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quinta-feira, 29 de outubro de 2009

MEMÓRIA ORAL (74)

UMATESOURA EM VIAS DA APOSENTADORIA
A Alfaiataria Tesouro de Ouro funciona na mesma quadra da avenida Rodrigues Alves, centro de Bauru, desde 1955. Primeiro no nº 9-51, por 25 anos e depois, do outro lado na rua, no nº 9-68, mais 29 anos, totalizando 54 anos ininterruptos. Ali, em pleno funcionamento e sempre tendo à frente, o descendente direto de espanhóis, Maciel Ortiz, a incorporar o próprio nome do estabelecimento. Desconfiado na abordagem inicial, mas muito franco e aberto após alguns minutos de conversa, confessa que, hoje nas vésperas de completar 85 anos de vida (em 21/12), pensa em parar: “Talvez esse seja meu último ano por aqui, quero descansar, penso em vender o ponto. Aliás, só trabalho para não ficar parado dentro de casa”.
Ele sempre trabalhou nessa profissão. Quando veio de Nova Europa para Bauru em 1944 já era alfaiate e o fez para cumprir as obrigações com o serviço militar, no antigo Tiro de Guerra. “Fui contra-mestre do alfaiate Fratiano durante seis anos, até conseguir me estabelecer. Quando cheguei aqui escapei da guerra, pois me apresentei com carteira de 3ª categoria. O presidente Dutra acabou nos anistiando depois e só voltei para Nova Europa, em 1949, para casar”, conta com muita empolgação, sem deixar de costurar uma calça na máquina de costura.

Sua história é sempre cheia de detalhes, pois Maciel não é homem de poucas palavras. Possui uma memória privilegiada e ao relatar algo, lembra-se de outros e as histórias se sucedem. “Esta é a oitava reportagem com a Tesoura de Ouro. Relembrar é comigo mesmo, pois já fiz roupa para meio mundo aqui em Bauru. Hoje os tempos são outros e acabo fazendo ternos para aqueles que não existem manequins, como os gordos. Para aqueles que não encontram numeração nas lojas. Não entro em competição de preço, o meu terno sai de R$ 500 a R$ 600 e sei que nas lojas vendem três vezes mais barato que aqui. Hoje, no máximo faço de cinco a sete por mês. Na maioria das vezes trabalho sozinho e só quando aperta, distribuo para outros me ajudarem. Mais arriscado ainda é trabalhar para gente que não quer pagar. Leva a peça pronta e sobra a canseira de ficar cobrando. Tenho alguns casos assim”, conclui sem ressentimentos, mas ciente de que exerce uma profissão quase em extinção.

Quando lhe pergunto sobre o passado, parece respirar um pouco antes de responder: “O que ocorreu na profissão é estranho. Hoje as pessoas alugam o terno e devolvem, tudo por volta de uns R$ 100 reais. Isso é estranho para mim. Quando comecei nem se pensava em emprestar um terno de outra pessoa para uma festa, um casamento. No passado, uma mulher alugar um vestido para uma festa era uma vergonha. A época é outra e tenho que ir me adaptando. Deixei de fazer smokings, porque as pessoas acham muito mais barato alugar”. Ele que se aposentou em 1984, afirma também, que "se não tivesse sido econômico, hoje estaria em dificuldades, pois no início recebia seis salários e hoje não passo dos três mínimos".

Na continuidade da conversa faz uma reflexão muito interessante sobre a profissão: “Em 1943 aqui em Bauru tinha uns 30 alfaiates e 46 mil habitantes. Hoje somos 300 mil e pouco e somente uns quatro estabelecidos e mais uns quatro trabalhando em casa. A profissão foi acabando. Não arrumo mais um oficial para ensinar a profissão. Cheguei a ter oito empregados em 1960, ganhei dinheiro, apliquei e fiz um pequeno pé de meia. Seria até falta de caridade eu ensinar uma criança a profissão e fazer ela passar dificuldades. Não faria isso. Ela não teria o que fazer daqui a alguns anos”.

“Já fiz roupa para meio mundo, desde prefeitos, deputados e não gosto de ficar citando as posições. Trabalhei para todas as classes, fiz muitos ternos para ferroviários. Já fiz terno em dez prestações. Todo jovem tinha o seu terno e gostava de usar nos mais diferentes lugares”, relata quando lhe perguntei quem mais compravam ternos. Isso faz com que toque em outro assunto: “Todo mundo me pergunta dos motivos da profissão de alfaiate estar em extinção e você não me perguntou isso. Já sabe a resposta, né? Em 1997 fui à Europa e lá já presenciei a decadência. As profissões que não se organizam, não se modernizam, acabam fenecendo. Eu não quis me industrializar, teria que gastar muito, sem a certeza do retorno. Preferi continuar do mesmo jeito que comecei e sobrevivi”.

“Uma das coisas que mais me realizaria hoje era uma dedicação para a parte social, trabalhar para os pobres. Estou sentindo também uma necessidade de ficar mais em casa, curtir a esposa Isa, pois ela não está bem de saúde. Tenho que pensar nisso também, mas quando penso em abandonar, bate uma dorzinha lá no fundo. Ainda estou pensando”, conta sobre a vontade de parar. Por fim acaba por se lembrar de um conselho dado pelo seu filho: “Ele me pede para ficar só para receber os amigos e para não ficar em casa sem fazer nada. Tem as duas coisas. Nada ainda está decidido, pois pago aluguel aqui há 54 anos”. Quando saio à porta para as despedidas, olha para o movimento e percebo o quanto ele sentirá falta dessa movimentação se optar por cerras as portas e guardar a “tesoura de ouro” na gaveta.