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quinta-feira, 18 de setembro de 2008

UMA DICA (25)
UM GRANDE ENCONTRO FÉRREO EM BAURU
Ando envolvido até o pescoço num grande evento aqui em Bauru, o qual recomendo a todos. A Prefeitura Municipal de Bauru, com apoio do Museu Ferroviário Regional e da Associação Ferromodelista de Bauru (AFB), promove, nos dias 27 e 28 de setembro, o I Encontro Histórico Ferroviário e de Ferromodelismo de Bauru, em comemoração aos 102 anos da primeira viagem inaugural férrea na cidade, indo até Jacutinga (hoje, Avaí).

O evento ocupará todo o espaço físico da Estação Central de Bauru e do Museu Ferroviário Regional, na praça Machado de Mello, no centro da cidade, com entrada gratuita, funcionando em ambos os dias, das 9h00 às17h00. O encontro possui caráter exclusivamente cultural, com entrada gratuita, divulgando as origens, a história e o desenvolvimento ferroviário de Bauru e Região, a partir do século XIX e início do século XX, notadamente através das ferrovias Noroeste do Brasil, Estrada de Ferro Sorocabana e Companhia Paulista de Estrada de Ferro, além de suas sucessoras. Também será feita a divulgação e exposição do ferromodelismo, com grande atrativo de público, sem sombras de dúvidas, o mar chamarisco de público.

O evento só foi possível porque os detentores da propriedade da Estação aprovaram a sua realização. A união do evento histórico ferroviário com o de ferromodelismo tem a finalidade de atrair o público e espera-se a visita de mais de duas mil pessoas nos dois dias. "O ferromodelismo está em franca expansão e todos os eventos ligados a esse hobby atraem, cada vez mais, um público cheio de entusiasmo, não medindo esforços para deslocamentos por grandes distâncias. O aficionado por ferrovia participa de listas com grande movimentação na Internet e o evento de Bauru circula com grande interesse de participação em todas elas. Estaremos aqui com mais de oito mesas de trabalho, estandes de venda e troca de peças, palestras sobre o tema e muita coisa ligada ao tema ferroviário. O envolvimento do Museu será para que os ferroviários venham falar do passado e conhecer as perspectivas para o futuro férreo brasileiro", explica um dos organizadores, o engenheiro Ricardo Bagnato, representante da Associação Ferromodelista de Bauru.

A programação abrigará a exposição da composição férrea da Maria Fumaça, do Projeto Ferrovia para Todos, exposição de máquinas e locomotivas da América Latina Logística (ALL), exposição de fotos antigas e de antiguidades ferroviárias, telão com projeção de filmes ferroviários, sala de gravação e reprodução de memória oral, exposição de maquetes e de materiais de ferromodelismo, feira aberta de venda e troca de materiais de ferromodelismo, um telégrafo em pleno funcionamento, exposição de carros antigos, praça de alimentação, visita aberta ao Museu Ferroviário, palestras variadas, estandes de revistas e empresas ferroviárias, dentre outras atividades, além de sorteios de brindes e lembranças alusivas ao evento.

Os brindes serão desde camisetas com o símbolo do evento, vagões originais de ferromodelismo, revistas e livros ferroviárias, além de muitos outros patrocinados pelos expositores. Será efetuado um cadastro na entrada do evento e durante todo o tempo serão feitos sorteios, baseados na numeração que cada um receberá. "Contamos desde o início com importantes e decisivos patrocinadores, como a Microlins, Totvs, Lume Light, ALL, Frateschi Ferromodelismo, Jornal da Cidade, Serra Verde Express, Estação Café Sta Cruz do Rio Pardo, Rio Grande Hobbies, Clube do Carro Antigo de Bauru, Bebidas Fernandes e Primo FIAT, entre outros", conta o Secretário Municipal de Cultura, José Augusto Ribeiro Vinagre. A Microlins estará disponibilizando seus alunos de Turismo para ajudarem no atendimento ao público e os alunos de História daUniversidade do Sagrado Coração (USC) estarão atuando na sala de Memória Oral, resgatando as histórias vivas, diretamente com os ferroviários presentes.

Tínhamos uma expectativa de público, mas após divulgação feita por cartazes espalhados país afora, textos pela internet, a projeção superou as expectativas e aumentou a responsabilidade de todos. Já não existem mais espaços disponíveis para atender as estandes de empresas interessadas em expor produtos férreos, como para expositores com mesas de ferromodelismo. Falar de ferrovia é falar da própria história da cidade e isso sempre atrai grande público. O evento faz parte do calendário de eventos da cidade. Já imaginaram administrar mais de 2.000 pessoas circulando por lá? Pois faremos isso...
Informações: 14-3212-8262 (Museu) e 14. 3232-1949 (Secretaria Municipal deCultura). Cliquem no mapa do evento para sua ampliação.

quarta-feira, 29 de abril de 2015

O QUE FAZER EM BAURU E NAS REDONDEZAS (61)


O DIA DO FERROVIÁRIO E O MUSEU DE CARA NOVA, ESPAÇOS AMPLIADOS – QUE VENHA AGORA A OUSADIA!

Sou de um tempo em que o Dia do Ferroviário era data cheia de muitas festividades cidade afora. Afinal, todos em Bauru somos um pouco ferroviários. Não existe família sem que muitos dos seus não tenham história dentro e fora da ferrovia (tenho avô e pai). O progresso hoje ostentado por Bauru também deve muito ao fato de aqui estar localizado o famoso entroncamento. Só aqui, nos áureos tempos mais de 4 mil ferroviários atuando ao mesmo tempo. São tantas histórias. Hoje muitos renegam isso tudo e apostam no modal rodoviário como o mais viável. Eu não. Pensem comigo, Imaginem o mundo daqui há 20 anos e como deverá ser a entrada em Sampa via rodovias. Um tendel. Daí entra o trem e deixando todos bem no meio da capital e sem problemas de interrupções de trânsito. Será a salvação da lavoura.

Isso uma coisa e dela surgem tantas outras. Minha escrita hoje aqui é para bater tambor pela passagem de mais um Dia do Ferroviário. O Museu Ferroviário Regional de Bauru não se esqueceu da data e tem programação para hoje e amanhã, com um grande café para convidados ferroviários e demais interessados. Será uma ótima oportunidade para que a cidade tome conhecimento de algo até agora pouco divulgado. O nosso museu cresceu, ou seja, ganhou mais espaço. Sim, o seu jardim interno, que até bem pouco tempo possuía uma divisão interna, como na antiga Alemanha, um lado Oriental e outro Ocidental foi totalmente unificado. Aquele jardim interno, bonitão e com muito verde, rodeado de construções históricas, todas datadas de quase cem anos agora pertence somente ao museu. A grade foi abduzida. Felizmente.

Fui outro dia passear por lá e encontrei logo na entrada o Kyn Junior e a Mariza Basso. Fizemos um tour acompanhado do melhor e mais profundo conhecedor de tudo aquilo, o intrépido Paulo Henrique, o menestrel e monitor PH. O espaço onde antes era o Centro de Memória da Unesp, hoje só municipal, está impecável, tudo graças a uma funcionária dedicada e caprichosa, a Cynthia Bombini. Olhei de relance e vi tudo muito bem embaladinho. Precisaria ver quando alguém aparece em busca de um documento antigo para ver sobre sua aposentadoria, mas sei que a Cyntia dá conta. Todo o arquivo existente em Bauru da extinta Rede Ferroviária Federal está ali sob seus cuidados. Por ali um vasto material sobre ferrovia em forma de livros e documentos. Tudo podendo ser pesquisado. Maravilhas que podem ser desvendadas por tudo e todos.

Nos fundos, paralelo à rua Nóbile de Piero, onde antes estava situado as instalações do SESEF, tudo hoje também sob os cuidados da Cultura Municipal. Vi uma cozinha ali funcionando e muitos documentos armazenados em outras salas. Alguma arrumação ainda sendo finalizada, bons espaços para serem ocupados e muitas ideias ainda sendo construídas. Chego a pensar que numa daquelas salas poderia funcionar um espaço permanente para recepção dos ferroviários aposentados, numa forma de atraí-los para continuar tendo contato com aquilo que foi o motivador e transformador em suas vidas. Falta isso e pelo que vi, espaço existe. Ao lado, ainda em funcionamento, o escritório remanescente da extinta Rede, cuidando do final do espólio e em suas salas, outro verdadeiro museu, com peças históricas ali sendo utilizadas e expostas. Mais ao lado, com entrada pela Nóbile, o Clube dos Engenheiros, com programação para alguns aposentados, um verdadeiro clube onde vejo constantemente alguns deles reunidos em torno de algumas mesas e esse o último reduto ainda independente do museu. Uma espécie de ilha cubana dentro de um grande arquipélago. Cheguei a achar isso ruim durante algum tempo, hoje não mais. Eles são e estão na ativa. Ótimo que assim o seja.

Não quero retratar nesse texto as modificações internas do museu, nem da provável utilização da estação (com muita gente trabalhando por lá), nem do projeto Ferrovia para Todos, que continua desativado, impedido de funcionar, assim como da desativação dos carros férreos estacionados no Poupatempo. Gostaria de me ater na desativação já há mais de sete anos do Conselho Deliberativo do Museu Ferroviário de Bauru. Quando vejo experiências fora de Bauru vicejando no apoio externo para instituições públicas e aqui tudo ter sido impedido de continuar funcionando, enxergo um veículo na contramão. Por que não reativá-lo? Comparando com a Sociedade Amigos da Biblioteca Nacional, lá do Rio de Janeiro, que tanto faz por aquela instituição, vejo que muito deixou de ser feito nesses anos de estagnação por causa do não funcionamento desse Conselho, um dos últimos ainda DELIBERATIVOS na cidade. Só no Ferrovia para Todos poderia estar acontecendo maravilhas, mas não, tudo parado. Uma pena.

Voltando para o espaço interno renovado, com o jardim inteiro aberto, algo a ser aplaudido. Espaços renovados e ampliados. Tanto que vi o prefeito Rodrigo oferecendo espaço ali até para abrigar temporariamente a Oficina Cultural. O fato é que o museu cresceu e com ele também precisa crescer e vicejar aquela mentalidade de que, esse ponto turístico pode voltar a ser um verdadeiro ponto de ação cultural e integração dentro da cidade de Bauru. A partir do enfoque ferroviário buscar uma ampliação e aliado a programação renovadora, voltar a ser local de reuniões, palestras, congressos, shows, exposições variadas e múltiplas, enfim, uma ousada revolução. A partir dele e ao lado da famosa estação, que poderá também rejuvenescer, o algo novo a movimentar o centro velho da cidade. Que isso tudo faça parte das discussões daqui para a frente.

Hoje, pelo país todo, uma sentida falta, ausência deliberada, a de pessoas intensamente revolucionárias, como a que perdemos ontem, o mestre ANTONIO ABUJAMRA. É de pessoas inquietas, com motorzinho ligados ininterruptamente, 24h no ar e plugados nas transformações que necessitam serem feitas. Vejo uma equipe em atuação, motivados, buscando o bem coletivo, mas falta, não só neles, mas em muito hoje no Brasil, desse espírito abujamrista nas ações provocativas e conspiratórias. Sei que muito disso é também barrado pelas instâncias superiores e levo isso em consideração. O Museu Ferroviário pode ser um pólo conspirador e agitador dessa transformação. É o que falta por lá, pois as condições matérias e imateriais já estão todas lá. Mãos a obra e boa sorte na empreitada. Eu, Kyn e Mariza podemos até colocar lenha nessa fogueira. Querem???

Obs.: As fotos foram tiradas por mim quando da visita por lá em 15/04/2015.

sexta-feira, 2 de maio de 2008

DICA DE LEITURA (18)
Loyola, como já afirmei aqui recentemente é um mago da escrita bem elaborada e proporcionou a Bauru uma grande surpresa em sua crônica semanal publicada no Caderno 2, do jornal O Estado de São Paulo, edição de sexta, 25/4, com uma crônica falando de Bauru, da estação e citando meu nome. Estou num contentamento de dar gosto, tanto que até já emoldurei a página do jornal. Não tenho palavras para agradecer o carinho. Suas generosas palavras com referência ao nosso Museu Ferroviário, com 15 linhas, tratam-se de algo valoroso e demonstram todo o carinho do público em geral para com quem olha para a ferrovia com olhos esperançosos. Hoje, em homenagem ao Dia do Ferroviário, ocorrido dia 30/04, publico aqui o texto dele.

Bauru, museu ferroviário nacional?
Ignácio de Loyola Brandão
Na viagem entre Araraquara e Vera Cruz, a primeira emoção era a baldeação em Itirapina. Descíamos do trem que ia para São Paulo e esperávamos o que vinha da capital rumo a Marília. A espera em Itirapina era cheia de ansiedade. Haveria lugar sentado? Conseguiríamos, meu irmão e eu, lugar junto aos nossos pais? Havia um botequim e os adultos tomavam café. Durante anos o café de Itirapina foi lenda, motivo de conversas. Era fraco, frio, ruim. Nós, moleques, achávamos mais graça quando passávamos pelo morro Pelado. Imagine, dar esse nome a um morro! Seguindo viagem, vinha Brotas, com o paredão de rochas negras e úmidas, impressionante, Torrinha, nome poético, Jaú, onde se trocava a locomotiva elétrica pela à vapor, Pederneiras e a travessia do Rio Tietê, com a ponte que parecia gigantesca, o rio, amedrontador. Então, Bauru. Que sensação!

A estação era gigantesca (aos meus olhos), elegante, o teto em curva, altíssimo. Como as estações européias que víamos na Enciclopédia Jackson. De tremer de emoção. Majestoso, o trem entrava, apitando, tocando o sino. Cerimonial de arrepiar! Usando uma palavra velhíssima, na estação uma azáfama. Gente por todo lado. Na plataforma em frente, com vagões de madeira, pintados em vermelho e preto, estava a composição da NOB. Sigla que queria dizer Noroeste do Brasil, a dona da estação. Eram os trens que iam para a Bolívia, lugar longíssimo.

Nós que viajávamos pela Paulista éramos esnobes, considerávamos a CP (iniciais da empresa) a melhor, a mais organizada, a mais batuta (como se dizia) do mundo. Mas a Paulista não tinha uma estação como a de Bauru. Logo chegava outro trem, o da Sorocabana. A cidade foi dos mais importantes entroncamentos ferroviários do Estado de São Paulo, superagitado, rico. Unia várias regiões, ligava-se com o Brasil inteiro. Eu ficava na janela vendo passageiros que, saindo de um trem, penetravam num buraco, passavam por baixo dos trilhos, emergiam do outro lado. Era a única estação com passagens subterrâneas sob os trilhos. Nem a estação da Luz tinha isso. Meu sonho de criança era passar por baixo do trem, descendo as escadas. Como seria? Sinos, apitos, gritos, chamados, alto-falantes. Bauru tinha alto-falantes comunicando chegadas e partidas. Meu Deus! Coisa mais moderna! Por que meu pai não se mudava para Bauru como meu tio Neno que trabalhava na Noroeste?
Do lado esquerdo do vagão - de costas para Marília - víamos o pátio ferroviário com seis, sete pares de trilhos reluzentes. E a garagem de locomotivas, em meio círculo. Rezávamos para os outros trens saíssem antes, nada mais incrível do que o trem saindo de Bauru e começando a virar para a direita, uma cobra imensa vermelha. Em seguida a Sorocabana, cujos vagões prateados brilhavam ao sol da tarde. Quem disse que a estação aquietava? Continuava cheia, um burburinho excitado, passageiros aguardavam outros trens, era movimento o dia inteiro. Finalmente a Paulista partia. Cada estrada de ferro saía numa direção. Agora, no vagão, era esperar a chegada do funcionário de uniforme azul-marinho, impecável, bem passado, a camisa branca alva, que trazia uma cesta com sanduíches, maçãs, bananas, chocolate Diamante Negro.

Essas imagens rodaram pela minha memória enquanto passeava pela estação de Bauru na semana passada, quando fui à cidade para a 8ª Feira do Livro Infantil e para uma visita e palestra na Tilibra, onde vi como cadernos são feitos e conversei com gráficos no pátio. Acordei às 7 da manhã com Henrique Aquino, da Secretaria de Cultura, setor de Patrimônio Cultural, à minha espera. Voamos à estação menina dos olhos dele e do Valter Tomás Ferreira, diretor do Museu Ferroviário Regional, lugar cuidado, limpo, cheio de detalhes, que exibe de quepes de funcionários a chaves de linha, maquetes, ferramentas de trabalho, telégrafos, telefones, estafes (um aparelho fundamental, o que liberava a linha para o trem circular), uma mesa posta do restaurante com pratos e talheres originais, fotografias, livros, passagens, uma grade de bilheteria, assim por diante. Um breve panorama do que foram as ferrovias. Numa plataforma, um vagão de passageiros dos anos 40. Dali, passamos para a velha estação. Um choque. Não se pode dizer que é uma ruína, mas caminha para. Soturna, tristonha, deprimente. Sem a manutenção, mato entre os trilhos, muito lixo, poeira, algumas locomotivas e velhos vagões de passageiros abandonados. A imponência e o luxo se deterioram.
Tempos atrás um prefeito quis desapropriar o imóvel, pagar a dívida trabalhista existente com antigos ferroviários e reativar a estação como centro de cultura. Entrou no meio, para empatar, uma empresa privada que ofereceu mais. Para facilitar e querendo ajudar a causa dos ferroviários, a prefeitura retirou o processo de desapropriação. No entanto, a empresa rolou, enrolou e caiu fora. Agora, está tudo estagnado, na estaca zero e o prédio ameaçado de ruir. O que será uma catástrofe, perda imensa. Passeando por ali, aturdido com as imagens do passado, com o apogeu que se foi, desolado, lembrei-me de algumas estações do Brasil que têm sido recuperadas e sobre as quais tenho falado neste espaço. Como a de Araguari, em Minas Gerais, que retomou o estilo palaciano, que ostentou no passado. A estação de Bauru continua imponente, grandiosa, ainda que ferida. De repente, a nostalgia desapareceu, engolida pelo projeto de futuro. Por que não transformá-la em um museu ferroviário nacional, unindo-se prefeitura e empresas privadas da cidade? Tem espaço, atmosfera, ambiente, história, foi ponto de convergência fundamental, tem gente com muito amor e paixão disposta a dar o sangue, a trabalhar! Memória nacional que as ferrovias vêm exigindo. Será possível? Acho que sim!

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

PALANQUE - USE SEU MEGAFONE (15)

RETIRADA DE TRILHOS URBANOS E A REPERCUSSÃO DE CONSELHEIROS DO CODEPAC
Tudo começou com uma carta publicada no JC e uma das primeiras repercussões foi a do conselheiro Ricardo Bagnato, do CODEPAC, repercutindo a mesma para todos do Conselho. Escrevi no mesmo tom e na sequência, a resposta oficial do Conselho e a de Fábio Paride Pallota em veemente resposta. Posto aqui os quatro momentos para reflexões variadas sobre as questões patrimoniais aqui na cidade de Bauru:

1.) "Lembram-se daquele pátio ferroviário que ficava na área central da cidade..." – Zilda Palloni Somense - carta na Tribuna do Leitor JC, 15/11/2011:
Relembrando uma propaganda da Fundação Roberto Marinho de 1988, com a genial Fernanda Montenegro - “Que país é este?” -, onde se mostrava o que a falta de memória histórica produz: a falta de identidade de um povo, e serve para ilustrar muito bem as vicissitudes de nossa história atual. Lendo a reportagem “Patrimônio ferroviário de Bauru irá para Guararema”, senti-me impotente e ferida pela falta de respeito com a história de Bauru! Enquanto reles cidadãos (assim que me sinto), nada podemos fazer para evitar a retirada do patrimônio de cerca de três quilômetros de trilhos inativos instalados em solo bauruense. O Conselho de Defesa do Patrimônio Cultural (Codepac) de Bauru alega que houve demora da Justiça no julgamento da liminar que pede a preservação desta área e notamos que agora é tarde para evitar a saída dos trilhos para Guararema.

Mas, de outro lado, notamos interesses de se construir apartamentos residenciais ao longo da avenida Pedro de Toledo, inclusive parte dos trilhos doados a Guararema é de propriedade do grupo Marca, que há três anos aguarda autorização para construir o conjunto de apartamentos. De acordo com a reportagem, os mesmos ajudarão a revitalizar a região, valorizando o potencial turístico da cidade e seu patrimônio ferroviário. Como? “Esta linha, que integra um trecho de 100 metros dentro da propriedade do Grupo Marca, seria mantida para garantir a implantação de um projeto de ampliação do passeio da locomotiva “Maria Fumaça”. “A ideia é que este passeio possa ser inserido dentro da nossa área, interligando a antiga Estrada de Ferro Sorocabana à Estação da NOB (Estrada de Ferro Noroeste do Brasil)”, frisa Cortellini.”

De uma forma ou de outra, acredito que houve da parte de nossos governos anterior e atual a demora em tomar uma ação mais firme em relação a esta área que tanto projetou o crescimento de Bauru. Se há 10, 15 anos atrás tivessem promovido políticas para preservar toda a área central da Antiga Noroeste do Brasil, Sorocabana e Paulista, não estaríamos hoje nesta saia justa e perdendo estes trilhos, não estaríamos perdendo nossa memória histórica. Concluímos com o pensamento de
Arendt (1997): Sem testamento ou, resolvendo a metáfora, sem tradição que selecione e nomeie, que transmita, e preserve que indique onde se encontram os tesouros e qual o seu valor parece não haver nenhuma continuidade consciente no tempo, e portanto, humanamente falando, nem passado nem futuro, mas tão-somente a sempiterna mudança do mundo e o ciclo biológico das criaturas que nele vivem. Com certeza daqui a poucos, aliás há pouquíssimos anos, não nos lembraremos de nosso pátio ferroviário, nossa estação, e nem lembraremos onde ficava aquele relógio da Casa Luzitana... que casa Luzitana... Não nos esqueçamos que para exigirmos uma Bauru melhor no futuro, precisamos conhecer sua história para preservarmos o necessário para termos uma identidade histórica!

2.) Membros do Codepac e interessados nas questões do Patrimônio Cultural de Bauru que receberam esse email (Encaminhamento de minha lavra para todos os Conselheiros do CODEPAC):
Gosto de ser instigado por cartas como a dessa senhora, publicada na Tribuna do Leitor do JC. Denota no mínimo um interesse pela luta na defesa do patrimônio histórico e cultural de Bauru. Isso é bom, porém, em alguns casos ocorre uma luta por algo que pode-se perder, para que no frigir dos ovos ocorra num outro ponto uma vitória maior.

Não sei se estou equivocado, mas nesse caso ouvindo algumas das partes envolvidas chego à conclusão de que esses trilhos não nos farão tanta falta. A Estação da Sorocabana está preservada como aprovado pelo CODEPAC e um entorno. Esse trilhos pertencem à sequência da estação da Sorocana e mesmo sem eles a composição férrea da Maria Fumaça poderá chegar até defronte a estação. É isso mesmo? O que não poderá mais fazer é seguir adiante, mas isso, pelo que sei já não é feito a muito tempo.

Afinal, esses trilhos são ou não vitais para Bauru? Prejudicará em alguma coisa o trajeto atual ou algum futuro da Maria Fumaça? Precisamos, como conselheiros elucidar de uma vez por todas essa questão, pois muitos ao lerem que trilhos estão indo embora podem achar, como essa senhora, que estamos sendo negligentes e omissos. Se não os usaremos aqui, por que não permitir que eles sejam utilizados em outro lugar, no caso Guararema, em algum projeto viável.

Primeiro seria bom a opinião de quem está realmente por dentro dessas questões, elucidando as dúvidas dos conselheiros e depois, talvez uma nota do Conselho, com esclarecimentos definitivos do que está sendo feito naquela região, o que foi aprovado pelo Conselho, o que está em curso. Podemos providenciar isso?

Um abraço a todos e aguardo mais detalhes sobre esse tema, para ter também um melhor entendimento sobre o mesmo. Envio também cópia deste para o vereador Roque Ferreira, outro interessado no tema e com opiniões interessantes sobre a utilização da área no empreendimento em curso. HPA

3.) O posicionamento do CODEPAC veio em um e-mail com o seguinte teor: "Bom dia a Todos. O Codepac, tratou deste assunto, deliberou e já se manifestou sobre. Assim defende a manutenção dos trilhos que permitem acesso ferroviário até a estação Sorocabana. Sobre a nova ocupação urbana no entorno da ferrovia é algo pertinente ao plano diretor e outras legislações que neste momento incentivam esta prática. Abçs".

4.) CONHECER E PARTICIPAR – resposta do professor Fábio Paride Pallotta, Conselheiro do CODEPAC, enviado para esse mafuento espaço:
A cidade de Bauru tem no seu centro histórico, um dos maiores conjuntos arquitetônicos ferroviários do Brasil e da América Latina. Esse conjunto pode se tornar um grande CENTRO HISTÓRICO-TURÍSTICO FERROVIÁRIO e vir a ser um pólo gerador de renda, empregos e arrecadação sob a perspectiva da Economia Criativa. Essa informação precisa circular em todos os meios de comunicação e ter o apoio de todos aqueles interessados em que a nossa memória não se perca: formadores de opinião, empresários, estabelecimentos de ensino superior, de ensino médio particular e da rede estadual, sindicalistas, membros dos órgãos de comunicação, políticos da cidade, enfim todos devem conhecer essa realidade histórica para saber tirar dela as vantagens que ela pode trazer.

Temos que mostrar aos cidadãos bauruenses o que eles tem nas mãos em termos de história, tradição, economia, geração de empregos, enfim mostrar que o PASSADO PRESERVADO NÃO ATRAPALHA e, no nosso caso, pode ser o início de algo novo, admirável. Para o conhecimento da leitora Zilda Palloni Somense passo a elencar o que sei estar acontecendo no sentido de proteger “OS NOSSOS TRILHOS DA HISTÓRIA”:

Existe por parte da Prefeitura o Projeto chamado “FERROVIA PARA TODOS” que promove passeios turísticos periódicos e de curta duração, mas que pode se tornar um passeio de 44 km com interesse local, nacional e internacional. Ligado a esse projeto existem dez Unidades Museológicas que poderão ser visitadas a partir da Ferrovia restaurada no Centro. São elas: 1)Estação de Tibiriçá e de Fazenda Val de Palmas, 2)Museu do Trem, 3)Estação Sorocabana, 4)Estação Central e Museu da Tecnologia, 5)Museu Ferroviário Regional de Bauru, 6)Centro de Memória, 7)Museu da Imagem e do Som, 8)Museu Histórico Municipal, 9) Memorial da Indústria - CIESP, 10)Casa Ponce Paz.

O Codepac, o Sindicato de Trabalhadores em Empresas Ferroviárias de Bauru, o Poder Público Municipal agiram e os trilhos de ramais funcionais no centro estão garantidos para o funcionamento do “FERROVIA PARA TODOS” e para não isolar a Estação Sorocabana das demais estações do Centro, a saber: a Estação Central e a Estação da Cia. Paulista de Estradas de Ferro. O Codepac encaminhou uma proposta ao Legislativo Municipal para faixas de isenção de IPTU para aqueles que preservarem em parte (50%), ou no todo (75%), Imóveis Históricos Tombados pelo órgão de preservação. O poder Executivo poderia olhar para a questão da preservação com mais “carinho” propondo igual isenção para quem criasse moradias no centro a partir de imóveis de valor histórico, além dos benefícios que concede para aqueles que criam moradias novas no centro.

Poderia ser da cultura da nossa cidade nos perguntarmos se o imóvel a ser demolido não poderia ser aproveitado de uma forma mais adequada para a História da cidade. Em países com uma cultura de preservação os imóveis preservados possuem “pedigree” e valem entre 40% a 50 % a mais do que aqueles “sem história”. Cidades da região como Agudos que investe pesado no setor turístico hoteleiro, Lençóis Paulista, Pederneiras mostram interesse em fazer parte do Turismo Ferroviário com um trajeto ampliado do “FERROVIA PARA TODOS” que poderá se desenvolver com o apoio do Instituto ALL de Educação e Cultura, da empresa ferroviária América Latina Logística. Na Praça Julio Prestes, vulgo “Feira do Rolo” desenvolve-se um Projeto da CIESP a cargo do Instituto Vista (http://institutovista.webnode.com/) de mais de 3 milhões de Reais para a criação do MEMORIAL DA INDÚSTRIA DE BAURU, um espaço privilegiado que ajudará a restaurar o Centro Histórico e Ferroviário da cidade. Ao lado dessa mesma praça existe a Estação da Paulista que já está sendo restaurada com recursos públicos para ser o MUSEU DE IMAGEM E DO SOM DE BAURU (MISB) e o MUSEU HISTÓRICO MUNICIPAL (MHM).

Um empresário da cidade do ramo de materiais de construção e acabamentos luta para conseguir encaminhar, nas antigas Oficinas da Estrada de Ferro Noroeste de Bauru o MUSEU DO TREM que seria visitado por milhares de pessoas por ano, além de transformar o espaço criado em um Centro de Convenções para os mais variados usos.
Como professor Universitário e do Ensino Médio na cidade e preocupado com o nosso Patrimônio Histórico Arquitetônico Ferroviário e o Entorno Histórico do Centro preparei um Roteiro Histórico-Turístico para ser realizado a pé, do “Marco Zero” (Rua Araújo Leite quadra 2) até a Estação Central, na Praça Machado de Mello. Uso esse Roteiro na matéria que leciono na Universidade do Sagrado Coração, Patrimônio Cultural, e os alunos ficam surpresos em conhecer a nossa história e a riqueza do nosso Patrimônio Cultural a partir desse belo passeio. Além disso, a USC contribui para o conhecimento da nossa História e Patrimônio mantendo um centro de documentação e pesquisa essencial para Bauru e região, o NUPHIS (Núcleo de Pesquisa Histórica de Bauru e Região Gabriel Ruiz Pelegrina) além de desenvolver atividades ligadas è História Local.

Enfim, devemos compreender os temores da leitora Zilda Palloni Somense quando se preocupa com os destinos dos trilhos no centro e digo a ela e a todos os interessados, bauruenses de nascimento ou de adoção: vamos conhecer o que temos, vamos apresentar essas riquezas a todos e lutar para preservá-las para que gerem empregos, renda e conhecimento. Essa manifestação de preocupação reflete o apreço de uma cidadã pela sua cidade e a sua história. Deve ser a preocupação de todos nós bauruenses que conhecendo o que está sendo feito podemos nos unir para fazermos muito mais. Conhecer é o passo mais importante para participar com competência e resultados.


5.) Antes de finalizar um último recado: "Amigo HP, Peço que v mencione tb a existência em Bauru da APFFB - Associação de Preservação Ferroviária e Ferromodelismo de Bauru. Uma OSIP que existe há quatro anos voltada a preservação do Patrimônio Histórico e Cultural Ferroviário. Certamente a leitora desconhece tb esse fato. []s Eng. Ricardo BagnatoAPFFB - Associação de Preservação Ferroviária e Ferromodelismo de Bauru".

OBS.: As nove fotos da parte final do post foram tiradas por mim no ano de 2008 junto ao pátio férreo de Triagem Paulista. Como estaria aquilo tudo nos dias de hoje? Ali tudo é domínio da concessionária ALL e se não fosse pela ação do CODEPAC, nem o pouco do preservado existiria mais.

sábado, 17 de março de 2012

CARTA (82) e MEUS TEXTOS NO BOM DIA BAURU (168)

EM DOIS TEXTOS, O MESMO ASSUNTO: A VALORIZAÇÃO DA MEMÓRIA E A PRESERVAÇÃO DO PATRIMÔNIO
1.) AMPLIAÇÃO DOS ESPAÇOS MUSEOLÓGICOS EM BAURU - publicado no Opinião, pág. 2 do JORNAL DA CIDADE, edição de hoje
A Prefeitura Municipal de Bauru, através de sua Secretaria Municipal de Cultura, comandada por Elson Reis, vive um momento de muita expectativa com a real possibilidade de receber todo o acervo do quase extinto Núcleo de Documentação Gabriel Ruiz Pelegrina, da USC (Universidade Sagrado Coração). O fato é esse e, como ocorrem as tratativas da transferência, fogem da análise de quem delas não participam. Ressalta aos olhos o acervo de relevada importância amealhado ao longo de décadas, parte significativa da história de Bauru. Documentos, coleções, fotos e peças, essas além da importância, ocupando amplo espaço físico.

A transferência gera preocupações e apreensões. Circulam comentários de que parte do acervo possa estar sendo devolvido para doadores. Inconcebível isso e ótimo que tudo venha para os cuidados da Cultura municipal, pois diferente de qualquer fundação ou entidade privada, pode ser mais bem fiscalizada. Mantido em local adequado, com profissionais capacitados, o doador sentirá segurança na doação. O fato a gerar discussão é sobre o local do novo acervo. Existe no momento um insipiente início de restauro da antiga Estação da Cia Paulista, que abrigará os museus Histórico e o da Imagem e do Som. A verba já está disponibilizada e a dificuldade reside em encontrar quem efetue o serviço, devido ao atual aquecimento do mercado da construção civil. Portanto, hipótese descartada.

Urgente encontrar esse local, útil também na recepção de novos acervos. No amplo galpão defronte à Feira do Rolo, nenhuma condição, pois ali é um mero depósito, além da inviabilidade da retirada de algo exposto e colocá-lo noutro inadequado. Sem contar no andamento da implantação ali do futuro Memorial da Indústria de Bauru. Junto ao Museu Ferroviário também não será possível, pois seu espaço físico já está no limite, praticamente sem espaço para ampliação de uma mera Reserva Técnica.

E em qual espaço o rico acervo poderia ser transferido? Polêmicas à parte, a seguir uma real possibilidade. Existe um amplo projeto para o futuro e que, diante da imediata necessidade, mereceria discussão sobre sua utilização de forma antecipada. Trata-se de todo o triângulo arquitetônico localizado entre as ruas Nóbile de Piero e 1º de Agosto, já abrigando num dos cantos o Museu Ferroviário e que poderia ser todo cedido para a Prefeitura. Propriedade do Governo Federal, estão ali também instalados os escritórios do Sesef (Serviço Social das Estradas de Ferro) e o remanescente da Inventariança da extinta RFFSA, hoje praticamente encerrando suas atividades, além do Clube dos Engenheiros Aposentados da RFFSA. O pedido da cessão definitiva junto ao Governo Federal deve partir da Prefeitura Municipal, antecipando-se à sua inclusão em leilão de bens arrolados na Inventariança. Acredita-se que o Executivo Municipal já tenha tomado essa providência, como o fez no passado com o espaço do museu. Usando de sua força política junto a Brasília, tudo seria sacramentado, aliado de negociação baseada no bom senso, reunindo os atuais ocupantes e sob liderança do prefeito e dos representantes da Inventariança. Estaria formatada a transição.

Rapidez nos encaminhamentos. É isso o que se espera de todos os envolvidos e, mais, que a discussão ocorra sem a paixão do pensar somente em si. Bauru ganhará muito com isso e nossos espaços museológicos poderão finalmente ter uma real e necessária ampliação de suas possibilidades. Não devem existir grandes empecilhos para esse breve encaminhamento. O “não” existe para ser transposto. A necessidade é para “ontem” e se assim quiserem todos os envolvidos, seus nomes estarão inscritos na história. E por que não começar já? Quem liga para quem? Bauru aguardará ansioso por esse desfecho. A AAMB e a APFFB colocam-se desde já à inteira disposição para colaborar no que for preciso.

Os autores, Henrique Perazzi de Aquino, é presidente da AAMB - Associação Amigos dos Museus de Bauru e Ricardo Bagnato, vice-presidente da APFFB - Associação Bauruense de Ferromodelismo e Preservação Ferroviária

2.) INQUIETAÇÕES COM TRENS E ACERVOSpublicado edição de hoje do BOM DIA BAURU
Ouço comentários feitos por amigos. No primeiro, uma reclamação: “Tanta coisa acontecendo em Bauru e patinamos em banalidades”. No outro, algo inquietante: “São pouquíssimos hoje os interessados em brigar pelas boas causas”. Isso me martelou o cerebelo. Envolvidíssimo com algumas das grandes questões ferroviárias na cidade compartilho aqui temas, de forma embolada, para ampliação do debate. Ouço algo sobre a retirada dos trilhos urbanos em Bauru, quando num futuro muito próximo a única saída viável para locomoção de longa distância, além do avião, terá que ser o trem. Retirando tudo, não seria imensamente mais custoso reconstruir tudo em outro local? A Prefeitura Municipal comprou a Estação da NOB e tem em suas mãos uma real possibilidade de incrementar a revitalização do seu abandonado centro. Um projeto complementar, esse da iniciativa privada quer dar vida para todo o entorno da Pedro de Toledo e tudo esbarra na burocracia de um órgão estadual. Quem de Bauru se prontifica a pressionar pela ocupação e essa aprovação? Verba já existe para restauro das estações da Cia Paulista e Tibiriçá, porém construtoras desinteressam-se pela obra. Por quê? Um férreo Grupo de Trabalho foi criado pela Prefeitura, mas continuam hibernados. Indignado, pergunto: Como? Na questão museológica, praticamente todo o acervo do Centro de Memória Gabriel Ruiz Pelegrina, da USC pode ser entregue à Prefeitura e para sua imediata e adequada acomodação somente uma solução: junto ao Museu Ferroviário. Nele não existe mais espaço físico, porém, no triângulo arquitetônico onde está inserido, sim e seu funcionamento atual é inadequado. Por que não readequar todo aquele espaço (entre ruas Nóbile de Piero e 1º de Agosto), hoje utilizados pelo SESEF – Serviço Social das Estradas de Ferro, Clube dos Engenheiros e remanescentes da Extinta Rede, propiciando de imediato o que, inexoravelmente deve ocorrer no futuro, ou seja, a sua total ocupação pela Prefeitura. Ótimas causas existem, falta é a mobilização pelas mesmas.

CONSIDERAÇÕES FINAIS E ALGO SOBRE O SÁBADO: Nem eu, nem Bagnato somos autores da idéia apresentada nos textos, nem temos essa pretensão. É polêmica? Sim, mas solucionaria maravilhosamente o problema. Discutir isso e rapidamente é o que ambos os textos estão a propor. Tenham certeza, tudo é viável, basta querer e irmos todos à luta. Na foto do mapa, o triângulo citado e em amarelo o espaço já cedido oficialmente ao Museu Ferroviário. Quanto ao sábado, uma bela manchete abre o Jornal da Cidade de hoje, "Alfredão tem supersábado esportivo - Hoje, o Noroeste enfrenta o São Carlos, às 19h e o Itabom/Bauru encara o Brasília, às 20h, na Panela de Pressão". Num passado não tão remoto já vivenciei isso, dois jogos acontecendo simultaneamente e ambos com seu público, equipes se cruzando nos bastidores. Cada uma vive o seu bom momento e eu, que irei no Noroeste hoje e no Bauru amanhã, recomendo chegar cedo, pois o difícil não será adentrar os locais e sim, circular fora do complexo e estacionar o carro.

sábado, 21 de agosto de 2021

REGISTROS LADO B (59)


NO 59º LADO B A PRESENÇA DE UM CATEDRÁTICO DA MÚSICA, CINEMA, O SINGELO E FRATERNO PH, PAULO HENRIQUE LEITE PEREIRA
Nesta semana me contam algo mais da história deste rico personagem das entranhas desta terra varonil denominada também de Sem Limites e vou correndo me certificar de sua situação. Eu conheci o PH há muito tempo atrás e nutro por ele um carinho mais do que especial, exatamente por ele ser dessas pessoas que não mudam um milímetro com o passar do tempo. As coisas mudam, tudo se altera, se transforma, mas o PH continua lá com seu batidão de vida do mesmo jeito que sempre fez, parece até que um tanto apartado dessa vida tão desconjuntada que a maioria vive. Talvez resida aí esse gostar que todos que o conhecem nutrem e demonstram a cada reencontro. Ele é uma das pessoas mais autênticas que conheço e olha que conheço muita gente. Daí, faz muito sentido em ir atrás dele e buscar um depoimento dele, neste bate papo semanal, desta feita o 59º para este projeto de ir contando em drops, uma por semana, algo da vida pessoal de pessoas que marcaram a vida desta cidade, numa forma de deixar registrado o muito feito. PH encarna como poucos isso de LADO B – A IMPORTÂNCIA DOS DESIMPORTANTES e conversar com ele é não só um prazer, como um deleite.

O tempo chega para todos e chegou, evidente, também para este cidadão do mundo, o PH, solteirão convicto, vivendo para suas pequenas e ricas preciosidades, seus discos, livros e histórias, um modo só seu de vida. Aos 69 teve que abrir mão de morar sozinho, pois não estava mais dando conta de tantos detalhes, como se lembrar de um mero horário de tomar seu remédios. Isso pode ter uma importância muito grande na vida de todos, mas com tanta coisa na cabeça, tanta coisa para tocar a vida, alguns detalhes assim passam desapercebidos e no frigir dos ovos são vitais. Quando juntou isso tudo na balança, decidiu ir viver num lar coletivo, onde não se preocupa mais com o alimento, pois ele chegará no horário e tem quem esteja lhe lembrando dos horários dos remédios. No mais, ele continua o mesmo, envolto em suas histórias, discos e tudo o mais tocando sua vida. E ontem, ao procura-lo para o convite deste bate papo, percebi algo grandioso, sua memória continua ótima, como ele mesmo fez questão de dizer quando o perguntei se estava tudo bem. Ele topou na hora sentar e rememorar numa conversa informal, algo de sua trajetória. Tenho a mais absoluta certeza, ele tem muita coisa para contar, deixar registrado, enfim, ele é um ótimo contador de histórias.

Nos últimos tempos era ótimo vê-lo monitorando as visitas lá no Museu Ferroviário de Bauru. Até pouco antes da pandemia nos obrigar a dar um breque em tudo, PH era como uma marca registrada ali na entrada do Museu, sempre pronto para adentrar com quem quer que fosse e contar, nos mínimos detalhes tudo o que ali existe de preciosidade. Um detalhista na acepção da palavra. Ele, tempos atrás esteve cuidando do acervo do nunca inaugurado MIS – Museu da Imagem e do Som de Bauru, catalogando a parte musical. Isso ele fez uma vida inteira com seu acervo pessoal e deve ter sido algo onde reuniu o seu conhecimento ao prazer de ver a música sendo valorizada dentro do espaço público. Depois foi para o Ferroviário e ali se destacou. Uma “peça rara”, dessas sem nenhuma possibilidade de reposição. Igual ou perto do PH, só mesmo o PH. O problema é que costumo fazer meus bate papos, na maioria das vezes via virtual, um do lado de lá e eu aqui de casa, mas com ele isso não é possível. Ciente disso, passei onde ele se encontra e definimos que irei lá gravar ao vivo a conversa. E assim ficou tudo acertado.

Aqui relembro algo escrito por mim e publicado no meu blog pessoal, o Mafuá do HPA, ao longo de mais de uma década de textos diários:

- Publiquei em 01/03/2008: “PH é essa figura boníssima aí das fotos. Ninguém, ou quase ninguém, o conhece pelo nome de batismo, Paulo Henrique. Já, PH é demais conhecido por todas as galeras e thurmas da cidade. Circula em todas e se faz ver e ouvir. Quando o assunto é cinema, lá está o vibrante e entusiasta PH (sócio fundador e primeiro presidente da refundação do Cine Clube de Bauru), quando o tema é gibis, catedrático no assunto, marca presença (trabalha hoje na Gibiteca, junto a Biblioteca Pública Municipal), quando o tema da rodinha é música, ele dá seus pitacos certeiros e decisivos. Não existe outro igual, um grilo falante do bem, daquele tipo que todos gostam de ter como amigo, pois sinceridade é como ele mesmo. Outra coisa, não tentem alterar o ritmo do Ph, ele tem o seu e não adianta vir com pressa, agitos, desespero. O melhor mesmo é acabar se enquadrando no dele. Se querem saber a idade do gajo, nem eu não sei, mas sei que ele continua com essa carinha desde que conheço por gente”.

- Em 02/04/2014 publiquei: “O MUSEU E O PH – UM GUIA, UMA EXPOSIÇÃO E UM ESPECIALISTA - Quero escrever sobre essa nova cara do MUSEU FERROVIÁRIO REGIONAL DE BAURU, com exposição recém-aberta, mas antes quero citar algo lido e estabeleço uma relação das mais oportunas com pessoa dentro do nosso museu. Na última edição da Revista de HISTÓRIA da Biblioteca Nacional (www.revistadehistoria.com.br), a de março 2014, nº 102, na sua última página, a da coluna “A História do Historiador”, o artigo “UM GUIA E UMA ESTÁTUA”, do professor Luiz Estevam de Oliveira Fernandes, da Universidade Federal de Ouro Preto. Eis o link para leitura do mesmo: http://www.revistadehistoria.com.br/.../luiz-estevam-de.... É sobre o mergulho feito por historiadores em bibliotecas e arquivos para realizar seus doutorados. Nas idas e vindas, o autor reconhece dever muito a esses arquivos e aos professores. Vai além disso e aí faço a comparação com alguém do museu bauruense. (...) PH é o cara e a cara do museu. Quando li o texto na revista, a primeira lembrança, tida ainda durante a leitura é a dessa grandiosa figura humana. Ele é didático, sem ser pedante, elucidativo, sem arrogância, claro e objetivo, sem ser chato. Fala muito, envolve o visitante e acaba estabelecendo uma relação afetiva com o visitante, pois o quer absorver, saber do real motivo de sua visita e daí poder informar em detalhes algo mais sobre esse tema. Poucos fazem isso com tamanha abnegação. Ele não faz nada forçado, por imposição, faz porque acredita naquilo que faz. Simples demais da conta, mas indispensável. Hoje quando da visita que fiz ao museu, estava ocupado com uma visita de um grupo de estudantes e fiquei a observá-lo e daí a constatação de tudo o que escrevi. Fui lá por causa dele e do que havia lido na revista e sai fortalecido de que, primeiro, a exposição está bonita e para ser bem entendida necessita de alguém como o PH por lá, o cara certo no lugar certo. Daí para daqui a pouco surgirem muitos espalhando mundo afora que quem os ajudou de fato nas pesquisas foi o PH é um pulo. Ele é tudo isso e nem sabe e por isso estou espalhando e fazendo isso tudo chegar até suas mãos. Ele merece. É O NOSSO SEÑOR HERNANDEZ, COM TODA CERTEZA”.

- Publiquei em 29/08/2019: “LEMBRANCINHAS DO MUSEU FERROVIÁRIO NOS SEUS TRINTA ANOS - Eu também faço parte dessa história, mesmo que, pífia, ínfima, pequena participação, mas a única vez na vida quando estive atuando num órgão público, foi no governo de Tuga Angerami, 2005/2008 e na função exercida por mim, tinha direto acesso ao Museu Ferroviário e Regional de Bauru e tudo o mais à sua volta. (...) Esse museu é a cara desta cidade, pois como até as pedras do reino mineral sabem, o progresso desta aldeia, mesmo muito renegando as evidências, é proveniente dos seus trilhos. (...) São tantas coisas e neste momento, quando perpasso as homenagens todas ocorridas, me sinto contemplado e feliz pelo seu momento atual, uma flor se abrindo para a cidade, pronta para frutificar. Esse museu mora no coração desta cidade, no meu, com certeza. Duas inesquecíveis recordações, seu quadro de funcionários e ao aqui homenagear o amigo Paulo Henrique PH (não existe monitor como este e se fosse citar outra pessoa do local, o faria por Orlando Alves, irretocável no que sempre fez por ali e em toda SMC), o faço a todos e tudo o que já escrevi ao longo deste anos através do Mafuá do HPA, podendo ser recordado clicando no link a seguir: https://mafuadohpa.blogspot.com/search...”.

Algo mais dele hoje na conversa semanal e tendo PH do lado de lá, papo arrebatador.
Vamos juntos?

EIS O 59º LADO B, HOJE COM O PH, NOSSO MENESTREL EM QUESTÕES DE CINEMA E MÚSICA, 69 ANOS E ALGO DE SUA INTENSA TRAJETÓRIA DE VIDA
Contatar com o PH, nosso Paulo Henrique Leite Pereira é muito fácil, ele adorará receber sua ligação. Liguem para 14.99147.6409.
Conversando a gente se entende. Aqui em 1h15, bocadinho dessa rica história, intercalando algo com a do Cine Clube até as imortais monitorias no Museu Ferroviário. PAIAGÁ continua imbatível, imperdível e inquestionável. Gente melhor impossível. Desconheço alguém com mais pureza do que este nobre cidadão. Bater papo com ele é travar conhecimento com alguém diferenciado e conseguindo viver intensamente neste mundo enquadrado dentro de moldes não muito nobres. Eis um que vive sem se ater as convenções...

O LINK PARA ASSISTIR BATE PAPO DE 1H15: https://www.facebook.com/henrique.perazzideaquino/videos/612932156358403


A ENGRENAGEM ESTÁ TODA DOENTE, MAS...*
* Eis meu 27º artigo para edição semanal do DEBATE, de Santa Cruz do Rio Pardo:

Dizem que a fila de espera para se conseguir uma vaga hospitalar hoje na rede pública de Saúde de Bauru é de aproximadamente 60 pessoas. Este número eu consegui conversando com funcionários do setor, muitos dentro dos hospitais locais. Existem neste exato momento muitas pessoas com enfermidades graves e aguardando vagas em situação nada confortável, dentro das UPAs – Unidades de Pronto Atendimento e mesmo no Pronto Socorro Central. Se a situação é essa, uma só certeza, Bauru carece de um atendimento conseguindo suprir a demanda. Temos dois hospitais atendendo todo o público da cidade, somando-se a estes a população da região que para aqui é encaminhada. O Hospital Estadual e o Hospital de Base, as duas unidades e outro, num eterno chove não molha, num sempre futuro Hospital das Clínicas, esse junto da FOB – Faculdade de Odontologia de Bauru.

Nessa semana o Governo do Estado de SP abriu mais 30 leitos de Covid na cidade. Isso é uma coisa, hoje praticamente normalizado esse atendimento, pois muitas vagas para essa finalidade estão sendo até desativadas. Por outro lado as vagas para outras especialidades e enfermidades continua um verdadeiro “deus no acuda”. Enquanto a cidade aguarda, sem saber se existirá demanda, diante da nova cepa do vírus começando a circular na região, leitos estão vagando e muitos vazios nesse quesito, mas noutros a lotação é mais de 100% e uma loucura para se conseguir vagas.

O leigo, e me coloco nessa situação, costuma misturar uma coisa com outra. Ele não entende como vagas existem para uma coisa e não podem ser utilizadas para outra finalidade. Enquanto isso, basta uma rápida circulada pelos tantos postos de atendimento emergencial espalhados pela cidade para sentir a fragilidade do sistema e também sua deficiência. Vivencio o drama nestes dias de filho de um conhecido, já há alguns dias numa cama improvisada num destes locais, sendo ali tratado e sem conseguir vaga. Sua situação é grave, muito debilitado, mas nem isso é suficiente para garantir internação.

Diante da gravidade, ocorre sempre aquele serviço feito nos bastidores, onde uma espécie de corrente é feita. Não se trata somente a de oração, mas a de estabelecer e fazer contato com quem quer que possa ajudar. Um liga para o outro, todo tipo de ajuda é bem-vinda, tudo para tirar o parente da situação precária. Todo e qualquer que conheça alguém dentro do sistema é acionado. No caso onde acompanhei, mais de dez contatos, desde um político, alguém da área médica, outro pistolão, um conhecido dentro da estrutura e de tanto insistir, a vaga acaba saindo e o paciente é finalmente transferido para um hospital de fato e de direito.

A família não sabe como agradecer. Dentro deste clima, ouço membro dessa família, feliz da vida, mas se dizendo mais do que entristecido, pois como me disse, “a vaga para meu parente foi conseguida, mas sei, se ela ocorreu, diante da fila de sessenta pessoas, 59 foram passados para trás”. A situação atual é bem essa, sem tirar nem por. Como agir? Sem a vaga, talvez uma vida poderia ter se perdido, porém, quem nos diz que, diante da fila interrompida e salvando uma, outras não tenham se perdido. De tudo, a certeza, o sistema está doente, tanto quanto a população precisando dele.

Aqui, interior de São Paulo muita coisa ainda sendo resolvida, diferente de outros centros urbanos. Existe hoje mais do que um elo quebrado, funcionando fora do controle, mas a máquina não pode parar e se o fizer, daí sim o caos estará instalado. Todos sabemos, tem algo de muito errado em andamento, mas como estancar tudo dentro de uma conjuntura toda construída aos trancos e barrancos? Estamos todos doentes, temos ciência, mas diante dos fatos, sabe-se ao menos mais uma vida pode ter sido salva neste momento. Isso é alento, desesperança ou a certeza de que o caos será inexorável?
Henrique Perazzi de Aquino, jornalista e professor de História (www.mafuadohpa.blogspot.com).

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

MEMÓRIA ORAL (54) - publicado em 27/11
(Esse texto foi escrito em agosto de 2007, publicado só agora nesse blog, pois estavasem sem publicação. Essa história é velha e mais atual do que nunca.Tem tudo a ver com o que estamos fazendo no Preserve 2008. Daqui do Rio, deixamos um abraço cordial a todos):

OS PASSOS DO RESTAURO DE UM CARRO FERROVIÁRIO HISTÓRICO
O Projeto Ferrovia para Todos foi lançado em Bauru no ano de 2001, com o início do restauro da composição ferroviária da Maria Fumaça. À partir de 2004, com a autorização da ANTT (Agência Nacional de Transportes Terrestres) iniciaram-se os passeios turísticos, com sessenta vagas cada, que saiam mensalmente defronte o Museu Ferroviário até a Estação da Paulista, num trecho ida e volta de 2 km. Como Bauru tem toda uma história ferroviária, logo esse passeio tornou-se a coqueluche da cidade. Com o passar dos anos, a demanda foi crescendo, os passeios tornaram-se quinzenais e a cada divulgação junto a comunidade, a lotação ocorria rapidamente, provocando rotineiras filas.

Na troca da administração municipal, o Projeto teve solução de continuidade, algumas prioridades foram alteradas e a atenção foi redobrada. Com a abertura da unidade local do PoupaTempo, três carros ferroviários foram totalmente restaurados pelo Governo do Estado de São Paulo, sob a supervisão da equipe da Secretaria Municipal de Cultura e instalados naquele local. Hoje, a maior visitação dentro da unidade do PoupaTempo é a realizada num dos carros expostos num ramal ferroviário no local. Quer dizer, a população novamente renova aquilo que já era do conhecimento de todos, a ferrovia continua sendo algo de imenso magnetismo para Bauru e região. Também foi realizada a reforma de um jardim interno dentro das instalações do Museu Ferroviário e para preencher e embelezar a área interna foi totalmente restaurado um meio carro, em formato de cabine, sem as rodas e instalado no local, onde hoje funciona um lojinha de revenda de produtos com cunho ferroviário. O restauro foi totalmente feito pela equipe de funcionários do setor e também tornou-se outro grande atrativo, despertando muita curiosidade para todos os visitantes.

No prosseguimento dos trabalhos, o grande clamor era a demanda crescente de passageiros nos passeios quinzenais. No cronograma a ser seguido, deveriam ser iniciados os trabalhos de restauro de um carro Restaurante, mas devido a necessidade do aumento imediato do número de assentos aos visitantes, os rumos foram alterados. A decisão coletivada equipe foi a de restaurar de imediato mais um carro de passageiros. Um dos carros sob concessão do Governo Federal foi escolhido pelo Conselho do Museu Ferroviário e com uma verba recebida num convênio com a Prefeitura de Paraguaçu Paulista, foi iniciada a recuperação e restauro, que anteriormente era de uso Administrativo ( O-11, AM7026-4J), sendo transformado em Carro de Passageiros de 1ª Classe (passou para série P-11). Esses trabalhos foram iniciados efetivamente em janeiro de 2007 e todo o processo de gastos e compras efetuadas foi acompanhado muito de perto pelo Conselho do Museu Ferroviário e pela Secretaria Municipal de Cultura.

Três orçamentos foram solicitados para cada compra e mesmo após a apuração, o ganhador recebia a visita da equipe coordenadora, onde iam sendo explicados os objetivos do projeto e buscado uma forma de tê-los como participes, com descontos especiais e em muitos casos, até a doação do material e da mão de obra. A primeira compra foi a de madeiramento, para piso, teto e laterais, sendo feita na Faidiga Madeiras, do Flávio Faidiga. Compra efetuada, deu-se efetivamente o pontapé inicial no restauro. A equipe de trabalho da Secretaria Municipal da Cultura é reduzida, constituída pelos servidores municipais Alex Gimenez Sanches, Geraldo Aparecido Pereira Pires, Luiz Carlos Pereira e José de Jesus Dias. Esse quarteto é o que coloca a mão na massa e faz a coisa andar, executando todas as tarefas de restauro.

A ALL (América Latina Logística), concessionária da malha ferroviária em Bauru cede um amplo local, num dos barracões dentro das antigas oficinas da extinta NOB. Esse espaço possui um trilho de aproximadamente 100 metros, onde os carros ficam aguardando até o dia de início do restauro e junto deles, o local de trabalho da equipe. É lá que tudo é feito. Dividindo o mesmo barracão, a Marcenaria do Luiz Preto, que empresta alguns maquinários pesados no trabalho das madeiras e a PrestFer, do Celso, também sempre prestativo, em reparos de solda, sempre necessários. Por ali vigora uma união de interesses comuns, com todos irmanados no mesmo objetivo, transformar o local de trabalho no melhor possível.

Com esse espírito, o trabalho acontece e flui naturalmente. Piso colocado, madeiras laterais trocadas (enxerto nas deterioradas) e forro instalado, o passo seguinte foi a instalação elétrica e hidráulica. Nessa fase um outro servidor municipal foi deslocado para a execução das tarefas. Foi comprado material elétrico, ferragens diversas, hidráulica, tudo de pequena monta. Paralelo a isso foi adquirido o material dos estofados, na Storti Plásticos, pois o carro de 1ª Classe tem seus bancos todos com assentos estofados, diferente do carro de 2º Classe, que circula atualmente, cujos bancos são todos de madeira. Outra compra feita logo a seguir foram os vidros, na Vytrium, instalados na janelas laterais do carro.

O envolvimento com a comunidade se verifica em vários momentos. Esse é um deles e acontece quando Renato Munhoz e Fernando Lima, proprietários do Ateliê Estofaria Artesanal fazem um passeio de Maria Fumaça e se oferecem para fazer gratuitamente toda a parte de estofados do novo carro. Num outro momento, mesmo após ser contemplada com a compra de tintas, a empresa Copical Tintas, dos sócios Caio Oliveira, pai e Márcio Oliveira, filho, oferecem um grandioso desconto em cima do preço ajustado, tudo por entenderem o sentido da restauração. Paralelo a isso, a empresa SVL Serviços Ferroviários, dos sócios, todos ex-ferroviários Valdir de Oliveira Pinto, Sérgio Henrique Avolio e Luiz Antonio Farinelli, executa serviços contínuos nesse e em outros carros, tudo sem qualquer custo, pelo amor que mantém pela ferrovia e sua causa.

Essa parceria, que se apresenta de forma natural e espontânea não para por aí. A Empresa Lwart Lwarcel, de Lençóis Paulista, que já havia participado da parceria no restauro de todos os carros do Projeto, novamente doa toda a manta asfáltica, que cobre o teto do carro restaurado. A sensibilidade dos empresários não tem fim e no passo seguinte, a empresa Kol Engenharia de Impermeabilização, da engenheira Keilla Priscilla Amaral faz a colocação da manta praticamente abaixo do custo. Arrematando todo o trabalho, o incessante apoio de Alcemir Godoy, Diretor Regional da ALL (América Latina Logística), que detém ouso da malha ferroviária em Bauru promove toda a manutenção da parte baixa (rodas, truck e engrenagens) desse e de outros carros do Projeto em suas oficinas.

O corre-corre da equipe na conclusão é acelerado nos últimos dias, como acabamento dado ao sanitário do carro, retoques na pintura, principalmente no desenho das logomarcas da NOB e inscrições originais existentes, ajustes no madeiramento e fixação dos bancos. O trabalho de formiguinha da equipe é recompensado pelo reconhecimento de todos que já tiveram o prazer de visualizar o resultado final. A cada dia que antecede o dia da viagem inaugural a expectativa cresce e uma inspeção por parte de todos é refeita de forma minuciosa. Verdadeiro trabalho perfeccionista dos quatro funcionários, que acompanharam tudo, desde a escolha do carro até o dia da primeira viagem, que acontecerá no próximo dia 07 de agosto de 2007. O reconhecimento dos apoios recebidos ficará registrado numa placa instalada dentro do carro, junto ao nome dos quatro servidores, que possibilitaram que mais esse Carro de Passageiros fosse entregue à circulação. E entregue esse carro, a equipe não terá tempo para o merecido descanso, pois tudo caminha rapidamente para o início do restauro do carro Restaurante, outro aguardado com muita ansiedade e expectativa.Dessa forma caminham os restauros ferroviários em Bauru.

Henrique Perazzi de Aquino, Bauru SP, 31/Julho/2007.
LEGENDA DAS FOTOS:1) Maria Fumaça, 2) Composição na gare, 3)A equipe de trabalho - Luiz, Jesus, Alex e Geraldo, 4) Renato e Fernando, da Estofaria Artesanal, 5)Márcio e seu pai, Caio, da Copical Tintas, 6)engª Keila, da KOL diante do trabalho de impermeabilização, 7)Valdir, Sérgio e Luiz, o trio da SVL e 8)Funcionário dando acabamento no teto do carro.