segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

UM LUGAR POR AÍ (06)
DOIS ACONTECIMENTOS DOMINICAIS, DUAS PESSOAS EM DESTAQUE, TETÊ E MURICY
01. O primeiro foi aqui em Bauru e grandioso, merece o devido destaque. Durante todo o ano lá pelas bandas do Jardim Botânico de Bauru (junto ao Jardim Zoológico) ocorreu o projeto dominical "Um canto no Botânico", sempre por voltas das 10h30 e pelo menos uma vez ao mês. Muitos artistas aqui de Bauru por lá já passaram e num dos lugares mais bonitos da cidade, com o palco montando junto a um banbuzal (entre sacis, pássaros e muito verde), tivemos shows antológicos. O diretor do parque, Luiz Carlos de Almeida Netto, incentivador da divulgação das novidades ocorridas por lá, correu o ano todo em busca de patrocinadores e juntamente com a abnegada Audren Valério, assessora de imprensa da Prefeitura e uma das mais lindas vozes da cidade, encerraram o projeto nesse ano com algo marcante. Depois de por lá terem se apresentado Denise Amaral, Clube do Jazz, Regina e Marquinhos, Levi Ramiro, Issac e Denise, Grupos de Corais, Gato na Tuba, entre outros, ontem, quem por lá esteve foi nada menos que TETÊ ESPÍNDOLA, uma cantora que tem tudo a ver com o local, pois canta o verde, a natureza, coisas do interior, Pantanal e bichos desde que me conheço por gente.

Convidei amigos, muitos abandonaram a idéia, pois dorminhocos, preferiram ficar com seus devidos colchões na bela manhã dominical. Perderam o melhor da festa. A casa lotou, muita gente ficou em pé e tudo estava divinamente em arranjo. Na entrada, Luiz recebia a todos e oferecia fotos expostas num varal, tiradas nos eventos anteriores. "Vejam se encontram alguma com vocês e podem levar. É um presente", dizia. Achei uma, tirada no primeiro evento por lá, sentadinho num banco, com a mesma camiseta do SOS CERRADO, junto do cabelereiro e líder comunitário Reinaldo Reche (ela está lá embaixo, junto do LP). Todos os que foram não se arrependeram, dentre os muitos cito um, o secretário municipal de Obras, o arquiteto Areco (junto da esposa), que trabalhou muito nos últimos dias, quando a Prefeitura havia prometido devolver nossa principal artéria, a Nações, danificada pela tempestade em dez dias e ele, comandando um equipe de mais de cem pessoas o faz em apenas três. Elogios a quem dele merece, Areco recebe o meu pessoalmente.

Do show um primor. Chego junto dos meus uns vinte minutos antes e sou agraciado com a amiga Rose Barrenha, que madrugou por lá e guardou lugares para todos (diziam que os portões seriam fechados com 300 pessoas). Fila do gargarejo. Uma maravilha. Tetê a sua banda, comandada pelo filho, um ótimo cantor e violinista, cantam e encantam. As músicas de Arrigo Barnabé e Itamar Assumpção com referência a bichos e mata são um revival de algo vivido intensamente no passado. Sua voz continua a mesma e faz todos participarem do show. Pede para que ninguém assobie, pois ninguém imita pássaros, nós nos integramos com nossa voz, grunhidos, cada um à sua maneira. Encantador. As crianças fizeram um espetáculo á parte, pois lá num certo momento, ela diz para todos emitirem os sons de animais e uma delas, na sua simplicidade, no único momento de silêncio diz: "Vou fazer o de uma vaca, o único que conheço". Ela possibilita isso tudo. Querem um momento marcante, lá vai. Tetê chama ao palco Audren e cantam juntas um trecho do seu maior sucesso "Escrito nas Estrelas". Um dueto de responsa. Saimos todos de alma lavada. Quem foi, com toda certeza, tem muita história para contar. A minha é que compro seu último CD, o "e va por AR" e levo um velho LP, de 1986, o "Gaiola" para ela autografar. Nei, da Seplan ao me ver novamente com um LP diante de uma artista diz: "Henrique é o rei dos LPs, cada show ele traz um. Tem de tudo". Não tenho, mas é que comprei muitos e os guardo com o devido cuidado no meu desorganizado mafuá, com mais cuidado, certamente, do que cuido de minhas roupas e apetrechos pessoais.

02. O segundo fato do dia é sobre o futebol brasileiro. Ontem foi o encerramento da primeira divisão do Campeonato Brasileiro de Futebol 2010. Gosto do sistema de pontos corridos e por sorte, na última rodada, três times com chance de tornarem-se campeões. Sou corintiano, como sabem, mas não fiquei nem um pouco triste por ele não ter conseguido ganhar o título. Perdeu pelas suas fraquezas. Ontem não jogou nada e diante de um mistão do Goiás mostrou não ser merecedor dos píncaros da glória. O Fluminense, que não ganhava o título há 26 anos, também não jogou bem ontem (muito nervoso em campo), mas fez o suficiente para arrebanhar o caneco. E na qualidade de AMANTE DO FUTEBOL (cada vez mais, sem o repuganante fanatismo), bati palmas para uma pessoa, MURICY RAMALHO (ele representa a banda não podre do futebol atual), o treinador do Flu, que mostrou competência e seriedade. Já gostava dele, por sua ética profissional. Quem não se lembra dele, meses atrás, quando a CBF lhe convidou para ser o técnico da Seleção, disse mais ou menos isso: "Só vou se o meu time, o Flu autorizar, pois tenho contrato com eles". Quem mais teria coragem para fazer isso nos dias atuais? Preferiu ficar, mostrou a que veio e hoje é campeão brasileiro pela quarta vez. Por Muricy, por não compactuar com a besta rivalidade com os times cariocas e por gostar de futebol bem jogado e como corintiano, achei que o título está em ótimas mãos. Merecido. E chega de futebol nesse ano.

domingo, 5 de dezembro de 2010

MEUS TEXTOS NO BOM DIA (101 E 102) E UM INEBRIANTE SHOW

ÁGUA DE BEBER, SEDE DE VIVER TUDO - publicado no BOM DIA, edição de 04.12.2010
Dois fatos bem bauruenses merecem ampla discussão. Primeiro o DAE – Departamento de Água e Esgoto, o primor do passado, diferencial de qualidade e atendimento dentro da Prefeitura Municipal. Com uma equipe e equipamentos de ponta deixava claro ser um serviço de excelência. Digo “deixava”, porque é isso mesmo, o DAE deixou isso de lado e discutir isso é algo primordial. O atendimento já não é o mesmo, o inchaço toma conta de suas estruturas funcionais e algo pior paira no ar, gente de lá de dentro conspira a favor de uma futura privatização. Por que todos que tentam administrar a autarquia não conseguem alterar algumas estruturas lá montadas? Resistentes, persistem num caminho de visível desvio de rota, provocando algo mais do que claro, um DAE remando contra a maré. Quem seriam essas pessoas e o que representam? Perguntas que não se precisa ser nenhum Sherlock para responder. Existem evidências de procedimentos facilmente detectáveis. Voltar ao prumo com mudanças estruturais, para o bem de todos, inclusive da massa de trabalhadores que levantou o nome da autarquia por tantos anos é a solução. Atender um clamor das bases, verdadeiro pedido de SOS, só isso. Por outro lado, águas vieram com força descomunal e o resultado foi o previsível. Bauru não se preparou durante anos passados para situações como a vivida nessa semana. Que a Nações Unidas transforma-se num caudaloso rio é do conhecimento até das pedras do reino mineral, mas pouco foi e é feito para reverter a situação. Querem algo de concreto nesse sentido? Pois bem, nesse setor nem tudo ocorre de um dia para outro, tudo é um processo, lento e gradual. Credito ao ex-secretário municipal Nelson Fio uma das melhores soluções. Quando no governo Tuga fez de tudo para que Bauru tivesse uma fábrica de bloquetes. Equipamentos foram comprados e estão juntando teia de aranha num depósito qualquer da Prefeitura. Ruas com bloquetes e paralelepípedos filtram a água e essas não descem para nossas baixadas. Basta de ruas totalmente permeabilizadas. Não seria possível retomar isso? E aos poucos Bauru resolveria a questão. Retomar o trabalho interrompido lá atrás é um trabalho de formiguinha. E o equipamento já existe.

ADEUS GENUFLEXÓRIO - publicado no BOM DIA, edição de 26.11.2010
Algo a orgulhar muito o Brasil nos últimos tempos é a sua atuação diante do mundo atual. O presidente Lula conseguiu remover de vez o jeito de fazer política externa de forma subserviente, tipo cabeça baixa e só dizendo “amém”. É a aplicação na prática do que disse Chico Buarque: “Quero um país que não fale fino com Washington e nem grosso com a Bolívia e o Paraguai”. Quem não se lembra da famosa reunião de presidentes onde todos se levantaram quando Busch adentra o salão. Lula permanece sentado e recebe o cumprimento igual a todos os demais. E por que deveria ficar em pé se quando adentrou o salão não se levantaram. Isso que Lula faz não é bravata, provocação ou confronto. É tratar a todos de forma igual e exigir o mesmo de todos. Nunca fomos tão respeitados lá fora como no seu período. Com certeza o presidente não age sozinho. Essa postura tem nome e sobrenome, trata-se do tipo de ação do atual ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim. Com ele a importância do Brasil no mundo cresceu. Isso se deve ao que o Brasil representa hoje e a ousadia de pessoas como ele, que exercem sua função dentro de uma visão de política externa inovadora e corajosa. Criticados aqui dentro pelos de sempre, lá fora, quase unanimidade, com elogios rasgados e reconhecidos como “Gigante Diplomático”. Abolimos um atávico complexo de vira-latas que nos fazia pequenos, introspectivos e sem coragem. Amorim, nosso diplomata com maior tempo no cargo, mais do que o próprio Barão do Rio Branco faz parte do Brasil do futuro. Lula é alguém incomparável, conta-se três ou quatro líderes políticos como ele no século e Amorim, um que dignificou o cargo ocupado, pois o fez de forma altiva e ativa. Melhor impossível. Afinal ele é daqueles que não tira o sapato para adentrar território ianque. E nem teria porque fazê-lo. Já num passado não tão distante...

UM SHOW - "TAL PAI, TAL FILHO", OFICINA CULTURAL, DENISE AMARAL NO VOCAL
Esse foi na última quinta, 02/12/2010, na Oficina Cultural Glauco Pinto de Moraes, 20h30 (não começa mais tarde porque a vizinhança reclama depois), entrada gratuita e para ver e ouvir uma das melhores vozes de Bauru na atualidade, Denise Amaral (igual a vinho, passa o tempo e fica cada vez melhor), acompanhada de Norba Motta nas cordas e Neto (esposo da cantora) no teclado. Uma grande parcela da classe artística bauruense estava por lá e a voz de Denise preencheu todos os espaços possíveis e imagináveis. Eu me derreto todo ao ouvir uma das músicas que embala minha vida desde os anos 80, "Recado", do Gonzaguinha e se afirmar que fui lá só para escutar essa é algo que não devo fazer, pois o conjunto da obra foi maravilhoso. O show era isso, a junção no palco de músicas dos dois Gonzagas, o pai Gonzagão e o filho Gonzaguinha. Foi uma noite e tanto, daquelas que se o sujeito perde, ouve comentários pro resto da vida e depois fica arrependido, mas daí já é tarde. Eu fico sabendo e não perco, vou e depois espalho o que vi. A imagem mais gratificante da noite foi ver o Paulinho, administrador da oficina em estado de êxtase, cantando e dançando sózinho no gramado, inebriado pelos ocordes, pela voz emanada do palco e animação dos presentes. Assim como ele, todos nós, inveterados amantes da boa música estávamos em estado de graça. Não cito nomes, pois com certeza vou me esquecer de alguns, mas volto a repetir: esse foi um dos shows onde presenciei a maior concentração de gente ligado à música de Bauru. Que isso seja um sinal de que muita coisa interessante possa acontecer naquele espaço no ano de 2011. Os bate-papos gerados após o encerramento do show foram ainda mais inebriantes, pois todos puderam se encontrar e numa confratenização, um congraçamento de dar gosto, andaram alinhavando passos para a continuidade daquilo tudo. Quando vejo isso tudo rolando fico num contentamento de dar gosto. Com aquele pessoal que vi por lá, Bauru estará sempre muito bem representado no cenário cultural. Denise possibilita isso tudo, esses reencontros. Ela é demais mesmo, não? ONDE TEM DENISE EU VOU (e levo minha turma).

sábado, 4 de dezembro de 2010

RETRATOS DE BAURU (92)

BAIANO, O DO BAR QUE VIROU MUSEU
Humberto Pérsio de Oliveira é seu nome de batismo, mas conhecido mesmo esse dono de bar e restaurante é pelo apelido, Baiano. Com um estabelecimento comercial perto de completar vinte anos, Baiano ficou famoso no Restaurante Barracão, um local onde além de servir refeições, acabou por ir recepcionando peças antigas das mais variadas, constituindo uma espécie de museu de curiosidades. O negócio cresceu, frutificou e hoje, muitos passam por lá só para deixar peças antigas, algumas históricas, que o Baiano sempre arranja um lugar de destaque para mantê-las em evidência. "Tudo tem o seu valor" é seu lema, junto de outro, que faz questão de repetir para todos que por lá passam, "isso aqui é um carro novo com os faróis virados para trás". Para ele tudo tem o seu glamour e merece ser exposto. Baiano é um sujeito sorridente, alegre com a vida e com as pessoas à sua volta. Trabalha e muito, numa espécie de faz tudo no lugar, sempre ao lado da fiel escudeira, a esposa. Bate nas onze, verdadeiro coringa, pois atende balcão, limpa o estabelecimento, serve mesas, faz entregas, divulga a casa e muito mais, desses que não param um minuto sequer. No balcão do bar, famosas são suas cachaças, uma com nome mais estranho que o outro, tendo até as que dizem levantam defuntos. Num canto, um aquário onde conversa com os peixes. Basta ouvirem sua voz para se ourissarem e ele completa: "Quem não gosta de carinho?". E põe a mão na água para acariciar seus mascotes. No corre-corre o próprio cliente vai até a geladeira e se serve de uma gelada, pois Baiano não dá conta de tudo. Enfim, de um barracão encravado no bairro Geisel, esse bom baiano toca sua vida, cada vez mais popular e comunicativo, pois no meio do caminho para uma universidade de Bauru, virou ponto de encontro e isso só lhe traz felicidade. É lá, entre bandeiras do MST, fotos de Fidel, órgão centenário, pés-de-ferro, chaleiras, enbornais, posters, velhos LPs, vitrolas e até comida, Baiano atende aos interessados em visitarem seu museu (ou seria bar?), que ele pretende faça parte de um roteiro cultural da cidade. Merecedor já é faz um tempão.
OBS.: Fíz um memória Oral, o de nº 45, em 27/07/2008 com ele, o "Um bar ao estilo Parangolé".
Observação final: Almocei no Barracão nessa quinta, 02/12, junto de Ana Bia e Rose Barrenha e presenciei algo gostoso de relatar. Baiano e a esposa estavam num corre-corre danado de bom. Aprontavam mais de cem marmitex no almoço e outro tanto no jantar, para o pessoal da Prefeitura que estavam envolvidos com a recuperação da destruida Nações Unidas, no trabalho ininterrupto desevolvido por lá (devolveram ela à circulação em três dias, quando o prometido eram dez). Toda a alimentação dos funcionários da Secretaria de Obras foi fornecida por ele, através de contrato feito por Pregão Eletrônico. Ver a dedicação com que Baiano montou cada marmitex é algo valoroso, como Bauru soube reconhecer o esforço dos funcionários de Obras. Essas coisas precisam ser lembradas e enaltecidas.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

MEMÓRIA ORAL (96)

DUAS TRADICIONAIS LOJAS, DOIS COMERCIANTES E UM SÓ ALUGUEL
Um passeio pelo centro comercial da cidade, o do entorno do Calçadão da Rua Batista de Carvalho, nota-se claramente a diferenciação entre os comerciantes. Uns mais abastados, com arrojo na apresentação e exposição dos produtos, outros nem tanto. Primos ricos e primos pobres, como exposto na antiga dupla humorística da TV. Uma situação chama a atenção num dos pontos mais movimentados desse centro comercial, no cruzamento da Rua Rio Branco com a Avenida Rodrigues Alves. Duas tradicionais casas comerciais, o Foto Guedes e a Papelaria Sapiência, que durante décadas ocuparam imóveis lado a lado, hoje uniram forças e estão atendendo num mesmo local.

Dois meses atrás, Fernando Antonio Reis, 60 anos, proprietário da Livraria e Papelaria Sapiência, ali instalada há décadas, vendo-se às voltas com um aumento desproporcional no preço do aluguel, localizado entre o Liceu Noroeste, uma pastelaria e tendo na esquina o famoso Foto Guedes, propõe ao vizinho comerciante, unirem as forças num só local. A papelaria, antes com grande movimentação, numa época de pioneiros, não estava mais resistindo. “Estou aqui antes da Jalovi, quando meu pai comprou do antigo dono a loja, aqui no centro tinha só a Tilibra, a Tipografia Comercial e a Cruzeiro no nosso ramo de negócios. Permanecemos de 1969 até 1999 na esquina de cima, do outro lado da rua e de lá para cá no endereço que fechei dois meses atrás. Meu pai se aposentou em 1980 e daí em diante assumi a loja. Sou antigo aqui, do tempo em que havia umas lacerdinhas plantadas no centro da avenida”, conta Fernando.

O motivo foi um só, o proprietário do imóvel pediu um aluguel acima do que podia pagar e ao procurar o amigo e vizinho, Antonio Sergio Esteves de Souza, 64 anos, no comando do Foto Guedes, esse havia acabado de desabrigar uma parceria na loja com a Fone Livre e o acerto foi quase imediato. “Eu e o Fernando sempre fomos amigos, cristãos católicos e aqui só não conversamos sobre futebol, ele corintiano e eu são paulino, além de política, do resto nos acertamos. O Foto Guedes é do meu sogro, seu Yvan Pereira Guedes, que por motivos de saúde parou de vir na loja esse ano. Em 1969 eram dois fotos aqui, o Guedes e o Reis, um de cada lado da rua. Em 1978 eu vim trabalhar com ele e não parei mais. Está difícil sobreviver aqui no centro e a chegada do Fernando foi providencial”, conta Sérgio.

Cada um no seu devido balcão, mas um sempre ajudando o outro, esse o espírito da coisa. E tudo tem funcionado muito bem, pois como Fernando faz questão de dizer, os tempos são outros. “Comércio é para quem tem dinheiro, muito dinheiro. Quem não tem não se arrisque, pois vai ficar como cachorro mordendo o próprio rabo. Quem me disse isso foi o seu Adel, lá do Beco do Armarinho e expressa bem o momento do centro hoje. Os pequenos sofrem”, diz um não resignado Fernando. Sérgio observa e dá sua versão: “Veja o meu caso, o pessoal quase não faz mais foto, a maioria coloca tudo em CDs e não revela. Até cinco anos atrás era bom, mas hoje caiu muito e eu não faço reportagem, quando pego um serviço desses, repasso, terceirizo”, completa Sérgio.

Vendo os dois ali, pergunto sobre a família e a continuidade do negócio. Ambos confirmam que tudo se encerrará com eles, pois cada um tem um casal de filhos, mas todos já seguiram por outros rumos profissionais. E assim sendo, cada um seguirá até quando conseguirem resistir, pois nenhum pensa em parar tão cedo. “Eu já podia me aposentar, tenho até tempo, mas vou fazer o que em casa. Prefiro ficar aqui”, diz Fernando. Sérgio confirma e diz que nem tudo está totalmente perdido: “Revelo muita foto para documentos, de todos os tamanhos, menos as de passaporte, pois a própria Polícia Federal está fazendo isso agora. Vendo ainda muito filme analógico e nas revelações me aparecem mais de analógicos do que de digital. Outra saída são as pilhas para aparelhos auditivos, que tem boa saída”. Fernando também diz onde está o forte do seu negócio: “A criatividade é a saída, pois ofereço o que o grande não possui. O importante é o contato, o atendimento. Meu forte é a miudeza, como canetas, calculadoras e impressos em geral”.

Vendo o letreiro da antiga Sapiência encostado na parede, Fernando me explica que ainda não conseguiu colocar na parede lateral, pois esse é muito grande. Ficou ali nos fundos da loja, aguardando o que será feito dele. Faz questão de me mostrar no alto de uma estante, uma réplica em miniatura de uma livraria, feita pela irmã, que ele mantém intacta. “A Sapiência já foi assim, vendi de tudo, desde livros variados, didáticos, como artigos religiosos, mas perdi a paciência para ter que fazer o jogo necessário para que as escolas deixem suas listas aqui. Quero mais tranqüilidade”, conclui. Sérgio movimenta-se muito também na parte interna da loja, pois seu estúdio está lá dentro e a presença do Fernando ali é uma segurança a mais, pois antes dificilmente podia ir e voltar sem ter a preocupação de nada haver sumido.

O fato é que estão se entendendo muito bem com a solução de unirem forças para continuarem com as portas abertas. Ambos dizem que os vizinhos, amigos e fregueses gostaram da novidade. “O apoio foi geral. Muitos dos que nos apóiam passam por situação semelhante, entendem o que se passa e até nos elogiaram”, conclui Sérgio. E assim prossegue a vida de ambos, dividindo o espaço de forma parcimoniosa e mantendo as portas abertas, o que é mais importante. Observando o que acontece no mundo das grandes corporações, que andam se unindo para não perder espaço, o mesmo ocorre com as empresas de menor porte, como a deles. A diferença é que em alguns casos a intenção é crescer, na deles é pura questão de sobrevivência.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

UM COMENTÁRIO QUALQUER (76)
UMA TEMPESTADE, UM AMIGO, DOIS BOTEQUINS, DOIS VIOLEIROS E UM LIVRO – MEU DESRUMO
A cidade se desmanchou na noite da última terça, 30/11. Uma tempestade em escala tsunamica e nossa principal avenida fez novamente “ploft”, se desmilinguiu. Uma sempre previsível tragédia, mais do que anunciada, assume escala preocupante com a morte de uma pessoa. Fatalidade que poderia ser evitada. Do jeito que a chuva veio, o “ploft”, ela se foi, espécie de vapt-vupt. Tudo muito rápido, tsunamico mesmo. Alguém que estivesse entre quatro paredes por uma hora nada presenciaria e ao sair às ruas novamente, por volta das 20h, encontraria céu de brigadeiro ao olhar para o alto. Coisas que o mais estudado dos homens ainda não explica totalmente. Existem meios de evitar algumas coisas e ao não seguir algumas regras básicas, o resultado é um só. Sempre o mesmo. Esse imblóglio todo está me fazendo ir à procura de dois amigos para questionar duas coisas consolidadas aqui na cidade. Primeiro o tipo de calçamento, onde predomina o asfalto. Sou pela implantação de pisos permeáveis, como bloquetes. Tento falar com Nelson Fio, um defensor disso na cidade. Por outro lado, a questão do DAE, nosso Departamento de Água e Esgoto, ontem tão saudável e hoje tão discutível. Tento falar com Yamashita, que vivenciou isso do lado de dentro da autarquia. Mostrar um outro lado da questão é fazer algo para buscar soluções. Tentarei isso com esses dois assuntos.

Enquanto não faço isso, divago um pouco. Na noite de terça, depois da chuva, aceito convite do amigo Sivaldo Camargo e vamos comemorar seu primeiro mês como Professor de Dança na Cultura Municipal. Passamos primeiro no Bagaça Bar e nos despedimos de Jussara Lanzellotti, que encerrava naquele dia suas duas exposições na cidade (estava junto do ilustrador Leandro Gonçalez). De lá, eu e Sivaldo esticamos a noite para o Templo Bar. Estávamos ávidos por escutar novamente a viola caipira de Levi Ramiro (nessa noite acompanhado de Norba Motta). Casa lotada, sentamos na mesa reservada aos músicos e lá no gargarejo tomávamos nossa gelada Brahma, enquanto do outro lado do salão rolava uma fila de autógrafos do livro “Desrumo”, do jornalista Márcio ABC. Quando a fila se desmilingue lá vamos nós, juntando nossos parcos recursos para adquirir o livro em parceria (com dupla dedicatória), tudo para continuarmos cevando a noite. Revemos no salão, dentre tantos conhecidos, um rosto não visto há certo tempo, o da jornalista Tânia Guerra (ela é hoje Assessora de Imprensa da Prefeitura de Santa cruz do Rio Pardo e mora em Piraju, ao lado do rio Pardo), que esteve na equipe de trabalho do ex-prefeito Tuga Angerami junto dessa dupla de adoradores de botequins. Cantar ela não cantou, mas colocamos algumas conversas em dia.

De lá, eu e Siva ainda tentamos discutir a situação do “desrumo” do homem do campo e das cidades (a nossa ali meio detonada diante de nossos olhos), mas isso é um assunto longo, que certamente ainda tentarei fazer por aqui, sem a presença da parceira “cevada”. Assobiando um clássico sertanejo, relembrado por Levi na noite do Templo, compro pães da única padaria aberta na madrugada bauruense (não sabem qual e onde fica?) e tento colocar a cabeça num travesseiro.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

UMA FRASE (60)

QUANTO GASTOU SEU CANDIDATO E UM RADAR DEDO DURO NAS ESTRADAS PAULISTAS
1. Ouço no InformaSom, da 94 FM, logo pela manhã sobre a disponibilização que o TSE - Tribunal Superior Eleitoral faz em seu site (http://www.tse.gov.br/) dos gastos que cada candidato teve na última campanha eleitoral. Essa é a transparência política na sua plenitude, ou seja, tudo está bem ali diante dos olhos. Fiscalizar o seu candidato ou hoje, já eleito para algum cargo é algo mais do que natural. Poucos o fazem, mas dar uma espiadinha nos daqui da terrinha e ver de onde veio o dinheiro arrecadado é uma boa forma de saber de que lado ele está.

Fiz isso. Nosso campeão de gastos é o Pedro Tobias, eleito deputado estadual do PSDB. Gastou exatos R$ 774.651,23 e nem cito aqui quem foram os que contribuiram com sua campanha, pois sempre teve vínculos muito próximos com a elite nativa, construtoras, industriais e interesses dos poderosos. Vou criticar o que num cara que joga abertamente. Eu sei o que ele defende e assim sendo, quem lhe ajuda são os que dele usufruem do seu mandato. Se com ele passo batido, com o segundo campeão de gastos, a vice-prefeita bauruense Estela Almagro, que não foi eleita à deputada estadual pelo partido que defendo e que votei, o PT, seus gastos somaram R$ 647.548,57. Achei elevado demais, primeiro comparando com a votação obtida. Mas não é isso que me assusta. O que choca é, além de receber grana alta das dobradas políticas internas, dinheiro alto de construtora (OAS R$ 150 mil), setor educacional privado (Di Genio R$ 200 mil) e de variadas construtoras locais (Shayeb, etc).

Nesses momentos nem comento muito, prefiro me debruçar sobre duas famosas frases de um publicitário que fez escola dentro da esquerda brasileira, CARLITO MAIA, criador do "oPTei", "Lula lá" e tantas outras. Deve ter vivenciado variadas situações como as que vi nas comparações feitas por mim, pois a frase é certeira: "O PODER ENDIREITA A ESQUERDA". Noutra, na mesma linha, algo mais: "A ESQUERDA, QUANDO COMEÇA A CONTAR DINHEIRO, VIRA DIREITA". Esses dois foram nossos campeões. Roque Ferreira, candidato não eleito a federal foi espartano, gastou somente R$ 26.379,49 e é dos poucos ainda a contar com militância de verdade, não remunerada, daqueles que executam tarefas por acreditarem na proposta do candidato. Vi também os gastos de Rafael Agostini, meu candidato a deputado estaudual, também não eleito, de Jaú, que gastou R$ 168.389,91 e na sua prestação de contas algo a registrar. Foram muitos valores pequenos de pessoas físicas e jurídicas, perfazendo o valor total, ou seja, conseguiu pulverizar bem o recebimento de valores dentre os de sua cidade. Outro que fui conferior foi o Vicentinho, reeleito a deputado federal. Gosto demais de sua atuação política, mas recebeu valores de tudo quanto é lado, desde banqueiro, construtora, etc e tal. Como se posicionará contra esses interesses?

2. Teve início ontem algo que registro com certo pesar. O governo estadual paulista está dando uma de Big Brother para cima dos veículos sem documentação. Que muita gente circula sem a devida documentação do veículo regularizada é sabido e o estado faz pouca coisa para tentar resolver isso, entendendo a situação de cada pessoa. Faz o contrário, comprando equipamentos para detectar os que estão com licencimento em atraso, retirando os veículos de circulação e aumentando a arrecadação. Começou a funcionar o tal do Radar Inteligente, que para mim deveria receber outro nome, ALCAGUETE DE PLANTÃO. Essa denominação, por si só é forte e denomina os que delatam, apontam o dedo, espezinham e pouco fazem para resolver problemas. A medida é autoritária e injusta, principalmente com a parcela da população que possui menos recursos. Por enquanto, o tal radar está sendo implantado nas rodovias e a mais próxima de Bauru está localizada em Agudos, mas prevejo para breve um enxame dentro das cidades paulistas. Como não gosto nem um pouco de "dedo-duros", vejo mais essa iniciativa dos tucanos paulistas como algo a favor dos que possuem muitos e contra os que pouco possuem. E a corda apertará ainda mais o pescoço do contribuinte paulista. Ainda de Carlito uma frase sobre isso: "O BRASIL TEM DOIS CÓDIGOS - O CIVIL, PARA OS PODEROSOS E O PENAL, PARA OS MISERÁVEIS".

E para aqueles que me acham sempre procurando chifre em cabeça de cavalo, deixo a última, também do saudoso Carlito: "FUNDEI A SOCIEDADE INIMIGOS DO PROGRESSO (SIP): É ELEVADO DEMAIS O PREÇO A SER PAGO". E toco minha vida fugindo de candidatos gastões e de radares inteligentes.