Ganhei do filhão HA, no dia dos meus 66 anos um livrão em formato de HQ, o "FRANTZ FANON", obra do traço de dois artistas franceses, Fréderic Ciriez (roteiro) e Romain Lamy (desenho). Na França a edição é de 2000 e aqui no Brasil, saiu pela Veneta em 2023. São 250 páginas, onde é relembrado em detalhes um cerébre encontro. Em 1961, Frantz Fanon, Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre se encontram em Roma para discutir o prefácio que Sartre faria do livro de Fanon.O encontro histórico entre o pensador martinicano Frantz Fanon foi articulado pelo cineasta Claude Lanzmann, o momento foi crucial para que Sartre aceitasse escrever o célebre prefácio de "Os Condenados da Terra", a obra magna de Fanon sobre descolonização. O resultado foram três dias de discussões intensas a respeito de temas como colonialismo, psicanálise e racismo, que entraram madrugada adentro. Pouco tempo depois, aos 36 anos, Fanon morreria, assim sendo, tinha urgência em falar, dizer muito e o fez divinalmente com o casal francês. O encontro dos três pensadores se tornou legendário e o livro, rememora não só o encontro, mas como se deu a intensa vida do ativista pela libertação argelina da colonialista França, em algo arrebatador.
O jornada do pensador anticolonialista Fanon é digna de registro e conhecimento popular. Hoje, quando aqui no Brasil, mal se consegue mais envolvimento ideológico ou mesmo pessoas para articular movimentos populares, Fanon no final dos anos 50 e começo dos 60, produzia algo efervescente, em plena ebulição, ousando e não abrindo mão de algo, para ele irredutível, a de se necessário, a presença de luta, confronto e sangue, para reverter a submissão da Argélia ao domínio francês. Os desenhos do livro são maravilhosos, mas o encanto não nasce só da arte e sim do que li, o âmbito da vida e obra do psiquiatra negro e militante anticolonialista. Li, reli e hoje, quando o filho volta pra Bauru, para uma nova festa de aniversário, empresto o livrão para ele, pois isso tudo nele contido precisa ser, no mínimo multiplicado, ser levado adiante. Quem nada conhece de Fanon, como eu até antes de ler o livro, precisa conhecer e se inteirar de como se deu a luta deste bravo guerreiro e assim, se inspirar para tudo o mais que teremos pela frente, ainda este ano, com a eleição presidencial, onde o presidente norte-americano Donald Trump já disse fará campanha contra Lula, ou sejam, contra a soberania e independência brasileira.
O que Fanon buscava com a libertação da Argélia, Lula tem envolvido em torno de si para não deixar o Brasil se enveredar pelo descaminho predatório de uma extrema-direita, totalmente obtusa e sem critérios, violentos, insanos, doentes e pueris, vazios, ocos, sem programa de governo, só dispostos a libertar o criminoso Jair Bolsonaro e entregar todas nossas riquezas de mão beijada para os EUA. Ou seja, essa eleição será ou não uma verdadeira guerra de libertação? Com certeza sim. Ao ler o livro, consegui encergar muitas proximidades com o que de fato está em curso no Brasil e aqui tento expor, de uma forma bem lúcida, diria efervescente. Estamos tendo uma trégua de luta com a realização da Copa do Mundo e quando essa se encerrar, dia 19/7, podem ter a absoluta certeza, durante dois meses estaremos no meio de um fogo cruzado nunca visto no país. De um lado, um grupo fascista, miliciano, bandido, sem nenhum condição de governar o país, pois fazem mais do que o jugo colonialista de antanho. O que fazem é trair a nação brasileira e o fazem com a complacência de parte de nosso eleitorado, uns incautos e outros tão salafras quanto.
Toda e qualquer luta ocorrida no passado deve ser estudada,entendida em seus detalhes e ao ir lendo o diálogo do trio, no começo dos anos 60, inevitável estabelecer nítida comparação com o caso brasileiro em curso. Mudam-se os atores, muda-se o cenário, os algozes e o formato, mas no frigir dos ovos, a mesma luta, o confronto pela autonomia, libertação e manutenção da soberania de um povo e do outro lado, a perversidade da continuidade da exploração. Fanon fez parte do movimento libertador da Argélia e foi um dos seus membros mais ativos, pois inflexível, diria mesmo, como gostam uns não acostumados com revoluções, ser ele um radical. Nada como ser radical de uma justa luta e ciente de que, se esmorecer, não vencerá a contenda. Fanon tinha isso bem nítido. Os melhores exemplos eu fui extraindo das frases anotadas como preciosidades:
- "Que a França fique sabendo: a Argélia não será a sua vítima para sempre! A independência se aproxima!".
- "Que os colonos comecem a se preocupar, pois os colonizados logo vã odeixar de sonhar e xercer, para fins úteis, a agressividade sedimentada em seus músculos".
- "O intelectual separado da ação não serve pra nada. Ele deve participar fisicamente do combate".
- "A miséria do Terceiro Mundo é produto da colonização".
- "O ser humano está doente! É preciso curá-lo! E quem diz isso é um negro, cujos ombros pesa o ódio congênito dos brancos!".
- "A morte do colonialismo é ao mesmo tempo a morte do colonizado e a morte do colonizador".
- "Os brancos partirão, mas seus cúmplices estã oentre nós, armados por eles. A última batalha dos colonizados será contra os colonizadores será entre os próprios colonizados".
- "Só a violência armada permite desencadear o processo de descolonização. Não se fala com uma potência colonial com uma flore entre os dentes. A violência é a diplomacia dos oprimidos".
- "Não somos nada nessa terra se não formos primeiro escravos de uma causa, a causa dos povos, a causa da justiça e da liberdade" (Fanon) e "Também nós, europeus, devemos nos descolonizar, isto é, extirpar, por meio de uma operação sangrenta, o colono que há dentro de nós".
- "Burguesia são todos aqueles que morrem de vontade de se parecer com os colonos".
- "O negro precisa do branco quando ele se chama SARTRE" (Fanon) e "Fanon queria conhecer Sartre, mas foi Sartre quem o conheceu" (Simone).
Quem conseguiu chegar até aqui, lendo essas frases, inevitáveis comparações com a luta desfraldada hoje por toda América Latina, principalmente no Brasil, o último reduto ainda livre, sem estar amordaçado pelos EUA. Eu li o livro - aliás, o devorei - dentro dessa concepção. Fanon tem um livro épica, muito citado neste, o "Os Condenados da Terra" (1961), um que, desde já procuro, não só para ler, como para espalhar pela aí. Eu confesso, fui contagiado pelo livro e pelas ideias de Fanon - as de Sartre e de Simone já o era. Hoje e de agora em diante, quero só ler algo assim, textos arrebatadores, sejam simples ou rebuscados. Não estou mais tendo paciência - o chips está cansado, quase inservível -, porém, como ainda me resta uma fração da mente ainda não totalmente fossilizada, insisto em continuar propagando pelos canais ainda disponíveis, algo realmente perturbador, ou seja, um outro mundo possível. Fanon foi um dos bravos guerreiros a propor um mundo livre. Sigo com estes







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