segunda-feira, 3 de agosto de 2026


SAMPA, SEGUNDA, IMENSIDÃO DE LUGARES PARA IR, ADIVINHEM ONDE APORTO? NA LIVRARIA CALIL ANTIQUÁRIA, UM OÁSIS DENTRO DA CAPITAL PAULISTA
Confesso, São Paulo está hoje um tanto lusco fusco. Nem chove, nem molha. O sol resolveu não sair, nem o frio. Ou seja, bom para bater perna. E o forasteiro sai pela aí com um destino certo. Levar uma mala para consertar lá num local na conhecida Barão de Itapeteninga, centro velho da cidade, número 50 e já na ida, paro numa vitrine anunciando uma livraria fora do comum. Na volta, inevitável para mim, subo até o 9º andar do n° 88. Nessa vitrine uma amostragem do que iria encontrar por lá. Um sebo é um sebo e por lá livros usados, mas neste, o diferencial são os antigos, relíquias e afins. Chego, caminho por um corredor até alcançar o fundo. Um sinal avisa ao atendente, da chegada de um novo cliente.
Entro e sou recebido por um jovem livreiro, Murilo Calil, 32 anos, neto do velho e já falecido Calil Atallah, um libanês que há 73 anos atrás inaugurou este espaço. Imaginem uma livraria não com portas abertas para as ruas, mas atendendo num amplo salão no alto de um edifício. Este o diferencial dessa e no mais, só mesmo vendo o resto. Circulo pelos seus corredores e peço se posso fotografar. "Sim, mas não nas capas dos títulos antigos e telas. Só fotos desfocadas", me diz. Começo a me maravilhar e num dos corredores uma senhora, sentadinha num banquinho, limpando livros com um improvisado espanador.
Começo com ela uma longa conversa e descubro ser ela Maristela Montesanti Calil Atallah, 65 anos, a proprietária da livraria. Por ali só ela e o filho, proprietários e funcionários do lugar, ela muito feliz, por sinal, pois conseguiu passar o legado ao filho e este demonstra muito querer dar continuidade para algo iniciado pelo seu avô. Ela me conta, como faz para ir limpando um por um, todas as estantes e mantendo tudo impecável, numa dedicação só encontrada mesmo em quem ama muito o que faz. E as histórias são muitas, uma delas repetida a mim, quando digo ser de Bauru. "Tive um fiel cliente de Bauru, ele vinha regularmente e só levava livros raros. Visitava a livraria quase todo mês. Não tenho o nome dele aqui no momento, mas de um momento para outro, nunca mais apareceu", me diz. Digo que, com certeza, deve ter falecido, pois ninguém abandona assim um velho hábito.
Tanto ela, como o filho são por demais atenciosos e uma delícia conseguirem tocar adiante algo iniciado há tanto tempo. Vi muita raridade e não pude permanecer o tempo necessário para vasculhar de acordo e como se deve um local de tamanha envergadura, mas o encanto foi imediato. Deixei de lado outros prováveis afazeres paulistanos e passei momentos inesquecíveis neste oásis paulistano. Sei, São Paulo possui alguns belos oásis e confesso, no velho centro da cidade, este um ainda intocável. Querendo passar por momentos como se estivesse num outro século, dentro de um mundo diferente, este um dos lugares. Não me arrependo nem um pouco de ter deixado de ir em outros indicados lugares nesta segunda, tudo por causa de ter sido despertado por uma vitrine. Nem pergunto o preço das raridades, mas acabo levando algo instigante, o livro "O ladrão do Fim do Mundo", do Joe Jackson, a história de um inglês e de como roubou 70 mil sementes de seringueira, acabando com o monopólio do Brasil sobre a borracha e dando fim no ciclo da borracha amazônica. Indico quem venha por Sampa e cansado das andanças, aportem por lá. Um lugar sem decepções.

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