domingo, 9 de dezembro de 2007

UMA MÚSICA (11)


O PIB DA PIB (PROSTITUIR) - TOM ZÉ

Quem passou por Bauru semana passada, num daqueles shows imperdíveis foi o nosso grande mestre, Tom Zé, 72 anos e saracoteando como um moleque (e não é?). Fez o show de abertura do Encontro AntiManicomial e voltou à cidade após 10 anos de ausência. Quem esteve por lá fez questão de dizer: Melhor impossível. Tenho pouca coisa dele no meu mafuá e reproduzo aqui algo que cantou no show, "O PIB da PIB (Prostituir)", dele, do Sérgio Molina e do Alê Siqueira, que está no CD "Jogos de Armar - Faça você mesmo", da Trama. Vejam a letra:
Catorze, catorze anos, / Doze anos, doze anos
A Prostituição Infantil Barata /É a criança coitadinha do Nordeste /Colaborando com o Produto Interno Bruto /E esse produto enterra bruto.

Que dor, que dor / Que seja a bandeira /Oi, essa quebradeira /Osquindô - lalá

Catorze, catorze anos, /Doze anos, doze anos


Imagine um gringo daquele tamanho /Em cima da crinaça pobre nordestina, /Sufocada, magricela, seca, pequenina, /Ah, Nossa Senhora minha

O PIB da PIB que pimba no seco /Pimba no molhado /Pimba no seco saco seco /Peixe badesco na filha dos outros é refresco

Ô Senhora, Mãe Senhora,

Nessa hora olha pra tua menina, Senhora


O governo acha que se ela pega /Uma aidisinha não é nada, nada /Passa na vizinha, vai na rezadeira /Pede à benzedeira chá de aroeira /Que esse Produto Interno Bruto /Justifica tudo.


A grana da Europa que bate na porta /Doutor pouco se importa se ela seja porca /Vêm o godo, o visigodo, o germano, o bretão /Eita, globarbarização


O diabo zela a politipanela /Quando acende a vela /Reza Ave-Maria todo o dia /Esse capeta pelo rabo /Soque esse diabo

Que dor, que dor / Que suja a bandeira / Oi, essa quebradeira /Oisquindô - lalá.

sábado, 8 de dezembro de 2007

UM COMENTÁRIO QUALQUER (5)

John Lennon, um comunista

Recebi esse texto abaixo do meu grande amigo Marcos Paulo sobre os 27 anos da morte do músico inglês. Ele, na qualidade de grande admirador, fez uma ampla pesquisa que vale a pena ser publicada. Abaixo reproduzo o texto enviado por ele. Avaliem se o que diz tem ou não razão:


Neste dia 8 de dezembro completa 27 anos da morte de John Lennon. John para mim sempre foi e será, não só um grande músico como também um grande líder revolucionário.

John não só ajudou na revolução musical como também chamou as pessoas a mudarem os padrões da vida capitalista, ele foi o despertar de uma geração e continua até hoje.

Durante um bom tempo nas minhas pesquisas como um grande fã de Lennon, tentei buscar várias mostras na vida de John para confirmar ás pessoas de que ele era um comunista.

John nunca declarou abertamente, mas a sombra marxista que rondava o beatle foi o principal motivo da CIA persegui-lo. John nutria grande amizade com o comunista e escritor Tariq Ali, incluse mandou dinheiro várias vezes para Tariq poder fazer seus livros e outros projetos comunistas.

Hoje a CIA desconversa sobre o assunto, pois com John morto não vai querer atrapalhar a vida dos capitalistas de hoje que ganham rios de dinheiro com a imagem de John. Dinheiro que nunca esteve em primeiro lugar em sua carreira, e sim a música e as pessoas.

Quero mostrar o John, o verdadeiro John que a mídia tratou de esconder, o John revolucionário e não esse que vendem para os fãs de merda de hoje em dia, jovens que escutam sua música sem saber do real legado que ele nos deixou, muitos talvez até deixem de admirá-lo se souberem disso, claro, devido a classe á que pertencem.

Passo um resumo de pontos importantes de John, o beatle vermelho, pontos que a grande mídia prefere deixar longe. Em 1971, após a separação dos Beatles e em meio ao clima de radicalização da esquerda, John Lennon e Yoko Ono concederam uma histórica entrevista a Robin Blackburn e Tariq Ali, publicada em Red Mole (Toupeira Vermelha), aliás tive que remover céu e terra para conseguir o Red Mole e ainda traduzí-lo. A entrevista é memorável por registrar como Lennon elabora em uma mesma narrativa a sua origem de classe, a emancipação dos traumas de uma infância de abandono através da análise, a superação dos anos de droga e busca de culturas místicas, o encontro com Yoko que lhe abriu a perspectiva feminista, a inspiração em Marx e a imaginação socialista e revolucionária. A seguir, registro alguns trechos marcantes da entrevista:


“Eles me criticaram por cantar 'Poder para o Povo', dizendo que nenhuma facção pode deter o poder. Bobagem. O povo não é uma facção. Povo significa todas as pessoas. Penso que cada um deveria possuir tudo de forma igualitária e que o povo deveria ser também proprietário das fábricas e ter participação na escolha de quem as dirige e o que deve ser produzido. Estudantes deveriam ter o direito de escolher seus professores.”

“A canção Imagine, que diz, 'Imagine que não há mais religião, não mais países, não mais política...' é virtualmente o Manifesto Comunista... Hoje Imagine é um grande sucesso em quase todo lugar – uma canção anti-religiosa, anti-convencional, anti-capitalista, mas porque ela é suave é aceita.”

“Eu gosto disso (que os grevistas cantem 'Todos nós vivemos com pão e margarina' no ritmo da canção Yellow Submarine). E gostava quando torcidas de futebol nos estádios cantavam All Together now (Todos juntos agora). Sinto muita alegria quando o movimento na América canta Give peace a chance (Dê uma chance para a paz) porque compus esta canção pensando nisso. A minha expectativa é que ao invés de cantar We shall overcome (Nós conquistaremos), do século XIX, tivéssemos algo mais contemporâneo. Senti uma obrigação de compor uma canção que pudesse ser cantada nos bares ou em manifestações. Por isso gosto de compor atualmente canções para a revolução”.

“Quando comecei, rock and roll em si mesmo era uma revolução para pessoas da minha situação e idade. Precisávamos alguma coisa alta e clara para quebrar toda a insensibilidade e repressão que nos acompanharam desde quando éramos crianças. Tínhamos consciência de que começamos imitando a música dos americanos. Mas pesquisamos e descobrimos que ela era metade branca e ocidental e metade blues e ritmos negros. Muitas das canções vieram da Europa e da África e agora estavam voltando para nós. Algumas das melhores canções de Bob Dylan vieram da Escócia, Irlanda ou Inglaterra. Embora deva dizer que as canções mais interessantes para mim eram as dos negros porque elas eram mais simples. Elas falavam diretamente em mexer o seu traseiro ou o seu pau, o que era realmente uma novidade. E haviam também canções rurais que expressavam o sofrimento que eles viviam. Não podiam se expressar de forma intelectual e tiveram que cantar em poucas palavras o que estava ocorrendo com eles. E tinham os blues das cidades, muitos deles sobre sexo e luta. Muitos eram uma forma de auto-expressão mas apenas nos últimos anos eles se expressaram plenamente com o Black Power, como Edwin Star e seus discos de luta. Antes disso muitos cantores negros estavam ainda envolvidos com a problemática de Deus; com muita freqüência cantavam 'Deus vai nos salvar'. Mas os negros estavam cantando direta e imediatamente sobre seu sofrimento e também sobre sexo. Era o que eu mais gostava.”



“Parece que todas as revoluções terminam com o culto à personalidade – mesmo os chineses parecem precisar de um grande-pai. Penso que isto ocorre em Cuba também, com Che e Fidel... ”



“Após a revolução, você tem o desafio de manter as coisas em movimento, selecionando entre diferentes visões. É bastante natural que os revolucionários tenham diferentes soluções, que eles se dividam em diferentes grupos, é a dialética, não é – mas ao mesmo tempo eles precisam estar unidos contra o inimigo, para solidificar uma nova ordem. Não sei qual a resposta; obviamente Mao tem consciência deste problema e mantém as coisas em movimento.”
“E as mulheres também são muito importantes, não podemos ter uma revolução que não envolva e emancipe as mulheres. É sutil como se fala da superioridade masculina. Levou algum tempo para que eu compreendesse que o meu machismo estava cerceando certas áreas para Yoko. Ela é uma socialista radicalmente libertária ('red hot liberationist') e logo me fez notar como eu estava errado, mesmo quando parecia para mim agir naturalmente. Estou sempre interessado em saber como pessoas que se dizem radicais tratam as mulheres.”
“(Para destruir o capitalismo na Inglaterra), penso que o único caminho é tornar os operários conscientes da sua sofrida posição a que estão submetidos, dos sonhos que os cercam. Pensam que estão em um maravilhoso país da liberdade expressão. Compram carros e televisões e acham que não há nada mais na vida. Estão condicionados a deixarem os patrões mandarem, a verem seus filhos massacrados nas escolas. Estão sonhando o sonho de outros, não é um sonho autêntico deles. Devem compreender que os irlandeses e os negros estão sendo reprimidos e que eles serão os próximos. Tão logo eles tomem consciência de tudo isso, podemos começar a fazer algo. Os trabalhadores têm de começar a assumir. Como Marx disse: 'Para cada um segundo sua necessidade'. Penso que isto seria muito adequado aqui. Mas teríamos que infiltrar nas Forças Armadas porque eles estão bem treinados para nos matar a todos. Temos de começar tudo isso a partir de onde nós próprios estamos sendo oprimidos. A idéia não é confortar as pessoas, não fazer elas se sentirem melhor mas conscientes do péssimo estado em que estão, constantemente fazer com que encarem as degradações e humilhações a que estão submetidos para ter o que chamam de um salário capaz de cobrir o custo de vida.”

Em tempo: A foto da estátua do John Lennon está localizada em Havana, Cuba. Por que Fidel faria uma homenagem para esse músico se não tivesse certeza de que ele era de fato comunista? Faz grande sentido...

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

MEMÓRIA ORAL (14)

UMA UNIÃO QUE VIROU UMA LINDA EXPOSIÇÃO
Artistas e artesãos, uma união que deu a maior liga, tanto que acabou virando uma exposição no Museu Histórico Municipal de Bauru, inaugurada no último dia 30/11, sexta. A história dessa junção aconteceu meio que por acaso. A idéia de final de ano era fazer uma exposição reunindo alguns presépios da cidade, logo descartada, pois se constatou que, muitas paróquias católicas ainda estariam montando os seus na cidade e não haveria como o museu fazer concorrência nesse campo. A opção sugerida para preencher o espaço vago no final do ano, foi logo comprada pelos dois chefes dos museus municipais, Paulo Folcatto e Valter Ferreira Júnior, quando lhes lancei a pergunta: "Por que não fazer algo envolvendo os artesões e artistas da cidade, mostrando que também são fazedores de história?" Não precisou muito e todos estavam à campo, em busca dos tais personagens que adentrariam o espaço público com suas obras. Folcatto entrou em férias e foi substituído por Jaime Luzia na tarefa de ir contatando e coletando material.

Não demorou muito e tínhamos em mão uma vasta relação com nomes e mais nomes. O espanto foi geral e logo na primeira reunião coletiva, nomes tiveram que ser descartados, pois o espaço oferecido não era dos maiores. Valter bateu o martelo com os nomes do artesão Chico Cardoso, da fotógrafa Francineide e do desenhista Marivaldo. Jaime Luzia contatou a Fundação Ciro Simão, de Duartina e do artesão Nelson Justino. Acabei trazendo o nome do seu Perseguim, que já tinha uma peça exposta no museu, uma réplica da antiga Praça Rui Barbosa, tão logo vi seu trabalho exposto num projeto da Dalva Aleixo. O time estava completo.

A próxima etapa foi contatar a todos, batendo fotos e fazendo uma pequena entrevista, do qual algumas frases seriam colocadas em cartazes dentro do museu. Começa a via-sacra, de casa em casa. Dalva me leva até a casa do seu Ulisses Perseguim, 72 anos, aposentado da UNESP e criador de raridades em sucata de metal. Dele extraio algumas falas: "Aos 14 anos era torneiro mecânico, ajudando meu pai e surgiu daí esse negócio de manusear sucata e dela extrair peças valiosas. Trabalhei a vida toda na UNESP e certa feita fiz um peso de papéis diferenciado. Um professor achou lindo e ficou com a peça. Daí surgiram outras e mais outras. Não parei mais e os pedidos também. Montei o setor de Áudio-Visual da Universidade e lá tive possibilidade de praticar bastante. Hoje, tenho algumas peças em estantes famosas espalhadas por aí. Me orgulho muito do que faço e essa da antiga Praça Rui Barbosa, a original e mais bonita, é algo que toda vez que revejo fico emocionado".

Na entrevista seguinte vou só até a modesta casa do artesão em madeira, Nelson Justino, 57 anos, no Parque Vista Alegre. Trago as peças que relembram a cidade, como um ônibus urbano, uma ambulância e uma Maria Fumaça. Enquanto o fotografo, vai contando sua história: "Sempre fui pintor de automóveis, mas quando a firma fechou, parei e estou até hoje acertando minha aposentadoria. O artesanato é para me manter. Sou de Bauru e desde pequeno fui fuçado nessas coisas de artesanato em madeira. Fiz meu próprio maquinário, reaproveitando peças de carros e de tanquinhos. Na hora do apuro, eu mesmo faço tudo de improviso, como uma máquina de costura que acabou virando uma serra tico-tico e uma furadeira toda montada com peças de carro jogadas no ferro-velho. Gosto muito de fazer carros, ônibus e um que chamou muito a atenção foi feito com um sapato de mulher. Foi um dos que mais vendi".

De lá, segui direto para a casa do Chico Cardoso, 53 anos, no jardim Gasparini. Esse é nosso velho conhecido, pois expõe suas Marias Fumaças feitas em madeira no Museu Ferroviário. Quando chego, ele está terminando uma que pagaram para ele fazer de uma que circula em Paraguaçu Paulista. Fui registrando tudo, debaixo de um pé de acelora: "Sou aposentado da Noroeste do Brasil desde 1997 e em 2001 descobri, meio que por acaso esse negócio de artesanato. Meu pai havia sido carroceiro e vi diante de casa uma carroça linda, cismei e fiz uma igual. Aposentei muito cedo, aos 42 anos e tinha que dar um novo sentido à minha vida. Acabei descobrindo ser detalhista, gosto de peças assim, com portas abrindo, motor funcionando. Fiz a primeira Maria Fumaça de uma foto que tirei daquela lá no Bosque da Comunidade. Hoje, muitos me reconhecem como um artesão ligado à causa ferroviária, mas quem me conhece mesmo sabe que diversifico bastante. Não paro nunca".

Jaime me passou o telefone da Rima Móveis, lá de Duartina e pelo telefone entrevistei a secretária e o dono, Eduardo Simão Junior que, foi me explicando o sentido de haver juntado aquela meninada toda de sua cidade, para fazer trabalhos artesanais de madeira: "A Fundação é uma homenagem prestada a meu pai, fundador da Rima Moveis. Ele possibilitou isso tudo que somos hoje. A idéia da Fundação foi retribuirmos com algo de caráter social, para nossa cidade. Em dois anos, hoje temos aproximadamente 70 crianças, divididas em várias turmas, de ambos os sexos, algumas de instituições como a APAE, envolvidas em trabalhos manuais, ligados à mercenária. Nosso objetivo é retirar os menores das ruas, propiciando uma ocupação para eles, um incentivo para serem alguém na vida. O material é todo fornecido pela Rima e eles recebem um acompanhamento técnico e educacional. Temos formado verdadeiros artistas".
Francineide de Almeida, 35 anos, passou pelo Museu, tiramos as fotos ao lado das suas fotos feitas nos pátios ferroviários da cidade, quando contou um pouco de sua trajetória: "A fotografia eu descobri muito cedo em minha vida. Fotografava tudo em casa. Ingressei na faculdade em 1994, ampliando meus conhecimentos em pintura, aquarela, desenho, gravura, escultura, modelagem, fotografia, dentre outras. Fiz de tudo um pouco no campo artístico, porém, inclinei-me para o ramo da fotografia, buscando participar de cursos específicos. Meu objetivo é mostrar imagens diversas das pessoas, locais e objetos".

Na casa do desenhista, um verdadeiro artista de rua, o Marivaldo Pinheiro de Oliveira, 36 anos, enquanto empilha um monte de obras feitas em grafite e mostra muitos recortes de jornais, vai contando sua vida: "Comecei muito pequeno lá na Barra Bonita. Cheguei a fazer por lá uma exposição com mil peças minhas dentro do Ginásio de Esportes. Não fui valorizado e há quatro anos estou em Bauru, pintando pelas ruas. Meu primeiro trabalho aqui foi o dos prédios comerciais, feito em grafite. Fiz 45 telas e vendi a metade. Vivo da minha arte, sendo a caricatura e o retrato pessoal o que mais tem saída. O pessoal me conhece como desenhista, mas me considero um verdadeiro artista. Hoje, estou terminando 15 telas em ocre, todas retratando a ferrovia em momentos diferentes. Paro na rua, instalo o cavalete e junto ao povo, com muita gente ao meu lado, faço minha arte".

Ufa! Os depoimentos estavam todos gravados, faltando o texto introdutório de apresentação da Exposição, que acabou sendo feito a toque de caixa, quase no mesmo momento em que o material estava sendo levado para a gráfica. O nome também saiu com sugestões vindo de todos os lados e acabou ficando: "Artesãos e Artistas: História e Arte". Já o texto ficou dessa forma: "Nada melhor do que a união de artistas e artesãos de uma cidade. Afinal, qual a linha que diferencia o trabalho de um e de outro? A artesão não deixa de ser um artista e vice-versa. Dentro dessa linha limítrofe, todos produzem arte, cada um a seu modo e dentro de cada especificidade particular. Além disso, todos estão inseridos no dia-a-dia de sua aldeia e, dessa forma, também produzem história. O trabalho de cada um tem muito da história do local onde vivem. Essa exposição resgata um pouco disso: a arte de cada um e o envolvimento com a história de sua cidade. Isso pode ser conferido na visão de seis artistas e artesãos, numa miscelânea bem particular e que só faz sentido se formos tentar interligar a arte de cada um, com a visão que cada um tem da sua e da história à sua volta. Para entender como cada um vê essa cidade, só mesmo visitando essa exposição. Vale a pena conferir isso tudo!".

E tudo pode ser conferido com uma bela abertura, onde todos eles lá estiveram, conversaram entre si, se deixaram fotografar e receberam a justa homenagem. Estampado na fisionomia de todos os envolvidos com essa realização, algo bem peculiar de que, nas pequenas coisas pode-se extrair essências maravilhosas. Essa foi uma delas e diante da casa cheia, com uns 100 alunos da EE Madureira circulando por todos os lados, deu para sentir o quanto é importante retratar e oferecer espaço para todo tipo de arte. Tanto que, já se fala na continuidade dessa exposição, com outros nomes, alguns deles até já sugeridos.

LEGENDA DAS FOTOS:
O cartaz da abertura da exposição.
Francineide e seu Perseguim nos corredores da mostra.
Jaime Luzia e a estante da Fundação Ciro Simão.
Nelson Justino conferindo sua peça exposta.
O autor dessas linhas e Chico Cardoso num bate-papo.
Marivaldo posando para uma foto.
Todos eles junto do secretário Vinagre.
OMuseu cheio de alunos da EE Madureira.
Obs.: as fotos são todas do Jaime Luzia.

Henrique Perazzi de Aquino – escrito em 03/12/2007
RETRATOS DE BAURU (2)


CIDMAR, O PANTANEGRO

Esse senhor é um grande batalhador. Conheço sua luta diária desde que resolveu fixar residência aqui em Bauru, depois de circular e fazer fama em todos os Mato Grossos. Foi de uto um pouco na vida, mas o que mais gosta de fazer e tocar sua viola e compor suas músicas. É daquelas raras pessoas que, se você der um tema para ele, em questão de uma hora ou pouco mais está diante de uma letra e música. Se emociona com coisas simples e de tudo tira o tema para compor suas canções. Quando Tim Lopes morreu, fez algo para ele; quando o radialista Valter Neto se foi, o homenageou com algo muito belo; fez o mesmo com Airton Sena. Cantou o Pantanal de todas as formas e dia desses foi cantar para as crianças no Museu Ferroviário. Não me sai da memória o CD que fez em homenagem e para que o projeto Formiguinha, lá da Pousada da Esperança levantasse fundos para o serviço assistencial que prestam. Faz isso sempre e não recebe quase nada em troca. Canta e encanta por onde passa. Da última vez, estava no palco do Teatro Municipal no Umbanda Fest, cantando músicas sobre o sincretismo religioso. Uma pessoa boníssima, que espera, como todos nós, uma espécie de reconhecimento, pois ningupe, vive de brisa. Cidmar é reconhecido por onde passa e merece muito mais do que lhe é dado. Embarque nesse trem junto com Cidmar, um cancioneiro de verdade.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

UMA DICA (10)

DIA DO SAMBA NO BUTECO DO EDU


Ontem, dia 02/12 foi um dia, daqueles que acordei radiante. Achava que podia ser o dia VERMELHO, pois tinha eleição no PT e meu grande amigo Jorginho estava concorrendo ao Diretório Municipal de Bauru, PERDEU. Na parte da tarde, ainda tinha alguma chance de que meu Corínthias não caísse para a Segunda Divisão, CAIU e nem o vermelho Internacional fez a sua parte. Por fim, Chávez, que tinha como vitória mais do certa no referendo, me faz perder definitivamente o sono, pois também foi DERROTADO.

Depois de tudo isso, pelo menos algo para livrar a cara desse domingo de mau agouro: Foi o Dia do Samba, algo genuinamente nacional, tombado como patrimônio imaterial. Sou vidrado em samba e nada como colocar algum na vitrolinha para tentar esfriar a cabeça depois de três traulitadas seguidas. É o que faço e para marcar a data com uma boa diaca para todos, dou uma bela dica para todos os que gostam e frequentam samba carioca e buteco (com u mesmo). Conheci meses atrás um blog de um carioca muito gente fina, o Eduardo Goldenberg, o Buteco do Edu (http://www.butecodoedu.blogspot.com/), onde o que rola por lá é samba de primeira, fotos de muita roda de samba e uma conversa das mais agradéveis. Além de tudo, o cara é amigo de um grande amigo meu lá no Rio, o Rodrigo, dono da Livraria Folha Seca, lá na rua do Ouvidro nº 37, no centro velho, num lugar onde o que rola adoidado é samba de primeira, aliado a livros com temática da cidade maravilhosa e futebol, a especialidade da casa. Quem gosta de samba adentre esse buteco e depois me diga o que achou.
Olhem só a qualidade das três fotos aqui publicadas, retiradas de lá, num samba que rolou na ilha de Paquetá, contando até com a ilustríssima Cristina Buarque de Hollanda. Para esquecer certas agruras da vida, nada como navegar nesses espaços inteligentes e ouvir um bom samba.

sábado, 1 de dezembro de 2007

UMA MÚSICA (10)

Chico sempre frequentou esse mafuá, desde os tempos em que, ainda preservava certa organização. Um amigo, lá pelos meus 18 anos, disso não me esqueço, me vendo com uma fita cassete do Chico, fez questão de ressaltar que gostava dele, mas não de sua voz, que ele não cantava nada. Pois, sempre gostei dele, tanto como letrista, como cantando. Prefiro ainda mais como pessoa humana e sensível, do lado certo das coisas nesse nosso cruel mundo. Que música colocar dele aqui se todas eu ouço e gosto. Escolhi uma do último CD, o "Carioca", que por aqui, até as paredes já decoraram as letras, de tanto que as repito. Vejam se fiz uma boa escolha:

"ODE AOS RATOS", de Edu Lobo/Chico Buarque - 2001
Para o musical Cambaio, de Adriana e João Falcão

Rato de rua /Irrequieta criatura /Tribo em frenética proliferação /Lúbrico, libidinoso transeunte /Boca de estômago /Atrás do seu quinhão /Vão aos magotes /A dar com um pau /Levando o terror /Do parking ao living /Do shopping center ao léu /Do cano de esgoto /Pro topo do arranha-céu /Rato de rua /Aborígene do lodo /Fuça gelada /Couraça de sabão /Quase risonho /Profanador de tumba /Sobrevivente /À chacina e à lei do cão /Saqueador da metrópole /Tenaz roedor /De toda esperança /Estuporador da ilusão /Ó meu semelhante /Filho de Deus, meu irmão
FRASES DE UM LIVRO QUE LI (5)

"DIÁRIO SELVAGEM" - CARLINHOS OLIVEIRA - edit. Civilização Brasileira RJ, 2005


Carlinhos Oliveira é um jornalista que aprendi a gostar pelas páginas do Jornal do Brasil, ainda nos anos 70/80, quando comprava o jornal na banca da antiga estação rodoviária/ferroviária de Bauru. Só lá encontrava o JB e esse colunista frequentava mais famosa página cultural dentre os jornalões. Seu estilo ácido e contundente, sempre muito bem antenado e cheio de problemas mil, me fazia colecionar seus textos. Em 2005 foram relançados uns três livros dele, todos organizados pelo Jason Tércio. Comprei um só, o Diário Selvagem, onde ele destilou e abriu seu baú de preciosidades. Viajei maravilhosamente pelas páginas do livrão (um catatau de 520 páginas) e dentre as preciosidades algo que muito nos interessa. Logo no começo do diário, ele adoentado vem passar uns dias numa fazenda em Lençóis Paulista, isso em 1971. Aproveitou e veio passar uns dias aqui em Bauru e o que achou dessa cidade e do seu povo é algo que merece ser lido. Carlinhos não perdoa o que vê:
"No Bauru Atlético Clube vi a sociedade local - velhos, adolescentes, e crianças dos dois sexos, todos tremendamente feios e desgraciosos. Só se salvam as japonesinhas. Aqui a única referência é dinheiro e nome de família; para alcançar a beleza esse povo deveria apresentar melhores condições físicas e espirituais. As crianças miseráveis estão em toda parte. Prostituição e mendicância. Os ricos me parecem roídos de remorsos, mas são todos por demais egoístas e mesquinhos. Uma sociedade porcina."

Abaixo mais frases, todas bem so seu estilo:


“Deus é caçador, pratica a caça-ao-pombo. Os pombos somos nós, artistas, quando atingimos a maturidade e, antes de iniciar nossa revoada, somos abatidos em pleno vôo” (18 de março de 1976)


“Inclino-me a escrever logo a história do seqüestro do embaixador. Merda! Neste diário só digo o que vou fazer, enquanto isso não faço nada. Fernando Sabino dá entrevista despedindo-se da literatura. Ainda bem. Sem angústia, isso é mau. A hipocrisia mineira me fascina” (29 de novembro de 1976)


“Difícil nesta altura recuperar minha personalidade silenciosa: já me cristalizaram brincalhão, palhaço, e por causa disso ando a perder mulheres. Merda. Sou dois ou três? Ou ninguém? Ah!” (30 de novembro de 1976)


“Um punhal pode passar gerações inteiras servindo para cortar páginas dos livros, numa atividade inofensiva e solitária. Só quando a mão de um assassino o empunha é que o punhal se torna sanguinário” (06 de janeiro de 1978)


“Saúde péssima. A doença bloqueia a imaginação” (26 de fevereiro de 1986)


Prometo publicar aqui, qualquer dia desses, um compêndio, com umas 50 frases retiradas deste e de outros livros dele. Agoras, o que vaticinou de Bauru é algo que, só quem é de fora mesmo tem a coragem e a ousadia de fazê-lo. Mauro Rasi fez isso com muita competência e por isso era odiado por muitos.