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quarta-feira, 13 de maio de 2020

FRASES (196)


A SITUAÇÃO DA LOTAÇÃO DOS ÔNIBUS EM BAURU - O QUE PODE SER FEITO?

Após um post de Sônia Lima, com essa foto e curto texto: "Ônibus fazendo horário de sábado e nesta lotação de que adianta a quarentena". 

Essa foto mostra tudo e mais um pouco. As empresas diminuiram os horários e circulam como se estivessem num sábado ou domingo, com número de passageiros reduzidos. Porém, no horário de pico, na ida e volta do trabalhador a lotação é essa da foto, todos muito juntos, sem conseguirem manter um mínimo de distanciamento. Primeiro se percebe a volta ao trabalho, depois as condições para isso não se mostram favoráveis aos trabalhadores, pois o empresário se diz prejudicado, perdendo dinheiro com o fraco movimento, daí ele decide por conta própria (ou até mesmo com a anuência da Prefeitura), diminuir o número de carros rodando pela cidade. E assim o fazem, e nem uma manifestação, um quebra-quebra, um movimento para reestabelecer a normalidade. Somos mesmo um país de cordeirinhos, pois nos fazem de gato e sapato, continuando impassíveis, cordatos, calados e contidos. Ontem, conversando com a mulher da faxina do lugra onde moro, ela me contava detalhes dos dois horários que pega ônibus, 6h da manhã para o serviço e por volta das 17h da tarde para sua casa. Em todos, essa cena da foto é o usual, a rotina. Ela me diz diante do meu espanto: "Só por deus, meu filho". Sim, ela é religiosa, evangélica e conta com a ajuda do sobrenatural para continuar sobrevivendo e até o presente momento, 65 anos, não ter agora contraído o vírus. "Eu não tenho escolha. Tenho que vir trabalhar. Tenho que entrar no ônibus lotado, pois do contrário não chego no serviço. Não reclamo, pois os que reclamam são mal vistos. Isso de reclamar causa problemas, daí me calo", conclui. E nós, os que podemos botar a boca no trombone e virar isso tudo do avesso, o que fazemos por esses sem voz?

Compartilhando com Elson Reis, Ademir Elias, Ricardo Santana, Ricardo Polettini, Nelson Itaberá, Nelson Fio, Vitor Oshiro, Thiago Navarro, Thiago Roque, José Roberto Segalla, Marcos Souza, Edvaldo Francisco Minhano, Sandro Bussola...


SE GRITAR PEGA "CENTRÃO" NÃO FICA UM MEU IRMÃO
São os piores possíveis. Sujos, imundos, desses que tudo fazem por dinheiro. Sem nenhuma novidade. Sempre agiram assim e mesmo no governo democrático de Lula e depois no de Dilma, aprontaram das suas. Bolsonaro se aproxima deles para simplesemnte tentar continuar sem problemas de cassação de seu mandato. Troca descaradamente cargos e muita verba, emendas parlamentares por apoio. Tempos atrás, foram utilizados para se conseguir aprovar algo mais palatável para a população. Eles só se movimentam e votam com os bolsos bem cheios. Em todos os casos, execrável ter que atender aos clamores destes perversos. São o lado nojento, repugnante, gosmenta dessa coisa denominada política. Nojo!

NÃO É O FATO DE SER SOMENTE CONTRA A ATUAÇÃO DOS MILITARES, MAS...

Após postagem de Silvio Selva com esse texto: "Enquanto o Exército Argentino distribui alimentos e o chinês constrói hospitais. Os pé-rapado, pintor de meio-fio. Lustrador de mosque-FAL do exército brazuca, forjam documentos pra tirar dinheiro de pobre. Vagabundo é pouco".

As Forças Armadas brasileiras estão hoje numa posição nada confortável. Se antes, ou até pouco tempo, se encontravam numa posição "quase" isenta, hoje não mais, pois fazem parte cerebral desse desGoverno do Senhor Inominável, são consultores, enfim, também executores. Credibilidade cada vez mais em queda livre. Não me canso de dizer e olhar para o passado, se antes ao menos nacionalistas, hoje perveros, a maioria das cabeças pensantes destes são neoliberais predadores e favoráveis ao desmonte do Estado brasileiro. Ao aceitar a participação ao lado do capitão, se mostram igual a ele. Podiam ficar sem essas, mas a maioria dos que hoje estão encastelados em cargos públicos, loteando o Palácio do Planalto demostram um compromisso com o atraso. Foi uma decisão do Alto Comando e levando de roldão todo o mais. E quando lá entronizados, tudo o mais acontece naturalmente, pois faz parte da ação diária destes hoje no comando do país, a insanidade. Essa agora, de milhares de militares receberem o Auxílio Emergencial aos necessitados na pandemia, não só algo fora de propósito, pois são todos assalariados e mais, passando na frente, sem a necessidade da tal avaliação rigorosa a que tantos são submetidos e humilhados. De vergonha em vergonha, as Forças Armadas brasileiras denigrem a cada dia algo pelo qual tinham como orgulho. Questão de escolhas, preferências. Que vergonha!


UMA PERDA
O SERGIO LIMA DO FRUTAL LIMA SE FOI...

Em 08/02/2010 escrevi esse texto sobre o Frutal Lima e seu proprietário, SERGIO LIMA. Esse estabelecimento fez história em Bauru e hoje, agorinha de pouco, a triste notícia, o Sergio nos deixou. Ele e o Frutal deixaram uma marca registrada ali na Rodrigues, entre a Gustavo Maciel e a Agenor Meira. Muitas décadas de bom atendimento, aberto até altas horas e sempre com um suco impecável e um lanche inesquecível. Eis aqui o link da história do bar, por mim retratada: https://mafuadohpa.blogspot.com/search?q=frutal+lima

ALGUNS DEPOIMENTOS:
- "Poxa...vendi muito ticket alimentação pra ele...", funcionário público Jean Morales.
- "Frequentei muito nos anos 80, não raro com minha ex-companheira, e sempre com o mesmo pedido: X-Salada e vitamina com leite. Depois as visitas se tornaram mais esporádicas, mas nunca deixaram de acontecer. Uma das últimas vezes levei meu filho para conhecer. Triste com a notícia", professor Almir Ribeiro.
- "Putz , que triste...quantas vezes após fechar a Livraria Vamos Ler as 22:00 , ia para o Frutal comer um X-salada , depois passava no Bar da Rosa , que era bem diferente do que é hoje , e tomar umas pra ir pra casa... descanse em paz Sérgio...", Jorge Simões Cantão.
- "Parada obrigatória antes de pegar meu ônibus pro Parque Vista Alegre, depois da sessão no Bauru I...", Paulo Balderramas.
- "Frequentei muito o Frutal Lima, desde 1973, qdo cheguei aqui na sem limites. Ficava ao lado de um fliperama, (em frente do atual), que eu era viciado. Saia da Fundação e ia pra lá jogar e comer aqueles lanches saborosos. Batia um papo mais com o Élvio, irmão mais velho. RIP, Sérgio.", fotógrafo Pedro Romualdo.
- "Um sobrevivente do Centro. Uma pena. Tive a honra de fazer uma entrevista da semana com ele, para o JC. Descanse em paz", jornalista Rodrigo Ferrari.
- "Notícia triste....era onde , muitas noites, na volta das aulas na FEB, íamos comer o Xsalada e tomar aquela vitamina de morango com leite....", Cleide Portes.
- "Comecei a frequentar o Frutal no ano de 1976, na época frequentava a comunidade de jovens da Catedral e todo domingo depois da missa das 18 horas era obrigatório o x salada e o suco. Não me esqueço certo dia assim que chegou meu x salada explodiu a Nações Unidas, nesse dia a curiosidade foi maior que a fome, com o passar dos anos veio outros hábitos entre eles a cervejinha, depois de bebericar no Lanches Fátima (Gustavo com Batista) a noite terminava no Frutal. Até o fechamento sempre fui assíduo fregues, muitas vezes procurando um fast food para almoçar acabava no x salada do Frutal, amigo além de histórias pudemos desfrutar o sabor que era único", Sivaldo Carmargo.
- "Nos anos 80 batia cartão para tomar caracálcio!", professor Reginaldo Furtado.
Em tempo: Sua morte não foi causada pelo COVID-19 e sim, por complicações no fígado.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2021

PERGUNTAR NÃO OFENDE (168)


TANTAS COISAS, BAURU, LENÇOIS PAULISTA E ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA

1.) DESPEDIDA DE ALGUNS SÍMBOLOS DESTA ALDEIA BAURUENSE
Recebo via watts do amigo, ex-secretário de Cultura, administração Tuga, JOSÉ VINAGRE, uma foto de demolição ocorrendo em edificações da avenida Rodrigues Alves, quadra entre a Gustavo e a Rio Branco. O texto era curto e grosso: "Alfaiataria e Frutal sendo demolidos...". Respondi assim: "Nossas referências indo embora".

O Frutal Lima fechou tempos atrás, logo a seguir seu proprietário por décadas, Sérgio Lima veio a falecer. Escrevi muito dele no Mafuá do HPA. Eis o link: https://mafuadohpa.blogspot.com/search?q=frutal+Lima. A Alfaiataria Tesouro de Ouro, do espanhol Maciel Ortiz, também fechada há anos, quando se aposentou é outro símbolo da avenida, assim como o Carimbos Pavan, também fechado e cuja proprietária, dona Diva faleceu, mas seu marido resiste como aroeira. Seu Maciel já se foi também, a maioria fazendo parte de nossas boas lembranças das andanças por aqueles lugares, hoje todos transformados ou em via de. Eis o link de algo sobre seu Maciel: https://mafuadohpa.blogspot.com/search....

Nada contra as mudanças, com novas edificações surgindo, enfim, pelo sim pelo não, tudo isso faz parte da continuidade da vida de uma cidade. Inexorável em alguns dos casos. O velho centro bauruense está em plena transformação, com muitas outras edificações sendo colocadas abaixo e no seu lugar, algo novo, dentro da concepção arquitetônica predominante, dita moderna. São opções. Em alguns lugares existe a opção da manutenção das fachadas, aqui pouco disso se vê - ou nada.

O fato é que o Frutal Lima e a Alfaiataria Tesouro de Ouro, o Carimbos Pavan e tantos outros já fazem parte de nosso passado, lembrado na memória de quem vivenciou algo ao lado deles. Vivemos tempos onde os lanches tradicionais estão sendo deixados de lado, hoje reino da predominância de algo ao estilo gourmet, de gosto duvidoso. Tenho acompanhado algumas dessas transformações e atestado como, o delicioso lanche feito anteriormente, sendo substituído pelo regabofe de hoje, menos caliente. Quando o "Jr" assume a chefia do negócio, antes ocupada pelo velho "sem noção", criador da coisa, este cheio de modernidades, algumas vezes tudo dá certo, noutras, creio que a maioria, se perdem e acabam fechando ou se diluindo no meio da multidão. Sendo mais um e daí, perdeu-se o encanto.

Poderia escrever também laudas sobre o seu Maciel e sua alfaiataria, assim como outras, mas me restrinjo simples e diretas perguntas: Quantas resistem hoje? Quantas sobraram? Quem são seus clientes hoje? Como sobrevivem diante de tanta coisa pasteurizada, pronta para ser consumida, embalada e com o consumidor a ela se inserindo, não contrário? Alfaiatarias nos remetem a um tempo onde se fazia roupa sob medida e existiam portas, muitas delas abertas e oferecendo seus serviços. Tive o prazer de conhecer algumas delas. Enfim, aquilo que vi com meus olhos não me sai da memória, essa já um tanto cansada, chips avariados, mas ainda resistindo e propondo sempre o novo, mas com os pés também fincados no passado. Enfim, tudo tem que ter bom relacionamento e quando isso não é possível, imensa tristeza. Repito que, um povo que não sabe respeitar e valorizar seu passado, é um povo sem memória, perdido no tempo e no espaço.

Fico triste, mas entendo o que ali acontece. Toquemos o barco, assimilo mais esse golpe com a devida sapiência. Dou valor imenso para os resistentes. Eles existem e se puder, irei lembrando-os por aqui, até como forma de valorização e incentivo para que não desistam. A minha tristeza é tamanha e não se resume somente nessas demolições. São tantas coisas e iria encher muito a paciência de quem me lê se fosse começa a falar disso agora...

OBS.: A primeira foto aqui publicada foi a enviada pelo Vinagre e outra é minha, pois ontem, final da tarde, fui lá e todo envelopado, máscara e afins, tirei fotos do local. 

2.) A INTERMINÁVEL FILA NO MEIO DA PANDEMIA
Cenário hoje pela manhã da confluência das ruas Primeiro de Agosto com Treze de maio, centro nervoso da cidade de Bauru, em seus dias de pagamento principalmente de aposentados, quando as filas dos bancos Mercantil do Brasil e Santander se estendem por mais de cem metros, todos aglomerados e esperando o momento de poder colocar as mãos em seus proventos. Uma cena triste e se repetindo todo mês, dentre o 5º até próximo do 10º dia, numa clara demonstração de que a necessidade suplanta muitas vezes a precaução, daí corre-se todos os riscos, como visto ontem, hoje e amanhã.

3.) O CIRCO CHEGANDO NA BEIRA DO RIO E NA ÉPOCA DAS CHUVAS MAIS FORTES
Tudo ao contrário. Nada contra a livre e necessária circulação dos circos e de tudo o mais, enfim, todos precisamos sobreviver. O problema é que, como já se anuncia, a pandemia cresce, se instala novamente em alta sempre crescente e mais dia menos dia, talvez quando nossas autoridades perceberem o inevitável, tudo volte a se fechar. E daí, o que será deles? Pois exatamente nesse momento o circo Mundo Mágico sai de Marília, onde por lá permaneceu por trinta dias e vem para Bauru. E vem se instalar na beirada do rio, após pesquisar outros tantos, num dos lugares mais prováveis de alagamento nesse período de águas caindo dos céus, bem defronte o Mafuá, ao lado da avenida Nuno de Assis, junto da rua Inconfidência, barrancas do rio ainda bostento Bauru. Dois anos atrás a marca das águas nesse período continua exposta na parede lateral daqui, atingindo mais de metro e meio de altura. Ninguém os avisou do perigo? O pessoal da Prefeitura não os alertaram dos riscos? Torço por eles, aliás, agora são meus temporários vizinhos e estarei ao lado deles por algum tempo, todos juntos em prol de segurar no braço a força das águas provenientes das chuvas de janeiro de fevereiro. Com a pandemia não sei o que conseguiremos? Combinamos por aqui e estaremos desde já de dedos cruzados, tanto para que a pandemia dê um breque, como para que as águas não caiam como de anos anteriores. Na torcida. 
 
4.) O TRATORAÇO EM LENÇÓIS PTA É A CARA DO BOLSONARISMO VIGENTE
O tal do tratoraço estava marcado desde o ano passado e hoje ocorreu em alguns lugares do país, sendo o mais representativo na nossa região o de Lençóis Paulista. O segmento ruralista é conservador, defende somente seus interesses e não estão nem aí para o restante, ou seja, lutam pela sua causa e nada mais. Desta forma, defendem com unhas e dentes tudo o que venha de Bolsonaro e os seus, sem contestação. Referendam a destruição do país, são os tais ditos como alavancadores do "progresso" (sic), que não passa de retrocessos, centralização de tudo nas mãos deles, poucos e sem consciência de coletividade. O Brasil não avança um milímetro com gente como essa. Combater o avanço dessa bestialidade, onde o que menos importa é a agricultura de fato, mas o negócio individual de cada um deles. Pérfidos e perversos. Todo repúdio a todos estes, sem tirar nem por.

5.) "NÓS PARECEMOS UMA REPÚBLICA DE BANANAS", 
disse o senador norte-americano após conseguir escapar do isolamento, depois de ter fugido e se escondido, tudo provocado pela invasão dos trumpistas ao Capitólio. Enfim, o que provocaram à exaustão no mundo inteiro, ontem quase acabou acontecendo com eles mesmos. A História se repete como tragédia. Os EUA provando do seu veneno e da forma mais bizarra. A quinta amanhece, sem que Bolsonaro critique o ocorrido, enfim, ele assim se inspira para ter a mesma prática, quando o defenestrarem do poder, preso pelo conjunto da obra ou pelo voto.

6.) ENFIM, ALGUÉM SE PREOCUPANDO COM O QUE ACONTECE NOS EUA...
VENEZUELA EXPRESSA PREOCUPAÇÃO COM ATOS FORA DO COMUM, COLOCANDO EM RISCO A DEMOCRACIA E OCORRIDOS ONTEM NOS ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

RETRATOS DE BAURU (75)

SÉRGIO LIMA E O FRUTAL DE LONGA TRADIÇÃO
Sérgio Rubio de Lima, 58 anos é figura das mais conhecidas entre os transeuntes da Avenida Rodrigues Alves e de todo o centro da cidade, pois lá está instalado há exatos 46 anos com o tradicionalíssimo Frutal Lima. Sempre na quadra 9, primeiro do outro lado da rua, no nº 9-65 e desde 1979, no nº 9-70. Tudo começou com sua mãe, conseguindo a duras penas um pequeno espaço para revender frutas. Depois veio a idéia de fazer os sucos, cujas receitas tradicionais, como a da Vitamina, com leite, maçã e banana é a mesma desde o começo. "O segredo é a dosagem certa", diz Sérgio, no comando da casa de segunda à sábado das 9h até a passagem do último coletivo diante de sua porta, por volta da meia noite. Antigamente ficava até mais tarde, mas com o passar dos anos e sózinho no negócio, desde a saída do irmão, diz não valer mais a pena ficar mais tempo e o maior motivo é a violência urbana. O slogan da casa continua o mesmo também desde o início: "Uma loja de frutas que se tornou de sucos". O orgulho de Sérgio é por ser a mais antiga casa aberta no ramo, estando à frente de dois outros, também famosos e de longa duração, o Skinão e o Lelo's Batidas. O gostoso de frequentar o Frutal Lima é ouvir as histórias que o Sérgio tem para contar e são tantas, que necessitam de muitos retornos. Além de contador de histórias é muito bom de conversa e sabe cativar seus clientes, além dos lanches e dos sucos, é claro. Semana passada revivi isso quando meu filho pernoitando em casa, saímos por volta das 23h para comer um lanche. Ele tem lá suas preferências, locais da moda e não conhecia o Frutal, muito menos sua história. Nem preciso dizer que saiu de lá maravilhado, primeiro com o lanche e depois com as histórias todas que o Sérgio nos proporcionou. Ele e seu Frutal continuam os mesmos.

sábado, 30 de novembro de 2019

CENA BAURUENSE (194)


DE DEZ EM DEZ, MOSTRO ALGO BAURUENSE, SEGUNDO MINHA VISÃO E PERCEPÇÃO
01. Na rua Presidente Kennedy, três quadras acima do Teatro Municipal, um oásis de resistência, o Clube Arapongas, 50 anos de existência, reduto de adoradores da bola pesada, a bocha, numa quadra sendo quase sufocado por um gigante querendo tomar conta de todos os espaços, uma famosa igreja evangélica neopentecostal: Resistir é preciso, seus fiéis frequentadores seguem o lema.
02. Uma delícia ser considerado "força viva" destas plagas e ter seu nome eternizado em várias placas espalhadas pela cidade, como Moussa Tobias, eminência parda de período político e aqui devidamente homenageado no aeroporto Bauru/Arealva, dentre tantos outros lugares, enquanto lideranças populares amargam o eterno ostracismo.
03. Do lado de fora de condomínio fechado nos Altos da Cidade, num pequeno espaço reservado para o lixo dos de dentro, eis que a arte floresce e se mostra viva, aqui representada pelo inconfundível traço do artista Fino, Marques Mateus Pinheiro.
04. Das lindas casinhas de rua na alameda Octávio Pinheiro Brisola, portão de entrada do Aeroclube, essa da Viviane Mendes se destaca pelo esmero, visual onde o verde e a criatividade tomam conta de todos os espaços.
05. Bem ali pertinho do Bauru Shopping, o bunker central da cobradora Paschoalotto, lugar onde dizem trabalham aproximadamente mil pessoas e na frente do prédio um jardim com placas indicativas de proibição para ali proceder alimentação ("Proibido se alimentar no local"), sem se importar com os que comem sentados na sarjeta das calçadas.
06. Na galeria (ou seria festival?) das portas fechadas, essa é mais uma de doer. Atrás desse ponto de ônibus na avenida Rodrigues Alves, funcionou por décadas o Frutal Lima, ponto de lanche no centro da cidade, hoje só saudades.
07. Após 33 anos de atividades etílicas botequeiras, o Makalé Bar, nos altos da rua Gerson França, oficializa e comunica ontem o melancólico fechamento de suas portas, outrora pujante, quando por lá se podia fazer shows de MPB com artistas locais.
08. Um portentoso e bem feito despacho defronte uma agência do Banco do Brasil, centro da cidade, em flash de Silvio Selva, ilustra um algo a mais das calçadas.
09. Os vermelhos da ONG Arca da Fé, dita como protetora de animais de rua se dirigindo em bando para o centro da cidade, no intuito arrecadar fundos, em procedimento antes feito somente nos sinais de trânsito, hoje espalhados por todo lugar.
10. Seu Adelino Silvestre, funileiro da velha guarda, na porta de sua oficina, após momentos depressivos, dando a volta por cima e sacudindo a roseira, tocando a vida adiante e reunindo não só clientes, mas dileta legião de amigos na rua Rio Grande do Norte, vila Cardia, seu reduto diário não só de serviço, mas de contação e revival de histórias de antanho: iluminado lugar.

domingo, 5 de junho de 2022

REGISTROS LADO B (89)


NO 89º LADO B, NADA MENOS QUE NEIZINHO, O CRAQUE DE BOLA DO ARCA, TESOUREIRO DO BRADESCO, ALGUÉM QUE VIVENCIOU AS RUAS DE BAURU COMO NINGUÉM E CONSEGUIU DAR A VOLTA POR CIMA – INTENSA HISTÓRIA DE VIDA
Eu me derreto todo para tentar descrever algo sobre o NEIZINHO, mais precisamente O SIDNEI CRUZ TARANTELLA, 73 anos, 1 metro e 50cm de altura, uma das pessoas marcantes em minha adolescência, quando ia todo domingo no campo do ARCA – onde é hoje o Assaí, ali na rua Marcondes Salgado. Ele era o ponta direita do time do meu bairro no amador de Bauru e barbarizava com os adversários, me tendo como admirador do outro lado do muro que separava o campo. Tempos depois o reencontrei quando trabalhei no Bradesco, tempos da agência entrando pela rua Batista e saindo pela Treze de Maio, onde é hoje a Riachuelo. Eu começando por ali e ele já experiente tesoureiro, ou seja, nada menos que o dono das chaves do cofre da agência. Um conversador por natureza, dono de uma rara memória, desde aquela época, contando tudo nos seus mínimos detalhes. Esse mesmo Neizinho, ao sair do banco montou um bar ali perto de onde morava, na então vila Antárctica, mas sua vida degringolou. Começa seu martírio, tudo por causa do alcoolismo. Mesmo ajudado desde sempre pela família, percorreu todos os caminhos possíveis e também os inimagináveis dos que perderam tudo e vivenciaram de tudo nas ruas bauruenses. Esse trecho de sua história é também o de muita resistência, pois viu e fez quase de tudo, mas sempre altivo, tanto que hoje, ao dar a volta por cima, conta tudo, pois sabe que pode servir de exemplo para outros tantos.

Esse é o NEIZINHO, o entrevistado desta semana neste meu projeto, o LADO B – A IMPORTÂNCIA DOS DESIMPORTANTES - hoje seu no 89º bate papo -, alguém pelo qual converso desde que o conheci, nos tornamos diletos amigos e seis de suas agruras e alegrias. Já escrevi muito dele por aqui no blog do Mafuá do HPA, pois sempre que o encontrava, despontava com algo novo, querendo me contar e por pra fora. A primeira vez que dele escrevi foi para traçar um perfil, que na época circulou entre seus amigos. Foi um retrato dele, publicado em 03/05/2009: https://mafuadohpa.blogspot.com/search.... Ali um sincero resumo de sua história de vida até aquela data. O que veio depois foi o pior momento, pois morou em tudo quanto é hotel do centro, quarto de pensão e cantos onde pudesse se abrigar e não pernoitar pelas ruas. O fez também, pois acaba de me dizer, ter posado muitas vezes debaixo da marquise do antigo cartório do Washington, quando este estava ali na Marcondes, defronte o Bombeiros. Ou seja, ele viu, presenciou de tudo, sabe tudo o que ocorre nas ruas desta cidade, conhece todos e quando fala é com cátedra, sapiência de quem já esteve lá. Num outro texto meu, “Neizinho e o roteiro para não passar fome nas ruas de Bauru”, 25/03/2015, ele me descreve um roteiro de como os moradores em situação de rua faziam para não passar fome, ou seja, onde era servido comida. Abaixo a reprodução de parte do mesmo:

“Ontem reencontro na rua meu dileto amigo NEIZINHO, craque de futebol dos tempos do ARCA. Selamos o reencontro com um sonoro abraço. Ele penou muito com extremas dificuldades tempos atrás. A bebedeira o fez se afastar da normalidade, morou de favor em hotéis de baixíssimo custo e pensões suspeitas e não suspeitas, mas sobreviveu e conseguiu dar a volta por cima. Alguns diletos amigos que não gostam de ser identificados conseguiram que o mesmo conseguisse sua aposentadoria (um salário mínimo) e hoje vive garbosamente morando numa pensão na rua Sete de Setembro, quarto só seu e banheiro coletivo (três para uso de todos lá instalados). Almoça bem e me diz dos lugares onde se come bem e barato pelo centro da cidade. Conhece todos os cantos desse centro velho e carcomido. Conhece cada cantinho, além de tudo e todos. Tem comida desde a R$ 1 real (a do restaurante do Governo estadual) a outros por R$ 5 a R$ 8. Vai administrando seu dinheirinho e com alguns bicos (me diz ter tomado conta de um posto fechado a R$ 50 dia no último final de semana) consegue sobrar algum no final do mês. Anotei num papel toda a relação dos lugares onde ele costuma jantar durante as noites bauruenses. Repasso para uso coletivo: Segunda: em frente ao Pronto Socorro Central, 18h30 – entregam marmitex primeiro para os que aguardam no PS, depois por ordem de chegada para os que fazem fila na parte externa. Às 20h Sopão do Régis, quem traz a embalagem, leva para comer em casa. Terça: Macarronada, 20h pouco abaixo da entrada principal do Pronto Socorro, em frente ao Bar do Ronaldo. Às 19h, uma igreja na Cussy distribui comida num barracão na Bandeirantes entre o hotel Popular e o Itália, mas antes tem uma hora de palestra religiosa. Quarta: 20h, a macarronada pouco abaixo do Pronto Socorro. Quinta: 20h, a macarronada pouco abaixo do Pronto Socorro. Sexta – Também ali perto do Pronto Socorro, passa um senhor de perua e distribui lanche de mortadela, ao lado da Brink’s/Protege. Sábado e Domingo: Não ocorre nenhum tipo de distribuição de comida”.

Entre aos altos e baixos, num outro momento, ele trabalhou como porteiro em hotéis do centro, principalmente nas madrugadas, com histórias inenarráveis de todos eles. Num dia, o reencontro no Hotel Cariani, ali na praça Machado de Mello – o mesmo que dizem, ter um dia hospedado Che Guevara. Em “Neizinho, Hotel Cariani...”, eis o link de uma viagem no tempo, quando me permite adentrar o hotel e percorrer seus corredores: https://mafuadohpa.blogspot.com/search.... Meu último post com ele foi em 01/01/2021, quando o reencontro na porta do Banco do Brasil, na praça Rui Barbosa, primeiro dia daquele ano e ele voltando do restaurante Bom Parto, na quadra anterior, onde fez longa caminhada em busca de um prato de comida. Essa era sua sina. Nei só não morou literalmente nas ruas por causa de sua filha e de Darlene Tendolo, ex-secretária do Bem Estar Social de Bauru, que sempre estiveram ao seu lado, nunca o abandonaram. Deste dia, eis meu relato:

MEU SUPER-HERÓI BAURUENSE TEM POUCO MAIS DE METRO E MEIO DE ALTURA – (...) Estava dando uns bordejos pelo centro hoje pela manhã e o vejo mascarado descendo a Primeiro de Agosto. Eu e tantos outros o conhecemos pelo tamanho, atarracado e único, metro e meio, talvez pouco mais. Não resisto e paro para conversar, mantendo a necessária distância. Ele me conta estar por ali, para pegar comida no restaurante Bom Prato, comida a R$ 1 real, mas para sua decepção, hoje não estavam funcionando. Digo que quero entrevistá-lo, ele me dar um depoimento sobre sua vida para o Lado B agora em janeiro. Ele topa, mas me diz não ter celular. Para fazer contato ou vou lá na sua casa ou deixo recado num bar na Rodrigues Alves, perto de onde um dia foi o Frutal Lima. "Você sabe não bebo mais, mas assim mesmo, gosto das pessoas que encontro nos bares", me diz. Eu também. Marcamos para não sei quando, ou seja, o mais rápido possível. Me despeço e o vejo descendo a rua em busca de um lugar onde lhe sirvam um prato de comida, "hoje só pagando", depois voltará para seu canto, pois hoje nem os bares estão abertos, portanto, menos conversa fiada. Nei é mais que um personagem das ruas desta aldeia bauruense, creditando a ele um importância de elevada consideração e estima, para mim, muito mais considerável do que estes todos tomando posse hoje, desde alcaides a edis, pois carrega junto de si a história das ruas desse lugar onde moramos, diferente de tantos outros, eleitos pelo povo, mas sem nenhuma identificação com as coisas dessa cidade. Nei é merecedor de uma estátua passando por debaixo das pernas de beques e essa ser fixada ali na frente do Assaí”.

Ele mesmo vai nos contar sua história, não só os momentos tristes, mas também dos alegres, enfim, sua vida como ela de fato foi e é, intensa. Hoje, junho de 2022, ele está feliz da vida e residindo num lar, algo como um paraíso para idosos em situação de risco, com renda mínima, o “Vida Longa”. São 22 casas em condomínio fechado, mobiliadas e equipadas com eletrodomésticos. No condomínio também há área comunitária e espaços de lazer. Neizinho está mais do que feliz, pois vivencia outro momento em sua vida, tendo a real possibilidade de ter uma velhice tranquila e em paz. Brinquei com ele, que o vendo morando em lugares insalubres e mesmo já com seus 73 anos, não achava que chegaria aos 80, mas hoje, plena certeza de que passará dos 100. Suas histórias encantarão a manhã deste domingo. Venha junto?
OBS.: Tenho quase centenas de fotos do Nei, algumas publicadas aqui e as duas últimas, dele no seu novo local de moradia, foram me passadas por ele mesmo, fazendo questão de mostrar para tudo, todas e todos, onde se encontra. NEIZINHO é DEZ e mais um pouco.

1ª PARTE DO LADO B Nº 89, HOJE COM NEIZINHO E SUAS HISTÓRIAS DO FUTEBOL, BRADESCO, BARES, ALCOOLISMO, MORAR NA RUA E A VOLTA POR CIMA
Eis aqui os primeiros 30 minutos deste bate papo: https://www.facebook.com/henrique.perazzideaquino/videos/388193000036156


2ª PARTE DO 89º LADO B, HOJE COM NEIZINHO
Mais 50 minutos de reveladora conversa sobre os tempos quando passou fome, frio morando nas ruas de Bauru e a volta por cima: https://www.facebook.com/henrique.perazzideaquino/videos/729425014948942

sexta-feira, 1 de janeiro de 2021

ALFINETADA (199)


AS HISTÓRIAS DESTE 1º DE JANEIRO, TODAS MAIS IMPORTANTES QUE A POSSE DE ALCAIDES E EDIS

1.) EM CASA TODOS DORMEM, MENOS EU...
São 9h da manhã deste dia 1º de janeiro de 2021 e aqui em casa só eu acordado. A cidade está silenciosa, ainda descansando após a maioria das pessoas ter ido dormir mais tarde, após festejos (sic) da passagem do ano. Mesmo deitando pouco mais tarde que o habitual, levanto sempre cedo. Gosto de escrever nesse horário, quando tudo é mais silencioso - hoje mais ainda. Meu despertador interno me impede de continuar deitado, levanto e busco coisas para fazer. Vou pra varanda olhar a cidade e do que vejo da avenida Nações Unidas, vez ou outra, um carro desce e sobe. Ninguém nas ruas. Epa! Vejo algo e meu olhar se aguça. Um senhor segue com passadas firmes pela rua, desce com seu guarda-chuvas azul - sim, azul claro, pode até ser uma sombrinha - e uma sacola nas mãos, parece ter destino certo, pois não vai parando, segue altaneiro, decidido e firme. O sigo com os olhos até onde posso vislumbrar sua caminhada. O que o faz estar nas ruas este horário num dia onde todos, ou estão descansando ou nem acordaram e quando já o fizeram, estão ainda sem saber o que fazer num dia como hoje? Só saio da varanda muito tempo depois dele sumir de minha vista. Tentei fixar sua imagem num click fotográfico à distância e devo ter pego algo disforme, imagem distorcida, trêmula, pois ele era muito rápido e dos momentos em que o via, saindo de uma esquina para outra, encoberto pelos telhados de casas e prédios, fiquei a tentar focá-lo e num momento creio devo ter conseguido algo perto do meu intento. E por que o fotografar? Não sei. Sei que me interessei pelo seu destino e quando me volto para dentro de casa, esquento um leite para o café com panetone, a imagem dele, contrito, passos firmes e com aquela sacolinha na mão não me saem da cabeça. Dá vontade de ligar o carro e ir segui-lo pelas ruas, mas me contenho, pois hora dessas já deve estar enfronhado em ruas inimagináveis para mim. No silêncio da manhã deste ano novo, a cabeça fervilha sobre o que nos acontecerá daqui por diante, desde essa cidade, o país e o mundo, todos revolvidos com essa conjunção disforme a nos conduzir adiante, sem rumo e um tanto perdidos. Eu me sinto assim, mas o senhor do guarda-chuvas parecia ter um destino certo, pois seguia rápido e daí, a vontade da abordagem só para perguntar, até pra ver se me oriento: "Para onde vais?". Será que poderei ir junto? Enfim, talvez me apresente possibilidades novas para entendimento disso tudo, pelas quais ainda não passei e seria de ótimo aproveitamento para tudo o que virá pela frente. Deixei escapar a oportunidade a agora, cá estou, enfronhado em pensamentos de que não deveria ter perdido a oportunidade, pois volto para a varanda e não vejo mais ninguém como ele nas ruas essa hora deste dia. Onde estará uma hora dessas? Já terá chegado ao seu destino?

2.) ELES LOTAM A FRENTE DOS HOTÉIS NO CENTRO BAURUENSE
Hoje não é um dia para ali estarem, mas continuam povoando a frente de todos os hotéis da região central e também periférica de Bauru. Nem hoje, dia 1º de janeiro, feriado onde quase tudo está fechado, estes de folga, sem saber o que fazer e de tanto permanecerem mofando dentro do quarto destes hotéis, saem para a calçada e se espalham ali sentados, a maioria com o olhar perdido num horizonte bem distante ou manuseando o que todos mais fazem por estes dias, seus celulares. Quem são estes? São trabalhadores desgarrados de suas casas e atuando numa grande empresa com sede em Lençóis Paulista, chinesa de procedência e cujo nome não me interessa, mas nas alterações de vida no entorno de sua edificação e consolidação. Arrebataram trabalhadores país afora e a pequena Lençóis não conseguiu abrigar tanta gente, daí lotam hotéis, hospedagens e casas de aluguel no seu entorno. Em Bauru são notados desde um ano na porta dos hotéis do centro, todos locados só para abrigá-los e neste momento, Natal e Ano Novo, não tendo como voltar para suas casas e com a firma chinesa tendo que respeitar esses dias de folga trabalhista, eles se veem ociosos e pelo que se vê, ninguém aguenta permanecer muito tempo trancafiado dentro do quarto de um hotel, daí, sem nada para fazer, sentam na calçada, no meio fio, em improvisados bancos e fazem contato com os seus pelo aparelhinho luminoso. Andam de um lado para outro, circulam em grupos e movimentam o hoje vazio centro da cidade. Na foto que tirei, pouco afastado do centro, defronte o hotel Obeid, lá estão num grupo de mais de dez, esperando o dia para voltar ao trabalho e enquanto isso não acontece, fazem nada, olham pro infinito e sentem saudade, pois estão ali, num grande amontoado humano, mas sozinhos, um tanto abandonados, sem conseguirem se integrar à cidade. Sentam e esperam, pois nada mais resta a ser feito por quem conseguiu um emprego, distante léguas de suas casas e num dia como hoje, o único lugar onde não queriam estar era ali na calçada, mas é onde se encontram e sem poder fugir da triste realidade, passam o tempo fazendo nada. De todos, nenhum com um livro na mão, todos com celular e assim, como todos os demais, esperam algo acontecer. Sim, vai acontecer, amanhã bem cedo uma condução os recolherão antes do raiar do dia, passarão horas no batente e ao final do dia, novamente ali despejados. Essa a rotina, até a fábrica chinesa ser levantada e colocada pra funcionar, depois perderão o emprego e voltarão a ser estatística do desemprego no país. Seria uma boa pauta ir ali conversar com eles, ouvir suas histórias, relatos de vida, expectativas, apreensões, mas passo direito, fotografo e volto para meu isolamento, somente imaginando o que vai pela cabeça deles.

3.) TUDO FECHADO NO CENTRO DA CIDADE. EPA! ENCONTRO ÚNICO LUGAR ABERTO
Desço cedo, saio para alimentar meu cão, guardião do Mafuá e tarefa cumprida, resolvo dar uma circulada de carro pelo centro velho de Bauru. Tudo fechado, somente andantes sem rumo pelas ruas, gente sem eira nem beira, portas todas cerradas e nem os bares estão abertos. Nada. Epa! Minto. Algo resiste, persiste e insiste em abrir suas portas nessa manhã do dia 1º de janeiro, feriado mundial. Trata-se da banca de jornais e revistas do seu Orlando, mais precisamente Orlando Pavan, mais de quarenta e tantos anos com ponto comercial ali na rua Primeiro de Agosto, ao lado da Casa Bahia, entre a Rio Branco e a Agenor Meira. O movimento hoje é pequeno, diante de tudo o que já se viu por ali, mas ele resiste. Desço para comprar um jornal - opto pela Folha de SP, edição de hoje toda concentrada num só caderno e quase sem anunciantes - e assuntar das últimas. Pergunto se ainda tem ideia de vender e se aposentar de vez. Ele me diz que sim, precisa ficar mais tempo no seu pequeno sítio, curtir o local enquanto tem forças, mas ninguém se interessou por tocar a banca, a mais movimentada da cidade e daí, ele continua acordando cedo, todos os dias da semana e mesmo aos 80 anos de idade, ali se apresenta, bate cartão e se mantém à espera dos clientes. Ao seu lado, como um totem, um senhor japonês, comerciante antigo da região, amigos de longa data, se mantém ali diariamente, um fazendo companhia ao outro, quase sem trocar palavras. Circulo pela banca vazia e noto que muitas publicações não são novas, datas antigas, localizo uma Trip, que saiu de circulação há meses, mas ali continua, foi esquecida sua devolução e me diz dos motivos de mantê-la. "Sempre aparece alguém querendo levar de recordação e hoje falta espaço para revistas novas. Antes faltava espaço, hoje sobra". Hoje ele fica aberto somente a hora do almoço, mas antes, mesmo em dias assim permanecia aberto o dia todo e sempre com grande movimentação. Seu Orlando acho que nem aparece na foto que fiz, pois está sentadinho atrás do balcão, encolhido com o passar dos anos, radinho de pilha ligado num estação de notícias, pois assim prefere ante as musicais. Ninguém dos seus quer continuar no ramo e assim continua abrindo as portas meio desolado, pois no passado tinham muitos querendo comprar seu negócio e hoje, quando quer vender, eles não mais existem, daí, ali ele continua, até quando encontrar forças e jogar a toalha. Ele, Orlando Pavan é um dos últimos moicanos, talvez o último somente ainda atuando com jornais e revistas, pois todos os demais optaram para sobreviver em ampliar seus pequenos negócios. Ele não e assim segue, como neste dia, única porta aberta no centro velho de Bauru.

4.) MEU SUPER-HERÓI BAURUENSE TEM POUCO MAIS DE METRO E MEIO DE ALTURA
Neizinho endiabrou minha juventude, pois morando ali nas barrancas do rio Bauru, ia todo domingo assistir jogos no hoje não mais existente campo do Arca - Associação Recreativa e Cultural Antarctica, onde hoje é o Assaí Atacadão, Nações com Marcondes Salgado. Ponta direito com acordo selado com o capeta, fazia e acontecia com os grandões, becões e zagueiros adversários, os entortava, fazia de tontos e era minha diversão. Queria conhecer aquele baixinho danado e só o vim a fazê-lo tempos depois, quando trabalhamos no Bradesco, depois teve um bar, bebeu ele inteiro e mais pra frente, perdeu tudo e quase foi morar na rua. Ajudado pela filha, morou sozinho, depois em hotéis no centro, pensões e após conseguir sua aposentadoria, coisa pequena, mas lhe dando o sustento, hoje está lá pelos lados da rua Célio Daiben, perto dos trilhos da Sorocabana.

Estava dando uns bordejos pelo centro hoje pela manhã e o vejo mascarado descendo a Primeiro de Agosto. Eu e tantos outros o conhecemos pelo tamanho, atarracado e único, metro e meio, talvez pouco mais. Não resisto e paro para conversar, mantendo a necessária distância. Ele me conta estar por ali, para pegar comida no restaurante Bom Prato, comida a R$ 1 real, mas para sua decepção, hoje não estavam funcionando. Digo que quero entrevistá-lo, ele me dar um depoimento sobre sua vida para o Lado B agora em janeiro. Ele topa, mas me diz não ter celular. Para fazer contato ou vou lá na sua casa ou deixo recado num bar na Rodrigues Alves, perto de onde um dia foi o Frutal Lima. "Você sabe não bebo mais, mas assim mesmo, gosto das pessoas que encontro nos bares", me diz. Eu também. Marcamos para não sei quando, ou seja, o mais rápido possível. Me despeço e o vejo descendo a rua em busca de um lugar onde lhe sirvam um prato de comida, "hoje só pagando", depois voltará para seu canto, pois hoje nem os bares estão abertos, portanto, menos conversa fiada. Nei é mais que um personagem das ruas desta aldeia bauruense, creditando a ele um importância de elevada consideração e estima, para mim, muito mais considerável do que estes todos tomando posse hoje, desde alcaides a edis, pois carrega junto de si a história das ruas desse lugar onde moramos, diferente de tantos outros, eleitos pelo povo, mas sem nenhuma identificação com as coisas dessa cidade.

Nei é merecedor de uma estátua passando por debaixo das pernas de beques e essa ser fixada ali na frente do Assaí.

4.) AQUILO DEPÕE CONTRA A DUQUE DE CAXIAS*
* Contra a avenida bauruense, pois o tal duque é da mesma linhagem do dito capitão.
Bauru é mesmo uma cidade das mais importantes, bolsonarista até não mais poder e além de prefeita eleita por um dos partidos mais conservadores do país, o Patriota, maior reduto destes no estado mais rico da federação, tem também um refugo, que coisa de ano e meio atrás se bandeou de Ourinhos para cá, fixando residência e com escritório eleitoral na Duque quase esquina com a Agenor Meira, mais um com titulação militar antecedendo o nome, deputado federal capitão Augusto, que além de agora denegrir o nome da cidade, aumentando seu grau de fundamentalista, se mostra como candidato à sucessão na Câmara dos Deputados, no seu lado mais perverso e cruel. Daí, dias atrás, folião ligado ao bloco farsesco, burlesco e algumas vezes carnavalesco já o indicar para premiação, essa sim de grande valia, significado e importância: "Esse sim é merecedor do Prêmio Desatenção 2020". Em estudos, pois a concorrência é grande, mesmo este sendo um de grande peso no quesito principal, justamente a desatenção.

5.) MINHA LEITURA NA PASSAGEM DE ANO
Conheça a Edição Especial de CartaCapital, já nas bancas - a revista volta a circular (toc toc toc) somente na segunda semana de 2021:
"2020, o Ano em Que Perdemos o Contato"

Inspirada em filmes de ficção científica, com uma estética futurista, a edição especial de fim de ano de CartaCapital, intitulada “2020, o Ano em Que Perdemos o Contato”, vai retratar os efeitos sociais, psicológicos, econômicos e geopolíticos da maior pandemia a ameaçar o planeta em um século. A Covid-19 mudou hábitos, afetou a economia e gerou angústia em todos os recantos, de Norte a Sul, de Leste a Oeste. Os convidados da edição vão refletir sobre o “novo” ou o “velho” normal. Entre os destaques, uma entrevista do historiador Jones Manoel com o cantor e compositor Caetano Veloso sobre o Brasil, o mundo, a música e o amanhã. Fernanda Sobral, vice-presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, analisará a vitória do pensamento iluminista sobre as trevas. As historiadoras Heloisa Starling e Lilia Moritz Schwarcz, coautoras dos best sellers Brasil, uma Biografia e Bailarina da Morte, sobre a gripe espanhola no Brasil, apresentam uma digressão distópica a respeito do ano da Covid-19. O psicanalista Tales Ab’Sáber elencará as velhas e as novas patologias que afloraram em 2020. O ex-chanceler Celso Amorim vai conjecturar a respeito das eleições ao redor do mundo, em especial nos Estados Unidos, e como elas mudaram o jogo diplomático internacional. O economista Luiz Gonzaga Belluzzo debate as perspectivas do Brasil a partir de 2021. Também escrevem ou concedem entrevista à edição Mino Carta, José Sócrates, ex-primeiro-ministro de Portugal, Guilherme Boulos, Manuela d’Ávila, a cientistas social Esther Solano, o escritor Ailton Krenak e a jogadora de vôlei Carol Solberg.

Mergulho nela a partir de agora e só volto aos livros, quando a tiver esgotado em todas suas possibilidades.

Por hoje CHEGA, está mais do que bom para tentar começar o ano com algo inebriante, contagiante e delirante...