terça-feira, 11 de agosto de 2026

DROPS - HISTÓRIAS REALMENTE ACONTECIDAS (256)

DUAS HISTÓRIAS VIVENCIADAS PELO HPA

1.) DAS ANDANÇAS PELA AÍ, PENINHA CIRCULA UNS DIAS PELA CIDADE ONDE JÁ FEZ E ACONTECEU
Peninha, ou melhor, Oswaldo Penna Jr, filho do seu Oswaldo Pena, o da revista Cadência é um ser polêmico por natureza. Gosta de provocar tsunamis por onde passe e como está por alguns dias circulando pela Bauru, lugar onde um dia, algumas décadas atrás, fez e aconteceu, tenham certeza, se ele pousou por aqui, algo está para acontecer. Eu como gosto de provocá-lo, nos encontramos hoje numa tour, onde foi inspecionar antigos locais, que um dia chamou de seu, paramos para um xixi no Confiança Max e diante de tanta gente no nosso entorno, digo a ele: "Meu caro, antes eu descia a feira e conhecia todo mundo, hoje não conheço mais ninguém. E você aqui, que tanto barulho já provocou por essas bandas, quantos te reconheceram aqui na região da Getúlio?".

Ele não demorou nem um segundo e a resposta foi certeira: "Ninguém. Você acredita que, ontem, sentei no Franz Café, esse aqui pertinho, comecinho da Getúlio, point dos abonados e por ali fiquei mais de uma hora. Sabe quantos me reconheceram? Ninguém". Rimos juntos e constatamos o quanto o tempo passa e com ele se vão aquilo tudo que um dia louvamos. Nossos feitos mais homéricos caem no esquecimento, reconhecemos. Ele não se apoquenta com isso e como ainda gosta de uma cervejinha e o Franz não serve essa iguaria, me diz estar tomando umas - ontem umas, hoje mais algumas - no bar de um posto de combustível ali perto. E dali, olhando para esses novos personagens bauruenses circulando no seu entorno, me diz como tudo está mudado, cada vez mais em cada novo retorno.

O agitado advogado, que ainda sonha em conseguir encontrar um mecenas que banque um filme sobre os cafajestes de Bauru, principalmente aqueles todos que rodearam a famosa Casa da Eny. Ele circula com um roteiro em sua pasta e está sempre pronto a entregá-lo para quem se mostre disposto a ajudá-lo. "Essa história cutuca essa cidade em suas entranhas mais perniciosas. Muitos não a querem ver vingar, mas eu quero e conheço as histórias todas, pois vivenciei aquele período de dentro de suas vísceras. Tem muita gente ainda vivo, mas a maioria já morreu e assim como Jorge Amado relatou aquelas histórias dos bataclans baianos, o nosso aqui foi até mais portentoso que aqueles. Um dia irei conseguir levar adiante este projeto revolucionário. Não desisto fácil", me diz.
Ele pode ter envelhecido - em barris de carvalho -, mas sua memória continua ativa e lembrando de tudo. Cita nomes de gente do seu tempo a todo instante, alguns dos quais eu já nem mais me lembrava. Lembra e conta algo do cidadão ou cidadã, como se estivesse revivendo naquele momento algo vivenciado numa época, que não sai de sua cabeça. Sentar com ele para uma prosa é ir resgatando histórias, ouvindo e tomando conhecimento de particularidades desconhecidas, algumas muito picantes, ou seja, deixando a coisa vai longe e ele tem sempre algo novo, pois sua mente continua com a mesma efervecência de antes.

Ele saiu de Bauru décadas atrás, após ser o primeiro vereador do PT eleito na cidade, foi viver na França, casou, tornou-se pai e depois voltou, advogou, morou em Palmas, lá no Tocantins, agitou muito por lá, voltando para a França. Neste momento, está decidindo se volta ou se fica, aqui, São Paulo ou a França. Com uma mochila às costas circula pela aí e cruzando com ele, pare, assunte, provoque o danado e passe um tempo ouvindo algo, histórias de todo tipo e com personagens sempre muito conhecidos. Conhecidos de outros tempos, pois como tivemos uma prova hoje, poucos ainda o conhecem, mas tomar conhecimento de como a coisa acontecia nas entranhas bauruenses no seu passado não tão glorioso é mais do que instigante, provocante e arrebatador. Ele sabe coisas que até deus duvida. Duvida? Tire a prova o encontrando.

2.) E AGORA SUA CASA PEGOU FOGO E O VEJO PERAMBULANDO PELAS RUAS, SEM EIRA NEM BEIRA
"Bom dia, Henrique. Tudo bem? O morador da casa da rua Maria José se chamava Silvio Carlos Scaraboto. Era meu amigo da quinta série no Ernesto Monte. Silvinho tocava cavaquinho e por essa condição nos aproximamos. Com o passar dos anos cada um seguiu seu caminho. Um "oi" aqui um "como vai ali", na época sempre simpático, educado, comunicativo e sorridente. Ele chegou a fazer alguns trabalhos para um dos meus irmãos que tinha uma serigrafia (ele desenhava artes para impressão). Depois fiquei sabendo que estava morando em Campinas e tinha uma agência de publicidade bem sucedida por lá. Muitos anos depois, lá por volta de 2005, talvez reencontrei o Silvinho em Bauru. Me procurou pedindo trabalho. A agência tinha fechado, brigou com seu irmão de quem era sócio e voltou a morar com os pais. Estava esquisito. O sorriso tinha desaparecido. Andava desconfiado, cheio de teorias da conspiração, difícil de conviver", assim um amigo descreve em poucas linhas como foi a vida do morador da casa que pegou fogo recentemente.

Eo conheço de vista há muito tempo e ouço suas histórias desde então. Desde a morte dos pais, seu círculo se fechou e ele, foi ficando cada vez mais sózinho. Por causa deste "difícil de conviver", vivia só, cada vez mais isolado. Um dos lugares que o via constantemente era no espaço do Supermercado Confiança Nações, bem próximo de sua casa. Tempos atrás, tinha uma grande asa delta instalada defronte a fachada do imóvel e isso sempre me despertou a curiosidade. Pelos comentários de todos, principalmente vizinhos, os que com ele tiveram alguma convivência, estava cada vez mais difícil se aproximar e conversar. Vivia assim e dizem, sem existir certeza, possui uma aposentadoria, o que lhe garante não passar fome. E tudo desemboca neste incêndio em sua casa, consumindo-a quase por completo. Internamente restou um veículo, que ele não colocava em funcionamento há décadas. Buscaram o veículo para proteger de saques, mas e ele, como anda?

Dois dias atrás o revi nas ruas e este o motivo deste escrito. Comentam dele não estar podendo voltar para sua casa, pois não sobrou sequer um teto para se abrigar. Estava no hall do prédio da Unimed, ali na Rio Branco e ele zanzando por ali, sem rumo, olhando para os lados. Andou até defronte uma unidade da Paschoalotto, ali ao lado, sentou numa mureta e ficou fumando, olhando para longe, um horizonte perdido. E dali, pelo que dizem nas imediações de sua casa, tem dormido debaixo de marquises e se tudo já estava ruim, agora infinitamente pior. Tudo o que sei é no campo das hipóteses e aqui passo, até para um pensar coletivo. A solidão é algo muito perturbador. Tem quem goste, mas se assim o vive, não abandona as relações com os demais. Sem vínculos e com alguma perturbação, tudo é elevado para níveis indescritíveis na condição humana. Penso que, diante de tudo, algo precisa ser feito. Todos estão muito preocupados e alguns poucos devem estar realmente o ajudando, prestando aquele auxílio para alguma continuidade de sua vida. Na verdade, as histórias se repetem e de todos que tenho ouvido, que o viram pelas ruas por estes dias, se sentem incomodados vendo-o na situação atual. Enfim, o que pode realmente ser feito para buscar uma solução pro Silvio, eis a questão. E quando algo desponta assim, com tantos pensando juntos uma solução, uma grande possibilidade dela surgir, uma luz no final do túnel e assim, ele numa outra situação.

Isso tudo me remete a estes tantos hoje abandonados nas ruas de nossas cidades. Cada qual possui uma história de vida por detrás de si. Muito me comove observar como se desenrola a vida destes tantos hoje vivendo em situação degradante. Não dá para circular por uma calçada, ver um ser humano dormindo largado de atravessado no meio dela, pular o mesmo e seguir em frente como se nada estivesse acontecendo. Isso ocorre com muita frequência. Ali mesmo perto do Confiança Nações, debaixo de uma marquise do viaduto, observa-se famílias em rodízio. Existem lugares de abrigo e dias atrás quando perguntei a um deles sobre o Albergue Noturno, me disse que por lá é muito bem recebido, porém por poucos dias, pois o sentido de sua existência é o da transição temporária. Silvio está provavelmente adentrando essa nova condição de vida. Isso encurta a vida de qualquer ser humano. Escrevo isso em forma de desabafo e buscando uma forma de resgatá-lo, porém, não só a ele, pois se a sua história nos comove, em cada um pelas ruas, a mesma situação, exposta como chaga diante de nossos olhos. Com um pouco mais de sensibilidade humana tocamos melhor nossas vidas.

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