Isso tudo que vou aqui escrever não é nenhuma divagação a respeito do que foi os tais "anos 60", mas pura constatação: foram imensamente melhores e mais produtivos - dentro da perspectiva do ser humano - do que este trister momento, onde mesmo com todos os avanços tecnológicos, estamos perdendo de goleada para tudo o que nos foi possibilitado algumas décadas atrás.
Eu já tinha plena consciência disso, mas confirmei novamente ao reler - havia lido inicialmente há uns dez anos atrás - um livrinho com exatas 120 páginas, o "ANOS 60", autoria do jornalista LUIZ CARLOS MACIEL, editora L&PM RS, 2ª edição, 1987. Maciel foi praticamente quem sintonizou o Brasil com o universo underground dos anos 60, com os seus artigos semanais para o jornal carioca Pasquim e neste livro, que a gente senta e lê de uma só golfada, pois ele sintetiza tudo o que ali foi possibilitado e ele, felizmente, viveu com profunda intensidade. Ele mesmo denomina aqueles dez anos como a "DÉCADA DO AGITO" e o faz acertadamente. Os motivos são muito evidentes e todos expostos assim, como uma lavada na cara de quem está contente com os tempos atuais.
Também denominados como "LOUCOS ANOS", tudo por causa de sua sucessão de fatores. Cito alguns: Panteras Negras, LSD, hippies, líderes estudantis, estrelas do rock, gurus, pacifistas, visionáriosm profetas lisérgicos, eis alguns dos protagonistas da explosiva década. Não foi pouca coisa tudo o proporcionado ao mundo em tão pouco tempo, tanto que, lê-se muito pela aí, de forma correta, que o mundo nunca mais voltaria a ser o mesmo. "Foi nos 60 que praticamente nasceram os movimentos ecológicos e pacifistas, que se criaram as comunidades rurais, se descobriram - para nós, pois elas já existiam a zilhões de anos - as religiões milenares do Oriente, se deflagrou a revolução sexual, que se mergulhou na experiência alucinógena. Todo este universo colorido e movimentado é analisado agora por um dos seus maiores protagonistas, sintonizando a juventude brasileira da época com o underground internacional", colo da orelha do livro.
Tentem fazer como o faço neste momento uma viagem no tempo, analisando tudo o que estarei relatando a seguir e depois me digam com a máxima sinceridade, se não dá um bruta saudade de tudo aquilo, mesmo eu, tendo agora 66 e no nascido em 1960, chegando ao final da década com meros 10 anos, mas desfrutando na sequência, quando comecei a enxergar e sacar as coisas deste mundo, como fomos nos acaretando e perdendo muito de uma alcançada essência, um modo de viver e de encarar tudo o mais, sem a sisudez e a babaquice de misturar a vida com baboseiras como leis de mercado e essa idiotice apregoada logo a seguir como modus operandi, "deus, pátria, família". Ou seja, chegamos lá e regredimos, voltamos para trás. Não escrevo mais nada, mas nas frases aqui selecionadas do livro, uma amostragem do que tivemos e tentem comparar com o que temos:
- "Aconteceram coisas demais, nos 60. (...) Queríamos mudar o mundo, era a nossa questão básica; mais: tínhamos a certeza de isso ia acontecer".
- "Às vezes, fico chocado ao perceber que as gerações mais recentes não mostram a mesma disposição para a transformação, em qualquer de seus níveis, preferindo a inércia conformista e deixando que os 60 ganhem, cada vez mais, a aura de ter sido a década da rebeldia parr excellence".
- "Percebemos, nos anos 60, que nossa educação havia sido uma distorção; nossa formação, um prócesso mórbido, uma deformação. Na verdade, ir em cana, nos 60, era uma das melhores maneiras de crescer como ser humano, evoluir espiritualmente".
- "O homem político abraça uma ideologia, elege uma política, e descansa. A cabeça dele fica preguiçosa. Mas há alternativa. Esta é uma ideia tântrica: fazer, deste jogo mentiroso que é a política, uma caminho de libertação".
- "Quanto mais a televisão, os jornais, os colegas e os vizinhos falavam mal de Cuba, mais indignado com o imperialismo ianque e mais convencido eu ficava de que o socialismo era a via de libertação dos povos latino-americanos".
- "Para os cânones conformistas, a contestação e o protesto seriam manisfestações mórbidas de desajustamento. (...) ...a luta prioritária, no interior de uma sociedade conformista, é em defesa do direito de discordar".
- "Por definição, careta é o homem que não é livre, não assume a responsabilidade da própria existência e prefere deixar-se conduzir com o resto da manada. Ele obedece, sem questionar, as regras que lhe são impostas. (...) ...a passividade, a apatia, a complacência e o conformismo. Estas sãos as condições e, simultaneamente, as consequências da automatização".
- "A pedra angular do existencialismo era a redical liberdade da existência humana".
- "Queríamos que o povo tomasse consciência e que a justiça triunfasse - objetivos desaparecidos do panorama contemporâneo -, mas não admitíamos o dogmatismo estreito, o sectarismo cego, a burrice".
- "Uma cidade foi o símbolo dos saltos qualitativos operados nos costumes, no lazer, no comportamento, nas artes populares, durante a década de 60. Refiro-me naturalmente a Londres, a swinging city daqueles anos pródigos em novidades".
- "Havia necessidade vital por liberdade. Quer dizer: era o oposto do que acontece hoje, quando a desução conformista começa a parecer irressistível. (...) A transmutação dos valores foi resumida, pelos mass media, na célebre tríade: sexo, drogas e rock'n'roll. Cada uma dessas áreas assinalou um rompimento radical com o passado e, mesmo, com o futuro".
- "Lembrar os 60 pode ser mais do que um mero saudisismo: pode ajudar a tomada de consciência de uma decadência que parece historicamente inevitável, mas que não é metafisicamente necessária".
- "Se o square norte-americano procurava a felicidade injetando dólares na sua conta bancária, por que não haveriam os jovens rebeldes de procurar a felicidade injetando drogas na corrente sanguínea? (...) Onde não existiam outras formas de ser radical, a ventura interior do transe do LSD era a possibilidade do protesto. (...) ...transformando o LSD em mais uma bandeira dos jovens rebeldes para agredir as instituições do establishment norte-americano".
- "Essa tentativa de dissolver a diferença ideológica entre esquerda e direita é uma tática típicado pensamento reacionário. (...) Nenhuma paciência resistirá à espera por um pensamento de direita criador ou revelador".
- "As manifestações de 68 na França demonstraram que as entidades organizadas não detêm o monopólio da iniciativa de ação política. (...) ...o protesto não pode ser subordinado às estratégias definidas de determinadas organizações; pelo contrário, ele é a expressão direta do interesse público".
- "O rompimento das cadeias ideológicas permitiu o florescimento de uma nova visão política que proibia proibir e colocava a imaginação no poder. (...) A guerra entre ELES e NÓS será decidida pelos que têm hoje sete anos de idade. Eles oferecem responsabilidade, medo, puritanismo, repressão. Nós oferecemos sexo, drogas, rebelião, heroísmo e fraternidade".
- "Ou você está do lado da polícia ou do lado dos seres humanos".
- "Se algo, então, mudou radicalmente em minha vida, devo-o em várias coisas, e Jimi Hendrix foi, sem dúvida, uma delas. (...) Os jovens universitários americanos deixaram a barba crescer, compraram um violão e cantavam folk songs. Bob Dylan foi o produto dessa mudança de condições e a agitações políticas em praticamente todo campus universitário. (...) Pode-se dizer que apenas dez pessoas - Dylan, os quatro Beatles e os cinco Stones -, nos dois lados do Atlântico, iniciaram uma verdadeira revolução cultural".
- "A grande lição que se tentou aprender, nos anos 60, foi a liberdade. (...) A possibilidade de uma alternativa eficiente, que era a intenção nos 60, foi perdida. (...) Nos anos 60, chegou-se perto da verdade básica que é a única religião que pode ser considerada autêntica é aquela que cada um cria para si próprio. As instituições religiosas desvituram o seu propósito original; as igrejas organizadas são a própria negação dosentimento religioso vivo".
- "Os 60 foram os asnos da invenção, da criação original. É por isso, por exemplo, que dizer vanguarda dos 70, ou 80, soa mal: a vanguarda é dos 60. As conquistas dos 60 são oficializadas e viraram moda, abençoadas pelo sistema. Todo mundo se droga; todo mundo curte rock; todo mundo é m´sitico; o mundo aparentemente mudou e a revolução venceu, isto é, acabou. (...) Os 70 foram chamados de a Década do Ego. Os 80 são os anos da diluição. O gesto libertário perdeu o sentido; a busca acabou; o caminho está fechado. As instituições, velhas ou novas, mostram-se fortalecidas. Voltamos ao que havia antes dos 60, só que pior. (...) O confirmismo é normal; a moda é ser careta. O indivíduo desaparece; nascem os robôs. A vitória do sistema só não é total porque sua natureza é ilusória".
É pra ter ou não muita saudade de tudo o que representou os tais ANOS 60?

Nenhum comentário:
Postar um comentário