terça-feira, 31 de março de 2026


O MUNDO DA VOLTAS E BAURU É UM OVO
Eu tenho "N" histórias comprobatórias de que este mundo é mesmo um ovo. Inesquecível para mim, quando estudando na USC, universidade católica, recebíamos aulas de Educação Religiosa, aos moldes do Catolicismo. Quem dava aulas era um padre, que depois vi, chegou a ter cargo importante na igreja em Nova York. Ele muito centrado nas aulas, exigindo de todos uma contrição, que não podia ser possível, pois éramos - não deixei de ser - rueiros demais, ou seja, vivenciávamos, mesmo antes da ditadura militar, que era católica, o tal do Estado Laico. Eu, sempre festeiro, num dos Carnavais, vou pular no Rio de Janeiro, provavelmente excursão do Guilberto Carrijo. Estou eu lá em plena Cinelândia, festa por todos os lados, quem eu vejo desfilando na minha frente e abraçado com uma linda mulata? Sim, isso mesmo, exatamente o padre que ministrava as aulas mais carolas na USC. Ele me viu e eu o vi, nunca conversamos sobre o assunto, mas as suas aulas foram amainadas desde então.
Isso aqui só para introduzir em algo ocorrido comigo no dia de hoje. Fui à dentista, chego pouco antes e como sempre, levo algo para ler. A atendente, senhora simpática, puxa conversa e me diz: "O senhor gosta muito de ler, pegue uma revista Veja ali na mesa". Declino do convite e lhe digo que trago a minha própria revista, a Carta Capital. Queria até lhe explicar dos motivos de não ler mais a Veja, mas achei antiprodutivo, pois pela forma como me ofereceu algo para ler, pelo visto, não entenderei que uma possui um tendência e outra navega em outros mares. Continuo lendo e ela insistindo em prosear, foi quando lhe disse que neste mês li exatos seis livros e que, pelas minhas contas, nem que chegue aos 80 anos de vida, não terei tempo de ler tudo o que já tenho na fila. Ela se assustou: "Seis por mês. Nossa, é só parar de comprar, que dá tempo". Digo não ter intenção nenhuma em parar de comprar e que na feira domingo, com duas bancas de livros, trouxe mais uns seis. E compro também muitos CDs, pois na promoção lá na feira, são 3 por R$ 10. "Irresistível", lhes digo.
Foi quando ela, começa a me contar algo, que no desenrolar e desfecho, fico não só de queixo caído, como prostrado e ciente mesmo, este mundo é pequeno demais, tudo dá enormes voltas e acaba voltando para perto da gente. "Seu Henrique, eu uma vez conheci um cara que gostava tanto de livros como o senhor. Meu marido tem uma pequena empresa de dedtização e fomos fazer um serviço numa casa, onde tinham livros e discos por todo o lugar, além de posteres e propaganda política, fotos de artistas. Detetizamos a casa, pois ele estava com mêdo dos cupins se adiantarem e comerem seus papéis. Não sei se o senhor o conhece, essa casa fica ali perto do CIPs, perto do Poupatempo, ali ao lado do rio Bauru". Achei muita coincidência e lhe perguntei: "Por acaso essa casa não ficava bem defronte aquele largo ali perto do CIPs onde montavam parques e circos?". Ela me responde que sim e sou obrigado a lhe dizer: "Este senhor que você foi com seu marido fazer uma dedetização foi a minha casa, que denominada de Mafuá. Ali fazíamos muitas festas, tinha meu cão Charles, livros e discos tomando conta de tudo. Perdi muita coisa por lá, devido enchentes e acabei por vender a casa e comprar um kitinete perto de onde moro, onde guardo bem menos da metade do que tinha antes".
Ela não acreditando e na hora ligou para o marido, me colocando para falar com ele. Não me recordava da fisionomia deles, mas claro, lembrava do dia quando lá estiveram, achando aquilo tudo um exagero e fora do normal. A partir daí, conversamos mais um bom bocado de tempo. Na verdade, não consegui ler a revista trazida, pois até o momento em que fui chamado para adentrar a sala do atendimento, a conversa fluiu sobre este assunto, ela encantada por ter me reencontrado desta forma e jeito, totalmente inusitada e neste novo serviço, iniciado há apenas um ano. Falamos também dessas coincidências trombadas que a vida nos proporciona vez ou outra. Anoto o telefone deles e digo que, desde que vendi a tal casa e mudei meu acervo para uma kitinete, já fiz uma dedetização, mas na próxima chamarei eles. Deu para perceber que, ela não lê nenhum livro por ano. Gostaria muito, disse a ela de incentivá-la e se possível, até indicar umas leituras. Ela me diz não ter tempo. Não insisti, não sei se o mesmo ocorre com ela, mas vejo tantos por aí, reclamando da mesma situação e na primeira horinha de folga, lá estão viciadas teclando algo pelo celular.
Foi isso, essa a história de hoje. A de que, numa cidade como Bauru - ou qualquer outra -, as coincidências ocorrem aos borbotões. Quando menos esperamos, estamos revendo pessoas e situações pelas quais nunca mais pensávamos em voltar a colocar os olhos. Essas duas histórias aqui contadas não são as únicas acontecidas comigo e envolvendo algo ocorrido lá atrás e com um desdobramento lá na frente. Tenho algumas aqui de memória, outras me lembrarei logo mais. De uns tempos para cá, quando me acontece algo assim, não sei porque cargas d'água, acabo sonhando sobre o assunto e quando me dou conta, lembrando de algo mais. Essa surpresa acontecida hoje me foi por demais grata. De alguma forma, ela reconheceu em mim, algo pelo qual tanto me empenhei a vida inteira, não só no quesito juntar livros e discos, mas também de repassar algo de bom, para quem segue me acompanhando mais de perto. Agora mesmo um baita amigo me pede, se não tenho para lhe emprestar o livro "Cem Anos de Solidão", do Gabriel Gárcia Márques. Sabe o que faço num caso destes? Não empresto, dou o livro. E depois, ele depois de lido que passe adiante, enfim, este o papel do livro. Seguir trilhas inusitadas. Tenho "N" histórias de livros que percorreram caminhos pela aí e depois, voltaram para a minha mão. Ou seja, tudo dá voltas e voltas.

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