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sexta-feira, 14 de maio de 2021

OS QUE FAZEM FALTA e OS QUE SOBRARAM (149)


A ESTAÇÃO FOI DESOCUPADA, MAS O QUE MESMO VIRÁ DISSO TUDO?
A Estação da NOB, ali junto da praça Machado de Mello é “a mais bonita do interior do estado de São Paulo”, segundo palavras de Ignácio Loyola Brandão, quando passou por aqui e sentado num dos bancos da praça relembrou dos tempos quando por aqui passou. Numa delas aguardou sentado a chegada de trem da então namorada Joana Fome, atriz de televisão e teatro. As histórias ali passadas são milhares, cada qual contando uma em particular. Por ali até assassinatos ocorreram, também encontros dos mais inesperados, como Che Guevara tendo por ali passado de forma clandestina. Ela reinou por longas décadas, mas depois da privatização das ferrovias, definhou e foi levada ao abandono e esquecimento. Na administração Rodrigo Agostinho um esforço para sua aquisição, já pensando em alguma utilização, provavelmente cultural. Por enquanto, nada vingou, com o ex-prefeito Clodoaldo Gazzetta disponibilizando suas instalações para variadas ações culturais. Algo por ali voltou a ferver, mesmo de forma modesta.

Logo a seguir a decisão de desocupar as instalações e assim foi feito. Todas as entidades ali ocupando espaço foram intimadas via judicial para desocupar o local. Quase todas as fizeram, só restando hoje uma a que representa o ferromodelismo, reticente por causa de sua proximidade com a linha de pensamento e ação da atual prefeita, Suéllen Rosim. Ou seja, durante os últimos meses foi efetuado um apressamento na desocupação do lugar e agora, a pergunta que sobrou disso tudo é somente uma: o que será feito da Estação? Como o desgoverno da novíssima (sic) prefeita já demonstrou por outros atos, tudo o que se refere a dinheiro está sendo contingenciado e direcionado para questões onde veja prioridade, relegando e postergando tudo o mais. Daí, com a estação praticamente vazia, será que não passaremos por novos tempos de abandono e esquecimento? Tomara que não e para tanto bato na mesa três vezes: toc toc toc. Tomara que a prefeita e seu staff de agenciadores não esteja pensando em fazer algo por lá somente esperando que verbas cheguem via leis de incentivo e emendas parlamentares. Que ao menos exista um projeto consistente para não só restaurar a estação, como incrementar a recuperação do centro velho bauruense.

Escrevo este texto movido pelos últimos acontecimentos de Audiência Pública realizada dias atrás, quando a Secretaria Municipal de Cultura foi questionada e do que se ouviu de resposta, algo mais do que preocupante. Nenhum projeto viável em andamento. A desculpa é a de sempre, a pandemia. Creio eu que, tempos como este, ótimos para as pessoas, principalmente as dentro do serviço público cultural, com pouco serviço externo e com portas fechadas, exercitem mais e mais o livre pensar, colocando em prática a difusão de ideias e proposituras. Aguardo ansioso por essas. Já ouvi muita coisa, vi muito papel impresso com projetos, mas agora, quando conseguiram tirar de lá quase tudo o que ocorria, a expectativa é imensa. Tirar todos de lá e nada fazer vai ser o uó do borogodó. “O tempo passa, o tempo voa...”, cantava a musiquinha de propaganda do Bamerindus e cai como uma luva para o marasmo hoje reinante lá na gare da estação, praticamente às moscas e tudo inerte, esperanças mais do que renovadas de que, algo foi pensado e está sendo urdido de forma séria. Enfim, até quando iremos aguardar o passo seguinte? Já passou da hora de algo acontecer por lá.

BANDA E ORQUESTRA MUNICIPAL VÃO ENSAIAR NA PRAÇA RUI BARBOSA
Essa duas instituições culturais bauruenses sofrem para dedéu por essas plagas. Mudam de lugar a todo instante e até hoje não conseguiram encontrar um porto seguro para chamar de seu. Quem frequenta o espaço onde está o Teatro Municipal ali na Nações Unidas deve ser lembrar deles ensaiando por todos os cantos, espalhando música, afinando instrumentos até nas escadarias frontais do centro cultural. De lá foram para o Automóvel Clube, onde permaneceram por quase uma década. Tempo de calmaria de boa e intensa produção cultural. Conseguiam interagir com a população circulando pela praça Rui Barbosa e diariamente muitos populares paravam diante dos portões em busca de minutos de boa audição musical. De lá, quando a Prefeitura decidiu não mais pagar aluguel daquele imóvel, tudo foi levado para a gare da Estação da NOB, ali na praça Machado de Mello. Tudo foi levado para lá e o que se via eram os jovens tocando espalhados pela imensa plataforma. A adequação podia não ser das mais apropriadas, mas por estavam novamente num porto seguro. Pouco antes, por pouco não foram alocados para onde um dia funcionou a Oficina Cultural Glauco Pinto de Moraes, na rua Amazonas, local totalmente reformado para atividades culturais e depois, quando tudo pronto, o governo estadual entrega de bandeja para atividades judiciais. O histórico é de instabilidade e constante mudança. Por fim, na administração Clodoaldo Gazzetta, foi alugado imóvel na rua Saint Martin, onde um dia funcionou posto dos Correios. Atuaram muito pouco tempo por lá, pois logo chegou a pandemia e as portas foram fechadas.

Hoje a notícia confirmada pela boca da própria secretária de Cultura, Tatiana Sá, que em recente entrevista na TV Câmara, para o jornalista Nelson Gonçalves afirmou que o contrato de aluguel do espaço na rua Saint Martin não será renovado, portanto, os músicos estarão novamente sem sede para chamar de sua, praticamente sem espaço para ensaiar e guardar adequadamente seus instrumentos quando tudo voltar a se normalizar. Estes criticam o ex-prefeito pro ter feito um contrato no local de apena um ano de duração, quando prevendo o que agora se sucede, poderia ter feito por vários anos, ou seja, mais difícil não ser honrado até o final. O fato é que no começo do segundo semestre vence o contrato e até lá, talvez as atividades culturais já estejam quase normalizadas ou se encaminhando para tanto. E quando isso ocorrer, não se tem ideia de onde serão “encostados” os músicos da Banda e da Orquestra, que tanto orgulho para trouxeram para o município e a comunidade bauruense. Como se observa, tudo por lá na Cultura está sendo tratado com pouco caso e desleixo, sem a devida importância que cada atividade exige. A pandemia facilitou a ação da prefeita, que não leva em consideração as atividades culturais, pois sendo bolsonarista, assim como seu mentor, empurra a Cultura com a barriga, pois dela possuem medo, enfim, povo culto desmerece quem o destrata. Com tudo fechado, a coisa vai que vai, mas está chegando o dia de tudo voltar a funcionar e daí, sabemos, a cobra irá fumar. A prefeita e a secretária precisam mostrar a que vieram, deixar de criar justificativas e atuar de fato em prol da Cultura. Será? A classe artística está com os pés e mãos para trás, pois diante do quase nada feito até agora, já estão imaginando os músicos ensaiando debaixo das árvores na praça Rui Barbosa e guardando seus instrumentos no cubículo debaixo do coreto.

DESPEDIDA
ORIOVALDO JUSTINO, FAMOSO "SETE OFÍCIOS", SE CALA O TOCADOR DE VIOLINO PELAS RUAS DE BAURU
Seu Ariovaldo era o que se poderia chamar de sujeito polivalente, pois fazia de tudo e mais um pouco. Muitas vezes tudo ao mesmo tempo. Inesquecível os tempos quando circulava com sua LAMBRETA pelas ruas da cidade, carregando sempre uma maleta de pequenos reparos, pois consertava de tudo, era o que se chama hoje de “Marido de Aluguel”. Pequenos reparos era com ele mesmo e assim cortava Bauru de norte a sul. Inquebrantável na alegria, junto da maleta na moto carregava outro invólucro, onde carregava com todo cuidado e esmero o VIOLINO. Eu sei que ele tocava nas igrejas da cidade, de várias crenças, pois ele não era dado a preconceitos. O importante era ser convidado para colocar seu instrumento em funcionamento e daí, parava tudo, a moto no meio da rua e se punha a flanar aquela vara nas cordas sempre afiadas. Fazia a alegria por onde passava. Eu o conheci assim e essa é a maior lembrança que carrego dele, o de um original músico destas plagas. Certa feita, o encontrei na Feira do Rolo e ele me mostrou seu novo telefone celular e como o acondicionava junto da cinta. Era um patacão, parecida um tijolo. Sim, os primeiros celulares eram grandes e pesados e só serviam para ligar e atender telefonemas, nada mais. Ele criou um aparato para envolver o aparelho e protege-lo de quedas, esbarrões e mesmo ficar solto no bolso e se perder num solavanco da estrada. Sua importância e generosidade sempre saltavam aos olhos de todos que tiveram o prazer de conhece-lo. Muitos o chamavam de "Sete Ofícios", pois batia nas onze, jogava em todas as posições, ou seja, fazia de tudo um pouco. A última vez que o via ele estava também numa manhã dominical na Feira do Rolo – ponto de encontro magistral desta aldeia -, creio eu, trazido por alguém, algum parente próximo, talvez a filha, que o soltou por ali e estava de longe o vigiando, tomando conta, cuidando da preciosidade.

Hoje quem me liga é a Mônika Batista, prima dele e me passa a triste notícia, seu Ariovaldo faleceu e ciente de já ter escrito muita coisa dele, me pede, “escreva dele, faça uma homenagem”. Paro imediatamente tudo o que estou fazendo, ainda meio esquisito e com a imagem dele na cachola. Sento e começo a batucar minhas lembranças dele. Sabe que se me perguntarem a profissão dele, do que se aposentou, não sei dizer, mas desde que se aposentou passou a ser mais conhecido, pelos dotes musicais e pela lambreta. Ultimamente ele morava lá pelos lados do jardim Vânia Maria, sob os cuidados da filha, Jussara e de outros familiares. Seu Justino será eterno personagem das ruas bauruenses e toda vez que o via, na ponta dos cascos, conversador e tinindo de saúde era mesmo de um prazer mais que inenarrável. Eu sou um trombador por natureza e mesmo na correria da vida, sempre que cruzava com estes, os tais imprescindíveis, esses que, mesmo com a passagem do tempo, fazem de tudo e mais um pouco para continuarem em exposição, sendo, fazendo e acontecendo, parava e ia prosear. As nossas ruas só são ricas, cheias de vitalidade por causa dessas valorosas pessoas, todas convergindo para um dos espaços democráticos destas plagas, a feira dominical, ponto de convergência de tantos de igual valor. Faleceu ontem, 13/05/2021 e seu enterro ocorre hoje, 15h30.

Em 30/09/2015 escrevi dele no blog Mafuá do HPA: “JUSTINO COM SEU VIOLINO E LAMBRETA, INESQUECÍVEL PESSOA - Conheço seu ORIOVALDO JUSTINO do tempo em que andava pelas nossas ruas com uma lambreta e dotado de um capacete dos mais maneiros, cheio de incrementos mais do que pitorescos. Fazia serviços variados em residências, tipo as de encanador, eletricista, sempre acompanhado do seu violino, objeto meio que inseparável. Com a idade chegando, os filhos o impediram de continuar se arriscando com a moto por aí, mas não conseguiram fazer com que aposentasse o violino. Sempre tocou em tudo quanto é lugar, desde batizado, festa de casamento, culto religioso, bodas de prata e os mais diversos locais onde era convidado. Se estivesse com o instrumento do lado e o encontrando pela rua, pedindo ele o tirava da caixa e executa o serviço ali mesmo. Figuras das mais simpáticas e solicitas. Certa vez o encontrei voltando da casa de um enfermo. Havia ido lá para levar alegria com sua música. Justino é exatamente isso, a alegria em pessoa, bondoso, simples, singelo e prático. Escrevi dele tempos atrás, pois em tudo o que fazia uma pitada de irreverência e picardia. Tinha um celular daqueles grandões, tipo tijolos, pesados e o carregada num suporte seguro pela cinta. Havia produzido uma capinha especial só para ele, toda decorada, com metal retorcido e cheia de adereços. Da última vez que o vi ele estava pronto para tocar ali numa igreja na Araújo, para cima da Rodrigues. A idade chegou e nada mais sei de seu paradeiro, sei que morava lá pelos altos do Jardim Bela Vista”.

Escrevi e publiquei no blog Mafuá do HPA estes textos sobre seu Justino: https://mafuadohpa.blogspot.com/search?q=violino+justino

sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

RETRATOS DE BAURU (4)
ORIOVALDO JUSTINO E SEU VIOLINO




Conheço seu Justino do tempo em que andava pelas nossas ruas com uma lambreta e dotado de um capacete dos mais maneiros. Fazia serviços variados em residências, tipo as de encanador, eletrecista, sempre acompanhado do seu violino, objeto meio que inseparável. Com a idade chegando, os filhos o impediram de continuar se arriscando com a moto por aí, mas não conseguiram fazer com que aposentasse o violino. Sempre tocou em tudo quanto é lugar, desde batizado, festa de casamento, culto religioso, bodas de prata e os mais diversos locais onde é convidado. Se estiver com o instrumento do lado e o encontrar na rua, pedindo ele o tira da caixa e executa o serviço ali mesmo. Figuras das mais simpáticas e solicitas. Outro dia o encontrei voltando da casa de um enfermo e que havia ido lá para levar alegria com sua música. Justino é a alegria em pessoa.

Telefone de contato: 14.30163110 - 96214852

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

MEMÓRIA ORAL (187)


SETE HISTÓRIAS DE GENTE QUE SACODE A ROSEIRA EM BAURU

1.) LUIS LUVIZUTTO E SEU DESCOLADO BAR LÁ NO BAURU XVI

Não me canso de escrever por aqui que a boa música tem em Bauru um espaço mais do que privilegiado. Temos bons músicos e mesmo com essa tal de crise fazendo questão de bater à nossa porta, existe um bom espaço para apresentações variadas e múltiplas. Algo me encanta mais do que tudo e é quando vejo alguém num inusitado lugar, investindo num local periférico, longe dos tais points e propiciando um algo a mais, diferente e cheio de ousadia. Para esses mais do que um simples reconhecimento, um baita abraço. Esse perfilado aqui hoje fez isso, tem seu estabelecimento numa vila e lá também presente os músicos todos. Ele é merecedor de muito mais do que um mero afago, para mim, um empreendedor.

LUIS LUVIZUTTO é um sujeito rodado, aos 50 anos, chegou a morar tempos atrás e por oito anos em Fortaleza CE. Quando perguntado se é casado, brinca: “Sim e não. Já fui tudo, amasiado, juntado, apaixonado e hoje, solteiro”. Trabalhou por longo tempo aqui em Bauru como técnico de som e dessa forma conheceu boa parte da classe artística local. Relembra dos tempos na retaguarda de grupos como o Fonte Musical, por oito anos (onde atuou o atual secretário de Cultura, o Elson Reis) e no Alta Classe. Retornou para a cidade após o falecimento do pai, o Lindo, que tinha um bar lá nos altos da Nova Esperança e o fez para cuidar da mãe. Passou a morar com ela e teve a feliz ideia de reviver o bar do pai, reaberto na quadra 5 da rua Ramiz Tayar, a principal do Bauru XVI. O nome foi uma justa homenagem ao velho, Buteko do Papai, inaugurado em 29 de junho passado. Inovou trazendo a boa música, sempre as terças para o local, quando nesse dia poucos tocam som ao vivo, já tendo por lá passado quase todos os nomes da noite bauruense, seus velhos conhecidos. Luis toca o bar, localizado num largo de fácil estacionamento, recebe a todos com muita alegria, bota o filho para lhe ajudar quando o calo aperta, cuida também de um tio, paparica a mãe o tempo todo e quando pode, baixa as portas e também dá suas escapadas cidade afora. A comidinha lá servida é a fina flor dos botequins, indo de língua à dobradinha, tudo preparado ao seu modo e jeito. Fazendo fama.

2.) JORJÃO MUNHOZ CIRCULA COM SUA CADEIRA DE RODAS MOTORIZADA CIDADE AFORA

Desse aqui hoje retratado tenho uma história das antigas para contar. Temos um baita amigo em comum, Daniel Carbone, hoje morando em São Bernardo do Campo e certo dia, coisa de uns trinta anos atrás, fomos pescar numa turma nas barrancas do Tietê. Lá no meio do rio, eis que um deles, o único deficiente, que tivemos que carregar pra dentro do bote, cai na água e junto dele quer levar a todos. Nós voltamos, ele não e nada de um lado para outro do rio, algo que poucos dos “eficientes” conseguiria fazer. Voltou são e salvo e rimos muito. Ontem o reencontro e pergunto se repetiria a proeza. “Que isso, não entro num rio há décadas, mas que foi bom, foi, né?”. Foi.

JORGE MUNHOZ, 59 anos, foi figura demais de conhecida em Bauru décadas atrás. Motivado por uma paralisia infantil, sempre andou de muletas, o que não o impediu de fazer e acontecer. Com a mobilidade reduzida, sempre praticou esportes e foi forte pacas, braços engrossados. Atuou nas hostes da antiga TV Bauru, sempre atuando nas mesas internas de som, nos seus áureos tempos. Foram mais de 15 anos revividos por ele sempre entre muitas histórias e risadas. E se assim recorda aqueles tempos é porque devem ter sido memoráveis. De lá perambulou um bocado pela aí, tentou até a política e depois foi se encaixar lá nas hostes da EMDURB, quando se aposentou após sete anos ali trabalhados. Morando lá nos altos da Castelo Branco, numa rua paralela perto da quadra 24, sai diariamente de casa e de quatro rodas, ou seja, rodando com sua motorizada cadeira de rodas. Encostou a muleta de vez por causa do seu peso. Tudo lhe era demais dificultoso com as ditas cujas. Um bonachão, diz estar no sétimo enlace matrimonial e com um casal de filhos, feliz da vida, não tendo reclamações do atendimento que as empresas de ônibus prestam aos em situação como a dele, pois sempre que precisa, a van que atende os deficientes passa pelo seu portão e o leva cidade afora. Jorge roda muito, conversa muito, discute muito e no final do dia uma só preocupação, a de não esquecer a bateria de sua cadeira fora do carregador, pois do contrário no dia seguinte não irá a lugar nenhum.

3.) ODAIR ADORNO FEZ QUASE DE TUDO, HOJE TEATRO E PASTOREIA
Sabe aquilo da pessoa jogar em todas as posições? Hoje tento descrever alguém assim, fazendo de sua vida um ajuntamento de atividades, algumas delas bem dispares e desconexas, mas lá no fundo, tendo um belo elo de ligação. Quando vejo uma pessoa resignada com sua situação, reclamando da vida e tudo aí pela frente esperando de gente para os aprontamentos todos, percebo que alguns possuem uma disposição muito mais acentuada. Alguns parecem possuir um motorzinho nas canelas e não ficam parados nem que a vaca tussa. Vivem agitando suas vidas e a cada dia que passa juntando a tudo o que já fazem um algo mais. Quando você pensa que ele já fez de tudo, na virada da esquina lá está ele fazendo um algo novo. Vejam se não é o caso desse aqui.

ODAIR ADORNO é um baita negão, desses que referendam o termo criado para o mestre da música Monsueto, mas que serve como uma luva para outros tantos. O vejo como uma pessoa inquieta, sempre em busca de algo novo, catando aqui e ali, escarafunchando por tudo quanto é lado as novas possibilidades proporcionadas por essa vida. Tempos atrás esteve à frente de uma escola de samba, desses de guardar todo o aparato instrumental em sua casa e tudo da escola em sua cachola. Tempos depois esteve atrás de outra atividade a lhe mover a vida e tomar todo o seu tempo, o futebol amador. Com o mesmo endoidecimento do primeiro, tudo seu estava entrelaçado nisso. Juntando a tudo isso, nesse interim descobriu-se evangélico e se não me engano, chegou ao grau de pastor, outra coisa que deve tomar boa parte do seu disponível tempo. Pensam que isso o faz aquietar-se? Claro que não. Essa foto aqui publicada e retirada do seu facebook é mais uma atividade no seu já imenso currículo. A nova experimentação está se dando no campo teatral, onde está buscando algo a mais para recarregar suas energias. Ufa! Isso não é tudo. Com essa carinha alegre de sambista da velha guarda, esse distinto cidadão é um elétrico cidadão. Dias atrás estava divulgando um anúncio sobre uma escolinha de futebol lá onde mora, na Pousada da Esperança, a Organização Social, Cultural e Desportiva Pousadense, tudo com o intuito de retirar meninos da rua. E noutro já está desfilando com um garboso terno concorrendo ao título de Melhor Idade Masculino. Odair bate nas onze, folego de gato e diante de tudo isso, só não sei onde encontra tempo para dormir. Agitadíssima pessoa.

4.) JUSTINO COM SEU VIOLINO E LAMBRETA, INESQUECÍVEL PESSOA
Na antiga propaganda do Bamerindus, algo assim: “O tempo passa, o tempo voa e a poupança Bamerindus continua numa boa”. Nem o Bamerindus existe mais, mas a tal musiquinha não me sai da memória, agora sendo recordada com uma pequena mudança: “O tempo passa, o tempo voa e a roubança continua numa boa”. O que essa letra tem a ver com o personagem hoje retratado é somente uma coisa, a tal da presença inexorável do tempo, uma que chega para tudo e todos, afastando da convivência das ruas muitas das pessoas pelas quais víamos quase diariamente. “O tempo passa, o tempo voa” e fico aqui a me perguntar sobre o paradeiro desse e de tantas outras pessoas. Só mesmo o facebook, com essas ramificações todas, enfronhadas nos mais diferentes lugares poderá nos auxiliar na localização dessa saudosa pessoa. Cadê ele?

Conheço seu ORIOVALDO JUSTINO do tempo em que andava pelas nossas ruas com uma lambreta e dotado de um capacete dos mais maneiros, cheio de incrementos mais do que pitorescos. Fazia serviços variados em residências, tipo as de encanador, eletricista, sempre acompanhado do seu violino, objeto meio que inseparável. Com a idade chegando, os filhos o impediram de continuar se arriscando com a moto por aí, mas não conseguiram fazer com que aposentasse o violino. Sempre tocou em tudo quanto é lugar, desde batizado, festa de casamento, culto religioso, bodas de prata e os mais diversos locais onde era convidado. Se estivesse com o instrumento do lado e o encontrando pela rua, pedindo ele o tirava da caixa e executa o serviço ali mesmo. Figuras das mais simpáticas e solicitas. Certa vez o encontrei voltando da casa de um enfermo. Havia ido lá para levar alegria com sua música. Justino é exatamente isso, a alegria em pessoa, bondoso, simples, singelo e prático. Escrevi dele tempos atrás, pois em tudo o que fazia uma pitada de irreverência e picardia. Tinha um celular daqueles grandões, tipo tijolos, pesados e o carregada num suporte seguro pela cinta. Havia produzido uma capinha especial só para ele, toda decorada, com metal retorcido e cheia de adereços. Da última vez que o vi ele estava pronto para tocar ali numa igreja na Araújo, para cima da Rodrigues. A idade chegou e nada mais sei de seu paradeiro, sei que morava lá pelos altos do Jardim Bela Vista. Alguém sabendo algo, conte para nós, pois seu Justino, além do bom papo, ótimo astral, era a simpatia em pessoa.

5.) GARÇONETE LUCIANA E A LIMPA QUE FIZERAM EM SUA CASA
Sabe aquilo da garrafa lançada ao mar com um pedido de socorro. Tem algumas que navegam mar adentro uma vida toda e não chegam a lugar nenhum, mas por outro lado, existem outras, que lançadas chegam rapidamente a tantos lugares. Respostas mais do que imediatas. Presenciei algo assim nesse final de semana, quando uma pessoa frequentadora de um bar da cidade, posta algo nas redes sociais para ajudar uma funcionária do seu lugar de frequência quase diária, uma que tivera sua casa roubada e de lá levaram quase tudo. No relato abaixo, algo de ambas, de quem lançou a garrafa ao mar e da pessoa que teve seu lar ultrajado. Nessas imediatas respostas, algo de bom dentro de cada um de nós sendo exposto.

LUCIANA LUANA SANTOS é funcionária, uma espécie de faz tudo lá no Bar Aeroporto, nos altos da avenida Octávio Pinheiro Brisolla, Altos da Cidade. Quem já esteve por lá sabe muito bem reconhece-la, pois atua de forma incessante, circulando entre as mesas, servindo de forma lépida e fagueira. Quieta, enquanto todos estão lá para se divertir, ela a nos atender. Dia desses passou por poucas e boas. Moradora do parque Val de Palmas, perto da rodovia Bauru/Marília, lá para cima da Nova Esperança, teve sua casa assaltada e fizeram uma limpa geral, dessas sem dó e piedade. Deixaram-lhe poucas coisas. Tudo o que puderam carregar, o fizeram. Roupas e eletrodomésticos, além de TV, plays dos filhos, vídeo, enfim, tiveram tempo, pois não havia ninguém em casa e de aparelhos de pequeno porte, nada restou. Com 25 anos, dois filhos, Stefany de 8 anos e Kevyn de 6, uma amiga, a artista plástica Viviane Mendes, moradora ali do lado toma conhecimento do ocorrido, posta nas redes sociais um pedido de ajuda e algo ocorre rapidamente. Receptividade de forma imediata. Conseguiu muitas roupas para si e o marido, mas poucas ainda para suas crianças e pede também se puderem lhe ajudar com os aparelhos de pequeno porte. No seu local de trabalho não existe como guardar as doações e assim sendo, os que tiverem algo e tendo disponibilidade, o pedido é para que deixem na casa da Viviane ali do lado ou mesmo na Banca de Revistas da Hilda, bem defronte o bar. Essa uma forma de coletivamente possibilitarmos para Luciana recuperar um pouco da alegria, pois visível na foto tirada ontem pela amiga Viviane, nota-se claramente sua fisionomia de tristeza e desencanto. Vamos ajudar a devolver a alegria para tão encantadora pessoa? O fone da Luciana é 99705.8432.

6.) CÍCERO COMANDA A LANCHONETE DO FORTALEZA HÁ 23 ANOS
Tem quem invente sua profissão e faça dela seu meio de vida. Bom mesmo quando isso acontece e tudo dá certo. Melhor ainda quando lá se vão mais de duas dezenas de anos à frente do tal negócio, sinal de que a persistência valeu a pena. Bauru possui infinitos lugares oferecendo comida e em lugares não restritos, nada condicionados a áreas pré-determinadas. Descobrir lugares pelos bairros e algo familiar, recheados de muito calor humano é para ser mesmo propagado, divulgado e espalhado. Faço relatos como esse com o maior prazer, querendo que sempre mais e mais pessoas passem a conhecer espaços novos. Esse aqui só mais deles.

JOSÉ CÍCERO DA SILVA, 57 anos, nasceu na vizinha Ourinhos e para cá veio a algumas dezenas de anos. Veio tentar a vida, viu, gostou e ficou. Mora lá nos altos da vila Independência quase o mesmo tempo. Tempos atrás criou o seu próprio emprego, o de ter um bar e lanchonete só para si. Lá se vão 23 longos anos e ele, junto de dona Helena, a nipônica esposa e comandante da cozinha, estão à frente do também restaurante do Clube Fortaleza, lá nos altos da vila Falcão, defronte a CPFL. Histórias não faltam e também momentos alegres e tristes, tudo junto, misturado e fazendo parte de suas vidas. Comparando o hoje com o ontem, claro, viveu épocas do clube estar muito mais cheio que os dias atuais. “Domingo mesmo, ficava lotado o dia inteiro e hoje o que mantém tudo é o futebol. O Fortaleza é regado a futebol. Quinta tem rachão e de sexta, sábado e domingo o campeonato interno dos associados. E eu aqui. Todos os outros dias é um bar com atendimento noturno, mas aos domingos sirvo uma comida por quilo feita no maior capricho”, diz. Tem mais. Cícero e Helena vivem disso e inovam com eventos variados, tornando o lugar também um ponto de referência para festas as mais variadas. Pra quem procura um lugar cheio de ótimo astral, fica a dica das comidinhas e bebidas geladas lá do Fortaleza.

7.) LAU REPRESENTA UMA GERAÇÃO DE ABNEGADOS SERVIDORES DOS CORREIOS
Muito interessante as relações de amizades construídas ao longo dos anos pelo motivo de voltarmos sempre nos mesmos lugares e quando ali, o reencontro das mesmas pessoas, dia após dia. No princípio um mero cumprimento, depois com o passar do tempo, um já se interessando pelo outro e na sequência muitas sólidas amizades se formando. Com esse personagem aqui retratado, vários encontros semanais e por mais de duas décadas. Impossível ficar simplesmente na conversa trivial. Passamos um a acompanhar a vida do outro. Outro dia ele chegou para mim na hora do atendimento e me perguntou: “Que foi, sumiu, aconteceu algo?”.

LAURINDO GARCIA é o LAU, um servidor dos Correios à moda antiga. Atua nas hostes da empresa há mais de 36 anos e só na agência Central, a da esquina das ruas Bandeirantes com Gerson França está por lá há 20 longos anos. Fez quase de tudo, desde ser carteiro e do tempo de circular pelas ruas de triciclo. Conseguiu sua aposentadoria, mas segue atuando, pois sente a necessidade de continuar mais um tempo na lida. Por muito tempo atuou no atendimento específico que os Correios tiveram ao Sedex, inclusive com horário especial, até 18h30 (hoje não mais existente) lá na Bandeirantes. Ao seu lado uma geração de outros profissionais, ele um dos últimos remanescentes ainda detrás do balcão de atendimento. Hoje atua quase no mesmo lugar onde começou, no canto esquerdo do salão principal e quando instigado, relembra com saudosismo de boas histórias ocorridas ao longo do tempo. Passou ileso pelos planos apertando os funcionários para serem ressarcidos e irem para casa com grana no bolso. Muitos pegaram a grana, abriram negócios e como não eram comerciantes, se deram mal, tentaram voltar e nunca conseguiram. Lau continua ali, saindo diariamente lá do jardim Solange onde mora, cumprindo um ritual de muitos como ele, observando as transformações na empresa e calados, tocando o barco e tentando a todo custo manter o padrão dos tempos quando já foi considerada uma das mais eficientes do país.

domingo, 26 de janeiro de 2020

FRASES DE LIVRO LIDO (148)


SNOWDEN, LIVRO ME CAINDO NAS MÃOS POUCOS DIAS ANTES DE EMBARCAR PARA OS STATES – ESCREVO DELE SÓ DEPOIS DO RETORNO

Alguns livros me caem nas mãos por formas muito inusitadas. Este, “SNOWDEN – UM HERÓI DO NOSSO TEMPO” (MARTINS Fontes Editora SP, 2015, 224 págs), do cartunista norte-americano Ted Rall me chegou quando abri a geladeira de livros gratuitos da igreja do padre Beto, a Humanidade Livre. Já pesquei muita coisa mais que boa por lá, esse um achado. Trouxe na hora para meu acervo. Estava a poucos dias de conhecer os EUA, coisa de uns 20 dias e com a leitura aquele algo mais faltando para concluir de vez sobre o que fato é e encontraria no país visitado. Li quase numa sentada e acabei relendo por puro deleite. Um amigo próximo, ciente de como se deu a minha entrevista para a visto de entrada, pede para não fazer nenhuma citação dele nos meus escritos antes da viagem, para evitar problemas. Não sei se isso já é demasiada mania de perseguição, mas segui seu conselho, ainda mais porque o conteúdo diz muito disso de nos informar sobre o que de fato se passa nas entranhas deste país que se diz o lugar das liberdades, mas na verdade aplaca suas mais simples manifestações. Trata-se da primeira biografia gráfica de Edward Snowden, um quase herói do nosso tempo. O cartunista norte-americano Ted Rall conta a história do ex-técnico da Agência de Segurança dos Estados Unidos (NSA), que revelou ao mundo métodos ilegais de escuta e vigilância de americanos e de cidadãos de todo o mundo. Snowden é um thriller, também um perfil de coragem e civismo e ainda uma meditação sobre o equilíbrio sutil entre privacidade e segurança que domina a esfera pública na Era da Informação. Quem quer de fato conhecer algo mais das entranhas do Grande Irmão do Norte precisa conhecer a fundo a história de gente a resistir lá dentro, ou mesmo dos que ousaram denunciar o que fato lá ocorre. No final, na curta biografia do autor um exemplo do que escrevo, quando informam o fato de Ted estar sob vigilância por parte do Departamento de Polícia de Nova York e pelo fato de publicações e revelações do livro. Nas frases recolhidas com a leitura esse algo mais:

- “Graças a um jovem chamado Edward Snowden sabemos que o governo dos EUA gastou centenas de bilhões de dólares dos impostos dos americanos para construir a rede de vigilância mais sofisticada, abrangente e invasiva já concebida... para nos vigiar”.
- “o que é mais importante: os americanos descobriram que “seu” governo estava tratando como súditos de um estado policial autoritário, não como cidadãos de uma sociedade livre. Os documentos descrevem um governo que intercepta e armazena nossas comunicações e invadem arquivos do computador de todos – porque ele não distingue entre cidadãos e potenciais inimigos do Estado”.
- “Em 1984 de Orwell, a Teletela nunca podia ser desligada. A NSA tornou real aquela distopia. A agência pode usar seu smartphone para rastrear seus movimentos e escutar suas conversas em casa, mesmo que seu celular esteja desligado. Nome do programa: Captivated Audience. (...) A engenhosidade da NSA não tem limites. Os aparelhos Smart TV, a nova geração de televisores conectados à internet para permitir streaming e navegação na web, dispõem de câmeras que a NSA pode usar para transformá-los numa Teletela também vigiando e gravando todos os seus movimentos”.

- “Se eu quiser ver seus e-mails ou os registros telefônicos da sua muçher, só preciso de sistemas de interceptação. Vou pegar seus e-mails, suas senhas, registros telefônicos, cartões de crédito. Não quero viver numa sociedade que faz esse tipo de coisa”.
- “Um incidente em 2008 fez com que ele reavaliasse pronfundamente a CIA e o papel dos Estados Unidos no mundo. Agentes baseados em Genebra chategearam um banqueiro suíço incentivando-o a beber e depois dirigir embriagado até sua casa, fazendo então com que a polícia local o prendesse. É claro que a CIA o livrou de problemas com a Justiça, mas a um preço: dados financeiros secretos que ela procurava obter. (...) Grande parte do que vi em Genebra realmente me desiludiu quanto ao modo como meu governo funciona e qual o impacto no mundo. Percebi que fazia parte de algo que era muito mais nocivo do que benéfico”.
- “Cada momento que tinha sem ninguém olhando, Snowden copiava arquivos. Ele enchia um pen drive atrás do outro. Mais tarde ele foi visto viajando com quatro lap tops – mas esses eram para administrar comunicações seguras. Era provável que os documentos da NSA estivessem armazenados nos pen drives. Levou quatro semanas para baixar os arquivos. Quando terminou, entrou com um pedido de licença médica”.
- “Os indivíduos tem deveres internacionais que transcendem as obrigações nacionais de obediência. Fiz o que acreditava ser certo e comecei uma campanha para corrigir esses males. Não agi para enriquecer. Em vez disso, levei o que sabia ao conhecimento público, para que o que afeta a nós todos possa ser debatido por todos às claras, e pedi justiça ao mundo”.
- “Existe também o problema do controle do Estado. Como é possível alguém se sentir seguro sabendo que o Governo – qualquer Governo, até mesmo um Governo relativamente benévolo (por ora) – sabe tudo a seu respeito? A História demonstra que, mais cedo ou mais tarde, autoridades e instituições que sabem tudo sobre seus cidadãos usam esse conhecimento para controla-los”.
- “O posicionamento de uma pessoa quanto a Snowden costuma estar associado ao seu nível de confiança no governo. Se você encara o governo dos EUA como uma instituição com falhas, que emprega patriotas que tentam dar o melhor de si para manter o país forte e a salvo, é provável que acredite nos políticos quando eles dizem que não abusam do poder, que os alvos de sua vigilância são todos terroristas. Se, por outro lado, você considera os EUA um império militaresco, decidido a conquistar a maior parte do mundo e a dominar o resto, definido por uma longa história de genocídio, racismo sistêmico e uma implacável repressão a vozes discordantes, nesse caso é provável que você ache que não se pode confiar no governo”.
- “Precisamos mais de leis que limitem os poderes dos nossos líderes do que de leis que limitem nossos direitos”.


Hoje, Snowden continua sendo o cibercrimonso (sic) mais procurado do mundo, ou seja, os EUA não perdoam os que delatam seus atos, mesmo sendo esses invasivos e criminosos. Prefiro afirmar ser ele, algo como um herói, mesmo não gostando da titulação como empregada hoje em dia. Prefiro ficar com a observação de um famoso personagem da vida norte-americana, Noam Chomsky e assim encerro meu relato sobre algo permeando nossas vidas: “O livro é um relato dramático, evocativo, sensível e muito acessível de uma das mais importantes histórias do século”.

GENTE DE MINHA ALDEIA

1.) SEU JUSTINO E O MARAVILHAMENTO DOS REENCONTROS DOMINICAIS NA FEIRA DA GUSTAVO
Seu Justino fez de tudo nessa vida, desde ser o piloto de uma lambreta pelas ruas bauruenses, algo do qual guarda imensa recordação, mas com a idade só avançando a filha lhe proibiu de continuar se arriscando por aí, daí hoje conseguiu matar saudade da feira, quando lhe trazem até as beiradas da mesma, ali na Gustavo Maciel e daí ele deslancha para o lado de dentro, só reencontrando pessoas e lugares por ele frequentados uma vida inteira. Me disse que o violino ele não abandonou e não o fará enquanto existir forças. Rindo disse que o podem para "tocar até hoje festas, como aniversários e até em velórios, quando o o defunto está lá sem poder se manifestar e eu prestando uma homenagem para ele". Foi também um nato consertador a domicílio de objetos domésticos, quando acionava sua lambreta, fixava a ela sua bolsa de trecos indispensáveis e ia na residência das pessoas, levando a solução para o problema, como trazendo consigo a simpatia de ter o reparo feito a preços módicos, como ter o papo prolongado até quando o dono da casa o avisava que já tinha passado da hora. Outra recordação dele e escrevi disso num velho texto no Mafuá foi sobre seu celular (hoje ele não usa mais esses aparelhos e se localiza pelo que conhece a cidade), todo decorado por ele, cheio de rococós, verdadeira peça de museu. Ou seja, seu Justino é um eterno personagem das ruas bauruenses e vê-lo inteiro, na ponta dos cascos, conversador e tinindo de saúde é mesmo de um prazer mais que inenarrável. Eu sou um trombador por natureza e hoje na feira podia ter parado pelo menos uns dez, mas na correria escolhi um e com ele presto homenagem a esses que, mesmo com a passagem do tempo, fazem de tudo e mais um pouco para continuarem em exposição, sendo, fazendo e acontecendo. As nossas ruas só são ricas, cheias de vitalidade por causa dessas valorosas pessoas, todas convergindo para um dos espaços democráticos destas plagas. Com esse reencontro fica decretado meu retorno oficial para as ruas bauruenses após quase um mês de ausência.
Eis o link do que já escrevi sobre esse Justino, inquebrantável personagem desta aldeia bauruense: https://mafuadohpa.blogspot.com/search?q=Justino.

2.) DANADO DO LULINHA AINDA NO HOSPITAL, MAS LOGO MAIS RECUPERADO

Escapuli mais cedo hoje da feira dominical na Gustavo, o espaço mais democrático desta aldeia, mas o motivo era mais do que justificável. Eu me juntei a outro tomateiro e fomos visitar o amigo Agnaldo Lulinha Silva, internado no Hospital de Base, o grandalhão mais velho em funcionamento na cidade, ali na Duque com Monsenhor. Lulinha, como já é sabido sofreu um acidente no sábado retrasado quando um veículo atravessou a preferencial e o ejetou ao alto, ele caindo sobre o mesmo e batendo a cabeça no chão, quando seu capacete voou longe. O danado não tem um hematoma no corpo todo, mas bateu a cabeça e isso é fatal para motociclistas. Foram três dias no corredor do PS, quando conseguiu vaga após intervenção da Justiça, depois UTI por mais três dias e agora no quarto, no restabelecimento do corpo, esse maravilhamento da regeneração possível com o passar do tempo. Ele está bem, quadro estável, lá deitadão e recebendo visitas do dia todo. Olhou para mim e Oscar e perguntou que dia o bloco do Tomate desce o Calçadão e quando lhe disse ser dia 24/2, sábado de Carnaval, contou nos dedos e disse que até lá estará bom e afinado, perfilado para o furdunço. Ele é um touro, franca recuperação e desses amigos que a gente faz questão de permanecer junto pro resto da vida. Ele é meu sindicalista de plantão, assim como meu consultor para assuntos umbandistas e sobre temática de clube de motociclistas, sendo esses três o objeto da movimentação de sua vida. Eu e Oscar Fernandes da Cunha voltamos de lá contentes, pois o danado escapou e em breve estará nas ruas e lutas fazendo o que gosta e o move. Ele não quis tirar uma foto em trajes de cueca no quarto, preferindo fazê-lo outro dia, quando mais apresentável. Um gentleman.

VIVA LULINHA!

domingo, 4 de julho de 2010

UM COMENTÁRIO QUALQUER (69)

UMA PEQUENA CRÔNICA DOMINICAL NA FEIRA
Tinha decidido permanecer neste domingo o maior tempo possível dentro do meu cafofo, ou melhor do meu desorganizado e também bagunçado mafuá. Aproveitaria esse final de semana para colocar alguma coisa em ordem. Fiz isso boa parte do dia de ontem e da manhã de hoje, mas por volta das 11h, arrio a sela e caminho os 400 metros que me separam da feira dominical, ou melhor, precisamente da Feira do Rolo. Circulo e como faço sempre, estaciono na barraca de livros e achados do Carioca. Trago um, primeiro para não voltar de mãos abanando, o "Saber Cuidar - Ética do humano, compaixão pela Terra", de um dos meus gurus religiosos, o frei Leonardo Boff. A paga é pouca, meros R$ 3 reais. Vasculho livros e CDs e sempre acabo por reencontrar pessoas queridas. E é por esse motivo que volto sempre. Os livros são meros detalhes.

Na frente da banca, seu Justino, que antigamente circulava pela cidade em cima de uma lambreta e fazendo consertos mil, numa espécie de "Marido de Aluguel". Após a aposentadoria, fez de tudo, desde reparos hidráulicos a elétricos, mas o que mais lhe deu fama foi com seu quase inseparável violino. Ainda toca, pouco, mas fabricar como antes, parou, como encostou a lambreta, a pedido de filhas e netos. Coisas da idade. Reconhecido pelos do lado de dentro da banca, pára para um papo e algo chama a atenção. Seu porta celular é único, feito por ele mesmo, uma peça rara e de reconhecida utilidade. Em alumínio e incrustrado com uma espécie de jóia, que na verdade não passa de uma vistosa bijouteria, o acessório vem acoplado à sua cinta e abre e fecha facilmente. Proteje o aparelho de trombadas e tombos. Mesmo a pedidos, disse não fazer outro igual para ninguém.

Do lado de dentro da banca, dona Enys, uma aposentada professora de Educação Física, apaixonada por livros e como eu, frequentadora assídua da banca do Carioca. Com a bolsa cheia de livros e revistas comprados, só não aceita um gole da cerveja, que o dono da banca busca de barracas ali perto. Como não bebe, não entra na divisão e assim, gasta menos. Ela dá palpites para os compradores sobre a escolha dos autores escolhidos e já é personagem obrigatória naquele espaço. Pede informações sobre a Festa do Biscoito de Pocinho do Rio Verde, que todo ano ocorre em julho lá pelos lados de Caldas MG (meu pai tem uma casa por lá). Imprimo para ela uns roteiros no computador e isso é motivo para prolongarmos o papo e a cerveja (que ela só observa - um dia a convenceremos). Nisso aparece um moço com a camisa do Botafogo carioca e desponta nosso único papo sobre a Copa do Mundo (ela já não acabou?): o gol do Louco Abreu. Após receber uma ligação da mãe informando que o almoço já está na mesa, despeço de todos meio correndo (a contragosto) e ainda presencio na entrada da feira um senhor que bebeu demais sendo levado pelo SAMU. Por isso, bebo pouco nas manhãs de domingo, venho a pé e ainda consigo encontrar o caminho de volta, que necessariamente passa por cima dos trilhos (tropico mas não caio). Imagina chegar em casa num caminhão do Corpo de Bombeiros, após passagem pelo Pronto Socorro? Por enquanto, tô livre dessa.
OBS.: Deu para perceber dos motivos de gostar tanto de estar na feira dominical? Gente, esse o motivo, quero ver e estar com gente. E agora, de barriga cheia, com a macarronada na mama fgazendo efeito, tento resistir ao sono e continuar a arrumação prometida e nunca cumprida.