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domingo, 11 de dezembro de 2011

ALFINETADA (92)*
* Dois textos no mesmo post. No primeiro a matéria do Bom Dia e no segundo, a do Alfinete.

CARVÃO, TIJOLO E VIDA – Matéria do diário bauruense BOM DIA, caderno Viva, edição de 11/12/2011
Fausto Bergocce desenha história de Reginópolis em novo livro, parceria com Henrique Perazzi de Aquino - Texto de Thiago Roque (thiago.roque@bomdiabauru.com.br ).
Quando Fausto era o filho pequeno do seu Antônio Bergocce, fazia de Reginópolis, sua terra natal, sua grande tela em branco. Já pendendo para as artes, Fausto fazia do carvão, a tinta preta; dos tijolos, a cor laranja; da terra, a cor marrom; da cal, a cor branca. Nas calçadas da cidade, fez seus primeiros desenhos, muitos deles retratando a própria Reginópolis. Não parou mais.

Passou por diversos veículos de comunicação (inclusive o “Diário de S.Paulo”, integrante da Rede BOM DIA na Capital), ganhou prêmios, reconhecimento. Deixou o carvão e o tijolo para trás para usar aquarela, nanquim e outras técnicas. Mas não esqueceu Reginópolis. Tanto que, na terça-feira, lança em Bauru “Reginópolis – Sua História”, livro no qual conta, com a ajuda do professor, jornalista e blogueiro bauruense Henrique Perazzi de Aquino, a história e as histórias da cidade. Cada folhear de páginas é uma jornada de cores em aquarela, lugares, pessoas, lembranças. As placas, os cachorros, as mesas de bar, estão todos lá. Com eles, um pouco de Fausto também, menino que aprendeu a desenhar a vida ainda no chão da cidade.
Obra conta com ‘encantados’ da cidade

Houve tempo também para um final poético ao trabalho do reginopolense e do bauruense. Apropriando-se da máxima de Guimarães Rosa, que dizia que as pessoas não morriam, ficavam “encantadas”, Fausto e Henrique trouxeram diversos encantados ao livro. “São famílias e pessoas importantes para a história de Reginópolis, mas que não tinham um capítulo para si na obra”, explica Fausto. Começamos com 30 encantados e, de repente, já tínhamos 64”, diverte-se Henrique. Entre eles, Antonio Bergocce, pai de Fausto, que viu o filho “sujar” as ruas da cidade com tijolo, carvão e arte. Deve estar, definitivamente, encantado mesmo.

Aquarelas foram ‘resgatadas’ da história oral da população
Fazer um livro sobre sua Reginópolis era o “projeto da vida”, como resume o cartunista Fausto Bergocce. Desde 2007, começou a ganhar forma, com fotos dos locais, conversas mais apuradas com moradores, os primeiros esboços na aquarela.
Em 2009, o professor, jornalista e blogueiro Henrique Perazzi de Aquino, parceiro de Fausto em outras empreitadas, foi convidado para o projeto para escrever os textos. A tabelinha dos craques estava formada. “O Henrique pesquisava, produzia os textos e, depois, eu ia para a aquarela”, diverte-se Fausto. Como havia poucos registros oficiais, Henrique apostou na memória oral e foi ouvir as pessoas. E não se arrependeu. “Encontramos histórias deliciosas”, avisa. Assim, a dupla eternizou, por meio da parceria texto-aquarela, a história do fundador do município, o padre Jeremias (grafia correta com J), uma luminosidade estranha nos anos 30 que trouxe até pesquisadores europeus à cidade, o pocinho e sua água com propriedades terapêuticas e até uma espécie de Canudos realizada nos limites de Reginópolis – esta reportagem não entrará em detalhes para não estragar a leitura.

Também houve espaço para o registro de personagens especiais, como o goleiro René Raduan, titular do Reginópolis Futebol Clube por 15 anos e ídolo de Fausto, os maestros e rivais Eugênio Ramos de Oliveira e Osório Teixeira Cintra, os artistas Baccan e Montanher, e Getúlio Said, voz que, há 35 anos, anuncia a Ave-Maria pontualmente às 18h, pelo sistema de som da cidade. Estão também, pelas 120 páginas da obra, as placas da cidade, os belos vitrais da igreja, prefeitos e vereadores de toda a história. “Com esse registro, esperamos inspirar outras pessoas a reunir mais e mais histórias sobre Reginópolis”, explica Henrique.

UM LIVRO DE REGINÓPOLIS E AGRADECIMENTOS A PIRAJUIENSES – publicado no semanário O ALFINETE, de Pirajuí SP, edição de 10/12/2011 (Na foto abaixo, eu entre os diretores d'O Alfinete, Alex e André e na última, três gerações dos Bergocce, o desenho do patriarca, ladeados de filho e neto).
Meus amigos de Pirajuí, é isso, nessa semana estou no mundo da lua, pois acabo de parir um livro, o “Reginópolis – Sua História”, meu primeiro e aos 51 anos de idade. Não pari sozinho, pois o mesmo foi criado a quatro mãos, com Fausto Bergocce, um reginopolense, vizinho daqui, quase parede meia. Está sendo algo indescritível, do qual muito me orgulho. Trabalho em conjunto em todos os momentos. Fausto, desenhista famoso (já publicou charges aqui n’O Alfinete) desenhou a cidade em mais de 250 aquarelas, retratando-a em todos os detalhes possíveis e imagináveis. E eu escrevi a obra, resgatando histórias, em sua maioria guardada na memória das pessoas, num delicioso trabalho de memória oral. Tudo durou pouco mais de um ano e o resultado está sendo lançado nesses dias.

Ao escrever esse texto exclusivo para O Alfinete, o faço para deixar registrada uma justa homenagem a três pessoas que muito me ajudaram, em momentos diferentes e que possuem laços muito próximos com Pirajuí. Primeiro, por Reginópolis ter sido distrito de Pirajuí e mais que isso, muito dos seus documentos, talvez os mais importantes quando da transição para o nome atual estejam localizados nos arquivos da Câmara Municipal de Pirajuí, ainda numa época que uma era subordinada a outra. Tudo isso merece um intenso trabalho de pesquisa, catalogação e talvez, num outro momento, sendo guardado num local apropriado na própria Reginópolis. Quem deu uma bela organizada nisso tudo foi Rejane Busch, uma pesquisadora daqui.

Ela a primeira homenageada, depois seu marido, Cássio Cardozo de Mello, o Cururu, ambos estudiosos da questão indígena na região e que me muito me ajudaram, cedendo livros e em longos papos sobre fatos históricos ocorridos nos primórdios da consolidação das duas cidades. Todo o entendimento sobre a questão indígena consegui através deles. Seus nomes constam de citações e agradecimentos, todos merecidos.

Falta um agradecimento, esse pos mortem. Vivaldo Pitta é muito conhecido em Pirajuí, mesmo tendo construído sua vida toda em Bauru e dedicado boa parte de sua vida na viabilização do Museu de Avaí. Esse memorialista e pesquisador dedicou boa parte de sua vida no resgate de histórias e das reminiscências sobre os primórdios de quase todas as cidades de nossa região. Sua pesquisa é muito extensa e boa parte dela foi conseguida no Museu Histórico Municipal de Bauru, consultando jornais do começo do século passado, depois reproduzidos em vários de nossa região. Relendo sua pesquisa desvendei muito do ainda oculto, checado depois com munícipes e isso não posso deixar de deixar registrado.

Histórias outras, como a da denominação do nome Galo da Comarca, para o Reginópolis Futebol Clube, fruto de algo a envolver Pirajuí. No mais peço que leiam o livro e se O Alfinete conseguir faremos um lançamento também por aí, afinal, muitos reginopolenses residem na cidade e algumas histórias se entrelaçam no ontem e no hoje.

sábado, 19 de janeiro de 2008

MEMÓRIA ORAL (19):

CUBA É TUDO ISSO MESMO?
Foi só abrir a boca e manifestar uma provável intenção de ir à Cuba ainda nesse mês de janeiro, para ter início algumas considerações, que pelo volume, acabei dando mais corda, estimulando o seu prosseguimento, tudo para tentar obter uma espécie de perfil do que o brasileiro acha de Cuba e de como acredita que seja a vida naquele país. De cada um ouvi algo diferente, quase todos na mesma linha de pensamento, o que me deixou deveras preocupado, pois pela maioria das considerações ouvidas, a grande maioria acredita que Cuba vive num mundo de opressão, falta de liberdades e de condições mínimas de vida decente (sic), precariedade instituicional e a mais cruel ditadura. A pergunta que fica num primeiro momento é: Como construiram essa idéia? O que leram, viram ou ouviram para construir esse perfil?
Em casa, ao pronunciar a viagem, quem me interpela durante o almoço, é dona Cida, 56 anos, que há 10 trabalha na casa dos meus pais como empregada doméstica. Vendo meu entusiasmo, enquanto almoçamos, ela me diz: "Ouvi que os cubanos passam fome, que o racionamento é muito grande e que eles vivem com muitas necessidades. Eles não comem carne como a gente, pois só uma cota mensal é permitida para cada família. Ninguém quer ficar por lá, veja a quantidade de cubanos que vivem nos EUA e outros tantos que fogem de barcos naquelas malucas viagens para outros países". Tentei argumentar, dizendo que "aqui temos a abundância, tudo diante de nossos olhos, mas não podemos consumir tudo o que queremos, pois na maioria das vezes não temos dinheiro para tudo o que queremos e até para suprir nossas necessidades". Tentei prosseguir argumentando sobre a quantidade de brasileiros que foge daqui, tentando entrar ilegalmentete nos EUA como clandestino e que numa proporção é até muito maior que a deles. Quer dizer, se eles fogem de lá, uma outra quantidade foge daqui, do México e de outros tantos países latinos. Percebi que não a iria convencer de nada, pois a carga de informações recebida do outro lado já havia consolidado o seu pensamento.
Por uma dessas coincidências da vida, quem me aparece em casa, no mesmo dia da conversa, é o militar aposentado Darcy Rodrigues, que viveu mais de dez anos em Cuba. Contei a ele os diálogos que havia tratado e diante de minha mãe e da Cida, sua resposta a elas foi: "Cuba é uma sumidade em medicina e saúde, estamos muito longe de uma equiparação com o estágio alcançado por eles. Por aqui recebemos as notícias pela TV do sr Roberto Marinho que, cresceu e se desenvolveu recebendo financiamentos dos EUA. O SBT a mesma coisa, Silvio Santos tem negócios por lá e bajula o império. Como podemos esperar que as informações recebidas por esses meios de comunicação nos contem a verdade?".
Quando comuniquei a amiga Gisele Pertinhes, 40 anos, pedagoga da minha intenção, a primeira reação foi: "Você estará pertinho dos EUA". Logo a seguir me disse: "O duro de lá é que você não pode ficar na rua até tarde. Vigora uma espécie de toque de recolher, que te impede de ficar nas ruas, nos bares até a hora que você bem entender". Algo na mesma linha ouvi de outra amiga, Maria José Ursolini, 49 anos, educadora, que havia estado em Cuba há 10 anos atrás, num congresso sobre educação e me diz: "Não adianta te falar nada, pois você verá pessoalmente. Não gostei de muitas coisas que presenciei, como uma carência coletiva muito grande. Sentem falta de muitos produtos. As lojas são completamente diferentes. Foi difícil trazer presentes, pois não existem como aqui". Tento argumentar: "a educação, o esporte e a saúde são prioridades e estão num estágio mais avançado do que o nosso, tendo o básico, o necessário e não precisam de muito além disso. Nós, do lado de cá, vivemos muito em função do supérfluo". Não a convenci, nem quando usei como resposta: "Na verdade não precisamos de 20 marcas diferentes de shampoos, massa de tomate e papel higiênico".
Na véspera do Natal quem fica sabendo do meu intento em viajar para Cuba é meu irmão, Edson Antonio Perazzi de Aquino, 43 anos, arquiteto, que desfere logo de cara: "Você deve ter recebido algo que te enviei por e-mail sobre o patrimônio cultural de Cuba. Lá está tudo com um péssimo aspecto, muito degradado e com um descuído intolerável, sendo que alguns prédios são considerados Patrimônio Histórico da Humanidade. Se eles não cuidam nem de suas edificações históricas, que dirá do resto. Está tudo comprovado, com fotos de marquises caindo, lastimável". Mais ouvi do que falei, pois antes queria ter acesso ao e-mail e a forma como foi divulgado (já o havia deletado). Só digo a ele que "em tudo que faço enxergo os dois lados, principalmente as intenções de quem enviou, para depois emitir algum conceito". Quem acabou me mostrando um outro lado foi o Marcos Paulo Resende, 27 anos, professor de inglês, quando me alertou: "Cuba faz algo que poucos países fazem. Eles reformam 300 mil casas por ano, no que eles denominam de Programa de Reforma Urbana, onde quem reforma sua casa é o Estado e não você. Lá ninguém tem necessidade de reformar sua casa, pois isso é obrigação do Estado. E só não fazem mais por absoluta falta de dinheiro. São mais pobres do que nós. O cubano pode viajar para onde quiser, como o brasileiro, só que, assim como no nosso país, uma porcentagem infima pode fazê-lo, pois não tem dinheiro para a viagem. Não é igualzinho. O país é pobre. Só que lá ninguém fica sem o básico, já aqui. Lá hoje há 902 estudantes universitários brasileiros, todos bolsistas, entre os quais 472 na medicina. Tudo gratuito, como deve ser o verdadeiro ensino".
Numa agência de viagens, um senhor ao meu lado, quando me vê consultando preços sobre pacotes para a ilha de Cuba, não se faz de rogado e faz questão, mesmo sem me conhecer, de me alertar: "Não iria para um lugar desses de jeito nenhum. Lá não têm nada que procuro. Vou é alguns quilômetros à frente, na Flórida. Aquilo sim é lugar para passear e fazer turismo". Mais não lhe deixo falar, pois me viro para o atendente e de costas para ele, deixo claro minha indisposição. Falando sózinho, a cantilena pára por aí. Quando ele se afasta, o constrangido atendente fez questão de me dizer: "Aqui a gente é obrigado a atender todo tipo de cliente, inclusive desse tipo. Eles acham que por terem dinheiro suas idéias devem prevalescer sempre". Evito comentários, pois essa era a melhor resposta que poderia ter ouvido.

Abro minha revista semanal, a Carta Capital e na seção Brasiliana, o título é dos mais sugestivos, "Réveillon nos anos 50". A jornalista Ana Paula Souza foi passar a virada do ano em Havana e fez comentários favoráveis e desfavoráveis à ilha. Algo que marca, logo num box no meio da matéria é a frase: "Em Havana nem sombra de fogos ou compras" e a constatação de que havia "atravessado um túnel do tempo (...) sinal de que estamos, sim, nos anos 50". Cutuca quando aponta algumas contradições: "Os CUCs (unidade de conversão tornada moeda para turistas e mercado paralelo) são o símbolo do mundo paralelo que as esquinas de Havana escondem" e "a literatura oficial parece resumir-se a Che Guevara e ao poeta José Martí". Por outro lado, li que: "Em Havana, não há serviçais.Todos tratam a todos como iguais" e "pensei na ausência de gente de feitio servil". O que tento fazer é colocar isso tudo numa balança, pesar os prós e contras e tirar minhas próprias conclusões.
No final de semana passada, algo me chama a atenção num jornal aqui da cidade, quando pedem a um entrevistado: "Para quem você daria nota Zero?". A resposta é direta: "Hugo Chávez". Como deve ser também para o cubano Fidel, seu irmão Raul, Morales, o boliviano e Correa, o equatoriano. Na rádio Auri-Verde ouço o locutor Luiz Carlos Silvestre, afirmar com ironia no noticiário das 18h: "Os cubanos vivem numa saia-justa que é brincadeira. Vivem muito mal". Um outro ao seu lado, ironiza o irmão de Fidel, Raul, por haver colocado terno para receber o presidente Lula e da intenção desse de abrir o regime (será que conhecem Raul?). E diante disso, fico a pensar sobre outra coisa que acabo de ouvir, como crítica para o regime cubano: "Como deve ser ruim viver com tudo igualzinho, naquele marasmo". Não tive tempo de responder (o faço aqui), mas acredito que o inverso também é do mesmo jeito, pois nada pior do que o pensamento único, esse que tenta nos fazer crer que o neoliberalismo e a globalização são a definitiva e irrefutável solução para todos nossos problemas. Todos os que tentam viver diferente disso, crucificados são. Nossas fontes de informação, na maioria das vezes, passam dados distorcidos, segundo o seu ponto de vista e interesses. E o pior é que os que estão do lado de cá, acabam acreditando em tudo, como se fossem verdades incontestáveis. Portanto, seria ótimo tirar minhas próprias conclusões, sendo assim, continuo cruzando os dedos para que o sonho dessa viagem finalmente se concretize (toc toc toc).

Henrique Perazzi de Aquino, escrito em 15 de janeiro de 2008.

terça-feira, 18 de setembro de 2007

MEMÓRIA ORAL Nº 2

A TROPA JÁ BAIXOU AQUI NA TERRINHA

O filme ainda nem foi lançado oficialmente, mas produz um sucesso estrondoso, principalmente na cidade do Rio de Janeiro, onde se passam todas as cenas de “Tropa de Elite”, a mais nova sensação cinematográfica brasileira. O filme é polêmico pela própria natureza do tema abordado, as ações violentas do BOPE - Batalhão de Operações Policiais Especiais da Polícia Militar do Rio de Janeiro. Não se viu até agora nenhuma propaganda oficial sobre o filme, que segundo o diretor José Padilha (o mesmo de Ônibus 174, de 2002), estreará nos cinemas em novembro, porém, o filme já está praticamente espalhado por tudo quanto é canto, num fenômeno mercadológico ainda inédito para o nosso cinema. Já se viu algo parecido com filmes estrangeiros, tiragens imensas e isso tudo está sendo, nesse momento, vivenciado também pelo cinema tupiniquim. Com o vazamento adentramos o rol dos filmes pirateados antes mesmo da estréia.

Essas coisas de pirataria são um tanto difíceis de serem identificadas. Difícil saber de onde partiu a reprodução da primeira cópia pirata, quem a repassou, para quem e como tudo foi se dissimulando. Muita investigação já foi feita e alguns nomes e suspeitos já estão arrolados e enrolados, com a lei ameaçando seus calcanhares. Isso tudo está merecendo uma ampla divulgação nacional, primeiro pelo ineditismo do feito e depois porque o filme trata de um assunto bem nosso, violência e ação policial. No Rio fala-se que as primeiras cópias foram vendidas a R$ 10 reais, depois a R$ 5 reais e hoje são encontradas até por R$ 2 reais. Pelo visto, por lá está um tanto difícil de encontrar quem ainda não tenha assistido ao filme. Virou febre e mania.
Mas, e por aqui? E no sertão paulista, a quantas anda a tal febre? Fui constatar isso no penúltimo domingo, no lugar considerado o paraíso dos piratas na cidade, a Feira do Rolo, que acontece junto à feira da Rua Gustavo Maciel, no centro da cidade. Circulei de barraca em barraca e não encontrei o filme. Muitos camelôs já ouviram falar e outros tantos estão querendo saber onde encontrar as cópias, pois muita gente já está procurando-a pelas barracas. Numa delas, acompanhado do filho, fiz perguntas demais e de posse de uma máquina fotográfica, causei a maior suspeita, com o camelô vindo na minha direção de forma meio acintosa: “É federal? Não pode ir tirando foto da banca, assim não!” Chegou a brincar que estaria armado e na boa desmontei o clima pesado, com muito papo e bom senso. Afinal, não é de bom alvitre ir fotografando camelôs, principalmente aqueles que revendem produtos pirateados e vivem sob o fio da navalha.

Um outro, mais maleável, acabou me afirmando que só não está vendendo a fita porque ainda não encontrou quem a repassasse: “Pra semana eu devo ter, pois a procura é grande e também quero ganhar algum com isso”. Bisbilhotei por todas as bancas e nada do filme, acabando por constatar um clima de expectativa entre as duas partes, a dos clientes, que especulam, procurando saber quando chega e entre os camelôs, que se movimentam na busca do tal filme, ou do lucro certo, pois a procura só aumenta. Um outro, fez questão de frisar algo interessante: “Nunca vi tanta procura por um filme brasileiro como esse aí. O negócio deve ser bom mesmo e estou também curioso”.

Na segunda, 10/09 rodei os camelôs do centro da cidade. Poucos eram os que ainda nada haviam ouvido nada sobre o filme. Circulei por umas dez bancas e na grande maioria, nada, nenhum vestígio. Numa delas, a grande novidade, o filme já havia passado por ali e estava esgotado, pelo menos naquele dia. Todas as cópias, que esse camelô, de uma das ruas transversais ao Calçadão central havia trazido foram vendidas. Estava cheio de encomendas para o dia seguinte e diante da minha curiosidade, foi logo falando: “Tenho mais dez rodadas lá em casa. Se quiser assistir hoje, te dou meu endereço e vai lá buscar à noite. Do contrário, guardo para ti e pega aqui amanhã. São R$ 5 reais”. Por fim acabei ouvindo mais uma novidade dele: “Em Bauru, por enquanto, só eu e um outro amigo temos. Somos os únicos”. Parece serem mesmo os pioneiros. Quer dizer, a Tropa de Elite já chegou à cidade e se veio para movimentar o comércio de DVDs piratas é algo que veremos a seguir.

Voltei no dia seguinte e quando fui chegando perto, ele já me reconheceu do dia anterior, foi logo me mostrando a banca: “Olha aqui o filme. Tenho duas versões de capas. Uma com o Cristo e outra com a favela de fundo. Em ambas o filme. Já vendi quase tudo que trouxe hoje, uma loucura. Tá entrando uma grana legal”. Comentei com ele, que justo ao lado, um outro filme bem badalado e difícil de ser encontrado, o “Amor estranho amor”, aquele erótico com a Xuxa. Ele é rápido na resposta: “É nessas coisas mais difíceis que se ganha um algo a mais”. Não resisto e faço a pergunta fatal: Como trouxe o filme? Ele pensa um pouco, como quem tem dúvida se deve ou não revelar e acaba falando que: “sou do Rio, tenho muitos parentes por lá e sou cheio de contatos. Acabei pedindo para me enviaram. Sei que logo outros vão vender, mas por enquanto quero ganhar algum a mais. Só isso”. Antes de ir, perguntei-lhe se já havia assistido e sorrindo me disse: “Claro. Acho até que fui o primeiro por aqui”.
Não me prolongo muito e saio pela rua pensando em outra coisa: O cinema brasileiro é viável e muita gente quer assistir aos filmes nacionais. A resposta é essa febre, talvez uma de nossas maiores bilheterias, sem ao menos ter sido lançado. O questionamento é de cunho cultural, envolvendo o preço cobrado pelos ingressos nos cinemas e o da venda dos DVDs. Algo que fica no ar, é como isso chega aos lugares periféricos desse imenso país. Tudo isso deve estar revirando os miolos dos produtores, diretores e de quem investiu nesse inesperado e louco sucesso. Tenham certeza, de que tudo o que foi gerado e criado em torno do filme, guardadas as devidas proporções, acontecerá por aqui e por todo o resto do país. O negócio já pegou e vai ter prosseguimento, talvez batendo recordes de bilheteria, sem que grana alguma entre para os bolsos dos seus idealizadores, pelo menos antes do lançamento. Coisas dos nossos tempos.

Para se ter uma idéia do avanço da tal febre, dei dois dias e voltei no final da quinta até os camelôs do centro da cidade. Fui sondar e o filme estava começando a circular em outras bancas. No último domingo, só espiei a Feira do Rolo e o filme estava em várias delas. Vi no jornal local um representante das vídeos-locadoras, Avanilton Sebastião, 50anos, dando uma entrevista sobre as perdas do setor e uma campanha, que tomou algumas ruas do centro da cidade, numa tentativa de conscientização da população para não consumir DVDs pirateados. Ele explica algo que é o grande problema do negócio hoje em dia: “As videolocadoras pagam em torno de R$ 120 pelos lançamentos. Quando estão disponíveis em lojas do ramo, custam por volta de R$ 45. O consumidor desembolsa de R$ 3 a R$ 5 pelo aluguel do DVD. Nós pagamos impostos e geramos empregos”. Na defesa da economia informal está Cláudio Luiz, 34 anos, representante da Associação da Economia Informal de Bauru, que na mesma reportagem salienta: “A questão do comércio dos produtos pirateados é social e não policial. Se tivesse mais empregos, com certeza não haveria economia informal”.
A questão levantada por tudo isso é a de que o vazamento do filme Tropa de Elite é a prova de que a pirataria nem sempre começa no camelô. Ele é simplesmente a ponta de lança do negócio, propiciando mais um dos tantos negócios ilegais, com permissão meio que consentida pelos ditos poderes constituídos. Outra questão é a do acesso à cultura e como ele se dá. E por último, sem falsos moralismos, a questão das pessoas colocadas na economia informal, como único meio de subsistência. O filme, bem ele já é um grande sucesso e continua sendo visto por tudo quanto é canto, inclusive por aqui, propiciando essa discussão toda. E tenho que confessar: estou louco para assistir e não sei se vou conseguir esperar o lançamento nos cinemas.

Henrique Perazzi de Aquino - 17 de setembro de 2007

terça-feira, 13 de março de 2018

MEMÓRIA ORAL (222)


A MARMITEX DO ATALLA POR R$ 50 E O ALMOÇO NUMA MARMITARIA NO JD. SILVESTRE POR R$ 11 - A CRONICA DO ALMOÇO

A notícia a me arrebatar ontem foi uma que li pela aí, a de que o chef gourmet Alex Atalla estava vendendo quentinhas, as tradicionais marmitex lá num determinado lugar na capital paulista por preços variando de R$ 27 a R$ 50 reais a unidade. Veja o link: https://www.metropoles.com/…/alex-atala-passa-a-vender-marm…. Nada contra, mas para quem como eu, que ando comendo (e muito bem) em lugares nesta Bauru por R$ 10,00 (vide história aqui já contada do restaurante Dona Maria, defronte o Pão Açucar da Araújo, onde pago R$ 10 e como fartamente), hoje me deparei com algo pelo qual, não me seguro nas calças e quero relatar em detalhes: minha experiência por lugares indescritíveis nesta insólita Bauru, dita também como "sem limites". Eu como "limitadamente", gasto o que posso, mas escolho bem os lugares onde frequento.

Tudo começou com minha ida para o Jardim Silvestre, lá pelos lados do Mary Dota, na sua parte baixa, onde o amigo Lindovan Dantas montou um Pet Shop junto à sua residência. Como gosto de privilegiar amigos nos gastos (um ajuda o outro e assim tocamos nossas vidas em permanete contato e colaboração mútua), comprei lá um saco de ração pro cão e só hoje, depois de quase 30 dias fui lá pagar (viajei e voltei, mas o amigo nem acionou a polícia: ufa!!!). Quito a dívida e pergunto para ele uma dica para o almoço. Ele me indica o seguinte: "Suba ali, dobre acolá, vá mais uns cem metros, contorne, faça a curva e lá vai encontrar uma marmitaria, com apenas umas duas mesas, mas comida boa, caseira e do jeito que a gente gosta". Achei o lugar, chama-se Marmitaria Parada do Frango (Avenida José Silvestre quadra 4 - fone 32374368). Fica no meio da avenida, num local mais alto que o nível da rua e dos mais agradáveis. Você entra e de frente o caixa, na parede do lado de fora o cardápio do dia escrito a giz e ao lado a cozinha, com um vidro, onde se vê tudo sendo preparado. Nas mesas aquelas toalhas tradicionais em xadrez, tudo muito simples, porém atrativos até não mais poder e até um exemplar do Jornal da Cidade, edição do dia para leitura dos clientes. Atendem mais para entrega, mas como tinha um comendo, pedi da mesma forma. Duas opções, um prato menor por R$ 11 e outro maior por R$ 13, os mesmos preços da marmitex. Foi caso de amor a primeira vista.

A comida chegou, pedi o do dia com bisteca de porco. Veio prato feito com arroz, feijão, salada, uma torta, um refogado e a bisteca. Na medida exata. Paguei os R$ 11 e mais um suco, tudo por R$ 14,50. Sentei do lado de fora e degustei tudo recebendo um ventinho dos mais agradáveis no rosto (dia quente esse, de rachar mamona no asfalto). Sai de lá mais do que satisfeito e com a mais absoluta certeza.,a de que, cada vez mais vou continuar privilegiando lugares como esse para fazer minhas refeições. Comi maravilhosamente bem (não que no Atalla não o fizesse) e pelo preço, atendimento, prontidão e comprovadamente algo bem feito, ao estilo familiar, quero mais é conhecer lugares outros espalhados Bauru afora e com preços dentro do meu orçamento. Fiz mais uma de minhas refeições (e muito bem) em maravilhoso lugar, preços dos mais honestos e algo encantador presenciado por lá, a casa estava muito bem movimentada. Um entra e sai danado de bom, comprovando que tudo o que escrevi é a mais absoluta verdade. Não conheço ninguém da casa, daí não cito nenhum nome e escrevo tudo sem eles nem imaginarem.

Dai, comidas ao estilo e preço das fornecidas pelo Atalla passarão ao largo de minha prestimosa atenção. Meus lugares são bem outros. Eis um deles. Estou agora querendo tirar uma siesta e peço absoluto silêncio para não atrapalhar meu sono, o dos justos. De pança devidamente e fartamente cheia me despeço e deixo a dica para os que ainda não almoçaram.
A diferença é que nesta aqui, a do chef Atalla, o preço é R$ 50 pratas.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

ALGO DA INTERNET (37)

REVISTA BARCELONA, DEUS DE TOLSTÓI, CIRCO ROMANÈS E EXPO LANZELLOTTI, NA MINHA INTERNET
Intercalando o serviço diário, tento escrevinhar algo para este blog. Hoje o tempo urge, mais rápido que cavalo de corrida na reta final. Estudo para um concurso, tento vender minhas maquinetas, escrevinho meus textos, ajudo Bagnato nos finalmentes do III Encontro Férreo (dia 16 e 17/10). Ufa! Mesmo com agenda lotada, fui rascunhando umas notinhas:

1. Quando Serra, o candidato das “mil faces” tenta mostrar que o bom mesmo é a dependência ao governo do “Grande Irmão do Norte” em detrimento da independência pregada por Lula, descubro na internet o site http://www.revistabarcelona.com.ar/ , da revista argentina BARCELONA, com o sub-título “Uma solución europea para los problemas de los argentinos”. Se o negócio é assim, entreguemos tudo para os letrados, mas o façamos com humor, no mínimo. Com Serra a nossa independência irá para a cucuia.
2. Num momento em que o tema do aborto e da religiosidade passou a dominar a campanha do 2º Turno presidencial, indico um livrinho, o “O Reino de Deus Está em Vós”, escrito em 1893, por Tolstói (Guerra e Paz e Anna Kariênina). Texto extraordinário, questionando justamente a superficialidade da religiosidade, que deturpa as palavras de Cristo. Quer mais, ele resvala na utilidade dos exércitos, nos investimentos em armamentos, a obrigatoriedade do serviço militar, a truculência do Estado, a concentração de renda, isso tudo em 1893! Esse livro foi editado no Brasil uma única vez, pela Rosa dos ventos, em 1994. Cliquem no link a seguir http://www.scribd.com/doc/1249581/Leon-Tolstoy-O-Reino-De-Deus-Esta-Em-Vos e deliciem-se com a hipocrisia de algumas igrejas. Mais atual impossível.
3. No exato momento em que Sarkozy, o presidente francês acirra a perseguição aos ciganos, principalmente romenos (igual a que Serra patrocina por aqui contra guerrilheiros, ateus, sem-terra e comunistas), um artista de circo e escritor, Alexandre Romanès enfrenta o poder com a magia do espetáculo. “O presidente deveria fazer uma guerra contra a pobreza, não contra os pobres. Somos nômades. Nosso circo é itinerante, não estamos atrás do sucesso social. Queremos trabalhar o suficiente para viver e não viver para trabalhar”, diz Romanès, enfrentando os dragões da maldade francês. Seu site, o http://www.cirqueromanes.com/ , escrito em francês é difícil de ser lido por nós, latinos, mas as músicas, universais, são lindas. Sua luta, guardadas as proporções é idêntica a nossa e só por isso merece ser reverenciada. Descubram mais deles no Youtube.
4. Adoro quem tenta de tudo quanto é jeito ir buscando brechas para expor seu trabalho. Escrevi aqui sobre a obra de Lanzellotti (o Memória Oral nº 88, 22/06/2010) e agora, do dia 16 a 30/10, a filha do artista, Jussara e o artista plástico Gonçález, conseguiram pouco, mas estão contentíssimos. Uma primeira exposição reverenciando o artista acontece na Gibiteca Municipal. Seu traço fez parte de boa parte da produção brasileira dos anos 50/60/70 e depois caiu nos ostracismo. Jussara move céu e terra para que seu pai seja redescoberto. Essa é só mais uma etapa. Muitas outras virão.

RAZÕES PARA VOTAR EM DILMA PRESIDENTE (06) - "Dilma dá show de conhecimento numa das áreas mais importantes da atualidade, a energia. Em 2003, quando Dilma assumiu o Ministério das Minas e Energia, o Brasil vivia uma situação periclitante. Acabávamos de viver um vergonhoso racionamento. Dilma arrumou a casa, garantiu a segurança no abastecimento e a estabilidade tarifária. Participou diretamente da implantação do Luz para Todos, cuja meta original era 2 milhões de ligações, mas que em abril de 2010 já havia realizado 2,34 milhões de ligações, beneficiando 11,5 milhões de pessoas. Nossa produção de petróleo passou a 2 milhões de barris por dia. O pré-sal, descoberta possibilitada pelo trabalho de Dilma, dobrou nossas reservas de petróleo. Além de tudo isso, Dilma já provou ser conhecedora profunda das fontes limpas e renováveis de energia. Faça uma enquete entre os engenheiros da Petrobras. As intenções de voto em Dilma, entre eles, deve andar em torno dos 90%. Eles sabem o que fazem", extraído do blog "Biscoito Fino e as Massas".

terça-feira, 9 de outubro de 2007

MEMÓRIA ORAL Nº 5

Esse evento ocorreu ontem a noite em Bauru e hoje já está saindo por aqui.
UMA NOITE COM CHE
Entidades bauruenses reunidas fizeram com que os 40 anos do assassinato do líder revolucionário latino-americano Che Guevara não passassem em branco na cidade. Juntas solicitaram um espaço público para a realização de um evento que marcasse a data, onde pudessem se reunir, debater idéias e assistir a filmes alusivos a Che. O espaço cedido foi o auditório do Museu Ferroviário e as entidades são o FNDC – Fórum Nacional de Democratização das Comunicações – Comitê Bauru, Cine Clube Aldire Pereira Guedes, Instituto Acesso Popular, Movimento Comunismo em Ação e Núcleo Juventude do PT. Ernesto "Che" Guevara, o personagem central, motivador do encontro, que com a revolução cubana consolidada, entrega seu cargo de ministro de estado e cai no mundo em busca do seu ideário de vida, que foi o de derrubar governos despóticos, fazer a revolução e ver o povo conquistar o poder. O sonho concretizado em Cuba, pelo menos para ele termina em 09/10/2007, quando cai assassinado no interior da Bolívia. Foi-se o homem, permanece o mito, vivo para muitos ao longo desses 40 anos.

Em Bauru, não fosse o evento realizado na noite de segunda, 08/10, a data teria passado em branco. Um jornal local, na única notícia feita antes da data da morte, fala em comemorações, mas na Bolívia e Venezuela, fazendo questão de citar que "revelam o momento político desses países", como se por terem dirigentes socialistas, só eles ainda seriam possuidores da ousadia de comemorar tal data. O grupo daqui distribuiu um pequeno release sobre o evento, nada saindo nos jornais e na TV. As rádios noticiaram no dia, mas se isso foi pouco, não impediu que tudo acontecesse. O boca-a-boca e o e-mail para amigos sempre valem muito nessa hora.

O museu já estava aberto às 18h, quando chega a aparelhagem para a exibição da grande atração da noite, o filme "Che, el hombre, compañero, amigo...", uma produção ítalo cubana de 1996, sob direção de Roberto Massari, que somente Marcos Resende, da organização do evento conhecia: "Trouxe o filme do Brás, do famoso pirata-Brás. Quando vi a fita numa banca, não pensei duas vezes e comprei na hora. Acertei em cheio. São quase duas horas de imagens inesquecíveis". Tanto que, além de juntá-la ao seu acervo, acabou por socializar a exibição naquela noite. Paulo Henrique, o conhecido PH, entendido de sétima arte chega cedo. Monta tudo e diz estar com grande expectativa, pois nada sabe sobre o filme. De cabeça relaciona uns quatros, tendo Che como personagem. Marcos e sua inseparável coleção de camisetas vermelhas coloca a fita no aparelho e antes mesmo do horário previsto os presentes começam a assistir uma gravação de 12 minutos, com trecho de uma fala do Che ministro em Cuba, de uma entrevista de Fidel ao programa de TV do Maradona, quando o tema era Che e por fim o Hino do Guerrilheiro, com cenas do levante cubano. A primeira expectadora a chegar é Damaris Ribeiro da Silva, que reclama do horário: "Muito cedo, não deu nem tempo de passar em casa. Mas quando fiquei sabendo disso aqui, lá na banca do camelô Fabrício, não acreditei, desmarquei tudo e vim correndo".
Das 19 às 19h30 são repetidas por três vezes os trechos gravados, sendo que o que mais chama a atenção é quando Maradona exibe a perna para Fidel, mostrando que o tem tatuado numa delas. Enquanto a fala de Che ecoa na sala, outros vão chegando, como o ex-guerrilheiro Darcy Rodrigues, que morou dez anos em Cuba e se diz amigo de uma das filhas de Che. Quando questionado de só ter ficado sabendo porque foi convidado e de que quase nada sai na mídia local, que parece ter receio de tocar no nome Che, saiu com essa: "Como não falam de Che, e a capa da última Veja?". Na seqüência não perde a oportunidade: "Viram a entrevista do Chávez no programa do Paulo Henrique Amorim. Foi um baile. Quando nos deixam falar não tem pra mais ninguém". Com umas vinte pessoas na sala, o evento tem início e após uma breve abertura, quem pede a palavra é o Marcos, que emocionado, falando várias vezes em nome dos "camaradas", rasga a Veja que faz ironias a figura do Che, provocando aplausos e risos gerais.

Com o filme rolando chegam mais pessoas, como o casal de militantes da esquerda Arthur Monteiro Jr e Lílian, o Jorge Moura e dois colegas do Acesso Popular e alguns casais. São duas horas de algo indescritível. Quase ninguém levantou das cadeiras, pois a grande maioria dos presentes eram militantes e pessoas que vivenciaram a luta pela libertação dos povos latinos e da consolidação cubana no continente. Percebe-se um remexer nas cadeiras quando Che exaltado proclama num dos seus discursos: "Temos três frentes permanentes de luta: estudo, trabalho e fuzil, esse obviamente para defender a Revolução".

Por volta das 22 horas, quando a sessão tem fim, Darcy é convidado e falar de Cuba, Che e sua experiência no exílio. Emociona os presentes e o casal Maria Orlene Daré e Alberto Pereira Luz, não se contentam em ouvi-lo, o questionam sobre a saúde e a educação ministrada na ilha. Ela, que esteve em Cuba há três anos, diz que hoje "existe uma geração mais velha, que apóia a Revolução e uma mais nova, influenciada pelos turistas, que quer consumir, ter os apetrechos que vêem com os visitantes". Darcy diz ser esse um dos males da abertura, que pode ser rebatido com "a pequena liberdade existente do lado de cá e o pouco poder que temos, de consumir tudo o que nos é oferecido. Temos menos liberdades que eles, mesmo sem perceber isso".

Um grupo se forma ainda dentro da sala e dele quem se destaca é a professora de matemática, Matilde, que traz o filho e um amigo. Ficou sabendo sem querer, ao ouvir a rádio Véritas FM e arrebanhou a prole para comparecer: "Se perdesse isso aqui, acho que não teria uma segunda chance". Por fim, acerta com PH trazer seus alunos numa sessão do Cine Clube e sobre o filho é enfática: "Cresceu ouvindo, lendo e vendo minhas ações e hoje ele é que acaba me convidando para um monte de coisas desse tipo". Surge a idéia de se fazer cópias da fita e uma lista com uns dez nomes são relacionados. Um doa R$ 10 reais e outro a seguir, faz o mesmo, bancando todo o custo das reproduções. Num canto PH tenta argumentar com o Marcos sobre ao papel da revista Veja e da imagem do Che: "Acho até bom tocar em pontos negativos. Ninguém é perfeito. Vamos então discutir, não só os pontos positivos, mas os que eles dizem serem negativos. Isso é salutar".

Quase 22h30 todos vão para a calçada e quem surge de última hora é o professor da UNESP, Laranjeira, que saiu de uma aula naquele momento e com um vistoso chapéu panamá e uma camiseta vermelha, com a famosa foto do Che estampada ainda ficou para as discussões finais. Todos foram para a padaria na praça Machado de Mello e mais um acordo foi selado de última hora: Laranjeira requisitaria uma sala na universidade e a noite com Che provavelmente terá continuidade. Com os devidos pães comprados para o dia seguinte, os últimos presentes, em três carros se vão e com eles algo que permanece para sempre no imaginário de toda uma geração: Noites assim são imperdíveis e fazem um bem danado para quem delas participa. De alma lavada, cada um segue seu caminho.

LEGENDA DAS FOTOS, NA SEQUÊNCIA DA PUBLICAÇÃO:
PH ajustando o filme
Damaris foi a primeira a chegar e ao fundo, a professora Matilde e o filho
Marcos rasgando a revista Veja
Darcy fala de Cuba e de Che
Alberto segura a capa do DVD
Laranjeira chega quando tudo já tinha terminado

Henrique Perazzi de Aquino, 09 de outubro de 2007.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

A DESPEDIDA DE "LA NEGRA"

Nas palavras de sua amiga, Teresa Parodi, um resumo do sentimento de muitos:
“…Mercedes, salmo en los labios
amorosa madre amada
mujer de América herida
tu canción nos pone alas y hace que la patria toda
menudita y desolada no se muera todavía,
no se muera porque siempre cantarás en nuestras almas…”
Una cosa Sosa -Por Juan Sasturain
"Mercedes era una cosa Sosa./ Con mayúscula, digo: tucumana/ cantora sola, voz soberana,/ clase de una, negra y golosa.

Pero ante todo, fue generosa/ con el verso y la oreja americana./ Nos cantó a don Ata y a la hermana/ Violeta, al Cuchi y a Zitarrosa.

Mercedes hizo su destino en vida./ Más allá del aplauso y de la fama/encarnó a la Tierra. Confundida/ en piedra y consumida en llamas/ queda la imagen final, tan parecida/a un Buda criollo, a la Pachamama".

MEMÓRIA ORAL (73)

O PASSADO DE NOVO HORIZONTE GUARDADO NOS FUNDOS DE UMA CASA
A história que começo esse texto se passou há uns 15 anos. Estava vindo de carro de Catanduva com destino a Novo Horizonte e no trevo um senhor, já com certa idade a pedir carona. O levo e se inicia ali algo a emocionar. Fui conhecer seu trabalho e suas atividades. Esse senhor é JOÃO ANTONIO VAZ e o que me mostrou acabou por me marcar ao longo desses anos. Mantinha como podia uma pequena empresa de encadernação, tudo num local apertado, defronte sua residência, na avenida da Saudade 200, quase no centro de Novo Horizonte (112km de Bauru). Passei por ali mais algumas vezes e numa das últimas, diante daquele rico material, constituído de mesas com tipos, prensas, guilhotinas de papel, faz um desabafo a me marcar: “Quando se for, tudo se perderá, pois meus filhos, cada um seguiu um caminho diferente. Nenhum seguirá fazendo o que faço”.

Nas vezes seguintes, ao passar por ali ao longo desses anos, presenciava a porta fechada ou ocupada com outra atividade (na parede está inscrito ter sido utilizado por uma Tapeçaria). Triste, passava rápido pelo local, não querendo saber da consumação de algo que estava mais do que previsto. Dessa vez (02/10/2009), não resisti e pouco antes do almoço, pergunto sobre ele e para minha surpresa, residia ainda na casa, não exercia mais a antiga profissão, mas resistia ao tempo. Bati palmas e quem me aparece no portão é o próprio seu João, com 84 anos, um aparelho de surdez nos ouvidos, arrastando os pés, reclamando da precária saúde (havia tido um derrame três anos atrás) e dos parcos rendimentos (vive com pouco mais de um salário mínimo). Ao me ver, iniciarmos um bate-papo onde se recorda de tudo, da carona, das passagens por ali e constato possuir ele uma memória muito mais ativa que a minha.

Sentamos na sua pequena área e ele me conta sobre os últimos anos. “Aqui na cidade abriu uma outra firma de encadernação. Estava velho, cansado, vendi minha máquina para ele. Usou e depois de um tempo me devolveu. Não tinha mais o que fazer com aquilo e acabei dando de presente a ele”, começa seu relato. No salão onde era a encadernadora me mostra um equipamento completo para chaveiro e uma guilhotina de papel, criação dele, para facilitar seu serviço. “Engraxei ela outro dia. Ela é uma variante de um modelo que vi num tipógrafo. Aquele tinha que dar um golpe muito grande para cortar o papel. Vi outro modelo em Catanduva, juntei tudo e com um pouco de um e pouco de outro, fiz a minha”, prossegue com a voz pausada e com paradas para evitar o cansaço.

A mesa de tipos é uma raridade, muito requisitada por colecionadores, para exposições. A dele está impecável e ao me mostrar as caixas com os tipos, ainda todos muito bem organizados em pequenas divisões, fico extasiado com sua organização e por não deixar isso tudo se perder, se espalhar. Faz questão de retirar todas e ir me mostrando:“Esse tipo é um manuscrito, modelo 20, novinho, praticamente não usei. Esse outro é o 60, o 16, 48, 8, 36. Não sei quanto pode valer isso hoje em dia. Cheguei a pensar em montar um museu, mostrar isso para os meninos. Mas não estou mais ligando mais para isso. Na verdade, nem sei se aqui na cidade existe um museu”.

Nisso quem aparece na porta é a esposa, Pedrinha Lucianetti, 81 anos e me diz que completaram semana passada 61 anos de casados. Ela é de poucas palavras, vem só observar o que seu marido anda fazendo e lhe chamar para o almoço. Aproveito para perguntar dos filhos. Diz ter seis e todos envolvidos nos seus próprios negócios. O mais velho possui uma loja de material agropecuário. Não para de mostrar as peças. “Essa aqui usava para regular a largura da capa. Ninguém mais possui algo igual. Hoje tudo é computadorizado, mas isso não pode ser perder, ser jogado fora. Os tipos manuscritos estão todos perfeitinhos, são raridades, peças únicas, não se fabrica mais isso”, me diz.

Fechamos o quartinho e quer me mostrar um barracão onde guarda outras raridades, aos fundos da casa. Diante de um local, com peças entulhadas por todos os cantos, seus olhos brilham e circula por ali, pegando suavemente em cada peça, a lhe trazer recordações. “Fiz portas e batentes para uma indústria daqui. Criei uma máquina com motor, com uma serra acoplada para cortar tamanhos iguais”, prossegue. No barracão fico sabendo que além de encadernador foi também marceneiro (uma bancada com todas as peças é outra raridade lá encontrada). Uma peça chama a atenção, é uma prensa de ferro fundido, usada para prender os papéis antes do corte. Hoje, muitas iguais são encontradas como peças de decoração em afamados escritórios e entradas de firmas. Seu João mostra outras e muito mais.

Ao lado, num outro quartinho, mais uma novidade. Ele também foi uma espécie de alfaiate, mantendo até hoje uma máquina de costura, rolos e rolos de papéis de presente e revistas variadas sobre o tema, além de uma mesa com todo o material que utilizou. “Essa escrivaninha tem mais de 60 anos e essa máquina, veja, que adaptei e a deixei com um tamanho maior, para não ter que dobrar as roupas. Fiz muitas camisas e cuecas por aqui”, diz na seqüência. Ao abrir uma gaveta reencontra uma caneta Parker 51, daquelas que escreve seco com tinta líquida e tampa folheada a ouro. Diz querer vender, como muita das ricas peças ali encontradas. “Você me ajudaria a vender algumas dessas coisas?”, me pergunta.

Sua esposa o chama para o almoço e eu aproveito para as despedidas. Mesmo vendo-o ali, diante dos meus olhos, a situação me foi constrangedora. Acredito que poucos na cidade imaginam a existência de peças com alto valor histórico ali naquele pequeno espaço. Não só uma parte da história da cidade, mas muito mais que isso, um importante morador da cidade, esquecido e vendo sua história se esvair no tempo. Contar e reviver isso faz parte da valorização de um passado, que não deve ser esquecido. Isso ser vendido a compradores diversos é uma hipótese, mas não a mais inteligente. Imagino ver aquilo tudo, num rico espaço cultural, com indicações de sua utilização e conservado para a posteridade. Eu, que não sou comerciante de peças antigas, meu interesse é pela preservação das peças e da história das pessoas, como a do seu João. Deixo um alerta para todos de Novo Horizonte: cuidem daquilo, olhem para aquele rico acervo com o devido carinho e atenção. Suas peças e mais que isso, ele e sua história merecem um lugar de reconhecido destaque. Novo Horizonte lhe deve isso.