terça-feira, 17 de março de 2026


UBAIANO, 86 ANOS E HÁ MAIS DE 40 ANOS FAZENDO A FESTA COM ESTUDANTES NO PORTÃO DA FEB, DEPOIS UNESP BAURU

Eu agora caminho todas as manhãs e segundo uma querida vizinha, professora de Educação Física na Unesp Bauru, "o melhor é a cada dia descobrir um caminho diferente, assim além de estimular a caminhada, você vai revendo e conhecendo detalhes novos de sua cidade". Segui à risca o que me prescreveu e hoje, 8h da manhã levo Ana Bia para dar aula no campus Unesp Bauru. estaciono o carro do lado de fora e vou caminhar por ali.
Procurando um lugar para deixar o carro, me vejo diante do bar do Ubaiano, figura mais conhecida de todo o campus, pois está ali fincado já por um ideterminado tempo. Começou lá na vila Falcão, com sua barraca defronte a FEB - Fundação Educacional de Bauru - e de lá, quando ocorre a transformação para Unesp, vem de mala e cuia, se instalando numa ilha bem defronte o campus. O pequeno lote já é dele, mais do que usucapião, pois já legalizou tudo. Adentro seu espaço e o vejo no portão da casinha ao lado do bar. Ele havia acabado de acordar e estava querendo assuntar o que fazer do lado de fora. Chego e peço permissão para ali deixar o carro e ir caminhar. Ele me deixa a vontade e iniciamos mais uma conversação. Reencontrar Ubaiano é sempre motivo para novas conversas, todas reveladoras.
Desta feita ele me conta do perrengue que passou, ficando perto de cinco meses internado quase ali ao lado, no Hospital Estadual. "Já me davam como empacotado, mas sai vivo e depois, ainda meio estropiado, não conseguindo pagar uma fisoterapia, consegui ali na Sorri. Foram meses apertando aquela bolinha e hoje, cá estou, recuperado", me conta. O danado é aroeira pura, enverga mas não quebra. E lá se vão 86 anos, completados meses atrás. Ele mora ali ao lado por opção, pois tem casa num bairro da cidade, mas não se vê longe se sua cria, o bar coqueluche dos estudantes. Agora mesmo, diante de alguém quebrando o seu busto, que estava fixado bem defronte o bar, já conseguiu a promessa dos atuais, que farão um novo e mais bonito que o anterior.
Ubaiano, que era Baiano, mas depois que veio da Falcão, antes faculdade e depois, universidade, juntaram tudo e ficou Ubaiano. Querido por todos, conta que um ex-aluno, daquela época da vila Falcão liga lá de São Paulo e o convoca: "Vou aí te buscar, quero que venha ser homenageado aqui. Fique preparado, que te aviso a data". E ele está sempre preparado para o que der e vier. São tantas histórias e tanta gente, a mente roda, mas tenta não se esquecer de ninguém. Passou por ali, disse que foi aluno, ele bota a cachola pra funcionar e pipoca lembranças, transformadas em histórias, sempre permeadas com muitas risdadas. "Ninguém nunca ficou me devendo. Se tem algum que ficou devendo, tiveram outros que soubream e pagaram para estes", conta.
O homem é uma instituição na Unesp Bauru. Ele hoje está cansado, mas não arreda pé, pois a estudantada gosta mesmo é de vê-lo e assim sendo vai ficando. Ubaiano tem três filhos e hoje quem toca é o Carlinhos. O atendimento continua o mesmo, precário e boníssimo, como seu público gosta. "A gente não muda, pois se mudar, eles podem não gostar. O negócio é assim como você vê, simples e eficiente. E o meu lugar é aqui, vivo aqui, respiro aqui, isso aqui é minha vida". Sua rotina é essa, acorda cedo, abra a porta, deixa o sol adentrar, senta num banco de frente pra rua e fica cumprimentando todos, pois cada um que passa buzina e ele levanta o braço. Logo cedo tem quem venha limpar seu canto, deixar tudo nos conformes, para ele desarrumar tudo novamente até o final do dia. A alegria dele é rever as pessoas, prosear e ir tocando a vida adiante. "Eu nunca tive problemas com a universidade, nem com vizinhos. Quando chega 23h, paro tudo e apago as luzes. E nesse horário eu sei, os meninos e meninas precisam ir pra casa descansar, pois no dia seguintem tem aula novamente", conclui. Quando volto da caminhada ele queria conversar mais, contar algo mais que havia lembrado. Prometo que volto toda terça, quando Ana tem aula cedo e daí, quero caminhar nas imediações e deixando o carro ali debaixo das árvores, prosa é o que não vai faltar.

QUEM NUNCA LEU UM LIVRO CAMINHANDO LEVANTE A MÃO
Eu ando tentando aproveitar todos os momentos livres para aleitura, enfim, como sei, tenho mais livros que tempo de vida. Tento tirar o atraso. Agora, o médico que disse: "Vai caminhar e irás melhorar". Fui e estou gostando. Uma professora de Educação Física completou: "Diversifique os lugares, cada dia num lugar diferente". Hoje fui lá pels lados da Unesp Bauru. O inusitado pe que, comprei o "ELA E OUTRAS MULHERES", 27 custos contos do Rubem Fonseca (edit. Cia da Letras SP, 2006, 174 páginas) na livraria Hesse Sebo & Livraria, junto do filho e no domingo estava a ler andando lá pelos lados da igreja Sagrado Coração. Dei uns tropeções, mas a leitura estava taão saborosa, não tinha como parar. Parei quando cheguei em casa.
Hoje continuei e me deliciei. É o meu quarto livro lido no mês. Escolhi um de letras maiores e em cada conta o nome de uma mulher, algo dela, histórias arrebatadoras. Resumo duas sá para dar água na boca. O garotão era gago e não só tirava notas ruins, não queria saber de ler nada. Os pais procuraram ajuda, acharam um professora particular, ALICE, não tinham como pagá-la, mas ela se prontificou a dar aula grátis. O danado num curto espaço estava tirando boas notas e pegando gosto pela literatura. Um dia o pai recebe a visita de um policial. Queria entrevista o filho, pois a tal da professora já tivera antecedentes de envolvimento com alunos. Por duas horas, o policial interrogou o moleque e esse não arredou pé. O policial foi embora, se desculpando pelo mal entendido. Nasequência, o filho se volta ao pai e diz, fiz exatamente como o senhor me pediu. E pede ao pai se pode ir na aula programada para aquela noite. O pai, evidentemente concorda. Alice salvou o garoto.
Eu ria na rua lendo algo dessa laia. Quem passava por mim, primeiro me via andando e lendo, depois rinco. Rubem Fonseca é muito bom. O outro conto que quero descrever é o TERESA, segunda esposa, cuidando como ninguém de seu adoentado marido, algunsanos mais velho. Os filhos deste o azucrinavam, pois queriam a herança. Ela era um esmero no trato com o marido, mas ele falece e os filhos se apossam de tudo. O vizinho percebe e tenta ver o que foi feito de Teresa, que some. Descobre ela estar trancada, amarrada numa cama. Entra no apartamento, de forma fria e rápida, dá dois tiros na cabeça de ambos e monta um cenário, como se a casa tivesse sido assaltada e os filhos mortos, tudo por grana e jóias. Pede segredo para Teresa. Ninguém descobre nada e dona Teresa diz que o vizinho foi um verdadeiro santo. Na verdade, ele ra matador profissional, matava por dinheiro, ou seja, nem sempre.
Uma melhor que a outra. Ainda andando, parava pelo caminho e consegui grifar algumas poucas frases:
- "...as mulheres entendem de sapatos, e são capazes de descobrir, pelo sapato de uma mulher, o nível econômico-social a que ela pertence".
- "...um dia me disse que leu num livro que o homem só precisa de duas coisas, de foder e de trabalhar, mas eu só precisava é de foder, trabalhar é uma merda".
- "Não é simplista. É apenas simples, e as definições simples são sempre as mais corretas".
- "Na cama não se fala de filosofia".
- "Fiquei olhando ele comer os seus ovos com bacon, todo marido canalha come ovos com bacon".
- "Fiquei duas horas esperando o ônibus que me levaria de volta para a minha terra. Ninguém deve sair de sua terra".
- "O Santana tinha mulher, mas vivia brigando com ela. Eu gostaria de ter uma mulher, mas não tinha e não brigava com ninguém e era feliz".
- "A primeira coisa que as mulheres fazem quando o marido morre é vende os livros dele para o sebo".
- "Quem tem que carregar camisinha é o homem".
- "A gente aprende lendo, e quem não aprende com o que leu se fode, como eu".
- "Há casos em que o cônjuge doente acaba matando o que cuida dele".
Eu não quero mais saber de livros difíceis, teses acadêmicas e tratados filosóficos. Li muito destes. Hoje amenizei e diversifiquei, desbundei e só leio o que me apetece, o que cai no meu gosto e preferência. tenho uma pilha de livros aqui do lado do meu computador, tudo aguardando leitura. Tenho uns quatro começados, mas sempre tem alguns, como este aqui, passando na frente. E quando gosto, leio até andando. Já tentei dirigindo, mas é muito perigoso, quase bati o carro. Tem leitura tão saborosa que o meslhor mesmo é parar o carro e ler, só depois de ter terminado, voltar a pegar no volante. Andando não sei, Ana Bia me diz que isso vai me deixar corcunda ou com dores no pescoço. Vou pensar no assunto.

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