domingo, 4 de outubro de 2026

BEIRA DE ESTRADA (214)


DECEPÇÃO*
* 
É o que ainda consigo escrevinhar, depois do tsunami com o resultado das urnas desta insólita eleição de 2026.

Hoje, domingo, antes de me deitar, se me perguntarem se estou desaminado com o resultado das urnas, da eleição, digo, de cabeça bem levantada, NÃO, não estou desanimado, mas muito depecpcionado. Os sinais sempre foram muito evidentes de que, o país já tinha tomado rumos muito distantes de uma normalidade democrática. Tomo como exemplos algumas pequenas coisinhas, que quando somadas resultam nisso que estamos vendo como resultado final, com o povo votando na proposta da extrema-direita criminosa e miliciana, contra uma proposta de manter o país dentro de rumos democráticos e altaneiros. Preferiram optar por tudo aquilo que recebem como mensagem de única fonte de informação, confiando na de seus segmentos via celular. E neles votam cegamente, sem pestanejar.

O exemplo maior eu tiro do lugar onde moro. Estamos passando por um momento de mudanças por lá e uma novo síndico profissional chega, com mudanças dentro do proposto pelo novo entendimento deste mundo, a eficiência do mercado, os números acima das pessoas, atropelando tudo. Não existe humanidade nas decisões e se é para fazer algo, fazem e pronto, dane-se as pessoas, sensibilidade zero. E do outro lado os funcionários, sem ação e vendo tudo o que estão a fazer, inertes e contando com alguns que ainda os defendem. Se apegam a gente como eu, que paro, converso e coloco a cara a tapa para tentar não permitir que, algo de pior lhes aconteça. Mas daí, dias depois chega a eleição, estes estão vendo como tudo se dá, um dos lados defendendo um criminoso e do outro o Lula se esforçando para manter os direitos destes, mas olho para os dois porteiros, os que mais converso e sabe de que lado votam? Os dois seguindo orientação de suas igrejas, votam no lado que os apunhalam. Esperam que façam algo, mas na hora de consolidar e também se ajudarem, seguem o lado oposto. Eu tento argumentar, mas percebo que não adianta, pois a orientação veio da igreja, algo maior que o que estão vivenciando no dia-a-dia. Preferem seguir a orientação que quem lhes impõem uma orientação acima, maior, tudo embutido com uma religiosidade, essa não podendo ser questinada. E assim, talvez mesmo sem o perceberem estão se apunhalando a si mesmos e se deixando levar. Eu cá, os tentando defender, brigando contra quem lhe oprime, mas quando podem fazer algo, vacilam.

Nas ruas, no Calçadão da Batista, tentei abordar um cidadão, talvez um trabalhador de alguma empresa pela aí, apresentando e lhe sugerindo que pudesse ao menos ouvir a proposta do candidato do PT, o Lula. Sua resposta foi me apontar o dedo para seu boné e nele a inscrição de "New York". Eu entendi nisso, uma submissão total e absoluta para tudo o que representa o bolsoanrismo, cegamente, perdidamente apaixonado, entregue, sem direito a nem sequer ouvir nada diferente. Ele talvez nem saiba, e nem queira saber que a cidade de Nova York é hoje administrada por um socialista, opositor ao Donald Trump e seu boné é de lá. Não adiantaria, pois o que me me dizia é que, ele aceita a intromissão dos EUA em nossa política e que, o melhor para o país neste momento é mesmo ser capitaneado por Trump e os seus, entregando todas riquezas nas mãos destes e se ocorrer alguma invasão, como a da Venezuela, estariam do lado do invasor. Num outro momento, uma senhora muito bem vestida, cabelos brancos, com cara de ter sido professora, chego com a mesma intenção e lhe estendo o folheto e o adesivo de Lula. Ele me olha com cara de intolerância, nada me diz, mas me aponta seu dedo e nele um anel, com a bandeira do Brasil tremulando. Quando vê que havia visto, daí me olha e com cara de desdem, como se me tivesse dito, "é deste lado que estou, não do seu". E se afasta sem querer ouvir nada, pois já está decidida.

Sim, nós erramos lá atrás, quando foi permitido esse avanço dessas ideias, sem que nada fosse feito naquele momento. Nos acomodamos todos, os do degrau de cima, com muito mais culpa e nós, daqui dos degraus de baixo. Deixamos eles ganharem corpo, terreno e irem ocupando espaços. E os espaços foram ocupados. Olho para famílias inteiras passando diante de mim no Calçadão, como uma, creio que umas seis pessoas, todas de vere-amarelo na indumentária e quando lhe ofereço algo de Lula, quem rejeita e grita algo não são os idosos, mas o jovens, crianças com oito, doze anos, e como resposta ouço o "Lula ladrão, nove dedos e Bolsonaro nosso rei". Nestes momentos eu parava tudo, ficava observando o comportamento deles até se distanciarem e me perguntava pra mim mesmo: como pode isso ocorrer desta forma e jeito? Que tipo de informação foi sendo massificada na mente dessas pessoas, para neste determinado momento, enxergarem tudo de bom em gente como esses Bolsonaros e tudo de mal no oponente, no caso Lula. Poderia tentar argumentar de todos os programas sociais que estão aí, ainda vigentes, lhes beneficando, mas tenho a mais absoluta certeza, de nada adiantaria, pois o estrago já está feito, muito consolidado.

Isso não foi algo desta eleição, pois foi construído ao longo do tempo. Não vai ser agora que irão mudar. Tudo foi sendo construido, conquistado e culminou nisso tudo. No último pleito, o do terceiro mandato de Lula já havíamos batido na trave e ganhamos a partida. Agora, não sei mais nada. Sei que não desistirei, mas me pergunto, vale a pena continuar entregando folhetos lá na Esquina da Resistência, algo desgastante fisicamente, sem que nada ocorra de real transformação, envolvendo toda a nação? Lula fez até muito diante deste Congresso declaradamente fascista, com a confirmação de todos os projetos e benefícios sociais, mas pelo visto, de pouco adiantou. Eles parecem não serem suficientes. Na propaganda, a feita dentro da cabeça das pessoas, deixamos a desejar. Pelo visto, aqui em São Paulo, pelo menos no interior paulista, a predominância do conservadorismo fascista é latente e impositiva. Preferem votar em alguém como Tarcísio, apunhalando toda e qualquer reivindicação justa de trabalhadores, permanecendo ao lado deste, do que a de enxergar que algo novo poderia acontecer se ao menos olhassem para o que representava seu adversário, o professor Fernando Haddad. O paulista prefere continuar sendo apunhalado do que ousar enxergar o óbvio. Haddad tentou, fez tudo o que estava ao seu alcance, mas no frigir dos ovos, gente votando, conduzido por algo maior, como os dois trabalhadores lá do prédio onde moro, lhe dão às costas. E assim, ele perdeu feio e Lula indo para 2º turno em desvantagem. Como reverter essa lavagem cerebral, eis a pergunta que não quer calar.

O cara é saqueiro, nordestino, sofre pra dedéu, mas vislumbra em Bolsonaro e em suas ideias sua salvação. Pode voltar de avião pra rever sua terra dentro de governos petistas, viu de perto algo da transformação lá ocorrida, mas ninguém lhe tira da ideia, que é o Bolsonaro o cara. A senhora que cuidou do meu cão Charles até seus últimos dias, se beneficia diariamente das benesses dos programas sociais, todos provenientes de inciativas petistas, porém não tem quem lhe coloque na cabeça que, o Flávio, mesmo sendo declarado bandido é o cara para ela deve votar e posta diários absurdos, fake news, que quando vou lhe dizer algo, só faltou me jogar na cara, "você acha que eu não estou entendendo tudo o que se passa?". Nos ubers da vida eu já desisti. Se for discutir, encerro a corrida pela metade e me deixam no meio do caminho. Agora mesmo, vitória consolidada, Flávio em 1º e Lula em 2º, chego no Recife PE - onde Ana vai participar de um Congresso Acadêmico -, 22h, o jovem motorista ouve a Jovem Pan e quando lhe questiono, ele diz ser a melhor, a que lhe diz a verdade. Estava feliz e vim até o hotel me encontrar com Ana, que me recepcionaria no Marco Zero da cidade, mas diante do resultado das urnas, me disse: "Nem venha, eu vou daqui pro hotel e você faça o mesmo daí do aeroporto". Nem senti o clima das ruas, me enfurnei, fiquei a sentir dali o que nos representa de fato essa eleição e amanhã, segunda, 05/10, daqui do Recife, onde permanecerei por uma semana, reduto ainda dito de esquerda e petista, tento decifrar melhor os próximos passos. Amanhã, com a cabeça melhorzinha, talvez uma melhor reflexão. Hoje, algum choro, uma troca de falas com o filho por telefone, um lamento junto da esposa e tentar dormir. Enfim, estamos decepcionados, porém não desistimos. Somos como aroeira, vergamos, mas não quebramos. 

PERCEPÇÃO DE UMA DILETA AMIGA PAULISTANA
"Pessoal, estou aqui em casa bundando. Fui votar por volta das 11 da manhã. Moro na Bela Vista e voto no Sumarezinho, bairro de classe média onde nasci e vivi a maior parte da minha vida. No caminho, cerca de 6 km, muita gente de vermelho ou com adesivos do Lula. E no colégio onde voto, muita gente também fazendo o L. Fiquei até meio surpresa, até porque em outras eleições as camisas amarelas da selecinha predominavam no Sumarezinho, e hoje só vi uma ou outra. Tinha muito mais vermelho do que eu esperava, não só lá, mas por onde passei. Não estou dizendo que vai ser fácil, mas fiquei um pouco mais tranquila com o resultado desse "termômetro"... #boralula", Juliana Guido.

Nenhum comentário: