Sabe o que respondi a ele? Nada. Disse que não tinha nada pra dizer. E se fez bem a ele ter me ligado, fico contente pela confiança.
- Recebi meu salário ontem. Não me registrou por mais um mês e agora neste último, durante o mês todo me enganou, pediu para exercer umas atividades a mais, espécie de supervisão junto aos demais, pegar no pé deles para aumentar a produção, fiscalizar e comandar. Fiz o que pude, pois algo a mais me entraria no final do mês. Não entrou. A gente pega um vale no meio do mês e o que veio de salário é o mesmo valor do vale, ou seja menos do que recebi mês passado. Fui falar e não me ouviram. Minhas mensagens não são respondidas e me pediram para calar a boca, pois se continuar perderei o emprego. Não fui reconhecido em nada que fiz durante o mês todo. Não tem como conversar com eles. Quando querem algo, chegam de mansinho pra gente, pedem e prometem. A gente faz e depois não cumprem, fica tudo por isso mesmo. Não tenho onde reclamar. Veja lá o que vai fazer com meu relato, pois o que ouço aqui é a mais pura verdade, se perder esse pouco, não terei onde ganhar nem isso por aqui. Durante o mês todo eles me fizeram aumentar a produção. Foi uma loucura, corremos todos e cumprimos as metas. Agora, vejo eles de carrões novos, construções novas e pro lado da gente, tudo igual. Eles mentem descaradamente pra gente, nos usam e nada podemos fazer. Essa a situação de todos os meus colegas de trabalho. Metade é registrado e a outra, eu incluído, vivemos de promessas. Eu queria muito ter outra vida, mas não posso. Vou ter quer comer esse mês na casa de parentes próximos que sabem o que vivo, mas tem outros em situação muito pior que a minha".
Junto os escritos todos e nem sei o que fazer. Minha vontade é expor o patrão doente, explorador cruel. Mas no momento faço nada, escrevo e faço de tudo para que não o identifiquem, pois sei teria coragem para fechar tudo e danar com a vida de todos por lá. Reabriria em qualquer outro lugar deste país.
A GENTE OUVE CADA UMA
Sentadinho na sala de espera de oficina mecânica, aguardando trocar óleo - do carro, não o meu -, o funcionário chega e se desculpa por interromper minha leitura. Pergunta o que leio. Digo ser a biografia do homem de teatro bauruense Paulo Neves. Ele não conhece e se dirigindo onde está meu carro, pergunta se estou por dentro do assunto vacina. Digo que sim e lhe mostro a capa da CartaCapital com o título "Vacinogate". Daí ele me sai com essa: "Que bom, então o senhor deve saber o que acabou de ser revelado lá da China. Essas coisas não ficam escondidas por muito tempo. Vi ontem, foi descoberto que os chineses fabricaram o vírus e espalharam em cem pessoas. Tudo veio daí".













































