Em trânsito
QUAL O JOGO DOS MUITOS CANDIDATOS SEM MENHUMA CHANCE DE GANHAR PARA DEPUTADOS EM BAURU? Candidatos que não querem ganhar: por que esse jogo se repete em Bauru e em todo o Brasil. A cada eleição estadual ou federal, o roteiro se repete em Bauru. Muitos candidatos a deputado, vários deles vereadores da própria cidade, entram na disputa. Logo surgem críticas de lideranças locais, jornalistas e formadores de opinião: a divisão do voto estaria impedindo a cidade de eleger um representante. Esse “choro” tem sentido. Do ponto de vista da cidade, é legítima a frustração de ver votos pulverizados enquanto outras regiões conseguem eleger seus deputados. O problema é que essa leitura, apesar de correta, é incompleta. Ela ignora como o jogo político realmente funciona.
Para começar, é preciso falar de números. Em São Paulo, um candidato competitivo a deputado estadual ou federal precisa, em média, de 60 a 70 mil votos. A maioria dos vereadores que se lançam candidatos sabe que não chega nem perto disso. Muitos fazem cinco ou seis mil votos. Não é ingenuidade nem ilusão. Eles entram na disputa conscientes de que não serão eleitos. Então por que se candidatam? O primeiro motivo é partidário. Bauru é uma das maiores cidades do estado e, para os partidos, isso importa muito. Um grande nome estadual ou nacional, se concorrer sozinho na cidade, tende a ter votação irrelevante. Sem base local, sem presença constante, pode sair com poucas centenas de votos. Quando o partido lança um candidato local, conhecido, com base eleitoral própria, o cenário muda. Esse candidato não serve apenas para si mesmo. Ele puxa votos para a legenda, ajuda outros nomes do partido e apresenta o figurão ao eleitorado local. O resultado é simples: votos que não existiriam passam a existir. O candidato local vira uma peça funcional dentro da estratégia do partido, mesmo sem chance real de vitória.
O segundo motivo é ainda mais decisivo e diz respeito ao projeto pessoal. Para muitos vereadores, a campanha de deputado não é uma tentativa de eleição, mas uma pré-campanha altamente estruturada para o futuro. Uma candidatura a deputado dá acesso a fundo partidário, visibilidade, material gráfico, vídeos profissionais, agendas públicas e circulação intensa pela cidade. Tudo isso fortalece o nome do candidato, amplia sua rede de apoios e mantém sua imagem viva no debate político. Enquanto um vereador que não se candidata passa esse período praticamente invisível, o que disputa deputado cresce politicamente. Mesmo perdendo a eleição, ele chega mais forte para a próxima campanha municipal, com mais reconhecimento, mais lideranças e mais poder de negociação. Em muitos casos, a votação obtida vira argumento para composições futuras, alianças, candidaturas a vice ou simplesmente para valorizar o próprio passe político.
É por isso que, eleição após eleição, cidades como Bauru veem tantos candidatos sem chance real de vitória. Não se trata de erro, vaidade ou desconhecimento. Trata-se de estratégia. O incômodo das lideranças locais faz sentido, mas ele não muda a lógica do sistema. Esse jogo não acontece só em Bauru. Ele se repete em praticamente todas as cidades médias do país. Partidos precisam de votos, políticos precisam de visibilidade, e o sistema eleitoral incentiva exatamente esse tipo de movimento. No fim, a pergunta não é se esse modelo é justo ou ideal. A pergunta é se ele é real. E a resposta é simples: é assim que o jogo funciona. Quem não entende isso fica indignado. Quem entende, joga.
Texto da página Além dos Outdoors.



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