ZERO - IGNÁCIO LOYOLA BRANDÃO
Está chegando o dia. Amanhã, quarta, 16/04, ele estará de volta, primeiro nos presenteando com uma palestra dentro da programação da 8ª Feira doLivro Infantil. Será na parte da manhã e é daquelas meio que imperdíveis. Mesmo tendo limitado o número de participantes, quem gosta da escrita desse araraquarense ilustre, sempre acaba dando um jeitinho de estar presente num evento como esse. Eu, que tenho muitos livros dele por aqui e o leio semanalmente na crônica no Estadão, toda sexta, estarei por lá e farei de tudo para conseguir levá-lo até a Estação da NOB (“a mais bela do interior paulista”, segundo ele). Um dos primeiros livros que li dele foi o famoso“ZERO”. Fui procurar em antigas anotações dentro desse desorganizado mafuá e encontrei algo anotado quando terminei a leitura. Estava lá, num amarelado caderno de anotações, 20/08/1979 (tinha 19 anos), um resumo, que transcrevo aqui da forma como foi escrito:
José e Rosa, os dois personagens principais do romance, passam o tempo todo correndo atrás de algo, sem conseguirem chegar a lugar algum. Queriam, na verdade, só continuar vivendo, ou lutando para sobreviver. Nos afogamos num maremoto de situações, indo das misérias da vida urbana até a agoniante burocracia que sufoca os “latíndios”. Vibrante, envolvente do começo ao fim, não deixando que o leitor fique tranquilo até saber o final da trama. José é caçador de ratos num cinema periférico, sem muita sorte na vida, manco e morando numa livraria abandonada, junto com Átila. Lê muito. Conhece Rosa por intermédio de uma agência matrimonial, iniciam um namoro. Ela sempre foi contra o serviço de José, no Boqueirão, um recanto onde tudo que é anormal é exibido como atrativo para a população. Ele é o selecionador de atrativos do local. O local é fechado por ordem governamental, pois acharam que o povo estava se divertindo demais. Desempregado e desorientado, de arma na mão, José resolve se divertir matando gente. Muitas sem motivo aparente, pelo simples prazer de ver a cara do sujeito antes de apertar o gatilho, outros matou para roubar. Tornou-se um sujeito esquizofrênicoe perigoso. Chega a matar alguns membros do Esquadrão Punitivo (a polícia repressiva), lhe causando vários tipos de perseguições. Paralelo a isso, uma luta desenfreada ocorre entre o Governo e os “comuns” (opositores), com o aumento da repressão. Campanhas incitavam o povo latíndio a denunciar os comuns que conhecessem.
Nisso, José deixa um homem dormir em sua casa. Trata-se de Gê, líder dos Comuns. Surge uma admiração, percebendo-se sózinho e dessa forma nada conseguiria. Juntos promovem assaltos. Comentários diziam que o filho de Gê (o menimo que possuia música na barriga) está passando por perigo na favela de Vila Branca. Não o encontram, mas são convidados para conhecer a “Família”. Sem saber que família vão convivendo com toda a miséria de uma favela e seus moradores: o crioulo inglês, as tias da zona, o cavalo (pensava ser um e agia como tal) e outros tipos. O Esquadrão Punitivo começa a eliminar todas as crianças de lá para chegar no filho de Gê. A “Família” foge sem que José e Rosa a conheçam ou fiquem sabendo de algo a respeito deles. Rosa é perseguida por um bando de crioulos, aprisionada e transformada em oferenda aos deuses de uma seita. Passa por vários testes e a colocam no fundo de um poço. José, dedurado, é preso e torturado e estranhamente o deixam escapar. Rosa é obrigada a tomar poções, deixando-a fora de si, numa preparação para o “Ebó do Capeta”, quando é morta e esfacelada. José reencontra Gê e retoma a luta. O povo latíndio sendo massacrado e o governo desmentindo a imprensa internacional (a nacional calada pela censura) das acusações de tortura. José é descoberto e nunca mais ninguém teve notícia de seu paradeiro. Os comuns restantes agem cada vez mais quietos. Esse é o panorama da América Latíndia. Deus Salve a América Latíndia!”
Foi o meu relato ao ler o livro e muito bom rever isso nesse momento, quando muita coisa mudou em nosso país, mesmo assim, passadas duas décadas do fim da Ditadura Militar, é sempre muito triste ver pessoas defendendo aquilo tudo, como um tempo de paz e tranquilidade. Só mesmo tendo memória muito curta para fazer isso, ou interesses inconfessáveis. Zero foi um alerta e eu captei a mensagem.
Posso dar infinitos exemplos disso (já os dei muitos aqui). Ouço por aí que não entendem porque faço a defesa do Lula e do atual Governo. É simples. Tenho memória, relembro muito bem como o Brasil era instável no período FHC (alguém contesta isso? Vivíamos de pires na mão). Só mesmo alguém com pouca informação ou mal intencionado para continuar afirmando que o país de hoje não é infinitamente melhor do que o de antes. Isso são fatos facilmente comprovados. Mesmo assim, a imprensa nega isso, sonega informações e coloca num altar os que durante anos cravaram uma estaca no coração do progresso brasileiro. Hoje, pregam a volta desse passado. É isso que não concordo. Se defendo Lula é só porque seu governo, com todos os defeitos olha para as camadas menos favorecidas (a grande massa) e isso perturba, assusta. O pobre precisa ter vez e quando alguém quer fazer algo por ele, recebe paú nas ancas.
O que um militar nunca deveria se prestar a fazer é estar à serviço do imperialismo e dos setores dominantes. Esse mesmo Bolívar disse em outra ocasião: “maldito seja o soldado que usa suas armas contra o seu povo”. Viajo no tempo e volto aos nossos dias, pois nesse momento de ofensiva imperialista, nada melhor do que eles se manterem firmes, levantando suas armas, se preciso for, para defender o povo e nunca subordinar-se aos interesses das oligarquias. Sendo assim, o papel dos militares hoje deve ser o papel dos libertadores, sempre subordinados ao máximo poder político de uma nação, aquele que emana do povo. Basta de militares golpistas, pois nossas experiências foram frustrantes e desagradáveis. Todos aqueles que se venderam ao demônio imperialista e se colocaram contra o povo, acabaram sendo derrotados e posteriormente até humilhados. Aqui no Brasil o golpe de estado foi apoiado pelos norte-americanos, se utilizando disso para tirar do poder um governo democrático, legalmente eleito pelo voto popular. Na Venezuela aconteceu o mesmo recentemente e voltaram atrás, repudiando o golpismo.
E não é isso mesmo?
