposentados, um tanto consados, não desistimos, continuando ao lado de gente como Lula e Haddad, sonhando firmemente com um outro mundo possível. Somos assim, ou melhor, seremos assim por toda a vida.

o nojo que dá certos personagens da vida pública
ESTE É O SER SAÍDO DAS PROFUNDEZAS DO PÂNTANO, HOJE AINDA GOVERNANDO A ARGENTINA E EXPELINDO IMBECILIDADES POR ONDE CIRCULE
Que se trata de um doernte mental ninguém tem mais nenhuma dúvida, porém, este ser abjeto conseguiu anos atrás se eleger presidente da Argentina e hoje, reduziu este país a um território em total decadência e dependência. Nunca a Argentina se viu numa situação tão desconfortável como a atual, com suas indústrias praticamente sendo fechadas, uma atrás de outra, com o país sem perspectiva de recuperação. Praticamente entrega tudo, desde reservas ao próprio território e a soberania nacional, de mão beijada para os interesses, não norte-americanos, mas o do pirata que governa os EUA atualmente, Donald Trump. Um ser subserviente e limpa botas de Trump, de quem se humilha para continuar aparecendo nas fotos com seu mentor e líder. Uma vergonha para a América Latina, pelo que produz de viralatismo. Bastou abrir a boca, para dela sair algo mais contundente que uma latrina cheia de fezes. Os argentinos não ersperavam tanta vergonha com um presidente e hoje, com o país já tendo decretado falência, este senhor, fugindo de suas obrigações presidenciais, viaja para todo lugar, sempre as custas do erário público, não para levar algo de edificante para seu povo, mas para propagandear atitudes retrógradas e dentro do viés da extrema-direita. Ou seja, no conjunto da obra, um ser dos mais repugnantes hoje no planeta.

Sua imagem irradia nojo, a decrepitude humana na sua excelência. Seu visual, nada despojado, mas demonstrando a inaptidão ou mesmo incampacidade absoluta para o exercício do cargo que ocupa, o coloca não só como um dos seres mais desprezíveis, como rejeitados. Por onde passe, expele repetidamente besteiras, coisas sem nexo, nenhuma produndidade ou mesmo honestidade de propósitos. Está perdido e a cada dia que passa no poder, a consolidação do descalabro de um país, antes um dos mais altivos da América Latina, hoje com ele no poder, a latrina do continente. Não existe um só adjetivo positivo para um ser com tamanha capacidade de azedar um ambiente, de tornar impossível a convivência no mesmo ambiente, até pelo odor nauseabundo expelido. Costuma contaminar o ar dos ambientes por onde circule e só mesmo, seres tão abomináveis como ele o convidam para compartilhar o mesmo espaço físico.

Esteve no Brasil para junto de outros seres abomináveis, Flávio Bolsonaro e Tarcísio de Freitas, expelir impropriedades inaceitáveis contra o presidente brasileiro, Luís Inácio Lula da Silva. Você pode discordar de Lula, mas acusá-lo de forma criminosa e recheado de inverdades é algo além do normal, merecedor não só de repulsa, mas punição. Demonstra demência, algo repetido por todos os lugares onde comparece e em como se apresenta nestes ambientes. Sem abrir a boca já é uma aberração, porém, quando abre, fica impossível permanecer no mesmo ambiente. Sua recente passagem ao Brasil é mais que uma peça de horror, essa executada em praça pública, comprovando tudo o que aqui escrevi até agora. Tenho muita pena dos argentinos por não estarem conseguindo se livrar dele neste momento. Quanto mais tempo permanece no poder, mais a Argentina é destruída e terá difícil recuperação quand oeste se for, creio eu preso e condenado. Quem dá ouvidos para Javier Milei, colocando-o em patamares onde ainda se leve em consideração o que fala, é tão repugante quanto ele.

sábado, 25 de julho de 2026

SE É PARA IR NA CONVENÇÃO HOMOLOGANDO HADDAD GOVERNADOR, VAMOS LONGE PARA VÊ-LO FALAR JUNTO DE LULA

O JOGO É JOGADO NAS RUAS
Na Argentina, o canalha do Javier Milei, precisando de muita grana para saldar seus compromissos assumidos e sem lastro para execução, recorrer ao recurso de sempre, o que toda extrema-direita sabe fazer da melhor forma possível, aperta o cinto, arrocho total. E daí, o salafra para conseguir a grana, congela mais uma vez o salário dos jubilados (aposentados), estes já não conseguindo pagar suas contas e endividados até o pescoço na labuta pela sobrevivência. 

Estes, indignados, vão pras ruas e quando o staff governamnetal estava pronto para proporcionar mais uma carnificina nas ruas de Buenos Aires, a capital do país, desta feita, algo mais acontece e um cinturão de proteção é montado, com as centrais sindicais unidas e indo também para as ruas, protegendo os mais idosos, em ocasiões como essas, de literalmente apanhar da polícia governamental em praça pública. Uma descabida vergonha para um país, que um dia já teve alguém como Perón como seu presidente. A repressão foi obrigada a retroceder e assistir a mais uma manifestação, pacífica, porém dura contra a sequência de atos dantescos contra os interesses das classes populares e dos trabalhadores. 

A conclusão é somente uma: nada é tão ou mais poderoso do que a força do povo nas ruas. Quando o povo está unido, fortalecido e consistente, ciente do que precisa ser feito, bem organizado, não existe força que resista muito tempo. Se parte do povo colocou alguém como Milei no governo, será o mesmo povo, consciente de um erro cometido, quem irá destituí-lo e assim, devolver o país vizinho para alguma normalidade. Na minha modesta opinião mero observador como historiador, após verificar como se dá o processo em várias outras circunstâncias históricas, está chegando a hora do povo argentino dar um basta a um desgoverno que só veio para afundar o país de vez. E o nós, brasileiros, pelo menos os que ainda defendem asoberania do território brasileiro, também nos mantermos unidos e coesos, pois como sabemos, o bicho vai pegar nos próximos dias e precisamos estar atentos, fortes e sem digladiar na defesa do que ainda nos restas deste Brasil. Na lida e luta, sempre.

sexta-feira, 24 de julho de 2026

PERGUNTAR NÃO OFENDE (236)


DOS MOTIVOS E IMPORTÂNCIA DE SAIR PELA AÍ ENVERGANDO CHE GUEVARA NO PEITO
Sou um velho turrão, ainda longe de ser babão. Envergo diariamente camisetas com estampas dentro do que acredito ainda ser possível lutar neste mundo, acreditando na realização de alguns sonhos não concretizados e em curso. Isso me move e assim, saio com elas para as ruas. Uns me dizem ser provocativo, diante deste mundo manada e seguindo ditames conservadores. O interior paulista é um reduto de alto quilate conservador, vide os 80% de Bolsonaro e os seus por aqui na última eleição. Vide a contituição dessa Câmara de Vereadores, com sua quase totalidade constituída de gente voltada para ideais de extrema-direita. Diante de uma Bauru, que já teve até um prefeito comunista, hoje temos lá no Palácio das Laranjeiras uma fundamentalista, bolsonarista e perversamente religiosa, com toda família encastelada junto dela no poder.

Eu combato isso com minhas parcas armas. Escrevo e vou publicando, reproduzindo, sem medo de ser feliz o que penso e como continuo agindo. É minha forma de se manifestar e continuar vivo. Escrevo, publico e também saio para as ruas envergando estampas sugestivas em minhas camisetas. Nesta quinta mesmo, circulei durante todo o dia e também na ida ao SESC à noite, uma linda, com a cara do CHE GUEVARA ocupando todo o frontal. No SESC fui abordado por três pessoas me felicitando pelo Che e no supermercado Tauste, o da Rio Branco, onde estive à tarde fazendo comprinhas de última hora, um senhor barbudo, do tipo motociclista dessas agremiações e escudos bem definidos como direitosos, cruzando comigo várias vezes pelo corredor, fazia gestos de descontentamento.

Quando isso ocorre, o que posso fazer? Passo a ostentar mais a camiseta e assim, se agia naturalmente, passo também a provocar. A vida nos provoca e quando instigados, por que não agir em resposta? Ainda vivemos num regime onde impera o estado laico e a liberdade de expressão. Sabemos todos que, se alguém com a mentalidade retrógrada de um Flávio Bestial Bolsonaro nos governar, estaremos adentrando num regime teocrático, onde nem sair mais com camisetas ostentando algo ao contrário do pregado pela extrema-direita miliciana será mais possível. Estes fazem uso da tal democracia para chegar ao poder e quando lá, o destroem. Isso é histórico. A única possibilidade que ainda temos de viver em plena liberdade é votando em Lula e Haddad no próximo pleito.
E daí, o cara me olhando de esgueio lá pelos corredores do Tauste e eu, garbosamente me exibindo pra ele, numa espécie de ringue, mas sem as cordas e ainda sem socos e pontapés. Ele ficou só nas intenções e eu só nas provocações. Era o único por lá ostentando algo assim e nada melhor do que, circular por estes lugares - o Confiança Max é outro lugar delicioso para circular com camisetas tendo Che na estampa - desta forma e jeito. Agora mesmo, nos preparativos para mais uma necessária caminhada, com a camiseta do Che já no cesto de roupa suja, cavo outra para circular pelas imediações da Getúlio Vargas - talvez a chuva adie meus planos. É divertido observar a reação das pessoas, num tempo, onde antes, duante vigência da Lava Jato e desGoverno do Seu jair nos atiçavam e admoestavam, mas hoje mais contidos, só viram o rosto e demonstram algo de repulsa. Não sei até quando isso ainda será possível, daí, como também não sei quanto me resta de tempo de sobrevida, continuo minha saga competitiva com os malversadores do sonho de um outro mundo possível.

"A ALEGRIA É A FALSA EUFORIA DE UM GOL ANULADO"
Dar continuidade para uma polêmica as vezes vale a pena. Entro em brigas, quando tenho certeza de estar com a razão, como nessa para defender - ele nem precisa disso - o querido João Bosco e também Aldir Blanc. Uma letra e canção de um velho LP da dupla, o "GALOS DE BRIGA", selo RCA Victor, anos de 1986 - quando tinha 16 anos -, talvez o melhor de todos deles dois, com 12 canções: Do Lado A essas, Incompatibilidade de Gênios, Gol Anulado, O Cavaleiro e os Moinhos, Rumbando, Vida Noturna, O ronco da Cuíca. Do Lado B mais essas: Miss Suéter, Latin Lover, Galos de Briga, Feminismo no Estácio, Tranversal do Tempo e Rancho da Goiabada. Todas belíssimas crônicas, retratando muito mais da vida como se dava naqueles tempos, do que propriamente o pensamento de cada um. Aldir, o letrista, tinha uma capacidade descomunal de retratar o cotidiano, como de fato acontecia. E assim ele o fez na letra de "GOL ANULADO", hoje, passados 40 anos, o país é outro - nem tão melhor assim -, mas naquele tempo imperava um machismo mais latente e isso Aldir sabia como ninguém transpor para o papel em suas canções. Todas irretocáveis. De uma polêmico xumbrega, provocada pelo Estadão - que cada vez leio menos e este sim, preconceituoso e extremista de direita -, tentam colocar João Bosco, com seus 80 anos, numa saia justa. Não colou, ele reagiu a contento e para muitos, não adianta mais explicar, dizer do contexto do cotidiano retratado pelo Aldir na época, pois as cabeças estão feitas e este predomínio do politicamente correto nos dana dos pés às cabeça. Eu não estou aqui para explicar nada, mas só para reafirmar que, o país hoje padece muito de falta de entedimento cognitivo do que se lê, ouve e vê. Daí, como João Bosco, continuo cantarolando GOL ANULADO como dantes e sem medo de ferir suscetibilidades alheias. Tempos atrás fui taxado de machista indevidamente - creio eu, vergonhosamente - e nem precisei me defender, pois minhas ações nestes 66 anos de vida provam o contrário. Basta uma conversinha ao pé do ouvido com todas as mulheres com quem tive o prazer de ter contato ao logo de minha existência. João Bosco e Aldir Blanc não precisam provar nada. E eu, aqui do meu cantinho mafuento, estou hoje ouvindo o tal LP por inteiro e aqui compartilho a canção da polêmica, até para ver se os que criticaram a postura do João, a ouçam com mais atenção e refletindo melhor, revejam algo dessa besta rejeição. Temos uma briga incomensuravelmente maior e mais importante pela frente, a de reeleger Lula para salvar este país do embrulho dessa bestial extrema-direita e é nisso onde estarei envolvido daqui por diante.

Eis Bosco cantando a tal canção: https://www.youtube.com/watch?v=OYLDpa42Bbk

Quando você gritou mengo
No segundo gol do Zico
Tirei sem pensar o cinto
E bati até cansar
Três anos vivendo juntos
E eu sempre disse contente:
Minha preta é uma rainha
Porque não teme o batente,
Se garante na cozinha
E ainda é vasco doente
Daquele gol até hoje
O meu rádio está desligado
Como se irradiasse
O silêncio do amor terminado
Eu aprendi que a alegria
De quem está apaixonado
É como a falsa euforia
De um gol anulado

quinta-feira, 23 de julho de 2026

MEMÓRIA ORAL (334)


ABERTURA DA EXPOSIÇÃO "CONSTELAÇÃO CELESTINA, DE WAGNER CELESTINO, 50 ANOS FOTOGRAFANDO A VELHA GUARDA E O SAMBA PAULISTANO - SÓ PODIA SER NO SESC

Para quem acha que Bauru se encontra fora do circuito das grandes exposições acontecendo por aí, precisa conhecer o trabalho deste paulistano, hoje residindo em Bauru e depois dela, a "CONSTELAÇÃO CELESTINA" rodar por duas unidades do Sesc paulistano, aporta no Sesc Bauru com grande pompa. Wagner Celestino, já passou dos 70 anos e durante 50 anos percorreu todos os cantos do samba paulistano, produzindo belos registros, agora eternizados num livro e nessa exposição, que além de tudo, escancara um registro mais do que histórico, a das entranhas da Grande São Paulo.
Uma exposição como essa só poderia acontecer mesmo no SESC, pois aqui em Bauru, mesmo ainda estando de portas abertas uma Galeria de Arte, mantida pela SMC - Secretaria Municipal de Cultura, quase nada por lá acontece e por pouco não se transformou tempos atrás em salinhas para abrigar cargos em comissão e nada de bom. Se a Cultura de fato é necas de catibiriba por lá, no SESC ela viceja e só confirma ser este o grande espaço cultural não só da cidade, como regional. O que acontece por lá neste momento é mais que grandioso, é incomensurável. Eu confesso aqui minha burrice cultural paulistana, pois até botar os pés no SESC hoje não conhecia nada deste divinal fotógrafo, tipógrafo uma vida inteira, aposentado neste ofício e há um ano e meio residindo em Bauru, sem que ninguém soubesse ou tomasse conhecimento. Ele é um tanto tímido, reservado, mas quando boto os olhos em suas fotos, vejo que com uma câmara na mão, o cara é bamba, batuta, desses que fez das ruas da cidade grande seu habitat.
Eu o conheci naquele momento e o cerco, iniciando uma conversação sem fim ali no recinto da exposição. Fui sugando o que pude e ele abrindo seu coração. A grandiosidade de seus registros reside muito na continuidade, pois quando começou, não mais parou e o reconhecimento vem com exposições como essas. Hoje é fácil fotografar e registar acontecimentos pela aí, mas quando começou a labuta era braba e mesmo assim, insistiu, persistiu e não mais parou. Circular pelos corredores da exposição e ver o resultado em cada foto é para embasbacar curiosos e desatentos. Não há quem não se sinta atraido e absorvido pelo ali exposto. Toda a nata das quebradas do samba paulistano estão ali registrados e também alguns de outras paragens, como dona Ivone Lara e Zé Keti, quando perambularam pela noite paulistana.
Eu já fiquei amigo dele assim de bate pronto. Trocamos telefones e vamos estabelecer contato, pois se o cara fez tudo isso lá em Sampa e hoje reside por aqui, nada como incentivá-lo para que, após quebrar o gelo, adentrar o palco bauruense, ser introduzido com algumas pessoas de responsa por aqui, como as professoras Marizilda e Ana Bia, do Design Unesp e mais o Ivo Presidente, do Coletivo Samba, ali presentes, para dar um pontapé inicial nos registros na cidade. Melhor que tudo, Wagner é dos nossos, um ser que não só circula nestes lugares todos, onde o samba acontece e a vida pulsa de forma acelerada, mas entende tudo e possui um posicionamento dos mais relevantes sobre os rumos deste país.
Enalteço sempre o papel do SESC - ah, se os próceres da Cultura pública bauruense possuissem um pequeno interesse em propagar o que flui das entranhas desta cidade - e depois, ciente de aqui ser um celeiro de gente altaneira e com produção efervecente, porém contida, mas quando pipoca algo novo, talvez
 uma fagulha nova para que não desistam e coloquem todos seus blocos na rua. Eu me maravilho quando vislumbro algo com essa magnitude, tanto que, já alinhavei com o Wagner de introduzí-lo pela aí, para que conhecendo um bocadinho mais de nossas entranhas, comece o quanto antes a produzir material, criação se sua verve criativa, enaltecendo também algo em curso nestas plagas. Aproveitemos a estada do Wagner junto a nós e com uma a mais se juntando ao time dos reais realizadores desta aldeia, avancemos o sinal, ultrapassando barreiras, impedimentos, não se importando com admoestações, mas se impondo e mostrando para os que insistem em permanecer inertes que, os realizadores irão passar por cima e escancarar a existência de uma fina flor, ainda oculta, porém pronra pra desabrochar. O Wagner está ser juntando ao time dos que fazem e acontecem por aqui. Vamos acolhê-lo com a devida pompa e reconhecimento, pois o danado já deu mostras de que veio pra cá e não quer ficar parado. Parado mesmo na questão Cultura nesta cidade, só os hoje lá encastelados como dirigentes públicos, muitos comissionados, temporários e nada propondo de qualitativo. Visitem a exposição lá no SESC, a "Constelação Constantina" e contatem se é ou não pra ficar comovido com o ali mostrado. E o homem está agora morando por aqui...

MÚSICA (262)


A OBRA PRIMA DO ALDIR, PELO QUE VEJO, NUNCA SERÁ ENTENDIDA POR PARTE DOS BRASILEIROS - EIS O EXERCÍCIO DA DIFICULDADE COGNITIVA QUE NOS MOVE: ESTOU COM ALDIR BLANC E JOÃO BOSCO, PRECISO EXPLICAR? TÁ AÍ...

1.) A primeira coisa que me chama atenção no post do Estadão (que, como sabemos, não tem compromisso com a ética e muito menos responsabilidade em suas publicações) é o depoimento de um João magoado, indignado mesmo, com todo direito a sê-lo. Um João que sempre foi doce, gentil, sorridente, cujo rosto se ilumina quando nos mostra acordes, canções inteiras, suas referências de vida, espetáculos. Na entrevista, o João estava sendo provocado, instigado pra falar da canção Gol Anulado, com aquela má-fé tão característica da im-prensa em questão . Obviamente o Estadão publicou o exato momento em que a fome mostrou raiva pra interromper. Ora, se o João tá falando desse jeito, antes das pedras, seria bom nos questionarmos sobre o nosso entendimento da sociedade brasileira ao longo desses 50 anos que se passaram desde o lançamento da canção composta por ele e por meu velho, Aldir Blanc. Aliás, para os muito poucos conhecedores habitantes de internet, a letra É do Aldir, que completaria, assim como João, 80 anos. Não queiram imaginar o que meu velho faria com sua tinta giratória se soubesse que suas composições foram atacadas por pseudos “miliciantes” que não compreendem lições básicas de arte - aquela das nove musas. A canção maldita pelos fascis-lacradores de causas encontra-se no lado A, segunda do disco, e é elemento constitutivo de uma obra-prima, um álbum (objeto de arte formado pelas obras que o sustentam como produto concreto das expressões pretendidas). Tem o casal que quer se separar pela mais completa Incompatibilidade de Gênios, tem o feminismo no Estácio, tem a solidão urbana na Vida Noturna, tem a dor do luto e da desigualdade social no Rancho da Goiabada, tem galã suburbano com suas conquistas amorosas em Latin Lover, tem o lirismo de Galos de Briga que fala da coragem dos oprimidos contra os opressores, enfim, tem toda uma representação artística daquela década de 70 que só quem sofreu sabe. Sobre a re-ação do João: alguém aqui já re-agiu bem a ambientes e situações de profundo desconforto? Se sim, és um psicopata. Se não, é gente, feito o João, que inclusive nos ensinou a ser gente. Vida longa ao Boscão, tão humano que é divino! Aldir Blanc, presente! Protege seu mano daí que a gente protege daqui. Que falta você nos faz. PATRÍCIA FERREIRA

2.) Para me cancelar de vez... Esta semana as redes sociais foram sacudidas pela entrevista do compositor João Bosco ao jornal O Estado de São Paulo. Em sua fala ele criticou a patrulha ideológica identitária e as críticas a uma música sua, "Gol Anulado", que descreve uma mulher que vibra com o gol do Zico. Seu marido, contrariado por ser vascaíno, bate nela "até cansar". A reação de censura à violência explícita da letra provocou o comentário de João Bosco, mas o debate mostrou de um lado o próprio compositor defendendo a liberdade de retratar a sociedade daquela época (50 anos atrás) e do outro grupos identitários que reclamam de uma suposta banalização da violência contra a mulher.
Ao meu ver, a explicação do João Bosco e seu posicionamento contra a patrulha identitária são perfeitas. O que se vê agora é um monte de gente tentando usar um dos maiores compositores do Brasil como escada para fazer vídeos na Internet e lacrar, usando essa divisão para ganhar notoriedade. Aliás, esse debate é igual ao debate da direita que defende a pena de morte: se você se posicionar contra a pena capital, então é automaticamente a favor de bandidos e do crime. Neste caso da música de João Bosco, se você abomina a censura e defende a liberdade de expressão ampla, você esta ao lado dos espancadores de mulheres. Falso dilema, perceberam?
Essa esquerda liberal - que adora censura - acredita que se você não falar de alguma coisa ruim esta coisa desaparece. Basta não falarmos de violência e.... pufff, acabam as guerras, as lutas, as agressões e os ataques covardes. Estamos diante de um real delírio identitário: ao invés de expor a realidade, apresentar os problemas, trazer o pus à flor da pele, escondemos, censuramos, cerceamos, calamos e proibimos palavras e pronomes. João Bosco descreve um personagem em suas músicas!!! Woody Allen também, Machado de Assis e Chico Buarque idem. Como censurar literatura e música baseando-se nessa leitura torta e oportunista dos identitários? Como aceitar que um personagem não seja a imagem exata de um problema social? Como podemos, no século XXI, defender abertamente a censura mais abjeta, que amordaça a arte e detém a transformação social?
Pois quando alguém perguntar as razões do crescimento da extrema direita aqui teremos um bom início de conversa. Sou um sobrevivente dos anos de chumbo e lembro bem do clima da época da ditadura militar. Naquela época gritávamos contra a censura, que usava da violência para nos calar a voz. Se não aceitávamos que milicos grosseiros e ignorantes passassem caneta vermelha nas nossas músicas, por que deveríamos aceitar a censura dos identitários? Por que continuamos a aceitar que o neoliteralismo empobreça nossa literatura? Leiam as justificativas de hoje para calar os artistas: o bem maior, o drama da violência, as ideias que ameaçam a estrutura da família. Estas não passam de ecos tétricos das desculpas de ontem! Tanto antes como agora estas vozes representam as forças conservadoras, a serviço da direita. Enquanto isso, a esquerda está cada vez mais parecida com o que outrora combatia, tornando-se paulativamente mais moralista, antidemocrática, censuradora, oficialista, oportunista, identitária e desconectada dos reais desejos nacionais.
Censurar músicas? Sério? E a literatura? Cinema também? RICARDO HERBERT JONES

3.) Nas seis horas seguintes à derrota de um time do coração, em média a violência doméstica aumenta 6%. Quem diz isso é um estudo cruzando resultados do Brasileirão com boletins de ocorrência de violência doméstica no Rio e em SP.
Isso é uma coisa. Outra coisa é a entrevista que o João Bosco deu ao Estadão em que critica excessos dos que ele chama de identitários. Esta discussão é gigantesca. Eu, pessoalmente, apoio toda luta por direitos das minorias E o respeito integral às diferenças.
Mas o que trato aqui não é isso, e sim o samba Gol anulado, do João com o Aldir, do álbum Galos de briga, de 1976. Que narra exatamente a situação descrita no primeiro parágrafo: "Quando você gritou Mengo / No segundo gol do Zico / Tirei sem pensar o cinto / E bati até cansar". Que João citou como exemplo de cancelamento. Vou tratar apenas desta canção.
Falei outro dia da praga contemporânea da neoliteralidade ( conceito criado por mim até onde sei), que consiste em não diferenciar autor de obra, eu lírico de autor, personagem de enredo. O viés de leitura que faz com que a representação de um crime seja sempre vista como apologia do crime, nunca como crítica.
Pois bem. Numa narração artística há ao menos três instâncias: o autor, o personagem e o enredo. Eles se imbricam, mas não se confundem, porque, por mais que o autor crie a partir de suas vivências, ele não é o que narra.
Gol anulado narra uma agressão covarde a uma mulher. Muito bem, agora vejamos o contexto: João canta o samba num tom suave que contrasta com a brutalidade do que é narrado, mas também melancólico, triste mesmo.
A melodia perambula entre notas graves - a única exceção é no verso "E ainda é Vasco doente", em que ele nitidamente rememora uma alegria, mas ainda assim sem nenhum entusiasmo. E a harmonia em tom menor acompanha a tristeza.
O eu lírico da canção não vai preso, como deveria. Ele apenas perde a alegria de viver, a ponto de abandonar o futebol que o levou ao ato violento. É pouco? É. Mas não há uma sílaba nessa canção que exalte o feito. Muito pelo contrário, o que há é puro arrependimento.
Não sei de identitarismo. Mas sei um pouco de análise musical. E isso é o que eu tinha a dizer. TULIO VILLACA

4.) Sobre João e sua teimosia - Por um professor ainda preocupado com o futuro. Acho lamentável que os movimentos ditos progressistas, até os partidários, entendam que a exclusão seja uma inevitável manifestação desses movimentos. Em nosso país, o que não falta é reacionário, supremacista e classista em qualquer molde e medida. Gente que diz coisas absurdas em nome de fé religiosa e da “tradição” conservadora. No entanto, parece que, para algumas pessoas, falta energia e coragem para lidar com esse óbvio perigo, na urgência algorítmica dos “likes”. Por mera “sinalização de virtude”, termo cunhado por um grande amigo, que não quero envolver, apontamos dedos para o que nos incomoda, de um jeitinho bem seletivo, sem qualquer demonstração de inteligência estratégica, apenas para manter seu álibi, gerando assim o tal fogo amigo. Como paladinos da “verdade, pois é o que eu sinto”, estamos a todo momento a gerar mais e mais ressentimentos. Toda minha vida como educador baseou-se em uma troca real com aquelas e aqueles com quem trabalhei em sala de aula. Quando Paulo Freire escreveu sobre o amor necessário para nosso trabalho, defendia uma ideologia baseada em mútuo envolvimento para a compreensão da vida de todas as pessoas ligadas ao processo de ensino/aprendizagem. Todo movimento que se faz para qualquer tipo de esclarecimento é educacional já que todo mundo é capaz de entender tudo desde de que aberto para isso, mas com abertura que deve acontecer naturalmente e não por arrombamento. Sim, é preciso ter alguma paciência com pessoas com histórico, quando sua contribuição foi relevante e nos possibilitou chegar até aqui, livres para opinar e viver como nos convém e sem culpa. Sim, as pessoas têm direito a crítica, especialmente se nela não existe intenção de destruir. Sim, pessoas têm direito a própria defesa quando sentem-se injustamente julgadas, até porque não estão em julgamento, ou estão? Temos que reconhecer que muito de ruim foi naturalizada simplesmente por não atingir uma dita “maioria”. Que grupos sofreram e sofrem por simples descaso, pelo “a vida é assim”. O mundo segue mudando. Mas não podemos nos dar ao luxo de abrir mão de alianças como essa com o João, cada voto conta. Por uma conveniência política momentânea, aliaram-se a tudo do mais perigoso em nome de protagonismo, perdemos Brizola e Darcy e “ganhamos” Macedo e Malafaia. Depois ninguém compreende porque, mesmo com tantos crimes tão evidentes, uma eleição não está garantida. Estamos alimentando antagonismos, há tempos. Aí está o ovo da serpente. CARLITO MACHADO