Passei o dia pensando nelas. Logo pela manhã, no programa de rádio que escuto, o La Mañana, pela 750AM argentina, Victor Hugo Morales perguntava para um interlocutor venezuelano, assim sem delongas: "Quem entregou Maduro?". E este lhe respondeu o que já se esperava. Para uma ação como a realizada pelas tropas norteamericanas, impossível obter sucesso sem contar com a ajuda (sic) de gente de dentro das intituições venezuelanas. Ou seja, sem traição, nada seria alcançado, ou pelo menos, sem o sucesso como foi observado. A traição é tudo no mundo de hoje. No caso do sequestro de Maduro, existia uma recompensa milionária para quem o entregasse. E como dizia uma velha canção de Paulinho da Viola, trilha sonora de uma antiga novela da TV Globo: "Dinheiro na mão é vendaval...".
Quero aqui me ater somente a este tipo de traição, a política. Deixemos as demais para outras circustâncias. A do momento, a política está muito em evidência, não só neste caso específico, mas a movimentar todo o espectro político. Não posso concluir que seja privilégio do mundo capitalista, onde ela grassa desbragadamente, sem limites e controles, mas também nos demais. A política governamental venezuelana atual, a comandada por Nicolás Maduro não é capitalista na sua essência, pelo menos nas aparências. Hugo Chávez não idealizou a república bolivariana para ser seguidora do capitalismo. Ela se desvituou com seu falecimento, mas tenta resguardar algo de sua concepção. Ali, neste exato momento, alguém ou alguns claudicaram e não resistiram à tentação da grana. Correram seus riscos e encheram os bolsos com dólares americanos.
Foi uma alta traição. Tenho uma baita amiga cubana e toda vez que quero escrever algo sobre a ilha, ela me pede delicadamente para não ser citada, pois teme pelo dia de amanhã, enfim, falando o que pensa e sente, teme pelos seus morando lá na ilha. Me explica seus motivos e entendo: "Conheço bem como se dá a política na ilha e o que hoje é poder, como num passe de mágicas pode não ser mais e daí, falo hoje o que penso e amanhã os meus sofrerão por causa disto. Vivemos sob um fino e até cortante fio de navalha. Hoje ele pende para um lado, amanhã pode pender para outro". Lá no fundo, ela quis me dizer não acreditar muito nos pronunciamentos dos homens públicos do momento, hoje dizendo uma coisa, mas amanhã agindo de outra. Gorbachov não agiu exatamente desta forma quando deu cabo no que restava da URSS. Ele próprio alinhavou a traição final para dar cabo do regime soviético. Era o seu líder maior e não claudicou diante do avanço da contra-revolução. E tudo se esvaiu como num passe de mágica, de um dia para outro. A URSS deixou de existir da noite para dia e na manhã do novo dia já era simplesmente a Russia como se vê hoje, renegando o socialismo, o comunismo e promovendo caça as bruxas num vapt-vupt. Dizia um sábio de botequim: "Quem tem __ tem mêdo".
Falo do capitalismo e do pequeno mundo onde vivo, aqui enfurnado dentro da aldeia bauruense, um reduto interiorano encrustrado dentro da federação constituindo o Brasil. Daqui observo tudo à minha volta e a traição permeia muito dos atos políticos. Coisa mais normal dentro do mundinho onde se faz política por essas bandas é a traição. O sujeito foi anspeçada por décadas de um segmento político, mas quando alcança certo grau de melhoria e vendo que este campo já não é mais o dominante, se bandeia de mala e cuia, sem pestanejar para o lado contrário. Descaradamente e desavergonhadamente, esquece da noite para o dia toda a militância do passado e passa a atuar em algo completamente o oposto do que até então fazia. Temos vereadores hoje eleitos e se encaixando perfeitamente dentro deste conceito. Quando inqueridos, nunca aceitarão terem traído uma causa, um ideal ou seja lá o que for. Simplesmente, mudaram de lado e isso é algo comum, trivial entre quem pensa e faz política desta forma e jeito, sem nenhum apego pela causa ideológica. Ideologia, neste casos, não vale nada, pois o que vale mesmo é o continuar se achando importante e estando bem nas paradas de sucesso.
Gosto mesmo daqueles que não arredam pé uma vida inteira de sua concepção de vida. São cada vez mais poucos. São os tais que não se vendem, nem se rendem, continuando a remar contra a maré uma vida inteira. O vil metal é mais do que importante dentro deste mundo onde vivemos, mas pode muito bem não ser o mais importante a mover suas vidas. Dá para se contar nos dedos de uma mão quem assim ainda age. Sim, estes existem. Poderia citar alguns, mas o que me traz aqui neste exato momento é descrever não estes, mas os traidores. Hoje, inclusive do nosso lado, caminhando junto da gente, tem um bando de gente esperando o momento para dar o bote e se possível, não só te passar a perna, como ocupar teu lugar e na sequência até te achincoalhar. Tenho muita lembrança de algo dito a mim, bem lá atrás, por ex-esposa, que me via na luta, eu e os meus e sempre me repetindo: "Vocês só não são iguais a tudo o que denunciam por não terem tido a oportunidade que estes que hoje fazem e acontecem tiveram. Se tivessem, já estariam faz tempo do outro lado". Tento argumentar até hoje com ela sobre sua frase, mas o fato é que não me sai da cabeça e cada vez vejo mais gente que, um dia foi próxima, se vendendo por tão pouco e fazendo coisas que até deus duvida. Ou seja, ela tem ou não razão?
O fato é que, resumindo tudo, Maduro foi traído. Ainda não se sabe por quem, nem como, as tais condições. O maléfico Trump possuia um detalhado mapa do bunker onde Maduro e a esposa dormiam. Hoje já se sabe, a guarda cubana e alguns venezuelanos formam brutalmente assassinados na ação. E só. As barreiras de radares foram silenciados e bombas jogadas aqui e ali, para disfarçar, enquanto Maduro foi levado. Tudo contou com gente de dentro, não só informantes, como traidores de uma causa. Aqui não discuto se o governo de Maduro é ruim, bom, fraco, forte, legítimo ou não, mas foi ilegalmente sacado e sob um alegação pífia, inconsistente e inócua, a do narcotráfico. E mais que tudo, um sequestro criminoso, um roubo para efetivar outro, o saque das riquezas naturais venezuelanas. Uma pirataria escancarada. Para tudo a ação dos traidores é letal. Se vender por "trinta dinheiros", como o fez Judas é algo visto desde muito tempo como normal dentro das hostes capitalistas. Desde que, se obtenha sucesso, tudo é permitido. Isso é inerente ao capitalismo. Veja o caso deste povo da Faria Lima, os tais rentistas movimentando fortunas e ditando regras econômicas. Se o dinheiro ali aplicado é legal ou ilegal, isso é irrelevante, o que vale é o dinheiro, seja ele do PCC ou do ramo empresarial ainda legalizado. Tudo vale desde que se ganhe altos valores. Trair é só um mero detalhe. Maduro hoje sabe muito bem disso que estou aqui a divagar.
QUE MADURO NÃO É TRAFICANTE, ATÉ AS PEDRAS DO REINO MINERAL SABEM
"MADURO DECLARA-SE INOCENTE – QUE PROVAS TÊM OS EUA?
Nicolás Maduro entrou no tribunal americano como quem entra para a História - não se sabe ainda se para o capítulo da queda final ou para o da absolvição embaraçosa. Declarou-se inocente com a solenidade previsível: “Sou um homem decente”. Nada de novo. Todos os grandes vilões, reais ou imaginados, começam por aí.
O que é novo - ou pelo menos curioso - é a pergunta que paira no ar como uma nuvem carregada sobre Manhattan: que provas têm, afinal, os Estados Unidos? Provas a sério. Não discursos. Não comunicados do Departamento de Estado. Não dossiês cheios de siglas, setas vermelhas e mapas da América Latina.
Porque uma coisa é acusar um chefe de Estado deposto de narcoterrorismo em conferências de imprensa; outra, bem diferente, é prová-lo para além de qualquer dúvida razoável perante um juiz federal vitalício e um júri que não vota em Miami nem em Washington.
O guião é conhecido. Testemunhas arrependidas - normalmente traficantes já condenados - surgem para contar histórias detalhadas, precisas, convenientemente alinhadas com a acusação. Histórias que começam quase sempre com “ele sabia”, “ele autorizou”, “ele protegia”. Histórias que rendem reduções de pena, novos nomes e uma esperança de recomeço. Tudo legal. Tudo frágil.
Depois há a inteligência. Escutas. Relatórios. Análises. Documentos que raramente entram integralmente em tribunal porque, quando entram, perdem o encanto do segredo e ganham o peso da contradição. Inteligência não é prova; é ponto de partida. Em tribunal, o que não se pode contraditar vale pouco.
E finalmente a grande acusação implícita: Maduro é culpado porque convém que seja culpado. Porque é inimigo. Porque representa tudo o que Washington detesta em Caracas. Só que tribunais não funcionam por conveniência geopolítica - ou pelo menos não deviam.
Aqui entra o detalhe deliciosamente irónico da história: Maduro será defendido por Barry Pollack, o mesmo advogado que ajudou a desmontar o caso Julian Assange. Um caso em que os Estados Unidos tinham certeza absoluta da culpa… até ao dia em que tiveram de negociar discretamente a libertação do acusado. De repente, a certeza transformou-se em acordo. A convicção em pragmatismo. A justiça em saída honrosa.
A lição de Assange ainda está fresca: ou o governo americano tem provas sólidas, diretas, incontornáveis - ou arrisca-se a ver o edifício ruir. E quando ruem processos desta dimensão, não é apenas o arguido que sai pela porta da frente; sai também a narrativa política que o sustentava.
Nada disto significa que Maduro seja inocente. Significa apenas algo muito mais incómodo: num tribunal sério, a culpa não se presume, prova-se. E provar que um presidente conspirou pessoalmente para inundar os EUA de cocaína exige mais do que testemunhos interessados e suposições estratégicas.
O juiz não vai julgar o chavismo, nem o socialismo bolivariano, nem a política externa venezuelana. Vai julgar factos. Provas. Intenção. Ligação direta. E se essas peças não encaixarem, o veredicto pode ser tão desconfortável quanto inesperado.
Talvez, no fim, os Estados Unidos apresentem provas irrefutáveis e Maduro termine condenado. Ou talvez, como no caso Assange, descubram que a fronteira entre justiça e política é mais frágil do que parecia - e que acusar é sempre mais fácil do que provar.
Até lá, a pergunta mantém-se, simples e cruel: que provas têm, afinal, os EUA?"
João Gomes
Nicolás Maduro entrou no tribunal americano como quem entra para a História - não se sabe ainda se para o capítulo da queda final ou para o da absolvição embaraçosa. Declarou-se inocente com a solenidade previsível: “Sou um homem decente”. Nada de novo. Todos os grandes vilões, reais ou imaginados, começam por aí.
O que é novo - ou pelo menos curioso - é a pergunta que paira no ar como uma nuvem carregada sobre Manhattan: que provas têm, afinal, os Estados Unidos? Provas a sério. Não discursos. Não comunicados do Departamento de Estado. Não dossiês cheios de siglas, setas vermelhas e mapas da América Latina.
Porque uma coisa é acusar um chefe de Estado deposto de narcoterrorismo em conferências de imprensa; outra, bem diferente, é prová-lo para além de qualquer dúvida razoável perante um juiz federal vitalício e um júri que não vota em Miami nem em Washington.
O guião é conhecido. Testemunhas arrependidas - normalmente traficantes já condenados - surgem para contar histórias detalhadas, precisas, convenientemente alinhadas com a acusação. Histórias que começam quase sempre com “ele sabia”, “ele autorizou”, “ele protegia”. Histórias que rendem reduções de pena, novos nomes e uma esperança de recomeço. Tudo legal. Tudo frágil.
Depois há a inteligência. Escutas. Relatórios. Análises. Documentos que raramente entram integralmente em tribunal porque, quando entram, perdem o encanto do segredo e ganham o peso da contradição. Inteligência não é prova; é ponto de partida. Em tribunal, o que não se pode contraditar vale pouco.
E finalmente a grande acusação implícita: Maduro é culpado porque convém que seja culpado. Porque é inimigo. Porque representa tudo o que Washington detesta em Caracas. Só que tribunais não funcionam por conveniência geopolítica - ou pelo menos não deviam.
Aqui entra o detalhe deliciosamente irónico da história: Maduro será defendido por Barry Pollack, o mesmo advogado que ajudou a desmontar o caso Julian Assange. Um caso em que os Estados Unidos tinham certeza absoluta da culpa… até ao dia em que tiveram de negociar discretamente a libertação do acusado. De repente, a certeza transformou-se em acordo. A convicção em pragmatismo. A justiça em saída honrosa.
A lição de Assange ainda está fresca: ou o governo americano tem provas sólidas, diretas, incontornáveis - ou arrisca-se a ver o edifício ruir. E quando ruem processos desta dimensão, não é apenas o arguido que sai pela porta da frente; sai também a narrativa política que o sustentava.
Nada disto significa que Maduro seja inocente. Significa apenas algo muito mais incómodo: num tribunal sério, a culpa não se presume, prova-se. E provar que um presidente conspirou pessoalmente para inundar os EUA de cocaína exige mais do que testemunhos interessados e suposições estratégicas.
O juiz não vai julgar o chavismo, nem o socialismo bolivariano, nem a política externa venezuelana. Vai julgar factos. Provas. Intenção. Ligação direta. E se essas peças não encaixarem, o veredicto pode ser tão desconfortável quanto inesperado.
Talvez, no fim, os Estados Unidos apresentem provas irrefutáveis e Maduro termine condenado. Ou talvez, como no caso Assange, descubram que a fronteira entre justiça e política é mais frágil do que parecia - e que acusar é sempre mais fácil do que provar.
Até lá, a pergunta mantém-se, simples e cruel: que provas têm, afinal, os EUA?"
João Gomes
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