quarta-feira, 20 de maio de 2026



CHOVE EM LAVRAS-MG, SABE ONDE FUI ME ABRIGAR?*
* Não percam o curto vídeo, 5 minutos, com João nos contando algo mais de seu belo ofício. Eis o link para o vídeo: 
https://web.facebook.com/100000600555767/videos/pcb.27743129948623651/1517710569986157

Qualquer forasteiro sabe muito bem onde pode desbravar histórias do lugar por onde está passando e um destes lugares, além das barbearias, bancas de jornais e quetais, são os sebos. E daí, quando se encaixa do dono deste estabelecimento ser bom de ouvido e de prosa, daí por diante, histórias inenarráveis e mais que isso, horas e horas passadas por ali. Sabe-se que, a ida aos sebos não se dá exatamente ou tão somente para cavar preciosidades, como livros, LPs, CDs e coleções, mas também conversar.
Na manhã de hoje, o céu resolveu cair sobre Lavras naforma de chuva e para quem estava muito a fim de bater perna, conhecer um lugar gastando sola de sapato bocadinho mais da cidade, este objetivo não era mais possível. Por pura sorte e uma dessas coincidências que só o destino sabe explicar, nessa estada de uma semana aqui pelo interior de Minas, estou hospedado há menos de cem metros de algo mais do que provocador, diria mesmo, magnetizante, instigante e eletrizante, um sebo. Mas não se tratava de um sebo qualquer e sim, o do JOÃO DA PRAÇA.
João Batista Carvalho seu nome, 68 anos e há 32 com o sebo em pleno funcionamento. Aposentado do maior empregador de Lavras, a UFLA - Universidade Federal de Lavras, bem antes de encerrar as atividades por lá já tinha aberto este negócio que, iria transformar sua vida. Antes foi gerente de cinema e dono de vídeo locadora. O nome "da praça" se juntou ao dele depois, pois todo domingo acontece numa praça central de Lavras uma feira, com muito de artesanato e culinária. Como não poderia deixar de ser, sua banca de livros se firmou e hoje faz baita sucesso no local. Mais um livreiro na feira, igual ao de Bauru, o Carioca, da Feira do Rolo. Outros tantos existem pela aí espalhando cultura e entretenimento.
Dá para perceber, este João é um senhor de bem com a vida. Sabe que seu lugar é também espaço para terapia coletiva e assim dá prosseguimento aos seus dias, abrindo de segunda a sexta, das 10 às 18h e nos sábados até às 15h. E aos domingos, amanhece na praça e como nunca aprendeu a dirigir, leva seus livros pro local através de um frete, R$ 110 pra ir e mais R$ 110 pra voltar. Rindo me diz: "Já começo no vermelho, com $ 220 de gastos, mas as idas lá nunca me decepcionam". Disse mais e gravei isso de cara: "Livreiro tem que saber do seu riscado. Eu ainda leio muito, mas algo que sei é sobre escritores e de música. Tenho comigo, se alguém me pergunta, por exemplo, se tenho O Alienista, sou obrigado a saber que, no mínimo é obra do grande Machado de Assis. Se demosntro desconhecimento já é uma porta se fechando. Eu fico me informando sobre meu negócio o tempo todo e dificilmente nada sei de um autor".
Seu pequeno espaço é muito bem organizado e ele me disse que, antes de mais nada "se faz necessário estar num ponto bom. O ex-dono do grupo Pão de Açucar, Abílio Diniz, quando sua filha o questionou sobre onde abrir um novo negócio, ele lhe respondeu ser necessário três requisitos: ponto, ponto e ponto. Aqui pode ser pequeno, mas tem ótima localização. E eu sei onde está cada coisa, tudo muito bem dividido, por temas e até por autores". Não diria que o João é um "grilo falante", mas gosta de falar e o faz na medida exata. Deixa o cliente muito a vontade e tem uma forma peculiar de armazenar os livros, ao invés de em pé, eles deitados, o que dificulta retirar os embaixo. "Eu estou aqui para que? Me diga? Eu tenho um jeito, tiro e ponho quantas vezes for necessário. Tudo faz parte do meu ofício".
Assim como o Carioca, o livreiro lá de Bauru, ele não gosta e não vende pela Estante Virtual. Explica os motivos, pegando um dos livros que separei para comprar. Pesquisou e encontrou preços desde R$ 10 reais até R$ 60 reais. "Isso é demais para mim. Eu sei negociar e tenho um preço bem abaixo do que lá está prescrito. Até aceito um chorinho de última hora, mas se o cara for conferir, verá que, além de ter participado de uma roda de prosa, dessas que dificilmente irá encontrar outra igual por aí, o preço dado é mais do que justo", explica. Percebe-se em sua fisionomia fazer o que gosta e ter encontrado um ofício onde se realiza plenamente. Sabe não vai ficar rico, mas sabe também e não quer fazer outra coisa em sua vida. Diz continuar por um óbvio motivo: paixão.
Vou lhe perguntando várias coisas ao mesmo tempo e ele, enquanto atende clientes e chamadas por telefone - onde se mostra também ser bom psicólogo -, me conta algo mais sobre seu público. "Uns 70% são mulheres e elas gostam mais de romances, depois vem os homens, que nos seus 30% preferem mais filosofia, política e história. Claro, os jovens das universidades frequentam muito e tem muita coisa para eles. As raridades eu não disponho, muito menos descarto - como uma coleção encadernada do velho e saudoso O Pasquim -, mantenho tudo na estante, pois sei, hora ou outra aparece alguém querendo justamente aquela raridade", conta.
Ficaria horas por lá, mas a chuva havia dado uma trégua e já estávamos mais do que na hora de comer algo. Foram horas ali, eu, ele e alguns clientes que, como eu, fizeram uso daquele espaço como refúgio, o melhor deste mundo para dias como hoje. Brinco em como poderia lhe designar, se sebeiro, sebento ou mesmo seboso e ele tira de letra: "Melhor LIVREIRO, mais justo, honesto e carinhoso". De minha parte, como estarei por aqui a semana toda, irresistível não querer voltar e como inveterado amante de livros e leitura, recomendo que, passando por essas bandas do mundo, local encravado no coração das Minas Geraes, nada como vir conferir se fui justo ou aumentei bocadinho dos predicados do lugar.

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