Começo aqui compartilhando um texto do professor e escritor bauruense, hoje radicado em Sampa, Gilberto Maringoni, sempre muito crítico de Lula e ao PT, mas neste momento de nossa vida política, tendo que reconhecer da não existência de outro campo de luta e resistência, onde possamos atuar, quer não o de apoiar, acreditar e cerrar fileiras junto de Lula. Eis seu texto, publicado logo após a abertura da campanha de Lula em Vila Euclides: "UM TENTO EM VILA EUCLIDES - A campanha Lula marcou um golaço na manhã deste domingo: lotou o estádio de Vila Euclides, em São Bernardo do Campo, e fez um comício como há muito não se via entre as forças progressistas. O local escolhido não poderia ser melhor. Trata-se de um símbolo dos trabalhadores e da luta pela democracia no Brasil. Ou seja, o ato, de saída, expressa uma posição de classe, o que contrasta com a aglomeração em torno de Flávio Bolsonaro, na praia de Copacabana. De um lado, a organização e de outro a dispersão domingueira. Lula pronunciou um discurso extremamente hábil, lembrando das greves de 1979-80. Há diferença entre elas, lembrou. Na primeira, diante de uma categoria radicalizada, que não aceitava o acordo com o patronato previamente articulado por ele, Lula não coloca em votação o mérito da questão. Pede apenas um voto de confiança a milhares de trabalhadores para seguir negociando. É aprovado por amplíssima maioria. No ano seguinte, o esquerdismo deu o tom. Depois de 45 dias de paralisação, os trabalhadores saem derrotados. A mensagem é clara para o presente: confiem em mim e não façamos exigências além da conta. É o passaporte para o apoio militante a uma candidatura que coloca como ponto essencial o aprofundamento do aperto fiscal. "Confiem e deixem comigo" é o mote geral. Foi a essência de uma intervenção curta, cuja segunda parte foi preenchida com referências a conquistas passadas e poucas alusões ao futuro. Uma peça lapidar de habilidade e competência política para tentar reconquistar o entusiasmo militante numa disputa que será decidida por margem estreita de votos".
E de Bauru, enviamos também mais que uma mensagem de apoio, consideração e mais que tudo, confirmação por acreditar, não só em Lula, mas em sua proposta e tudo o que já foi feito e, com certeza, irá continuar fazendo enquanto viver. Foram dois ônibus saindo de Bauru e com direção até o estádio 1º de Maio, o de Vila Euclides. No que estive presente, organizado pelo Sindicato dos Metalúrgicos, dez vagas para gente ligada ao Bar do Genaro e lá fui inserido. Saímos cedo, 23h do sábado, com chegada sendo prevista para 5h30, quando aportaríamos, todos juntos numa padaria e de lá para o estádio. Não deu, o ônibus ao adentrar a rodovia embicou num defeito da pista, declive acentuado e ficou entalado, aproximadamente 9km da chegada. Na demora para conseguir tirá-lo do lugar, todos se deslocaram de Uber, de 4 em 4 e assim chegamos, pulserinha vermelha nos pulsos, assuntamos o local, fizemos as primeiras aproximações, muitas barracas de candidatos e partidos do lado de fora, até atravessarmos as catracas.
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| Eu, Patrus e um dos tantos Bezerras. |
A partir deste momento, tudo é HISTÓRIA. A emoção inicial foi adentrar este templo, não só do futebol - o time do São Bernardo o utiliza hoje para a Série B do Brasileirão -, mas no nosso caso, político. Alguém nos mostrou como era o estádio antes, a disposição de Lula, em cima de uma mesa emprestada, sem microfones, só com o gogó, depois sua fala sendo gritada e espalhada ao vento para todos e a imaginação viajou no tempo. O aparato atual, mas que portentoso, não só enaltece aquilo tudo, como demonstra Lula procurar nos detalhes, ressaltar como deve ser feita a luta, com perseverança, garra e sem esmorecer. Se aquilo tudo ali possibilitado 47 anos atrás, por que não iniciar essa nova caminhada, as eleições deste ano, revivendo essa história e com ela, nos unido todos, para vergar, vencer e se firmar num Governo popular, onde a soberania brasileira estará não só ressaltada, como de fato acontecendo?
Existia a possibilidade de se tentar ficar mais perto do palco e da passarela, por onde Lula e os demais estariam presentes, mas a opção da maioria do grupo foi permanecer no alto de uma arquibancada, visão privilegiada e de lá, presenciar tudo o mais. Histórias de vida, uma atrás de outra, foram sendo possibilitadas neste lugar. Ressalto a de um senhor, digno representante dos Bezerra, nordestino de quatro costados, parentesco com Gregório Bezerra. Dele ouvi um bocadinho da história deste, que juntando ao que já sabia, me fez crer que, dessa grandeza que nos une, a de estarmos juntos, décadas e mais décadas, sem arredar pé e sempre acreditando, ao lado de quem realmente faz e acontece, neste tão decantado outro mundo possível. Ali ao lado deste Bezerra, passou por nós, tiramos foto com Patrus Ananias, de tanta história política e hoje candidato ao governo mineiro, numa necessária reconquista de Minas Gerais. O prazer inenarrável de ir, pouco a pouco, juntando histórias como a destes dois, eternos militantes e destes inquebrantáveis de uma vida inteira.
Lá de cima, do alto desta arquibancada, privilegiado por, quando saiu o sol, estarmos sob uma reconfortante sombra, ou seja, estávamos numa espécie de camarote. Lá do alto, no gramado todo coberto por placas, íamos vendo aquela constelação toda de políticos, conhecidos de todos nós, muitos tendo a admiração coletiva dos presentes. Num palco montado ao lado do principal, circulando neste espaço, foram se revezando todos os importantões presentes, os candidatos aos governos estaduais, os ministros e gente da vida pública nacional. Foi algo realmente revigorante e digo mais, uma espécie de recarregador de baterias, ouvir aqueles todos, poucos minutos cada, quando reafirmaram a necessidade de estarmos todos juntos, nesta breve campanha, quando venceremos com amor, o ódio e a essa nação imperialista querendo nos subjugar, sendo mantido como mero quintal. Tudo o exposto ali naquele momento, era algo mais dessa resistência, a desta campanha, já fazendo história mesmo antes de começar.
E assim fui vendo gente como, falas começando com o gaúcho Paulo Pimenta, depois sendo estendida para Dr Rosinha, Gleice Hoffmann e Requião Filho, do Paraná, o sempre louvável presidente hoje do BNDES, Mercadante, Luís Cesar Bueno, na luta pelo governo em Goiás, depois revendo o acreano Jorge Viana, hoje concorrendo ao Senado. Falaram também várias lideranças, representando vários setores nacionais, intercalados por gente conhecida de todos os presentes, como os ministros Luiz Marinho e a digna representante do PC do B, Luciana Santos. As duas candidatas ao Senado por São Paulo, Simone Tebet e Marina Silva tambpem falaram. Foram muitos outros (as), sendo conduzidos aos microfones, com as falas se encerrando com o ministro Alexandre Padilha, todos no mesmo tom, o da firmeza de propósitos. Daí, por volta das 11h, tudo sendo jogado para o palco principal.
Treze minutos de contagem regressiva e tudo culminando com a apresentação no palco. Primeiro as instruções todas do aparato montado para atendimento de tanta gente, de 20 a 40 mil pessoas. Uma hora antes, os espaços vazios prenunciavam que, o estádio não ficaria totalmente cheio, mas com a aproximação do horário de início do evento, todos os espaços foram tomados, inclusive os ocupados com imensas bandeironas. Ela continuariam sobre as arquibancadas se não fossem todos os espaços preenchidos, mas eles foram e, desta forma e jeito, tudo teve início. Uma inversão de procedimentos ocorre e o palco principal, debaixo do imenso painel de led, onde tudo ocorreria, acabou sendo utilizado em segundo plano e tudo foi levado para junto da massa, meio do povão e debaixo também de muito sol, não tão inclmente, mediano, mas agindo. Ali sentados, Lula e Janja, Alckmin e Haddad, com as respectivas esposas.
As apresentações pipocam no palco principal, desde os antigos companheiros de Lula, na greve, cujo estádio foi o palco das assembléias, depois com o hino sendo cantado por Fafá de Belém, depois com a fala de Janja, um pastor cantor, com uma canção, não evocando hinos evangélicos, mas Lula e seus feitos. Depois representantes do Hip Hop e a emocionante dala de Benedita da Silva, realmente em algo emocionante. E depois as falas de Fernando Haddad e Geraldo Alckmin, respectivamente candidatos à governador do estado de São Paulo e a vice de Lula. Interessante e ressaltado por Haddad, os discursos limitados há cinco minutos cada. E tudo culminando com o de Lula, esse mais extenso, porém, diante de todos os demais já feitos em ocasiões similares, com tempo também reduzido. Lula foi preciso, cirúrgico e já aqui ressaltado no escrito por Gilberto Maringoni. O evento tinha hora para começar e terminar. Se passou do horário, foi pouca coisa. O mais importante foi a organização, impecável e o vislumbrado pela massa, muito além de ser contagiante e inebriante. Não deve ter quem de lá saiu sem se sentir revigorado e revitalizado para a luta. "Saíamos daqui prontos para nestes próximos 50 dias, falar de eleição, de Lula e da necessidade de eleger uma bancada condizente com a necessária renovação", foi repetido por todas e todos.
E depois de tudo, o retorno para casa. Uma saída sem percalços, circulando pelas ruas próximas ao estádio, neste também reencontro e muitas conversações possíveis. Vi este momento, o da saída, como o da chegada, como grandiosos dessas possibilidades, de irmos cruzando com pessoas conhecidas, ouvindo suas histórias, relatos que, juntados aos nossos, constrõem este grande mosaico, essa vivência, algo bem peculiar de todos ali presentes, algo realmente contagiante e mais que um recarregador de baterias. Nosso ônibus já estava recuperado, agora sem um pequeno pedaço de seu parachoques, mas apto a nos receber e assim voltamos para casa, com uma parada, tipo 16h, para um jantar e depois mais estrada, com as paradas em algumas cidades próximas. Do rescaldo final, o bom disso tudo é ver fortalecido dentro de todos, essa gana por estar envolvido na lida e luta deste momento da vida nacional, onde o que se pode ser feito, o será, pelo bem do país. Todos possuem plena consciência disso e o belo evento de lançamento da campanha de Lula, muito bem pensado e executado, nos ajuda e muito para a continuidade de tudo daqui por diante.
Como comecei com um texto, encerro com outro, agora com o do grupo Jornalistas pela Democracia, expressando bem o sentimento coletivo de ontem, o de todos que estiveram lá presenciando in loco Lula de volta à Vila Euclides e dando o pontapé inicial em sua campanha pela reeleição:
"O Brasil que eu me recuso a entregar - Há momentos em que a política deixa de parecer uma sequência de eleições e, de repente, se revela como história. Ver Lula voltar à Vila Euclides é um desses momentos para mim. Eu não vejo apenas um candidato retornando a um lugar simbólico para iniciar mais uma campanha presidencial. Vejo a distância que o Brasil percorreu - e a distância que continua teimosamente se recusando a percorrer. Vejo o operário que emergiu de um país onde homens como ele deveriam trabalhar, obedecer e permanecer politicamente invisíveis. Vejo o líder sindical que aprendeu a falar a partir do chão da fábrica, e não dos salões onde o Brasil tradicionalmente decidia seu futuro. E vejo, décadas depois, o mesmo homem voltando como presidente da República a um lugar inseparável do despertar democrático do país. Essa imagem importa para mim porque o Brasil sempre foi extraordinariamente competente em mudar o vocabulário enquanto preservava suas hierarquias. Abolimos a escravidão sem abolir sua arquitetura de desigualdade. Viramos República sem desmontar completamente o poder oligárquico. Saímos da ditadura sem eliminar o imaginário autoritário que tornou a ditadura possível. Construímos instituições democráticas enquanto milhões de brasileiros continuaram experimentando a cidadania como algo condicional - dependente de renda, cor, território, educação e do acidente do nascimento.
É dentro desse Brasil que eu compreendo Lula. Não como santo. Não como líder infalível. E certamente não como alguém que deva estar acima de críticas. Eu o compreendo como ruptura. Um migrante pobre de Pernambuco não deveria, segundo a velha lógica brasileira, tornar-se a figura política central do país. Um metalúrgico sem o pedigree tradicionalmente exigido pelo poder não deveria sentar-se diante de presidentes, monarcas, banqueiros e diplomatas falando como igual. As pessoas historicamente confinadas às margens da representação política brasileira não deveriam reconhecer a si mesmas na Presidência da República. Mas isso aconteceu. E alterou para sempre a geografia simbólica do poder no Brasil. (...) Minha relação com a esquerda brasileira nunca dependeu de carteirinha, devoção ou obediência. Eu discordo de partidos, governos, dirigentes e estratégias. Não preciso de santos políticos. Uma democracia saudável deveria tornar santos desnecessários. Mas preciso saber de que lado da disputa histórica estou. Em 2026, essa disputa é muito maior do que Lula. O Brasil está decidindo se democracia é apenas o procedimento pelo qual governos são eleitos ou se também carrega obrigações com dignidade, inclusão social, soberania e cidadania plena. Está decidindo se derrota política deve ser processada pelas instituições ou respondida com fantasias de ruptura. Está decidindo se o país se entende como permanentemente subordinado aos interesses estratégicos de potências mais fortes ou como uma nação com direito de perseguir seus próprios interesses, alianças e escolhas diplomáticas. E está decidindo se os recursos extraordinários do Brasil - ambientais, agrícolas, minerais, energéticos, culturais e humanos - continuarão produzindo um país rico habitado por milhões de pessoas que jamais experimentam essa riqueza como algo que também lhes pertence. E aí que Lula importa para mim hoje. (...) Ele importa porque, no cenário político que existe agora, ocupa uma interseção histórica particular: democracia contra restauração autoritária; inclusão social contra a naturalização da exclusão; soberania contra submissão; e a própria política contra a ideia de que o poder pertence naturalmente a uma casta permanente. Há ainda algo que seus adversários nunca conseguiram compreender completamente. Podem odiar Lula. Podem atacá-lo, investigá-lo, prendê-lo, ridicularizar sua escolaridade, seu sotaque, sua origem, seu vocabulário ou as pessoas que votam nele. Mas não podem apagar sua importância histórica. Essa parte já aconteceu. Um menino nascido na pobreza em Pernambuco entrou para a história brasileira pelas portas de uma fábrica e chegou à Presidência da República. Qualquer que seja a opinião sobre Lula, essa trajetória pertence definitivamente à história do país. (...) Eu não voto em Lula porque acredito que ele salvará o Brasil. Eu voto nele porque sei qual Brasil me recuso a entregar. Isso basta. E talvez, depois de tantos anos, sempre tenha bastado".
É dentro desse Brasil que eu compreendo Lula. Não como santo. Não como líder infalível. E certamente não como alguém que deva estar acima de críticas. Eu o compreendo como ruptura. Um migrante pobre de Pernambuco não deveria, segundo a velha lógica brasileira, tornar-se a figura política central do país. Um metalúrgico sem o pedigree tradicionalmente exigido pelo poder não deveria sentar-se diante de presidentes, monarcas, banqueiros e diplomatas falando como igual. As pessoas historicamente confinadas às margens da representação política brasileira não deveriam reconhecer a si mesmas na Presidência da República. Mas isso aconteceu. E alterou para sempre a geografia simbólica do poder no Brasil. (...) Minha relação com a esquerda brasileira nunca dependeu de carteirinha, devoção ou obediência. Eu discordo de partidos, governos, dirigentes e estratégias. Não preciso de santos políticos. Uma democracia saudável deveria tornar santos desnecessários. Mas preciso saber de que lado da disputa histórica estou. Em 2026, essa disputa é muito maior do que Lula. O Brasil está decidindo se democracia é apenas o procedimento pelo qual governos são eleitos ou se também carrega obrigações com dignidade, inclusão social, soberania e cidadania plena. Está decidindo se derrota política deve ser processada pelas instituições ou respondida com fantasias de ruptura. Está decidindo se o país se entende como permanentemente subordinado aos interesses estratégicos de potências mais fortes ou como uma nação com direito de perseguir seus próprios interesses, alianças e escolhas diplomáticas. E está decidindo se os recursos extraordinários do Brasil - ambientais, agrícolas, minerais, energéticos, culturais e humanos - continuarão produzindo um país rico habitado por milhões de pessoas que jamais experimentam essa riqueza como algo que também lhes pertence. E aí que Lula importa para mim hoje. (...) Ele importa porque, no cenário político que existe agora, ocupa uma interseção histórica particular: democracia contra restauração autoritária; inclusão social contra a naturalização da exclusão; soberania contra submissão; e a própria política contra a ideia de que o poder pertence naturalmente a uma casta permanente. Há ainda algo que seus adversários nunca conseguiram compreender completamente. Podem odiar Lula. Podem atacá-lo, investigá-lo, prendê-lo, ridicularizar sua escolaridade, seu sotaque, sua origem, seu vocabulário ou as pessoas que votam nele. Mas não podem apagar sua importância histórica. Essa parte já aconteceu. Um menino nascido na pobreza em Pernambuco entrou para a história brasileira pelas portas de uma fábrica e chegou à Presidência da República. Qualquer que seja a opinião sobre Lula, essa trajetória pertence definitivamente à história do país. (...) Eu não voto em Lula porque acredito que ele salvará o Brasil. Eu voto nele porque sei qual Brasil me recuso a entregar. Isso basta. E talvez, depois de tantos anos, sempre tenha bastado".











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