Trouxe três livros para ler nesta viagem. Li todos os três e num deles, o do jornalista carioca Sergio Augusto, que leio desde os tempos d'O Pasquim. "E foram todos para PAris - Um guia de viagem nas pegadas de Hemingway, Fitzgerald & Cia", editora Casa da Palavra RJ, 2011, 128 páginas. Devorei numa sentada, mas não consegui seguir nada do roteiro. O livro foi publicado baseado numa matéria encomendada a ele pela Folha de São Paulo, para uma edição especial do extinto suplemento de Turismo. Na edição do livro ficou uma graça, pois tem muitas fotos, as antigas e muitas atuais. Tivesse tempo teria seguido algo do roteiro, pois é sempre bom percorrer trechos já esquadrinhados por grandes do passado. Também a respeito li outro, bem mais elucidativo do período de ouro da cidade, lá pelos anos 20, quando uma nata boêmia e intelectual aqui aportou, se fixou e fez história. Trata-se do famoso "Paris é uma festa", do Ernest Hemingway. Já escrevi dele por aqui algum tempo atrás e hoje, ao ler algo dito por Sérgio Augusto, o mesmo me volta à memória: "Uma Paris que só existe hoje na lembrança, notadamente na memória das ruas, dos prédios, hotéis, livrarias, quiosques, bares, cafés, bistrôs e jardins onde os mais notáveis expatriés deixaram suas marcas".
Estar em Paris é mais que tudo, voltar ao passado. Ele está e continua muito presente por todos os lados desta cidade. De todas as que estive, sem sombras de dúvidas, a mais intigante e provocante. Gostei de todas as que estive, Porto, Lisboa, Roma, Nápoles, Florença, venez, Milão e Paris. Porém, Paris é muito mais do que a festa descrita pelo escritor norte-americano. Uma pena eu não falar a língua. Conversando com amigo brasileiro, ele me contava de seu irmão, que não quer saber de aprender a língua francesa, pela justificativa: "É uma língua morta". Pode ser, mas o charme dela, para mim, suplanta a de qualquer cidade norte-americana. Por aqui flui algo que mesmo em Nova York não vejo possível. Além de tudo, tem muito mais história, "anos luz" à frente. E o melhor de tudo, para mim é flanar por essas ruas. Aqui tem cada lugarzinho, pontos comerciais, tão delicados, não existentes em nenhum outro lugar do planeta. Paro diante de alguns destes e fico imaginando: como pode existir um lugar assim, ser um ponto comercial e gente ir ali, não para admirar, mas para comprar algo. O francês é diferenciado e isso me é encantador. Não consigo conversar com nenhum deles sem um bom intérprete, mas consigo me virar pelas ruas. Pego metrô, ando de ônibus e me safo sem me perder adoidado. Se perder por aqui faz parte do negócio e querer continuar perdido é que é a verdadeira perdição. Eu quero isso.
"Se você teve a sorte de viver em Paris quando jovem, sua presença irá acompanhá-lo pelo resto da vida, onde quer que você esteja, porque Paris é uma festa móvel", escreveu Ernest Hemingway em carta a um amigo , 1950. Isso é uma coisa, porém a escritora Gertudre Stein, abelha mestra da Rive Gauche, outra estrangeira que aqui se fixou até seu falecimento, foi na veia: "Era em Paris que estava o século XX". Sim, era isso mesmo, mas no livro que leio ressalto algo mais desses estrangeiros que por aqui aportavam: "...convencidos de que era mais fácil e sobretudo mais chique, ser duro na capital francesa do que em casa". Mais do livro: Thomas Jefferson, o primeiro a proclamar que todo mundo tem duas pátrias: o país onde nasce e a França" ou "é incontável o número de aficionados que já foram a Paris para peregrinar os lugares onde os escritores e seus personagens circularam e encheram a cara", ou "Montmartre? É de outra era. (...) A pé, sempre a pé; flâneur que se preza não anda de táxi, nem de ônibus, flana tout simplement".
No momento o que me cativa e me deixa transtornado, amante de papéis como sou, encontrar por aqui ainda em pleno funcionamento incontáveis bancas de revistas e jornais pelas ruas. Entro e mesmo sem entender uma linha, folheio várias e se não me impedem, quero trazer tudo, acreditando que um dia irei traduzir. As bancas daqui me atraem e me fazem desviar de qualquer caminho previsamente traçado. Creio eu, estar diante do país com o maior número de banacs de revistas do planeta na atualidade. Ou seja, o francês continua se interessando por ler no papel. As edições das revistas e jornais são pra lá de lindas e os caderninhos de escrevinhações, um mais lindo que o outro, todos merecedores do preço que ostentam. São caros, mas são verdadeiras obras de arte. Enquando Ana Bia quer visitar museus, tudo previamente agendado, eu me perco é nas bancas. Ficaria dias inteiros entrando numa e saindo de outras. Hoje mesmo, terça, 10/02, segui Ana em museus e amanhã já a avisei, ela me acompanhará. Iremos ruar e ela terá que ter a paciência que tive com ela. Iremos ruar o dia inteiro, chova ou faça sol e no comecionho da noite, convidada por uma amiga dela, dos seus tempos de ginário, aqui morando há mais de vinte anos, jantaremos pela aí. Ela sempre nos leva em lugares com a cara deste país. A França resiste e eu a admiro demais por causa exatamente disso. Gosto dos resistentes e este país e de uma beleza indescrítivel, justamente por este motivo.
Ficaria horas por aqui descrevendo algo dessa devoção pela cidade. Chego no hotel ao final de mais um dia, sempre muito cansado, pois andamos hoje à exaustão. Circulamos os quatro pela margen do Sena, Léo empurrando sua mãe numa cadeira de rodas e se continuasse a escrevinhação do dia, reservaria tudo o mais para os bouquenistes, os pequenos comerciantes, antes só de livros, espalhados pelos dois lados da margem do rio, hoje vendendo também souveniers para turistas. Foram tombados pelo patrimônio imaterial da humanidade e dão o toque diferenciando este rio de todos os demais. Já escrevi destes alguns anos atrás por aqui e em cada viagem quero ir revê-los. É como eu ir na Feira do Rolo lá em Bauru e não passar na Banca do Carioca, o livreiro da Feira do Rolo. Impossível. e o faço não para comprar nada, mas para tentar imaginar como se dava o trabalho dos pioneiros ali junto ao famoso rio. Isso me faz levitar sem tirar os pés do chão. Viajo de olhos abertos e se bobear caio no rio, ou na sua margem, onde gente corre o dia inteiro.
Paro de escrever para arrumar as malas e dormir. Devo sonhar com o que encontrarei amanhã na despedida da cidade. Até...

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