Uma colega de Ana Bia aporta em Bauru, vinda da Argentina, colegas de ofício, ambas da mesma área, o Design e junto dela, o namorado, o buenarista Leandro. Enquanto as duas passam o dia na Unesp, eu fico encarregado de apresentar a cidade de Bauru ao visitante. E daí, a grande questão, onde poderia levar alguém como ele numa tarde de quinta? Tento mostrar alguma coisa, entendida por mim como interessante e acabo o levando para conhecer o Complexo do Esporte Clube Noroeste, envolvendo o ginásio Panela de Pressão e o estádio Alfredo de Castilho.
O relógio marcava umas 15h, sol à pino e os portões do complexo fechados. Bato no portão principal, me identifico e digo das intenções:
- Estou com um visitante estrangeiro, argentino e gostaria de levá-lo para conhcer a Panela de Pressão por dentro e também ele dar uma olhada no estádio do Noroeste. Disse a ele que, ambos foram construídos num época de ouro da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, com marcas bem fortes do que representou o papel do ferroviário para levantar isso tudo. Na Panela, desde aquele teto impressionante, todo de madeira e depois os trilhos na estrutura da cobertura das arquibancadas.
Isso não impressionou muito o atendente. Este deixou bem claro, na Panela até poderíamos entrar, mas naquele horário não havia ninguém. O treino foi pela manhã e tudo estava fechado. Já do futebol, a ordem era para não deixar ninguém entrar. Tudo fechado e proibido. Teriua que conseguir uma autorização com alguém da diretoria e naquele momento, não havia ninguém por ali. Estávamos quase desistindo, quando vi no portão de cima, o destinado área dos visitantes com alguma movimentação. Chegamos, explico a intenção e o funcionário, pergunta se íriamos andar por tudo ou só olhar dali do alto. Confirmo só uma olhada e somos autorizados. Conto o que sei sobre como aquele estádio foi possibilitado e olhando para a Panela, sua estrutura, chego nos motivos da denominação. Não queríamos nada mais que isso e por pouco, nem a espidada de soslaio conseguiríamos.
De lá, percorro a avenida Pedro de Toledo e chego defronte a estação da NOB. Conto o que sei sobre a importância dela para o progresso da cidade e digo mais: "Na maioria das cidades do interior, elas se desenvolveram no entorno da igreja. Em Bauru, uma das poucas, onde isso se deu no entorno da estação ferroviária". Conto mais: "Para uma cidade interiorana como Bauru, algo aqui ocorreu, com ela tendo um famoso entrocamento férroviário e nela três ferrovias, uma para cada lado. Por uma delas, passavam por aqui, gente de boa parte da América Latina, pois o trem ia até a Bolívia. Tivemos aqui essa rica particularidade, a de ver constantemente a cidade sempre com muitos latinos. Tudo se foi com a privatização e o fim do trem de passageiros. Quando Bauru poderá ter algo assim novamente acontecendo por aqui?". Eu mesmo respondi: "Só se alguém como o presidente Lula, realmente reativar a ferrovia, com o pontapé inicial dado em Araraquara, numa parceria com a China e uma fábrica de trens ali instalada".
Foi a deixa para falarmos de política. Aliás, não paramos mais. Voltei, passei por cima do viaduto inacabado e ao final, mostrei o que restou de uma época de ouro para a cidade, a maioria ruínas. "Nem a estação, imponente como você viu, hoje propriedade da Prefeitura, a atual prefeita, fundamentalista até não mais poder, promete e nada cumpre. Tudo permanece abandonado, quando poderai já estar abrigando órgãos públicos importantes e revitalizando o centro", digo. Mostro a ele a situação da primeira quadra do Calçadão da Batista, com a maioria das portas fechadas. Digo que, "o movimento, o que resta de vitalidade no centro, começa umas quatro quadras para cima. Sei que, na Argentina atual, a de Milei, o que mais se vê hoje, são portas fechadas, desemprego e abandono, servidores sem reajuste e uma penúria para endoidecer gente sã".
Leandro me conta das desventuras de um país, que já tinha problemas e hoje, tudo agravado com um despreparado no poder. Digo a ele das visitas que faço para Buenos Aires todos os anos, quando a esposa participa de um Congresso Acadêmico, do qual é fundadora e eu sigo junto, aproveitando para conhecer mais da cidade a cada ano. Confesso a ele, meu forte sentimento pelo argentino, porém, muito triste pela situação decrépita atual, proveniente de um presidente totalmente desajustado - em todos os sentidos. Ele concorda e a partir daí, torcamos figurinhas das maledicências de dois do mesmo nível, Milei e Bolsonaro. Ele me pergunta se o filho do Bolsonaro possui alguma chance na eleição deste ano. Digo que, o país está um tanto dividido, mas creio, não chegaremos a tanto, pois o despreparo e desqualificação, passado nada ilibado de Flávio Bolsonaro será como se o país passasse um atestado de burrice para o mundo. "A situação do filho do Bolsonaro é idêntica a deste secretário de governo argentino, o Manuel Adorni, que acaba de ser pego, num caso sem justificativas, com imóveis em seu nome e sem lastro financeiro para adquirí-los. Inventou ter recebido doações de duas aposentadas, valores altos, algo totalmente fora da casinha, igual aos imóveis do tal do Flávio, comprados todos com dinheiro vivo e quando se checa, não existe lastro de como poderia ter pago isso pelos meios legais. Como votar num cara como esse? Só mesmo, despirocados.
Saio do centro e digo se não quer beber algo, calor, nós dois ainda com algum tempo. Dentro das opções, ficamos a cerveja e daí, digo que lhe levarei no bar da esquerda de Bauru, o do Genaro, que naquele horário, 16h, deveria estar abrindo as portas. Dito e feito. Por lá, tomamos três bem geladas. Ele me diz que, na Argentina não se toma tão gelada como aqui. Tudo bem, lá não é tão quente como no Brasil. Genaro já ciente da visita do argentino, coloca na sua vitrolinha música cubana em homenagem a Che Guevara, ilustre argentino. Na sequência, que desponta é o uruguaio Mano Chao. Versamos muito sobre este cantante. Leandro diz já ter assistido dois shows e Genaro diz ter perdido um recente em Ribeirão Preto. Eu ainda não tive o prazer, mas confesso que tempos atrás quem cantou em Bauru foi Fito Paez, no SESC local. Disse que cerco na idas ao seu país, para ver se consigo algo com ele por lá, Leon Gieco, Teresa Parodi, Victor Heredia e outros. Não dei sorte. Evidentemente, o futebol adentra o campo de jogo e Leandro, torcedor do Velez Sarsfield. Nós dois, nos confessamos muito mais maradonistas do que messistas. Genaro lembra dos dois craques argentinos que jogaram no Corinthians, Tevez e Masquerano. Ele não perdoa: "Sim, craques, mas na vida pessoal, ambos direitistas, conservadores. O caso do Tevez, vindo de onde veio, inexplicável".
Falamos da política de ontem e de hoje, dos cantinhos que descobri na sua cidade, ele descreve algo do amor por muitas coisas brasileiras, ou seja, trocamos boas figurinhas do álbum de nossas vidas. A conversa fluiria até não mais poder, mas o telefone toca e do outro lado o aviso, a visita na Unesp chegara ao final. Teríamos que ir buscá-las. Fomos numa conversação, ele em castelhano e eu em português. Se existia alguma dificuldade de entendimento no incío, depois de algumas cervejas e acepipes, tudo se dissipou e o entendimento se deu às mil maravilhas. Voltamos os quatro para casa, no começo da noite, saímos para comer um sanduíche bauru na barraca do Jóia, o filho do Zé do Skinão, na praça da Paz - o Leandro comeu dois e terminamos a noite diante da TV, assistindo um jogo pela Copa Libertadores, entre uma equipe brasileira, o meu Corinthians e o argentino Platense. Publico este texto antes do final da contenda. Mas por aqui, tudo em paz e com entendimentos fluindo de forma maravilhosa. Isso de rivalidade é coisa besta. Somos latinos e muito cientes de que, pra gente vergar quem nos oprime, temos que nos entender cada vez mais. Por aqui, sinal de que tudo caminha positivamente.

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