DISCUSSÃO SOBRE O TEMA DA DEFESA DO PATRIMÔNIO CULTURAL NA PRÉ-CONFERÊNCIA ESTADUAL DE ARQUITETOS E URBANISTAS EM BAURU - QUAL O PAPEL DESSES PROFISSIONAIS E SUA ATUAÇÃO NAS CIDADES
Eu, na qualidade de ex-presidente do CODEPAC - Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico e Cultura de Bauru fui presenciar o debate nessa manhã, na abertura da Pré-Conferência Estadual de Arquitetos e Urbanistas do CAU/SP, no salão principal da USP Bauru. Na mesa dos debates, quatro arquitetos, Karina Jorge (Presidente do Conselho de Patrimônio de Botucatu), Rodrigo Michelin (Secretário Habitação e Urbanismo de Botucatu), Juliana Cavalini (Presidente Codepac Bauru) e Adalberto Retto Junior (professor FAAC/Unesp e membro do Conselho Estadual Defesa Patrimônio Histórico).
Cada um fez uma fala sobre o tema e na condensação do ouvido, extraio o que mais me interessou. O patrimônio histórico faz parte da Cultura contemporânea e a questão não é mais simplesmente tombar imóveis. Como intergir com as administrações municipais, conscientizado das benesses pelo tombamento. Difícil. A alternância de poder nessas administrações, ajuda e atrapalha. Cito o caso de Bauru, onde ouço pela voz da atual presidente do Codepac, ter ouvido que "se fazia necessário tirar a importância do Conselho". Quem age assim, quer calar a voz do Conselho e assim, poder manipular o setor, sem interferências. Um horror. Situação bem diferente da dita pela presidente do Conselho de Botucatu: "Tivemos sequência de gestões felizes".
Muitas abordagens foram discutidas dentro do tema. Me prendo nas pressões variadas, sempre gravitando quando o interesse privado se sobressai ao público. A maioria dos administradores não possuem entendimento do que venha a ser de fato os benefícios de tombamentos e fazem a defesa da especulação imobiliária, essa aliada a algo que, pelo entendimento deles gera progresso (sic). Me fixo no caso de Bauru, onde já tivemos destombamentos e pressões variadas para que outros ocorram - pelo que tomo conhecimento, continuam ocorrendo. A própria composição do Conselho bauruense sempre favoreceu e foi decidida pelo poder público, o que dificulta uma discussão mais séria.
No meu tempo - oito anos - dentro do Codepac, sofremos pressões de várias maneiras, pois não conseguimos tombar a Casa da Eny e ouvi da herdeira da casa Luzitana algo do seguinte teor: "Adoro ver a preservação como se dá na Europa, mas não me venha falar nisso no meu imóvel". Sempre foi difícil discutir nessas condições. Hoje, a atual alcaide municipal derrubou o chafariz da praça Rui Barbosa, deixa a Estação da NOB permanecer interditada, não faz nada pela desapropriação da Casa dos Pioneiros e no mais recente ato, está negociando a venda da área do Aeroclube para favorecer a especulação imobiliária na cidade. Se em Botucatu, tiveram "gestões felizes", em Bauru não é possível o diálogo. Não existe abertura neste sentido.
Com quatro secretárias municipais com representantes no Codepac e outros setores ainda sem participação, as votações favorecem sempre o que é imposto pela vontade e direcionamento do setor público. Esse braço forte da Prefeitura é péssimo, pois segue no mesmo caminho da época quando Bolsonaro era o presidente da República e o dono da Havan lhe pede - ele atendendo -, para que destombasse um imóvel, segundo ele, atrapalhando seus interesses pessoais. Dialogar com fundamentalistas é praticamente impossível e o mesmo afirmo com políticos de ultradireita, ao estilo Bolsonaro, Tarcísio, Milei, Trump, etc, pois os interesses são sempre outros.
Creio que, quando se fala neste momento, na ampliação da discussão do papel dos arquitetos, urbanistas e historiadores no setor, tudo esbarra no ainda reduzido e arcaico entendimento por administradores públicos, inclusive impedindo ampliação de discussões. Quando ocorrem discussões, por exemplo, entre vereadores, muito raro convidarem arquitetos ou entendidos do assunto. Decidem entre eles. Se o país retroagir, pode esquecer, pois o setor não será somente esvaziado, nem mais existindo. Discuto sobre avanços e retrocessos, porém, levo em consideração estarmos todos diante da continuidade ou não de um sistema realmente respeitando ditames democráticos. Se acham que exagero, experimentem perguntar para alguém como Bolsonaro ou mesmo Milei, o que acham do tema. Conselhos de Defesa do Patrimônio Histórico só existem e são ativos em regimes democráticos, nunca quando a direita no poder. Não me iludo.
DAS ESQUINAS E CALÇADAS BAURUENSES
Caminho todos os dias pela manhã nas cercanias de casa e como não poderia deixar de ser, algumas vezes me espanto com o que vou me deparando pelas calçadas, na maioria das vezes depositadas ali como lixo, para serem vistos, vasculhados e se possível, recolhidos. Confesso, recolho algo quando me interessa.Na manhã deste sábado, na avenida Octávio Pinheiro Brisola, altura do Aeroclube, defronte onde antes foi algo da Cherry Fotos, um monte de revistas e fotos - muitas interessantes, porém não as levei. Do monte de revistas, uma me chamou a atenção e a trago, voltando lendo pelas ruas, tropeçando nos desníveis das calçadas.
Trata-se da revista JOSÉ, edição nº 1, julho de 1976, com o slogan "Literatura, Crítica & Arte". Essa é raridade e além da preciosidade em si, deve valer uns bons trocados. Vou guardá-la, pois representa um fértil período do mercado editorial, ainda de ditadura militar e o surgimento possível de revistas com textos literários.
Compartilho o editorial, escrito por Gastão de Hollanda: "JOSÉ é uma revista criada num momento especial das letras brasileiras, em que várias outras revistas de qualidade procuram dar testemunho de um trabalho intelectual intenso e por vezes insólito. Alguma coisa mudou na área de qualidade da produção intelectual, ou mudamos nós, enquanto leitores? Existe uma crise? Os periódicos têm uma personalidade que é a soma das personalidades de seus colaboradores. Têm uma linguagem, uma semântica, mobilizadas em torno de afinidades, enquanto que, como espelho, refletem o circundante e dele procuram fixar ou interpretar a imagem. JOSÉ cumpre, com o primeiro número, uma etapa de sua proposta: a procura de uma fisionomia. (...) Depois de lançada nas bancas e livrarias: - a expectativa de receptividade pelo público, constatação de uma faixa de leitores, de assinantes, traduzida por pessoas que se identificam com um certo modo JOSÉ, de julgar, ler, escrever ou perguntar, repetida e compulsivamente, como no célebre poema do mesmo nome".
Enfim, encantado com a preciosidade deixada como lixo na calçada. Hoje, domingo pela manhã, nos preparativos para iniciar minha matinal caminhada, passarei novamente pela frente do mesmo local onde encontrei JOSÉ. Encontrarei algo novo? Como recolhedor de objetos interessantes pelas calçadas da vida, já degustei a famosa revista e agora, carrego um embornal, próprio para transportar para dentro de casa, objetos deixados no lixo pelas calçadas da vida.






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