CONSIDERAÇÕES SOBRE UMA ILHA NO MEIO DO ESTACIONAMENTO DO TAUSTE DA RIO BRANCOEla não é novidade, pois de quatro em quatro anos, todo período que antecede a mais uma Copa do Mundo, a de futebol da FIFA, lá se reunem os tais colecionadores de figurinhas, os do álbum da Panini. Vira febre, o álbum a reunir mais colecionadores e aficcionados, diria mesmo, loucos por figurinhas. As bancas todas - as que restaram - estão em ebulição, ou seja, conseguindo algo mais na luta pela sobrevivência. Triste uma constatação, agora com essa febre, o período onde as bancas poderiam se safar de problemas acumulados ao longo dos últimos tempos, justamente este álbum e só ele, não os demais, são agora vendidos em todos os lugares possíveis e imagináveis. Até mesmo a banca ali no Tauste da Rio Branco, onde um dia foi o campo e clube do BAC, passa por problemas, pois o Tauste também vende.
Essa ilha é sui generis. Passo na tarde desta sexta por ali e me deparo por alguns instantes com o público ali trocando figurinhas repetidas. A maioria do público é constituída de marmanjos, muitas mulheres, mas a imensa maioria homens e com idade avançada. Todos os com pastas, verdadeiros profissionais, são senhores já de uma certa idade. A molecada está estimulada, porém, o domínio do negócio que acontece por detrás da revenda é quase que exclusiva de senhores. Fácil de constatar isso. Na entrada e saída do mercado, vi isso de perto.
Dentro do mercado, comentava isso chegando ao caixa com outra cliente, quando a moça me atendendo, conta algo mais: "Isso que diz é a mais pura verdade. Atendi ainda hoje um senhor, aposentado, comprando comigo R$ 500 reais em figurinhas e me disse fazer isso por ter encontrado algo para fazer. Tem boa renda, disse não saber onde gastar o que tem e o faxzendo com figurinhas encontra ocupação e distração. Gastou isso hoje e, pelo visto, continuará gastando". O perfil é este e espalhado pela cidade, diria, pelo país e quiçá mundo inteiro. Rodeio a tal banca e sinto o clima dos que, abordam os iniciantes. Um deles me diz se quiser tem o álbum inteiro e pode me arrumar ele já finalizado ou com tudo para ser colado, a gosto do freguês.
Indo para o carro me deparo com um velho conhecido, alguém da dita esquerda, como este que aqui escreve. Ouço dele: "Gosto de futebol, mas essa Copa em especial me causa repulsa, exatamente por ser nos Estados Unidos e diante das guerras sendo promovidas por este país mundo afora. Vejo poucos com essa preocupação. Achava teríamos um movimento querendo discutir melhor essas questões, mas nada acontece. E também gostaria de ver ilhas como essa aqui do Tauste espalhadas país afora para discutir os rumos políticos do país, principalmente agora quando se descobre mais uma falcatrua da família Bolsonaro. Não adianta montar algo assim para discutir política, pois o interesse do momento é pelas figurinhas".
Saio de lá e passo pela Banca da Ilda Viegas, ali defronte o Aeroclube e lá dois irmãos com os jornais do dia, não interessados em figurinhas. Digo o que senti lá na ilha do Tauste e eles me confortam: "O discurso é de que não estão comprando para eles e sim para os netos, só que fazem tudo e não vemos os tais netos junto deles". Ilda só abria sua banca até umas 13h e agora, pelo menos enquanto perdurar a febre, remoçada, está com ela aberta até por volta das 17h ou enquanto tiver movimento. Isso tudo, de certa forma, revitaliza o seu trabalho. Sendo temporário ou não, pelo menos está momentaneamente feliz da vida. E se ela, dona de um negócio hoje na descendente está feliz, eu também estou.




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