sábado, 13 de novembro de 2010

UM LUGAR POR AÍ (05)

A OFICINA CULTURAL DE BAURU RESISTE E COM O SHOW DE MANU MOSTRA SUA CARA - UMA "ODE" À RESISTÊNCIA CULTURAL
Eu, nos meus 50 anos aprendi a gostar de atividades culturais com algo presenciado na antiga Oficina Cultural de Bauru, quando essa estava localizada lá pelas bandas da rua Pedro de Toledo. Presenciei shows homéricos por lá, desde Vânia Bastos, Ná Ozetti, Suzana Salles, Eduardo Gudin, Eliete Negreiros, etc. Era uma diversidade cultural de dar gosto. Depois deles veio o SESC e continuamos recepcionando uma pá de gente boa por aqui. Nos dezesseis anos de governo tucano as Oficinas estaduais passaram por variados momentos. Continuaram com seu trabalho, mas nunca reviveram o que presenciei décadas atrás. É outro momento. Porém, nunca deixaram de atender culturalmente Bauru e região, com oficinas variadas e recepcionando/expondo um bocadinho de uma imensidão de coisas boas. Hoje, está diante de uma encruzilhada. Muito se fala sobre mudanças, algumas ocorreram no governo Serra. Nomes novos no comando, mas a ameaça maior veio da boca de uma pessoa que nada fez e nunca se interessou por cultura na região, o deputado estadual tucano PEDRO TOBIAS. "Seria bom que as Oficinas acabassem e o dinheiro fosse repassado diretamente para os municípios", disse o mesmo, com certeza, repetindo algo que já vem sendo engenhosamente costurado nos bastidores. E o que isso quer dizer. Para mim, nada mais do que, o Governo estadual tucano mostrando como atua com sua política mais famosa, a da MUNICIPALIZAÇÃO DAS COISAS. Quer fazer isso com tudo, tirando o seu da reta e repassando para as cidades. Fez isso com a Educação, Saúde... e agora, quer o mesmo com a Cultura. Dará um dinheirinho para as cidades e encerra sua responsabilidade de promoção cultural. Simples, pois gastará menos e entregando tudo na mão de pessoas, que nem sempre estão preparadas para assumir um papel vanguardista, promoverão algo bem ao seu gosto pessoal. E pior, quando realizarem, pois meios de desviar o tal dinheirinho para outros fins é o que não faltará. Desde já, assim como no caso da Saúde e da Educação, deixo aqui meu grito em alto e bom som, SOU TOTALMENTE CONTRA.

E não sou contra só porque não coaduno com a forma de governar dos tucanos. O buraco é mais embaixo. As Oficinas tiveram seu "boom", depois sobreviveram e agora, quando instigadas podem renascer das cinzas. Em todas, principalmente nos cargos de direção lá na Capital, muita gente que entende do negócio de promoção cultural. Despejar isso tudo numa vala e deixar os prefeitos promoverem cultura ao seu bel prazer é mais uma IRRESPONSABILIDADE, dentre tantas que vejo hoje em dia. E mais, escrevo isso com a emoção me remoendo por dentro, pois acabo de voltar de uma das melhores apresentações culturais que presenciei em Bauru nesse ano. O espetáculo "A PRIMAVERA DA CONTRACULTURA", quinta, 11/11/2010, concebido e encenado por MANU SAGGIORO e uma trupe de arrepiar. Na chamada algo que já me despertou a curiosidade: "Um repertório pautado em alguns dos nomes que marcaram a história da música no Brasil e propondo uma reflexão sobre o papel da produção artística contemporânea".

Fui, vi e fiquei de queixo mais do que caído. Manu superou todas as expectativas. Já vi muita coisa dela, mas dessa vez passou dos limites. Estava simplesmente DIVINA E MARAVILHOSA. Ela e todo o pessoal no seu entorno, escolhidos todos a dedo. Do repertório (Secos & Molhados, Doces Bárbaros, Mutantes, Raul...), todo cantante, produzindo boas lembranças em todos e algo mais quando afirma que "mais importante do que saber o que foi o movimento da contracultura é o que ela representa, que lições deixou para a atualidade e se ainda há necessidade de resgatar o viés da contracultura com base no agora" (entrevista a Karla Beraldo, do JC). A contracultura foi um das formas artísticas de enfrentamento ao período ditatorial e o que ela propõe de verdade é "mostrar que hoje nós também temos que enfrentar a cultura massificada e sugestionada em vigor". E o que ela apresentou tem um sentido danado, pois cutuca, instiga e nos faz tirar a bunda da cadeira. Ela faz, mostra isso, envolve as pessoas e clama por uma reviravolta. Não só gostei, AMEI DE PAIXÃO.

O local dos eventos na Oficina Cultural Glauco Pinto de Moraes, aqui em Bauru é adaptado, pois foi concebida para ser uma escola. Tudo acontece num palco erguido onde antes foi um pátio escolar, mas ladeado por algo cheio de verde, uma área livre, com árvores, grama, enfim, espaço livre e pedindo ocupação. Manu usou todos os espaços e convidou gente com propostas emergentes para preencher cada pedacinho. Ela no palco rodeada de gente competente, como Norba Motta, Fábio Lima, Andrezza Trentini, Luís Fernando Freitas, Lívia Cordeiro , um trio de backing vocal de responsa com Denise Amaral, Renata Wolf e Sílvia Ferreira. Arrasaram, pois tinham gente competente nos botões atrás das cortinas, Pêz no som e André Bazan, na iluminação, nossos mais competentes profissionais nessa área. A produção de tudo ficou a cargo de Janaína Macena. Isso aconteceu no palco, mas no restante do espaço algo para "endoidecer gente sã". Lú Capossi comandou um antigo retroprojetor voltado para um paredão caiado de branco e em cima dele uma bandeja de vidro, onde ela ia despejando água, bolinhas de silicone, manipulando gravetos e folhas, tudo refletindo na parede. O som instigando e aquilo tudo na parede fez com que as crianças, todas elas ali presentes bagunçassem o coreto. Junto disso a perfomance de Fernanda Vasconcelos, que vestida toda de branco, fez e aconteceu, culminando com o balançar com uma corda, sendo levada ao sabor de movimentos ágeis e perfeitos. Tudo sincronizado.

Sabe quem possibilitou isso? A Oficina Cultural na pessoa do Paulinho, o diretor local. Ele era só sorrisos diante de tudo o que ocorria ali no seu até então pacato local de trabalho. Na sua cabeça deve ter fervilhado mil possibilidades para o futuro de tudo aquilo sob suas mãos. Sim, Manu e sua trupe foi algo inusitado a reviver os bons tempos da Oficina, mas todas elas merecem sobreviver. Elas não devem ter seu ciclo encerrado e sim, valorizado e garantido. Poucos sabem disso que ponho pra fora aqui e agora, mas é uma nova luta que se inicia. Não podemos perder espaços valorosos, diante da insensibilidade governamental de gente a promover mudanças de gabinete movidos por interesses inconfessáveis. Ninguém me pediu para falar isso tudo, mas eu não me seguro e esse é o momento. Eu ouvi Pedro Tobias proclamando isso no mesmo dia em que anunciou o vereador Marcelo Borges como o que seguirá seu trabalho após uma anunciada aposentadoria. Esperava o momento para despejar isso. Nada melhor fazê-lo num dia onde a Oficina mostra, da melhor forma possível, a que veio, com um espetáculo a reviver áureos tempos e assim como Manu apregoa na sua fala para justificar seu espetáculo, ambos, a Contracultura e as Oficinas Culturais precisam ser entendidas. É preciso lutar contra o que está vindo de uma forma massificada, mostrando nossa cara, pondo a mesma para bater e lutando por aquilo que a gente acredita e entende como o certo. Essa é mais um briga que me envolverei dos pés à cabeça, pois com o que presenciei por lá, entendi o quanto é importante aquele espaço não cerrar as portas definitivamente. Sei o quanto é difícil falar em sensibilidade com tucanos no comando, mas estaremos encontrando uma linguagem que eles entendam. E mais, a união continua sendo uma força vencedora, sempre. Essa uma luta que tem início nesse exato momento.

OBS.: As fotos todas foram tiradas lá no evento tentam retratar fielmente um bocadinho do que apaixonadamente presenciei. De tudo o que me emocionou, deixo algo mais. O guardador de carros, um conhecido senhor de barbas não resistiu e também assistiu o show, abandonando seu posto. Dançamos juntos e no final, foi quem na frente do palco, no meio do salão, primeiro clamou por um "bis". E como não atender um pedido vindo de tão especial pessoa? Manu propiciou isso e muito mais. A Oficina pode render muito mais, basta não abandoná-la e como uma verdadeira ocupação cultural, fazer dela uma trincheira, um polo irradiador de muita cultura para um povo sedento de arte inovadora. Permanecer indiferente é aceitar tudo o que nos enfiam goela abaixo.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

UM COMENTÁRIO QUALQUER (75)
ALGO SOBRE CINEMA E “MACHETE”, UM FILME ESTREANDO (EM BAURU, NEM PENSAR!)
Adoro ir a cinemas, mas isso está cada vez mais difícil. A programação não tem ajudado. Ou eu sou mesmo um chato e só gosto de coisas que não passam por aqui ou não entendo mais nada de cinema, de bom gosto e de coisas que valham realmente a pena. É que ando fugindo do padrão hollywodiano de cinema. E para quem foge disso, no interior paulista, não resta quase mais nada. Ou melhor, restam algumas locadoras e uns poucos canais a cabo, em horários totalmente alternativos. Faz tempo que não pronuncio uma frase que adorava fazer em alto e bom som: ESSE EU NÃO PERCO POR NADA NESSE MUNDO. Meus últimos filmes foram o “Tropa de Elite 2”, aqui em Bauru e o “Dois Irmãos”, argentino, em Sampa. Perdi o “Comer, Rezar, Amar”, do qual acho que gostaria. Semana passada quase fui no “Um parto de viagem”, mas nesse caso faltou tempo disponível. No mais, nada.
O preço em Bauru é outra coisa cara. Tanto no Cine’n Fun, como nos do Shopping, preços mais ou menos unificados. Sempre para cima, diga-se de passagem. Estive em Marília nessa semana e no Shopping Esmeralda me assustei com os preços. R$ 6 inteira e R$ 3 meia. A metade do que pago aqui. Se bem que no Rio, da última vez, o preço de lá é o dobro do de Bauru. Escrevo sempre do preço porque acho que se fosse mais barato iria mais gente. Será? Não sei. E mais, aqui em Bauru teremos mais salas no novo Shopping Nações aqui pertinho de casa, no cruzamento da famosa avenida com a rua Marcondes Salgado. Como será a programação de filmes e preços desse? Aguardo de dedinhos cruzados.

Já cansei de martelar sobre programação. O Shopping nunca se interessou por filmes de arte e cults. O Cine’n Fun no início, sim, depois ficou igual ao outro. Lembro que sai de casa certo dia às 3h da manhã para assistir um “Caché” lá na lonjura do Alameda. Acho que isso não mais irá se repetir. Uma pena. Será que somos mesmo uma minoria a gostar de filmes de arte, europeus, brasileiros, os cults, latinos, etc.
Encerro essa fala cinéfila escrevendo sobre um lançamento que ocorre hoje nos cinemas brasileiros, “MACHETE” , do Robert Rodríguez, um diretor endiabrado, a fugir do trivial. O seu “Balada de um pistoleiro” é um épico dentro da excentricidade do que gosto de ver. Agora vem com outro na mesma linhagem, nem pior, nem melhor do que os lançamentos de hoje, só diferente e irreverente. Reverencia um fictício herói mexicano, desses a enfrentar inimigos intransponíveis, gente do lado de lá da fronteira, residência do cruel vizinho fronteiriço, os EUA. Uma frase famosa que meu filho lembra sempre versa sobre isso: “Pobre México, tão longe de Deus e tão perto dos EUA”. Machete, um exímio manipulador de armas brancas (seu nome vem da lâmina a lhe conferir o nome) enfrenta o sistema mantido pelo vizinho parede meia, muito mais poderoso, por sinal. Só mesmo um imaginário herói, cheio de poderes sobrenaturais para fazer frente ao baú de maldades despejado diariamente sobre o pobre México. E quando alguém faz isso e vence, basta para cair nas graças do público mais pobre, no caso o mexicano e o latino, do qual estamos incluídos (Ou não? Se for perguntar para certos paulistas dirão que “nunca”). O filme é uma ação cômica, mas para mim já é também um Manifesto Político. Verão um banho de sangue ao estilo Tarantino, mas lá no fundo altas reflexões, ainda mais depois do último massacre em terras mexicanas.
Hoje muda a programação de cinemas na cidade. Algo novo vem por aí. Alguém aí acha que um filme como MACHETE tem alguma chance de passar por aqui?

ASSISTAM AO TRILLER: http://www.youtube.com/watch?v=MsIvgK5E-2Y&feature=related
OU ACESSEM O SITE: http://www.machete.com.br/

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

UM AMIGO DO PEITO (44)

UMA BRILHANTE RELEITURA DE DOIS NA BOSSA, MAIS UMA APRONTAÇÃO CULTURAL DE SIVALDO CAMARGO
Sivaldo é mais do que um amigo do peito, pois nos surpreende a cada novo passo dado. E o homem não para de andar, sempre adelante. Nem um ano atrás (será que já faz mais de um ano?) fez uma releitura do show "Opinião", onde encantou todos os que ainda se sensibilizam com a boa música. Havia repensado outras coisas, abortou uma quando faleceu Paulo Keller, que iria capitanear um espetáculo a fazer vibrar chãos por onde passasse. Não se fez de rogado, juntou tudo o que já tinha ouvido do "DOIS NA BOSSA", que no original contou com dois monstros de nossa MPB, Elis Regina e Jair Rodrigues e transportou tudo para um cenário bem bauruense. Fernandão, do Templo, como sempre faz com Sivaldo, comprou a idéia de cara e esse buscando nomes e parcerias certas, durante meses promoveu animados ensaios na casa da Denise Amaral e do Neto, resultando em algo inebriante, visto por pouco mais de uma centena de pessoas na noite da última terça, 09/11 no Templo Bar. Não me espanto com mais nada, pois sei que Sivaldo vai atrás de gente certa para seus espetáculos. Ele, antes de tudo começar era a própria expressão do nervosismo, pois bebia de copos variados, perguntando, especulando e com olhos atentos a tudo (subiu numa escada para melhorar iluminação no intervalo do 1º ato). Nada podia dar errado, como não deu, pois na mesa de som estava Pez, o mais profissional de nossos técnicos e junto deles dois, as vozes cada vez mais contagiantes de Denise Amaral e João Paulo Biano (esses dois separados já são imbatíveis, juntos então...), Norba Motta dedilhando tudo o que sabe e na direção de palco, além da bateria do velho mestre de variadas orquestras, o Toninho e do resgate de alguém que já se achava aposentado dos teclados, o Neto, marido da Denise, que dessa vez acho que abandonará suas atividades bancárias entregando-se de copo, sic, digo corpo e alma à musica. Uma junção que deu mais do certo. Vibrante do começo ao fim. Cantamos várias e boquiabertos em outras tantas. Ele, encarnando algo a la Zé Ketti, ou o "baita negão" do Candeias, extrapola tudo. Repito sempre, curtam muito ele enquanto está por aqui, pois está prontinho para bater asas. Denise é como um vinho, cada dia melhor. Rasgo elogios a ela, sempre. No final, Sivaldo, preocupado sobre o que achamos, voltou a circular de mesa em mesa, perguntando se tínhamos gostado e bebendo de nossos copos. Não deu nem tempo de falar muito com ele, pois estava requisitadíssimo. Todos gostaram e algo de muito triste ouvi de sua boca, a de que aquela seria a única apresentação do espetáculo, pois nada está programado pela frente. Mas como? Nem na Oficina Cultural, nem no SESC, no Teatro Municipal... Essas raridades musicais revisitadas pelo arquivo ambulante sivaldista precisam ser mais valorizadas e repercutidas. E não digo isso por ser amigo dele, do peito e de copo, é porque o cara é mesmo da pá virada, bom pra caramba. Da festa que se transformou o Templo, mais duas coisas. Uma foi Siva já demarcar qual será seu próximo espetáculo, "Pobre Menina Rica", do Carlinhos Lyra (cujo CD emprestei a ele) e ter participado de uma festa tripla no bar, o aniversário sequencial, dia 08, Zé Paulo, dia 09 a mana Helena Aquino e dia 10, a jornalista do Bom Dia e amiga Luli Zonta (comemos bolo trazido por seus amigos). E junto de donAna Bia, de Ademir Elias, da mana Helana vibrei com tudo por lá. O duro sempre é o dia seguinte, o acordar cedo e o cair na realidade da vida (ah, como dói...). Faço isso, dessa vez, com renovadas esperanças. Afinal, nem tudo está definitivamente perdido. Vejam um pedacinho do show lá embaixo

E NA CONTINUAÇÃO DE RELEITURAS DE OBRAS DOS ANOS 60 E 70...
Acontece HOJE, 11 de novembro, a partir das 20h30, na Oficina Cultural Glauco Pinto de Moraes, apresentação do show “A primavera da Contracultura”, um espetáculo artístico musical comandado por MANU SAGGIORO. Elaborado a partir de uma releitura sobre a produção cultural vigente no final dos anos 60 e início dos anos 70 no Brasil, em que a música surge como resposta à reprimenda cultural sofrida por toda a geração jovem dessas décadas. Com um repertório musical carregado de canções emotivas e questionadoras e intervenções artísticas com um discurso visual e simbólico, o espetáculo traz a sua contribuição para o questionamento do consumo cultural de hoje e para a formação de indivíduos globais, porém não adormecidos pela insensibilidade geral. Participam do elenco Manu Saggioro (voz, violão, percussão, concepção e direção musical), Norba Motta (guitarra elétrica), Fábio Lima (teclado e violão, Lívia Cordeiro (contrabaixo), Andrezza Trentini (bateria), Luís Fernando Freitas (percussão), Sílvia Ferreira (backing vocal), Renata Wolf (backing vocal), Denise Amaral (backing vocal), Fernanda Vasconcelos (performer), Lú Capossi (projeções) e Janaína Macena (produção). É tudo gratuito, só não vai quem não quer... Eu quero, e muito.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

BEIRA DE ESTRADA (09)

SE FOR POR FALTA DE CAUSOS... - Crônica publicada na edição nº 272, out/nov. 2010 (tiragem de 100 mil exemplares, espalhados pelo Brasil afora).
Seu Maneco viveu uma vida nas estradas. Conheceu o Brasil de Norte a Sul, Leste a Oeste. Mais de quarenta anos rodando esse país na boléia de um caminhão. Realizado no trabalho, sonho acalentado desde menino e dele não mais se separou. Tirou o maior proveito do que a vida lhe deu de bom e hoje, às voltas com a aposentadoria, pensava em cair na maior depressão. Fez planos junto da esposa, de algo que não o obrigasse a ficar muito tempo dentro de casa, mas nem idéia tinha do que pudesse fazer. Isso já o inquietava.

Na verdade, ainda não tem muita idéia. Mesmo ainda na ativa, beirando os 67 anos, contando os dias para passar o bastão do volante para outro com mais gás e disposição, já está envolvido com um projeto que está lhe deixando com os dias mais tomados do que um trabalhador que se vê obrigado a fazer horas extras depois do expediente. E tudo aconteceu meio que sem querer, algo inusitado a lhe transformar a vida.
Ler nunca foi de fazê-lo muito. Nas viagens, a predileção sempre foi por música e um PX, um rádio amador, com quem entabula conversa com os amigos da estrada. Já escapou de muita cilada por causa de avisos recebidos de outros via rádio. Mas agora, já na prorrogação de sua partida como titular no volante, eis que algo deu uma guinada no seu entusiasmo.

Conhece tudo quanto é posto de beira de estrada e suas lojas hoje possuem de tudo. Numa delas um livro, desses fininhos e com um assunto que gosta muito, piadas. O negócio parecia interessante, era sobre causos acontecidos dentro de consultórios médicos. Levou para a boléia e morreu de rir com o que leu. Na verdade não eram piadas e sim, histórias do dia-a-dia acontecidas durante todo o período em que o autor, um médico exerceu seu ofício. Umas impossíveis de terem acontecido, mas o autor jura serem verdadeiras.

Gostou tanto que foi mostrar o livro para seu vizinho, um carteiro. Esse deu risada e emprestou-lhe outro, também de causos, mas vividos entre os carteiros. Mais risadas, pois cachorro correndo atrás deles foi o que mais viu ali. Daí, num jantar com dona Ana Beatriz, sua digníssima esposa, contando-lhe dos dois livros, ela lhe deu a grande idéia:

- Por que não faz o mesmo? Em quarenta anos de estrada, deve ter coisas guardadinhas aí na cachola que até Deus duvida.

Não precisou de mais nada. Restando poucos meses para o grande dia de deixar as estradas, parece ter encontrado algo a lhe movimentar a vida. Comprou um cadernão, daqueles grossos e mais da metade já foi preenchido só de lembranças vividas. A notícia correu feito vento junto dos amigos da estrada e muitos já sabendo do interesse de seu Maneco, lhe passam outras e o negócio acabou tomando um rumo que nem ele sabe bem onde vai dar.

- Sabe de uma coisa. Depois de tudo isso, queria mesmo era que o Jô Soares me entrevistasse lá no seu programa. Imagina eu sentado lá naquela poltrona e fazendo o gordo dar risada. Seria demais, não?, disse.

Mesmo sem conhecer a história dos tais “quinze minutos de fama”, seu Maneco já vivencia a sua, com muita honra, já que eternizou suas aventuras para quem mais ama: sua família.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

DROPS - HISTÓRIAS REALMENTE ACONTECIDAS (43)

EXPOENTES DE UMA BAURU PRA FRENTE, UMA A "OLHAR" O OUTRO SEM PEDANTISMO
Ontem, segunda, 08/11 foi um dos dias mais quentes aqui pelo sertão paulista. Tudo compensado pelo acontecido à noitinha. Estive na abertura do VII Encontro de Arte e Cultura, da FAAC-Unesp Bauru, que neste ano tem como tema central “ARTE E PATRIMÔNIO”. Tudo que fazemos nessa vida tem como mola central algo a nos motivar e aqui não poderia ser diferente. Fui conferir o trabalho de dois expoentes de uma cultura revolucionária nesse século meio obscurantista, dominado pelo pensamento único.
LÍDIA POSSAS, na parte inicial com uma palestra versando sobre Patrimônio. Essa professora carioca, radicada por aqui e hoje ministrando aulas na Unesp Marília, fez minha cabeça desde que a conheci nos bancos da USC, quando cursei História. Abriu definitivamente minha mente (ela é a grande culpada) em algo que continua repetindo insistentemente até hoje: “vamos produzir um esgarçamento da história”. Tento fazer isso, seguindo seus passos. Do que vi e ouvi um pequeno ajuntamento de preciosidades aqui coletadas: “Adentrar uma cidade e perceber as manifestações já existentes é primordial, valorizando a HISTÓRIA DO LUGAR, pois ali existe uma identidade, cultura e cidadania. Entender a formação desses lugares,diferenciando muito bem o ato de VER e o de OLHAR. Eu não vi, eu olhei. O ver é biológico e o olhar antropológico, percorrendo as presenças existentes. É esse olhar que nos faz estar presentes. Quando produzi aqui o trabalho OLHANDO PARA OS TELHADOS – BUSCA DA IDENTIDADE HISTÓRICA, junto com Nilson Ghirardello, não queria ver telhas e sim as casas, formas de expressão, compreendendo a relação da História com o seu passado. É o ler a cidade, recuperando a identidade do múltiplo sujeito, sempre observando as vozes silenciadas. O saber não é neutro, ele é construção, interpretação. Tudo que fazemos não é neutro, tudo é motivo de construção. Recuperar a cidadania com homens e mulheres mostrando que eles existem, sem estar presentes nos lugares dos abastados, dos ricos. A modernidade não passa de um verniz, pois tudo na gente ainda reflete o velho. Tudo o que existiu no passado está mais do que presente no mundo do século XXI. O historiador trabalha com a temporalidade, para nós o que vale é o tempo vivido”. Por fim, quando instigada por mim sobre o preservar em Bauru e no Brasil, deu nova aula sobre algo onde o imóvel, quando retratado de outras formas, não precisa mais ser totalmente mantido como entendemos, algo tombado, mas esquecido, abandonado e sem que ocorra uma compreensão completa disso. Lídia continua a mesma, instigando, provocando e abrindo cabeças. A minha, rachada desde muito tempo, vai assimilando isso tudo e jorrando aos borbotões pelos poros ainda latejantes.

Pois sai de lá e dei de cara com outro doidivino, o professor JOSÉ LARANJEIRA, que no hall do prédio da Graduação estava abrindo, junto do diretor Ghirardello, a uma Exposição de Artistas Bauruenses. Vi Ponce Paz, Baccan, Mortari e outros, numa instalação, criação de sua rica imaginação, com dormentes da Sorocabana (“mais de cem anos, da idade de Bauru e que resgatei, aroeira pura, antes que se perdessem definitivamente”, me conta) como base, circundado por arcos e um que me fez questão de explicar. Havia saído da palestra da Lídia sobre o VER e o OLHAR e na tela do Ponce, um vendedor de pássaros. O inusitado é que um sorveteiro, ao fundo, rodeado de gente e o garoto dos pássaros, com as gaiolas abertas, os pássaros do lado de fora, sem ninguém ao lado. Laranjeira viaja nas explicações e acompanho extasiado. Olhem vocês mesmos e tirem suas conclusões. Na lateral da parede, uma imensa obra de DUDA PENTEADO, denominada “Guernica Paulistana”, com telas sobrepostas e viagens mil do que possamos entender da nossa maior metrópole. Entre salgadinhos, vinho e uma fala do curador da exposição, o próprio Laranjeira, andando entre o exposto, vi que Bauru resiste bravamente ao avanço desmedido de algo que Lídia já havia premeditado na sua fala. “Imagine hoje, alguém refletindo sobre a poesia de Rodrigues de Abreu, quando ele no início do século passado, falava sobre ter consumido muita cocaína na cidade. Inimaginável hoje”, diz. Mais que isso, mesmo sem fazer apologia nenhuma, só discutindo, perigando ser processada, como no passado a professora quase o foi. Cada vez mais, constato que vivemos mesmo no “verniz” dito por ela, pois somos o próprio passado, como na música de Belchior, “Como nossos pais”. LÍDIA POSSAS e JOSÉ LARANJEIRA fazem a diferença. Dos dois algo mais a comentar. Onde souber de fala de Lídia, até conversa de botequim, lá estarei, pois o proveito é sempre grande. Do Laranjeira, uma promessa de lhe ajudar no que for preciso para montar algo grandioso com os esquecidos moldes ferroviários, depositados em barracão ferroviário e loucos para virarem uma Mostra permanente num local a ser estudado. Planos futuros. E tudo sob coordenação da profª Guiomar Biondo. Voltando de lá, por volta das 22h30, tendo ao lado Ana Bia e o fotógrafo João Alcará, disse a eles alfo a ser pensado: “O vivenciado ali é um mundo à parte desse aqui que estamos adentrando. Dessa avenida para cá o buraco é bem mais embaixo. Voltamos à realidade, nua e crua. Aqui o mundo do verniz".
OUTRA COISA – No domingo, 07/11 fui presenciar a V UMBANDA FEST, capitaneada pelo RICARDO BARREIRA (http://www.ricardobarreira.com/ ). Estive em todos, sendo que nos dois primeiros, quando atuei na Cultura municipal, vivenciei os bastidores do evento. Ele, cada vez mais, possui a cara do Ricardo, que move céu e terra para que o mesmo ocorra no início de novembro. Assiste às primeiras curimbas, preparadas com esmero pelos participantes, mas nota-se claramente que, diferente das outras, Ricardo está um tanto isolado, sem aquela participação empolgante de um grupo de abnegados a lhe dar retaguarda. Fez tudo quase sozinho e padeceu, principalmente no palco, com os problemas que foram surgindo. O evento merece a pompa que possui, mas Ricardo precisa partilhar a apresentação com outras pessoas, dividir o palco e tudo ficará com um visual mais apropriado. Faltou um pouco de gente ao lado dele, mas tudo foi belo, assim como o show de encerramento, sempre primoroso. Um evento a ser valorizado.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

MEMÓRIA ORAL (95)

NESSA RELOJOARIA A SUCESSÃO SERÁ DE SOGRO PARA GENRO
Olhando para o pulso das pessoas nos tempos atuais, principalmente os da nova geração, se percebe que poucos usam relógios, mas dos antigos, poucos são os que não os usam. Essa é mais uma das profissões que tiveram seu auge anos atrás e hoje já não vive na bonança de antanho. Em Bauru são muitas as relojoarias, mas na sua maioria, por pura questão de sobrevivência, o serviço foi diversificado. Elias Batista, 62 anos é um desses, atuando na profissão desde os 9 anos e há 10 anos no mesmo ponto. Antes disso, foram mais 38 anos na vila Falcão, rua Alfredo Maia, próximo da praça Espanha, numa época que o comércio dos bairros tinha de tudo um pouco. Com uma enchente no local não resistiu, saiu de lá e veio para o centro da cidade.

Anteriormente na fachada estava o nome “Relojoaria Eduardo”, mas com a mudança trocou de nome e hoje é “Oficina das Jóias”, quando faz de tudo um pouco, desde conserto de relógios, jóias e até uma máquina para copiar chaves. “No negócio de jóias e relógios tem sempre bastante serviço. Na parte de conserto de relógio quase não tenho concorrência, pois sou muito conhecido”, começa relatando seu Elias, ladeado numa manhã de sábado, da filha Elaine Batista, 32 anos, uma espécie de balconista e caixa e do marido desta, genro do seu Elias, Paulo Corrales, 29 anos, que trabalha numa revenda de automóveis na cidade e quase diariamente passa depois do expediente para ir se inteirando da profissão.
“Ele se interessou sozinho. Perguntou se podia aprender, consenti e já foi mexendo. Não parou mais. Olha lá, ele tá mexendo num complicado cronômetro. Tá aprendendo rápido”, me diz, olhando o serviço do genro pelo canto dos olhos. “Tentei incentivar o filho, mas não deu. Quando ele tinha uns onze anos, ainda na vila Falcão, pedia para ele me acompanhar, mas vi que ele nunca se interessou. Seguiu outro rumo, nem mora em Bauru, foi ser vendedor de autopeças”, prossegue seus Elias. Elaine dá sua versão: “A profissão é para quem tem muita paciência. Agitado não dá se bem na profissão, tudo aqui é minucioso. Ele percebeu isso e foi fazer outra coisa”. Do outro lado, um trabalhando quase de costas para o outro, Paulo completa: “Passava sempre na loja, perguntei se ele me ensinava. Fui olhando e aprendendo. Isso pode ser uma segunda profissão para mim. Sábado eu passo o dia inteiro aqui”.

Com mais de cinqüenta anos de profissão, ver seu Elias com uma lente na testa, para aproximar mais a boa visualização do trabalho executado, me faz perguntar sobre sua vista. “Com relógio você tem que trabalhar com aproximadamente 30 cm de distância na minha faixa de idade. E minha vista já está um tanto cansada. Olhe para o menino aí, nem lente usa. Para mim já não dá, preciso da lente”, conta. E me conta como tudo começou: “Foi por acaso. Entrei numa fabriqueta nos anos 60, final dos 50, mexendo primeiro com jóias e só nos anos 70 fui trabalhar com relógio, quando montei a loja e aí já fui obrigado a aprender isso junto. Comecei com um japonês lá na Baixada do Silvino, ficava de lado só olhando, não falava que queria aprender. No fim do dia levava sucata para casa e treinava. E assim fui aprendendo”, prossegue seu relato.

“Hoje os relógios são mais fáceis de arrumar, pois tem tudo fácil. Antes tinha que adaptar, diminuir altura, afinar pivô. Tudo era mais complicado com os de corda, depois os automáticos. Pior que tudo são os descartáveis de hoje. Dos antigos, tinha os de eixo cilindro que não usavam âncora. O próprio eixo já tinha os pivôs. Esse era o mais complicado. Não cravando certinho não funcionava de jeito nenhum. Antes tinha muito colecionador. Os mais velhos vão morrendo e os filhos perdem o interesse. Lembro de quando comecei, tinha muito relógio de bolso. Conheci um colecionador com mais de duzentos relógios. Ele gostava tanto que aprendeu até a consertar”, segue seu relato sem interromper o trabalho.

Nisso entra na loja Darli Aparecida Machuca Rossotti, cliente desde a loja na vila Falcão. Veio buscar uma jóia, que havia trazido para uns reparos e acaba contando ter feito com ele o seu anel de formatura e a aliança de casamento. Lembra que precisa trazer o anel para apertar e chama seu marido para dentro da loja, pedindo a esse para mostrar seu relógio de pulso, também comprado ali. “Clientes como esses eu tenho bastante, mas eles demoram em voltar. Relógio demora a ter problema, jóias também. Veja aquele senhor que você viu aqui, o relógio dele estava até travando, pois fazia uns vinte anos que não limpava. Dei uma geral e vai funcionar outro tanto. Pedi para ele, como um senhor de idade, com movimentos lentos, que todo dia ao deitar-se chacoalhe um pouco o relógio, pois esse não funciona quando parado num lugar, precisa de movimentação. O auge do movimento das relojoarias foi por volta dos anos 50 até 70. Esse da minha parte, pois relógios tiveram seu auge no século passado”, continua seu relato.

Vendo que o expediente está para se encerrar e sua bancada de trabalho cheia de pedidos, todos envelopados, pergunto se leva serviço para fazer em casa. “Tem dias da semana que acabo ficando por aqui até 9h da noite, até um pouco mais e levo sim, tenho outra bancada em casa. A esposa reclama, mas não posso deixar o cliente esperando muito”, responde. Levanta e me mostra umas caixas com peças minúsculas. “Essas são verdadeiras raridades. Eixos e cordas de vários modelos, tudo parado. Aqui tenho desde cordas de Roscoff até outras coisas que poucos ainda possuem. Nem em São Paulo você acha coisas que tenho aqui. Tendo serviço eu conserto”, diz. Não resisto e vendo a filha atendendo no balcão e o genro de cabeça baixa concentrado num reparo, pergunto se não pensa em parar. “Nem penso nisso. E vou fazer o que parado? Se parar adoeço”, conclui.