sexta-feira, 23 de janeiro de 2026


NO RETORNO DA CATEDRAL DA SÉ, NO PORTO, ENTRAMOS NA PEQUENA MERCEARIA DE DONA MARIA
Voltávamos de vista na catedral católica da Sé, na cidade do Porto, numa movimentada subidinha. Queríamos um bom vinho, pois a chuva havia abrandado bocadinho, porém o frio estava mais do que intenso, diria mesmo, cortante na beirada do rio Douro. Diante de nós, três vendas com vinhos expostos nas prateleiras, bem visíveis para quem passava na rua. Duas mais requintadas, pouco mais de modernidade - ambas com atendentes asiáticos - e outra, a primeira na subida, mais modesta. Escolhemos essa e acertamos em cheio.
Do lado de trás do balcão somente uma pessoa, dona Maria. Ela não gosta muito de declinar seu nome para estranhos, daí a trato aqui somente pelo primeiro nome. Atendia um senhor antes da gente, a esperamos e depois dissemos a que viemos, um vinho. Ela nos mostra vários e escolhemos um deles. Neste interim, conversamos um pouco e ela se abre conosco sobre como cobra seus preços: "Estou aqui há mais de cinquenta anos. Os demais chegaram muito tempo depois. Veja esta garrafa de água que estás a levar. Pagas aqui 1 euro e nos demais de 1,50 a 2 euros. Eu só cobro o preço justo. Assim sobrevivo".
Foi o bastante para prolongar pouco mais a conversa. Ela trabalha só na maioria do tempo e atua no ramo de pequena mercearia, até com frutas e legumes. Nas prateleiras o que chama a atenção são os vinhos e outras bebidas alcoólicas. Pudera, com o frio que faz na bairada do rio nesta época do ano, nada como acalorar o interior do corpo. Possui uma forma peculiar de descer os vinhos que está a sugerir sejam levados. Observo atentamente a cena e me encanto, primeiro pela simplicidade, depois por tentar repassar o máximo de informações, algo adquirido ao longo dos anos, não para convencer o então cliente, mas para que leve para sua casa algo realmente que o satisfaça. É o que observo ser o velho e irresistível modo antigo português de tocar a vida.
Eu e Ana Bia, levamos não só um bom vinho, como uma garrafa de água e uma pequena caixinha, para presente, com cinco garrafinhas do famoso vinho do Porto. Ela mesma nos indicou que, levando separadamente ficariam mais caro, daí, na caixinha muito mais em conta. Me disse não gostar de ser fotografada e só o fazia por achar o casal de turistas diante de si muito conversador e atenciosos para com ela e seu pequeno comércio. Estávamos tocados e ao sair, iniciando a tal subidinha de retorno ao hotel, Ana Bia me diz algo mais, por mim também captado e que, se por ali continuássemos seria nossa rotina: "Tivessemos mais tempo por aqui, voltaria todos os dias". Somos assim, frequentamos lugares com muito mais pompa, mas quando nos deparamos com um, tendo do outro lado do balcão uma emérita dona Maria, somos imediatamente arrebatados e mesmo, sem um lugar para sentar em seu estabelecimento, voltaríamos com o maior prazer.
Dona Maria personifica um tipo quase em extinção hoje no mundo atual, resistindo a passagem do tempo, mantendo suas portas abertas na cara e na coragem, lutando com unhas e dentes para nao fechar as portas. Não quer mudar nada, nem pensa em modernizar ou alterar a forma como atua. Vasculhamos cidades em busca de pessoas assim.

O CARA É ATÉ PIOR QUE JAIR BOLSONARO E FOI PARA O SEGUNDO TURNO AQUI EM PORTUGAL - VENDO A EXTREMA DIREITA LUDIBRIANDO A FÉ POPULAR POR ONDE ANDE
Aqui do Porto, onde me encontro, ouço de um funcionário do hotel, beirando os 70 anos: "Estou cada dia mais preocupado com o destino do meu país. Esse sujeito do partido Chega é um ex-comentarista esportivo, um que foi abocanhando pouco a pouco, com um discursodo jeito que muitos querem ouvir e sabe-se, rodeado de gente da pior espécie, incompetente, totalmente inqualificado e não só despreparado, mas pronto para com seu discursinho barato, destruir tudo o que foi duramente conquistado ao longo de décadas. Representa o périgoi da extrema-direita se aproximando cada vez mais do poder. Eminente perigo, que muitos fingem não reconhecer. Como conseguimos que um sujeito desses chegue ao segundo turno?".
Portugal teve uma eleição na sua 1ª volta, o nosso 1º Turno e com muitos candidatos à Presidência, algo ficou fragmentado, daí o candidato da ultradireita, este dos outdoors consegue, após várias tentativas, chegar ao que tanto almejou, o poder a qualquer custo. E agora disputa com o que dentre todos os demais, chegou lá. E a dipusta se acirra, esquenta e ferve o país. Já vimos este filme, foi quando o capiroto Bolsonaro chegou ao poder e fez o que fez, colocando o país quase a se perder num mar de escândalos. Se dizem contra a corrupção, mas são os mais corruptos deste mundo. Ouço aqui, este ultradireitista não se difere em nada do chavão. Vale nada.
Pelo que o jornal Público expõe em sua primeira página, André Ventura tem 30% dos votos e o socialista, aglutinando o país em pé, soberano e pujante, Antono José Ventura, ufa!, chega!aos 70%. Os Le Pen franceses tentam até hoje e se enroscam em tramas envolvendo corrupção. Dessa, não escapa um sequer destes abomináveis se dizendo salvadores da Pátria. Ventura, o desaventurado, sustenta uma batalha entre esquerda e direita, porém, muito claro, a disputa se dá entre populismo barato, pueril e democracia/liberalismo. Luta-se contra um perigoso e predatório mundo onde tudo é possível e permitido. A extrema-direita foi e sempre será bandida, criminosa, o que de temos no mundo da política.

“O fascismo sempre surge de um espírito provinciano, de uma falta de conhecimento dos problemas reais e da rejeição das pessoas – por preguiça, preconceito, ganância ou ignorância – a dar um significado mais profundo às suas vidas. Pior ainda, ostentam-se da sua ignorância e procuram o sucesso para si mesmos ou para o seu grupo, por presunção, afirmações sem sustento e uma falsa exibição de boas características, em vez de apelar à verdadeira habilidade, experiência ou reflexão cultural. O fascismo não pode ser combatido se não reconhecermos que não é mais do que o lado estúpido, patético e frustrado de nós mesmos e do qual devemos nos envergonhar", FEDERICO FELLINI, em conversa com NATÁLIA GINZBURG (citado por Rob Riemen no seu livro «Para combater esta era»). Luto contra o fascismo com todas minhas forças. É o que me resta fazer neste mundo, lutar contra os pervertidos.

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