SAMPA, SEGUNDA, IMENSIDÃO DE LUGARES PARA IR, ADIVINHEM ONDE APORTO? NA LIVRARIA CALIL ANTIQUÁRIA, UM OÁSIS DENTRO DA CAPITAL PAULISTAConfesso, São Paulo está hoje um tanto lusco fusco. Nem chove, nem molha. O sol resolveu não sair, nem o frio. Ou seja, bom para bater perna. E o forasteiro sai pela aí com um destino certo. Levar uma mala para consertar lá num local na conhecida Barão de Itapeteninga, centro velho da cidade, número 50 e já na ida, paro numa vitrine anunciando uma livraria fora do comum. Na volta, inevitável para mim, subo até o 9º andar do n° 88. Nessa vitrine uma amostragem do que iria encontrar por lá. Um sebo é um sebo e por lá livros usados, mas neste, o diferencial são os antigos, relíquias e afins. Chego, caminho por um corredor até alcançar o fundo. Um sinal avisa ao atendente, da chegada de um novo cliente.
Entro e sou recebido por um jovem livreiro, Murilo Calil, 32 anos, neto do velho e já falecido Calil Atallah, um libanês que há 73 anos atrás inaugurou este espaço. Imaginem uma livraria não com portas abertas para as ruas, mas atendendo num amplo salão no alto de um edifício. Este o diferencial dessa e no mais, só mesmo vendo o resto. Circulo pelos seus corredores e peço se posso fotografar. "Sim, mas não nas capas dos títulos antigos e telas. Só fotos desfocadas", me diz. Começo a me maravilhar e num dos corredores uma senhora, sentadinha num banquinho, limpando livros com um improvisado espanador.
Começo com ela uma longa conversa e descubro ser ela Maristela Montesanti Calil Atallah, 65 anos, a proprietária da livraria. Por ali só ela e o filho, proprietários e funcionários do lugar, ela muito feliz, por sinal, pois conseguiu passar o legado ao filho e este demonstra muito querer dar continuidade para algo iniciado pelo seu avô. Ela me conta, como faz para ir limpando um por um, todas as estantes e mantendo tudo impecável, numa dedicação só encontrada mesmo em quem ama muito o que faz. E as histórias são muitas, uma delas repetida a mim, quando digo ser de Bauru. "Tive um fiel cliente de Bauru, ele vinha regularmente e só levava livros raros. Visitava a livraria quase todo mês. Não tenho o nome dele aqui no momento, mas de um momento para outro, nunca mais apareceu", me diz. Digo que, com certeza, deve ter falecido, pois ninguém abandona assim um velho hábito.
Tanto ela, como o filho são por demais atenciosos e uma delícia conseguirem tocar adiante algo iniciado há tanto tempo. Vi muita raridade e não pude permanecer o tempo necessário para vasculhar de acordo e como se deve um local de tamanha envergadura, mas o encanto foi imediato. Deixei de lado outros prováveis afazeres paulistanos e passei momentos inesquecíveis neste oásis paulistano. Sei, São Paulo possui alguns belos oásis e confesso, no velho centro da cidade, este um ainda intocável. Querendo passar por momentos como se estivesse num outro século, dentro de um mundo diferente, este um dos lugares. Não me arrependo nem um pouco de ter deixado de ir em outros indicados lugares nesta segunda, tudo por causa de ter sido despertado por uma vitrine. Nem pergunto o preço das raridades, mas acabo levando algo instigante, o livro "O ladrão do Fim do Mundo", do Joe Jackson, a história de um inglês e de como roubou 70 mil sementes de seringueira, acabando com o monopólio do Brasil sobre a borracha e dando fim no ciclo da borracha amazônica. Indico quem venha por Sampa e cansado das andanças, aportem por lá. Um lugar sem decepções.
UMA HOMENAGEM AOS 90 ANOS DE UM EMÉRITO PESQUISADOR DO BRASILEIRO, ROBERTO DA MATTA, DE AGORA EM DIANTE DEIXANDO A PESQUISA E BUSCANDO SÓ AMENIDADES
Acabo de apresentar um trabalho acadêmico sobre o Carnaval em Taquaritinga, ainda conseguindo levar pras ruas mais de 40 mil pessoas pros cortejos, numa cidade com aproximadamente 50 mil habitantes. Ele, o antropólogo ROBERTO DA MATTA explicava coisas desta natureza muito bem, aliás, sua especialidade. Uso seu livro, "A CASA & A RUA" para explicar, ou melhor, conseguir entender essas amostragens de como se dá a vida dialética deste brasileiro, enfim, nós mesmos. Ele me mostrou como ocorre essa divisão do universo social brasileiro entre a casa (o espaço privado, do afeto, do parentesco, na qual as leis não entram) e a rua (o espaço público, do trabalho, das leis impessoais, do desamparo). Vi isso bem explícito, essa tentativa que todos fazemos no dia-a-dia em transformar a rua em casa, usando para isso os laços de amizade e também redes de favor, até para conseguir fugir da frieza das leis e quetais. Eu o leio desde muito tempo, claro, tudo começando com livros como "Carnavais, Malandros e Heróis" e depois outro, texto curto, mas contundente, o "Que país é este?". Ele acaba de completar 90 anos de idade e decidido comunica, não mais efetuará pesquisas científicas e sim, parte para amenidades. Continuará escrevinhando, mas sem a pretensão de o fazer baseado em longas pesquisas.
Por ele fiz algo meio que abominável nos últimos tempos e aqui confesso: quando o vi, tendo ao fundo sua biblioteca e a manchete "O intérprete do jeitinho brasileiro chega, produtivo, aos 90 - Ele ensina que para entender um povo é necessário conhecer seus ritos e seus mitos. Ele explica porque mergulhou em temas como carnaval, jogo do bicho e futebol". Foi o bastante para me redimir, olhar para os lados e comprar um exemplar do Estadão. Ninguém estava me olhando e cometi o deslize, tudo pelo Da Matta. Enfim, como li no livro Malandros, "...uma multidão tão sem rosto e sem voz, junto a uma elite tão rouca de gritar por suas prerrogativas e direitos; uma intelectualidade tãopreocupada com o coraçãodo Brasil e, no entanto, tão voltada para o último livro francês; uma criadagem que passa tão despercebida e patrões tão egocêntricos". Para ele - e para mim e outros tantos - o povo brasileiro o intriga na "sua generosidade, sabedoria e, sobretudo, esperança".
Dele, na entrevista li algo pelo qual estou acometido neste exato momento de minha vida: "Até os 50 ninguém morre. Ninguém acha que vai morrer. Só depois os problemas começam a aparecer. (...) O maior sofrimento é nos conformarmos com a ideia de que somos finitos. E enxergar esse contrastemaravilhoso entre a nossa consciência da finitude e as artes, o cinema, a pintura, o teatro, os romances". Sofro diariamente ao me olhar no espelho e agora, com a aposentadoria, a minha chegando aos 65 anos - não que tudo tenha se encerrado -, me vejo como ele, cercado de livros em meu Mafuá - um privilégio - e queria poder no que me resta de vida ficar entretido com "amenidades". Lindo ler o que pensa sobre a IA e a inteligência artificial, acreditando que uma coisa talvez nunca se misture com a outra, exatamente por causa de um único diferencial: "nossa consciência é agasalhada por uma máquina chamada corpo humano e são esses vários tipos de memória, que fazem a nossa consciência". E por fim, quando analisa na entrevista ao vetusto jornalão dos Mesquita, algo sobre essa onda conservadora do momento: "Do ponto de vista da ética, somos reacionários, seguimos um sistema ético do século 19", E isso, por si só, nos leva a um profundo "estudo de caso", algo me levando para seus estudos anteriores. Enfim, li, leio e continuarei lendo Da Matta, até para conciliar o que entendo disto tudo, com estudos já realizados neste sentido. E assim como ele, cercado de livros e papéis em nossos locais particulares, não escrevo e nem prtoduzo como ele, mas leio além da conta e isso me move, a tentar chegar aos 90, com a mesma boa cabeça, sempre voltada para coisas e causas sociais. Agora mesmo, o que me move é eleger Haddad governador e reeleger Lula, pois não suportaria viver num mundo onde o fundamesntalismo religioso e político me impediria até de ler e expor minhas ideias. Quero continuar livre, leve e solto, mas isso não será mais possível com a extrema-direita no poder. Da Matta me explica muito bem isso tudo.








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