terça-feira, 6 de maio de 2008

MEMÓRIA ORAL (32)

A DESPEDIDA DO VELHO COMUNISTA
A notícia vazou pegando a todos de surpresa. O mais velho comunista de Bauru, Arconsio Pereira da Silva, com 92 anos completados recentemente estaria prestes a deixar a cidade, indo residir em São José do Rio Preto. Algo estranho pelo inusitado disso ocorrer justamente no momento seguinte a ele ter conseguido algumas reparações financeiras, após décadas de muito sofrimento, resultando na compra de sua casa própria e a da sua aposentadoria ser regulamentada.

Sofrimento é algo que Arconsio soube muito bem enfrentar durante toda sua vida, pois esteve a frente de incontáveis perseguições, todas derivadas por uma escolha que fez na vida, a de ser comunista e defender os direitos dos trabalhadores brasileiros, principalmente os da categoria dos ferroviários, sua principal atividade profissional ao longo de toda vida. Mudar de cidade todos podem fazê-lo na vida, até porque esse bravo nordestino fez isso em outras ocasiões. Veio muito cedo para o estado de São Paulo, construindo toda sua militância por aqui, constituindo família e obtendo o ganha pão, nas mais diferentes atividades profissionais.E por que, justamente agora, quando tudo parecia estar nos eixos, iria deixar a convivência com a cidade que o abrigou e os amigos conquistados por quase uma vida toda? Essa pergunta martela a cabeça de todos seus amigos e para respondê-la, só mesmo indo até o encontro de tão intrépida pessoa, ouvindo de sua própria boca os motivos para tão brusca decisão. Foi o que fiz, no final da tarde de 1º de Maio, feriado do Dia doTrabalho, encontrando-o só em casa, onde reside com a esposa Zuleide Julia de Souza da Silva, 57 anos, num bairro da periferia da cidade. O dia estava um tanto frio, chuvoso e Arconsio me recebe no portão, bem agasalhado e me convidando para logo adentrar o interior da casa, pois ventava um bocado naquele dia.
Somos velhos conhecidos. Estive ao lado dele num embate na Associação dos Aposentados, do qual é sócio fundador, com a carteirinha de nº 1, gravei sua festa de 90 anos num vídeo para a Secretaria Municipal de Cultura e acalentava um sonho de escrever algo mais volumoso sobre sua vida, tão cheia de histórias, todas intensamente vividas. O sonho do livro se desfez pela falta de tempo, mas estamos sempre nos ligando e nos encontrando nos acontecimentos da cidade, principalmente os da dita esquerda nativa. Isso me faz inquiri-lo de imediato sobre o assunto que me fez ir até lá dessa vez: "O que está te fazendo ir embora, meu velho?"."Comecei aqui, vi esse Bauru crescer. Ano passado a esposa foi me encorajando a mudar e tudo foi acontecendo aos poucos. Ela me quer ao lado das sobrinhas e já não decido nada sózinho. O que achar mais conveniente a gente faz. Vou sair daqui e morar com as duas sobrinhas, mais ela, num apartamento. Quando concordei, a esposa cuidou de tudo, arrumou comprador e até já vendeu a casa. Mudo até o final de maio, pois quando sair o financiamento do comprador, ele quer logo a casa. Só sei que em junho volto para o Nordeste. Fico mais uma temporada por lá, talvez uns dois meses, entre o interior de Alagoas e o Recife. Mas acho que ainda volto a morar por aqui", diz um Arconsio meio sem jeito. Muitos de sua família não sairam doNordeste, tendo sete irmãs em Maceió, uma em Viçosa e dois irmãos trabalhando no campo. Tem pressa em revê-los, pois sabe que da vida já usufruiu um bom bocado.
Acompanha a vida da cidade pela leitura do jornal, pelos noticiários de TV e rádio e pelos amigos, nas ligações telefônicas diárias. Disso vai sentir muita falta, pois lá em Rio Preto estará bem distante dos acontecimentos do lado de cá. Sai raramente de casa e uma das últimas foi para prestigiar a justa homenagem que a Câmara de Vereadores prestou para o amigo SebastãoPereira da Silva, um outro militante político, também cassado, num título de Cidadão Bauruense. "Só achei chato uma coisa, o ex-prefeito Nilson Costa me evitou, procurou se virar quando me viu, não me cumprimentou. Deixa pra lá", conta ele.
É um inveterado contador de histórias e as suas são sempre recheadas de muitos detalhes, como a acontecida em 1949, durante uma greve de ferroviários, quando foi preso justamente e tão somente por fazer greve, presenciando na delegacia a chegada de Guiomar Ferrari, que havia matado um funcionário público da Noroeste. "Matou com revólver e depois furou também. Nem ficou presa naquele dia, foi bem tratada e eu lá no fundão. Só depois ela foi condenada. Nossa sociedade era assim, fiquei seis meses preso e ela teve ampla liberdade", vai lembrando Arconsio. Quando relembra fatos das ferrovias, enfatiza que: "A Paulista era uma estrada admirada por todos, nem demonstrava que existia patrões e empregados. Todos era bem interessados nos destinos da empresa, tudo organizado, bem conservado, com ótimo atendimento. Acertava o relógio com o trem. A Noroeste sempre foi uma estrada mais regular, sempre teve uma má administração, era federal, com gente indicada pelo Governo. Teve um tempo que se desenvolveu mais e foi bem conservada. Agora, lá para cima, no Mato Grosso, Ponta Porã era ruim. Foi muito errado acabar com a Noroeste", conclui o velho militante.
Pelas suas contas trabalhou por 20 anos na ferrovia, tendo mais 37 anos como anistiado, do qual espera receber um dia, ainda em vida. "Quando veio o Governo Montoro ele tinha que resolver o problema de 32 ferroviários. Dentre eles o meu. Continuo com muita esperança, como acredito muito no Governo Lula. Sou admirador dele, é um grande presidente. No Nordeste, de cada dez, oito são a favor dele. A situação que ele pegou o país foi muito ruim, não estava nada boa e hoje é bem outra. Isso é um princípio humano que, as vezes a gente critica e o Lula também ajudou todos os parentes dele", continua relatando.
Quando voltamos a comentar sobre sua despedida da cidade, desabafa: "Eu queria mesmo era mudar daqui onde moro. Aqui já foi muito violento, hoje está bem melhor. Quero voltar para Bauru quando sair minha indenização. Vou voltar, afinal foi aqui que vivi a maior parte de minha vida". Não se furta a comentar os temas latinos: "A Venezuela está bem mais quente do que aqui. Eles estão com o americano na garganta". E sobre as eleições que se aproximam, diz sobre a situação local: "Fico triste por ver o PMDB dividido. O grupo de esquerda parecia que ia ser fortalecido, ainda é uma força e pode ter um bom fim. O Tuga (atual prefeito de Bauru) é que não quer aparecer tanto. Eu gosto dele. As suas demonstrações a respeito dos candidatos, dizendo que da Rosa (Rosa Izzo, provável candidata à prefeito) nada podia falar, pois ainda nada fez, foram muito boas". Tudo isso continua demonstrando o quanto está antenado com nossos assuntos do momento.
Na despedida, diante de um belo jardim, muito bem cuidado, ocupando toda a frente da casa, revela uma desilusão: "O comprador vai acabar com as minhas árvores. Já falou que vai derrubar o pé de graviola. Olha como está florido, não vai dar nem tempo de colher os frutos". Nisso, já na calçada, quem chega é a esposa Zuleide. Tiramos fotos juntos e antes de adentrar o carro, me segurando pelo braço diz: "Você volta aqui antes de ir em definitivo, não?".Henrique Perazzi de Aquino, escrito em 04/05/2008.

domingo, 4 de maio de 2008

UMA CHARGE (3)

HENFIL E O URUBU DO FLAMENGO

Escrever sobre Henfil emociona qualquer um. Existem tratados sobre a obra desse grande artista brasileiro. Relembro aqui uma das tantas passagens em sua vida, uma que muito me marcou. Aqui no meu mafuá tenho uma infinidade de coisas dele, desde livros, desenhos nos velhos O Pasquim, Fradim e participações variadas em teatro, cinema (sim, Henfil dirigiu um filme) e charges, muitas charges publicadas nos mais diferentes lugares.Henfil fez de tudo um pouco e lá atrás, nos anos 70, 80, quando estava no Rio, publicou charges sobre futebol, ainda no Jornal dos Sports. É dele o nome de Urubu para denominar o time do Flamengo, nome que pegou e é usado até hoje. E justamente hoje, quando o Flamengo aplica um 3x1 sobre o Botafogo e fica com título de campeão carioca de 2008, fui buscar uma charge publicada recentemente no livro "Urubu" (editora Desiderata, 2007), relembrando aquele período e a reproduzo aqui. Henfil merece outras lembranças, que certamente farei aqui, mas como hoje é mais um dia de flamengar, fica essa para começar.
RETRATOS DE BAURU (21)

FERNANDO, DO TEMPLO
Esse barbudo aí das fotos não gosta muito de ser fotografado, mas é uma das pessoas mais simpáticas e eficientes da cidade. Tempos atrás o chamei de "O arquiteto que virou suco", misturando um pouco o título do famoso filme, sua trajetória e a profissão abandonada, tudo pelo sucesso que seu bar, o Templo mantém ao longo dos anos (mais de 20). Quando estava na faculdade já ia lá, nos tempos em que lá havia um quintal, cheio de árvores. O astral continua o mesmo, com o espaço ampliado, pois dia desses assisti por lá um belo show instrumental, bem ao estilo diferenciado de tudo o que acontece naquele sacrosanto lugar. Numa outra feita, quando li uma frase do Aldir Blanc achei que o escrito era a cara do bar do Fernando e enviei a ele, numa carta para um jornal. A frase dizia: "Buteco é Templo e lá se desenvolve a mais pacífica e prolítica das atividades humanas: jogar conversa fora". O Fernando recebe a todos com uma cordialidade do tamanho do seu imenso corpanzil e possui uma das cozinhas mais respeitadas da cidade. As fotos foram tiradas meio que na surdina, mas isso não deve ofender nosso homenageado.

sábado, 3 de maio de 2008

UMA MÚSICA (22)

ELBA EM BAURU

Foi um dos melhores shows que assiti em Bauru. Elba saiu de avião e não conseguiu pousar por aqui. Chovia muito e ela teve problemas mil no ar, turbulências variadas e seguidas. Passou o diabo nas alturas. A cidade, com dois aeroportos, nenhum deles com aparelhagem para um avião pousar em dias de instabilidade. O recurso foi descer em Araçatuba e vir de táxi para cá. Todos esperavam um show tenso, mas acontece exatamente o contrário. Ela estava divinal, com um visual de cair o queixo, contagiou a todos com sua espontaneidade e alegria no palco. Contou histórias, cantou tudo o que foi pedido e saiu estenuada após mais de suas horas cantando e encantando. Esbanjou simpatia também fora do palco, onde ficou por mais de meia hora junto aos fãs, tirando fotos e assinando CDs (vendidos a R$ 20 cada, gravadora independente, dela mesmo). Levei alguns que tenho para ela autografar e o fez conversando sobre cada um deles. Esse último CD, o "Qual o assunto que mais lhe interessa?", está bom, cheio de compositores nordestinos e com lindas canções. Destaco uma que, com toda certeza fará o maior sucesso.
A NATUREZA DAS COISAS (Accioly Neto)
Se avexe não/ Amanhã pode acontecer tudo/ Inclusive nada/ Se avexe não/ A lagarta rasteja/ Até o dia em que cria asas/ Se avexe não/ Que a burrinha da felicidade/ Nunca se atrasa/ Se avexe não/ Amanhã ela pára na porta/ Da sua casa/ Se avexe não/ Toda caminhada começa/ No primeiro passo/ A natureza não tem pressa/ Segue seu compasso/ Inexoravelmente chega lá/ Se avexe não/ Observe quem vai subindo a ladeira/ Seja princesa ou seja lavadeira/ Pra ir mais alto vai ter que suar.

Nessa última foto, Elba (rosto vermelho, pois havia saído recentemente de uma cirurgia) e o amigo Adalto Granja, outro que encantado ficou com tão encantada criatura.
UMAS CARTAS (7)
Em 23/04 o jornal Bom Dia aqui de Bauru publica uma carta minha sobre algo que havia lido num texto do articulista deles, o advogado Ivan Garcia Goffi:

O USO DE TERMOS CHULOS
“Leio rotineiramente nos textos do articulista desse jornal, Ivan Garcia Goffi e de alguns missivistas, o uso indiscriminado de termos chulos quando retrata algo referente ao Presidente da República, o popular Lula.
Além da deselegância, existe um algo mais embutido nisso tudo, algo um tanto discriminatório, totalmente desnecessário. Lula possui seus erros (muitos, aliás), porém o país hoje é infinitamente melhor do que o deixado por seus antecessores. Reconhecer isso é algo edificante, demonstra humildade e não querer falsear a verdade dos fatos.
A corrupção está enraizada em nossa sociedade e não é exclusividade desse Governo (vide o caso dos Cartões Corporativos, enlameando tanto os atuais, como os anteriores). Esse, pelo menos mantém as coisas mais claras, com os gastos publicados no site Transparência Brasil, o que antes não acontecia e pune os deslizes.

Quem de fato, luta por um país cada vez melhor, não se importa nem um pouco se temos como presidente um letrado ou um iletrado, pois a inteligência e a honestidade vão muito além disso.
O buraco é mais embaixo e, quer queira ou não uma parcela da população, Lula faz um Governo como nunca dantes tivemos. Não enxergar isso demonstra algo mais, além de uma simples miopia. Reconhecer qualidades nos adversários é um verdadeiro gesto de nobreza e quem o pratica não mente pra si mesmo”.



Esperava algo dele e veio numa carta publicada na edição de 26/04, com o título “Lula”:
“O leitor HPA, em carta publicada na edição do BOM DIA de quarta-feira, sob o título “Lula”, parece que não tem entendido a abordagem que faço do governo Lula. Os fatos, irrefutáveis, demonstram que nunca houve, na história deste país, esquemas de corrupção tão arraigados na máquina administrativa.

Mais que endêmica, a corrupção tem sido sistemática, deixando-nos a nítida impressão que jamais nos livraremos dela.

Embora a corrupção seja uma chaga desde tempos imemoriais, esse governo a oficializou. O presidente, em vez de calar-se, avalisa a conduta de cada integrante, mesmo com provas que vicejam em sentido contrário.
A verdade é que Lula encontrou um cenário altamente promissor. O capitalismo rege-se por regras próprias e, nessa condição, o Brasil caminha sozinho há anos, fruto que amadureceu por causa do Plano Real.

Os programas e bandeiras de governo de Lula apenas geram despesas que, concorde ou não, são mantidas às custas do esforço hercúleo e trabalho da elite e da classe produtiva. A mesma elite que Lula tanto critica.

Assim, na condição de cidadão diretamente lesado pela política populista e perniciosa de Lula, ninguém me tolherá o direito de criticá-lo, independente dos argumentos ou expressões que eu venha a usar”.

Pois bem, para não continuar enchendo o saco do leitor, resolvi não enviar para o jornal outra resposta. O faço aqui nesse espaço e se conseguir que ele leia, melhor:

“Goffi, como afirma em sua carta enxerga tudo somente sob sua ótica, caolhismo desenfreado, ainda mais porque pronuncia algo que não conseguirá provar: “nunca houve corrupção tão arraigada na máquina administrativa”. Uma pena, que pessoa com tanto preparo, omita nosso passado de muita lama. O que nunca houve, na verdade, é tanta gente intimada, respondendo por seus atos escusos. Isso é sinal de que algo funciona, vide o trabalho da PF.

Ele não me entende. Faço questão de cutucá-lo, pois ele tem a mania de criticar o atual presidente, escondendo para debaixo do tapete o que foi feito por governos anteriores, que ele defende e prega o retorno. Isso para mim é insuportável. Aqueles que criticam ambos com a mesma veemência, isento de ficar enviando cartas.

Logo a seguir, me faz rir quando diz que Lula “encontrou um cenário altamente promissor” para navegar na calmaria que o país hoje atravessa. Falar em calmaria é algo mais do que tendencioso, pois enquanto os EUA, o condutor do mundo neoliberal está em profunda crise, dissolvendo-se a olhos vistos, o Brasil de Lula segue seu rumo, sem transtornos. E Lula nada faz? (O megainvestidor George Soros escreveu que está é a maior crise dos capitalismo nos últimos 60 anos).
Ser opositor é uma coisa, ser caolho é outra. Acredito até que Goffi esteja tentando nos passar uma mensagem nas entrelinhas: se Lula navega na calmaria, com os EUA no atoleiro, nada melhor do que Lula continuar no comando da embarcação. Afinal, já pensaram se entra alguém sem sorte no seu lugar?

Para encerrar, sigo em frente, citando dois textos de dois gurus aqui do mafuá. O mestre Mino Carta diz: “A minoria privilegiada repete as frases feitas que os jornalistas e os seus patrões lhe põem na boca, enquanto a maioria dos brasileiros forma a caravana, e passa ao largo, indiferente”. De outro batuta, o escritor Luis Fernando Veríssimo (que estará em Bauru, no SESC, dia 07/05): “Agora tivemos um terremoto de escala respeitável. Não faltará quem culpe o governo Lula pela nova instabilidade nacional, o que é obviamente um absurdo. Todos sabem que os desastres climáticos e geológicos se tornaram mais freqüentes e destrutivos no mundo, nos últimos anos, por culpa do neoliberalismo”.

sexta-feira, 2 de maio de 2008

DICA DE LEITURA (18)
Loyola, como já afirmei aqui recentemente é um mago da escrita bem elaborada e proporcionou a Bauru uma grande surpresa em sua crônica semanal publicada no Caderno 2, do jornal O Estado de São Paulo, edição de sexta, 25/4, com uma crônica falando de Bauru, da estação e citando meu nome. Estou num contentamento de dar gosto, tanto que até já emoldurei a página do jornal. Não tenho palavras para agradecer o carinho. Suas generosas palavras com referência ao nosso Museu Ferroviário, com 15 linhas, tratam-se de algo valoroso e demonstram todo o carinho do público em geral para com quem olha para a ferrovia com olhos esperançosos. Hoje, em homenagem ao Dia do Ferroviário, ocorrido dia 30/04, publico aqui o texto dele.

Bauru, museu ferroviário nacional?
Ignácio de Loyola Brandão
Na viagem entre Araraquara e Vera Cruz, a primeira emoção era a baldeação em Itirapina. Descíamos do trem que ia para São Paulo e esperávamos o que vinha da capital rumo a Marília. A espera em Itirapina era cheia de ansiedade. Haveria lugar sentado? Conseguiríamos, meu irmão e eu, lugar junto aos nossos pais? Havia um botequim e os adultos tomavam café. Durante anos o café de Itirapina foi lenda, motivo de conversas. Era fraco, frio, ruim. Nós, moleques, achávamos mais graça quando passávamos pelo morro Pelado. Imagine, dar esse nome a um morro! Seguindo viagem, vinha Brotas, com o paredão de rochas negras e úmidas, impressionante, Torrinha, nome poético, Jaú, onde se trocava a locomotiva elétrica pela à vapor, Pederneiras e a travessia do Rio Tietê, com a ponte que parecia gigantesca, o rio, amedrontador. Então, Bauru. Que sensação!

A estação era gigantesca (aos meus olhos), elegante, o teto em curva, altíssimo. Como as estações européias que víamos na Enciclopédia Jackson. De tremer de emoção. Majestoso, o trem entrava, apitando, tocando o sino. Cerimonial de arrepiar! Usando uma palavra velhíssima, na estação uma azáfama. Gente por todo lado. Na plataforma em frente, com vagões de madeira, pintados em vermelho e preto, estava a composição da NOB. Sigla que queria dizer Noroeste do Brasil, a dona da estação. Eram os trens que iam para a Bolívia, lugar longíssimo.

Nós que viajávamos pela Paulista éramos esnobes, considerávamos a CP (iniciais da empresa) a melhor, a mais organizada, a mais batuta (como se dizia) do mundo. Mas a Paulista não tinha uma estação como a de Bauru. Logo chegava outro trem, o da Sorocabana. A cidade foi dos mais importantes entroncamentos ferroviários do Estado de São Paulo, superagitado, rico. Unia várias regiões, ligava-se com o Brasil inteiro. Eu ficava na janela vendo passageiros que, saindo de um trem, penetravam num buraco, passavam por baixo dos trilhos, emergiam do outro lado. Era a única estação com passagens subterrâneas sob os trilhos. Nem a estação da Luz tinha isso. Meu sonho de criança era passar por baixo do trem, descendo as escadas. Como seria? Sinos, apitos, gritos, chamados, alto-falantes. Bauru tinha alto-falantes comunicando chegadas e partidas. Meu Deus! Coisa mais moderna! Por que meu pai não se mudava para Bauru como meu tio Neno que trabalhava na Noroeste?
Do lado esquerdo do vagão - de costas para Marília - víamos o pátio ferroviário com seis, sete pares de trilhos reluzentes. E a garagem de locomotivas, em meio círculo. Rezávamos para os outros trens saíssem antes, nada mais incrível do que o trem saindo de Bauru e começando a virar para a direita, uma cobra imensa vermelha. Em seguida a Sorocabana, cujos vagões prateados brilhavam ao sol da tarde. Quem disse que a estação aquietava? Continuava cheia, um burburinho excitado, passageiros aguardavam outros trens, era movimento o dia inteiro. Finalmente a Paulista partia. Cada estrada de ferro saía numa direção. Agora, no vagão, era esperar a chegada do funcionário de uniforme azul-marinho, impecável, bem passado, a camisa branca alva, que trazia uma cesta com sanduíches, maçãs, bananas, chocolate Diamante Negro.

Essas imagens rodaram pela minha memória enquanto passeava pela estação de Bauru na semana passada, quando fui à cidade para a 8ª Feira do Livro Infantil e para uma visita e palestra na Tilibra, onde vi como cadernos são feitos e conversei com gráficos no pátio. Acordei às 7 da manhã com Henrique Aquino, da Secretaria de Cultura, setor de Patrimônio Cultural, à minha espera. Voamos à estação menina dos olhos dele e do Valter Tomás Ferreira, diretor do Museu Ferroviário Regional, lugar cuidado, limpo, cheio de detalhes, que exibe de quepes de funcionários a chaves de linha, maquetes, ferramentas de trabalho, telégrafos, telefones, estafes (um aparelho fundamental, o que liberava a linha para o trem circular), uma mesa posta do restaurante com pratos e talheres originais, fotografias, livros, passagens, uma grade de bilheteria, assim por diante. Um breve panorama do que foram as ferrovias. Numa plataforma, um vagão de passageiros dos anos 40. Dali, passamos para a velha estação. Um choque. Não se pode dizer que é uma ruína, mas caminha para. Soturna, tristonha, deprimente. Sem a manutenção, mato entre os trilhos, muito lixo, poeira, algumas locomotivas e velhos vagões de passageiros abandonados. A imponência e o luxo se deterioram.
Tempos atrás um prefeito quis desapropriar o imóvel, pagar a dívida trabalhista existente com antigos ferroviários e reativar a estação como centro de cultura. Entrou no meio, para empatar, uma empresa privada que ofereceu mais. Para facilitar e querendo ajudar a causa dos ferroviários, a prefeitura retirou o processo de desapropriação. No entanto, a empresa rolou, enrolou e caiu fora. Agora, está tudo estagnado, na estaca zero e o prédio ameaçado de ruir. O que será uma catástrofe, perda imensa. Passeando por ali, aturdido com as imagens do passado, com o apogeu que se foi, desolado, lembrei-me de algumas estações do Brasil que têm sido recuperadas e sobre as quais tenho falado neste espaço. Como a de Araguari, em Minas Gerais, que retomou o estilo palaciano, que ostentou no passado. A estação de Bauru continua imponente, grandiosa, ainda que ferida. De repente, a nostalgia desapareceu, engolida pelo projeto de futuro. Por que não transformá-la em um museu ferroviário nacional, unindo-se prefeitura e empresas privadas da cidade? Tem espaço, atmosfera, ambiente, história, foi ponto de convergência fundamental, tem gente com muito amor e paixão disposta a dar o sangue, a trabalhar! Memória nacional que as ferrovias vêm exigindo. Será possível? Acho que sim!
UMA ALFINETADA (26)
UMA "FORÇONA" PARA O SESC
Se hoje digiro cultura em todas as suas possibilidades, isso se deve a uma formação ocorrida ao longo dos anos. Aqui em Bauru, sempre que posso, não me furto nunca em apontar um dos culpados (com culpa comprovada em cartório) por ter tido essa tendência cheia e excentricidade. Sou uma declarada cria do SESC Bauru, pois desde que passei a me interessar por eventos culturais souberam preencher minhas expectativas e a de milhares de bauruenses. O SESC sempre foi ponta-de-lança no quesito Cultura, em posição de liderança no setor. Isso se deve a algo planejado lá atrás e colocado em prática com uma maestria de causar invejas mil.

Nos anos 80, tenho recordação do primeiro show promovido naquele espaço. Foi com o João Bosco, no tempo em que eles produziam um catálogo, cheio de páginas, contendo todas as letras. Depois vieram Carlinhos Vergueiro, Edu Lobo e tantos outros. Assisti de tudo ali e fui, cada vez mais, pegando gosto pela coisa. Deu no que deu. Bato cartão, tanto na época das vacas gordas, como na das magras. Se a fase atual não anda lá essas coisas (a programação de maio voltou a arrepiar), tenho plena consciência de que a culpa não é da direção do SESC.

Quem freqüenta como eu aquele espaço já tomou conhecimento, desde o ano passado dos problemas ali vividos. Foi necessário um breque em muita coisa e todos do lado de cá sentimos o baque. O comentário era (e é) de que o SESC havia perdido verbas e incentivos, porém, como o samba, "agoniza, mas não morre". Num documento assinado por Danilo Santos de Miranda, atual Diretor Regional do SESC Bauru, está claro o problema: "o Governo Federal tomou medidas para melhoria da formação técnica dos jovens brasileiros que, do modo como estão sendo propostas, por mais bem intencionadas que sejam, constituem ameaça de uma intervenção do Estado em uma entidade privada. (...) O remanejamento de recursos implicará na restrição drástica da diversidade e do alcance da reconhecida ação do SESC. (...) O SESC não pode ser sacrificado no altar de prioridades transitórias"(o documento na íntegra pode ser obtido pelo email@bauru.sescsp.org.br).

Que algo precisava ser feito no setor, bato palmas para o Governo Federal, mas não dá para colocar tudo na mesma cumbuca. O trabalho do SESC precisa ser valorizado, enaltecido e mantido. Vamos juntos bater tambor (bem forte) para que essa chama não se apague. Por outro lado, Bauru possui uma bela junção cultural, única no interior, onde se fundem atividades advindas dos mais diferentes pólos, como Secretaria Municipal de Cultura, Oficina Cultural (Governo Estadual), produtores locais, universidades, CPFL Cultural, o SESC (é claro)e outros, cada um a seu modo alavancando o setor. Tem quem reclame, mas quando olho à nossa volta me sinto satisfeito. Têm para todos os gostos.

PS.: Esse texto é dedicado a um ex-funcionário do SESC SP, Marcelo Pavanato.

Henrique Perazzi de Aquino, 47 anos, descontente por estarmos deixando de pintar a nossa aldeia ou estarmos pintando-a com os olhos do mercado. Isso nunca deu muito certo (http://www.mafuadohpa.blogspot.com/).