SEBOS DE VITÓRIA ES
1.) CHEGUEI EM VITÓRIA-ES E SOU DESENHADO NUM SEBO PERTO DO HOTEL
Agora eu conto. Eu e Ana Bia estaremos em Vitória, de hoje até a próxima sexta, 98/05. Ela a trabalho, como banca em concurso na Universidade Federal do Espírito Santo. Eu viajo de contrapeso, ela de avião, passagem paga, eu de ônibus, um tanto mais prolongada, porém saborosa. Eu sai de Bauru na manhã da sexta, 7h30, destino Sampa, pelo Expresso de Prata. Às 14h40 em barco na Barra Funda, destino para Vitória ES, pela Água Branca. Uma viagem e tanto, chegando só hoje, 7h da manhã no terminal rodoviário da grande Vitória. Nas duas viagens devorei o livro do Ruy Castro, "Era no tempo do rei - Um romance da chegada da corte", Edit.Objetiva/Prisa RJ, 2007, 240 páginas. Delicia de leitura e no mais, espiei pouco pela janela, ou lia ou dirmia. Nem percebi quando passava pela cidade que tanto gosto, o Rio de Janeiro.
Chego no destino, um uber para o hotel e como Ana só chegará final tarde, vou bater perna. Pergunto para a atendente do hotel se um sebo que descobri poela internet, no mesmo bairro, a Praia do Canto era longe. Era espantada me diz: "Fica perto, seis quadras, mas com tantos lugares, o primeiro que quer ir, tem certeza sder um sebo?". Nem precisam dizer minha resposta. Evidentemente que, quero começar pelo sebo, para estancar a tremedeira. E assim sigo para o Torre de Papel.
Na chegada, uma surpresa, três pessoas aquarelando a fachada e dentro mais uma pessoa. Assunto sobre o que se trata e me explicam ser hoje um dia mundial, onde algo assim ocorre e alguns se põe a pintar algo de livrarias e sebos mundo afora. Mostram como tudo ocorre pelo aplicativo USK Vitória. Vasculho o local e o encantamento se dá pelos livros locais. Meio que impossível chegar numa cidade e num sebo não pedir para vasculhar a estante dos escritores locais. A proprietária me acompanha e me orienta.
Rato de biblioteca, me encanto com a história do capixaba Cariê Lindenberg, jurista, que morou no Rio de 1957 a 1963, tornando-se amigo de gente da Bossa Nova. Conta de como isso se deu, entrelaçado por algo de como era isso de querer ir fazer a vida na então Capital Federal no "Memórias CAriocas & Outras Memórias", com contra-capa do Roberto Menescal. Li um breve relato em pé, ainda vasculhando este e outros. Trago este e ainda vejo um livro, que me deu coceira de comprar, com o bauruense Gustavo Duarte, com seu inconfundível traço e nele, duás páginas dedicadas ao nosso glorioso e centenário Noroeste. Creio até volte para buscá-lo. Quando saia, um dos que desenhavam lá do lado de fora me chama e mostra um desenho que havia feito de mim. Sacripanca demais da conta. DAí, me derreto ali na frente. Nem bem chego na cidade e já recebo este presentão.
Fotografo a cena em todas as posições possíveis. Fico tão emocionado que nem me lembro de negociar a desenho, para tê-lo comigo. Volto lá para ver se localizo o simpático senhor. A dona do Torre Papel - ela e seu filho abertos há duas décadas -, vendo estar com uma camiseta estampada com uma perua, me dá uma dica, "vá conhecer o sebo Catria e conheça a história da kombi literária de Vitória". Aguçou minha curiosidade. Fui, também querendo saber o que vem a ser isso de "catraia". Já gostei de tudo. A dona de um sebo, vendo que sou se fora, me indica para passar em outro. Isso acontece muito em sebos, lugares onde além de sempre conhecer gente mais que especial, astral comportamental diferenciado e magnetizante. Vou seguiro conselho, mas isso conto em outro post.
Dia de surpresasliterárias. Essa a aewgunda. Tudo começou quando, lá perto do hotel, sei quadras, o sebo Torre de Papel e a indicação para conhecer o CATRAIA. Na verdade, não entendi direito o nome, achei que seria "catralha" e quando me perguntaram o que seria, disse que algo para se desfazer, coisa assim. Chego de uber e percebo o engano no nome. O Catraia Livros & Leitura é cria nova dentro do cenário literário na cidade, talvez o filho temporão, o último da fornada de lugares onde é propício a conversa literária.
Para quem chega parece uma garagem, mas se não é quando se entra pela frente, pela outra porta, sim, pois lá fica estacionada e guardada a tal da kombi literária, um serviço de quatro rodas levando livros e conversações neste sentido para os mais diferentes do estado capixaba. Pela frente, o casal que, investiu tudo o que possuia no negócio, estão ali para promover Cultura. Nas estantes, os indicativos do que vai ser encontrado em cada uma delas é um belo chamarisco. O exemplo que mais me chama a atenção: "Livros para atravessar a tirania".
Quando escolho um livro para trazer, dentre os autores locais, o jovem proprietário me indica escolher um do Saulo Ribeiro. Ouço algo dele, escritor, roteirista e editor de livros. De todos indicados, escolho o "Os incontestáveis", que acabou se transformando num filme. Um antigo Maverick, venvido pelo pai, ainda em vida é procurado pelos dois filhos, vasculhando o estado inteiro. Quando encontram, um fazendeiro violento - interpretado pelo Tonico Preira -, seu atual proprietário e um desfecho desconsertante. Sou convidado a procurar o filme pelo youtube e saber do desfecho. Trago o livro, que devo ler ainda antes de me despedir de Vitória.
Saulo e o casal de proprietários aprontam mais por aqui. A tal da Kombi é capitaneada pelo escritor e percorre, de forma mambembe inauditos lugares. A kombi deixa a garagem e o espaço recebe constantemente gente interessada em presenciar boas discussões e mesmo um concorrido cine clube. Me contam que, para entender de fato o que venha a ser os trilhos percorridos pela tal kombi, a "Literaluta", só mesmo pesquisando algo pelo youtube, pois se contarem não iria acreditar. O mistério irá se dissipar em breve quando terminar a leitura do livro ou chegar no hotel e pesquisar sobre o tal filme capixaba, "Os incontestáveis". Ou seja, a coisa ferve e muito neste que é, mais dos estados conservadores deste país, mas a resistência acontece e produz muita fumaça.
Por fim descubro que "catraia" é um pequeno barco, que atravessava e circulava entre as ilhas no entorno da cidade, algo como a trajetória antes feita por barcos na Baia de Guanabara, entre Rio e Niterói. Na poesia de Edivan Freitas, o Catreiro, eis a explicação: "Minha margem terceira/ Esta Baía/ Minha casa e raiz/ Esta catraia/ Entre um lado/ E outro/ É onde eu moro/ Meus vizinhos:/ O Penedo e o Cais". Tudo por aqui é assim, em cada circulada novas descobertas. Como Ana só vai chegar lá pelas 19h, aproveito para perambular pela cidade e ir desvendando algo dentre as portas que se fecham no meio de uma tarde de sábado. No sobe e desce, após almoçar num mercado popular, descubro mais um sebo. Conto a seguir.
Os outros sebos visitados neste sábado eu fiz de forma premeditada, sabendo o que estava a procurar. No caso do "Cheiro de Livro" foi diferente. Almocei num Mercadão no centro de Vitória ES, depois me pus a zanzarsem rumo, querendo conhecer um pouco da cidade, numa tarde de sábado com muitos locais fechados ou fechando suas portas. Um centro igual a tantos outros. Ouço que, quando inaguraram um shopping, aquela grande movimentação existente foi diminuindo e hoje, portas fechadas é o visual mais representativo.
Foi quando numa esquina, com escadaria pela frente, uma banca na beirada da calçada e alguns livros, todos praticamente grátis, ali postados com um recado: "Leve e deixe um real por cada". Escolhi dois, o "Causos da Ilha", coleção escritos de Vitória e as histórias de alguém muito conhecido por aqui, Ornélio Viola, no "De tudo o que vivi". Nada como chegar num lugar e já ser arrebatado por histórias e escritos locais. Olho para cima, muitos degraus acima e um convidativo lugar com o letreiro "Cheiro de Livro".
Subo, adentro e diante de mim, mais um sebro com a cara e identidade libertária já na aparência. Sou recepcionado pelo xará Henrique, um dos donos do lugar. Digo de como cheguei ali, dos livros na banca e do encantamento ao adentrar a livraria. Ele faz questão de me mostrar o lugar e me deixa só, vasculhando o acervo. Tiro fotos, perambulo, peço uma coca e conversamos mais. São dois jovens, vivendo do arrebanhado no lugar. Fico encantado com uma estante só com livros de locais.
Henrique me faz perguntas sobre São Paulo e eu a ele sobre um capixaba que li muito, o escritor Carlinhos Oliveira, que conheci uando o Jornal do Brasil chegava diariamente em Bauru via trens e ele era um colunista já famoso, coluna ao lado da de Drummond. Me diz promover anualmante um dia para homenagear Carlinhos, no dia de seu aniversário. "Se você não encontra muita coisa dele por aí é por causa dele ter saída da cidade atirando pra todos os lados, algo até hoje não deglutido pelas elites. Mas ele é mais que ótimo, excelente", me diz.
Por fim, após vasculhar tudo, tirar foto com um fundo literário, escolho um livro do João Ubaldo Ribeiro, um baiano carioca, "Noites Lebloninas", que não conhecia, escrito depois dos vinte anos morando no Leblon, quando trocou a ilha de Itaparica pelo bairro carioca. É o que gosto de ler no momento. Ele me incentiva a voltar e devo fazê-lo, pois com uma semana pela frente na cidade, pouco mais de 300 mil habitantes, devo ir e vir em lugares como este nos próximos dias. Hoje essa foi minha diversão e confesso, gostei demais. Depois, lá pelas 19h30 chega Ana, carinha der cansada, via aérea e minha vida se transforma. Ela me arrebata para outras paragens e, é claro, sigo sem pestanejar.

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