Estou precosando fazer este desabafo, entalado aqui dentro de minha garganta. É que, ao passar, mais um vez diante do Museu Histórico e Militar de Bauru, sou praticamente seguro pelo seu idealizador, o militar da reserva Jorge dos Santos, que me leva mais uma vez para dentro e a partir daí, faz questão de mostrar, lugar por lular, peça por peça, tudo o que guarda ali dentro com tanto carinho. No museu idealizado por ele, não se encontram somente peças de cunho militar, mesmo este nome permanecendo gravado como oficial. Eu entendo o que vai pela cabeça do Jorjão e aqui tento descrever. Isso deste museu, creio que intensificado após sua aposentadoria é o que toca sua vida. Existem muitos projetos iguais a esse rolando mundo afora. Tratam-se de coleções pessoais sendo colocadas à visitação pública. No exterior, conseguem atingir uma conotação altamente positiva, obtendo grande apoio e consideração.
Analiso a seguir, não o fato em si, dele ser oriundo do meio militar, mas de seu amor pelo que faz. Eu e Jorge possuímos laços indissolúveis e irreconciliáveis ideológicos, ele num campo, eu noutro, porém, nunca deixamos de conversar. E neste momento volto a comprovar isso. Ele não ataca o segmento onde me encontro, aliás ele tenta me compreender e eu a ele, o que é um grande passo para o entendimento humano. Esclareço isso e vou para o campo do que faz. Jorge é um abnegado e conseguiu não só abir o seu "museu", como formas de mantê-lo e ir conseguindo benefícios, que me conta, não são pessoais e sim, para o empreendimento que toca. Conseguiu o prédio, instalações internas e mais que isso, peças de alto valor para a história de Bauru, de São Paulo e do Brasil.
Pergunto a ele se tem algum acompanhamento, algum pesquisador renomado a lhe aconselhar. Ele faz a maioria de tudo o que ali se vê pela sua cabeça, mas ouve muitos e desta forma, vai alterando rumos e se adequando. Ele sabe que, não dá para tocar tudo aquilo só pela sua cabeça. Isso , por si só já é um ótimo caminho. Ali dentro, vejo a cada retorno, peças que poderiam muito bem estar nos nossos museus públicos, mas não. Estão com ele por um único motivo, ele faz, acontece e mostra resultados e os três museus bauruenses - agora quatro, pois o do Lauro de Souza Lima também fechou - não abrem nem com reza braba. Ele possui coleções de cerâmicas que poucos lugares do Brasil possui. Isto tem um valor inestimável. Além de tudo, ele possui uma rede de gente que, viajando por aí ou se desfazendo de peças históricas, quando chega o momento de pensar em levá-las para algum lugar onde possa ser de fato preservada, escolhem deixá-las em suas mãos.
Sim, o Jorge, quer queiramos ou não, chegou neste patamar em Bauru e tudo isso paralelo ao descaso com que é tratado a questão museológica, dentro do serviço público municipal. É inconcebível todos nossos museus continuarem fechados, o maior deles, o ferroviário, sob a alegação de não ter liberação dos "bombeiros". Pera lá, essa justificativa atravessa mais de uma década, sem solução. Isso para mim tem outro nome. Como Jorge, sózinho e sem o respaldo de tudo o que existe por detrás dos museus públicos consegue e os nossos seguem estagnados, paralisados e lacrados ao atendimento ao público. Tem muito de comodidade e pouco caso nisso tudo.
Sabe o que ouvi dele? Para mim, um absurdo, mas plausível, pois se não existe quem faça dentro do público, ele está predisposto a fazer. "Se passarem os museus públicos de Bauru para eu administrar, eu reabro todos e os coloco em funcionamento", me disse. Fiquei estupefato com a decalaração. A entendo, não levando para o campo pessoal, de quem seja e o que representa o Jorge, mas pela sua vontade de fazer. Isso é inegável, ele possui vontade e faz. A prova é o que vejo dentro do seu espaço, o seu museu. Vejo ali junto de tudo o que faz, seu filho, jovem sendo formado para tocar o barco quando o pai cansar ou envelhecer demais. Jorge passou dos 60 anos e temos museus municipais com mais idade que isso, porém foram largados ao esquecimento. Do acervo que vejo exposto no do Jorge, penso em como deve estar o acervo do Museu Histórico Municipal, que a última vez que funcionou foi uma quadra dali, na rua Antonio Alves. Depois, fechado e acervo juntando teia de aranha.
E ele, assim como fazia o querido e saudoso PH, lá no Museu Ferroviário, seu último local de trabalho, ambos nos vendo passar pela rua, nos levavam para dentro e com suas histórias, todas detalhadas, tentavam nos fazer estar inseridos na importância do que estávamos vendo. Jorge e PH são pessoas únicas e hoje, quem mais possui essa abnegação? Sim, sei existir outros, tolhidos no seu fazer dentro da estagnação dos museus públicos municipais. Daí, dentro da paradeira dessa inepta administração pública municipal, capitaneada por gente despreparada, como Suéllen Rosin, nada se pode esperar para algo como a Cultura, principalmente a relacionada às questões do patrimônio histórico. Diante de como ela, a alcaide, pensa em resolver a questão dos hotéis tombados e abandonados ao largo da estação da NOB, já dá para se ter ideia de tudo o mais.
O intuito deste texto é somente um, o de olhar o que uma pessoas sózinha consegue fazer no quesito guarda de material histórico e o que se vê em curso dentro das hostes dos três municipais e agora, também outro, na mesma situação, o Lauro de Souza Lima. Façam como fiz, entrei lá para ser ciceroneado pelo Jorge e o fiz sem reservas, deixando de fora as restrições ideológicas e o que vi, quand ocomparado com o que vejo acontecendo com os museus públicos é como estar diante da água e do vinho. Creio que, numa nova administração, tudo precisa mudar, inclusive as direções, pois também permitiram ao se manterem isoladas e contritas dentro de uma espaço fechado, que tudo só piorasse. Ouvi também do Jorge, algo que, estarrece, mas é esclarecedor: "Se me passarem o Automóvel Clube em concessão, como tenho aqui do espaço onde me encontro, por 30 anos, renováveis, faço aquilo tudo acontecer". Olho para o que vejo em seu museu e constato. Ele fará mesmo e me pergunto aos meus botões: e se ele faz sózinho, por que até agora, nada acontece nos nossos? A desculpa da liberação dos "bombeiros" será usada ad eternum? E diante dela, o que fizeram para reverter isso? De onde vem essa decisão pela permanência dos museus fechados? E como os públicos nada fizeram, Jorge continua fazendo e recebe a cada dia novas doações, algumas de altíssimo valor, de pessoas que, diante do quadro bauruense, olham para quem faz e decidem, "este faz e preserva e é com ele que o material precisa ser entregue". É pra chorar de um lado e pra levar muito a sério de outro, pois Jorge, já pensa em como conseguir o dinheiro necessário para ter anexado ao museu um terreno, local onde hoje funciona um estacionamento de veículos na rua Antonio Alves. Enquanto isso, temos a Estação da Cia Paulista já pronta, restauro de algumas décadas e nenhuma informação de quando este museu voltará a ser reaberto ao público.
Em tempo: Aberto agora, dentro do museu o Café Barres. Após o fechamento do empório Barres, Júlio, seu idealizador, acerta com Jorge e agora, abertos no horário comercial, um café com muito estilo. Café com visual extraordiário e conversa que flui paar tudo, inclusive com placas trazidas de caffeiras da região e ali nas paredes, a demonstrar que, quem quer faz, quem não quer, vai deixando o tempo passar e são engolidos. Essa união é outro acontecimento a ser enaltecido e divulgado. Provei do café e também da água, trazida pelo Júlio de sua propriedade rural e recomendo. A porta principal do local - nas fotos, uma dele só e noutra eu -, Jorge me disse ter conseguido após a demolição de um dos mais antigos hóteis do centro bauruense e faz questão de apregoar, sem confirmação, ter por ela passado nada menos que Che Guevara, quando de sua passagem incógnita pela cidade, de forma anônima e à caminho da Bolívia. De cada peça, tem uma história para contar e confesso, vale a pena ouví-las.

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