sábado, 7 de fevereiro de 2009

COLUNA DO JORNAL BOM DIA (07), ALFINETADA (47) E UMA MORTE

Hoje, junto tudo num só post. Meu texto para o Bom Dia é quase idêntico ao d’O Alfinete (esse saiu um pouco maior), ambos publicados hoje. Já escrevi aqui sobre a morte de Roberto Godoy, depois de dona Jandira e hoje escrevo alguma coisa sobre o arquiteto Jurandyr Bueno Filho. Após o texto dos jornais, meu registro para mais essa partida:

DESISTÊNCIAS E DESISTENTES
Escrever sobre as desistências feitas durante a vida é sempre muito doloroso. São mais freqüentes do que queremos (e necessitamos). Nessa semana mesmo, um amigo se suicidou. Cansado disso tudo, escolheu o caminho sem volta. Não mais poderá retomar e rever posições tomadas.

Na maioria das vezes não chegamos a extremos, circulamos nas imediações. Quantas vezes, cansados, não sentimos uma vontade irrefreável de dar um basta em tudo. Um amontoado de fatores, cada um a seu modo, freia esses impulsos.

Eu mesmo tenho um filho a criar e os pais sob meus cuidados. O barco precisa prosseguir seu curso. Seguro as pontas, revejo aqui, reconstruo ali, engulo sapos diários acolá. Continuo remando, mesmo com o mar revolto e jogando contra. Não temos escolha. É prosseguir e prosseguir.

Nessa semana outra desistência me foi também muito sentida. Nutro um carinho mais do que especial pelo jornalista Mino Carta e por tudo o que representa. Através do seu blog (
www.blogdomino.com.br) comunica o desalento e decide: “despeço-me deste blog e, por ora, calo-me em Carta Capital”. Fecha-se em copas.

Mino é um dos últimos em que ainda me arrisco colocar a mão no fogo. Faz um arrazoado de motivos: decepções com Lula, reeleição de Sarney e Temer, Gilmar Mendes, privilégios a Daniel Dantas, Battisti e o eterno Febeapá tupiniquim. O desalento também me acomete. Sabe aquela sensação de ingresso num beco sem saída, encurralado? Assim estou.

Henrique Perazzi de Aquino – professor de História
OBS. - Comentário pós-texto: São mais de 400 mensagens para Mino em seu blog. Uma grande perda, irreparável. São tão poucos os que ainda persistem na defesa do Brasil, na forma como também o faço, que qualquer perda é sentida profundamente. A imprensa perde muito. Mino é daqueles titulares absolutos em qualquer time e não existe peça de reposição no banco de reservas. Final de semana doloroso. Me tranco no mafuá e fico a ler, ler, ler...

JURANDYR, 66 ANOS
Não privei da amizade de Jurandyr. Nesses quatro últimos anos, quando estive à frente da Diretoria de Proteção do Patrimônio Cultural e presidindo o CODEPAC – Conselho de Defesa do Patrimônio Cultural acabei me aproximando de Jurandyr, que sempre esteve muito ligado nessas questões. Aprendemos a nos respeitar. Conversávamos com certa freqüência. Foi e fazia questão de assim o ser, polêmico por natureza. Sabia do seu valor e se impunha nos questionamentos. Convencê-lo de alguma coisa sempre foi algo muito difícil, mas isso era compensado por seu bom humor e inteligência. Nas discussões coletivas éramos obrigados a abrir um espaço ampliado para suas explanações, pois fazia questão de extrapolar. Era seu jeito, talvez um método. Gesticulava muito e se deixássemos, dominava tudo. Por ser quem era não havia como agir diferente com ele.

Quero lembrar aqui dois momentos onde o arquiteto esteve presente. No primeiro, o Museu Histórico Municipal possuia em seu acervo um mapa, todo em pergaminho, datado de 1924, um dos nossos mais ricos documentos. Imenso, estava guardado na reserva técnica do museu. Jurandyr estava na cola dele há anos, descobriu seu paradeiro e moveu céu e terra para colocá-lo num local de destaque. Cedi e o repassei para que providenciasse uma moldura adequada, conseguida com arrecadação junto a munícipes. Chegou a me mostrar os valores arrecadados. Fez o trabalho de higienização e moldura em São Paulo, trazendo-o diretamente para nosso teatro, onde o descarregamos juntos. Meses depois o prefeito Tuga autorizou sua fixação no hall de entrada do prédio da Prefeitura Municipal, onde está até hoje, imponente e embelezando o local.

No segundo, Jurandyr foi convidado pelo CODEPAC a comparecer numa de nossas reuniões ordinárias. Lá esteve e se o motivo era para falar dos planos e projetos para a Estação da NOB, ele foi muito além. Não se limitou a falar sentado, permaneceu em pé, circulando pelo auditório do Museu Ferroviário e naquele dia, com uma pauta ampliada, tivemos que adiar outras discussões. O convidado estendeu sua fala e quando terminou, nosso tempo estava praticamente exaurido. Naquele dia, diante de vários colegas do ramo, tanto arquitetos, como engenheiros, deu uma aula e foi ouvido com a devida atenção. Não conseguiu desembaralhar a questão da estação, sem solução até hoje, mas fazia questão de demonstrar sua opinião. O registro daquela reunião faz parte de uma longa Ata.

Certa feita me fez chegar às mãos um envelope timbrado do seu escritório com uma etiqueta estampada na frente, “Sr. Perazzi”, com vários documentos facilitadores para Bauru fazer parte do PRONAC – Programa Nacional de Apoio a Cultura, do PAC – Programa de Ação Cultural e até uma cópia do Estatuto da ALIC – Associação Lençoense de Incentivo à Cultura, onde, segundo ele, os recursos para construção de um teatro em Lençóis Paulista puderam chegar com mais facilidade. Ele queria muito que Bauru voltasse a receber recursos para viabilizar sua área cultural. E me instigava a ir à luta, me instrumentalizava para tanto.

Era o que tinha para falar dele. Nada mais. Hoje, ao ler nos jornais sobre sua morte, deixo registradas essas passagens. Gostar ou não de Jurandyr é outra coisa, para outro momento. Dele tenho outra grata recordação. Quando deixei o cargo, com a transmissão do governo municipal, além dos afagos dos amigos, ele me ligou pessoalmente e fez questão de externar sua tristeza. Receber esse afago, vindo dele, teve para mim um valor muito grande. No mais, a vida continua e vamos tratar de cuidar mais de nossa saúde, pois somos todos um tanto descuidados.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

CHARGES ESCOLHIDAS A DEDO (13)

75 ANOS DO ZIRALDO, EXPO BAURU NA GIBITECA
Os tais 75 anos do artista foram comemorados em 2007 e a feliz idéia de realizar uma ampla exposição comemorando a data redonda foi do cartunista mineiro Rico (http://ricostudio.blogspot.com/), que idealizou a idéia de convidar 75 cartunistas, cada um a seu modo desenhando algo sobre o mestre Zira. E assim foi feito. Fiquei sabendo da exposição quando estive ano passado em Paraguaçu Paulista visitando o Salão de Humor, criação do cartunista e arquiteto Denis Mendes ( http://www.salaodehumordeparaguacu.com.br/novo/) , também Secretário de Turismo da cidade. Um idealista que acabou levando a exposição para lá e também montou um passeio férreo turístico naquela estância. Quando bati os olhos naquilo, vislumbrei a possibilidade de trazê-la para Bauru. Denis gostou e ficou de falar com o Rico. Me colocou em contato e ele topou na hora. Passei tudo para o pessoal da Gibiteca de Bauru, o Nilson e o PH. Logo a seguir chega o CD com a reprodução de cada homenagem. Algo divinal. Tirei uma cópia para mim e deixei uma com a Gibiteca. Nesse começo de ano eles conseguiram montar a exposição. Pelos custos seria muito difícil reproduzir as 75 telas. Daí veio a idéia de uma TV ligada e as imagens irem passando lentamente. Estive por lá e gostei do que vi. Nem sei se ainda continua em exposição, mas valeu tanto pela homenagem ao Ziraldo e pela valorização do trabalho do traço, desenvolvida por esses dois abnegados que lá atuam. Quanto a Ziraldo não tenho nada a acrescentar, pois é um dos meus gurus, desde os áureos tempos d'O Pasquim. Continuo cercando o que publica por aí e seu traço é inconfundível. Fiquei muito contente de ter dado certo a exposição aqui por Bauru.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

DIÁRIO DE CUBA (22)

PASSEANDO PELOS TRILHOS FÉRREOS DE SANTA CLARA
Sexta, 14/03/2008, almoçamos algo rápido. Levo Marcos para conhecer as antigas edificações onde estive na noite anterior. Logo na entrada da Galeria Martí, Erick Lorenzo Vasquez nos recebe e assim vamos conhecer o “Fondo Cubano Bienes Culturales”. Ele estava acertando as luzes no salão, em cima de uma escada, desce e muito solícito vai explicando como funciona a Galeria. Acabamos comprando dois postais de obras de arte cubana, por 0,50 pesos cada. Acaba dando todas as dicas para chegarmos no “Museo Tren Blindado – Monumento Nacional”. E lá fomos.
Não foram mais que cinco quadras. É um museu a céu aberto, com alguns vagões expostos nas margens da linha férrea cortando a cidade de Santa Clara. Tudo foi montado exatamente no local onde Che Guevara havia descarrilado a composição enviada pelo ditador Batista para combater os guerrilheiros. Circular por todo o local sem qualquer custo é possível, mas para adentrar os vagões paga-se um peso. Num deles é reconstituído como viajavam os soldados de Batista e num outro, fotos, documentos, peças e registros do comandante Che e de outros revolucionários que participaram da ação cinematográfica. Emocionante. Num outro vagão, esse aberto, uma metralhadora giratória postada no local, demonstrando que Batista havia enviado um grupo bem armado. Só não contava com a astúcia de Che.
Viajei em pensamento para Bauru e vi grandes possibilidades de transformar nossos abandonados vagões em locais de exposição. Ao lado do museu, a linha férrea. Seguimos por ela até a estação ferroviária. Vivenciei ali grandes momentos, pois pude comparar a situação férrea cubana e a brasileira. Circulamos por muitas edificações e talvez por estarmos num horário logo após o almoço, ninguém a nos questionar. Na estação, o modesto hall de entrada, uma grande composição parada na estação e um túnel subterrâneo, para passagem das pessoas até a plataforma central. São três plataformas e em todas, vestígios de serem utilizadas. Muita gente na estação. Aproveitamos para tomar água num bebedouro público, usando as mãos em concha, como todo cubano.
Presenciamos alguns modelos diferentes de transporte férreo de passageiros e também um de carga, com containners de várias empresas estrangeiras, bem fixadas em cima de pranchas. O trem continua sendo em qualquer lugar do planeta um dos mais eficientes meios de transporte terrestre, pois, em primeiro lugar desafoga estradas. Em Cuba não é diferente. Na saída, como em todas as cidades pequenas, inclusive nas nossas, uma praça defronte a estação. Só não vi nenhum hotel, como na maioria das cidades do mundo. Voltamos caminhando pelas tranqüilas e pacatas ruas de Santa Clara. O movimento das ruas só aumenta quando nos aproximamos de um boulevard, com muitos estabelecimentos comerciais.
Como ninguém é de ferro, fomos descansar um pouco no hotel. Foi um tempo curto, pois o barulho proveniente da praça nos atraia novamente para a rua. A TV permaneceu ligada numa emissora cubana, onde assistimos o noticiário local. Estamos um tanto desligados dos acontecimentos do mundo. Do Brasil então, nem se fala. Abri internet a última vez na quarta e não sei quando irei faze-lo novamente, pois no interior o acesso é mais complicado. Não sinto falta e não queremos perder tempo com essas coisas. Só gostaria de manter mais contato com os de casa. O faço por telefone. Na lanchonete Burguecentro, andar superior, em mesas com quatro grandes azulejos como tampa e ampla visão para a praça rimos muito com nosso pedido: “dois hamburguesa de cerdo com queso jamón e dois tu-cola” (meu portunhol era um fisco). O senhor que nos atendeu enfatizava demais o “jamón e queso”, em altos brados, tanto que virou nosso bordão nos pedidos daí para frente. Gastamos treze pesos e cinqüenta. Não me esqueço, o lugar era rodeado por vasos com muitas espadas de São Jorge, iguaizinhas do Brasil.
Enquanto comíamos nosso lanche, uma grande movimentação estudantil agitava a praça. Tenho que contar tudo o que presenciei em detalhes, mas fica para o próximo relato.
OBS.: Os dias vividos em Cuba foram tão intensmente vividos que gostaria imensamente de publicar aqui todas as fotos tiradas lá. Faço uma verdadeira ginástica para selecionar as que saem e as que ficam. Por mim, todas são merecedoras de registro. Mas, pelo menos por enquanto, vou tendo que exercer a função de "censor". Uma pena!

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

UMA MÚSICA (40)

MISTER UP, SOUL BAURUENSE EM DOIS LOCAIS
Esses oito garotos rodam o mundo já faz um tempo, mas fui prestar atenção neles mesmo, depois da apresentação lá no Vitória Régia, na festa do aniversário da cidade, dia 01/08/2008. Eles abriram o show do Jair Rodrigues e fizeram um baita de um sucesso, tanto que o povão queria continuar ouvindo aquilo tudo por muito mais tempo. Parei tudo e fiquei seduzido pela qualidade do som e pelo suingue transpirado no palco. Desde então caço eles por aí. Fizeram um nome e nessa semana gravam o primeiro DVD, ao vivo, na sexta, no Santa Madalena. Não param por aí e no domingo, no projeto DescontraSom, do SESC, abrilhantam o local à partir das 16h. O evento de sexta é pago e o de domingo é grátis. Em ambos uma certeza, casa cheia.

O SESC aos domingos já virou ponto de encontro de música regional de qualidade comprovada. No último domingo foi o Salsaloka, nesse o Mister Up e no seguinte o Levanta Pó. Sem contar as noites de quarta, hoje, quarta, 04/02, o divinal Quinteto em Branco e Preto, no dia 11 a Uli Costa e o bando da Rua, no dia 18 a Susie Mathias e a Gafieira da Casa e no dia 25 um Concerto Carnavalesco. O que acontece por lá é tudo de bom. Os preços não existem, tudo grátis. Melhor que isso por aqui você não vai encontrar nada. Faço questão de bater cartão por lá, sempre, desde meus 15 anos.

Voltando ao Mister Up, eles tocam de tudo, realizando um verdadeiro passeio pela black music, soul, funk, disco, samba rock, swing e groveria. Isso tudo junto dá uma combustão de arrasar quarteirão. Bauru cresce no cenário musical e ir vendo essa moçada ocupando espaços, cantando e encantando é algo emocionante. Hoje eles estão gravando no Santa Madalena, tocando no SESC, faltando uma apresentação mais vip, lá no Teatro Municipal. Com certeza não vai faltar oportunidade. Difundir a produção deles pelos quatro cantos da cidade é mais do que uma missão. Nem precisa dizer onde vou estar na sexta e no domingo, né?

Selecionei uma tirada do Youtube: http://www.youtube.com/watch?v=uFYacnUaIQQ&feature=related Mister Up e Ed Motta, tudo a ver. Combinam maravilhosamente. Em tempo: As fotos são deles, do site (www.misterupband.com.br) e minhas.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

DROPS - HISTÓRIAS REALMENTE ACONTECIDAS (01)

UMA HISTÓRIA DE ENTERRO
Quem já leu "Cem anos de solidão", do colombiano Gabriel Gárcia Marques sabe do que estarei a relatar. Nas estórias vindas da imaginária Macondo, o ocorrido num enterro daqui seria "café pequeno". Para quem vivenciou o daqui, foi no mínimo surreal. O fato é esse. Dona Jandira Ramos Ribeiro, 88 anos, sogra de minha irmã Erci, matriarca de uma unida família radicada entre Bauru e Piratininga, sofreu um irreversível AVC na semana passada. Após alguns dias numa UTI, ocorre o desfecho final. No sábado, família toda reunida, vamos todos para o enterro no Cemitério de Piratininga. Após um longo período de chuvas, esse foi o primeiro dia sem sua molhada presença. Com o sol a pino todos chegam ao local do enterro, por volta das 16h40. Com todos reunidos no saguão, orando com o caixão aberto, tem início do lado de fora um forte vento e o céu começa a escurecer. Tempo passando, os filhos reúnem-se e decidem pelo prosseguimento do féretro. Seguimos todos pela avenida principal, dobrando à direita até o túmulo, distante uns 100m de qualquer local com cobertura. Ali o temporal desaba sobre todos. Tudo foi muito rápido e parecia acontecer somente no perímetro dos muros do cemitério. Foi um aguaceiro de dar gosto. Não deu tempo para quase ninguém procurar abrigo. Imaginem a cena, minha mãe, aos 70 anos, fazia décadas que não tomava um banho de chuva. Todos ficaram encharcados. Os coveiros continuaram seu trabalho, cobertos por um plástico, enquanto o corre-corre foi generalizado. Ao colocarem o último tijolo, a chuva dissipou-se e o sol voltou a brilhar no céu. Tão torrencial quanto dantes. O inusitado foi todos se olhando entre si, somente aí sendo constatada a hilaridade da cena. Risos despontaram nas faces entristecidas de todos. Quebrando o clima minha irmã, até então inconsolável, conseguiu soltar sua opinião da situação: "Dona Jandira aprontou conosco. Lavou a alma de todo mundo por aqui. Só ela mesmo para nos fazer rir nesse momento". Na viagem de volta, eu e minha mãe encharcamos o interior do carro e fomos constatando que, a chuva ocorreu mesmo só nas imediações do cemitério. Rimos novamente e sem pedir explicações ao além, conseguimos afastar a tristeza que acometia a todos. Havia sido um banho e tanto.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

UM AMIGO DO PEITO (16)
ROBERTINHO GODOY, O ETERNO CARNAVALESCO BAURUENSE
Leio na ótima crônica do Cristóvão Tezza, “Carnaval em Curitiba”, sábado no Bom Dia, sobre as dificuldades carnavalescas da Folia de Momo naquela cidade: “Enquanto o Brasil inteiro dança, nós aqui, naquele silêncio de missa, andando pelas ruas vazias... São quatro ou cinco dias de silêncio. Parece que carregamos a culpa pela falta de espírito carnavalesco, a vergonha do falso rebolado, essa triste ausência de brasilidade”. Logo a seguir abro o Alfinete, lá de Pirajuí e nele algo constrangedor para foliões. “...são o ambiente de tudo o que é de mau gosto nesses tempos. (...) Festa que é traduzida com folia e farra, celebração dos desejos da carne. (...) Passa por todos os excessos. (...) Ali se desmorona toda estrutura de formação de caráter. (...) Depois aguardem as conseqüências: vícios, doenças, gravidez indesejada, crimes, cadeia e morte”, esse o entendimento deles, em Editorial, sobre o que nos espera os dias de folia, nada mais que isso. Como se quem quisesse cometer algum excesso, não o faça no restante do ano. É tudo o que o Carnaval não precisa, mas ele é como samba, “agoniza, mas não morre”. O samba superou essa fase, o Carnaval ainda não.

Ele passa por dificuldades mil, como as relatadas no texto do Tezza e ainda somos obrigados a suportar os conservadores de plantão a tentar jogar uma derradeira pá de cal numa das últimas festas populares brasileiras. Uma desilusão sem fim, algo a entristecer os resistentes e persistentes, que ainda continuam acreditando que essa festa precisa (e deve) continuar. Afinal, o brasileiro necessita mais do que nunca de algo a lhe alegrar. Não podemos viver só entre altares, terços, trabalho, pouco lazer e o neoliberalismo. A tristeza emanada dos relatos lidos foi complementada com a abertura dos jornais de Bauru na segunda, 02/02. A manchete no alto da página do Jornal da Cidade é desalentadora: “Morre Roberto Godoy”. Robertinho era a personificação, ainda viva, de um Carnaval que tenta à todo custo sobreviver e sair das cinzas aqui em Bauru. Sua partida é um baque duro para os festejos, que acontecem no final desse mês. Desalentadora notícia, ainda mais pela forma como aconteceu. Roberto cometeu o suicídio, após anos vivendo na mais completa solidão e atualmente, tendo que vender o imóvel onde residiu a vida toda. Preferiu partir, pois não via mais sentido em continuar do lado de cá.

Posso considerá-lo um amigo do peito. Nunca privei de uma amizade mais próxima, mas ambos nutríamos um pelo outro, algo sincero, pois a cada reencontro despontava um abraço forte e carinhoso, além de sincero. Era a própria simpatia em pessoa. Abria os braços e vinha decidido na minha direção, fazendo questão de me beijar na face. Agia assim com todos mais próximos. Num dos últimos encontros, na gravação do DVD do Serginho Araújo, no Automóvel Clube, em 13/12, sentamos na mesma mesa, eu com a Maria José Ortollini. Havia o encontrado na rua e o convidei para a festa baile. Ele, como sempre, foi a sensação do evento, rodou o salão, dançou e marcou presença em quase todas as mesas. Sempre foi assim. Nos eventos estava sempre rodeado de gente. Na vida pessoal, isolado e só. Isso devia o martirizar. Tínhamos marcado um almoço em sua casa, onde deveria levar a Maria José, do qual não revia há anos. Não deu tempo. Cruzei com ele mais duas vezes. Os mesmos gestos de carinho. Comentou da venda da casa, mas aparentava estar feliz com a solução, uma outra bem próxima. Não necessitaria sair da região, que tanto gostava. Continuaria no pedaço,fazendo o que sempre motivou sua vida, a alta costura, da qual falava em retomar.

Foi linda sua participação nos festejos carnavalescos do ano passado. Primeiro no corso realizado entre a Praça Rui Barbosa e o Museu Histórico. Ele dançou e encantou a todos. Tornou nossa festa mais alegre, comunicativa e radiante. Foi decisivo, com suas peças e informações, na montagem da exposição lá realizada. Depois, repetiu a dose no desfile de blocos na Nações Unidas. Não arredou pé de lá, contagiando a todos. Posso dizer o mesmo da Parada da Diversidade, também na Nações. Não o vi descer, mas foi presença de peso, tanto nos bastidores, como no incentivo dado da calçada aos que sambavam na pista. Nesses momentos era imbatível, um mestre e maestro. Vai fazer uma falta danada, justamente num momento que o mundo fica mais triste, com menos contato entre as pessoas. Acredito até que, no pouco que irá acontecer por aqui em relação ao Carnaval, tudo precisa ter a lembrança da importância desse eterno personagem. Duas pessoas marcaram definitivamente nosso carnaval e ambas já se foram: Guilberto Carrijo e Robertinho Godoy. Fui amigo de ambos. Estou muito triste nessa segunda, em primeiro por só ficar sabendo da morte pelo jornal, com enterro já consumado, quando moramos a poucos quarteirões de distância e depois por nunca mais poder encontrar com a irreverência, desprendimento e humanidade, tudo reunido numa só pessoa, pelas ruas da cidade. Vou sambar esse ano e tomar mais um porre, tendo como homenageado certo o amigo Robertinho Godoy. Ele tentava a todo custo reverter o que o Tezza observava lá na festa de Curitiba, lutando também contra uma turba de carolas que conseguem enxergar maldade na alegria do povo. Foi um bravo remanescente, lutando contra o definhar da festa, pelo menos enquanto viveu. Era o que tinha pra falar dele.

domingo, 1 de fevereiro de 2009

UMA ALFINETADA (46)

JANEIRO CHUVOSO E CONFLITUOSO
1. Battisti, o tal revolucionário italiano é um falastrão. Tenta se dizer refugiado político para escapar da cana dura. É um mero criminoso comum, cruel e sanguinário. Seus crimes foram cometidos por vingança e sem conotação política. Virou revolucionário na prisão, só para tentar escapar de penas mais duras. Não dá para imaginar que um Marighella, um Lamarca, um Bacuri, um Onofre Pinto, da linha armada de resistência ao Golpe de 64 aqui no Brasil fariam algo que se iguale ao que o italiano fez. Nessa Tarso e Lula pisaram na bola e rever isso faria um bem danado para todos. Reconhecer erros faz parte da trajetória de qualquer homem público. No mais existe muita falação indevida sobre a atuação brasileira. Não gosto nem um pouco da posição assumida por alguns favoráveis à extradição, mas não consigo me colocar a favor desse senhor.

2. Nesse janeiro comemora-se 25 anos do MST – Movimento dos Sem Terra. Repudiado e muito mal entendido por muitos, continua sendo nosso único movimento social em plena atividade. Sabe reivindicar e tornou a luta pela posse da terra menos desigual nesse país. De certa forma, o MST organiza a vontade dos pobres brasileiros e antes que o critiquem, deve merecer de todos uma atenção toda especial. Só pelo ódio visceral que desperta em certos setores conservadores possui a minha admiração e respeito. Uma reforma agrária popular não é só uma questão de justiça social, mas também de eficiência econômica.

3. Estamos a viver num estado de ignorância. Muita gente faz questão de continuar confundindo tudo, não com o intuito de explicar, mas de embaralhar a cabeça dos incautos. Malha-se Lula por aqui como se Judas fosse, mas isentam Daniel Dantas, o rei do colarinho branco e das falcatruas. Notícia boa foi o bloqueio de 2 bilhões de dólares em suas contas no exterior. O dinheiro de Dantas pode até ser usado no combate ao crime no Brasil. Ironia? Enquanto ele conta com facilidades por aqui, lá fora é um contumaz perdedor. O que esse personagem continua aprontando é infinitamente pior do que o tal do "mensalão" e nem por isso o cutucam com a vara curta. Interesses valiosos em questão.

4. Da trégua na fratricida guerra patrocinada por Israel, já escrevi por aqui tudo o que penso. Não existe a menor dúvida sobre quem foi o Davi e quem foi o Golias neste imbróglio. Israel atacou até instalações das Nações Unidas em sua fúria doentia e nesse momento está às voltas com algo mais sério: precisam se defender das acusações de crimes de guerra, todos praticamente comprovados. A esperança vem do povo israelense, traduzido na manchete do jornal Jerusalém Post: "Apenas nosso poder não pode nos proteger, não nos permite fazer o que bem entender... Nosso poder cresce por meio de sua utilização prudente". Portanto, defender Israel nesse momento é um tanto insano.

PS.: Hoje, domingo, foi um dia dos mais corridos, após a tregua na incessante chuva que nos acometia. De manhã, feira dominical, com direito a compra de CDs e LPs na Feira do Rolo. Às 11h fui assistir Noroeste 1 x 2 Portuguesa de Desportos, debaixo de um sol que fez arder minha careca. Às 14h fui com o Amilton inspecionar áreas em conflito, num trabalho para a ONG recém criada "SOS Cerrado".Às 16h algo divinal no SESC, com a salsa e o merengue bauruense do novíssimo grupo Salsaloka (10 músicos em estado de graça). À noite sai com o filho e seu amigo de Cuiabá, o Pablo, indo comer batatas no Fiu-Fiu. A publicação de hoje teve que sair às pressas. Amanhã capricho mais...